DdAH: O Colégio de Winterhold
3 O Cerco de Morthal
A escuridão se adensou. Por entre as árvores que estavam atrás e abaixo deles via-se uma névoa, que também se formava nas margens pálidas do Rio Karth, embora o céu estivesse limpo. As estrelas apareceram. A lua crescente movia-se no oeste, e as sombras das rochas eram negras. Tinham atingido a parte inferior da região pantanosa e diminuído o passo, pois seguir a trilha era mais difícil. Naquela região, as montanhas se abraçavam ao Sul em duas longas cordilheiras cheias de picos. O lado oeste de cada cordilheira era íngreme e difícil, mas as encostas ao leste eram mais suaves, sulcadas por muitas valas e pequenos desfiladeiros. Por toda a noite, os três companheiros avançaram aos tropeços naquele terreno irregular e pantanoso, avançando para as montanhas, que pareciam ficar mais longínquas a cada passo. Vez ou outra metiam o pé numa poça.
Ali, na hora quieta e fria que antecede a aurora, descansaram por um breve período. A lua já tinha descido havia muito tempo diante deles, as estrelas reluziam no alto; a primeira luz do dia ainda não tinha atingido as colinas escuras que ficavam atrás. No momento, Vorstag estava perdido: a trilha dos dremora tinha descido para dentro do vale, mas desaparecera.
— Para que lado você acha que os dremora iriam? — perguntou Faendal. — Para o leste, pegando uma estrada mais direta até Winterhold ou Labyrinthian, se esse é o objetivo deles, como você supõe? Ou será que iriam rumo ao sul, para atingir Riverwood?
— Eles não irão na direção do rio, qualquer que seja o alvo que almejem. Se há uma emboscada daédrica por lá, já está preparada — disse Vorstag. — E a não ser que tenha acontecido muita coisa em Morthal e o poder de Ancano tenha aumentado bastante eles vão tomar o caminho mais curto que puderem encontrar através dos campos desse povo. Vamos continuar a busca rumo ao sul!
A região não era mais da areia dura dos pântanos ao redor de Ustengrav, mas agora de uma terra fofa e molhada, pois a água dos pântanos ainda passava ali por baixo. Faendal ia um pouco à frente. De repente, o elfo deu um grito e os outros correram até ele.
— Já alcançamos alguns daqueles que estamos caçando — disse ele. —Olhem! — Ele apontou e os outros viram que o que a princípio julgaram ser rochas ao pé da encosta eram corpos amontoados. Cinco drenoras mortos estavam ali. Tinham sido feridos com muitos golpes cruéis e dois tiveram a cabeça negra decepada. A terra estava molhada pelo seu sangue claro.
— Aqui está outro enigma! — disse Kharjo — Mas ele necessita da luz do dia, e por ela não podemos esperar.
— Apesar disso, qualquer que seja o modo de decifrá-lo, parece que traz alguma esperança — disse Faendal. — Provavelmente, os inimigos dos draugrs são nossos amigos. Existe algum povo morando nestas colinas?
— Não — disse Vorstag. — Os homens de Morthal raramente vêm aqui, e estamos longe de Solitude. Pode ser que algum grupo de homens estivesse caçando aqui por motivos que desconhecemos. Mas acho que não.
— E o que você acha? — perguntou Kharjo.
— Acho que o inimigo trouxe consigo seu próprio inimigo — respondeu Vorstag. — Estes são dremoras do leste, de muito longe. Há um dremora entre os mortos, mas não vejo nenhum daqueles dremoras grandes com insígnias estranhas. Houve uma discussão, eu suponho: não é uma coisa muito incomum no meio desse povo maligno. Talvez tenha havido alguma disputa pela estrada.
— Ou por prisioneiros — disse Kharjo. — Vamos esperar que Ralof e Meeko também não tenham encontrado aqui o seu fim.
Vorstag revistou o solo num raio amplo, mas não havia outros vestígios da luta. Continuaram. O céu ao leste já ficava esmaecido; as estrelas estavam sumindo, e uma luz cinzenta crescia lentamente. Um pouco mais adiante, encontraram uma dobra no solo. Nela cresciam alguns arbustos, e viam-se tufos de grama nos lados.
— Até que enfim! — disse Vorstag. — Aqui estão as pegadas que procuramos! Vamos seguir para o sul: este é o caminho pelo qual foram os dremoras depois de sua discussão.
Agora os perseguidores voltaram-se rapidamente e seguiram a nova trilha. Dispostos como se tivessem tido uma noite de sono, foram saltando de poça em poça. Finalmente atingiram o começo de alguns pinheiros, e uma brisa repentina soprou-lhes nos cabelos e agitou-lhes os mantos: o vento frio da aurora. Voltando-se para trás, viram do outro lado do Rio as colinas distantes se acenderem. De um salto o dia entrou no céu. A borda vermelha do sol se ergueu por sobre as colinas da terra escura. Adiante, no sul, o mundo continuava quieto, disforme e cinzento; mas, ainda enquanto olhavam, as sombras da noite se desvaneceram, as cores voltaram à terra que despertava: o verde fluiu sobre os amplos pinheiros de Morthal; a névoa branca tremeluzia nos cursos de água, e bem adiante e à oeste, a trinta léguas ou um pouco mais, num tom azul e púrpura, erguia-se o arco de Solitude, ruborizado pelo róseo matutino.
— Haafingar! Haafingar! — gritou Vorstag. — Quisera olhar sobre esta terra num momento mais feliz! Minha estrada ainda não se dirige para o oeste e para seus rios e barcos, nem mesmo para suas muralhas de pedra antigas e fortes. Mas não tarda verei a cidade dos meus antepassados:
Haafingar! De um lado os Montes, do outro o Mar!
Soprava o Vento Oeste lá, e a luz chovia devagar
Sobre o Palácio Azul e os jardins dos Reis de Outrora.
Ó muros altos! Torres de pedra! A cidade do lobo!
Ó Haafingar, Haafingar! Irão os homens ti contemplar
Ou o Vento Oeste irá soprar nos Montes e no Mar?
— Agora vamos! — disse ele, tirando seus olhos do oeste e olhando ao sul, para o caminho que deveria trilhar.
A região pantanosa na qual os companheiros estavam descia abruptamente sob seus pés. Cerca de quarenta metros abaixo, havia uma saliência ampla e desigual que terminava de repente na borda de um penhasco escarpado: a Fronteira Norte de Morthal. Assim terminava o Reino Antigo de Forgulnthur, e os verdes pântanos de Morthal se estendiam diante deles até onde a vista alcançava.
— Olhem! — gritou Faendal, apontando para o céu claro. — Ali vem a águia outra vez! Está voando bem alto. Agora parece estar indo embora desta terra, de volta para o norte. Está indo a uma enorme velocidade. Olhem!
— Não, nem mesmo meus olhos conseguem vê-la, meu bom Faendal — disse Vorstag. — Deve estar realmente distante. Fico imaginando qual será sua missão, se for o mesmo pássaro que já vi antes. Mas olhem! Estou vendo algo mais próximo de nós, e mais urgente; há algo se movendo no pântano!
— Muitas coisas — disse Faendal. — É um grande grupo a pé; mas não posso dizer mais, nem enxergar que tipo de povo pode ser. Estão a muitas léguas de distância. Doze, eu suponho; mas é difícil calcular.
— Eu acho, entretanto, que não precisamos mais de qualquer trilha que nos diga que caminho seguir — disse Kharjo. — Vamos encontrar um caminho que atravesse Morthal o mais rápido possível.
— Duvido que encontre um caminho mais rápido do que aquele que os dremoras escolheram — disse Vorstag.
Seguiam agora os inimigos em plena luz do dia. Parecia que os dremoras tinham apertado o passo e estavam na maior velocidade possível. De quando em quando, os perseguidores encontravam coisas que tinham sido derrubadas ou jogadas fora: sacos de comida, crostas e cascas de pães duros e cinzentos, uma capa preta rasgada, um sapato pesado com pregos de ferro que se arrebentara nas pedras. A trilha os conduzia para o norte ao longo do topo do penhasco, e finalmente eles chegaram a um aglomerado de pinheiros com um pouco de neve derretida. Então atingiram, de modo estranho e repentino, o gramado de Morthal.
Dividia o espaço com a terra fofa e molhada, marrom-escura, e aqui e acolá desaparecia para aparecer novamente a um metro de distância. A nascente que caía desapareceu numa vegetação espessa de agriões e plantas aquáticas, e eles podiam ouvi-la correndo dentro de túneis verdes, descendo encostas suaves e longas na direção dos pântanos. Parecia que tinham deixado o inverno envolvendo os pântanos escuros que ficaram para trás. Ali o ar estava mais calmo e quente, com um aroma leve, como se a primavera já se agitasse e a seiva corresse outra vez nas ervas e folhas. Faendal respirou fundo, como alguém que serve um grande gole depois de um longo período de sede em terras desertas.
— Ali! O cheiro do verde! — disse ele. — É melhor que muito sono. Vamos correr!
— Os pés leves podem correr mais rápido aqui — disse Vorstag. — Mais rápido, talvez, do que os dremoras com suas botas de ferro. Agora temos uma oportunidade de diminuir a vantagem deles!
Foram em fila indiana, correndo como cães que perseguem um cheiro forte, e com uma luz ansiosa nos olhos. Seguindo quase para o oeste, a trilha de destruição dos dremoras deixara seu rastro horrível; a grama suave de Morthal fora amassada e enegrecida com sua passagem. Nesse momento, Vorstag deu um grito e desviou-se.
— Parem! — gritou ele. — Não me sigam ainda! — Correu para a direita, para um ponto fora da trilha principal, pois tinha visto pegadas que iam por ali, separando-se das outras: marcas de pés com uma bota pontuda e de pequenas patas. Estas, entretanto, não iam muito longe até serem atravessadas por pegadas de dremoras, também saindo da trilha principal tanto atrás quanto na frente, e então elas faziam uma curva fechada voltando, e se perdiam no meio das outras pegadas. No ponto mais distante, Vorstag se abaixou e apanhou algo da grama; então voltou correndo.
— Sim — disse ele. — Estão muito nítidas: pegadas de um homem sem armadura. Acho que são de Ralof. Só podem ser, pois Meeko estava com ele. E olhem isto! — Vorstag ergueu um objeto que brilhou à luz do sol. Era um amuleto de Talos.
— O amuleto dele! — gritaram Faendal e Kharjo juntos.
— Isso não cai à toa — disse Vorstag. — Isto não caiu por acaso: foi jogado como um sinal para qualquer um que pudesse vir atrás. Agora, se isso significa que ele está em apuros ou que está bem, eu não sei.
— Então pelo menos ele estava vivo — disse Kharjo. — E pôde usar de sua esperteza, e de suas pernas também. Isso nos anima. Não estamos perseguindo os dremoras em vão.
— Vamos esperar que ele não tenha pagado caro demais por sua ousadia — disse Faendal. — Venham! Vamos continuar! Pensar naquele soldado alegre sendo levado como gado me deixa furioso.
O sol subiu até o meio-dia, e depois foi descendo o céu devagar. Leves nuvens subiram do mar no norte distante, e foram levadas pela brisa. O sol afundou. Sombras cresceram atrás e estenderam seus longos braços saindo do leste. Os caçadores ainda continuavam. Já fazia um dia que Erik caíra, e os dremoras ainda estavam muito à frente. Não se via mais qualquer sinal deles nas planícies. Quando a sombra da noite se fechava em volta deles, Vorstag parou. Apenas duas vezes na marcha daquele dia os três companheiros tinham descansado por um curto período, e doze milhas se estendiam agora entre o ponto onde estavam e a Fronteira Norte onde tinham parado ao amanhecer.
— Finalmente chegamos ao momento de fazer uma escolha difícil — disse ele. — Devemos descansar durante a noite, ou prosseguir até esgotar nossa força e nossa disposição?
— A não ser que nossos inimigos também descansem, vão nos deixar muito para trás, se pararmos para dormir — disse Faendal.
— Até eles fazem pausas durante a marcha, não é? — disse Kharjo.
— Esses demônios raramente viajam por lugares abertos sob a luz do sol, mas esses fizeram isso — disse Faendal. — Com certeza não vão descansar à noite.
— Mas se caminharmos durante a noite não poderemos seguir sua trilha — disse Kharjo.
— A trilha é estreita, e não vira nem para a direita nem para a esquerda, até onde minha vista alcança — disse Faendal.
— Talvez eu pudesse guiá-los na escuridão adivinhando o caminho, sem perder a trilha — disse Vorstag. — Mas se nos perdêssemos, ou se eles mudassem de rumo, quando a luz chegasse poderíamos demorar muito até encontrar a trilha outra vez.
— E além disso — disse Kharjo — só durante o dia podemos enxergar se alguma pegada se separa da trilha principal. Se um prisioneiro conseguisse escapar, ou se fosse carregado para o leste, vamos dizer para o Rio Yorgrim, na direção de Skuldafn, poderíamos passar pelos sinais e nunca saber disso.
— Isso é verdade — disse Vorstag. — Mas se interpretei os sinais corretamente lá atrás os dremoras do Colégio prevaleceram, e todo o grupo está indo na direção de Winterhold. O caminho que fazem agora confirma o que digo.
— Apesar disso, seria precipitado ter certeza dos planos deles — disse Kharjo. — E que dizer sobre as fugas? No escuro, teríamos deixado passar os sinais que conduziram você ao amuleto.
— Os dremoras redobrarão a vigilância depois disso, e se Ralof foi realmente capturado, estará duas vezes mais cansado — disse Faendal. — Não haverá fuga outra vez, a não ser que a planejemos. Não sabemos como isso poderá acontecer, mas primeiro precisamos alcançá-los.
— Mesmo assim, nem eu, khajiit de muitas jornadas, que não sou o menos resistente de meu povo, conseguiria correr todo o caminho até Winterhold sem uma parada — disse Kharjo. — Meu coração também me queima, e eu teria partido mais cedo, mas agora preciso descansar um pouco para correr melhor. E se é para descansarmos a noite cega é a hora de fazê-lo.
— Eu disse que a escolha era difícil — disse Vorstag. — Como terminamos esta discussão?
— Você é o guia — disse Kharjo —, e tem habilidades na caçada de todos os servos dos inimigos. Você deve escolher.
— Meu coração me pede para prosseguir — disse Faendal. — Mas devemos permanecer juntos. Seguirei seu conselho.
— Vocês entregam a escolha a alguém que escolhe mal — disse Vorstag. — Desde que passamos por Ustengrav, minhas escolhas deram errado. — Ficou em silêncio, olhando durante um longo tempo para o norte e para o oeste, dentro da noite que se formava. — Não vamos caminhar no escuro — disse ele finalmente. — O perigo de perdermos a trilha ou os sinais de outras idas e vindas parece ser maior. Se as luas nos dessem luz suficiente, poderíamos usá-las, mas infelizmente elas se deitam cedo, e ainda estão novas e pálidas.
— E esta noite Masser estará coberta, de qualquer forma — murmurou Kharjo. — Seria bom que pegássemos tochas mágicas nas tantas ruínas que adentramos, pois elas não se apagam com vento ou chuva.
— Bem, já fiz a escolha — disse Vorstag. — Vamos usar o tempo da melhor maneira possível!
Jogou-se no chão e adormeceu imediatamente, pois não tinha dormido desde a noite que chegaram a Ustengrav. Antes que a aurora estivesse no céu, ele acordou e se levantou. Kharjo ainda estava num sono profundo, mas Faendal estava de pé, olhando para o sul, dentro da escuridão, pensativo e quieto como uma árvore jovem numa noite sem vento.
— Eles estão muito, muito longe — disse ele com tristeza, voltando-se para Vorstag. — Sei em meu coração que não descansaram esta noite. Só um dragão poderia alcançá-los agora.
— Ainda vamos segui-los como pudermos — disse Vorstag.
Abaixando-se, acordou o khajiit. — Venha! Precisamos ir — disse ele. — O rastro está esfriando.
— Mas ainda está escuro — disse Kharjo. — Nem Faendal no topo de uma colina poderia vê-los antes de o sol nascer.
— Receio que tenham saído de meu campo de visão, seja do topo de uma colina ou de uma planície, sob o sol ou sob a lua — disse Faendal.
— Onde a vista falha, a terra pode trazer alguma informação — disse Vorstag. — O solo deve gemer sob os pés odiosos dos dremora. — Deitou-se sobre o solo, colocando a orelha contra a turfa. Ficou ali parado por tanto tempo que Kharjo começou a indagar se ele não tinha desmaiado ou adormecido de novo.
Finalmente se levantou, e então os companheiros puderam ver seu rosto: estava pálido e consternado, com o olhar preocupado.
— O ruído da terra é baixo e confuso — disse ele. — Nada caminha sobre ela por muitas milhas ao nosso redor. Os pés de nossos inimigos estão distantes e são quase inaudíveis. Mas pode-se ouvir com clareza ruídos de cascos de cavalos. Tenho a impressão de tê-los escutado, mesmo enquanto dormia, e eles incomodaram meu sono: cavalos galopando, passando no sul. Mas agora estão se distanciando de nós ainda mais, indo para o leste. Fico imaginando o que estará acontecendo nesta terra.
— Vamos! — disse Faendal.
Assim começou o terceiro dia de sua busca. Durante todas as longas horas de nuvem e sol vacilante, eles quase não pararam, algumas horas andando em grandes passadas, outras correndo, como se nenhum cansaço pudesse debelar o fogo que lhes queimava o coração. Raramente falavam. Atravessaram a ampla solidão e as capas desapareceram contra o fundo dos campos cinza-esverdeados; mesmo na fria luz do sol do meio-dia, poucos olhos poderiam tê-los notado, até que estivessem bem próximos. Sempre agradeciam em seus corações ao Jarl Balgruuf pela dádiva dos trolls-doces, pois podiam comê-lo e encontrar novas forças até mesmo enquanto corriam.
Durante todo o dia, a trilha do inimigo conduziu sempre em frente, indo para o noroeste sem interrupção ou curva. Quando outra vez o dia se acabava, chegaram a encostas longas e sem árvores, onde o solo se elevava, crescendo em direção a uma fileira de colinas baixas e corcovadas à frente.
A trilha dos dremoras ficou mais fraca, conforme rumava para o sul na direção delas, pois o solo era mais fofo e a grama maior. Lá adiante, à esquerda, as montanhas da Rocha Fria se abraçavam, protegendo as fronteiras de Morthal. O Labyrinthian se estendia ali, e parecia ser a provável passagem, para Vorstag, que os dremoras tomariam para o leste, pois lá se fortaleceriam com aura mágica. Não se via qualquer ser em movimento. Vorstag muito se surpreendia pelo fato de não estarem vendo sinais de animais ou homens. As moradias dos homens de Morthal ficavam, em sua maioria, poucas milhas ao sul, sobre os pântanos, que eram cobertas de florestas, agora escondidas por névoa e nuvem; apesar disso, os Jarls de Morthal costumavam anteriormente manter muitos rebanhos e criações de cavalos na região ao leste de seu reino, e ali os pastores costumavam vagar com muita freqüência, vivendo em acampamentos e tendas, mesmo durante o inverno.
Mas agora toda a região estava vazia, e havia um silêncio que não parecia ser a quietude da paz. Ao crepúsculo pararam novamente. Agora já tinham avançado cerca de doze léguas na planície de Morthal, e a forma do Palácio Azul se perdia nas sombras do oeste. A lua jovem brilhava num céu enevoado, mas emanava pouca luz, e as estrelas estavam veladas.
— Agora sou eu quem sente falta de um tempo para descansar, ou de uma pausa em nossa caçada — disse Faendal. — Os dremoras correram na nossa frente como se estivessem sendo perseguidos pelo fogo de Alduin. Receio que já tenham atingido as ruínas do Labyrinthian, e que exatamente agora estejam atravessando as montanhas.
Kharjo rangeu as presas e pareceu tossir e soltar uma bola de pêlo. — Este é um final triste para toda nossa esperança e nosso esforço! — disse ele.
— Para a esperança talvez, mas não para o esforço — disse Vorstag. — Não voltaremos daqui. Mas estou cansado. — Olhou para trás, na direção do caminho pelo qual tinham vindo, na direção da noite que se formava no leste. — Existe alguma coisa estranha se operando nesta terra. Desconfio do silêncio. Desconfio até dessa lua pálida. As estrelas estão apagadas, e eu estou cansado como raramente estive antes, cansado como um Guardião da Alvorada não deveria estar ao seguir uma trilha nítida. Há alguma disposição que empresta velocidade a nossos inimigos e põe diante de nós uma barreira invisível: um cansaço que é mais do coração que das pernas.
— É verdade! — disse Faendal. — Isso eu já sei desde que descemos de Ustengrav. Pois essa disposição não está atrás, mas à nossa frente.
Apontou na distância, sobre a terra de Dawnstar, para o leste que escurecia sob a lua em forma de foice.
— Ancano! — murmurou Vorstag. — Mas isso não deve fazer com que retomemos. Mais uma vez devemos parar, pois, vejam!, até mesmo a lua está sendo envolvida pelas nuvens que se adensam. Mas ao norte estará nossa estrada, entre colina e pântano, quando o dia retornar.
Como antes, Faendal foi o primeiro a se pôr de pé, se é que de fato tinha dormido.
— Acordem! Acordem! — gritou ele. — A aurora já chegou. Coisas estranhas nos esperam perto das bordas das montanhas. Boas ou más, eu não sei; mas estamos sendo chamados. Acordem!
Os outros pularam de pé, e quase imediatamente os três partiram outra vez. Devagar as colinas foram se aproximando. Ainda faltava uma hora para o meio-dia quando as atingiram: encostas verdes erguendo-se numa cordilheira que corria numa linha reta em direção ao norte. Aos pés deles, o solo era seco e a turfa curta. Logo ao sul, onde a neve caia mais forte, haviam grandes escadas para uma ruína. Desse ponto a trilha dos dremoras saía outra vez, virando para o sul e leste ao longo das escadas. Vorstag parou e examinou a trilha minuciosamente.
— Eles descansaram um tempo aqui — disse ele —, mas mesmo a trilha mais extrema já está velha. Receio que seu coração tenha dito a verdade, Faendal: faz três vezes doze horas, eu acho, que os dremoras pisaram aqui onde estamos pisando agora. Se mantiveram o passo, então ao pôr-do-sol de ontem já entraram dentro do Labyrinthian e talvez o tenham até atravessado.
— Não vejo nada além de escadas — disse Kharjo. — Conseguiríamos ver a floresta, se subíssemos nas colinas?
— Ainda estamos muito longe — disse Vorstag. — Se me lembro corretamente, estas são apenas escadas para uma passagem para o Labyrinthian, e talvez precisemos percorrer muitas léguas mais.
— Bem, vamos indo — disse Kharjo. — Minhas pernas precisam esquecer as milhas. Ficariam mais dispostas se meu coração estivesse menos pesado.
O sol já afundava no horizonte quando finalmente chegaram perto do final da fileira de colinas. Tinham marchado por muitas horas sem descanso. Agora iam devagar, e as costas de Kharjo estavam curvadas. Os khajiits são resistentes como pedra no trabalho ou numa jornada, mas aquela busca infindável começou a desgastá-lo, e toda esperança desapareceu de seu coração. Vorstag caminhava atrás dele, austero e silencioso, abaixando-se de vez em quando para procurar alguma pegada ou marca no solo. Apenas Faendal ia pisando com a mesma leveza de sempre, seus pés mal parecendo tocar a relva, sem deixar marcas ao passar; apenas ingerindo a comida ele encontrava todo o sustento de que necessitava, e conseguia dormir, se é que os homens chamariam isso de dormir, descansando a mente pelos caminhos estranhos dos sonhos élficos, mesmo quando caminhava com os olhos abertos na luz deste mundo.
— Vamos subir esta colina verde! — disse ele. Cansados, os outros o seguiram, escalando a longa encosta, até que chegaram ao topo. Era uma colina redonda, suave e nua, erguendo-se solitária, a colina que ficava mais ao norte. A neve a cobria. O sol mergulhou e as sombras da noite caíram como uma cortina. Estavam sozinhos num mundo cinzento e disforme, sem marco ou medida.
— Nada se vê aqui que possa nos guiar — disse Kharjo. — Bem, agora devemos parar outra vez e passar a noite. Está ficando frio!
— O vento sopra do sul, vindo da neve — disse Vorstag.
— E antes de amanhecer estará no leste — disse Faendal. — Mas descanse, se precisar. Ainda não joguei toda a esperança fora. Não se sabe o dia de amanhã. O nascer do sol geralmente traz um bom conselho.
— Três sóis já nasceram em nossa busca, e nenhum trouxe bons conselhos — disse Kharjo.
A noite ficou mais fria. Vorstag e Kharjo dormiram inquietos, e a qualquer momento que acordavam sempre viam Faendal em pé ao lado deles, ou andando de um lado para o outro, cantando baixinho para si mesmo na antiga língua ayleidüna, e enquanto cantava as estrelas se abriam na abóbada negra e dura do céu.
Assim passou a noite. Juntos observaram a aurora crescendo lentamente no céu, agora deserto e sem nuvens, até que finalmente o sol nasceu. Sua luz era clara e pálida. O vento soprava do leste e levara a névoa embora; uma região ampla e desolada se estendia em volta deles naquela luz fria.
Adiante e na direção do leste, viram os planaltos da Fronteira Sul de Morthal. Na direção sul assomava a escura fortaleza do Labyrinthian; ainda a dez léguas ficavam suas fronteiras sombrias, e suas encostas mais distantes desapareciam num azul distante. A trilha dos dremora desviava das colinas na direção dele. Faendal, que estava de pé, percebeu uma movimentação estranha. Vinte cavaleiros vinham em sua direção. Vorstag e Kharjo sentiram o galope na terra e se levantaram. Kharjo rosnou e se aproximou de Faendal. Vorstag decidiu não desembainhar sua espada; esperou pela chegada dos vinte cavaleiros em suas malhas azuis e elmos e foram rodeados. Um dos cavaleiros ergueu um arco, e Faendal fez o mesmo. Kharjo rosnou e empunhou as maças, mas Vorstag interviu: jogou para trás sua capa marrom. A ombreira de metal reluziu no momento em que ele puxava algo das costas, e a clara lâmina de Arandagon brilhou como uma chama súbita conforme a puxou.
— Talos! — gritou ele. — Sou Vorstag, filho de Rorstag, e sou chamado de o Encapuzado, o Dragonborn, o Chefe da Guarda da Alvorada, Ronaan, o herdeiro de Pelagius, filho de Tiber Septim, de Skyrim. Vai me ajudar ou me impedir? Decida logo!
Kharjo e Faendal olhavam seu companheiro com surpresa, pois não o tinham visto daquele jeito antes. Parecia ter crescido em tamanho enquanto o capitão dos soldados, o único que não usava um elmo, encolhera, e em seu rosto vívido capturaram uma breve visão do poder e majestade dos reis de pedra. Por um momento, pareceu aos olhos de Faendal que uma chama branca faiscava na fronte de Vorstag, como uma corôa brilhante.
O capitão, Adgard, recuou com um ar estupefato no rosto. Abandonou seu olhar orgulhoso. — Estes são realmente dias estranhos — murmurou ele. — Sonhos e lendas saltam do capim para a vida real. Diga-me, senhor. O que o traz aqui? Qual é o significado das palavras obscuras? Há muito tempo Erik, filho de Torygg, partiu em busca de uma resposta, e o cavalo que lhe emprestamos voltou sozinho. Que sina terrível traz do norte?
— A sina da escolha — disse Vorstag. — Você pode dizer isto a Idgrod, filha de Torbis: a guerra aberta está diante dela, ao lado que estamos perseguindo ou contra ele. Ninguém mais pode viver como costumava, e poucos poderão manter o que chamam de seu. Mas desses assuntos grandiosos falaremos depois. Se for possível, eu mesmo irei ter com a jarl. Agora estou em grande dificuldade, e peço ajuda, ou pelo menos notícias. Não sei o que suspeitavam de nós, mas estamos perseguindo um bando de demônios que podem ter seqüestrado um amigo. O que tem a nos dizer?
— Que não precisa mais persegui-los — disse Adgard. — Os dremoras foram destruídos.
— E nosso amigo?
— Não encontramos nenhum homem ou elfo ou khajiit entre eles.
— Mas isso é realmente estranho — disse Vorstag. — Procuraram entre os mortos? Não havia cadáveres que não fossem da espécie dos demônios? Seria um simples lavrador aos seus olhos.
— Não havia nem homens nem mulheres — disse Adgard. — Contamos todos os mortos e os espoliamos, depois fizemos uma pilha com as carcaças e as queimamos, como é nosso costume. As cinzas ainda estão soltando fumaça.
— Não estamos falando de um homem em armadura — disse Kharjo. — Nossos amigo estava indefeso, e tinha um cachorro.
— Um cachorro? — disse Adgard. — Fiquem tranqüilos, companheiros. Não havia cachorro ou homem nenhum, agora meus fundamentos se tornam verídicos. Seu amigo não está morto. Agora vocês são estranhos aqui, e querem falar com a jarl, mas não falam o que querem falar.
— Parece que vocês em Morthal ouviram falar das palavras que perturbaram Solitude — disse Kharjo. — Elas falavam do guerreiro com alma de dragão. Este é o Dragonborn que seguimos.
— Dragonborn! — riu o Cavaleiro que estava do lado de Adgard. — Dragonborn! Mas eles são apenas heróis em velhas cantigas e histórias infantis do norte. Estamos andando em lendas ou sobre a terra verde à luz do dia?
— Um homem pode fazer as duas coisas — disse Vorstag. — Pois não seremos nós, mas os que vierem depois, que farão as lendas de nossa época. A terra verde, você diz? Este é um grande assunto para as lendas, embora você pise nela sob a luz do dia.
— O tempo está passando — disse o Cavaleiro, sem dar atenção a Vorstag. — Devemos nos apressar em direção à cidade de novo, senhor. Vamos deixar essas pessoas e suas fantasias. Ou vamos aprisioná-los e levá-los até a jarl.
— Paz, Adthor! — disse Adgard, empinando no cavalo. — Deixe-me um pouco. Diga aos outros que se reunam no caminho e se apronte para rumar para Morthal.
Adthor se retirou murmurando, e falou aos outros, que logo recuaram e deixaram Adgard sozinho com os três companheiros.
— Tudo o que diz é estranho, Vorstag — disse ele. — Apesar disso, está falando a verdade, sem dúvida: os homens de Morthal não mentem, e por isso não são enganados com facilidade. Mas você não disse tudo. Não pode agora falar sobre sua missão de forma mais clara?
— Eu parti de Alta Hrothgar, como se chama esse lugar nas rimas, muitas semanas atrás — respondeu Vorstag. — Comigo partiu Erik de Solitude. Minha missão era ir para aquela cidade com o filho de Torygg, para ajudar seu povo na guerra contra Alduin, o dragão. Mas a Companhia com a qual eu viajava tinha outros objetivos. Disso não posso falar agora. Savos, o Arque-Mago, era nosso líder.
— Savos Aren! — exclamou Adgard. — Savos Mago-Azul é conhecido por aqui; mas seu nome, eu lhe aviso, não é mais uma senha para se conseguir os favores dos jarls. Ele foi hóspede desta terra muitas vezes na memória dos homens, vindo quando bem entendesse, depois de uma estação ou depois de muitos anos. Ele é sempre o arauto de acontecimentos estranhos: alguém que traz o mal, dizem alguns atualmente. Na verdade, desde sua última vinda no verão, todas as coisas deram errado. Naquela época, começou nosso problema com o Colégio. Até então considerávamos Winterhold uma cidade amiga, mas Savos veio e nos avisou que uma guerra súbita estava sendo preparada no Colégio de Winterhold. Disse que ele próprio tinha sido um prisioneiro de Ancano e quase não escapara, e implorou ajuda, pois apenas Riften o ajudara. Mas Idgrod não lhe deu ouvidos, e ele foi embora. Não fale em voz alta o nome de Savos aos ouvidos de qualquer jarl nessas terras!
— Mas infelizmente Savos não dará mais notícia alguma. Ele caiu dentro da escuridão das Cataratas Ermas e não volta mais.
— Essa é uma notícia terrível — disse Adgard. — Pelo menos para mim e muitos outros, mas não para todos, como você poderá verificar se for até a jarl de Morthal e de algumas outras Cidades.
— Essa notícia é mais lamentável do que qualquer um nesta terra pode entender, embora possa tocá-los dolorosamente antes que o ano avance muito — disse Vorstag. — Mas quando os grandes caem, os menores devem assumir a liderança. Minha parte tem sido guiar nossa Companhia. Viemos através de Whiterun e depois disso viemos subindo ao longo do Rio Karth, até os pântanos e Ustengrav. Ali Erik foi morto pelos mesmos demônios que vocês destruíram.
— Suas notícias são todas de pesar — disse Adgard arrasado. — A morte de Erik é uma grande perda para Solitude, e para todos nós. Era um homem valoroso! Era elogiado por todos. Raramente vinha à Morthal, pois estava sempre nas guerras das fronteiras do leste, mas eu o vi. Na minha opinião era mais parecido com os velozes filhos de Morihaus do que com os austeros homens de Haafingar, e provavelmente se mostraria um grande capitão de seu povo quando o momento chegasse. Mas não recebemos qualquer palavra de Haafingar sobre essa perda. Quando aconteceu?
— Já faz quatro dias que foi morto — respondeu Vorstag —, e desde esse dia temos viajado, partindo do Reino de Forgulnthur.
— A pé? — exclamou Adgard.
— Sim, da maneira como nos vê agora.
Uma enorme surpresa cobriu os olhos de Adgard. — Encapuzado é um nome muito pobre, filho de Rorstag. Vou chamá-lo de Pé-de-Vento. Esse feito dos três amigos será cantado em muitos salões. Quarenta e cinco léguas vocês percorreram antes do fim do quarto dia! Resistente é a raça de Talos! Mas agora, senhor, que devo fazer? Devo retornar depressa a Idgrod. Falei sinceramente diante de meus homens. É verdade que ainda não estamos em guerra declarada contra a Terra de Skuldafn, e existem alguns, próximos do ouvido da jarl, que lhe dão conselhos covardes; mas a guerra está chegando. Não abandonaremos nossa antiga aliança com Haafingar, e enquanto eles lutarem lutaremos ao lado deles: assim digo eu e todos os que permanecem comigo. Mas neste momento nossa principal preocupação é com Ancano. Ele reivindicou soberania sobre toda esta terra, e tem havido guerra entre nós já há vários meses. Ele invocou dremoras a seu serviço, e montadores de tigres, e homens maus; bloqueou as montanhas contra nós, de modo que é provável que fiquemos cercados pelo leste e pelo oeste. É terrível lidar com um inimigo desses: ele é um mago, ao mesmo tempo astuto e cheio de poderes mágicos, tendo vários disfarces. Caminha por aí, dizem, como um elfo altivo e orgulhoso, muito semelhante a Savos, porém muito mais novo e belo, como muitos agora se lembram dele. Seus espiões penetram qualquer rede, e seus pássaros de mau agouro estão espalhados pelo céu. Não sei como tudo isto vai terminar, e meu coração pressente algo mais, pois tenho a impressão de que nem todos os seus amigos moram em Winterhold. Mas, se vier à casa da jarl, terá a chance de ver com os próprios olhos, Vorstag. Você não virá? Serão vãs minhas esperanças de que você tenha sido enviado como uma ajuda nestes tempos de dúvida e necessidade?
— Irei quando puder — disse Vorstag.
— Venha agora! — disse Adgard. — O Herdeiro de Talos seria realmente uma força para os Filhos de Morihaus nesta maré maligna. Há batalhas neste mesmo momento, e receio que possamos ser derrotados. Na verdade, nesta minha cavalgada para o sul, eu vim sem a permissão da jarl, pois na minha ausência sua casa fica com poucos guardas. Mas os batedores me avisaram sobre um bando de monstros descendo da Muralha Norte há três noites, e entre eles viram alguns portando insígnias daédricas de Ancano. Então, suspeitando o que eu mais temia, uma aliança entre Winterhold e Skuldafn, conduzi meus homens, e nós alcançamos os dremoras ao escurecer, dois dias atrás, perto do Labyrinthian. Ali os cercamos e começamos a batalha ontem ao amanhecer. Perdi quinze dos meus homens e doze cavalos, infelizmente. Pois os dremoras estavam em maior número do que estimávamos. Outros se juntaram a eles, vindos das montanhas. Grandes dremoras valkynaz, também carregando a runa de Ancano: essa espécie é mais forte e mais terrível que todas as outras. Não obstante isso acabou com eles. Mas estamos fora há muito tempo. Precisam de nós no norte e no oeste. Você não virá? Há cavalos sobrando, como pode ver. Há trabalho para a Espada do Dragão desempenhar. Sim, e poderíamos encontrar utilidade para a maça do khajiit e para o arco do elfo.
— Agradeço-lhe por suas belas palavras — disse Vorstag —, e meu coração deseja acompanhá-lo; mas não posso abandonar meu amigo enquanto houver esperança.
— Não há mais esperança — disse Adgard. — Vocês não encontrarão seu amigo depois que passarem pelo Labyrinthian. Os dremora fazem maldades terríveis e inimagináveis dentro daquele lugar.
— Mas não sei se meu amigo foi tomado prisioneiro ou não. Encontramos um claro sinal não muito longe da Fronteira Norte de que pelo menos o homem está vivo. Mas entre a fronteira e as colinas não encontramos qualquer outro rastro deles, e nenhuma trilha desviou da principal, seja para um lado ou para outro, a não ser que minha percepção tenha me abandonado por completo.
— Então, o que acha que aconteceu com ele?
— Não sei. Pode ter sido morto e queimado em meio aos dremoras, mas isso você diz que não aconteceu, e não receio que tenha sido assim. Só posso pensar que foram levados para dentro da floresta antes da batalha, antes mesmo de vocês encurralarem seus inimigos, talvez. Você poderia jurar que nenhum deles escapou de sua emboscada?
— Posso jurar que nenhum dremora escapou depois que os vimos — disse Adgard. — Atingimos a fronteira da floresta antes deles, e depois disso, se qualquer ser vivo burlou nosso cerco, então não era um dremora e tinha algum poder mágico.
Adgard ficou em silêncio por um momento e depois falou. — Todos nós temos pressa — disse ele. — Meu grupo já se irrita querendo ir embora, e cada hora que passa diminui nossa esperança. Minha escolha é esta. Você pode ir; e, mais ainda, vou emprestar-lhe cavalos. Só peço isto: quando sua missão estiver cumprida, ou se mostrar inútil, vá com seus amigos até a Fortaleza da Névoa, em Riften, onde Harrald, o Jarl de Riften, agora vive. Assim pedirá a ele que honre um acordo há muito tempo feito, pois só um exército de Riften poderia nos ajudar se fossemos atacados pelo sul. Nisso coloco minha pessoa, e talvez minha própria vida, acreditando na sua boa-fé. Não falhe.
— Não falharei! — disse Vorstag.
Houve grande surpresa e muitos olhares sombrios e duvidosos entre os homens de Adgard, quando ele deu ordens para que os cavalos que estavam sobrando fossem emprestados aos forasteiros, mas só Adthor ousou falar abertamente.
— Isto está bem para esse senhor da raça de Cyrodiil, como ele diz ser — disse ele. — Mas quem já ouviu dizer de um cavalo de nossa terra sendo dado a um khajiit?
— Ninguém — disse Kharjo. — E não se preocupe: ninguém nunca vai ouvir uma coisa dessas. Eu prefiro caminhar a montar um animal, livre ou forçado, seja como for.
— Mas agora você deve montar, ou vai nos atrasar — disse Vorstag.
— Venha, você vai montar atrás de mim, meu amigo — disse Faendal. — Tudo então ficará bem, e você não vai precisar nem tomar emprestado um cavalo nem ser incomodado por ele.
Trouxeram um grande cavalo cinza-escuro para Vorstag, que o montou. — O nome dele é Nerevelus — disse Adgard. — Que ele o conduza bem e que tenha melhor sorte do que Quintus, seu falecido dono!
Um cavalo menor e mais leve, mas inquieto e fogoso, foi trazido para Faendal. Seu nome era Molvirian. Mas Faendal pediu que tirassem a sela e o arreio. — Não preciso deles — disse ele, montando levemente o cavalo com um salto; para a surpresa de todos, Molvirian ficou dócil e disposto, indo de um lado para o outro logo que ouvia uma palavra de comando: assim era o modo dos elfos com todos os bons animais.
Kharjo desajustadamente subiu na garupa do amigo, ao qual se agarrou, não muito mais à vontade do que ficava num barco.
— Até logo, e que vocês encontrem o que procuram! — gritou Adgard. — Vão à Riften tão rápido quanto puderem, e que nossas espadas brilhem lado a lado daqui para frente.
— Eu voltarei — disse Vorstag.
— E eu voltarei também — disse Kharjo.
Com essas palavras, eles partiram. Muito velozes eram os cavalos de Morthal. Quando Kharjo, depois de um tempo, olhou para trás, o grupo de Adgard já estava pequeno e distante. Vorstag não olhou para trás: estava vigiando a trilha conforme avançavam com velocidade, inclinando-se e colocando a cabeça ao lado do pescoço de Nerevelus. Em breve estavam se aproximando do Labyrinthian, e ali encontraram a outra trilha da qual Adgard tinha falado. Vorstag desmontou e examinou o solo; depois, montando de novo, avançou um pouco em direção ao leste, mantendo-se ao lado da trilha e tentando fazer com que o cavalo não repisasse as pegadas. Depois desceu do cavalo outra vez e examinou o solo, andando para frente e para trás.
— Há pouco a descobrir — disse ele quando retornou. — A trilha principal está toda confundida com a passagem dos cavaleiros quando voltaram; seu caminho externo deve ter sido feito mais próximo ao rio. Mas esta trilha que vai para o sul é nova e visível. Não há sinais aqui de pés indo em sentido contrário, de volta para Morthal. Agora devemos ir mais devagar, para ter certeza de que nenhum vestígio ou pegada se ramifica para qualquer um dos lados, A partir deste ponto, os dremoras deviam estar conscientes de que estavam sendo perseguidos; podem ter feito alguma tentativa de levar Ralof para outro lugar antes de serem alcançados.
Conforme avançavam, o dia ia ficando nebuloso. Nuvens baixas e cinzentas desceram sobre as ruínas altas do Labyrinthian. A névoa cobriu o sol. As ruínas cobertas de neve assomavam cada vez mais próximas, escurecendo lentamente enquanto o sol ia para o oeste. Os companheiros não viram qualquer sinal de pegadas indo para a direita ou para a esquerda, mas aqui e ali passavam por alguns dremoras que haviam caído sobre a trilha quando corriam, com flechas de plumas vermelhas de Morthal espetadas nas costas ou na garganta. Finalmente, quando a tarde morria, chegaram às fronteiras do Labyrinthian, e numa clareira aberta em meio as primeiras construções, embora a neve esbranquiçasse todo o local, a fogueira ainda queimava. Ao lado havia uma grande pilha de elmos terríveis de metal daédrico e suas maravilhosas armaduras metálicas, escudos partidos e espadas quebradas, arcos e dardos e outros equipamentos de guerra. Sobre uma estaca, bem no meio, estava colocada uma grande cabeça de dremora, seus olhos negros escondidos e virados e seus chifres para cima; sobre o elmo despedaçado ainda se podia ver a insígnia daédrica.
Mais adiante, não muito longe dos pilares negros, no ponto onde algumas escadas começavam, Vorstag e seus companheiros procuraram por todos os cantos do campo de batalha, mas a luz foi diminuindo e a noite logo chegou, apagada e cheia de névoa. Até o cair da noite, não tinham descoberto nenhum sinal de Ralof ou de Meeko.
— Não podemos fazer mais nada — disse Kharjo com tristeza. — Fomos submetidos a muitos enigmas desde que chegamos a Ustengrav, mas este é o mais dificil de se decifrar. Eu suporia que os ossos queimados do soldado e do cão estão agora misturados aos dos dremora. Será uma notícia dura para entregar, se vivermos para contá-la, e dura também para os Barbacinza. Alguns eram contra a vinda dele.
— Mas Savos não era — disse Faendal.
— Mas Savos escolheu vir, e foi o primeiro a se perder — respondeu Kharjo. — Sua previsão falhou.
— O conselho de Savos não se baseava em previsões sobre segurança, nem para ele nem para os outros — disse Vorstag. — Algumas coisas é melhor começar do que recusar, mesmo que o fim possa ser escuro. Mas não vou partir deste lugar ainda. De qualquer modo, devemos esperar pela luz do dia.
Um pouco além do campo de batalha montaram acampamento sob uma grande coluna: parecia uma árvore castanheira, e apesar de ser negra como a noite, a neve lhe descia como se fossem cabelos grisalhos.
Kharjo tremeu. Tinham trazido apenas um cobertor para cada um. —Vamos acender uma fogueira — disse ele. — Não me preocupo mais com o perigo. Que os dremoras, draugrs e outras coisas venham como um bando de mariposas em volta de uma lamparina no verão!
— Se esses nossos amigos infelizes estão perdidos nas ruínas, o fogo poderia trazê-los para cá — disse Faendal.
— E poderia também trazer outras coisas, nem dremoras nem amigos — disse Vorstag. — Estamos perto das fronteiras das montanhas do traidor Ancano. Também estamos bem no limite do Labyrinthian, e é perigoso ser descuidado por aqui, pelo que se comenta.
— Mas os homens de Morthal fizeram uma grande fogueira aqui ontem — disse Kharjo — Apesar disso, passaram a noite em segurança, após terminado o trabalho.
— Eles eram muitos — disse Vorstag —, e não deram atenção à ira do Labyrinthian, pois raramente chegam até aqui, e não andam sob as construções. Mas nossas trilhas provavelmente vão nos conduzir exatamente para o coração da passagem, pois precisamos ir para Riverwood agora. Por isso, tenham cuidado! Não façam nenhuma besteira!
Kharjo saiu para recolher lenha, e se ocupou em preparar e acender uma fogueira; mas Vorstag ficou sentado em silêncio, recostado à grande coluna quebrada, mergulhado em pensamentos. Faendal ficou parado sozinho no espaço aberto, olhando na direção da profunda sombra da floresta, inclinando-se para a frente, como alguém que tenta escutar vozes chamando de um lugar distante.
Quando o khajiit conseguiu manter uma pequena chama ardente, os três companheiros se aproximaram da fogueira e sentaram-se próximos, escondendo a luz com suas formas encapuzadas. Faendal levantou os olhos para a coluna de pedra negra que se estendia acima deles.
Fez-se silêncio, pois de repente a ruína escura e desconhecida, tão próxima, fez-se sentir como uma grande presença pairando no ar, cheia de propósitos secretos. Depois de um tempo, Faendal falou outra vez.
— Peragon nos avisou para não avançarmos muito pelos caminhos do Labyrinthian — disse ele. — Você sabe a razão disso, Vorstag? Quais são as fábulas sobre as ruínas que Erik ouviu?
— Ouvi muitas histórias em Haafingar e em outros lugares — disse Vorstag —, mas se não fosse pelas palavras de Peragon eu as consideraria apenas como fábulas que os homens criam quando desaparece o verdadeiro conhecimento. Pensei em perguntar a você o que havia de verdade nesse assunto. E, se um elfo da floresta não sabe, como pode um homem responder?
— Você viajou a lugares mais distantes que eu — disse Faendal. — Nunca ouvi nada sobre isso em minha própria terra, a não ser as canções que contam como os Sacerdotes Dracônicos, que naquela época eram considerados bons, se encontravam aqui, que antigamente era chamado de Bromjunaar, para decidir as regras de comando; Bromjunaar é antiga, mesmo para os cômputos dos elfos.
— Sim, é antiga — disse Vorstag. — Mais antiga do que o labirinto nela construído pelo Arque-Mago Shalidor, há muito tempo, e é muito maior. Calcelmo, um velho amigo meu, diz que um grande labirinto foi construído por Shalidor para esconder Glamorill, o Segredo da Vida, que as canções diziam que o havia roubado de Akatosh. Shalidor passou a usar o labirinto, entretanto, para testar arque-magos em potencial. Mas o Labyrinthian guarda um segredo próprio. E não sei qual é.
— E eu não quero saber — disse Kharjo. — Se algo de bom ainda vive em Bromjunaar, que não se incomode por minha causa!
Tinham feito um sorteio para ver quem ia fazer a guarda, e o primeiro turno caiu para Kharjo. Os outros se deitaram. Quase imediatamente, o sono lhes sobreveio.
— Kharjo! — disse Vorstag sonolento. — Lembre-se, é perigoso perambular pelas construções de Bromjuunar. Mas não se afaste muito à procura de qualquer coisa. Antes deixe que a fogueira se apague. Chame-me se precisar!
Com isso adormeceu. Faendal já estava deitado sem se mexer, as belas mãos cruzadas sobre o peito, os olhos abertos misturando a noite de vigília a um sono profundo, como fazem os elfos. Kharjo se sentou arqueado perto do fogo, passando o polegar peludo ao longo da lâmina de seu machado, pensativamente. O vento farfalhou. Não havia qualquer outro som.
De repente Kharjo levantou os olhos e ali, bem no limiar da luz do fogo, estava um elfo curvado, coberto por uma grande capa; um capuz de abas largas cobria-lhe os olhos. Kharjo pulou de pé, surpreso demais naquele momento para gritar, embora imediatamente tivesse vindo à sua mente o pensamento de que Ancano os havia pego. Vorstag e Faendal, acordados por seu movimento brusco, sentaram-se e olharam. O velho não falou nem fez qualquer sinal.
— Meu bom viajante, que podemos fazer pelo senhor? — perguntou Vorstag, saltando de pé. — Venha e se aqueça, se estiver com frio! — Avançou alguns passos, mas o velho havia desaparecido. Não se via qualquer vestígio dele nas proximidades, e eles não ousaram procurar mais além. A lua havia-se posto, e a noite estava muito escura.
De repente, Faendal deu um grito. — Os cavalos! Os cavalos!
Os cavalos tinham-se ido. Tinham arrastado as estacas e desaparecido. Por algum tempo, os três companheiros ficaram parados e em silêncio, preocupados com aquele novo golpe de má sorte. Estavam sob as fronteiras de Bromjuunar, e léguas intermináveis os separavam dos homens de Morthal e de Riverwood, seus únicos amigos naquela terra ampla e perigosa.
Parados ali, tiveram a impressão de ouvir, bem distante na noite, o som de cavalos relinchando e relinchando. Depois tudo ficou quieto outra vez, a não ser pelo farfalhar frio do vento.
— Bem, eles se foram — disse Vorstag finalmente. — Não podemos encontrá-los ou capturá-los, de modo que, se não retornarem pela própria vontade, vamos ter de nos arranjar sem eles. Partimos com nossos próprios pés, que ainda temos.
— Pés e patas! — disse Kharjo. — Mas não podemos comê-los e ao mesmo tempo andar com eles. — Jogou um pouco de lenha na fogueira e caiu ao lado dela.
— Apenas algumas horas atrás, você não estava disposto a montar um Cavalo de Morthal — riu Faendal. — Agora já é um cavaleiro.
— Se querem saber o que eu penso — começou ele depois de uma pausa. — Acho que foi Ancano. Quem mais poderia ser? Lembrem-se das palavras de Adgard: ele anda por aí como um elfo altivo e belo. Foram essas as palavras que usou. Foi embora com nossos cavalos, ou os afugentou, e aqui estamos nós. Teremos mais problemas, prestem atenção ao que digo!
— Estou prestando atenção — disse Vorstag. — Mas mesmo assim não duvido que sua suposição esteja correta, e que estamos correndo perigo aqui, de noite ou de dia. Apesar disso, por enquanto não há nada que possamos fazer a não ser descansar. Vou vigiar um pouco agora, Kharjo. Tenho mais necessidade de pensar do que de dormir.
A noite passou devagar. Faendal rendeu Vorstag, e Kharjo rendeu Faendal, e a guarda de cada um deles se acabou. Mas nada aconteceu. O elfo não apareceu de novo, e os cavalos não retornaram.
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