DdAH: O Colégio de Winterhold
5 Ayarg Garag
Enquanto isso Ralof e seu fiel Meeko iam a toda velocidade que as encostas inclinadas permitiam, seguindo as pedras, para o leste e para baixo, na direção das encostas das montanhas, entrando cada vez mais no coração do Estado Pálido. Lentamente, o medo que sentiam dos dremoras foi desaparecendo, e seu passo diminuindo. Uma estranha sensação de sufocamento tomou conta deles, como se o ar fosse muito escasso e rarefeito para que pudessem respirá-lo.
Finalmente, Meeko parou. — Não podemos continuar assim — disse Ralof ofegando e afagando a cabeça do cão. — Precisamos de um pouco de ar. De qualquer forma, vamos beber alguma coisa. Estou ressecado.
Ajoelhou-se sob uma grande pedra que estava fincada no chão, e perto dela havia uma pequena poça cristalina, agachando-se, pegou um pouco de água nas mãos em concha. A água era fria e clara, e ele bebeu vários goles. Meeko fez o mesmo. A água os reconfortou e pareceu alegrar-lhes o coração; por um tempo ficaram ali sentados, na borda da poça, mergulhando na água pés e pernas doloridos, espiando as pedras que se erguiam silenciosas ao redor deles, fileira após fileira, até desaparecerem dentro do crepúsculo cinzento, em todas as direções.
— Suponho que você ainda não nos tenha feito perder o caminho — disse Ralof, encostando-se na mesma grande pedra. — Pelo menos podemos seguir o curso das pedras para leste e chegar ao Lago Yorgrim. Ou poderíamos, se nossas pernas conseguissem e se conseguíssemos respirar adequadamente. Sim, mal consigo respirar. E nossos suprimentos estão escassos. Fugimos sem levar quase nada, a não ser alguns pacotes a mais de troll-doce, e deixamos tudo para trás. — Olharam para o que restou dos bolos: pedaços quebrados que poderiam durar cerca de cinco dias de necessidade, isso era tudo. — E nenhum agasalho ou cobertor — disse ele, — Vamos sentir frio à noite, qualquer que seja a direção que tomemos. Bem, é melhor decidirmos isso agora. A manhã deve estar avançando.
Nesse exato momento, perceberam uma luz amarela que tinha aparecido, a alguma distância mais além da região que estavam: lanças de luz solar pareciam ter perfurado repentinamente suas visões.
Meeko latiu e pulou. — O sol deve ter entrado numa nuvem enquanto estivemos aqui nessa região de túmulos, e agora ele saiu novamente; ou então subiu o suficiente para olhar de cima, através de alguma abertura. Não está longe — vamos investigar!
Descobriram que a claridade estava mais longe do que tinham imaginado. O solo subia de modo abrupto, ficando cada vez mais pedregoso. A luz ficou mais forte conforme avançaram, e logo perceberam que havia uma muralha de rocha diante deles: a encosta de uma colina, ou a extremidade abrupta de alguma longa raiz das montanhas distantes. Nenhuma árvore crescia nela, e o sol batia em cheio sobre a face de pedra. Os braços do capim amarelado estavam estendidos e completamente paralisados, como se tentassem alcançar o calor. Onde tudo parecera tão desolado e cinzento antes, a planície agora reluzia com ricas tonalidades amarelado, e com o branco-acinzentado das pedras espalhadas que parecia prata.
Na superfície da muralha rochosa havia algo como uma escada: talvez natural, feita pela erosão e por fissuras na pedra, pois era áspera e irregular. Na parte de cima, quase na altura da encosta das montanhas nevadas do Labyrinthian, havia um patamar sob um penhasco. Nada crescia ali, com exceção de um pouco de capim e mato nas bordas, e um velho tronco de árvore com apenas dois galhos curvados: parecia quase a figura retorcida de um elfo, parado ali, piscando à luz matinal.
— Para cima! — disse Ralof alegremente. — Vamos em busca de ar e de uma vista panorâmica!
Foram escalando a rocha com dificuldade. Se a escada tivesse sido feita, destinava-se se a pés maiores e pernas mais compridas que as deles. Os dois estavam ansiosos demais para se surpreenderem com o modo notável pelo qual os cortes e ferimentos de seu cativeiro tinham sarado, e o vigor lhes retornara aos corpos. Finalmente chegaram à borda do patamar, quase ao pé do velho tronco; então deram um salto e voltaram as costas para a colina, respirando fundo, e olhando para o leste, Perceberam que tinham avançado apenas umas três ou quatro milhas acima; as cabeças das árvores que agora surgiam marchavam encosta acima em direção à planície.
Então seguiram oeste. Continuaram por muito tempo até pararem para descansar perto de um grande pinheiro como uma enorme fogueira. No sul, Ralof pôde ver, escondida nas cinzas que uma fogueira imensa fazia, a Fortaleza do Dragão de Whiterun. Nesse ponto, longas espirais de fumaça negra e encaracolada subiam, oscilando e flutuando na direção deles.
— O vento está mudando — disse Ralof. — Voltou-se para o leste outra vez. Está frio aqui, Meeko. A neve está voltando. Receio que essa claridade seja passageira, e que tudo fique cinzento outra vez. Que pena! Essa velha planície ficava tão diferente à luz do sol! Quase senti que gostava do lugar.
— Quase sentiu que gostava do Descanso da Tempestade! Isso é bom! Você foi de uma gentileza rara — disse uma voz estranha e gutural numa voz tão grossa que Ralof achou ser um dremora. — Virem-se e deixem-me dar uma olhada em seus rostos, homem e cão. Quase senti que não gostava de vocês dois, mas não sejamos apressados. Virem-se! — Uma grande mão, do tamanho de Ralof, com saliências nodosas pousou nos ombros de cada um deles, e eles foram virados, suave mas irresistivelmente; depois dois grandes braços os ergueram. Meeko ficou pendurado pelo rabo e guinchou.
Descobriram-se olhando para um rosto extraordinário. Pertencia a uma figura semelhante a um homem, quase semelhante a um troll, de pelo menos quatro metros e meio de altura, muito robusta, com uma grande, com o pescoço escondido por uma longa barba castanha e trançada, amarrada por anéis de madeira. Suas orelhas eram pontudas como as de um elfo da floresta. Se os ossos de mamute e palha que cobriam seu corpo eram uma armadura ou somente uma roupa era difícil dizer. De qualquer forma, os braços, numa pequena distância do tronco, não eram enrugados, mas cobertos de uma pele lisa e castanha. Cada um dos pés tinha o tamanho de um cavalo. Mas naquela hora os dois notaram pouca coisa além dos olhos. Uns olhos profundos, lentos e solenes, mas muito penetrantes. Eram castanhos, carregados de uma luz esverdeada. Tempos depois, freqüentemente Ralof tentou descrever a primeira impressão que teve deles.
A sensação era como se houvesse um poço enorme atrás deles, cheio de eras de memória e de um pensamento constante, longo, lento; mas a superfície faiscava com o presente: como o sol tremeluzindo nas folhas externas de uma imensa árvore, ou nas ondas de um lago muito fundo.
— Uhum — murmurou a voz, uma voz profunda como um instrumento de sopro muito grave. — Realmente muito estranho! Não se apresse, esta é minha casa. Mas se eu tivesse visto vocês antes de ouvir suas vozes, gostei delas: agradáveis pequenas vozes; fizeram-me pensar em algo de que não consigo me lembrar -, se tivesse visto vocês antes de ouvi-los, teria simplesmente pisado em vocês, tomando-os por pequenos monstros de Oblivion, e só perceberia o erro depois. Muito estranhos são vocês, realmente. Mamute e queijo, muito estranhos!
Ralof, embora ainda pasmo, não sentia mais medo. Sob aqueles olhos sentia um curioso suspense, mas não medo. — Por favor — disse ele quem é você?
Um olhar estranho surgiu nos velhos olhos, um tipo de cautela; os poços fundos estavam cobertos. — Huum, agora — respondeu a voz —; bem, eu sou um gigante, ou é assim que me chamam. Sim, gigante é a palavra, embora vocês dois que sejam os pequeninos aqui. O gigante, eu sou, você pode dizer, no seu modo de falar. Garat Ayar é meu nome segundo alguns dos meus amigos gigantes, outros me chamam de Malatar, ou grande homem em ayleidun. Malatar está bom.
— Um gigante — disse Ralof, e Meeko pulou no ombro de Malatar, latindo alegremente. — Achei que vivessem somente nas lendas do... do Gigante Adormecido. Mas como você próprio se chama? Qual é o seu nome verdadeiro? Eu sou Ralof, e este é meu cão Meeko.
— Huuum, que pergunta! — respondeu Malatar. — Huuum! Isso já daria uma história! Não tão depressa. E eu estou fazendo as perguntas. Vocês estão no meu território. Quem são vocês, eu me pergunto? Não consigo classificá-los. Parece que vocês não estão na lista das pessoas que passam aqui ultimamente, pois elas não usam mais roupas moles como você, só duras e de metal. Eu aprendi uma lista em minha própria língua quando era jovem. Mas isso foi há muito, muito tempo, e pode ser que eles tenham feito listas novas. Deixe-me ver! Deixe-me ver! Como era mesmo? Aprende a lição dos seres viventes! Nomear os povos: os filhos de Aldmeris que são os mais velhos; khajiit andador de areia; anão amarelo cavador de casas escuras, o gigante e seu mamute; homem mortal, senhor dos animais... Hum, hum, hum, hum, como era mesmo? Hum hum, hum hum, rum tum tum. Era uma longa lista. Acho que você é um homem mortal. Hum! Nada mal, nada mal. Assim ficaria bem. Então vocês vivem andando, hein? Sôa muito correto e adequado. Já eu nunca ando. Mas quem chama vocês de Ralof e Meeko? Não me parecem nomes em ayleidun, nem na linguagem dos altos elfos. Os altmer fizeram todas as palavras antigas: eles começaram isso.
— São nomes nórdicos; minha mãe e o antigo dono do meu companheiro nos batizaram, respectivamente — disse Ralof.
— Hum, hum! Esperem um pouco! Não tão depressa! Vocês se chamam pelos seus próprios nomes? Mas então não deveriam dizer isso a qualquer um. Vão revelar seus próprios nomes corretos, se não forem cautelosos!
— Não temos cautela em relação a isso — disse Ralof. — Para falar a verdade, sou de Riverwood, e meu nome é bem conhecido por lá, Ralof de Riverwood, embora a maior parte das pessoas me chame simplesmente de Ralof. E este é Meeko, meu cachorro.
— Hum, mas vocês são seres apressados, estou vendo — disse Malatar. — Fico honrado com a confiança que depositam em mim; mas não deveriam ficar assim totalmente à vontade tão depressa. Há gigantes e gigantes, vocês sabem; ou há gigantes e seres que se parecem com gigantes mas não são, por assim dizer. Vou chamá-los de Ralof e Meeko se isso lhes agrada — bons nomes. Pois não vou lhes dizer meu nome; não por enquanto, de qualquer forma. — Um olhar estranho, meio irônico e meio sábio, veio de seus olhos numa centelha esverdeada. — Em primeiro lugar, porque vocês não entenderiam; meu nome são três palavras. Os nomes verdadeiros, na minha língua, contam as histórias dos seres a quem pertencem. No velho gigantês, como vocês diriam. É uma língua adorável, e a maioria do meu povo não se dá ao trabalho de aprender a linguagem comum, e ficamos limitados a conversar um com os outros, o que é terrível, pois não conversamos. Mas, agora — e os olhos ficaram muito brilhantes e “presentes”, dando a impressão de terem diminuído e quase ficado aguçados —, o que está acontecendo? Posso ver e ouvir (e cheirar e sentir) muita coisa, desse, desse, desse... Desculpem, essa é parte do meu nome para essa coisa: não sei qual é a palavra nas línguas de fora: vocês sabem, a coisa na qual estamos, onde eu fico e olho ao redor nas manhãs agradáveis, e penso no sol, e na relva além da floresta, e nos cavalos, e nas nuvens, e no desabrochar do mundo. O que está acontecendo? O que Savos Aren está fazendo? E esses — markynaz -, ele soltou um enorme estrondo, como uma dissonância num grande órgão -, esses monstros de Oblivion, e o jovem Ancano lá em Winterhold? Gosto de notícias. Esses dois vieram muito ter comigo nesses últimos anos. Mas não sejam muito apressados agora.
— Tem muita coisa acontecendo — disse Ralof —, e mesmo que eu tentasse ser rápido levaria muito tempo para contar. Mas você disse para não nos apressarmos. Devemos contar-lhe alguma coisa logo? Seria rude se perguntássemos o que vai fazer conosco, e de qual lado está? E você conheceu Savos?
— Sim, eu o conheço: o único mago que realmente se preocupa com os gigantes — disse Malatar. — Vocês o conhecem?
— Sim — disse Ralof tristemente —, conhecíamos. Bem, o pequeno Meeko não chegou a conhecê-lo. Ele era um grande amigo, e nosso guia.
— Então posso responder a suas outras perguntas — disse Malatar. — Não vou fazer nada com vocês: não se com isso vocês estiverem querendo dizer “fazer algo a vocês” sem sua permissão. Podemos fazer algumas coisas juntos. Não sei nada sobre lados. Sigo meu próprio caminho, mas o caminho de vocês pode acompanhar o meu por um tempo. Mas vocês falam do Mestre Elfo Savos como se ele estivesse numa história que tivesse chegado ao fim.
— Sim, falamos — disse Ralof tristemente. — A história parece estar continuando, mas receio que Savos tenha caído fora dela.
— Huum, esperem agora! — disse Malatar. — Hum, hum, ah, bem. — Ele parou e olhou longamente para Meeko. — Hum, ah, bem, não sei o que dizer. Esperem um pouco!
— Se quiser escutar mais — disse Ralof —, nós podemos contar. Mas vai levar algum tempo. Você não gostaria de nos pôr no chão? Não poderíamos sentar juntos ao sol, enquanto ainda o temos? Você deve estar ficando cansado de nos carregar.
— Hum, cansado? Não, não estou cansado. Não me canso facilmente. E não me sento. Não sou muito, inclinável. Mas olhem, o sol está entrando. Vamos deixar esta — vocês disseram como o chamam?
— Colina? — sugeriu Ralof.
Malatar repetiu as palavras pensativamente. — Colina. Sim, era isso. Mas é uma palavra rápida para uma coisa que está aqui desde que esta parte do mundo foi formada. Não importa. Vamos deixá-la e ir.
— Aonde vamos? — perguntou Ralof.
— Para minha casa, ou uma de minhas casas — respondeu Malatar.
— É longe?
— Não sei. Vocês podem dizer que é longe, talvez, mas que importância tem isso? É bem ali abaixo.
— Bem, você sabe, perdemos todas as nossas coisas — disse Ralof. — Temos só um pouco de comida.
— Oh! Hum! Vocês não precisam se preocupar com isso — disse Malatar. — Posso lhes dar uma bebida que os manterá verdes e crescendo até ficar como eu por um longo, longo tempo. E se decidirmos nos separar posso colocá-los fora de meu território em qualquer ponto que escolherem. Vamos!
Segurando Ralof suavemente, mas com firmeza, Ralof e Meeko, cada um na curva de cada braço, Malatar levantou primeiro um de seus pés grandes, e depois o outro, levando-os até a borda do patamar rochoso. Os dedos em forma de raiz agarraram as rochas. Depois, cuidadosamente, ele foi descendo degrau por degrau, e chegou ao chão com o capim amarelo.
Imediatamente partiu com passos enormes e deliberados através dos pinheiros. Todo o tempo, enquanto andava, ele falava consigo mesmo, numa longa cadeia contínua de sons musicais. Os dois ficaram em silêncio por um tempo quando ele chegou ao meio dos pinheiros. Muitos mamutes imensos andavam por ali, enrolando a tromba em árvores. Ralof e Meeko sentiam-se, por incrível que pareça, confortáveis e a salvo, e Ralof tinha muito o que pensar e ponderar. Finalmente, ele arriscou falar de novo.
— Por favor, Malatar — disse ele —, posso lhe perguntar uma coisa? Por que fomos advertidos de atravessar o Labyrinthian pelo Jarl de Whiterun? Ele nos disse que não nos arriscássemos a nos embrenhar nela. Qual é o mal, se fizemos isso tão rápido, e chegamos aqui e nos deparamos com um amigo?
— Hum, ele disse, é? — ribombou Malatar. — E eu poderia ter dito o mesmo, se vocês estivessem indo daqui para lá. Não se arrisquem a se embrenhar na floresta de Auraneadonai! É assim que os elfos da floresta costumavam chamá-la, mas seus donos, os nórdicos, dizem Whiterun, é como a chamam. Talvez estejam certos: talvez o mundo esteja sumindo e não crescendo. Terra do Cavalo Amarelo era como se chamava há muito tempo. Agora é só Whiterun. Ah, bem! Mas é um lugar estranho, e não é para qualquer um se aventurar lá perto. Caçam meus confrades gigantes. Fico surpreso em saber que vocês conseguiram sair de lá, mas muito mais surpreso ao pensar que vocês conseguiram entrar. É um lugar estranho. Pelo menos para nós, os gigantes. E este também é. Muitos encontraram a tristeza aqui. Sim, encontraram tristeza. Eles de certa forma estão ficando para trás do mundo lá, eu acho — disse ele. — Nem este lugar, nem qualquer outra coisa no Estado de Whiterun, é aquilo que era quando os Um-Olho eram jovens. Mas os gigantes permanecem, eles costumavam dizer. As coisas mudaram, mas isso ainda é verdade em alguns lugares. As árvores, os gigantes e as águas — disse Malatar. — Eu mesmo não entendo tudo o que está acontecendo, por isso não posso lhes explicar. Alguns de nós ainda são gigantes verdadeiros, e bastante normais à nossa própria maneira, mas muitos estão ficando agressivos, ficando selvagenescos, por assim dizer. A maioria dos gigantes ainda são amigos dos mamutes, é claro; mas muitos são semi-normais. Outros estão bastante normais, e alguns estão, bem, ah, bem, ficando gigantescos demais, e isso é perigoso. Isso está acontecendo o tempo todo. Quando isso acontece a um gigante, você descobre que algumas têm corações maus. Esse tipo de coisa parece estar se espalhando. Costumava haver uns campos muitos perigosos nesse Estado. Ainda existem.
— Como os gigantes que atacam Whiterun, você quer dizer? — perguntou Ralof, sugestivo e com medo de ter feito uma pergunta ofensiva.
— É, é, alguma coisa assim, mas muito pior. Não duvido que exista alguma sombra das Grandes Crises pairando ainda no Norte de Tamrielle, e más recordações se transmitem de geração a geração. Mas existem vales claros nesta terra onde a Escuridão nunca foi devassada, e onde os gigantes e seus mamutes são mais velhos que eu. Mesmo assim, fazemos o que podemos. Mantemos à distância forasteiros e atrevidos; e ensinamos e treinamos, caminhando e carpindo. Somos pastores de mamutes, nós, os velhos gigantes. Restou um número suficiente de nossa espécie. As ovelhas ficam como os pastores, e os pastores como as ovelhas, é o que se diz; mas lentamente, e nenhum dos dois permanece multo no mundo. Acontece mais rápido e mais de perto com os mamutes e os gigantes, e eles caminham juntos através das eras. Pois os gigantes são mais como os elfos da floresta: menos interessados em si próprios do que os homens, e melhores para gostar de os outros seres. E apesar disso os gigantes são mais como os homens, mais mutáveis que os elfos, e mais rápidos para assumir as cores do exterior, por assim dizer. Ou melhores que ambos: pois são mais firmes e mantêm as mentes nas coisas por mais tempo. Alguns de meus parentes estão escondidos em seus campos com seus mamutes atualmente, e precisam de algo grandioso que os desperte; agora só conversam aos sussurros com seus mamutes. Mas alguns conseguem caminhar até aqui, no Descanso da Tempestade, e muitos conseguem conversar comigo. Os anões começaram tudo, é claro, querendo escavar essas terras. Eles sempre desejaram conversar com tudo, os velhos dwemers. Nós que os chamamos de anões pela primeira vez, mas agora vejo que eles tinham um tamanho relativamente normal. Mas depois a Batalha da Montanha Vermelha chegou, e eles desapareceram, ou fugiram para vales distantes e se esconderam, e fizeram canções sobre tempos que jamais voltariam. Nunca mais. É sim, houve um tempo em que eles viviam conosco, e nós vivíamos com eles e com os outros. Aqueles foram dias grandiosos! Houve um tempo em que eu podia caminhar e cantar o dia todo e escutar apenas o eco de minha própria voz nas concavidades das colinas. E o aroma do ar! Eu costumava passar uma semana só respirando.
Malatar ficou em silencio, parado no meio de vários pinheiros. O pisar dos mamutes sacudia a terra. Depois começou a cantar baixinho outra vez, passando então para um canto murmurante.
— Hum! Aqui estamos! — disse Malatar, quebrando o seu longo silêncio. — Trouxe-os em cerca de alguns minutos, mas o que isso representa na medida de sua terra eu não sei. De qualquer forma, estamos perto das raízes da minha casa. Parte do nome deste lugar poderia ser Pinheiros da Tempestade, se fosse transformado em sua língua. Gosto daqui. Vamos ficar esta noite. — Colocou-os sobre a relva entre os corredores de árvores, e eles o seguiram na direção do grande arco. Ralof e Meeko notaram nesse momento que, conforme Malatar andava, uma grande maça em formato de osso feita de madeira e pedra estava amarrada às suas costas. Plantava os grandes dedos dos pés (que eram de fato muito grandes, e largos) no solo primeiro, antes de fazer o mesmo com qualquer outra parte dos pés.
Uma grande mesa de pedra se encontrava ali, mas não havia nenhuma cadeira. No fundo do vão já estava bem escuro. Malatar ergueu duas grandes vasilhas e colocou-as na mesa. Pareciam estar cheias de água, mas quando ele ergueu as mãos sobre elas imediatamente começaram a brilhar, uma com uma luz dourada, e outra com uma luz de um verde profundo; e a mistura das duas luzes iluminou o vão, como se o sol do verão estivesse brilhando através de um teto de folhas novas.
— Bem, bem, agora podemos conversar outra vez — disse Malatar. — Suponho que estejam com sede. Talvez também cansados. Bebam isto!
Caminhou para o fundo do vão, e então Ralof e Meeko viram vários jarros de pedra com tampas pesadas. Ele retirou uma das tampas e afundou uma grande concha, e com ela encheu três tigelas, uma bem grande e duas menores.
— Este é o coração dos pinheiros, minha casa e a de meus mamutes — disse ele —, e receio que não haja lugares para sentar. Mas vocês podem sentar-se na mesa. — Pegando os dois, ele os colocou sobre a grande laje de pedra, a um metro e oitenta centímetros do solo, e ali eles ficaram balançando as pernas e bebendo.
A bebida era como água, na verdade bem semelhante em sabor à água que tinham bebido da poça perto das fronteiras dos pinheiros, e apesar disso havia nela algum aroma ou gosto que eles não conseguiam descrever: era fraco, mas fazia lembrar do cheiro de uma floresta distante, trazido de longe por uma brisa fresca à noite. O efeito da bebida começou nos dedos dos pés, e subiu cada vez mais pelo corpo, trazendo descanso e vigor conforme avançava em seu curso, chegando até as pontas dos cabelos. Na verdade, Ralof sentiu que seus cabelos estavam literalmente em pé, fazendo ondas e cachos, crescendo. Quanto a Malatar, ele primeiro banhou os pés na bacia além do arco, e então esvaziou sua tigela num gole, num longo e lento gole.
Finalmente colocou a tigela outra vez na mesa. — Ah-ah — suspirou ele. — Hum, hum, agora podemos conversar mais tranqüilos. Vocês podem sentar-se no chão, e eu vou me deitar; isso vai evitar que essa bebida suba à minha cabeça e me faça adormecer.
Malatar abaixou-se lentamente até o chão até que se deitou completamente, com os braços atrás da cabeça, olhando para o céu entre os pinheiros, sobre o qual havia luzes piscando, como o jogo das folhas à luz do sol. Meeko e Ralof se sentaram ao lado dele, em almofadas de capim.
— Agora conte-me sua história e não se apresse! — disse Malatar. Ralof começou a lhe contar a história de suas aventuras desde que deixou Riverwood. Não seguiu uma ordem muito clara, pois Malatar sempre cortava a história, e voltava para algum ponto anterior, ou saltava à frente fazendo perguntas sobre acontecimentos posteriores.
Ele não disse nada que se relacionasse ao Dragonborn, e não contou a ele o motivo de terem partido, ou para onde estavam indo; ele não perguntou os motivos. Barbárvore se interessava imensamente por tudo: pelos vampiros, por Arngeir e Alta Hrothgar, pelas Torres Valtheim, pelas Cataratas Ermas e por Whiterun e Farengar. Fez com que ele descrevesse Riverwood e sua região inúmeras vezes. Disse uma coisa estranha nesse ponto. — Vocês nunca viram algum hum, algum gigante por lá, viram? — perguntou ele. — Bem, não gigantes, gigantas eu deveria dizer na verdade.
— Gigantas? — disse Ralof. — São parecidas com vocês?
— Sim, hum, bem, não: na verdade não sei agora — disse Malatar pensativo. — Mas elas gostariam de sua terra, ou pelo menos achei que sim. Entretanto, Malatar estava especialmente interessado em tudo o que concernia a Savos Aren, e acima de tudo interessado em todos os feitos de Ancano. Ralof sentiu muito por saber tão pouco sobre o assunto: apenas um relato muito vago sobre o que Savos dissera no Conselho.
Mas de qualquer forma foram claros em relação a Orakhven e sua tropa terem vindo de Winterhold, e mencionavam Ancano como seu mestre.
— Hum, hum! — disse Malatar, quando a história tinha enveredado para a batalha entre os dremoras e os soldados de Morthal. — Bem, bem! Esse é um bocado de notícias, sem dúvida. Vocês não me contaram tudo, não mesmo, nem de perto. Mas não duvido que vocês estão procedendo como Savos desejaria. Há alguma coisa muito grandiosa acontecendo, isso estou vendo, e o que é talvez eu possa saber no tempo certo, ou no tempo errado. Mamute e queijo, mas é uma coisa estranha: surgem pessoas pequenas que não estão nas antigas listas, e, vejam!, os dragões esquecidos reaparecem para caçá-los, e Savos Aren os leva numa grande viagem, e Fogo-Secreto os acolhe na Fortaleza do Dragão, e os oblivianos os perseguem por todas as milhas do Labyrinthian: na verdade eles parecem estar presos numa grande tempestade. Espero que consigam vencê-la.
— Agora, e sobre você?
— Hum, hum, eu não me preocupei com as grandes guerras — disse Malatar —; elas concernem principalmente a homens e mers. Isso é assunto deles mesmos, ou até mesmo dos magos de Winterhold: os magos estão sempre preocupados com o futuro. Eu não gosto de me preocupar com o futuro. Ninguém se preocupa com as florestas como eu me preocupo, nem mesmo os elfos hoje em dia. Apesar disso, afeiçôo-me mais aos elfos que aos outros: foram os elfos das profundezas que nos curaram da ignorância há muito tempo, e essa foi uma grande dádiva que não pode ser esquecida, embora nossos caminhos tenham se separado desde então. E há algumas coisas, é claro, de cujo lado eu absolutamente não estou; sou absolutamente contra elas: esses — markynaz (ele fez outra vez o ruído grave de nojo) -, esses dremoras, e seus mestres. Eu costumava ficar ansioso quando a sombra cobriu a Garganta do Mundo, mas quando ela foi para Skuldafn parei de me preocupar por uns tempos: Skuldafn fica muito distante. Mas parece que o vento está se fixando no leste, e a devastação de todas as florestas pode estar chegando. Não há nada que um velho gigante possa fazer para impedir que essa tempestade avance: ele deve vencê-la ou arrebentar-se. Mas e Ancano agora! Ancano é um vizinho: não posso ignorá-lo. Preciso fazer alguma coisa, eu acho. Ultimamente tenho pensado com frequência no que devo fazer a respeito de Ancano.
— Quem é Ancano exatamente? — perguntou Ralof. — Você sabe algo sobre a história dele?
— Ancano é um Mago do Colégio — respondeu Malatar. — Mais que isso não posso dizer. Não conheço a história dos Magos. Eles apareceram há muito tempo, depois que os barcos vieram de Artaeum; mas se vieram com os barcos eu não sei. Ancano é considerado importante entre os seus, eu acho. Ele desistiu de vagar por aí e de se preocupar com os problemas dos homens e dos mers, há algum tempo, e foi enviado por sua ordem para Winterhold e o Colégio. No início ficou muito quieto, mas sua fama começou a crescer. Foi escolhido como o presidente do Conselho do Colégio, pelo que dizem; mas isso não deu muito certo, Fico imaginando agora se mesmo naquela época Ancano já não estava se voltando para o mal. Mas: de qualquer forma, não costumava trazer problemas para seus vizinhos. Eu costumava conversar com ele. Houve um tempo em que estava sempre perambulando por minhas florestas. Era educado naquela época, sempre pedindo minha permissão (pelo menos quando me encontrava); e sempre ansioso por escutar. Eu lhe disse coisas que ele nunca descobriria por conta própria, mas nunca me retribuiu da mesma forma. Não consigo recordar de ele me ter contado qualquer coisa. E ficou cada vez mais assim; o rosto amarelo, pelo que me lembro — não o vejo há muitos dias -, ficou parecido com janelas numa muralha de pedra: janelas, vedadas por dentro. Acho que agora entendo o que ele pretende. Está tramando para se transformar num grande poder. Tem um cérebro de metal e rodas, e não se preocupa com os seres que crescem, a não ser enquanto o servem. E agora fica claro que ele é u m traidor negro. Aliou-se a seres maus, aos oblivianos. Bem, hum! Pior que isso: vem fazendo alguma coisa a eles; alguma coisa perigosa. Porque esses dremora valkynaz são mais semelhantes a homens maus. Os seres malignos que vieram de Oblivion não são acostumados ao sol, muito embora sejam acostumados à lava e fogo; mas os dremoras de Ancano suportam, mesmo que o odeiem. Fico imaginando o que ele terá feito. Seriam eles homens que ele arruinou, ou teria ele misturado as raças dos dremoras e dos homens? Isso seria uma maldade negra!
Malatar roncou por uns momentos, como se estivesse pronunciando alguma maldição gigantesca profunda, subterrânea. — Há algum tempo comecei a me perguntar como os dremora ousavam passar pelos meus pinheiros tão livremente — continuou ele. — Só há pouco tempo é que descobri que a culpa era de Ancano, e que há muito tempo ele estivera espiando todos os caminhos, e descobrindo meus segredos. Ele e seu povo sujo estão devastando tudo agora. Lá embaixo, nas fronteiras, estão derrubando árvores árvores boas e matando mamutes de meus amigos. Algumas eles apenas cortam e deixam apodrecer — isso é serviço dos dremora; mas a maioria delas são derrubadas e levadas para alimentar as fogueiras do Colégio. Vejo sempre uma fogueira subindo de Winterhold nos últimos tempos-queijo e mamute! Muitas daquelas árvores eram minhas amigas, criaturas que eu conhecia desde sementes; várias eu vi crescer e agora estão perdidas para sempre. E há restos de tocos e sarças onde já existiram bosques cantantes. Fiquei sem fazer nada. Deixei que as coisas acontecessem. Isso deve parar! Maldito seja.
Malatar levantou do chão de um salto, ficou de pé e bateu com a mão na mesa. As vasilhas de luz tremeram e lançaram dois jatos de chama. Havia uma centelha de fogo verde em seus olhos, e a barba sobressaiu, rija como uma vassoura de galhos.
— Vou acabar com isso! — ribombou ele. — E vocês virão comigo. Talvez possam me ajudar. Estarão ajudando a seus próprios amigos desse modo também; pois, se Ancano não for detido, Whiterun e Haafingar terão um inimigo à frente e também pelas costas. Nossas estradas irão juntas para Winterhold.
— Iremos com você — disse Ralof — Faremos o que pudermos. Vou gostar de ver o Mago Élfico derrubado. Gostaria de estar lá, mesmo que não fosse de muita utilidade: jamais esquecerei Orakhven e a travessia de Morthal.
— Bom, bom — disse Malatar. — Mas eu falei muito depressa. Não devemos nos afobar, Ficamos muito quentes. Preciso esfriar e pensar; pois é mais fácil gritar “pare!” do que parar.
Foi até o arco e ficou algum tempo, sob a chuva que caía entre os pinheiros. Depois riu e agitou o corpo, e cada gota de água que descia dele brilhando, para cair no chão, reluzia com faíscas verdes e vermelhas. Malatar voltou e se deitou no chão outra vez, ficando em silêncio. Depois de algum tempo os dois o escutaram murmurando de novo. Parecia estar contando nos dedos. — Garat Ayar, Yagras Gadyr, Gadralas Gradalayir, sim, sim — suspirou ele. — O problema é que restam tão poucos de nós — disse ele virando-se para Ralof. — Restam apenas três dos primeiros gigantes que caminhariam através de tudo para Winterhold: só eu, Garat Ayar, Yagras Gadyr e Gadralas Gradalayir, para lhes dar seus nomes gigantesticos; vocês podem chamá-los de Malataron e Malatarias E, de nós três Malataron e Malatarias não são de muita utilidade para esse tipo de coisa. Malataron ficou agressivo, quase selvagem, poderíamos dizer: pegou o costume de atacar todos com medo para defender seu farto rebanho de mamutes. Costumava ficar amigável no inverno; mas recentemente tem estado nervoso demais para fazer longas caminhadas até nesta época do ano. Malatarias vivia nas encostas das montanhas a sul de Winterhold. É ali que o pior problema aconteceu. Foi ferido pelos dremoras e muitos entre seu pessoal e seus pastores de mamutes foram mortos e destruídos. Subiu para os lugares altos, para junto das bétulas que tanto ama, e não vai descer. Mesmo assim, arrisco dizer que eu poderia reunir um bom grupo de nosso pessoal mais jovem — se pudesse fazê-los entender a necessidade: se pudesse despertá-los: não somos pessoas apressadas. É uma pena que haja tão poucos de nós!
— Por que há tão poucos se vocês vivem neste lugar há tanto tempo? — Perguntou Ralof. — Morreram muitos?
— Oh, não! — disse Malatar. — Poucos morreram de dentro para fora, como vocês diriam. Alguns caíram na má sorte dos longos anos, é claro; e a maior parte se tornou agressiva e completamente ignorante, como antes dos anões nos acharem. Mas nunca houve muitos de nós, e não aumentamos em número. Não houve gigantinhos — crianças, vocês diriam por uma conta interminável de anos. Sabem, perdemos as gigantas.
— Que coisa triste! — disse Ralof. — Como foi que todas morreram?
— Elas não morreram! — disse Malatar. — Eu não disse morreram. Nós as perdemos, eu disse. Perdemos e não conseguimos encontrá-las — ele suspirou. — Achei que a maior parte das pessoas sabia disso. Há canções sobre os gigantes procurando as gigantas, que são cantadas pelos elfos e pelos homens, de Valenwood até Haafingar. Não podem estar de todo esquecidas.
— Bem, receio que as canções não tenham chegado através das montanhas a sul até Riverwood — disse Ralof. — Você não poderia nos contar mais coisas, ou cantar uma das canções?
— Posso sim — disse Malatar, parecendo satisfeito com o pedido. — Mas não posso contar de maneira adequada, só vou fazer um resumo; e depois precisamos terminar nossa conversa: amanhã temos conselhos a convocar, e trabalho a fazer; talvez até comecemos uma viagem. É uma história muito triste e estranha — continuou ele depois de uma pausa. — Quando o mundo era jovem, e as florestas eram vastas e selvagens, os gigantes e as gigantas- e havia gigantezelas naquela época: ah! Como era adorável Malataril, a dos passos leves, nos dias de minha juventude! -, eles andavam juntos e moravam juntos, mas nossos corações não continuaram crescendo do mesmo modo: os gigantes devotavam seu amor a coisas que encontravam no mundo, e as gigantas devotavam o seu a outras coisas; pois os gigantes amavam as grandes árvores e as florestas, e as encostas de colinas altas, e bebiam das nascentes das montanhas, e só comiam frutas que as árvores deixavam cair em seu caminho; e aprenderam com os elfos das profundezas e conversavam com os mamutes. Mas as gigantas se dedicaram a árvores menores, e a campinas ao sol além dos pés das florestas; viram o abrunheiro nas moitas e a macieira selvagem e a cerejeira florescendo na primavera; e as ervas verdes nas terras banhadas pela água e a grama descente nos campos durante o outono. Não desejavam conversar com esses seres, mas eles desejavam ouvi-las e obedecer ao que lhes diziam. As gigantas ordenaram que crescessem conforme seus desejos, e que produzissem folhas e frutos como queriam; pois as gigantas desejavam a ordem, muita ordem, e paz (que para elas queria dizer que as coisas deviam permanecer como elas as tinham colocado). Então as gigantas fizeram jardim nos quais pudessem morar. Mas nós, gigantes, continuamos vagando, e só íamos aos jardins de vez em quando. Então, quando a Guerra dos Dragões chegou ao Norte, as gigantas atravessaram o Rio Karth, e fizeram novos jardins, e araram novos campos, e nós as víamos com menos freqüência. Depois que a Escuridão foi derrotada, a terra das gigantas floresceu ricamente, e seus campos ficaram cheios de trigo. Muitos homens aprenderam os ofícios das gigantas e prestavam grandes honras a elas; mas nós ficamos sendo para eles apenas uma lenda, um segredo no coração da floresta. Mas ainda estamos aqui, enquanto que os jardins das gigantas estão abandonados no Estado do Reino. Lembro-me de que foi há muito tempo — na época da guerra entre Alduin e os Homens — que me veio o desejo de rever Malataril. Ela ainda era muito bela aos meus olhos, da última vez que a vira, embora se parecesse pouco com a gigantezela de antigamente. Pois as gigantas estavam curvadas e escurecidas devido ao trabalho; seus cabelos ficaram ressecados pelo sol, assumindo a tonalidade do trigo maduro, e suas faces ficaram como maçãs vermelhas. Apesar disso, os olhos ainda eram os olhos de nosso próprio povo. Atravessamos o Karth e chegamos à terra delas; mas encontramos um deserto: estava tudo queimado e arrancado, pois a guerra passara por ali. Mas as gigantas não estavam lá. Por muito tempo chamamos, e por muito tempo procuramos, e perguntávamos a todas as pessoas que encontrávamos para onde as gigantas tinham ido. Alguns diziam que nunca as tinham visto; outros diziam que elas tinham sido vistas caminhando para o sul, e outros ainda diziam para o leste, e outros diziam para o norte. Mas em nenhum lugar a que fomos pudemos encontrá-las. Nossa tristeza foi muito grande. Mas a floresta selvagem chamou e retornamos a ela. Por muitos anos mantivemos o costume de sair de vez em quando para procurar as gigantas, andando por todo canto e chamando-as por seus belos nomes. Mas conforme o tempo passou íamos cada vez com menos freqüência, e cada vez menos longe. E agora as gigantas são para nós apenas uma lembrança, e nossas barbas estão longas e cinzentas. Os elfos fizeram muitas canções sobre a busca dos gigantes, e algumas delas passaram para a língua dos homens. Mas nós não fizemos canção alguma sobre o assunto, ficando satisfeitos em cantar seus belos nomes quando pensávamos nas gigantas. E é bem possível que a hora em que seja impossível encontrá-las esteja finalmente se aproximando. Pois, se Alduin destruiu todos os jardins antigamente, hoje o Devorador de Mundos tende a arruinar todas as florestas.
Malatar terminou sua história. — É assim que fica — disse ele. — É uma história bonita, sem dúvida: leve, ligeira e curta. Arrisco dizer que é bem bonita. Mas os gigantes, por seu lado, poderiam dizer mais coisas, se tivessem tempo! Mas agora vou ficar de pé e dormir um pouco. Onde vocês vão ficar?
— Nós geralmente nos deitamos para dormir — disse Ralof. — Vamos ficar bem aqui onde estamos.
— Deitar para dormir! — disse Malatar. — É claro que vocês fazem isso! Fim, hum: estava esquecendo: cantar aquela canção me transportou a tempos antigos; quase pensei que estava conversando com jovens gigantinhos. Bem, vocês podem se deitar no chão. Eu vou ficar de pé na chuva. Boa noite!
Ralof e Meeko deitaram-se no chão e aconchegaram-se na palha macia e nas samambaias. Era tudo novo, quente e de um aroma delicado. As luzes foram se apagando e o brilho das árvores desapareceu; mas lá fora, sob o arco, eles ainda podiam ver o velho Malatar em pé, imóvel, com o braço esquerdo segurando sua maça acima do ombro. Claras estrelas apareceram no céu e iluminaram a água que caía, derramando-se sobre seus dedos e sua cabeça, para depois pingar, pingar, em centenas de gotas de prata sobre seus pés. Ouvindo o gotejar da água os dois adormeceram.
Acordaram para encontrar um sol fresco brilhando no grande pátio e sobre o assoalho do vão. Retalhos de nuvens altas lhes apareciam no céu, correndo ao vento constante que vinha do leste. Malatar não estava por ali; mas enquanto Meeko e Ralof se banhavam ouviram-no murmurando e cantando, conforme vinha pela trilha em meio às árvores.
— Hu, hum! Bom dia, Meeko e Ralof! — ribombou ele ao vê-los. — Vocês dormem bastante. Já andei várias centenas de passadas hoje. Agora beberemos alguma coisa e depois vamos para o encontro de meu povo.
Encheu-lhes duas vasilhas com o líquido de um jarro de pedra; mas de um jarro diferente. O gosto não era o mesmo do líquido da noite anterior: era mais terroso e rico, mais substancioso e mais parecido com comida, por assim dizer. Enquanto os dois bebiam, sentados na beirada de uma árvore e mordiscando pequenos pedaços de troll doce, Malatar ficou parado, cantando em gigantês ou élfico ou alguma outra língua estranha, e olhando para o céu.
— Onde fica o encontro de seu povo? — Ralof arriscou perguntar.
— Hum, hem? Encontro? — disse Malatar, voltando-se. — Não é um lugar, é uma reunião de gigantes — que não acontece freqüentemente hoje em dia. Mas consegui fazer com que um bom número deles prometessem ir. Vamos nos encontrar no lugar onde sempre nos encontramos: Campo do Arco Caído, os homens chamam. Fica muito ao leste deste lugar. Devemos chegar lá antes do meio-dia.
Logo partiram. Malatar carregava os dois em seus braços, como no dia anterior. Na entrada do pátio virou à direita, deu uma passada atravessando os pinheiros e continuou rumo ao leste, ao longo dos pés de grandes encostas esboroadas onde as árvores eram escassas. Acima delas os hobbits viram moitas de bétulas e sorveiras, e além delas pinheiros escuros que subiam. Logo Malatar mudou um pouco o rumo, distanciando-se das colinas e mergulhando em bosques profundos, onde as árvores eram maiores.
Mais altas e mais espessas que quaisquer outras que os dois tinham visto antes. Por um período, tiveram a sensação de abafamento que tinham tido quando se aventuraram pela primeira vez no interior das Cataratas Ermas, mas isso logo passou.
Malatar não falava com eles. Murmurava consigo mesmo, profunda e pensativamente, mas Meeko e Ralof não entendiam nenhuma palavra: soava como bum bum, rumbum, burrar, bum buni, dari-ar hum bum, darrar bum e assim por diante, com uma mudança constante de tom e ritmo. De tempos em tempos, eles tinham a impressão de escutar uma resposta, um murmúrio ou som ligeiro que parecia sair da terra, ou dos galhos sobre suas cabeças, ou talvez das copas das árvores; mas Malatar não parava nem voltava sua cabeça para nenhum dos lados.
Já estavam viajando havia um bom tempo — Ralof tinha tentado contar os passos do gigante mas falhara, perdendo-se na altura das três mil quando Malatar começou a diminuir o passo. De repente parou, colocou os dois no chão, e levou as mãos enrugadas até a boca, de modo a fazer com elas um tubo oco; depois soprou ou chamou através delas. Um grande hum hum soou pela floresta como uma corneta grave, dando a impressão de ecoar nas árvores. De longe veio, de várias direções, um hum, hom, hum que não era um eco, e sim uma resposta.
Malatar então empoleirou Meeko e Ralof em seus ombros e continuou em suas passadas, de quando em quando enviando outro chamado, e cada vez as respostas vinham em sons mais altos e claros. Chegaram finalmente ao que parecia ser uma parede impenetrável de árvores perenes escuras, árvores de um tipo que os dois, nem mesmo Ralof, nunca tinham visto antes: ramificavam-se diretamente das raízes, e eram densamente cobertas por folhas escuras e polidas como azevinheiros sem espinhos, e carregavam muitas espigas floridas rijas e eretas, com grandes botões brilhantes cor de oliva.
Virando à esquerda e contornando essa enorme cerca-viva Malatar atingiu, com algumas passadas, uma passagem estreita. Por ela passava uma trilha gasta, que mergulhava de repente, subindo uma encosta íngreme. Ralof percebeu que estavam subindo para um acampamento de gigantes exatamente como o Descanso da Tempestade. O terreno no acampamento era macio e coberto de grama, e não havia árvores, com a exceção de altas e belas bétulas prateadas que se erguiam do fundo da vasilha. Duas outras trilhas conduziam ao acampamento: vindas do leste e do oeste.
Vários gigantes já tinham chegado. Outros estavam chegando pelas trilhas, e alguns agora vinham atrás de Malatar. Enquanto se aproximavam, Meeko gemia e os observava. Sua expectativa era ver várias criaturas tão parecidas com Malatar como os homens eram parecidos entre si (pelo menos aos olhos de um estranho). Havia alguns gigantes mais velhos, barbados e grandes como árvores (embora nenhum parecesse tão velho como Malatar); e havia gigantes altos e fortes, com os membros lisos e a pele macia, como árvores da floresta em sua plenitude; mas não havia gigantes jovens, nenhum rebento.
Todos juntos perfaziam cerca de duas dúzias, parados no chão amplo e gramado do acampamento, coberto de uma neve rala, enquanto um número semelhante se aproximava. Num primeiro momento, Ralof ficou chocado com os tamanhos. Alguns tinham o tamanho de duas casas. Alguns pareciam mais ou menos aparentados a Malatar, e os faziam lembrar do Altar de Talos. Mas havia outras espécies.
Mas quando todos os gigantes se reuniram ao redor de Malatar, curvando as cabeças levemente, murmurando em suas vozes lentas e grossas, e olhando longa e atentamente para os forasteiros, então os dois viram que eram todos da mesma família, e todos tinham os mesmos olhos: não tão velhos e profundos como os de Malatar, mas todos com a mesma expressão lenta, firme e pensativa, e a mesma centelha verde.
Logo que todo o grupo estava reunido, parado num grande círculo ao redor de Malatar, uma conversa curiosa e ininteligível começou. Os gigantes começaram a murmurar lentamente: primeiro um e depois outro, até que todos estavam falando juntos num ritmo longo, ascendente e descendente, em certos momentos mais alto de um lado do círculo, outros diminuindo ali e aumentando até chegar a um grande estrondo no outro lado, Embora não conseguisse entender nenhuma palavra — ele supôs que a língua era gigantês — Ralof achou o som muito agradável de escutar no início, mas gradualmente sua atenção se dispersou. Depois de um longo tempo (e a conversa não dava sinais de chegar ao fim), ele se viu pensando se eles já tinham ido além do Bom dia; e se Malatar tivesse de fazer a chamada quantos dias levaria até que terminasse de falar todos os nomes. “Fico imaginando quais são os termos em gigantês para sim e não”, pensou ele, bocejando.
Malatar imediatamente se deu conta dele. — Fim, ha, hei, meu Ralof! — disse ele, e os outros gigantes pararam de falar. — Vocês são um povo apressado, eu estava esquecendo; e de qualquer forma é enfadonho escutar uma conversa que não se entende. Vocês podem descer agora. Eu disse seus nomes ao meu povo, e eles já os viram, e concordaram que vocês não são inimigos, e que vocês são homem e cão. Não discutimos mais nada até agora, mas isso já é um trabalho rápido. Você e Meeko podem passear pela garganta, se quiserem.
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