DdAH: O Colégio de Winterhold
6 A Ordem Psijic
— Estou gelado até os ossos — disse Kharjo, batendo os braços e pisando forte.
Finalmente o dia chegara. Ao nascer do sol os companheiros comeram o que havia; agora, na luz que aumentava, estavam se preparando para seguir a estrada mais uma vez em busca da Corneta de Jurgen Chamavento em Riverwood. Alguns ainda duvidavam da proposta.
— E não se esqueça daquele elfo! — disse Kharjo. — Eu ficaria mais feliz se visse a pegada de uma bota do que se visse a corneta.
— Por que isso o deixaria feliz? — perguntou Faendal.
— Porque um elfo com pés que deixam pegadas não pode ser mais nada além do que aparenta – um viajante — respondeu o khajiit.
— Talvez — disse o elfo —; mas uma bota pesada poderia não deixar pegadas aqui: a grama é alta e fofa.
— Isso não enganaria um Guardião da Alvorada — disse Kharjo. — Uma folha tombada é o suficiente para que Vorstag possa ler. Mas não acho que ele vai descobrir qualquer sinal. Foi uma aparição maligna de Ancano o que vimos ontem à noite. Tenho certeza disso, mesmo sob a luz do dia. Os olhos dele estão nos procurando lá de Winterhold, até mesmo agora, talvez.
— É bem provável — disse Vorstag —; mas não tenho certeza. Estou pensando nos cavalos. Ontem você disse, Kharjo, que eles tinham sido afugentados. Mas eu não achei que foi isso que aconteceu. Você os ouviu, Faendal? Pareciam animais apavorados?
— Não — disse Faendal. — Eu os ouvi claramente. Se não fosse pela escuridão e por nosso próprio medo, eu acharia que eram animais eufóricos com uma alegria repentina. Falaram como falam os cavalos que encontram um amigo do qual sentem falta há muito tempo.
— Eu também achei isso — disse Vorstag — mas não consigo decifrar o enigma, a não ser que eles retornem. Venham! A luz está aumentando rápido. Vamos olhar primeiro e adivinhar depois! Devemos começar por aqui, perto de nosso próprio acampamento, procurando cuidadosamente por tudo, e vasculhando a colina na direção da floresta. Encontrar a Corneta é nossa missão, agora que falhamos na primeira, não importa o que pensemos sobre o visitante da noite passada. Se não encontrarmos nenhum sinal de Ralof ou Meeko desde Ustengrav até as bordas do Labyrinthian, então vamos fazer uma busca em Riverwood, pois lá encontra-se nossa segunda demanda. Mas lá há pouca esperança: é provável que seja uma armadilha mesmo.
Por algum tempo os companheiros se arrastaram, tateando o chão. As árvores se erguiam lamentosas sobre eles, com suas folhas secas agora caídas, farfalhando ao frio Vento Leste. Eles andavam lentamente. Ao sul, viram, erguendo-se como as contemporâneas construções dos nórdicos, incompletas e de madeira, uma pequena muralha. Embora fosse dia, cinco tochas queimavam nas muralhas. Vorstag se afastou lentamente. Chegou até as cinzas da fogueira dos cavaleiros, perto das primeiras construções, e então começou a refazer o caminho de volta, na direção do montículo onde fora travada a batalha. De repente se agachou, baixando o rosto ao chão, quase até tocar a neve. Depois chamou os outros. Eles vieram correndo.
— Finalmente aqui encontramos notícias! — disse Vorstag. Ergueu uma caixa quebrada para que os outros vissem, uma grande caixa de tonalidade dourada, agora enterrada pela neve e ficando marrom. — Aqui está a caixa que Ralof levava com a comida, e há pequenas migalhas nela, e mais algumas na grama. E vejam! Há alguns pedaços de corda cortada aqui perto!
— E aqui está a faca que a cortou! — disse Kharjo. Abaixou-se e arrancou de uma touceira uma pequena lâmina dentada, que fora parar ali ao ser pesadamente pisada. O punho de onde tinha sido quebrada estava ao lado. — É uma arma de daedra — disse ele, segurando-a com cuidado e olhando com nojo para o punho entalhado: fora moldado na forma de um triângulo retangular, e a luz vermelha quase não mais emanava da adaga.
— Bem, este é o enigma mais estranho que já encontramos! — exclamou Faendal. — Um prisioneiro amarrado escapa tanto dos dremora como dos cavaleiros que estão em volta. Depois para, ainda no espaço descoberto, e corta suas amarras com uma faca de daedra. Mas como e por quê? Pois, se as pernas estavam atadas, como conseguiu andar? Se os braços estavam amarrados, como cortou as cordas? E se nenhum dos dois estava amarrado por que então ele usou a faca? Satisfeito com a própria habilidade, sentou-se e comeu tranqüilamente um pouco de troll-doce! Isso pelo menos é suficiente para mostrar que ele era Ralof, sem contar com a caixa de Whiterun. Depois disso, suponho, transformou seus braços em asas e fugiu voando por entre as árvores. Seria fácil encontrá-lo: só precisamos de asas para nós também!
— Com certeza houve feitiçaria aqui — disse Kharjo. — O que o velho estava fazendo? O que você tem a dizer, Vorstag, sobre a interpretação de Faendal? Pode melhorá-la?
— Talvez eu pudesse — disse Vorstag, sorrindo. — Há uns outros sinais por aqui que vocês não consideraram. Concordo que o prisioneiro era Ralof e que devia estar ou com os pés ou com as mãos livres, antes de chegar aqui. Acho que eram as mãos, porque o enigma fica então mais fácil, e também porque, conforme estou interpretando os sinais, ele foi carregado até aqui por um dremora. Correu sangue ali, a alguns passos adiante, sangue de daedra. Há pegadas fundas de cascos rodeando todo este ponto, e sinais de que uma coisa pesada foi arrastada. O dremora foi morto por cavaleiros, e depois seu corpo foi puxado até a fogueira. Mas Ralof não foi visto: ele não estava no espaço aberto pois era noite. Estava exausto e faminto, e não é de admirar que, quando cortou suas amarras com a faca do inimigo, tenha descansado e comido um pouco antes de se arrastar para longe. Mas é um consolo saber que ele tinha um pouco de troll-doce no bolso, mesmo que tenha fugido sem equipamentos ou mochilas, e isso talvez seja bem ao estilo dos nórdicos de Riverwood. Digo ele, embora tenha esperanças e suponha que Meeko e Ralof estiveram aqui juntos. Vejo pelagem de cão. Entretanto, não há nada que nos dê certeza disso.
— E como você supõe que um de nossos amigos conseguiu livrar uma das mãos? — perguntou Kharjo. — Devem ter amarrado até mesmo Meeko!
— Não sei como isso aconteceu — respondeu Vorstag. — E também não sei por que um dremora os estava carregando para longe. Não para ajudá-los a escapar, disso podemos ter certeza. Não, mas agora começo a entender uma coisa que me tem intrigado desde o começo: por que, quando Erik caiu, os dremoras ficaram satisfeitos em capturar Ralof? Não procuraram pelo resto de nosso grupo, nem atacaram nosso acampamento; em vez disso, foram a toda velocidade na direção de Winterhold. Será que supunham ter capturado o Dragonborn? Acho que não. Seus mestres não dariam ordens tão claras aos daedra, mesmo que soubessem de tanta coisa; não falariam abertamente sobre o Dragonborn com eles: os dremora não são servidores confiáveis. Seus mestres não ousariam chamar a atenção de Mehrunes Dagon pra esse tipo de coisa. Mas acho que receberam ordens de capturar um homem, vivo e a qualquer custo. Foi feita uma tentativa de fuga com os preciosos prisioneiros antes da batalha. Talvez traição, muito provável num povo assim; algum daedra grande e corajoso poderia estar tentando escapar sozinho levando o premio, com fins próprios. Aí está minha história. Outras podem ser criadas. Mas podemos contar com isto de qualquer forma: pelo menos um de nossos amigos escapou. Nossa tarefa não é mais procurá-lo e tentar ajudá-lo se ele foi para o leste; ele deve estar indo para Windhelm. Temos que ir a Riverwood. Não devemos nos intimidar com a estrada, uma vez que Riverwood é a casa do nosso amigo.
— Não sei o que me intimida mais: caminhar a estrada até Riverwood, ou sequer pensar na longa estrada até Riften a pé — disse Kharjo.
— Vamos para Riverwood — disse Vorstag.
Sete dias calmos de viagem se passaram. Num ponto, perto da margem do Rio Branco, encontrou pegadas: pegadas de homens, mas leves demais para que se pudesse tirar muitas conclusões a partir delas, e Ralof não agüentaria toda essa viagem. Depois, sob a copa de uma grande árvore, bem na orla da floresta, mais pegadas foram descobertas. A terra era seca e nua, e não revelou muita coisa.
— Recentemente alguém passou por aqui com botas muito leves, e Ralof usava uma dessas. Será possível que não tenha ido a Windhelm, mas a Riverwood, assim como nós? Seria uma grande sorte — disse Vorstag.
— Então devemos entrar nesta vila também — disse Kharjo. — Mas não gosto do jeito deste convite misterioso de Ustengrav, e fomos advertidos em relação a confiança. Gostaria que a busca nos tivesse conduzido a algum outro lugar!
— Não sinto maldade no vilarejo, não importa o que nossas desconfianças digam — disse Faendal. Parou à beira da floresta que rodeava Riverwood, inclinando-se para frente, como se tentasse escutar alguma coisa, e espiando com olhos bem abertos dentro das sombras. — Não, a vila não é má; ou, se houver algum mal nela, está bem longe. Só percebo ecos quase inaudíveis de gente feliz. Não há malícia perto de nós; mas há vigilância, e ódio.
— Bem, essas pessoas não têm motivos para sentir ódio de mim — disse Kharjo. — Não lhes fiz mal nenhum.
— Concordo com isso — disse Faendal. — Mas, mesmo assim, ela sofreu danos. Há alguma coisa acontecendo aqui dentro, ou prestes a acontecer. Vocês não sentem a tensão? É até dificil respirar.
— Sinto o ar abafado — disse o khajiit. — Esta floresta é mais leve que as outras, mas é mofada e deprimente.
— É velha, muito velha; esta vila é uma criança comparada a grama mais nova aqui semeada — disse o elfo. — Tão velha que quase me sinto jovem, outra vez, como não me sinto desde que viajei com vocês, crianças. Eu poderia me sentir feliz aqui, se tivesse vindo em dias de paz.
— Arrisco dizer que sim — retrucou Kharjo. — Você é um elfo da floresta, de qualquer forma, embora os elfos de qualquer tipo sejam pessoas esquisitas. Mas você me consola. Por onde for, irei também. Mas mantenha seu arco a postos, e eu vou deixar minha maça solta no cinto. Não quero encontrar aquele elfo inesperadamente sem ter um argumento à mão, isso é tudo. Vamos!
Com isso os três caçadores mergulharam nas fronteiras de Riverwood. Faendal e Kharjo deixaram que Vorstag fosse à frente. Havia pouco para temer. Foi assim que chegaram ao lugar em que Ralof havia nascido e crescido. Ali estava a Taverna do Gigante Adormecido.
— Esta notícia é boa — disse Vorstag. — Não fomos emboscados, e a taverna está movimentada. Não parece ser uma armadilha.
— Então, que faremos agora? — disse Kharjo. — Se não entrarmos por medo e desconfiança, será um problema. Viemos com poucos suprimentos. Passaremos fome se voltarmos.
— Se entrar for realmente a nossa única opção, então devemos fazê-lo — disse Vorstag. — Vamos em frente.
Finalmente entraram na taverna. O chão era feito de uma pedra lisa trincada, mas estava bem limpo e quase reluzia as velas que estavam penduradas nos pilares que sustentavam a casa. Vários tapetes de pele estavam espalhados pelo chão, e no meio da grande casa de madeira e pedra havia uma fogueira, e algo de cheiro impecável estava assando lá. Kharjo temeu que todos os olhos se virassem para eles e dremoras saíssem das paredes e quartos, mas só uma mulher loira os observou. No final da taverna havia uma larga bancada, onde um homem de cabelos longos e negros estava, curvado.
— Vamos subir para o sótão e olhar em volta! — disse Faendal. — Ainda sinto a respiração dificil. Gostaria de experimentar um ar mais livre por uns momentos.
Os companheiros foram até a estalajadeira: a mulher loira vestida num longo vestido azul; a mulher que os havia observado quando chegaram. Vorstag veio por último, avançando devagar. Kharjo foi na frente.
— Escuras são as águas do Lago Vread, e frias são as nascentes do Rio Xylo, e belos eram os salões cheios de pilares de terra em Elsweyr nos dias antigos. Há muito tempo um khajiit não entra em minha estalagem!
Ela olhou para Kharjo, que estava carrancudo e triste, e sorriu. E o kahjiit, ouvindo os nomes ditos em sua própria língua antiga, levantou os olhos encontrando os dela, e teve a impressão de que olhou de repente para o coração de um inimigo e ali viu amor e compreensão. A admiração cobriu seu rosto, que então sorriu para ela. Levantou-se desajeitadamente e fez uma reverência ao modo dos anões:
— Apesar disso, mais bela ainda é a terra de Riverwood, e a Senhora Estalajadeira está acima de todas as jóias que existem sobre a terra! Fez-se silêncio. Finalmente Kharjo falou de novo. — Nós viemos para esta bela terra numa missão não tão bela, pois aqui temos de nos encontrar com um amigo, ou assim ele se diz ser; queremos o quarto do sótão.
Um sorriso leve cobriu o rosto da estalajadeira. — Sua missão é uma demanda que é de meu conhecimento, Kharjo de Elsweyr, associado de Ri’saad. Você — disse ela, virando os olhos verdes para Vorstag. — Você é o Dragonborn de quem estamos ouvindo tanto falar — colocou as mãos nas costas, e Kharjo agora estava suspeito da mulher, antes a tendo contemplado; mas ela não tirou nenhuma adaga, mas uma grande corneta de bronze. — É isso que estão procurando. Sigam-me.
Ela virou as costas e fez seu caminho até uma porta de madeira que se abria para um cômodo na direita, um grande quarto com uma cama de casal coberta em verde; provavelmente seu próprio quarto, ou o quarto mais luxuoso da estalagem. Lá, quando Faendal fechou a porta a pedido da estalajadeira, ela abriu o fundo falso de um armário que se encontrava no quarto e abaixo dele descia uma escada. Ela sinalizou para que fossem atrás dela. Apesar de todo esse mistério, nenhum deles sentia medo, por incrível que pareça.
— Olhe! — disse Faendal, enquanto descia os degraus na frente.
— Olhar o quê? — perguntou Kharjo.
— Ali embaixo.
— Onde? Não tenho olhos de elfo.
— Psssiu! Fale mais baixo! Olhe! — disse Faendal apontando. — Lá embaixo, no quarto, no caminho que ela está nos conduzindo. É ele, você não está vendo, atrás de uma mesa? Seus pés amarelos?
— Estou vendo, agora estou vendo! — sussurrou Kharjo. — Olhe, Vorstag! Eu não o avisei? Ali está o elfo. Todo coberto de farrapos cinzentos: é por isso que não consegui vê-lo antes. Ela está nos conduzindo para uma terrível armadilha de Ancano. Que pena!
Vorstag olhou e viu uma figura curvada, movimentando-se devagar. Não estava longe. Parecia um velho mendigo, caminhando fatigado, apoiando-se num cajado rude. A cabeça estava curvada, e ele não olhava na direção deles. Em outras terras, teriam-no cumprimentado com palavras gentis, mas naquele momento ficaram em silêncio, cada um sentindo uma estranha expectativa: algo que trazia um poder oculto — ou ameaça – se aproximava.
Kharjo observou com os olhos arregalados por um tempo, conforme a figura se avizinhava passo a passo. Então, de repente, não conseguindo mais se conter, falou numa explosão: — Seu arco, Faendal! Apronte-o! — Delphine, a estalajadeira, virou-se alarmada e com medo. — Fique preparado! É Ancano. Não deixe que ele fale, ou lance um feitiço sobre nós! Atire primeiro!
Faendal pegou o arco e o preparou, lentamente, como se outra vontade se opusesse à dele. Segurava uma flecha na mão sem firmeza, sem encaixá-la na corda. Vorstag ficou quieto, seu rosto vigilante e atento.
— O que está esperando? Qual é o problema com você? — disse Kharjo num sussurro chiado.
— Faendal está certo — disse Vorstag baixinho, — não podemos atirar num velho desse modo, traiçoeiramente e sem desafio, qualquer que seja o medo ou a dúvida que tenhamos. Olhem e esperem!
Nesse momento, o velho apertou o passo e chegou com uma rapidez surpreendente ao pé da escada. Então, de repente, ergueu os olhos, enquanto os três continuavam imóveis, olhando para baixo. Não se ouvia nenhum som. Os companheiros não conseguiam ver seu rosto: ele estava usando um capuz de modo que o rosto estava todo encoberto, exceto a extremidade da barba grisalha. Mesmo assim, Vorstag teve a impressão de ver de relance o brilho de olhos perspicazes, emitido daquele rosto encapuzado.
Finalmente o velho quebrou o silêncio. — Bem-vindos, meus amigos — disse ele numa voz suave. — Desejo-lhes falar. Vocês vão descer ou devo subir até vocês nessa escada estreita?
Sem esperar uma resposta, pôs os pés no primeiro degrau.
— Agora! — disse Kharjo. — Detenha-o, Faendal!
— Eu não disse que desejava lhes falar? — disse o velho. — Abaixe esse arco, Mestre Elfo!
O arco e a flecha caíram das mãos de Faendal, e os braços ficaram paralisados ao longo do corpo.
— E você, Mestre Khajiit, por favor, tire a mão do cabo de sua maça estranha, e desça até aqui! Não vai precisar desses argumentos.
Kharjo fez um movimento e depois ficou petrificado, olhando, e então começaram a descer os degraus rangentes de madeira. Conforme pisaram no último degrau houve um brilho, rápido demais para se ter certeza, um breve vislumbre de amarelo, como se alguma vestimenta, ocultada pelos farrapos cinzentos, tivesse sido revelada por um instante. Podia-se ouvir a respiração de Kharjo como um chiado ruidoso quebrando o silêncio.
— Bem-vindos, repito! — disse o velho, voltando para trás de uma mesa. Quando estava a alguns passos de distância, parou, inclinando-se sobre o cajado, com a cabeça para frente, espiando-os de seu capuz. — E todos vestidos à moda dos viajantes. Não há dúvida de que por trás de tudo isso há uma história digna de ser ouvida. Essas coisas não são vistas com freqüência por aqui.
— Você fala como alguém que conhece bem Riverwood — disse Vorstag. — Isso é verdade? Ou você vem de terras mais ao norte?
— Não muito bem — disse o velho. — Isso seria estudo para muitas vidas. Mas venho aqui de vez em quando.
— Podemos saber seu nome, e depois ouvir o que tem a nos dizer? disse Vorstag. — A manhã está passando, e temos uma missão que não pode esperar.
— Quanto ao que eu desejava dizer, já o disse, e vocês, que andam fazendo, e que história podem me contar sobre vocês? Quanto ao meu nome! — ele interrompeu, dando uma risada longa e suave. Vorstag sentiu um tremor percorrer-lhe o corpo ao ouvir o som daquele riso, um arrepio frio e estranho; mas não foi medo ou terror o que sentiu: era mais como um golpe repentino de ar fresco, ou uma rajada de chuva fria despertando alguém de um sono intranqüilo. — Meu nome! — disse o velho outra vez. — Ainda não adivinharam? Já o ouviram antes, eu acho. Sim, já o ouviram antes. Mas vamos agora, qual é sua história?
Os três companheiros ficaram em silêncio e não deram resposta. — Existem pessoas que começariam a duvidar se sua missão merece ser contada — disse o velho. — Felizmente sei algo sobre ela. Estão seguindo as pegadas de um homem e um cão, suponho. Não me olhem assim, como se eu estivesse falando um absurdo. Vocês estavam, e eu também. Bem, eu os vi há uma semana, e encontraram alguém que não esperavam. Isso os consola? E agora gostariam de saber para onde foram levados? Bem, bem, talvez eu possa lhes dar alguma notícia sobre isso. Mas por que estamos de pé? Sua missão, pelo que vejo, não é mais tão urgente quanto pensavam. Vamos nos sentar e ficar mais à vontade.
O velho se virou e foi na direção de uma cadeira perto da parede do quarto. Imediatamente, como se um feitiço tivesse sido removido, os outros relaxaram e se mexeram. As mãos de Kharjo foram direto para o cabo da maça. Vorstag sacou a espada. Faendal pegou o arco. O velho não tomou conhecimento disso, mas se agachou e sentou-se sobre a cadeira. Então sua grande capa se abriu e eles viram, com certeza, que por baixo dela ele estava vestido de amarelo.
— Ancano! — gritou Kharjo, saltando na direção dele com a maça daédrica em punho. — Fale! Diga-nos onde escondeu nossos amigos! Que fez com eles? Fale, ou farei um estrago em seu capuz que será dificil de consertar, mesmo para um mago.
O velho foi rápido demais para ele. Saltou de pé e pulou para o topo de uma grande mesa. Ali ficou, subitamente imponente, erguendo-se diante deles. O capuz e os farrapos cinzentos caíram para trás. As vestes amarelas brilharam. Levantou o cajado e raios azulados saíram para as armas dos companheiros, e o machado de Kharjo saltou de seu punho e caiu com um ruído no chão. A espada de Vorstag, imóvel em sua mão paralisada, brilhava com um fogo repentino.
Faendal soltou um grito e atirou uma flecha no ar: ela sumiu num clarão de fogo. — Agaialor! — gritou ele. — Savos!
— Bem-vindo, digo a você outra vez, Faendal! — disse o velho.
Todos olharam para ele. Os cabelos eram cinzentos como as próprias cinzas de fogo de dragão, e brilhante era sua veste amarela e carmesim; os olhos vermelhos sob as sobrancelhas grossas eram reluzentes, agudos como os raios do sol; havia poder em suas mãos. Em meio à surpresa, à alegria e ao medo, eles ficaram parados, sem saber o que dizer.
Finalmente Vorstag se mexeu. — Savos! — disse ele. — Além de todas as esperanças você retorna em nossa necessidade! Que véu cobria minha visão? Savos! — Kharjo não disse nada, mas caiu de joelhos e cobriu os olhos.
— Savos! — repetiu o velho, como se recuperasse de uma lembrança antiga um nome há muito em desuso. — Sim, esse era o nome. Eu era Savos Aren — desceu da mesa e, apanhando a capa cinzenta, cobriu-se com ela: parecia que o sol estivera brilhando, e que agora se encobria de nuvens outra vez. — Sim, podem ainda me chamar de Savos — disse ele, e a voz era a de seu velho amigo, companheiro e guia. — Levante-se, meu bom Kharjo! Você não tem culpa, e não me fez mal algum. Na verdade, meus amigos, nenhum de vocês tem armas que possam me ferir. Alegrem-se! Encontramo-nos de novo! Na virada da maré. A grande tempestade vem, mas a maré virou.
Colocou a mão sobre a cabeça de Kharjo e fez carinho em sua pelagem, e o khajiit ergueu os olhos e riu de repente.
— Savos! — disse ele. — Mas você está todo de amarelo!
— Sim, sou amarelo agora — disse Savos Aren. — Na verdade, eu sou da Ordem Psijic, e não mais da Ordem do Colégio. Mas vamos agora, falem-me sobre vocês! Atravessei o fogo e águas profundas desde que nos separamos. Esqueci muita coisa que julgava saber, e aprendi de novo muita coisa que havia esquecido. Posso ver muitas coisas à distância, mas muitas coisas que estão próximas eu não consigo ver. Falem-me sobre vocês!
— O que deseja saber? — perguntou Vorstag. — Tudo o que aconteceu desde que nos separamos no Santuário das Cataratas Ermas seria uma história longa. Você não poderia primeiro nos dar notícias de Ralof? Você os encontrou, e eles estão a salvo?
— Não, não os encontrei — disse Savos — Havia uma escuridão sobre os pântanos de Forgulnthur, e eu não sabia que estavam aprisionados, até que a águia me contou.
— A águia! — disse Faendal. — Eu vi uma águia voando bem alto: a última vez foi há três dias, sobre os pântanos.
— Sim — disse Savos —, era uma águia de Paarthurnax, o guardião da Garganta do Mundo, que foi responsável pela minha fuga do Colégio. Enviei-o na minha frente para vigiar o Rio e conseguir notícias. Ele tem uma visão apurada, mas seus olhos não conseguem enxergar tudo o que se passa sob as colinas e árvores. Algumas coisas ele viu, e outras eu mesmo vi. Ralof agora está fora do alcance de minha ajuda, ou da ajuda de qualquer um da Companhia que partiu de Alta Hrothgar. Quase foi revelado ao Devorador de Mundos, mas escapou. Tive alguma parte nisso: pois sentei-me num lugar alto, e lutei contra a Torre de Skuldafn e a Sombra passou. Depois fiquei cansado, muito cansado; e caminhei por muito tempo, envolvido em pensamentos escuros.
— Como estão as coisas com Ralof? — perguntou Kharjo.
— Não sei dizer. Foi salvo de um grande perigo, mas muitos ainda o esperam. Resolveu ir sozinho à Ulfric, e partiu: isso é tudo que posso dizer.
— Não sozinho — disse Faendal. — Ele tem um cão guia.
— Ele tem? — disse Savos, e seus olhos brilharam e o rosto sorriu. — Foi mesmo? Isso é novidade para mim, mas não me surpreende, Bom! Muito bom! Tiram-me um peso do coração. Precisam me dizer mais. Agora sentem-se ao meu lado e contem a história de sua jornada.
Os companheiros sentaram-se no chão aos pés dele, e Vorstag continuou a história. Por um longo período Savos não disse nada, e não fez perguntas. Suas mãos estavam estendidas sobre os joelhos, e os olhos fechados. Finalmente, quando Vorstag falou sobre a morte de Erik e de sua última viagem pelo Rio Karth, o velho suspirou.
— Você não disse tudo o que sabe ou supõe, Vorstag, meu amigo — disse ele suavemente. — Pobre Erik! Não pude ver o que aconteceu com ele. Foi uma prova dura para um homem assim: um guerreiro, um senhor de homens. Farengar me disse que ele estava em perigo. Mas escapou no final. Fico feliz. Ralof foi ao Descanso da Tempestade com esse companheiro canino, pelo visto, e a chegada deles foi como a queda de pequenas pedras que iniciam uma avalanche nas montanhas. Neste momento em que estamos conversando, ouço os primeiros estrondos. Será melhor para Ancano não ser pego fora de casa quando a maça ossuda bater na pedra.
— Em uma coisa você continua o mesmo, caro amigo — disse Vorstag. — Você ainda fala por meio de enigmas.
— O quê? Em enigmas? — disse Savos. — Pois estava falando comigo mesmo em voz alta. Um hábito dos velhos: escolhem falar às pessoas mais mais sábias as longas explicações que os jovens necessitam são cansativas.
Mas o som do riso agora parecia agradável como um raio de sol.
— Não sou mais jovem, mesmo para os homens das Antigas Casas — disse Vorstag. — Você não poderia me abrir sua mente com mais clareza?
— Que devo então dizer? — disse Savos, depois parou um tempo, pensando. — Este é um resumo das coisas como as vejo agora, se você quiser saber um pouco do que estou pensando, com a maior clareza possível. O Devorador de Mundos, é claro, já sabe há muito tempo que estamos viajando, e agora sabe que temos entre nós um Dovahkiin. Sabe o número dos integrantes de nossa Companhia, que partiu de Alta Hrothgar, e que tipo de pessoas somos. Mas ainda não percebe nosso propósito claramente. Supõe que todos nós está vamos indo para Solitude, pois isso é o que ele próprio faria se estivesse em nosso lugar. E de acordo com a sua sabedoria isso seria um golpe forte contra seu poder. Na verdade, está sentindo um grande medo, sem saber que pessoa poderosa poderia de repente aparecer, controlando o Thu’um e ameaçando-o com a guerra, tentando destruí-lo e tomar seu lugar. Que poderíamos desejar destruí-lo e não colocar ninguém em seu lugar é um pensamento que não lhe ocorre. Que possamos usar de artifícios para destruí-lo na surdina é algo que não se passou nem por seus sonhos mais obscuros. Nisso, sem dúvida, vocês verão nossa boa sorte e nossa esperança. Por ter imaginado a guerra, deflagrou a guerra, acreditando que não tinha mais tempo a perder; pois aquele que dá o primeiro golpe, se o golpe tiver força suficiente, pode não precisar dar mais golpes. Assim, as forças que vem preparando há muito tempo, ele as colocou em ação antes do que pretendia. Sábio tolo. Pois se tivesse usado todo seu poder para guardar Skuldafn, de modo que ninguém conseguisse entrar, e colocado toda a sua astúcia na procura do Dragonborn, então realmente não haveria mais esperanças: nenhum de nós poderia tê-lo iludido por muito tempo. Mas agora olha mais para longe do que para as vizinhanças de seu lar; e principalmente olha na direção de Solitude. Logo sua força cairá sobre aquela cidade como uma tempestade. Pois ele já sabe que os dremoras invocados por seus Sacerdotes que enviou para perseguir a Companhia falharam de novo. Não encontraram o Dragonborn. Nem trouxeram qualquer homem como refém. Até mesmo os príncipes daédricos e seus servos estão falhando perante a nossa demanda. Se tivessem feito isso, teria sido um golpe forte para nós, que poderia ser fatal. Mas não vamos escurecer nossos corações imaginando o julgamento de sua gentil lealdade nas Torres de Skuldafn. Pois o Devorador de Mundos falhou — por enquanto. Graças a Ancano, o meu antigo conselheiro no Colégio de Winterhold.
— Então Ancano não é um traidor?
— Na verdade é — disse Savos. — Duplamente, e isso não é estranho? Nada que suportamos recentemente parece tão lamentável quanto a traição de Winterhold. Mesmo considerando-se o padrão de um senhor e um capitão, Ancano se tomou muito forte. Ameaça os homens de todas as Cidades sul e oeste e retira o apoio que eles receberiam de Solitude, exatamente no momento em que o golpe principal se aproxima, vindo do sudeste. Apesar disso, uma arma traiçoeira é sempre perigosa para quem a empunha. Ancano também desejava apossar-se do Dragonborn, para uso próprio, não para matá-lo como Alduin, mas para usá-lo a seu favor com feitiçarias que mexeriam com sua mente e honra. Então, agindo em conjunto, nossos inimigos só conseguiram levar Ralof numa velocidade espantosa, e no momento certo, até um amigo meu, para quem eles nunca teriam vindo de outra forma! Além disso, encheram-se de dúvidas novas que atrapalham seus planos. Nenhuma notícia da batalha chegará a Skuldafn, graças aos soldados de Morthal; mas o Devorador de Mundos sabe que um homem e cão foram capturados nas Ruínas de Kjenstag e levados para Winterhold contra a vontade de seus próprios servidores. Agora ele teme Winterhold e também Solitude. Se Solitude cair, isso será ruim para Ancano.
— É uma pena que nossos amigos estejam no meio dessa luta — disse Kharjo. — Se nenhuma terra ficasse entre Winterhold e Skuldafn, eles poderiam lutar enquanto nós ficaríamos observando e esperando.
— O vencedor emergeria mais forte que qualquer um dos dois, e livre de dúvidas — disse Savos. — Mas Winterhold não pode lutar contra Skuldafn, a não ser que Ancano obtenha aliança com o Dovahkiin. E isso ele não conseguirá nunca. Ainda não sabe do perigo que corre. Há muita coisa que ele não sabe. Estava tão ávido por colocar as mãos em sua presa que não conseguiu ficar esperando em casa, e saiu para encontrar e espionar seus mensageiros. Mas chegou tarde demais, desta vez; a batalha já estava terminada e ele não podia mais ajudar em nada quando chegou a estas partes. Não ficou lá por muito tempo. Olhando dentro da mente dele eu vejo suas dúvidas. Ele fica desorientado em ruínas. Acha que os cavaleiros mataram e queimaram todos sobre o campo de batalha, mas não sabe se os dremoras estavam ou não trazendo algum prisioneiro. E não sabe da discussão entre seus servidores e os dremoras de Skuldafn; e também não sabe do Capitão.
— O Capitão! — gritou Faendal. — Atirei nele com o arco de Glonagoth, e derrubei-o. Ele nos encheu de medo. Que novo terror é esse?
— Um terror que você não pode abater com flechas — disse Savos. —Você apenas abateu a montaria dele. Foi um bom feito; mas logo o Sacerdote conseguiu outro cavalo. Pois ele era um Sacerdote Dracônico, um dos Sete, que agora têm dragões como montaria. Logo seu terror cobrirá de sombras os últimos exércitos de nossos amigos, barrando o sol. Mas ainda não lhes foi permitido atravessar o Rio Karth, e Ancano não conhece essa nova forma na qual os Sacerdotes Dracônicos se apresentam. Tem o pensamento constantemente voltado para o Dragonborn. O Dovahkiin estava presente na batalha? Foi encontrado? Mas de uma coisa ele sabe: que os cavaleiros enviaram uma companhia para Riften. É esse o perigo que Ancano enxerga, e ele fugiu de volta para Winterhold para redobrar ou triplicar a força de seu ataque no Estado de Rift. E durante todo o tempo há um outro perigo, muito próximo, que ele não enxerga, ocupado que está com seus pensamentos inflamados. Esqueceu Paarthurnax.
— Agora você está falando para si mesmo outra vez — disse Vorstag com um sorriso. — Não conheço Paarthurnax. E adivinhei parte da dupla traição de Ancano; apesar disso, não vejo de que modo a chegada de Ralof ao leste pode ter tido alguma serventia, exceto para nos proporcionar uma busca longa e infrutífera.
— Espere um minuto! — gritou Kharjo. — Há uma outra coisa que eu gostaria de saber primeiro. Foi você, Savos, ou Ancano, que vimos semana passada?
— Certamente vocês não me viram — respondeu Savos Aren —, portanto devo supor que viram Ancano. Evidentemente ele usa meus antigos trajes de arque-mago, e é agora tão parecido com minha antiga figura que seu desejo de fazer um estrago irreversível no meu chapéu deve ser perdoado.
— Bom! — disse Kharjo. — Fico feliz em saber que não era você.
Savos riu de novo. — Sim, meu bom khajiit — disse ele. — É bom não ser confundido em todos os pontos. Sei disso muito bem! Mas, é claro, nunca os culpei pelo modo como me receberam. Como poderia, se freqüentemente aconselhei meus amigos a suspeitarem até de suas próprias sombras, quando estivessem lidando com o Devorador de Mundos? Bendito seja, Kharjo, associado de Ri’saad! Talvez você nos veja juntos um dia e então poderá julgar a diferença.
— Mas Ralof! — interrompeu Faendal. — Viemos de longe à procura deles, e parece que você sabe onde eles estão. Onde estão agora?
— Com um velho amigo meu e seu povo; eles pedirão a ajuda de Paarthurnax, um dos mais velhos dragões — disse Savos.
— Dragões! — exclamou Vorstag. — Então há verdade nos rumores de que o Devorador de Mundos está ressuscitando seus antigos aliados?
— Mas este não foi ressuscitado — respondeu o mago. — Está nesse mundo há muito mais tempo que muito do que conhecemos.
— Ainda existem dragões no mundo? — perguntou Vorstag. — Achei que fossem apenas uma lembrança de dias antigos, se de fato eram mesmo algo mais que uma lenda de Skyrim.
— Uma lenda de Skyrim! — gritou Faendal. — Não, todos os elfos de Valenwood já cantaram canções sobre os velhos dov e sua longa tristeza e destruição. Mas mesmo entre nós eles são apenas uma lembrança. Se eu encontrasse um deles ainda voando por este mundo, então poderia me sentir jovem outra vez! Mas quem é esse Paarthurnax?
— Ali, agora estão fazendo perguntas demais — disse Savos. — O pouco que sei de sua longa e lenta história daria uma narrativa para a qual não temos tempo agora. Paarthurnax é o guardião da Garganta do Mundo, o Mestre dos Barbacinza; é o segundo mais velho dos dragões, o ser mais velho que voava sob o sol, nesta Nirn, antes do ressurgimento de Alduin. Realmente espero, Faendal, que você ainda possa encontrá-lo. Ralof teve sorte: encontraram meu grande amigo no caminho para Windhelm, pois ele foi até lá e os levou para sua moradia lá longe, perto das raízes das montanhas. E ele é um amigo de Paarthurnax, a quem provavelmente pedirá por ajuda. Freqüentemente Paarthurnax freqüenta aquelas montanhas do Labyrinthian, principalmente quando tem a mente inquieta, e quando os rumores do mundo lá fora o preocupam. Vi uma sombra muito grande voando há quatro dias acima das nuvens, muito acima, pois lá ele fica, com medo de ser visto pelos homens e seus arcos de teixo, e acho que ele me viu, pois parou e girou; mas eu não disse nada, porque estava concentrado em meus pensamentos, e cansado depois de minha luta contra os servos do Devorador de Mundos; ele também não falou, nem chamou meu nome.
— Talvez também tenha achado que você era Ancano — disse Kharjo. — Mas você fala dele como se fosse um amigo. Pensei que os dragões fossem muito perigosos.
— Perigoso! — exclamou Savos. — Eu também sou, muito perigoso: mais perigoso que qualquer outro ser que jamais encontrarão, a não ser que sejam levados vivos diante do trono do Devorador de Mundos. E Vorstag é perigoso, e Faendal é perigoso. Você está rodeado de perigos, Kharjo de Elsweyr; pois você mesmo é perigoso, à sua maneira. Certamente os dragões são perigosos; e o próprio Paarthurnax, ele também é perigoso, no entanto é gentil e sábio. Mas agora sua ira lenta e longa está transbordando, e toda a sua montanha está cheia dela. E meu amigo e seu povo também. A vinda de Ralof com as notícias que trouxeram foi a gota d’água: logo estará correndo como uma enchente; mas sua maré está voltada contra Ancano e os machados daédricos de Winterhold. Algo que não acontece desde os Dias Antigos está para acontecer: os gigantes vão despertar e descobrir que são fortes.
— Gigantes?! Que irão fazer? — perguntou Faendal atônito.
— Não sei — disse Savos. — Não acho que eles mesmos saibam. Fico imaginando. — Ficou em silêncio, com a cabeça curvada, perdido em pensamentos.
Os outros olharam para ele. Um raio de sol, através de uma abertura no teto, bateu em suas mãos, que agora estavam caídas sobre seu colo, com as palmas voltadas para cima: pareciam estar cheias de luz como um copo cheio de água. Finalmente ergueu os olhos e olhou direto para o sol.
— A manhã está terminando — disse ele. — Logo devemos partir.
— Vamos encontrar nossos amigos, Paarthurnax e os gigantes? — perguntou Vorstag.
— Não — disse Savos, olhando para a estalajadeira. — Não é essa a estrada que devem pegar. Pronunciei palavras de esperança. Mas apenas de esperança. Esperança não é vitória. A guerra está sobre nós e todos os nossos amigos, uma guerra na qual apenas a utilização do maior exército já reunido poderia nos dar certeza de vitória. Enche-me de grande tristeza e medo: pois muita coisa será destruída, e tudo pode ser perdido. Sou Savos, Savos Aren, da Ordem Psijic, mas o Devorador de Mundos ainda é mais poderoso.
Levantou-se e olhou em direção ao leste, semicerrando, como s e enxergasse coisas muito distantes além das paredes do porão que nenhum deles podia ver. Depois balançou a cabeça. — Não — disse ele numa voz suave —, Ralof está além de nosso alcance. Alegremo-nos pelo menos com isso. Não pesaremos o coração dele. Devemos descer e enfrentar um perigo quase desesperador, mas aquele perigo mortal foi removido. — Virou-se. — Venha, Vorstag, filho de Rorstag! — disse ele. — Não se arrependa de sua escolha nos pântanos de Forgulnthur, e depois no Labyrinthian, nem considere que esta busca foi em vão, em meio a muitas dúvidas, você escolheu a trilha certa: a escolha foi justa, e foi recompensada. Pois assim nos encontramos em tempo, e se fosse de outro modo poderíamos ter nos encontrado tarde demais. Mas a busca de seus companheiros terminou. Sua próxima jornada está marcada pela palavra que deu. Deve ir a Riften e procurar o jarl em seu palácio. Precisam de você. A luz de Arandagon deve agora ser revelada na batalha pela qual ela esperou por tanto tempo. Há guerra em Riften, é um mal maior: as coisas não vão bem para Harrald, segundo as teorias de nossa estalajadeira Delphine aqui.
— Então não vamos mais ver Ralof e Meeko? — perguntou Faendal.
— Eu não disse isso — disse Savos — Quem pode saber? Tenha paciência. Vá aonde deve ir, e tenha esperança! Para Riften! Eu também vou para lá!
— É uma estrada longa a ser trilhada por um homem, velho ou jovem — disse Vorstag. — Receio que a batalha esteja terminada antes de chegarmos lá.
— Veremos, veremos — disse Savos. — Vocês me acompanham?
— Sim, partiremos juntos — disse Vorstag. — Mas não duvido que você chegue lá antes de mim, se quiser.
Levantou-se e olhou Savos Aren longamente. Os outros observavam em silêncio, enquanto os dois olhavam um para o outro, a figura cinzenta do homem, Vorstag, filho de Rorstag, era alta, firme como uma rocha, a mão sobre o punho de sua espada; parecia que um rei tinha surgido das névoas do mar e pisado sobre as praias de homens menores. Diante dele se curvava a velha figura, amarela e acinzentada, agora brilhando como se alguma luz a iluminasse de dentro, inclinada, sobrecarregada pelos anos, mas detentora de um poder acima da força dos reis.
— Não falo a verdade, Savos — disse Vorstag finalmente —, quando digo que você poderia ir a qualquer lugar que quisesse mais rápido que eu? E também digo isto: você é nosso capitão e nossa insígnia. O Devorador de Mundos tem Sete. Mas nós temos Um, mais poderoso que eles: o Mago Psijic. Passou pelo fogo e pelo abismo, e eles devem temê-lo. Iremos aonde nos levar.
— Sim, juntos seguiremos você — disse Faendal. — Mas primeiro, Savos, aliviaria meu coração ouvir o que lhe aconteceu nas Cataratas Ermas. Não vai nos contar? Não pode ficar nem mesmo para dizer aos seus amigos como se libertou?
— Já fiquei tempo demais — respondeu Savos — O tempo é curto. Mas se houvesse um ano para conversar não seria suficiente para contar tudo.
— Então conte-nos o que desejar, e o que o tempo permitir! — disse Kharjo. — Vamos, Savos, conte-nos como se saiu com Morokei!
— Não mencione esse nome! — disse Savos, e por um instante pareceu que uma nuvem de dor passava sobre seu rosto, e ele ficou sentado, com uma aparência mais velha que a morte. — Por muito tempo cai e voei — disse ele finalmente, devagar, como se tentasse recordar com dificuldade. — Voei por muito tempo, e ele voou comigo. O fogo azul dele me envolvia. Eu estava me queimando. Então mergulhamos em águas profundas e tudo ficou escuro. A água era fria como a maré da morte: quase congelou meu coração.
— Profundo é o abismo atravessado pela morte, e ninguém nunca o mediu — disse Kharjo.
— Mas ele tem um fundo, além da luz e do conhecimento — disse Savos Aren, apertando seu cajado — Cheguei lá finalmente, às mais remotas fundações do universo. Ele ainda estava comigo, seu fogo estava extinto, mas agora ele era um ser de lodo, mais forte que uma serpente estranguladora. Lutamos muito além de alguns planos de Aetherius, onde não se conta o tempo. Ele sempre me agarrava e eu sempre o derrubava, até que finalmente ele fugiu para dentro de túneis escuros. Estes não foram feitos pelo povo dos nórdicos ou dos elfos das profundezas, Kharjo de Elsweyr. Muito, muito além das escavações dos dwemers, o mundo é corroído por seres sem nome. Nem mesmo Alduin os conhece. São mais velhos que ele. Agora, eu andei por lá, mas não farei nenhum relato para escurecer a luz do dia. Naquele desespero, meu inimigo era minha única esperança, e eu o segui, agarrando-me aos seus calcanhares. Assim ele me trouxe de volta, finalmente, aos caminhos secretos para os planos mortais: ele os conhecia muito bem. Fomos voltando sempre, até chegarmos à Garganta do Mundo.
— Ela está fechada há muito tempo — disse Kharjo. — Muitos disseram que foi destruída, a não ser nas lendas, mas outros diziam que havia nem ao menos existia.
— Existe, e não foi destruída — disse Savos — Do último degrau ao pico mais alto ela subia, ascendendo numa espiral ininterrupta de muitos milhares de degraus, até finalmente atingir a Pedra de Dragão, entalhada na rocha viva no pináculo da Garganta do Mundo. Ali havia uma janela solitária sobre a neve, e diante dela se deitava um espaço estreito, um ninho vertiginoso sobre as névoas do mundo. Lá o sol brilhava violentamente, mas tudo embaixo estava envolvido por nuvens. Ele saltou para fora, e no momento em que eu o alcançava explodiu em chamas novas e azuis. Ninguém estava lá para ver, ou talvez em eras posteriores alguém ainda cantasse sobre a Batalha da Garganta. — De repente Savos riu. — Mas o que diriam nas canções? Aqueles que olharam para cima de um ponto distante pensaram que a montanha estava coberta pela tempestade. Ouviram trovões; e relâmpagos, diziam eles, atingiam a Garganta do Mundo e ricocheteavam em línguas de raios azuis. Isso não é o bastante? Uma grande fumaça se ergueu à nossa volta. O gelo caiu como chuva. Joguei o inimigo para baixo, e ele caiu e quebrou a encosta da montanha no ponto em que a atingiu ao ser destruído. Depois a escuridão me dominou, e eu me perdi do pensamento e do tempo, e vaguei muito por estradas pacíficas e aprendi muito na Ilha de Artaeum, sobre a qual não vou contar. Estava nu quando fui enviado de volta — por um tempo curto, até que minha tarefa estivesse cumprida. E nu jazi sobre o topo da montanha, apenas com os troféus da derrota de meu terrível inimigo de uma vida inteira: seu cajado e sua máscara de pedra da lua. A pedra atrás do topo da montanha estava desfeita em neve e poeira, a janela já não existia mais; a escada arruinada estava obstruída por rochas quebradas e queimadas. Eu estava sozinho, esquecido, sem possibilidades de escapar, sobre o duro chifre do mundo. Fiquei ali deitado, olhando para cima, enquanto as estrelas rodavam, e cada dia era longo como uma era na vida da terra. Chegavam aos meus ouvidos os rumores longínquos de todas as terras: o nascimento e a morte, o canto e o choro, e o gemido lento e eterno da rocha sobrecarregada. Então, finalmente, Paarthurnax, o Guardião da Garganta do Mundo, me encontrou novamente, e me carregou para baixo.
“Meu destino é sempre ser uma carga para você, amigo das horas difíceis”, disse eu.
“Você foi uma carga”, respondeu ele, “mas não é agora. Está leve como a pluma de um cisne em minhas garras. O sol brilha através de seu corpo. Na realidade, acho que não precisa mais de mim: se o deixasse cair, você flutuaria no vento.”
“Não me deixe cair!”, disse eu ofegante, pois sentia vida em mim outra vez. “Leve-me a Alta Hrothgar!”
“Foi exatamente esse o pedido de Arngeir, que me suplicou para procurá-lo”, respondeu ele.
— Foi assim que cheguei a Alta Hrothgar e soube que vocês tinham partido de Whiterun havia pouco. Permaneci lá, no tempo sem idade daquela terra onde os dias trazem cura e não ruína. Encontrei a cura, e fui vestido de amarelo por Quaranir, um dos meus, da Ordem Psijic. Dei conselhos e recebi conselhos. De lá vim por estradas estranhas, e trago mensagens de Einarth a alguns de vocês. Para Vorstag, trago esta:
Onde estão os Guardiões, Dovahkiin, Dovahkiin?
Por que agrada a teu povo vagar afim?
Vão dentro em breve o perdido surgir.
E aqueles da Companhia Barbacinza hão de vir.
Mas negro é o caminho que a ti vou destinar:
Há mortos à espreita na estrada que vai libertar
Para Faendal ela enviou este recado:
Faendal, filho de Glonagoth, o bosque é teu lar!
Alegre viveste. Cuidado com o Mar!
Se na praia gaivotas gritarem por ti,
Descanso jamais acharás por aqui.
Savos Aren ficou em silêncio e fechou os olhos.
— Então ele não me mandou nenhum recado? — disse Kharjo abaixando a cabeça.
— Escuras são as suas palavras — disse Faendal — e pouco significam para aqueles que as recebem.
— Isso não é consolo — disse Kharjo.
— E daí? — disse Faendal. — Você queria que ele lhe falasse abertamente sobre sua morte?
— Sim, se não tivesse mais nada a dizer.
— O que é isso? — disse Savos, abrindo os olhos vermelhos. — Sim, acho que posso adivinhar o significado das palavras dele. Desculpe-me, Kharjo! Eu estava pensando nas mensagens mais uma vez. Mas ele realmente lhe enviou algumas palavras, que não são nem escuras nem tristes. “Para Kharjo de Elsweyr”, disse ele através do pensamento para mim, “envie os cumprimentos de seus Amigos e Senhores. Por onde fores, homem tigre, meu pensamento te acompanhará. Mas tenha o cuidado de golpear com tua maça o inimigo certo!”
— Em boa hora você retorna a nós, Savos — gritou o khajiit, fazendo cabriolagens enquanto cantava alto na estranha língua dos khajiits. — Venham! Venham! — gritou ele, brandindo a maça. — Agora que a cabeça de Savos é sagrada, vamos achar uma outra que seja justo partir.
— Não é preciso procurar muito longe — disse Savos, levantando-se. — Venham! Gastamos todo o tempo que é permitido para um encontro de amigos que estavam separados. Agora precisamos nos apressar.
Embrulhou-se outra vez em sua velha capa surrada, e foi na frente. Vorstag notou que ele deu um olhar de afirmação para a misteriosa estalajadeira. Seguindo-o, eles desceram rapidamente do alto patamar e foram de volta para a floresta, subindo a margem do Rio Branco. Não falaram mais nada, até pisarem outra vez na grama além das bordas de Helgen. Não havia nenhum sinal de seus cavalos.
— Eles sumiram mesmo — disse Faendal. — Será uma caminhada cansativa!
— Eu não vou caminhar. O tempo urge — disse Savos. Depois, levantando a cabeça, deu um longo assobio. Foi tão claro e penetrante que os outros ficaram chocados por ouvirem um som assim saindo daqueles velhos lábios barbados. Assobiou três vezes, então, fraco e distante, eles tiveram a impressão de escutar o relincho de um cavalo vindo das planícies, trazido pelo Vento Leste. Esperaram, curiosos. Logo chegou até eles o som de cascos, primeiro pouco mais que um tremor do chão, perceptível apenas para Vorstag, que estava deitado sobre a grama; depois, cada vez mais alto e claro, até tornar-se uma batida rápida.
— Há mais de um cavalo vindo para cá — disse Vorstag.
— Certamente — disse Savos. — Somos carga demais para um só.
— Há três cavalos — disse Faendal, olhando por sobre a planície. — Vejam como correm. É Nerevelus, e ali está meu amigo Molvirian ao lado dele! Mas há um outro que vem na frente: um cavalo muito grande. Não vi nenhum assim antes.
— Nem vai ver outra vez — disse Savos — Aquele é o Gelado. É um grande clydesdale, o mais forte dos cavalos, e nem mesmo algum jarl de Whiterun, a Cidade dos Cavalos jamais viu um melhor. Ele não brilha como prata, e não corre com a suavidade de um rio veloz? Ele veio ao meu encontro: o cavalo do Mago Psijic. Vamos à batalha juntos.
No momento em que o velho mago falava, o grande cavalo veio avançando pela encosta, na direção deles: seu pêlo brilhava e a crina flutuava ao vento. Os outros dois o seguiam, agora bem atrás. Assim que Gelado viu Savos, apertou o passo e relinchou alto; depois, trotando suavemente, aproximou-se, abaixou a cabeça altiva e aninhou as grandes narinas no pescoço do velho elfo.
Savos o acariciou. — É uma longa estrada desde Ivarstead, meu amigo — disse ele. — Mas você é sábio e rápido e chega quando é necessário. Agora vamos cavalgar muito juntos, e nunca mais nos separaremos neste mundo!
Logo os outros cavalos vieram subindo e ficaram por perto, quietos como se esperassem ordens. — Vamos imediatamente para a Fortaleza da Névoa, o palácio de seu senhor, Harrald — disse Savos, dirigindo-se a eles com gravidade, os animais abaixaram as cabeças. — O tempo está passando; então, com sua permissão, meus amigos, vamos montar. Imploramos que usem toda a velocidade que puderem. Nerevelus levará Vorstag, e Molvirian levará Faendal. Vou colocar Kharjo na minha frente, e com sua permissão Gelado levará nós dois, Agora só vamos esperar que vocês bebam um pouco de água.
— Agora entendo uma parte do enigma da semana passada — disse Faendal enquanto pulava com leveza sobre o lombo de Molvirian. — Quer tenham ou não sentido medo num primeiro momento, os cavalos encontraram Gelado e o receberam com alegria. Você sabia que ele estava por perto, Savos?
— Sim, eu sabia — disse o mago. — Coloquei meu pensamento nele, pedindo que se apressasse; pois antes ele estava distante, perto de vocês, pelo visto. Rapidamente poderá me levar de volta!
Agora Savos falava com Gelado, e o cavalo partiu num passo veloz, mas que os outros ainda podiam acompanhar. Depois de um tempo voltou-se de repente, e escolhendo um lugar onde as margens eram mais baixas entrou no rio, e então foi para o leste, passando por uma região plana, aberta e ampla. O vento ia como grandes ondas através das intermináveis ilhas de relva. Não havia sinal de estrada ou trilha, mas Gelado não se perdia nem titubeava.
— Ele está fazendo um caminho direto até o palácio de Riften, sob as encostas das Montanhas de Cyrodiil — disse Savos — Assim será mais rápido. O solo é mais firme no Sul, onde fica a trilha principal que vai para o Leste, através do rio, mas Gelado sabe o caminho através de cada charco e concavidade.
Por muitas horas, continuaram cavalgando através dos prados e regiões ribeirinhas. Quase sempre a relva era tão alta que atingia os joelhos dos cavaleiros, e os cavalos pareciam estar nadando num mar verde-acinzentado. Passaram por varias poças escondidas, e amplos acres de juncais que ondulavam sobre terras secas e traiçoeiras; mas Gelado sempre achava o caminho, e os outros cavalos seguiam sua trilha. Lentamente o sol ia descendo o céu, em direção ao oeste. Olhando por sobre a grande planície, ao longe os cavaleiros o viram por um momento como um fogo vermelho afundando na relva. Ao leste, no horizonte, as saliências das montanhas brilhavam vermelhas dos dois lados. Uma fumaça parecia subir e escurecer o disco do sol até atingira tonalidade do sangue, como se tivesse incendiado a relva ao passar para baixo da superfície da terra.
— Ali fica Riften — disse Savos. — Agora está a leste de onde estamos. Muito acima fica Winterhold.
— Vejo uma grande fumaça subindo do nordeste — disse Faendal, com sua visão aguçada. — Que pode ser aquilo?
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