DdAH: O Colégio de Winterhold
7 A Fortaleza da Névoa
Continuaram cavalgando ao longo da tarde, do crepúsculo e do início da noite. Quando finalmente pararam e desmontaram, até mesmo Vorstag sentia o corpo enrijecido e cansado. Savos só permitiu algumas horas de descanso. Faendal e Kharjo dormiram, e Vorstag ficou deitado de costas, esticado no chão; mas Savos ficou de pé, apoiando-se em seu novo cajado de carvalho, olhando para dentro da escuridão, a leste e a oeste. Estava tudo em silêncio, e não havia sinal ou som de qualquer ser vivo. A noite estava coberta por longas nuvens, carregadas por um vento gelado, quando acordaram de novo. Sob a fria lua eles continuaram mais uma vez, com a mesma rapidez da cavalgada à luz do dia.
As horas se passavam e eles ainda iam cavalgando. Kharjo cochilava, e teria caído do cavalo se Savos não o tivesse agarrado e chacoalhado. Nerevelus e Molvirian, exaustos mas altivos, seguiam seu líder incansável, uma sombra cinza diante deles, que mal se podia ver. As milhas passavam. A lua crescente mergulhou no oeste nebuloso.
Um frio cortante veio pelo ar. Lentamente, no leste, a escuridão foi dando lugar a um cinza frio. Raios vermelhos de luz saltaram por sobre as muralhas negras de Riften, adiante deles. A aurora chegou clara e brilhante; um vento varria o caminho, correndo através da relva inclinada. De repente Gelado parou e relinchou.
Savos apontou à frente.
— Olhem — gritou ele, e os outros levantaram os olhos cansados. Diante deles se erguiam as montanhas do leste: cobertas de branco e riscadas de preto. A planície coberta de relva ondulava contra as colinas amontoadas aos seus pés, e fluía cobrindo muitos vales ainda apagados e escuros, intocados pela luz da aurora, descrevendo sinuosos caminhos para o coração das grandes montanhas. Imediatamente à frente dos viajantes, o mais amplo desses vales se abria como um golfo comprido entre as colinas. — Fale, Faendal! Conte-nos o que você está vendo à nossa frente!
Faendal olhou adiante, protegendo os olhos dos raios quase horizontais do sol recém-nascido. — Vejo um rio branco que suporta muita madeira — disse ele. — No ponto onde ele sai da sombra do vale, uma colina verde se ergue sobre o leste. Um fosso, uma poderosa muralha e uma cerca-viva de espinhos a contornam. Lá dentro se erguem os telhados de casas; e no meio, sobre uma plataforma de pedra, ergue-se imponente uma grande casa de homens. E parece aos meus olhos que o teto de madeira e pedra é muito alto. Ali diviso homens vestidos em malhas metálicas escuras sob mantos roxos; mas todos os outros dentro dos pátios ainda estão dormindo.
— Esses pátios são chamados de Lado Seco — disse Savos. — E Fortaleza da Névoa é aquele palácio de pedra. Ali mora Harrald, filho de Laila, Jarl da Terra de Riften. Chegamos com o nascer do dia. Agora é fácil ver a estrada. Mas devemos cavalgar com mais cautela; pois a guerra se espalha e os homens de Riften não dormem, mesmo que de longe se tenha essa impressão. Não saquem nenhuma arma, nem pronunciem palavras arrogantes, aconselho a todos vocês, até que cheguemos diante do trono de Harrald.
O dia estava claro e brilhante, e pássaros cantavam, quando os viajantes atingiram o lago, que corria calmamente para dentro das muralhas. Além do pé das colinas distanciava-se da estrada numa curva larga. A paisagem era verde: nas campinas úmidas e ao longo das bordas gramadas do rio cresciam vários salgueiros. Naquela região ao sul, essas árvores já estavam ficando com as pontas dos dedos avermelhadas, sentindo a primavera se aproximar. No lago havia um vau entre margens baixas, muito repisadas pela passagem de cavalos. Os cavaleiros atravessaram e atingiram uma trilha larga e sulcada, que conduzia às terras mais altas.
Ao pé da cidade protegida por muralhas, o caminho passava sob a sombra de muitos montículos, altos e verdes. Na face oeste destes a grama era branca, como se estivesse borrifada de neve: pequenas flores nasciam como inúmeras estrelas por entre a turfa.
— Olhem! — disse Savos. — Olhem! Chegamos a grande Cidade do Lago onde dormem os exércitos do Rift.
— Sete montículos à esquerda, e nove à direita — disse Vorstag. — O palácio da névoa foi construído há muitas longas vidas de homem.
— Quinhentas vezes as folhas vermelhas caíram em Falinesti, o meu lar, desde essa época — disse Faendal — e temos a impressão de que faz pouco tempo, pois vivemos cerca de duzentos e cinqüenta anos cada um.
— Mas para os homens de Riften parece tanto tempo — disse Vorstag —, que a construção dessa casa é apenas uma lembrança nas canções, e os anos precedentes estão perdidos nas névoas do tempo. Agora chamam esta terra de sua casa, seu lugar, e sua cultura se diferencia de seu parente do norte.
Então começou a cantar baixinho numa língua lenta, meio rouca e grossa, desconhecida pelo elfo e pelo khajiit; mesmo assim eles escutavam, pois a melodia era forte.
— Essa, eu acho, é a língua dos elfos negros do passado — disse Faendal —; pois é parecida com a própria terra; em parte rica e suave, mas ao mesmo tempo dura e austera como as montanhas que fazem fronteira com Morrowind. Mas não consigo adivinhar o significado das palavras, embora perceba que estão carregadas com a tristeza dos dunmers.
— A canção fica assim na língua comum — disse Savos Aren —, do jeito mais próximo que consigo traduzi-la.
Onde está a Rainha do Esplendor?
Onde a trompa que ecoava?
Onde estão os olhos vermelhos e o cabelo negro que brilhava?
Onde está a mão sobre o livro e da pele cinza a tremer?
A primavera e a colheita onde estão e o trigo alto a crescer?
Como a chuva da montanha passaram, como um vento no prado;
os dias no poente desceram atrás do monte ensombreado.
A fumaça da brasa que morre quem a irá guardar?
Sua beleza Tiber Septim também pôs a contemplar.
— Assim falou um poeta esquecido há muito tempo em Riften, relembrando como era longa e bela a Rainha Barenziah, que veio cavalgando de Morrowind; e havia asas em sua coroa, e pequenos rubis espalhados por ela. Assim ainda cantam os homens ao anoitecer.
Com essas palavras, os viajantes passaram pelos montículos silenciosos. Seguindo a trilha tortuosa que subia as encostas verdes das colinas, chegaram finalmente às amplas muralhas varridas pelo vento, e aos portões de Riften. Ali estavam sentados muitos homens em malhas, com mantos roxos cobrindo o ferro, que logo saltaram de pé e bloquearam o caminho com lanças.
— Parem, forasteiros desconhecidos! — gritaram eles, perguntando os nomes e a missão dos forasteiros.
Via-se surpresa, mas pouca simpatia nos olhos deles, que lançavam olhares oblíquos para Savos Aren.
— É a vontade do jarl que ninguém penetre seus portões, exceto aqueles são nossos amigos — disse outro dos guardas. — Ninguém é bem-vindo aqui, em tempo de guerra, a não ser nosso próprio povo, e aqueles que vêm de Solitude, na Terra de Haafingar. Quem são vocês, que chegam sem avisar através da planície, vestidos de forma tão estranha, montando cavalos grandes e fortes? Estamos montando guarda aqui há muito tempo, e temos observado vocês à distância. Nunca vimos outros cavaleiros tão estranhos, nem um cavalo mais altivo do que um desses que carregam vocês. Ele foi criado por aqui, a não ser que nossos olhos estejam sendo enganados por algum feitiço. Diga, você não é um mago, algum espião de Ancano, ou serão todos aparições produzidas por ele? Fale agora e seja rápido!
— Não somos aparições — disse Vorstag —, nem seus olhos o enganam. Pois realmente um desses cavalos foi criado aqui, como você bem sabia antes de perguntar, eu suponho. Mas é raro que um ladrão volte para o estábulo. Aqui estão Nerevelus e Molvirian, que Adgard, das Terras de Morthal, nos emprestou, e trazemos agora os animais para Riften, como prometemos a ele. Então ele não anunciou a nossa vinda?
Uma expressão preocupada cobriu os olhos do guarda. — Sobre Morthal, não tenho nada a dizer — respondeu ele. — Se o que fala é verdade, então, sem dúvida, Jarl Harrald já sabe disso. Talvez sua vinda não seja totalmente inesperada. Faz duas noites que Estormo veio até nós e disse que era vontade de Harrald que nenhum forasteiro atravessasse estes portões.
— Estormo? — disse Savos, lançando um olhar agudo para o guarda. — Não diga mais nada. Minha mensagem não é para Estormo, mas para o senhor da Terra do Lago em pessoa. Tenho pressa. Você não pode ir ou mandar dizer que chegamos? — Seus olhos vermelhos faiscavam sob as grossas sobrancelhas quando lançou o olhar sobre o homem.
— Sim, irei — respondeu ele lentamente. — Mas que nomes devo anunciar? E que devo dizer sobre vocês? Você agora parece velho e cansado, e apesar disso no fundo é altivo e austero, julgo eu.
— Você vê e fala bem — disse o mago. — Pois sou Savos Aren. Eu voltei. E olhe! Eu também trago de volta um cavalo. Aqui está Gelado, o Grande, animal de Maven Black-Briar. E aqui ao meu lado está Vorstag, filho de Rorstag, o herdeiro dos Imperadores, e é para Solitude que ele vai. Aqui também estão Faendal, o elfo, e Kharjo, o khajiit, nossos companheiros. Vá agora e diga ao seu senhor que estamos aos seus portões e queremos falar com ele, se nos for permitido entrar em seu palácio.
— São nomes realmente estranhos! Mas vou transmiti-los como me pede, e saber qual é a vontade de meu jarl — disse o guarda. — Esperem um pouco aqui, e lhes trarei a resposta que ele julgar melhor. Não esperem muita coisa! Estes são tempos sombrios.
Foi-se depressa, deixando os forasteiros sob os olhos vigilantes dos outros guardas. Depois de um tempo retornou. — Sigam-me — disse ele. — Harrald lhes dá permissão para entrarem; mas qualquer arma que tiverem, mesmo que seja só um cajado, devem deixá-la na entrada. Sentinelas tomarão conta delas.
Os portões escuros foram abertos. Os viajantes entraram, andando em fila atrás de seu guia. Encontraram uma trilha larga, pavimentada com pedras cortadas, que em certos trechos subia em rampa, e em outros por meio de curtos lances de degraus bem construídos. Passaram por muitas casas de madeira e muitas portas escuras. Abaixo de longas pontes de madeira podiam ver o lago correndo lá embaixo da cidade.
Finalmente atingiram o palácio. Ali estavam sentados outros guardas, com espadas depositadas sobre os joelhos. Os elmos uniformes cobriam seus rostos; seus escudos roxos ostentavam o sol, as longas malhas reluziam, mas o mesmo manto roxo as cobria, e quando se levantavam pareciam mais altos que os homens mortais.
— Ali adiante estão as portas — disse o guia. — Devo agora retornar ao meu dever junto ao portão. Até logo! E que o Senhor de Riften seja gentil para com vocês!
Virou-se e retornou depressa pela estrada. Os outros subiram a longa escada sob os olhos das altas sentinelas. Já no alto, permaneceram em silêncio, e não disseram uma palavra, até que Savos pisou no terraço pavimentado, na cabeceira da escada. Então, de repente, com vozes claras, pronunciaram um cumprimento cortês.
— Saudações, viajantes que vêm de longe! — disseram eles, voltando os punhos de suas espadas na direção dos viajantes, em sinal de paz. Pedras verdes faiscaram à luz do sol. Então um dos guardas, mais alto que todos, e numa armadura dourada e folheada, deu um passo à frente.
— Sou a Sentinela de Jarl Harrald — disse ele. Sua voz era grossa. — Unmid é o meu nome. Aqui preciso pedir que deixem de lado suas armas antes de entrarem.
Então Faendal entregou na mão dele sua faca com punho de prata, sua aljava e seu arco. — Tome conta deles — disse ele —, pois essas armas vêm da Cidade Errante de Falinesti, e me foram presenteadas pelo Rei Glonagoth.
Os olhos do homem se encheram de surpresa, e ele logo as colocou perto da parede, como se tivesse medo de manuseá-las. — Nenhum homem irá tocá-las, eu lhe prometo — disse ele.
Vorstag hesitou por um instante. — Não é meu desejo — disse ele —separar-me de minha espada ou entregar Arandagon nas mãos de qualquer outro homem.
— É o desejo de Jarl Harrald — disse Unmid.
— Não está claro para mim que o desejo de Harrald, filho de Laila, mesmo que ele seja o Jarl das Terras do Estado de Rift, deva prevalecer sobre o desejo de Vorstag, filho de Rorstag, herdeiro de Talos, de Skyrim.
— Esta é a casa de Jarl Harrald, não de Vorstag, mesmo que ele fosse o Alto Rei de Skyrim e ocupasse o trono de Elisif, a Bela — disse Unmid, avançando rápido até a porta e bloqueando o caminho. Segurava agora a espada com a ponta na direção dos forasteiros.
— Essa conversa não leva a nada — disse Savos Aren. — Desnecessário é o pedido de Harrald, mas é inútil recusá-lo. Um jarl será respeitado em seu próprio palácio, sejam suas ordens tolas ou sábias.
— É verdade — disse Vorstag. — E eu faria como o senhor da casa me pede, mesmo que esta fosse apenas a cabana de um lenhador, se estivesse carregando agora qualquer outra espada que não Arandagon.
— Qualquer que seja o nome — disse Unmid —, aqui irá colocá-la, se não quiser lutar sozinho contra todos os homens de Riften.
— Sozinho não! — disse Kharjo, alisando a lâmina de sua maça, dirigindo ao guarda um olhar ameaçador, como se ele fosse um inimigo pouco ameaçador, embora fosse muito maior do que ele. — Sozinho não!
— Vamos, vamos! — disse Savos — Somos todos amigos aqui. Ou deveríamos ser; pois as gargalhadas de Skuldafn serão nossa única recompensa se discutirmos. Minha mensagem é urgente. Aqui, pelo menos, está a minha espada, meu bom Unmid. Tome conta dela. Beldastare é seu nome, feita pelos nórdicos e nomeada pelos elfos. Agora, deixe-me passar. Venha, Vorstag!
Lentamente Vorstag desafivelou o cinto em suas costas e colocou ele mesmo sua espada de pé contra a parede. — Aqui a coloco — disse ele —; mas ordeno que não a toquem, nem permitam que qualquer outra pessoa ponha as mãos nela. Nesta bainha está a Espada de Uriel Septim, e foi forjada de novo. A morte virá para qualquer um que brandir a espada de Uriel e sua Casa, a não ser o seu herdeiro.
O guarda deu um passo para trás e olhou espantado para Vorstag. — Ao que parece, você chegou nas asas da canção, vindo de dias esquecidos — disse ele. — Será, senhor, como ordena.
— Bem — disse Kharjo. — Se tem Arandagon para lhe fazer companhia, minhas maças podem ficar aqui, também, sem embaraço — e colocou-as no chão.
— Agora, então, se tudo está como deseja, deixe-nos ir falar com ele.
O guarda ainda hesitou. — Seu cajado — disse ele a Savos. — Desculpe- me, mas ele também deve ser deixado na entrada.
— Tolice! — disse Savos. — Prudência é uma coisa, descortesia é outra. Sou velho. Se não puder me apoiar em meu cajado para ir até lá, então ficarei aqui fora, até que seja do agrado do próprio Harrald vir em sua graça até aqui, para falar comigo.
Vorstag riu. — Todo homem tem algo que preza demais para confiar a outro homem. Mas você separaria um velho de seu apoio? Vamos lá, não vai nos deixar entrar?
— Um cajado na mão de um mago pode ser mais que um apoio para a velhice — disse Unmid. — Olhou firme para o cajado cinzento no qual se apoiava Savos. — Mas, na dúvida, um homem valoroso confiará em sua própria sabedoria. Acredito que vocês são amigos, e pessoas dignas de honra, que não têm propósitos malignos. Podem entrar.
Os guardas então ergueram as pesadas barras das portas, que se abriram lentamente, resmungando em suas grandes dobradiças. Os viajantes entraram. O interior parecia escuro e quente, depois do ar claro sobre a colina.
Os quatro companheiros avançaram, passando pela chama viva que ardia sobre a longa lareira no meio do salão. Então pararam. Na outra extremidade do salão, além da lareira e virado para o norte na direção das portas, estava uma plataforma; no meio havia uma grande cadeira dourada. Nela sentava-se um homem jovem e curvado, de longos cabelos alaranjados e amarrados, pressionados por uma tiara de pedra da lua com um diamante no meio. Seus olhos eram os de uma idoso, embora fosse tão jovem.
Estavam em silêncio. O rapaz não se mexia na cadeira. Finalmente, Savos Aren falou.
— Salve, Jarl Harrald! Eu retornei. Pois, veja!, a tempestade se aproxima, e agora todos os amigos devem se reunir, para que não sejam destruídos um a um.
— Cumprimento-o — disse ele —, e talvez você espere minhas boas-vindas Mas para falar a verdade duvidamos que seja bem-vindo aqui, Mestre Savos. Você sempre foi um arauto do pesar. Os problemas o seguem como corvos, e, quanto maior a freqüência, tanto pior. Não vou enganá-lo: quando ouvi que Gelado tinha retornado sem seu cavaleiro, fiquei feliz com a volta do cavalo, e ainda mais com a falta do cavaleiro; e quando Morthal enviou a notícia de que você tinha partido para sua última morada, eu não lamentei. Mas a notícia que vem de longe raramente é verdadeira. Aí está você de novo! E com você chegam males ainda piores que os anteriores, como se pode esperar. Por que deveria dar-lhe e boas-vindas, Savos, Mensageiro da Morte?
— Fala corretamente, meu senhor — disse o altivo elfo sentado nos degraus da plataforma, com os braços apoiados nas pernas esticadas e um sorriso sarcástico: usava o traje dos thalmors. — Ainda não faz um ano que chegou a triste notícia de que sua mãe, Laila, foi morta por um terrível veneno: sua querida, pobre mãe. E agora mesmo sabemos por Haafingar que o Devorador de Mundos se agita no leste. É esta hora que esse andarilho escolhe para retornar. Realmente, por que devemos lhe dar boas-vindas, Mestre Mensageiro da Morte? Vou chamá-lo de dunalt, velho amaldiçoado; e más notícias não fazem bons hóspedes, dizem por aí. — Soltou uma gargalhada sinistra, conforme levantou as pesadas pálpebras amareladas por um instante e lançou um olhar sombrio para os forasteiros.
— Você é considerado sábio, amigo Estormo, e sem dúvida é um grande apoio para seu mestre — respondeu Savos em voz baixa. — Apesar disso, um homem pode acompanhar as más notícias de dois modos. Pode estar trabalhando para o mal, ou ser apenas aquele que não interfere no que está bom para não estragar, e só se apresenta para ajudar em tempos de necessidade.
— Isso é verdade — disse Estormo —; mas existe um terceiro tipo: catadores de ossos, que se intrometem nas tristezas de outros homens, abutres que engordam à custa da guerra. Que ajuda você já trouxe, Dunalt? E que ajuda traz agora? Foi nossa ajuda que procurou na última vez que esteve aqui. Então meu senhor ordenou que escolhesse qualquer cavalo que quisesse e partisse, e para a surpresa de todos vocês, na sua insolência, escolheu um cavalo muito querido para a Senhora Maven. Ele ficou muito magoado; mesmo assim, para alguns pareceu que, em troca de afastá-lo rapidamente desta terra, o preço não foi alto demais. Acho provável que aconteça o mesmo outra vez: você vai pedir ajuda e não oferecê-la. Você está trazendo homens? Está trazendo cavalos, espadas, lanças? Essas coisas eu chamaria de ajuda; e é delas que precisamos agora. Mas quem são estes que o seguem? Três andarilhos esfarrapados, vestidos de marrom e preto, e você, o mais molambento dos quatro!
— A cortesia de seu palácio parece ter diminuído nos últimos tempos, Jarl Harrald — disse Savos Aren — O mensageiro de seus portões não anunciou os nomes de meus companheiros? Raramente um Jarl de Riften recebeu convidados assim. Deixaram armas às suas Portas que são dignas de poucos mortais, mesmo os mais poderosos. Suas vestes são marrons e negras, pois os Barbacinzas os vestiram, e assim eles passaram através da sombra de muitos perigos, para chegar ao seu palácio.
— Então é verdade, como reportou Morthal, que vocês são aliados dos Bruxos e Feiticeiros da Montanha? — disse Estormo. — Não é de admirar: as teias da falsidade sempre foram tecidas no coração de Skyrim.
Kharjo deu um passo à frente, mas sentiu de súbito a mão de Savos agarrando-o pelo ombro, e parou, duro como uma pedra. Jogando para trás sua velha capa esfarrapada, levantou-se e deixou de se apoiar no cajado de Morokei; falou então numa voz clara.
— Os sábios só falam do que conhecem, Estormo, do Domínio Aldmeri. Você se transformou num verme estúpido. Portanto fique em silêncio, e mantenha sua língua élfica atrás dos dentes. Não passei pelo fogo e pela morte para trocar palavras distorcidas com um servidor até que caiam raios do céu.
Levantou o cajado. Ouviu-se o estrondo de um trovão. A luz do sol se apagou nas janelas do leste; todo o salão ficou de repente escuro como a noite. O fogo diminuiu, passando a pequenas brasas. Só se via Savos Aren, erguendo-se cinzento e altivo diante da lareira enegrecida. Na escuridão, escutaram o chiado da voz de Estormo: — Não o aconselhei, meu jarl, a proibir esse cajado? Aquele tolo, Unmid, nos traiu!
Houve um clarão como se um raio tivesse fendido o teto. Depois tudo ficou em silêncio. Estormo caiu esticado no chão.
— Agora, Jarl Harrald Law-Giver, não vai me escutar? — disse Savos — Está pedindo ajuda? — Levantou o cajado e apontou para uma alta janela.
Ali a escuridão pareceu se extinguir, e através de uma abertura podia-se ver, alto e distante, um pedaço de céu luminoso. Um brilho azul se espalhou lá. — Nem tudo está escuro, tenha coragem, Jarl de Riften; pois melhor ajuda não encontrará. Não tenho conselhos a dar para os que se desesperam. Mas poderia dar conselhos, e poderia lhe dizer umas palavras. Não vai me escutar? Não se destinam a qualquer ouvido. Peço que deixe o interior dessas portas e olhe lá fora. Por muito tempo você ficou sentado nas sombras e confiou em histórias distorcidas e sugestões tortuosas.
Lentamente Harrald deixou sua cadeira. Uma luz fraca se acendeu no salão de novo. Uma mulher com uma armadura sob um manto amarelo correu para o lado de seu jarl, pegando-lhe o braço, e com passos vacilantes o jarl desceu da plataforma e caminhou suavemente através do salão. Estormo continuou deitado no chão. Chegaram até as portas e Savos Aren bateu.
— Abram! — gritou ele. — O Jarl das Terras de Riften se aproxima! — As portas se abriram e um ar fresco entrou, com um assobio. Um vento soprava na colina. — Mande que seus guardas desçam a escada — disse Savos — E você, senhora, deixe-o um pouco comigo. Tomarei conta dele.
— Vá, Lydia, mensageira de Balgruuf, o Grande! — disse o rapaz. — O tempo do medo acabou.
A mulher se voltou e foi lentamente para dentro da casa. Ao passar pelas portas, virou-se e olhou para trás. Seu olhar era grave e pensativo, quando se dirigiu ao jarl com uma piedade calma. Muito belo era seu rosto, e seus longos cabelos eram como um rio na noite escura. Era alta e esbelta em seu traje amarelo cingido por um cinto de prata; mas parecia forte e rígida como o aço, a mensageira de um jarl. Assim Vorstag, pela primeira vez em plena luz do dia, contemplou Lydia, uma mensageira de Whiterun, e a achou bela, bela e fria, como uma manhã pálida de primavera que ainda não atingiu a plenitude de mulher. E ela de repente se deu conta dele: altivo herdeiro de um império, sábio após muitos invernos, coberto com sua armadura marrom, escondendo um poder que ela adivinhava. Por um momento, permaneceu imóvel como uma pedra; depois virando-se rapidamente, ela se foi.
— Agora, meu jarl — disse Savos —, contemple sua terra! Respire o ar livre outra vez!
Do alpendre sobre as escadas eles podiam ver além do rio os campos amarelos de Riften, sumindo num cinza distante. Cortinas de chuva açoitadas pelo vento caíam oblíquas. O céu acima e ao oeste ainda estava escuro e trovejava; relâmpagos piscavam distantes, em meio aos topos das colinas escondidas. Mas o vento tinha mudado para o norte, e a tempestade que surgira no leste já amainava, rolando em direção às florestas. De repente, através de uma brecha nas nuvens atrás deles, um raio de sol cortou o céu. A chuva que caía brilhou como prata, e na distância o rio resplandeceu como um espelho de luz trêmula,
— Não está tão escuro aqui — disse Harrald.
— Não — disse Savos. — Nem a idade pesa tanto em seus ombros, como alguns querem fazê-lo pensar. Jogue fora seu apoio!
Das mãos do jarl, um bastão dourado caiu, batendo sobre as pedras. Ele esticou o corpo, lentamente, como um homem que se sente enrijecido após ficar um longo período curvado sobre alguma tarefa enfadonha. Agora erguia-se alto e ereto, e seus olhos azuis contemplavam o céu que se abria.
— Escuros têm sido meus sonhos nos últimos tempos — disse ele —, mas sinto-me como alguém que acabou de despertar. Desejaria agora que você tivesse vindo antes, Savos, pois receio que já tenha chegado tarde demais, apenas para ver os últimos dias de minha casa. Não por muito tempo deverá resistir o alto palácio que minha mãe regeu em nome de Talos por tanto tempo. O fogo do dragão devorará o trono. Que se pode fazer?
— Muito — disse Savos. — Mas primeiro mande chamar Saerlund. Não estou certo, supondo que você o mantém prisioneiro, pelo conselho que Estormo, que todos menos você sabem que serve mais ao Domínio do que ao Colégio?
— É verdade — disse Harrald. — Ele se rebelou contra minhas ordens, caluniou o Jarl Ulfric e sua causa, e ameaçou Estormo de morte em meu palácio.
— Um homem pode amá-lo mas não amar Estormo ou os conselhos dele — disse Savos Aren.
— Isso pode ser. Farei como me pede. Chame Unmid, diga que venha até mim. Já que ele provou ser uma sentinela não confiável, que agora se torne um transmissor de recados. Os culpados devem trazer os culpados ao julgamento — disse Harrald, e sua voz era grave; apesar disso olhou para Savos e sorriu, e quando fez isso muitas rugas de preocupação desapareceram de seu rosto, para não voltar mais.
Depois que Unmid se apresentara e já saíra, Savos conduziu Harrald até a cadeira de pedra, e então sentou-se diante do jarl sobre o degrau mais alto da escada. Vorstag e seus companheiros ficaram por perto.
— Não há tempo para lhe contar tudo o que precisa ouvir — disse Savos. — Mas se minha esperança não estiver enganada, chegará um tempo, dentro em breve, quando poderei falar de modo mais completo. Olhe! Você corre um perigo maior até do que aqueles que a habilidade de Estormo poderia ter introduzido em seus sonhos! Mas veja! Você não está mais sonhando. Você está vivo. Solitude e Riften não estão sozinhas. O inimigo é mais forte do que podemos imaginar, apesar disso temos uma esperança que ele ainda não imagina.
Savos agora falava rápido. Sua voz era baixa e confidencial, e ninguém a não ser o jarl ouvia o que ele dizia. Mas a cada palavra do mago aumentava o brilho nos olhos jovens de Harrald, e finalmente ele se levantou de seu assento em toda a sua imponência, tendo Savos ao lado dele, e juntos lá do alto eles olharam na direção do leste.
— Realmente! — disse Savos, agora numa voz alta. — Forte e clara naquela direção está nossa esperança, lá onde está nosso maior medo. O destino ainda está por um fio. Mas ainda há esperança, se conseguirmos resistir imbatíveis por um tempo.
Os outros agora também olhavam para o leste. Por sobre léguas de terras que se estendiam, lá adiante eles divisavam o horizonte, e a esperança e o medo ainda faziam seus pensamentos avançarem mais, além das escuras montanhas, para a Terra de Skuldafn. Onde estaria agora o Devorador de Mundos? Como era fino o fio do qual pendia o destino! Faendal teve a impressão, ao forçar os olhos poderosos, de ver de relance um brilho branco: na distância, talvez o sol piscasse num pináculo de uma Torre de Skuldafn. E mais além ainda, infinitamente remoto e no entanto uma ameaça presente, havia uma língua enorme de fogo azul e místico.
Lentamente Harrald se sentou de novo, como se o cansaço ainda lutasse para dominá-lo, contra a vontade de Savos. Virou-se e olhou para seu grande palácio. — É pena — disse ele — que esses dias tristes devam ser meus, e que venham em minha juventude, no lugar da paz que eu conquistei. Sinto pena por Erik, o bravo! Cavalguei com ele uma vez, durante uma longa visita a Solitude para transportar uma mensagem de minha mãe. — Segurou os joelhos com as mãos trêmulas.
— Seus dedos se recordariam melhor da velha força se segurasse m o punho de uma espada — disse Savos.
Harrald se levantou e colocou a mão do lado do corpo, mas não havia espada alguma em seu cinto. — Onde Estormo a escondeu? — disse ele num sussurro.
— Tome esta, meu irmão — disse uma voz límpida. — Ela sempre esteve a seu serviço. — Dois homens tinham subido em silêncio a escada, e agora estavam parados, a poucos passos do topo. Saerlund estava lá. Sem elmo sobre a cabeça, sem malha sobre o peito, mas na mão segurava uma espada; ajoelhando-se, ofereceu o punho ao seu irmão mais velho.
— Que significa isso? — disse Harrald severo. Voltou-se para Saerlund e os homens ficaram surpresos ao vê-lo, erguendo-se agora altivo e ereto. Onde estava o jovem doente que tinham deixado curvado em seu trono, ou apoiado em seu cajado?
— A responsabilidade é minha, senhor — disse Unmid, tremendo. —Entendi que Saerlund deveria ser libertado. Tamanha alegria dominou meu coração que talvez eu tenha cometido um erro. No entanto, uma vez que ele estava livre de novo, e sendo ele um General da Guarda de Riften, trouxe-lhe a espada como ele me pediu.
— Para depositá-la aos seus pés, irmão — disse Saerlund.
Por um instante de silêncio, Harrald ficou olhando para Saerlund, que ainda estava ajoelhado a seus pés. Nenhum dos dois se mexeu.
— Não vai pegar a espada? — perguntou Savos.
Lentamente Harrald estendeu a mão. Quando seus dedos tocaram o punho, pareceu aos que olhavam que a força e a firmeza retornavam ao seu braço. De repente ergueu a lâmina e a brandiu, reluzente e assobiando no ar. Então soltou um forte grito. Sua voz soava clara enquanto cantava um chamado às armas.
— De pé já, de pé, Guardas de Riften! Duros feitos despertam, a leste já escurece. A sela do cavalo, o som à trombeta! Avante, Homens de Harrald!
Os guardas, julgando que estavam sendo convocados, subiram correndo a escada. Olharam seu senhor com surpresa, e depois, como se fossem um só homem, puxaram suas espadas e colocaram-nas aos pés dele. — Comande-nos — disseram eles.
— Meu querido irmão! — gritou Saerlund. — É uma alegria para nós vê-lo voltar a ser o que era. Nunca mais alguém dirá, Savos, que você só vem trazendo tristeza!
— Pegue de volta sua espada, Saerlund, filho de minha mãe! — disse o jarl. — Vá, Unmid, e procure minha própria espada! Está em poder de Estormo. Traga-o a mim também. Agora, Savos, você disse que tinha conselhos a dar, se eu quisesse escutá-los. Qual é o seu conselho?
— Você já o colocou em prática — respondeu Savos. — Depositar sua confiança em seu próprio irmão, e não num homem de mente pervertida. Jogar fora o medo e o arrependimento. Fazer o que deve ser feito. Todo homem que pode cavalgar deve ser enviado para o oeste imediatamente, como Saerlund o aconselhou: devemos primeiro destruir a ameaça de Ancano, enquanto temos tempo. Se falharmos, seremos derrotados. Se tivermos sucesso — então enfrentaremos a próxima tarefa. Enquanto isso, aqueles do seu povo que sobrarem, as mulheres, as crianças e os velhos, devem permanecer na cidade, e nós devemos cavalgar para o Forte de Greenwall. Não foram eles preparados para um dia tão terrível como este? Se não passarem pelas muralhas do forte a nossa proteção, nunca passarão pelas muralhas de Riften. É a vida deles que está em questão.
— Esse conselho me parece bom agora — disse Harrald. — Que todo meu exército se apronte! Menos vocês, meus hóspedes — você estava certo, Savos, quando disse que a cortesia de meu palácio diminuiu. Vocês cavalgaram a noite toda e a manhã já está terminando. Vocês não dormiram nem comeram nada. Vocês devem ir para a Abelha e a Farpa: ali deverão dormir, após terem comido.
— Não, meu jarl — disse Vorstag. — Ainda não pode haver repouso para os cansados. Os homens de Riften devem partir hoje, e nós iremos com eles, com maça, espada e arco. Não trouxemos essas armas para que ficassem descansando contra sua parede, Jarl de Riften. E as nossas espadas, filhos de Laila, devem ser brandidas juntas.
— Agora realmente vejo esperança de vitória! — disse Saerlund.
— Esperança sim — disse Savos. — Mas Winterhold agora é forte. E outros perigos se aproximam cada vez mais. Não demore, Harrald, quando tivermos partido. Conduza seu povo rapidamente às suas casas e os tranque!
— Não, Savos — disse o jarl. — Você não conhece seu próprio poder de cura. Não será assim. Eu mesmo irei à guerra, para cair à frente da batalha, se isso tiver de acontecer. Assim dormirei melhor.
— Nesse caso, mesmo a derrota de Riften será gloriosa nas canções disse Vorstag.
Os homens armados que estavam por perto bateram suas armas, gritando: — O Senhor de Riften irá lutar. Avante, Homens de Harrald!
— Mas seu povo não pode ficar sem armas e sem um líder ao mesmo tempo — disse Savos. — Quem irá guiá-los e governá-los em seu lugar?
— Pensarei nisso antes de partir — respondeu Harrald. — Lá vem meu conselheiro.
Nesse momento, Unmid voltou do salão. Atrás dele, encolhendo-se entre dois outros homens, vinha Estormo. Seu rosto estava tão branco quanto podia ser, meio a coloração amarela dos altos elfos. Os olhos piscavam com a luz do sol. Unmid se ajoelhou e apresentou a Harrald uma grande espada numa bainha trabalhada em ouro.
— Aqui, senhor, está sua antiga espada — disse ele. — Foi encontrada nos baús dele. A contragosto entregou as chaves. Há muitas outras coisas lá de que os homens deram falta.
— Você está mentindo — disse Estormo. — E essa espada me foi confiada por seu próprio mestre.
— E agora ele a requer de volta — disse Harrald — Isso lhe desagrada?
— Certamente que não, senhor — disse Estormo. — Cuido do senhor e dos seus o melhor que posso. Mas não se dê tanto trabalho, não exija demais de suas energias. Deixe que outros lidem com esses hóspedes aborrecidos. Sua carne está quase pronta para servir. Não quer prová-la?
— Quero — disse Harrald. — E faça com que a comida de meus hóspedes seja servida ao meu lado na mesa. O exército cavalgará hoje. Envie os arautos! Que reúnam todos os que moram nas redondezas. Todo homem e todo rapaz bastante forte para segurar uma arma, e todos os que têm cavalos, que estejam prontos sobre as selas antes da segunda hora após o meio-dia!
— Caro senhor! — gritou Estormo. — É como eu receava. Esse mago o enfeitiçou. Não vai ficar ninguém para defender a Fortaleza da Névoa que pertenceu aos seus ancestrais, e todo o seu tesouro? Ninguém para proteger o Jarl Harrald?
— Se isso for feitiço — disse Harrald —, parece-me mais benfazejo que seus sussurros. Sua arte de sanguessuga teria logo feito com que eu começasse a andar de quatro, como um animal. Não, ninguém ficará, nem mesmo Estormo. Estormo também cavalgará. Vá! Você ainda tem tempo para limpar a ferrugem de sua espada.
— Clemência, senhor! — choramingou Estormo, rastejando no chão. — Tenha pena de alguém que se desgastou de tanto o servir. Não me mande para longe de sua companhia! Pelo menos eu ficarei ao seu lado quando todos os outros tiverem partido. Um elfo vale por cem homens a seu lado!
— Você tem minha compaixão pois foi um bom aliado à minha mãe — disse Harrald. — E não o mandarei para longe de minha companhia. Eu mesmo irei para a guerra com meus homens. Ordeno que venha comigo e prove sua fidelidade e sua capacidade élfica.
Estormo olhava de rosto em rosto. Em seus olhos se via a expressão de um animal acossado, procurando uma brecha no círculo formado por seus inimigos. Lambeu os lábios com sua língua comprida e descorada. — Pode-se esperar uma resolução dessas de um filho de Laila, mesmo que ele seja ainda uma criança — disse ele. — Mas os que realmente o amam estenderiam seus anos. Apesar disso, vejo que chego tarde demais. Outros, a quem talvez a morte de meu senhor entristeceria menos, já o persuadiram. Se não posso desfazer o que fizeram, escute-me pelo menos nisto, senhor! Alguém que conhece seus pensamentos e honra suas ordens deve ficar em Riften. Nomeie um administrador fiel. Permita que o alto elfo Estormo, cuide de tudo até seu retorno — e espero que possamos revê-lo, embora nenhum homem sábio tenha esperanças.
Saerlund riu. — E se esse pedido não o dispensar da guerra, nobilíssimo Estormo — disse ele —, que serviço de menor honra você aceitaria? Carregar um saco de farinha para o forte — se alguém confiasse em você para essa tarefa?
— Não, Saerlund, você não está entendendo completamente os pensamentos do Mestre Estormo — disse Savos, voltando o olhar agudo para este último. — Ele é bravo e astuto. Agora mesmo está fazendo um jogo com o perigo e ganhou uma jogada. Já desperdiçou horas de meu precioso tempo. Ao chão, elfo antigo! — disse ele de repente com uma voz terrível. — De barriga no chão! Quanto tempo faz que Ancano o comprou? Qual foi o preço prometido? Quando todos os homens estivessem mortos, você teria uma parte no tesouro, e levaria a mulher que deseja? Por isso não permite que a Mensageira de Balgruuf retorne ao Jarl de Whiterun? Há muito tempo você a tem observado com seus olhos oblíquos e perseguido seus passos.
Saerlund puxou sua espada. — Disso eu já sabia — murmurou ele. — Por esse motivo já o teria matado antes, esquecendo a lei do palácio. Mas há outros motivos. — Deu um passo à frente, porém Savos o deteve com a mão.
— A mensageira está a salvo agora — disse ele. — Mas você, Estormo, já fez tudo o que podia por seu verdadeiro mestre. Alguma recompensa conseguiu no fim. No entanto, Ancano é capaz de ignorar as promessas que fez. Devo recomendar que vá rápido e refresque a memória dele, para que não esqueça seus fiéis serviços.
— Você está mentindo — disse Estormo.
— Essa palavra brota com muita freqüência de seus lábios — disse Savos. — Eu não estou mentindo. Veja, Harrald, aqui está uma cobra! Uma cobra tão velha quanto eu! Não pode levá-la consigo em segurança, nem deixá-la para trás. Matá-la seria justo. Mas essa criatura não foi sempre como é agora. Já foi um trabalhador nobre da Embaixada, e o serviu à sua maneira. Dê-lhe um cavalo e faça-o partir imediatamente, para onde escolher. Poderá julgá-lo por sua escolha.
— Você ouviu isso, Estormo? — disse Harrald. — A escolha é sua: cavalgar comigo para a guerra, e nos deixar comprovar na batalha a sua sinceridade, ou partir agora, para onde quiser. Mas se for assim, se nos encontrarmos novamente, não terei pena.
Lentamente, Estormo se levantou. Olhou para eles com os olhos semicerrados. Por último olhou para o rosto de Harrald e abriu a boca, como se fosse falar alguma coisa. Então de repente se aprumou. As mãos se agitavam, os olhos faiscavam. Havia tanta malícia neles que os homens recuaram. Mostrou os dentes; e depois, com uma respiração chiada, cuspiu aos pés do jarl, e, lançando-se para um lado, fugiu descendo a escada.
— Atrás dele! — disse Harrald. — Cuidem para que não faça mal a ninguém, mas não o machuquem e nem impeçam que parta. Que lhe seja dado um cavalo, se ele quiser.
— Isso se algum animal o aceitar — disse Saerlund.
Um dos guardas desceu a escada correndo. Um outro foi até o poço no centro da cidade e com seu elmo retirou um pouco de água. Com ela lavou as pedras que Estormo tinha conspurcado.
— Agora venham, meus hóspedes! — disse Harrald. — Venham e se reconfortem da maneira que o tempo permite.
Saíram do palácio. Já escutavam lá a frente os arautos gritando pela cidade e as cornetas de guerra soando. Pois o jarl devia partir logo que os homens da cidade e os que moravam nas redondezas estivessem armados e reunidos. À mesa do jarl na Abelha e a Farpa sentaram-se Saerlund e os quatro hóspedes, e ali também, servindo o Jarl de Whiterun, estava a senhora Lydia. Comeram e beberam de pressa. Os outros ficaram em silêncio, enquanto Harrald fazia perguntas a Savos a respeito de Ancano.
— A quando remonta essa traição, quem pode saber? — disse Savos. — Ele não foi sempre mau. Não duvido que já tenha sido um amigo de Riften; e mesmo quando seu coração esfriou ele ainda o considerou útil. Mas faz tempo agora que vem planejando sua ruína, usando a máscara da amizade, até que ele estivesse pronto. Nesses últimos tempos, a tarefa de Estormo foi fácil, e tudo o que você fazia era logo relatado em Winterhold; pois sua terra estava aberta, e os forasteiros entravam e saíam. E sempre o sussurro de Estormo estava em seus ouvidos, envenenando seus pensamentos, enregelando seu coração, enfraquecendo seus músculos, enquanto os outros viam tudo e não podiam dizer nada, pois sua vontade era controlada por ele. Mas quando escapei e avisei você, então a máscara foi destruída para aqueles que quisessem ver. Depois disso Estormo jogou perigosamente, sempre procurando atrasá-lo, para impedir que recobrasse todas as suas forças. Ele foi esperto: entorpecendo a astúcia dos homens e alimentando seus medos, como melhor coubesse em cada ocasião. Não lembra com que avidez ele disse que nenhum homem deveria ser desperdiçado numa busca infrutífera em direção ao oeste, quando todo o perigo estava no leste? Ele o persuadiu a cortar relações com Morthal. Se Adgard não tivesse desafiado a voz de Estormo que falava através de suas cartas, aqueles dremoras já teriam chegado a Winterhold agora levando um grande prêmio. Na realidade, não o prêmio que Ancano deseja acima de todos os outros, mas no mínimo dois membros de minha Companhia, que compartilham uma esperança secreta, da qual nem mesmo a você, meu jarl, ainda não posso falar abertamente. Ousa pensar o quanto eles estariam sofrendo agora, ou o que Ancano poderia ter descoberto para nossa desgraça?
— Devo muito a Morthal — disse Harrald. — Corações amigos podem ter ações muito rebeldes.
— Diga também — disse Savos — que para olhos tortos a verdade pode ter um rosto desvirtuado.
— Realmente meus olhos estavam quase cegos — disse Harrald. — Acima de tudo devo a você, meu convidado. Mais uma vez chegou a tempo. Gostaria de lhe oferecer um presente antes de partirmos, à sua escolha. Você só tem de apontar qualquer coisa que é minha. Agora só reservo minha própria cidade.
— Se cheguei a tempo não podemos saber agora — disse Savos. — Mas quanto ao presente, senhor, vou escolher um que supra minhas necessidades: rápido e seguro. Dê-me Gelado! Antes ele só foi emprestado, se é que podemos chamar aquilo de empréstimo. Mas agora vou conduzi-lo para grandes perigos, colocando a prata contra o negro: eu não arriscaria qualquer coisa que não fosse minha. E já existe um elo de amizade entre nós.
— Você fez uma boa escolha — disse Harrald —; e agora eu o passo às suas mãos alegremente, mesmo sem consultar sua dona, a Senhora Maven. Mas é um grande presente. Não há outro como Gelado. Nenhum assim retornará outra vez. E a vocês, meus outros convidados, oferecerei coisas que podem ser encontradas em meu arsenal. De espadas vocês não precisam, mas há elmos e coletes de malha feitos num habilidoso trabalho com os metais, que foram dados de presente aos meus antepassados por Solitude. Escolham entre estes antes de partirmos, e que possam lhes servir bem!
Então chegaram homens trazendo vestimentas de guerra do tesouro do jarl, e vestiram Vorstag e Faendal em malhas reluzentes, depois cobertas pelas suas velhas vestimentas. Escolheram também elmos, e escudos redondos: neles havia a gravura de duas pequenas espadas se curvando num campo roxo. Savos não pegou nenhuma armadura, e Kharjo foi vestido com uma armadura de ébano, repleta de runas e malha negra, e sua vestimenta de couro foi retirada para dar lugar a um metal tão negro quanto a noite.
— Que o proteja bem — disse Harrald. — Foi feito para mim no tempo de Laila, minha mãe, quando eu ainda era um menino.
Kharjo fez uma reverência. — Fico orgulhoso, Jarl de Riften, em usar uma peça sua — disse ele. — Na realidade, seria mais fácil eu carregar um cavalo do que ser carregado por um. Gosto mais dos meus pés. Mas, talvez, chegarei a algum lugar onde possa ficar de pé e lutar.
— Pode muito bem acontecer — disse Harrald.
O jarl então se levantou, e imediatamente uma criatura esverdeada e de boca aberta, coberta por escamas duras e moles se aproximou trazendo vinho. — Meu bom senhor! — disse Talen-Jei, pois este era o nome do estalajadeiro argoniano. — Tome esta taça e beba nesta hora feliz. Que a saúde o acompanhe em sua ida e em seu retorno!
Harrald bebeu da taça, e então ele a ofereceu aos convidados. Ao ficar diante de Vorstag, Talen-Jei parou de repente e o olhou, com um brilho nos olhos. E ele olhou o rosto dele e sorriu; mas quando pegou a taça a mão dele encontrou a do argoniano, e Vorstag percebeu que ele tremeu àquele toque. — Salve, Vorstag, filho de Rorstag! — disse ela.
— Salve, meu caro estalajadeiro! — respondeu ele, mas agora tinha o rosto preocupado e não sorriu.
Quando todos tinham bebido, o jarl atravessou a taverna em direção às portas. Ali guardas esperavam por ele, e arautos também, e todos os senhores e chefes de Riften e das redondezas estavam reunidos.
— Vejam! Vou na frente, e é provável que esta seja minha última cavalgada — disse Harrald. — Não tenho filhos. Laila, minha mãe, está morta. Nomeio Saerlund, que havia sido deserdado, como meu herdeiro. Se nenhum de nós voltar, então escolham outro senhor. Mas a alguém devo agora confiar meu povo que abandono, para governá-lo em paz. Qual de vocês está disposto a ficar?
Ninguém disse nada.
— Não há ninguém que possam indicar? Em quem meu povo confia?
— No Jarl — respondeu Unmid.
— Mas não posso deixar de ir, nem eu ficaria — disse o jarl; e eu sou o jarl desta cidade.
— Não me referi ao senhor — respondeu Unmid. — Há a mensageira do Jarl Balgruuf de Whiterun, que mantivemos prisioneira aqui por tanto tempo. Ela é corajosa e tem um coração nobre. Todos a amam. Deixe que ela fique aqui sobre o comando de Riften, não sob o comando de Whiterun, enquanto estivermos fora.
— Assim será — disse Harrald. — Que os arautos anunciem ao povo que a Mensageira de Whiterun os guardará, e ela deve enviar mensagens a Whiterun por reforço de seu jarl!
Então o jarl se sentou numa cadeira diante de suas portas, e Lydia se ajoelhou à sua frente, recebendo dele uma espada e um belo corselete. — Até logo, amiga de meu amigo! — disse ele. — Escura é esta hora, mas talvez retornemos à Fortaleza da Névoa. Mas no Forte de Greenwall as pessoas poderão se defender por muito tempo, e se o final da batalha for contra nós para cá virão todos os que escaparem.
— Não fale desse modo! — respondeu ela. — Suportarei um ano para cada dia que passar até seu retorno, e muito mais fresco é o ar de Riften do que o ar da melhor primavera de Whiterun. — Mas enquanto ela falava seus olhos se dirigiram a Vorstag, que estava ao lado.
— O jarl retornará — disse Vorstag. — Não tenha medo! Nosso destino nos espera no leste e não no nordeste.
O jarl então saiu da estalagem, com Savos ao seu lado. Os outros os seguiram. Vorstag olhou para trás no momento em que passavam em direção ao portão. Sozinha, Lydia ficou parada diante das portas do salão, no topo da escada; a espada estava de pé diante dela, e suas mãos descansavam sobre o punho. Estava agora vestida em malhas metálicas, e brilhava como prata ao sol.
Kharjo foi ao lado de Faendal, com uma das maças sobre os ombros. — Bem, finalmente partimos! — disse ele. — Os homens precisam de muitas palavras antes das ações. Minhas maças estão inquietas em minhas mãos. Contudo eu não duvido que esses guardas tenham mãos ferozes no momento necessário. Apesar disso, não é este o tipo de batalha que me cai bem, como irei para a batalha? Preferia andar, e não ficar pulando como um saco na garupa de Savos.
— Um lugar mais seguro que muitos outros — disse Faendal. — Apesar disso, Savos o colocará no chão de bom grado quando os golpes começarem; ou o próprio Gelado fará isso, uma maça não é arma para um cavaleiro.
— E um khajiit não é um cavaleiro. São os pescoços dos draugrs e dremoras que eu queria cortar, e não barbear os escalpos de homens — disse Kharjo, batendo no cabo da maça.
No portão encontraram um grande exército de homens, velhos e jovens, todos prontos na sela. Mais de mil estavam ali reunidos. Suas lanças eram como uma floresta irrequieta. Gritaram com muita alegria quando Harrald surgiu. Alguns seguravam o cavalo do jarl e outros seguravam os cavalos de Vorstag e Faendal. Kharjo ficou pouco à vontade, franzindo a testa, mas Saerlund veio até ele, trazendo seu cavalo.
— Salve, Kharjo de Elsweyr — gritou ele. — Que sejamos bons amigos, pois fui sempre muito curioso sobre o povo do deserto sul.
— Vou considerar nossa amizade, Saerlund filho de Laila — disse Kharjo.
— Que assim seja! — disse Saerlund. — Savos Aren irá na frente com o Jarl de Riften; mas meu cavalo nos levará a nós dois, se você estiver disposto.
— Agradeço-lhe imensamente — disse Kharjo, muito satisfeito. — Irei contente com você, se Faendal, meu companheiro, puder cavalgar ao nosso lado.
— Assim será — disse Saerlund. — Faendal à minha esquerda, e Vorstag à minha direita, e ninguém ousará nos enfrentar!
— Onde está Gelado? — disse Savos.
— Correndo solto sobre a grama — responderam eles. — Não deixa que nenhum homem o pegue. Lá vai ele, lá embaixo, abaixo e acima, como uma sombra por entre os salgueiros.
Savos assobiou e chamou o nome do cavalo em voz alta, e na distância ele balançou a cabeça e relinchou; virando-se, correu na direção do exército como uma flecha.
— Se o sopro do Vento Leste tomasse a forma de um corpo visível, teria exatamente a aparência desse animal — disse Saerlund, enquanto o grande cavalo subia, até parar ao lado do mago.
— Parece que o presente já está entregue — disse Harrald. — Mas escutem todos! Aqui nomeio agora meu hóspede, Savos Aren, o mais sábio dos conselheiros, o mais bem-vindo dos andarilhos, um thane de Riften, um líder dos guardas enquanto nosso povo durar; e dou a ele Gelado, o mais rápido dos cavalos de nossos estábulos.
— Agradeço-lhe, Jarl Harrald — disse Savos. Então, de repente, jogou para trás a capa cinzenta, jogou para trás seu capuz amarelo, e de um salto montou no cavalo. Não usava nem elmo nem armadura. Seus cabelos de neve voavam ao vento, as vestes amarelas brilhavam ofuscantes ao sol.
— Vejam o Mago Psijic — gritou Vorstag, e todos repetiram essas palavras. — Nosso Jarl e o Mago Psijic! — gritaram eles. — Avante, Riften!
As trombetas soaram. Os cavalos empinaram e relincharam. Lanças batiam nos escudos, então o jarl levantou a mão, e numa velocidade semelhante ao início de um grande vendaval o último exército de Riften cavalgou, retumbando em direção ao norte. Distante na cidade Lydia viu o brilho de suas lanças, enquanto ficou parada, sozinha diante das portas da taverna agora tristemente silenciosa, acompanhada pelo casal de argonianos que eram donos do lugar.
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