DdAH: O Colégio de Winterhold
4 Dremora Valkynaz
Ralof estava tendo um sonho sombrio e turbulento: tinha a impressão de escutar sua própria voz pequena ecoando em túneis negros, chamando Ulfric! Ulfric! Mas em vez de Ulfric centenas de caras horrendas de monstros riam para ele de dentro das sombras, centenas de braços horrendos o agarravam por todos os lados. Onde estava Meeko?
Acordou. Um ar frio bateu em seu rosto. Estava deitado de costas. A noite chegava, e o céu estava se apagando. Virou-se e percebeu que o sonho era pouco pior que a realidade. Tinha os pulsos, pernas e tornozelos amarrados por cordas. Meeko estava sentado ao lado, com o rosto encostado no chão, revirando os olhos com curiosidade. Por todos os lados em volta deles, uns sentados e outros de pé, estava um grande grupo de dremoras.
Lentamente, na cabeça dolorida de Ralof, a memória foi juntando os pedaços e se separando das sombras dos sonhos. Estava claro: ele e Meeko tinham fugido para as Ruínas de Kjenstag e sido capturados lá. O que tinha dado neles? Por que tinham saído correndo daquele modo, ao invés de contar a Vorstag o que havia acontecido? Tinha corrido um bom pedaço antes de Meeko encontrá-lo, para dentro e afundo Ustengrav — ele não podia se lembrar da distância ou por quanto tempo; então, de repente, tinha dado de cara com um grupo de dremoras: estavam parados escutando, e pareciam não ter visto Ralof até que ele estivesse quase em seus braços. Então gritou e dúzias de outros dremoras saíram de trás dos pilares escuros. Ralof puxou seu machado de aço, mas os dremoras não queriam lutar, e só tentaram prendê-los, mesmo depois de Ralof ter tentado decepar várias mãos e vários braços.
Então Erik tinha chegado, saltando através dos pilares escuros da caverna. Tinha-os feito lutar. Matou muitos deles e o resto fugiu. Mas os dois não tinham avançado muito no caminho quando foram atacados de novo, por Pelo menos uma centena de dremoras, alguns deles muito grandes, que atiraram uma chuva de flechas: sempre em Erik. Erik tocou sua cometa até que a floresta reverberou, e a princípio os dremoras ficaram amedrontados e recuaram; mas quando não veio nenhuma resposta a não ser o eco eles atacaram com mais ferocidade que nunca. Ralof não se lembrava muito mais de dentro de Ustengrav. Sua última lembrança era a de Erik se apoiando num túmulo, arrancando de seu corpo uma flecha; depois disso, fugiram, carregaram um barco, pararam para acampar nas Ruínas de Kjenstag e um enorme véu de lembranças escuras cobriu sua mente.
— Acho que me bateram na cabeça — disse ele consigo mesmo. — Pergunto-me se o pobre Meeko não está muito ferido. Que aconteceu com Erik? Por que os monstros não nos mataram? Onde estamos e para onde vamos?
Não conseguia responder as perguntas. Sentia-se doente e com frio.
“Gostaria que Arngeir não estivesse concedido minha permissão para vir”, pensou ele. “Que fiz de bom? Nada: fui só um peso morto, um passageiro, uma peça de bagagem. E agora fui raptado e sou uma peça de bagagem para os monstros. Espero que Vorstag ou alguém venha nos reclamar! Mas será que devo alimentar essa esperança? Isso não estragaria todos os planos? Gostaria de poder me libertar!”
Tentou por uns momentos, mas foi totalmente inútil. Um dos dremoras que estava sentado ali perto riu e disse alguma coisa a um companheiro na sua língua abominável.
— Descanse enquanto puder, mortal tolo! — disse ele então a Ralof, na língua normal, que na sua boca parecia tão horrenda quanto a própria língua deles. — Descanse enquanto puder! Vamos achar uma utilidade para suas pernas logo, logo. Vai desejar não ter nenhuma antes de chegarmos em casa.
— Se pudesse escolher, gostaria que vocês estivessem mortos agora —disse o outro. — Faria você guinchar, seu rato miserável!
Abaixou-se sobre Ralof, aproximando seu rosto do dele. No geral, tinha uma aparência quase idêntica à de Savos Aren, a de um elfo negro. Mas seu rosto tinha pinturas tribais em vermelhos, e chifres arredondados saíam de sua cabeça. Tinha na mão uma faca preta com um vermelho brilhante e uma lâmina denteada. “Fique quieto, ou vou fazer cócegas em você com isto”, disse ele num chiado. Não atraia atenção sobre você, ou poderei esquecer minhas ordens. Malditos sejam os winterholdenses! Orakhven yoodt bedt seht payem Ancano-geth bedt seht. — Passou a um discurso na própria língua que lentamente foi se transformando em resmungos e rosnados.
Apavorado, Ralof ficou imóvel, embora sentisse a dor aumentar nos pulsos e tornozelos, e as pedras sobre as quais estava deitado lhe perfurassem as costas. A dor no pescoço esfriou. Para tirar o pensamento de si próprio, escutava atentamente tudo o que conseguia ouvir. Havia muitas vozes ao redor, e embora a língua dos dremora soasse sempre cheia de ódio e raiva parecia que alguma coisa semelhante a uma discussão tinha começado, e estava ficando mais acirrada. Para a sua própria surpresa, percebeu que grande parte da conversa era inteligível; muitos dremoras estavam usando uma linguagem comum.
Aparentemente, alguns dremoras presentes eram de partes completamente diferentes de Oblivion, e não podiam entender a língua uns dos outros. Houve uma discussão acalorada sobre o que deveriam fazer: que caminho deviam tomar e o que devia ser feito com os prisioneiros.
— Não há tempo para matá-los adequadamente — disse um. — Não há tempo para diversão nesta viagem.
— Isso não se pode evitar — disse um outro. — Mas por que não matá-los rápido, matá-los agora? São um incômodo desgraçado, e estamos com muita pressa. A noite está chegando, e devemos nos mexer e ir adiante.
— Ordens — disse uma terceira voz num rosnado grave. — Matem todos, mas NÃO os homens; eles devem ser trazidos VIVOS o mais rápido possível. Isso é as minhas ordens.
— Por que os querem? — perguntaram muitas vozes. — Por que vivos? Eles dão bom divertimento?
— Não! Ouvi dizer que um deles tem uma coisa, uma coisa que é um empecilho para a Guerra, algum truque nórdico ou outra coisa. De qualquer forma, este aqui será interrogado.
— É tudo o que você sabe? Por que não o revistamos para descobrir? Podíamos achar alguma coisa que nós mesmos poderíamos usar.
— Essa é uma observação muito interessante — zombou uma voz, mais suave e mais maligna que as outras. — Talvez eu tenha de reportar isso. NINGUÉM deve revistar ou roubar os prisioneiros: essas é as minhas ordens.
— E minhas também — disse a voz grave. — Vivos e como foram capturados; sem roubo. Isso é minhas ordens.
— Não nossas ordens — disse uma das vozes anteriores. — Fizemos todos o caminho desde as Cataratas para matar e vingar nosso povo. Quero matar, e depois voltar para Oblivion.
— Então vai ficar querendo — disse a voz rosnante. — Sou Orakhven. Eu dou as ordens. Volto para Winterhold pelo caminho mais curto.
— Quem é o patrão: Ancano ou o Imenso Dragão? — disse a voz maligna. — Temos de voltar imediatamente para Sethdoth.
— Se conseguíssemos atravessar as Cidades, poderíamos fazer isso — disse outra voz. — Mas não há um número suficiente de nós que se aventure pelo caminho dos homens.
— Eu atravessei — disse a voz maligna. — Um dragão vivo espera por nós na margem leste, ao norte.
— Talvez, talvez! Daí você vai fugir voando com nossos prisioneiros e ficar com toda a recompensa e os elogios em Sethdoth, e deixar que nós voltemos a pé como pudermos através da Terra dos Homens. Não, vamos ficar juntos. Estas terras são perigosas: cheias de rebeldes e bandidos.
— É, devemos ficar juntos — rosnou Orakhven. — Não confio em você, pequeno suíno. Você manda em seu próprio chiqueiro. Se não fosse a gente, todos vocês teriam fugido. Nós somos dremoras valkynaz guerreiros! Matamos o grande guerreiro. Trouxemos os prisioneiros. Somos servidores de Ancano, o Sábio, o Arque-Mago: o mago que nos invoca de Oblivion e nos dá almas humanas para comer. Viemos de Winterhold, e os trouxemos aqui, e vamos levá-los de volta pelo caminho que escolhermos. Sou Orakhven.
— Você falou mais que o suficiente, Orakhven — zombou a voz maligna. — Fico pensando se gostariam disso em Sethdoth. Eles poderiam pensar que os ombros de Orakhven precisam ser aliviados do peso de uma cabeça inchada e chifres curvados demais. Poderiam perguntar de onde vieram suas estranhas idéias. Vieram de Ancano, talvez? Quem ele pensa que é, dando as ordens sozinho com suas nojentas insígnias daédricas mal-feitas? Talvez eles concordem comigo, com Agronavekh, o mensageiro em quem confiam; e eu, Agronavekh, digo isto: Ancano é um idiota, e um idiota sujo e traiçoeiro. Mas o Devorador de Mundos vigia ele. Suíno, é? O que vocês acham, pessoal, de serem chamados de suínos pelos dedos-duros de um mago sujo? Garanto que eles comem carne de dremora.
Como resposta vieram muitos berros na língua daédrica e o eco do tinido das armas sendo sacadas. Cuidadosamente, Ralof virou-se no chão, tentando ver o que iria acontecer. Seus guardas tinham ido se juntar aos outros na briga. No crepúsculo, Ralof viu um dremora negro e grande, provavelmente Orakhven, em pé e encarando Agronavekh, uma criatura de chifres curtos e tortos, muito entroncada e com longos braços que chegavam quase até o chão. Em volta deles estavam muitos outros dremoras menores. Ralof imaginou que estes eram os do norte. Estavam empunhando facas e espadas, mas hesitavam em atacar Orakhven.
Orakhven gritou, e muitos dremoras que tinham quase o tamanho dele correram na direção onde estava. Então, de repente, sem avisar, Orakhven saltou à frente, e com dois golpes rápidos decepou as cabeças de dois adversários. Agronavekh pulou de lado e desapareceu dentro das sombras. Os outros recuaram, e um deles, dando um passo para trás, caiu sobre a figura prostrada de Meeko soltando um palavrão. Mas provavelmente isso salvou a vida do cão, pois os seguidores de Orakhven saltaram sobre ele e mataram um outro com suas espadas de lâminas largas e metálicas. Era o guarda pintado de vermelho. Seu corpo caiu bem em cima de Ralof, ainda segurando sua longa faca serrilhada.
— Levantem suas armas! — gritou Orakhven. — E vamos deixar de besteira! Vamos para o leste direto daqui, e vamos pelas cordilheiras de Anthor. Dali, direto para as ruínas, depois ao longo dos montes até o Colégio. E marchar dia e noite. Está claro?
“Agora”, pensou Ralof, “se demorar um pouco até esse monstro horroroso conseguir controlar sua tropa, eu terei uma chance.” Teve um laivo de esperança. A lâmina da faca negra tinha cortado seu braço, e depois deslizado até o pulso. Sentiu que o sangue lhe escorria até a mão, mas também sentiu o toque frio do aço contra a pele.
Os dremora estavam se aprontando para marchar outra vez, mas alguns do norte ainda estavam relutando, e os dremora valkynaz mataram mais dois antes que o resto fosse dominado. Havia grande confusão e xingamento. Naquele momento, ninguém vigiava Ralof, que tinha as pernas bem presas, mas os braços amarrados só pelos pulsos, com as mãos à frente do corpo. Conseguia mexer as duas juntas, embora as cordas estivessem muito apertadas.
Empurrou o dremora morto para um lado e depois, mal ousando respirar, movimentou o nó da corda que prendia o pulso contra a lâmina da faca. Era afiada e a mão morta ainda a segurava com firmeza. A corda foi cortada! Rapidamente, Ralof a tomou nos dedos e atou-a como uma pulseira larga de duas voltas, e passou-a sobre as mãos outra vez. Depois ficou deitado e bem quieto.
— Peguem os prisioneiros! — gritou Orakhven. — Não brinquem com eles! Se não estiverem vivos quando voltarmos, alguém mais vai ter de morrer também.
Um dremora agarrou Ralof como um saco, pôs sua cabeça entre as mãos amarradas dele, segurou-lhe os braços puxando-os para baixo, até que o rosto de Ralof ficasse contra seu pescoço; depois saiu levando-o consigo. Um outro deu o mesmo tratamento a Meeko. A mão em garra do dremora prendeu como ferro o braço de Ralof; as unhas de metal penetraram na carne. Ele fechou os olhos e voltou aos seus sonhos terríveis.
De repente, foi jogado novamente ao chão. A noite estava começando, mas a lua fina já descia em direção ao oeste. Estavam na beira de um penhasco que parecia se debruçar sobre um mar de névoa pálida. Havia um som de água caindo ali perto.
“Os batedores finalmente chegaram” disse um dremora que estava próximo. — Bem, o que vocês descobriram? — rosnou a voz de Orakhven.
— Apenas um único cavaleiro, e ele foi para o norte. Tudo está claro agora. Agora, talvez. Mas por quanto tempo?
— Seus idiotas! Deviam ter atirado nele. Ele vai dar o alarme. Os malditos criadores de cavalos vão ouvir falar de nós pela manhã. Agora vamos ter de redobrar a velocidade da marcha.
Uma sombra se curvou sobre Ralof. Era Orakhven. — Sente-se — disse o dremora valkynaz. — Meus rapazes estão cansados de carregar vocês. Precisamos descer, e vocês vão ter de usar as próprias pernas, ou patas. Sejam bonzinhos agora. Não gritem, nem tentem escapar. Temos modos de recompensar trapaças que vocês vão detestar, embora também não estraguem a utilidade que possam ter para o Mestre.
Cortou os nós das pernas e tornozelos de Ralof, ergueu-o pelos cabelos e colocou-o de pé. Ralof caiu, e Orakhven o levantou pelos cabelos outra vez.
Vários dremoras riram.
Orakhven abriu um grande frasco vermelho com os dentes e derramou um pouco de líquido ardente na garganta de Ralof: ele sentiu uma quentura forte fluir-lhe pelo corpo. A dor de suas pernas e tornozelos desapareceu. Conseguiu ficar de pé.
— Agora, para o cachorro — disse Orakhven. Ralof o viu ir até Meeko, que estava deitado ali perto, e chutá-lo. Meeko resmungou. Agarrando-o de forma rude, Orakhven o colocou sentado e rasgou a banda que lhe envolvia a cabeça.
Então esfregou o ferimento com alguma coisa escura que retirou de uma caixa de madeira. Meeko gritou e se debateu alucinado. Os dremoras bateram palmas e vaiaram.
— Não consegue tomar o remédio — caçoaram eles. — Não sabe o que é bom para ele. Ai! Vamos nos divertir mais tarde.
Mas naquele momento Orakhven não estava para brincadeiras. Precisava se apressar e tinha de reanimar seguidores indispostos. Estava curando Meeko à maneira daédrica, e seu tratamento deu resultado rápido. Depois forçou o cão a beber o líquido do frasco e cortou as amarras de suas patas, colocando-o de pé; Meeko conseguiu se sustentar, com uma aparência cansada mas severa e desafiadora, e muito viva. O corte em sua testa não o incomodava mais, mas ele ficou com uma cicatriz escura para o resto da vida. Ele deu um pequeno e fraco latido para Ralof, alegre em vê-lo.
— Meu querido Meeko! Em que enrascada te colocamos — Ralof deu um sorriso fraco e aliviado. — Quando poderei te dar algum descanso e comida, afinal?
— Agora! — disse Orakhven. — Nada disso! Segurem suas línguas. Nada de conversas. Qualquer problema será reportado na chegada, e Ele saberá como recompensá-los. Vocês vão ter cama e comida sim: muito mais do que puderem agüentar.
O bando de dremoras começou a descer uma pequena garganta que conduzia à planície cheia de névoa. Meeko e Ralof, separados por uma dúzia ou mais de dremoras, desceram com eles. Na planície, seus pés tocaram o capim, e os corações dos dois ficaram mais leves.
Agora, sempre em frente! — gritou Orakhven. — Para o oeste e um pouco ao norte. Sigam Tayemvekh.
— Mas o que vamos fazer quando o dia chegar? — perguntaram alguns dos dremoras que usavam mantos, e não armaduras.
— Continuar correndo — disse Orakhven. — Que estão pensando? Que vamos sentar no chão e esperar os Peles-Brancas se juntarem a nós?
— Mas não podemos correr à luz do sol.
— Vocês vão correr porque eu vou atrás de vocês — disse Orakhven. — Corram! Ou nunca mais verão os castelos de sangue da Terra dos Mortos. Por Mehrunes Dagon! Por Ancano! Que adianta trazer esses vermes das montanhas numa viagem, sem um treinamento completo? Corram, seus malditos. Corram enquanto a noite durar!
O grupo todo começou a correr no trote largo dos dremoras. Não iam em ordem, entrechocando-se, dando empurrões e xingando; apesar disso, avançavam com grande velocidade. Ralof e Meeko tinham uma guarda de três dremoras. Ralof estava no fim da fila. Perguntava-se por quanto tempo agüentaria ir naquele passo: não tinha comido nada desde a manhã. Um de seus guardas tinha um chicote. Mas no momento a bebida dos dremoras ainda agia sobre ele. Sua percepção também estava bem acordada.
De quando em quando vinha-lhe à mente, sem ser invocada, uma visão do rosto arguto de Vorstag se curvando sobre uma trilha escura, e correndo, correndo atrás. Mas o que poderia alguém ver, mesmo que fosse um guardião, além de uma trilha confusa de pés de monstros daédricos? Suas próprias pegadas e as de Meeko estavam sendo cobertas pelo pisotear das botas de metal dos dremoras, à frente, atrás, e em toda a volta deles.
Tinham avançado uma milha ou um pouco mais desde os pântanos quando o terreno começou a descer numa depressão larga e rasa, onde o solo era macio e molhado. Havia névoa ali, reluzindo pálida aos últimos raios da lua em forma de foice. As figuras escuras dos dremoras ficaram apagadas, e eles foram engolidos pela névoa.
— Ei! Calma agora! — gritou Orakhven de trás.
Um pensamento súbito veio à mente de Ralof, e ele o pôs em prática imediatamente. Afastou-se para o lado, e mergulhou para longe do alcance dos guardas, para dentro da névoa; caiu estatelado na neve.
— Parem! — gritou Uglúk.
Por um momento, houve tumulto e confusão. Ralof saltou de pé e correu. Mas os dremoras foram atrás. Alguns apareceram de repente bem diante dele. “Sem esperanças de escapar!”, pensou Ralof. “Mas existe uma esperança de que eu possa ter deixado algumas de minhas próprias pegadas na neve, e de que elas não sejam desmanchadas.” Levou as duas mãos amarradas à garganta e soltou o seu amuleto.
No momento em que braços longos e garras fortes o pegaram, deixou o amuleto cair no chão. “Acho que vai ficar ali até o fim dos tempos”, pensou ele. “Não sei por que fiz isso. Se os outros escaparam, devem ter ido para Solitude.” Um chicote se enrolou em suas pernas e ele sufocou um grito.
— Basta! — gritou Orakhven, correndo na direção deles. — Ele ainda tem um longo caminho a percorrer. Obriguem os dois a correr. Usem os chicotes apenas como lembrete. Mas não é só isso — rosnou ele, voltando-se para Ralof. — Não vou esquecer. A recompensa foi apenas adiada. Corram!
Nem Ralof nem Meeko se lembraram da parte posterior da viagem. Sonhos maus e despertares piores se misturaram num longo túnel de miséria, com a esperança sempre diminuindo e ficando para trás. Correram e correram, esforçando-se para manter o passo com os dremoras, lambidos de quando em quando por um chicote habilmente manuseado.
Se paravam ou tropeçavam, eram agarrados e arrastados por algum espaço. A quentura da bebida dos dremoras tinha-se acabado. Ralof se sentia doente e com frio outra vez. De repente, caiu de cara no chão. Mãos fortes com unhas cortantes o ergueram. Foi de novo carregado como um saco, e a escuridão cresceu à sua volta: se era outra noite ou uma cegueira nos olhos, ele não poderia dizer.
Lentamente, tomou consciência de vozes clamando. Parecia que muitos dremoras estavam pedindo uma parada. Orakhven gritava. Sentiu-se sendo jogado ao chão, e ali ficou como caiu, até que sonhos negros tomassem conta dele. Mas não escapou da dor por muito tempo; logo a pinça de ferro de mãos impiedosas estava sobre ele outra vez. Por um tempo foi sacudido e jogado, até que lentamente a escuridão cedeu, e ele acordou outra vez, percebendo que era de manhã. Houve gritos de ordens e ele foi jogado rudemente na neve. Ali ficou por um tempo, lutando contra o desespero. A cabeça rodava, mas pela quentura do corpo percebeu que lhe tinham dado mais um gole. Um dremora se abaixou sobre ele, e jogou-lhe um pouco de pão e uma tira crua de carne-seca. Ralof comeu o pão velho e cinzento com avidez, mas não a carne. Estava esfomeado, mas não esfomeado a ponto de comer carne que lhe tinha sido jogada por um dremora, a carne de uma criatura que ele não ousava adivinhar qual seria.
Sentou-se e olhou ao redor. Meeko não estava longe. Estavam na encosta de várias montanhas. Um pico alto capturava os primeiros raios do sol. Uma mancha escura de ruínas se deitava nas encostas mais baixas diante deles. Ouvia-se grande gritaria e discussão entre os dremoras; parecia que uma briga estava para começar outra vez entre os do leste e os de Winterhold.
Alguns apontavam para trás na direção norte, e outros apontavam para o oeste. — Muito bem — disse Orakhven. — Deixem-nos comigo, então! Nada de matar, como eu já lhes disse antes; mas se querem jogar fora o que viajamos tanto para conseguir, então joguem fora. Vou tomar conta disso. Que os dremora valkynaz guerreiros façam o trabalho, como sempre. Se estão com medo dos de pele branca, corram! Corram! Ali está o Labyrinthian — gritou ele, apontando para frente. — Entrem nele! É a melhor esperança que têm. Podem ir! E rápido, antes que eu corte mais algumas cabeças, para botar algum juízo nas outras.
Houve algum xingamento e tumulto, e depois a maioria dos dremoras do leste se separaram e se distanciaram, mais de uma centena deles, correndo alucinadamente ao longo do rio em direção às montanhas. Os dois foram deixados com os dremora valkynaz: um bando de dremoras horríveis e escuros, pelo menos oitenta deles: grandes, de pele escura e olhos oblíquos, com grandes arcos e espadas largas de metal daédrico com um brilho sobrenatural carmesim. Alguns dos dremoras do leste maiores e mais fortes permaneceram com eles.
— Agora vamos cuidar de Agronavekh — disse Orakhven, mas alguns elementos de seu próprio bando estavam olhando inquietos para o norte.
— Eu sei — rosnou Orakhven. — Os malditos cavaleiros perceberam o nosso rastro. Mas isso é culpa sua, Sethven. Você e os outros batedores deveriam ter as orelhas arrancadas. Mas nós somos os guerreiros valkynaz. Vamos nos banquetear com carne de cavalo, ou coisa melhor.
Naquele momento, Ralof viu por que alguns da tropa tinham apontado para o oeste. Daquela direção chegavam agora gritos roucos, e ali estava Agronavekh outra vez, e atrás dele uns vinte outros como ele: dremoras terríveis vestidos em mantos e armaduras de ferro. Orakhven avançou para encontrá-los.
— Então vocês voltaram? — disse ele. — Pensaram melhor, hein?
— Voltei para me certificar de que as ordens estão sendo cumpridas e os prisioneiros estão a salvo — respondeu Agronavekh.
— É mesmo? — disse Orakhven. — Esforço desperdiçado. Eu vou cuidar para que as ordens sejam cumpridas sob meu comando. E por que mais voltaram? Vocês foram correndo. Deixaram para trás alguma coisa?
— Deixei um idiota — rosnou Agronavekh. — Mas havia alguns camaradas fortes com ele que são bons demais para se perder. Eu sabia que você os conduziria para uma bagunça. Vim ajudá-los.
— Esplêndido! — disse Orakhven rindo. — Mas a não ser que tenha fibra para lutar você pegou o caminho errado. Sethdoth: era nosso caminho. Os homens estão chegando. Que aconteceu com seu precioso dragão? Teve outra de suas montarias abatida? Agora, se você o trouxesse junto, isso poderia ser útil — se esses dragões são tudo o que fingem ser.
— Dov, dov! — disse Agronavekh, tremendo e lambendo os lábios, como se a palavra tivesse um gosto ruim que ele saboreava com sofrimento. — Você fala do que está muito além do alcance de seus sonhos sujos, Orakhven — disse ele. — Os dragões! Ah! Tudo o que fingem ser! Um dia você vai desejar não ter dito isso. Seu porco! — rosnou ele com ferocidade. — Você precisa saber que eles são os mais fortes aliados do Devorador de Mundos. Mas aquele dragão, por enquanto não, ainda não. Ele não permitirá que se mostrem do outro lado do Rio Karth. Não tão cedo. Eles são para a guerra — e outras finalidades.
— Parece que você sabe muito dessas terras mortais estranhas e das intenções de seres ainda mais estranhos — disse Orakhven, — Mais do que lhe convém, eu acho. Talvez aqueles que estão em Sethdoth possam querer saber como, e por quê. Mas enquanto isso os dremora valkynaz de Winterhold podem fazer o serviço sujo, como sempre. Não fiquem aqui bajulando. Reúna a sua canalha! Os outros suínos estão correndo para dentro da floresta. É melhor segui-los. Você não retornaria vivo ao Rio Karth. Vamos andando! Agora! Vou estar bem atrás de você.
Os dremora valkynaz pegaram Meeko e Ralof de novo e os jogaram sobre as costas. Depois a tropa partiu. Hora após hora eles correram, parando de vez em quando apenas para entregar os dois a carregadores descansados. Talvez por serem mais rápidos e resistentes, ou então devido a algum plano de Agronavekh, os valkynaz gradualmente passaram pelos dremoras de Skuldafn, e o pessoal de Agronavekh se fechou atrás deles. Logo já estavam levando vantagem sobre os do norte que iam à frente. As ruínas do Labyrinthian começaram a se aproximar.
Ralof estava escoriado e com cortes, a cabeça dolorida raspando na mandíbula nojenta e na orelha peluda do dremora que o carregava. Imediatamente à frente iam costas arcadas, e pernas grossas e fortes subiam e desciam, subiam e desciam, incansáveis, como se fossem feitas de fibra e força, marcando os segundos de um pesadelo interminável.
Durante a tarde, a tropa de Orakhven ultrapassou os dremoras de Skuldafn. Eles estavam ficando fatigados com os raios brilhantes do sol, embora fosse apenas um sol de inverno reluzindo num céu frio e pálido; estavam com as cabeças curvadas e as línguas de fora.
— Vermes! — zombavam os valkynaz. — Vocês estão fritos. Os homens vão capturá-los e comê-los. Eles estão chegando!
Um grito de Agronavekh demonstrou que isso não era uma simples brincadeira. Cavaleiros, cavalgando muito rápido, tinham realmente sido vistos: ainda bem atrás, mas avançando mais depressa que os dremoras, ganhando terreno como uma onda que avança sobre uma planície onde pessoas estão sendo tragadas pela areia movediça.
Os valkynaz começaram a correr num ritmo duas vezes maior, o que deixou Ralof atônito, parecia um arranque espetacular no final de uma corrida. Então ele viu que o sol afundava, caindo atrás das montanhas; as sombras cobriram toda a terra. Os soldados de Skuldafn ergueram as cabeças e também começaram a aumentar a velocidade. A floresta era escura e densa. Já tinham ultrapassado algumas árvores externas. O terreno começava a subir, ficando cada vez mais íngreme; mas os dremoras não pararam. Tanto Orakhven como Agronavekh gritavam, incitando-os a avançar num último esforço.
“Eles ainda vão conseguir. Vão escapar”, pensou Ralof. Então conseguiu virar o pescoço, a fim de olhar para trás por sobre os ombros com um olho. Viu que os cavaleiros no leste já estavam emparelhados com os dremoras, galopando sobre a planície.
O sol que se punha dourava suas lanças e capacetes, e reluzia em seus cabelos escuros e esvoaçantes. Estavam cercando os dremoras, impedindo que se espalhassem, e conduzindo-os ao longo do começo das ruínas. Queria muito saber que tipo de povo eram eles. Gostaria agora de ter aprendido mais em Alta Hrothgar, e examinado mais mapas e coisas; mas naqueles dias os planos para a jornada pareciam estar em mãos mais competentes, e ele jamais tinha considerado a hipótese de se separar de Savos, ou de Vorstag. Tudo que podia lembrar de Morthal era que forças imperiais viviam naquela terra. Esse fato lhe trazia esperanças ao mesmo tempo que trazia certo medo.
“Mas como vão saber que não somos monstros também?”, pensou ele. “Não acho que vão suspeitar que eu seja um homem, para minha infelicidade; nem um stormcloak, para a minha felicidade. Acho que devo ficar feliz com a probabilidade de esses monstros animalescos serem destruídos, mas gostaria mais se fosse salvo.” As chances eram de que ele e Meeko fossem mortos juntos com os que os capturaram, antes mesmo que os homens de Morthal tomassem conhecimento deles.
Alguns dos cavaleiros pareciam ser arqueiros, treinados para atirar de um cavalo em movimento. Cavalgando rápido para ficarem ao alcance, eles atiraram flechas nos dremoras que estavam mais atrás, e vários caíram; então os cavaleiros saíram do alcance das flechas dos inimigos, que atiravam alucinadamente, não ousando parar.
Isso aconteceu várias vezes, e em uma ocasião as flechas caíram entre os valkynaz. Um deles, bem à frente de Ralof, tropeçou e não se levantou mais. A noite caiu sem que os cavaleiros se aproximassem para a batalha. Muitos dremoras tinham caído, mas com certeza uns duzentos ainda restavam. Na escuridão precoce os dremoras encontraram um montículo. As bordas do Labyrinthian estavam muito próximas, provavelmente a menos de seiscentos metros de distância, mas eles não conseguiam avançar mais. Os cavaleiros tinham feito um círculo em volta deles. Um pequeno grupo desobedeceu a ordem de Orakhven, e continuou correndo para a floresta: só três retornaram.
— Bem, aqui estamos — zombou Agronavekh. — ótima liderança! Espero que o grande Orakhven nos tire do perigo outra vez.
— Ponha esses dois no chão! — ordenou Orakhven, sem dar atenção a Agronavekh. — Você, Sethven, pegue mais dois e fique vigiando! Eles não devem ser mortos, a não ser que os nojentos mortais invadam nosso grupo. Entendeu? Enquanto eu estiver vivo, eu os quero. Mas eles não devem gritar e nem ser resgatados. Prenda as pernas deles!
A última parte da ordem foi cumprida impiedosamente. Mas Ralof viu que pela primeira vez estava perto de seu fiel cão. Os dremoras estavam fazendo um enorme barulho, gritando e batendo as armas, e os Ralof conseguiu ficar por um momento com Meeko.
— Não tenho muita esperança de sair dessa situação — disse Ralof. — Sinto-me quase morto. Não acho que conseguiria me arrastar para longe, mesmo que estivesse livre..
Mas nesse mesmo momento um chute impiedoso avisou Ralof que o barulho tinha diminuído, e que os guardas estavam alerta. A noite estava fria e quieta. Por toda a volta do pequeno monte onde os dremoras estavam reunidos, pequenas fogueiras apareceram, num vermelho dourado naquela escuridão, um círculo completo delas. Estavam no raio de um tiro longo de flecha, mas os cavaleiros não se mostravam contra a luz, e os dremoras desperdiçaram muitas flechas atirando nas fogueiras, até que Orakhven mandou que parassem. Os cavaleiros não faziam ruído algum. Mais tarde da noite, quando a lua saiu da névoa, eles podiam às vezes ser vistos, figuras sombrias que cintilavam uma vez ou outra na luz branca, conforme se moviam numa patrulha ininterrupta.
— Eles vão esperar o sol, malditos! — resmungou um dos guardas. — Por que não nos reunimos e atacamos? O que o velho Orakhven pensa que está fazendo? Gostaria de saber!
— Garanto que gostaria — rosnou Orakhven, chegando por trás. — Quer dizer que eu não penso nada, né? Malditos! Vocês são tão péssimos quanto a outra canalha: os vermes e macacos de Sethdoth. Não adianta tentar atacar com eles. Só iriam gritar e fugir feito raios, e há mais cavaleiros que o suficiente para varrer nosso grupo da planície. Só há uma coisa que esses vermes conseguem fazer: eles enxergam no escuro como corujas. Mas esses homens têm uma visão noturna melhor que a maioria dos homens, por tudo que já ouvi dizer; e não se esqueça dos cavalos! Eles enxergam a brisa da noite, ou pelo menos é o que se diz. Apesar disso, há uma coisa que esses gentis companheiros não sabem: Ganonuh e seus rapazes estão na floresta, e devem aparecer a qualquer momento.
As palavras de Orakhven foram o bastante, aparentemente, para satisfazer os valkynaz, mas os outros dremoras estavam desmotivados e rebeldes. Colocaram alguns vigias, mas a maioria deles se deitava no chão, descansando na escuridão agradável. Ficou realmente muito escuro outra vez, pois a lua passou ao leste, sendo coberta por uma densa nuvem, e Ralof não conseguia ver nada a mais de um metro de distância. As fogueiras não traziam luz ao montículo. Entretanto, os cavaleiros não estavam satisfeitos simplesmente em esperar a aurora e deixar que os inimigos descansassem. Um grito repentino no lado oeste do pequeno monte mostrou que alguma coisa estava errada.
Parecia que alguns homens tinham chegado mais perto e descido dos cavalos, arrastando-se até o acampamento e matando vários dremoras, e depois tinham desaparecido outra vez. Orakhven se atirou naquela direção para evitar uma debandada. Ralof e Meeko se sentaram. Os guardas, dremoras valkynaz, tinham ido com Orakhven. Mas se os dois chegaram a pensar em fugir esse pensamento foi logo frustrado. Um braço comprido e peludo os pegou pelo pescoço e os trouxe para perto um do outro.
Perceberam vagamente a grande cabeça de Agronavekh e seu rosto odioso e pintado de vermelho entre eles; o hálito nojento do monstro daédrico batia-lhe na bochecha. Começou a apalpá-los e tateá-los. Ralof tremeu quando os dedos duros e gelados de metal desceram pelas suas costas.
— Bem, meu querido mortal e sua serventia canina! — disse Agronavekh num sussurro suave. — Gostando do descanso? Ou não? Lugar um pouco inadequado, talvez: espadas e chicotes de um lado, e lanças incômodas do outro! Mortais não deveriam se meter em assuntos dos seres que não morrem e não mudam.
Os dedos continuavam procurando alguma coisa. Havia uma luz semelhante a um fogo pálido, mas quente, em seus olhos. O pensamento chegou de repente à mente de Ralof, como se capturado diretamente da idéia óbvia do próprio inimigo: “Agronavekh sabe da Demanda! Está procurando algum sinal, enquanto Orakhven está ocupado: provavelmente é Vorstag quem ele quer.” Um pavor frio tomou conta do coração de Ralof, mas ao mesmo tempo ele pensava em como poderia se utilizar do desejo de Agronavekh.
— Acho que não vai saber desta maneira — sussurrou ele. — Não é fácil ser um errante com tantas informações e tarefas, mas não adianta de nada torturar um mensageiro.
— Saber? — disse Agronavekh: seus dedos pararam de se mover e agarraram o ombro de Ralof. — Encontrar o quê? De que está falando, mortal?
— Nada, — disse ele, e depois acrescentou — ou talvez uma lenda.
Os dois sentiram os dedos de Agronavekh se crispando. — Oh, oh! Chiou o dremora baixinho. — É disso que ele está falando, é? Oh, oh! Muito, muito perigoso, mortal.
Meeko soltou um latido.
— Talvez: e não só para nós. Mas você sabe das suas coisas melhor que nós. Você quer saber onde está ele? E o que daria em troca?
— Se eu quero? Se eu quero? — disse Agronavekh, como se estivesse confuso; mas seus braços tremiam. — O que eu daria em troca? Que está querendo dizer?
— Quero dizer — disse Ralof, escolhendo com cuidado as palavras — que não adianta ficar tateando no escuro. Poderíamos poupar tempo e problemas. Mas primeiro você tem de desamarrar nossas pernas, ou não farei nada, e não direi nada também.
— Meu querido e terno tolo — chiou Agronavekh —, tudo o que vocês têm e tudo o que sabem será tirado de vocês na hora certa: tudo! Até mesmo a memória do cachorro será lida! Vocês vão desejar ter mais coisas a dizer para satisfazer o Interrogador, ah, se vão: logo, logo. Não vamos apressar o interrogatório, de jeito nenhum! Por que acham que foram mantidos vivos? Meus mortais companheiros, acreditem quando digo que não foi por gentileza: esse não é sequer um dos defeitos de Orakhven.
— Acho muito fácil acreditar — disse Ralof. — Mas vocês ainda não levaram seus prisioneiros para casa. E não parece que vão levar a melhor nessa situação, aconteça o que acontecer. Se chegarmos a Winterhold, não será o grande Agronavekh o beneficiado: Ancano vai descobrir tudo o que possa saber, e será ele o mensageiro, não você. Se você quer alguma coisa para si mesmo, agora é o momento de fazermos um trato.
Agronavekh começou a ficar zangado. O nome de Ancano parecia enraivecê-lo particularmente. O tempo passava e o tumulto estava diminuindo. Orakhven ou os valkynaz podiam voltar a qualquer momento.
— Sabem onde ele está? Ele andou com os dois? — rosnou ele.
— Desamarre nossas pernas! — disse Ralof.
Sentiram os braços do dremora tremendo violentamente. — Malditos sejam, seus mortais, vermes nojentos! — disse ele num chiado. — Desamarrar suas pernas. Vou desamarrar cada fibra de seus corpos. Acham que não posso revistá-los até os ossos por sinais? Revistá-los! Vou cortar os dois em tiras bem fininhas. Não preciso da ajuda de suas pernas para levá-los para longe, e ter vocês inteiramente para mim!
De repente agarrou-os. A força dos braços compridos e ombros era aterradora. Meteu-os um debaixo de cada braço, e os apertou com força ao corpo; uma mão grande e sufocante cobria-lhes a boca. Meeko tentou mordê-lo e latir, mas não conseguia. Depois, de um salto, saiu correndo agachado. Ia depressa e sem barulho, até chegar à beira do pequeno monte. Ali, escolhendo um espaço entre os guardas, passou como uma sombra maligna para dentro da noite, descendo a encosta e dirigindo-se para o oeste na direção do rio que vinha da floresta. Naquela direção havia um espaço amplo e aberto, com apenas uma fogueira.
Depois de andar uns doze metros, ele parou, espiando e escutando. Não se via nem se ouvia nada. Continuou se arrastando devagar, quase totalmente curvado. Então agachou-se e escutou outra vez. Depois levantou-se como se fosse arriscar uma corrida súbita. Nesse mesmo momento, a figura escura de um cavaleiro se ergueu bem diante dele. Um cavalo bufou e empinou. Um homem gritou.
Agronavekh se jogou no chão, arrastando os dois debaixo dele; então puxou a espada. Sem dúvida, sua idéia era matar os prisioneiros, antes de deixá-los escapar para serem resgatados; mas foi aí que ele errou. A espada ressoou baixinho, e reluziu um pouco à luz da fogueira que estava adiante, à sua esquerda. Uma flecha veio da escuridão assobiando: desferida com habilidade, ou guiada pela sorte, atingiu a mão direita do dremora, que deixou cair a espada e gritou com sua terrível voz grossa. Ouviu-se a batida rápida de cascos, e no momento em que Agronavekh levantava e corria foi pisoteado e uma lança atravessou-lhe o corpo. Depois de um tremor e grito medonhos, caiu sobre o chão sem se mover mais.
Os dois continuaram deitados no solo, como Agronavekh os tinha deixado. Outro cavaleiro veio depressa para ajudar seu companheiro. Fosse por alguma agudeza especial de visão, ou por algum outro sentido, o cavalo subiu e saltou sobre eles com leveza; mas o cavaleiro não os viu, pois estavam deitados e cobertos pela neve, arrasados e amedrontados demais naquele momento para se mexer.
Finalmente Ralof se mexeu e sussurrou baixinho: — Até agora, tudo bem: mas como nós podemos evitar sermos espetados?
A resposta veio quase imediatamente. Os gritos de Agronavekh tinham despertado os monstros daédricos. Pelos gritos e guinchos vindos do montículo onde as ruínas do Labyrinthian começavam, os dois supuseram que seu desaparecimento fora descoberto: Orakhven provavelmente estava arrancando mais algumas cabeças. Então, de repente, vozes de dremoras em gritos de resposta vieram da direita, de fora do círculo de fogueiras, da direção da floresta e das montanhas.
Aparentemente, Ganonuh tinha chegado e estava atacando os sitiadores. Ouviu-se o som de cavalos galopando. Os Cavaleiros estavam fechando o cerco em volta do pequeno monte, arriscando-se às flechas dos dremoras de modo a prevenir qualquer outro ataque, enquanto um grupo se afastava para cuidar dos recém-chegados. De repente, Ralof percebeu que sem se mexer ele e Meeko estavam agora fora do círculo: nada restava entre eles e a fuga.
— Precisamos fugir — disse ele. — Só um momentinho, Meeko, meu garoto! — A espada de Agronavekh estava próxima, mas era pesada demais e desajeitada para que ele pudesse usá-la; então arrastou-se à frente, e encontrando o corpo do dremora tirou da bainha uma faca longa e afiada.
Com ela cortou rapidamente as amarras.
— Agora vamos! — disse ele. — Quando estivermos um pouco aquecidos, talvez eu possa ficar de pé outra vez, ou até caminhar. Mas de qualquer forma é melhor começarmos nos arrastando. Você pode correr!
Meeko foi na frente, correndo pela passagem leste do Labyrinthian. Eram longos corredores que davam numa grande muralha, e a neve era funda e fofa, e isso os ajudou; mas parecia uma tarefa longa e demorada. Mantendo uma distância segura da fogueira, Ralof arrastou-se, avançando pouco a pouco, e depois se levantou e correu como pôde, até ele e Meeko chegarem ao outro lado do Labyrinthian, sem passar pelas ruínas, mas o atravessando. Então olharam para trás.
Os sons tinham sumido. Evidentemente, Ganonuh e seus “rapazes” tinham sido mortos ou derrotados. Os Cavaleiros tinham retornado à sua vigia silenciosa e agourenta. Não duraria muito mais. A noite já estava bem avançada. No leste, que tinha permanecido sem nuvens, o céu começava a clarear.
— Devemos procurar um abrigo — disse Ralof —, ou seremos vistos. Não vai ser consolo para nós se alguns desses Cavaleiros descobrirem que não somos dremoras depois que estivermos mortos. Aquelas cordas me cortaram como arame, mas meus pés estão se aquecendo de novo. Eu conseguiria andar agora, com alguma dificuldade. E você, Meeko?
Meeko soltou um latido alegre. — Sim — disse Ralof de novo. — Eu consigo. E também uma sensação mais agradável que a quentura daquela bebida dos dremoras. Pergunto-me do que é feita. Acho que é melhor não saber. Vamos tomar um gole de água e lavar a lembrança daquele gosto. Aqui não, enquanto não houver um lago ou um rio — disse Ralof. — Para a frente agora! Talvez ainda possamos chegar a Windhelm! Conduza-nos para frente, Meeko! — disse Ralof. — Ou para trás! Fomos avisados para não atravessarmos o Labyrinthian. Mas alguém tão sabido não esqueceria isso. Eu não esqueci; mas, mesmo assim, entrar na floresta me parece melhor do que voltar para o meio da batalha.
Foi à frente sob as grandes colunas e ruínas. Pareciam incalculavelmente antigas. A neve agora, conforme chegavam na outra parte do Labyrinthian, começava a cair menos, e mais a frente não havia neve, apenas o capim amarelado como o que vira em Whiterun. Das sombras os dois espiaram, olhando para a encosta que descia: pequenas figuras furtivas, um caminhante e seu fiel servo canino, espiando de Bromjunaar, admiradas ao ver a aurora.
Bem adiante, do outro lado do Rio Karth, e das Terras do Pântano, léguas após léguas cinzentas de distância, a Aurora chegou, vermelha como fogo. Fortes ecoaram as cornetas dos caçadores para saudá-la. Os Cavaleiros de Morthal saltaram subitamente para a vida. Cornetas responderam a cornetas outra vez. Meeko e Ralof ouviram, nítido no ar frio, o relinchar de cavalos de guerra, e o canto súbito de muitos homens. A borda do sol se levantou, um arco de fogo sobre a margem do mundo. Então, com um grande grito, os cavaleiros atacaram do leste; a luz vermelha reluzia nas malhas e nas lanças. Os dremora berravam e atiravam todas as flechas que ainda tinham. Os dois viram vários cavaleiros caírem; mas a fileira deles manteve sua formação subindo a colina e passando sobre ela, fez uma volta e atacou de novo. A maior parte dos invasores que permaneceram vivos se separaram e fugiram, para todos os lados, perseguidos até a morte um a um. Mas um bando, permanecendo junto numa mancha negra, dirigiu-se resolutamente para a floresta. Subindo a colina, avançaram na direção dos observadores. Agora estavam se aproximando, e parecia certeza que iam escapar: já tinham derrubado três cavaleiros que tentaram barrar seu caminho.
— Observamos durante muito tempo — disse Ralof. — Ali vem Orakhven! Não quero encontrá-lo de novo.
Os dois voltaram-se e fugiram encosta abaixo.
Foi por isso que não viram o último confronto, quando Orakhven foi derrotado e acuado exatamente na fronteira do Labyrinthian. Ali foi morto por Adgard de Morthal, que desceu do cavalo e lutou com ele, espada contra espada. E através da ampla ruína os cavaleiros de olhos argutos caçaram os poucos dremoras que tinham escapado e ainda tinham forças para fugir. Em seguida, após colocarem os companheiros mortos num túmulo, e cantarem seus méritos, os cavaleiros fizeram uma grande fogueira e espalharam as cinzas de seus inimigos.
Assim terminou o ataque, e nenhuma notícia dele jamais chegou a Skuldafn ou a Winterhold; mas a fumaça da fogueira subiu alto no céu e foi vista por muitos olhos atentos.
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