DdAH: A Batalha de Skuldafn

11 O Ninho do Devorador de Mundos


Dois dias mais tarde o exército do oeste estava todo reunido nos campos de Solitude. A tropa de draugrs e orientais retornara de Ponte do Dragão, mas acossados e dispersados pelos homens do Rift eles tinham fugido, derrotados, quase sem resistir, na direção do Réspito; com essa ameaça afastada e com novas forças chegando do sul, a Cidade ficou tão bem guarnecida quanto possível. Batedores reportaram que não restava nenhum inimigo nas estradas do leste até um bom ponto. Tudo agora estava pronto para o último golpe. Faendal e Kharjo cavalgariam juntos outra vez na companhia de Vorstag e Savos Aren, que iam na vanguarda com os Guardiões da Alvorada e os filhos de Orthorn.

Vorstag havia sido preparado para esta batalha: os homens de Haafingar haviam carregado a carcaça da montaria do Senhor dos Sacerdotes, e a cortado e arrancado, até que sobrassem somente os ossos de dragão. Não obstante seria Vorstag tomar sua alma, mas na noite anterior os ferreiros construíram com magnitude, lembrando os trabalhos imperiais antigos, uma armadura feita das escamas da pele do dragão e dos seus ossos. Uma réplica fiel à coroa do Rei Borgas havia sido feita com os dentes, mas na placa no peito havia sido feito com metal a insígnia dos Septim, um dragão.

Mas Asgeld, para a sua vergonha, não deveria ir com eles.

— Você não está em condições de fazer uma viagem dessas — disse- lhe Vorstag. — Mas não tenha vergonha. Se não fizer mais nada nesta guerra, já terá conquistado uma grande honra. Mas, na verdade, todos correm o mesmo risco. Embora possa ser nossa função ir ao encontro de um fim mais amargo diante de Skuldafn, se isso acontecer, vocês também chegarão a um confronto final, seja aqui ou em qualquer lugar onde a maré negra venha a alcançá-los. Adeus!

Assim, desalentado, Asgeld ficou assistindo à concentração do exército. Stlubo estava ao lado dele, também amuado, pois seu pai deveria marchar liderando uma companhia de homens da Cidade: porém estava impedido de retomar seu posto na Guarda até que seu caso fosse julgado. No mesmo grupo deveria partir Ralof, como um soldado de Haafingar. Asgeld podia enxergá-lo, não muito distante: um vulto entre os homens altos de Solitude.

Finalmente as trombetas soaram e o exército começou a se mover. Tropa a tropa, companhia a companhia, faziam uma conversão e partiam para o leste. Muito tempo depois que todos tinham sumido de vista sumindo nos pântanos, Asgeld ficou ali parado. O último brilho do sol da manhã faiscara sobre lança e elmo e se perdera, e ainda ele permanecia ali, com a cabeça curvada e o coração pesado, sentindo-se solitário e sem amigos. Todos os que lhe eram caros haviam partido para dentro da escuridão que pairava sobre o céu distante do leste, e restavam-lhe pouquíssimas esperanças de que um dia voltasse a ver qualquer um deles.

Antes do meio-dia, o exército chegou a Águianeve. Ali os trabalhadores e operários disponíveis estavam todos ocupados. Alguns reforçavam as balsas e as pontes flutuantes que o inimigo fizera e em parte destruíra na fuga; alguns reuniam suprimentos e produtos de saques; outros, do lado leste do Rio, erguiam defesas improvisadas. A vanguarda atravessou o amplo Rio e as ruínas da Velha Cidade de Haafingar, descendo a longa e estreita estrada que nos dias de apogeu fora feita para conduzir do belo palácio azul até a rústica Fortaleza da Névoa. Pararam cinco milhas além de Águianeve, terminando o primeiro dia de marcha. Mas os cavaleiros continuaram avançando, e antes do final do oitavo dia de viagem chegaram perto da região do Rift. Pararam cinco milhas antes da Torre de Vigília de Shor, terminando o oitavo dia de marcha. Mas os cavaleiros continuaram avançando, e antes do inicio da noite chegaram á Torre de Vigília e ao grande circulo de árvores, onde tudo estava quieto.

Não viram sinais do inimigo, nem ouviram qualquer grito ou chamado, nenhuma lança viera voando de alguma rocha ou maciço de árvores pelo caminho; apesar disso, quanto mais avançavam, mais se sentiam observados. Pedra e árvore, folha e capim pareciam estar escutando atentamente. A escuridão se dissipara, e na distância a oeste o sol se punha sobre o Rio Karth, e os picos brancos das montanhas de High Rock se ruborizavam no ar azul; mas uma sombra e um desalento pesavam sobre o Rift.

Vorstag postou então trombeteiros em cada uma das quatro estradas que saiam do circulo de árvores, e eles tocaram uma grande fanfarra, e os arautos gritaram em vozes imponentes:

— Os Senhores de Haafingar retornaram, e estão tomando posse desta terra que lhes pertence.

Uma hedionda cabeça de draugr que estava fincada sobre uma estaca foi derrubada e partida em pedaços, e a velha bandeira das espadas cruzadas foi erguida e colocada de volta em seu lugar: e os homens trabalharam lavando e raspando todos os garranchos horríveis que os draugrs haviam desenhado sobre a pedra. Agora, num debate, alguns opinaram que Ansilvund deveria ser atacada primeiro e, se conseguissem tomá-la, deveria ser completamente destruída, pois lá era a morada do falecido Nahkriin, Senhor dos Sacerdotes.

— E talvez — disse Clagius — a estrada que conduz de lá até a passagem acima seja um acesso mais fácil para atacarmos o Devorador de Mundos do que a Caverna de Tolvald.

Mas Savos Aren imediatamente reprovou a idéia, por causa do mal que morava naquelas ruínas, onde as mentes dos homens vivos se voltariam para a loucura e o terror, e também por causa das notícias que Aldis trouxera. Pois, se os mensageiros da Alta Hrothgar haviam tentado o caminho da caverna, então lá eles deveriam procurá-los.

Portanto, no dia seguinte, após a chegada do exército principal, montaram uma forte guarda na Torre de Vigília de Shor para garantir alguma defesa, no caso de Skuldafn enviar uma força pela passagem de Ansilvund, ou trazer mais homens de Hammerfell. Para essa guarda escolheram na maioria arqueiros que conheciam os caminhos do Rift e que ficariam escondidos nas florestas e veredas nas imediações do encontro dos caminhos. Mas Savos Aren e Vorstag cavalgaram com a vanguarda até a entrada de Ansilvund para observar a ruína maligna. Estava escura e sem vida, pois os draugrs e as criaturas inferiores de Skuldafn que outrora moravam lá haviam sido destruídos em batalha, e os dragões estavam fora. Mesmo assim, o ar do vale estava carregado de medo e hostilidade. Então destruíram a ponte maligna, espalharam chamas rubras pelos campos nocivos e partiram.

No dia seguinte, o nono após a partida de Solitude, o exército iniciou sua marcha rumo ao leste na encosta das Montanhas Velothi. Por aquele caminho era cerca de cem milhas da Torre de Vigília de Shor até a base das montanhas, e o que lhes poderia acontecer até que chegassem lá ninguém sabia. Avançavam abertamente, mas com cautela, com batedores montados à frente, outros a pé dos dois lados, especialmente no flanco leste, pois ali havia maciços escuros de árvores, e um terreno irregular de estreitos vales rochosos e penhascos, a frente dos quais as compridas e sinistras encostas das Velothi se amontoavam. O clima do mundo permanecia belo, continuava a soprar o vento oeste, mas nada conseguia dispersar a melancolia e a névoa triste que pairava ao redor das Montanhas da Sombra; atrás delas, ás vezes grandes porções de fumaça subiam e ficavam suspensas nos ventos mais altos.

De quando em quando, Savos Aren mandava tocar as trombetas, e os arautos gritavam: — Os Senhores de Haafingar chegaram! Que todos deixem esta terra ou se rendam!

Mas Clagius Asgarn disse:

— Não digam Os Senhores de Haafingar. Digam O Rei Dragonborn. Pois esta é uma verdade, mesmo que ele ainda não tenha assumido o trono; isso fará o Dragão preocupar-se se mais, se os arautos usarem esse nome.

E depois disso, três vezes ao dia, os arautos proclamavam a chegada do Rei Dragonborn. Mas ninguém respondia ao desafio. Não obstante, embora marchassem numa paz aparente, os corações de todo o exército, dos postos mais altos até os mais baixos, estavam pesados, e a cada milha que avançavam ao leste um mau presságio crescia dentro deles. Foi perto do fim do segundo dia desde que partiram em marcha da Torre de Vigília de Shor que encontraram, pela primeira vez, uma ocasião de batalha. Um poderoso grupo de draugrs e elfos-drés tentou aprisionar a companhia que vinha à frente numa emboscada. Mas os Capitães do Oeste foram devidamente advertidos por seus batedores, homens habilidosos de Solitude, liderados por Athaius; dessa forma, os que preparavam a emboscada acabaram presos nela. Cavaleiros deram uma grande volta no sentido sul e vieram atacando o flanco do inimigo e sua retaguarda, e os draugrs e elfos negros foram destruídos ou rechaçados para o leste, na direção das colinas. Mas a vitória pouco encorajou os corações dos capitães.

— É apenas uma simulação — disse Vorstag — e seu principal propósito, julgo eu, foi mais nos levar a uma suposição errada sobre o ponto fraco do Devorador de Mundos do que nos causar muito mal, por enquanto.

E daquela noite em diante os dragões vieram e passaram a seguir cada movimento do exército. Ainda voavam alto, e fora do alcance da visão, a não ser para Faendal; mesmo assim, sua presença podia ser sentida, na forma de um adensamento das sombras e um obscurecimento do sol, e, embora os Sacerdotes Dracônicos ainda não estivessem dando vôos rasantes sobre seus inimigos e se mantivessem em silêncio, sem soltar nenhum grito, não se podia afastar o terror que causavam.

Assim foi passando o tempo e a viagem desesperada. No quarto dia posterior á passagem pela Encruzilhada, o décimo segundo depois da partida de Solitude, chegaram por fim ao término das terras viventes, e começaram a penetrar na desolação que se alastrava diante da passagem da caverna de Tolvald. Tão desoladas eram aquelas paragens, e tão profundo o horror que pairava sobre elas, que alguns homens do exército sentiram-se acovardados, não conseguindo avançar mais, a pé ou cavalgando, em direção ao leste.

Vorstag olhou para eles, e seus olhos se encheram de pena, e não de ira, pois aqueles eram jovens de Riften, da destruída Pedra de Shor, lavradores do Alto Portão, e para eles, desde a infância, Skuldafn tinha sido um nome maligno, e apesar disso irreal, uma lenda que não fazia parte de suas vidas simples; e eles caminhavam como homens num sonho hediondo que se tornara realidade, sem entender aquela guerra nem por que o destino os levava para tal paragem.

— Podem ir! — disse Vorstag. — Mas mantenham a honra que puderem. E não corram! Há uma tarefa que podem tentar para assim não se sentirem tão envergonhados. Façam seu caminho pelo sul até chegarem ao Greenwall, e, se o forte ainda estiver dominado pelos inimigos, como eu suspeito, então reconquistem-no, se puderem, e mantenham-na até o fim em defesa de Haafingar e do Rift!

Então alguns, envergonhados diante de tal demência, superaram o medo e continuaram avançando, e os outros ganharam novas esperanças, ouvindo a menção de um feito corajoso à altura deles a que podiam se dedicar, e partiram. Dessa forma, sendo que muitos homens já haviam sido deixados na Torre de Vigília de Shor, foi com menos de seis mil homens que os Capitães do Oeste chegaram finalmente para desafiar a Ruína Negra e o poder de Skuldafn.

Agora avançavam devagar, esperando a cada hora uma resposta para o seu desafio; mantinham-se juntos, já que seria desperdício de soldados enviar batedores ou grupos pequenos à frente do exército principal. Ao cair da noite do quinto dia de marcha desde as terras assombreadas, acamparam pela última vez, fazendo fogueiras com a madeira morta e com as urzes secas que conseguiram encontrar. Passaram as horas da noite acordados, percebendo muitos seres parcialmente visíveis que andavam e espreitavam por toda a volta; ouviram também uivos de lobos. O vento cessara e todo o ar parecia parado. Podiam ver pouca coisa, pois, embora não houvesse nuvens e a lua crescente já tivesse quatro dias, havia fumaça e vapores que subiam da terra e o luar branco se escondia nas névoas de Skuldafn.

Ficou frio. Quando chegou a manhã, o vento começou a se agitar outra vez, mas agora vinha do leste, e logo se amainou numa brisa crescente. Todos os seres notívagos tinham-se ido, e a terra parecia vazia. Ao leste, em meio aos seus buracos fétidos jaziam os primeiros grandes outeiros e amontoados de escória, rocha quebrada e terra arruinada, o vômito dos vermes que habitavam Skuldafn.

Quando atravessaram a terrível caverna de Tolvald, que não parecia ter vigília alguma, chegaram numa região circular de pedra. O arco sinistro de Skuldafn estava assomando lá. Sobre a ameia nada se via. Estava tudo quieto, mas persistia a sensação de vigilância. Tinham chegado ao derradeiro estágio de sua loucura e pararam, abandonados e sentindo frio, na luz cinzenta do início do dia, diante de torres e muralhas que seu exército não podia atacar com esperanças, nem mesmo se tivessem levado até lá máquinas muito poderosas, e se as tropas inimigas fossem para guarnecer a muralha e o portão. Mas eles sabiam que todas as colinas e rochas ao redor de Skuldafn estavam cheias de inimigos ocultos, e a sombria ruína negra a frente deles era perfurada e cheio de túneis apinhados de ninhadas de seres malignos. E ali parados eles viram todos os Sacerdotes restantes em seus dragões reunidos, pairando como abutres sobre os imensos pilares, sabendo que estavam sendo vigiados. Mas ainda assim o Devorador de Mundos não dava qualquer sinal.

Não lhes restava outra escolha além de desempenhar o seu papel até o fim. Portanto Vorstag agora colocara o exército na melhor formação que pôde planejar: eles foram reunidos em dois grandes montes de pedra arruinada e terra que os draugrs tinham acumulado em meses de trabalho. Diante deles, na direção de Skuldafn, jazia como um fosso um grande pântano de lama fétida e poças putrefatas. Quando tudo estava ordenado, os Capitães cavalgaram á frente na direção do Arco Negro com uma grande guarda de cavaleiros levando a bandeira, acompanhados dos arautos e dos trombeteiros. Lá ia Savos Aren como o principal arauto, Vorstag com os filhos de Orthorn Elsinorin, Saerlund de Riften e Clagius Asgarn; a Faendal, Kharjo e Ralof foi solicitado que também fossem, de modo que todos os inimigos de Skuldafn tivessem uma testemunha.

Chegaram mais perto do Arco Negro, e desfraldaram a bandeira, tocando as trombetas; os arautos avançaram e fizeram suas vozes soar por sobre as pedras negras e antigas de Skuldafn. O lugar era terrível.

— Apareça! — gritaram eles. — Que o Dragão de Skuldafn apareça! Justiça será feita para com ele. Pois agiu mal travando guerra contra Haafingar e roubando suas terras. Portanto o Alto Rei de Skyrim ordena que ele repare seus erros e depois parta para sempre. Apareça!

Fez-se um longo silêncio, e não se ouviu nenhum som em resposta, da muralha ou do portão. Mas Alduin já fizera seus planos, e tinha em mente primeiro brincar cruelmente com aqueles camundongos antes de iniciar a matança. Foi assim que, exatamente quando os Capitães estavam prestes a virar as costas, o silêncio foi subitamente quebrado. Veio um longo retumbar de grandes tambores, como trovões nas montanhas, e então um zurrar de cornetas que fez tremer as próprias pedras e feriu os ouvidos dos homens. E então olharam para o Arco enorme, e perceberam que havia uma cabeça de dragão esculpida em pedra negra, e de lá saiu uma embaixada de Skuldafn. Como seu líder veio cavalgando um vulto maligno, montado num cavalo negro, se aquilo era um cavalo, pois era enorme e hediondo, e seu rosto uma carcaça horripilante, mais parecendo um crânio que uma cabeça viva, e das covas de seus olhos e de suas narinas emanava uma luz azul. O cavaleiro estava todo vestido de metal, e dois longos chifres como os de um dragão seu elmo negro tinha; mas este não era um Sacerdote Dracônico, e sim um draugr. Era o Tenente das Torres de Skuldafn, e seu nome não é lembrado em história alguma, pois ele próprio o esquecera, e ele disse:

— Sou aquele que fala por Alduin. — Mas conta-se que ele foi um renegado, que vinha da raça daqueles que eram chamados de atmorianos negros, pois eles estabeleceram suas moradias em Skyrim durante os dias do domínio de Alduin, e o adoraram, enamorados pelo conhecimento do mal. E ele havia entrado para o serviço de Skuldafn quando esta se ergueu de novo pela primeira vez, e por causa de sua esperteza foi crescendo cada vez mais nos favores do Senhor; aprendeu grandes feitiçarias, e sabia muito da mente de Alduin; era mais cruel que qualquer draugr. Era ele que agora saia pelo portão, e com ele vinha apenas uma pequena companhia de soldados arreados de negro, e uma única bandeira, negra e estampada com o vermelho da Insígnia Dracônica. Parando agora a alguns passos dos Capitães do Oeste, ele os olhou de cima a baixo e riu.

— Há alguém nesse bando que tem autoridade para dirigir-se a mim? — perguntou ele. — Ou mesmo com capacidade de me entender? Não tu, pelo menos! — caçoou ele, voltando-se para Vorstag com desprezo. — Para se fazer um rei, é preciso mais que um pedaço de metal, ou uma gentalha dessas. Ora, qualquer bandido das colinas pode exibir tal sequela!

Vorstag não disse nada em resposta, mas fixou os olhos do outro e sustentou o olhar, e por um momento os dois lutaram assim; mas logo, embora Vorstag não se movesse nem dirigisse a mão para qualquer arma, o outro vacilou e recuou, como se tivesse sido ameaçado por um golpe.

— Sou um arauto e um embaixador, e não posso ser atacado! — gritou.

— Onde rezam tais leis — disse Savos Aren — também é costume dos embaixadores usarem menos insolência. Mas ninguém o ameaçou. Não tem nada a temer de nós, até que sua missão seja cumprida. Mas, a não ser que seu mestre tenha adquirido mais sabedoria, então você, juntamente com todos os servidores, estará em grande perigo.

— Então! — disse o Mensageiro. — Este é o porta-voz, velho elfo-cinzento? Será que não ouvimos sobre ti algumas vezes, e de tuas andanças, sempre armando planos e traições a distância? Mas desta vez esticaste o teu nariz longe demais, mestre Aren, e verás o que acontece para aquele que tece suas tolas teias diante dos pés de Alduin, o Munax, o Grande. Tenho provas que me mandaram mostrar a ti — a ti especialmente, se tu ousasses aparecer.

Acenou para um dos guardas, e este veio à frente, carregando um pacote embrulhado em tecido negro. O Mensageiro desembrulhou o pacote, e ali, para a surpresa e frustração de todos os Capitães, ele ergueu a armadura leve da Guarda da Alvorada que Gwilin costumava usar. Uma escuridão se formou diante dos olhos deles, e tiveram a impressão de que num momento o mundo se paralisara. Ralof, que estava atrás do Príncipe Clagius, saltou à frente com um grito de dor.

— Silêncio! — disse Savos Aren num tom severo, empurrando-o para trás; o Mensageiro soltou uma alta risada.

— Então você ainda tem outro desses elfos! — exclamou ele. — Que utilidade vê neles não posso adivinhar, mas mandá-los como espiões para Skuldafn superou até sua costumeira loucura. De qualquer forma, agradeço a ele, pois está claro que pelo menos esse soldado já viu esses símbolos de sol e raiar antes, e agora seria inútil você negar.

— Não desejo negar nada — disse Savos Aren. — Na verdade, conheço-os, e toda a sua história, e apesar de seu desdém, nojento Zan do Munax, você não pode dizer o mesmo. Mas por que os traz aqui?

— Casaco de nórdico, orelha de elfo, espada dos rebeldes, e espião daquela pequena terra-de-ratos que é a Alta Hrothgar — não, não se assuste! Sabemos muito bem aqui estão as marcas de uma conspiração. Agora, pode ser que aquele que carregava essas coisas fosse uma criatura que vocês não sentissem perder, ou pode ser o contrário: alguém que lhes era caro, talvez? Se for assim, tome resoluções rápidas com a pouca esperteza que lhe resta. Pois Alduin não gosta de espiões, e o destino dessa criatura depende agora de sua escolha.

Ninguém respondeu, mas ele viu todos os rostos pálidos de medo e o horror em seus olhos, e riu outra vez, pois pareceu-lhe que sua brincadeira ia bem. — Bem, bem! — disse ele. — Ele lhes era querido, estou vendo. Ou quem sabe sua missão era de tal ordem que vocês não queriam que fracassasse? Pois fracassou. E agora ele deverá suportar o lento tormento de anos, tão longo e lento quanto as artes de Skuldafn podem conceber; nunca será libertado, a não ser talvez quando estiver mudado e destruído, de modo que possa vir até vocês, para que vejam o que fizeram. Isso certamente acontecerá — a não ser que vocês aceitem os termos de meu Senhor.

— Diga quais são os termos — disse Savos Aren numa voz severa, mas os que estavam perto viram a angústia em seu rosto, e agora ele parecia um elfo velho e mirrado, esmagado, finalmente vencido. Ninguém duvidava de que ele fosse aceitar.

— Os termos são estes — disse o Mensageiro, sorrindo e encarando-os um a um —: a gentalha de Haafingar e seus iludidos aliados devem retirar-se imediatamente para além do Rio Karth, não sem primeiro prestarem juramento de nunca mais atacar Alduin, o Grande, aberta ou secretamente. Todas as terras a leste do Rio Karth deverão pertencer a Alduin para sempre, e unicamente a ele. A região a oeste do Rio Karth, até Markarth, deverá pagar tributo a Skuldafn, e os homens de lá não poderão portar armas, mas terão permissão para governar seus próprios assuntos. No entanto, deverão ajudar a reconstruir Winterhold, a qual destruíram por capricho, e essa região será de Alduin, e lá seu tenente deverá morar: não Ancano, mas alguém mais digno de confiança.

Olhando nos olhos do Mensageiro, todos leram seu pensamento. Seria ele aquele tenente que reuniria tudo o que restasse do oeste sob seu controle seria tirano e eles os seus escravos. Mas Savos Aren disse:

— Isso é exigir muito pela entrega de um servidor: que seu Mestre deva receber em troca o que de outra forma lhe custaria muitas guerras! Ou será que o campo de Haafingar destruiu sua esperança na guerra, e ele agora deu para barganhar? E, se realmente déssemos tanto valor ao prisioneiro? Que garantia teremos de que Alduin, o Mestre Máximo da Traição, manterá sua parte no acordo? Onde está esse prisioneiro? Que o tragam aqui para que o vejamos, e então consideraremos essas exigências.

Savos Aren, atento, olhando para ele como alguém empenhado em esgrimir com um inimigo mortal, teve a impressão de que, pelo tempo de um suspiro, o Mensageiro ficou perdido; mas rapidamente ele riu outra vez.

— Não seja tão insolente a ponto de discutir com a Voz de Alduin! — gritou ele. — Você pede garantias! Alduin não dá nenhuma. Se você implora por sua demência, deve primeiro fazer o que ele ordena. Estes são os seus termos. É pegar ou largar!

— Vamos pegar! — disse Savos Aren de repente. Jogou para o lado a capa e uma luz brilhou como uma espada naquele lugar escuro. Diante da mão erguida do mago, o Mensageiro recuou, e Savos Aren, avançando, agarrou e tirou dele a armadura leve. — Vamos pegar estes em memória de nosso amigo — gritou ele. — Mas, quanto aos seus termos, nós os rejeitamos completamente. Vá embora, pois sua embaixada terminou e a morte se aproxima de você. Não viemos até aqui para desperdiçar palavras fazendo tratos com Alduin, traiçoeiro e maldito, e muito menos com um de seus escravos. Suma daqui!

Então o Mensageiro de Skuldafn não voltou a rir. Seu rosto se contorcia de estupefação e ódio, semelhante ao de um animal selvagem que, ao pular sobre sua presa, é ferido no focinho por um ferrão. Tomado de raiva, a boca babando, emitiu sons estrangulados, sem nexo e cheios de fúria. Mas olhou nos rostos cruéis dos Capitães e em seus olhos fatais, e o medo que sentiu derrotou a ira. Soltou um enorme grito e, virando-se, saltou sobre o cavalo e com sua companhia galopou alucinadamente de volta para o Arco Negro. Mas, enquanto se distanciavam, seus soldados tocaram as cornetas num sinal há muito combinado, e mesmo antes que chegassem ao portão Alduin acionou sua armadilha.

Tambores retumbaram e fogos subiram aos ares. As grandes forças de Skuldafn se escancararam. Do Arco Negro saiu como uma onda um grande exército, com a mesma rapidez das águas quando uma comporta se abre.

Os Capitães montaram de novo e recuaram, e do exército de Skuldafn subiu um grito de escárnio. A poeira se ergueu sufocando o ar, pois de um ponto próximo dali veio marchando uma tropa de elfos-drés que estivera esperando pelo sinal nas sombras da caverna. As ruínas dos dois lados de Skuldafn despejavam inúmeros draugrs. Os homens do oeste estavam encurralados, e logo, por toda a volta dos montes cinzentos onde eles estavam, forças dez vezes maiores e ainda mais numerosas que isso os cercariam num mar de inimigos. Alduin tinha mordido a isca com mandíbulas de aço.

Sobrou pouco tempo para que Vorstag ordenasse a sua batalha. Sobre um monte estavam ele e Savos Aren, e ali, bela e desesperada, erguia-se a bandeira do Dragão dos Septim. Vorstag não ouvia mais nada, embora muitos sussurros de duvida e medo se espalhassem sobre a retaguarda, mas uma voz invadiu seus pensamentos: “Meu filho”, a voz dizia; “no dia em que você nasceu, as longas colinas de Markarth sussurraram o nome Vorstag”.

Sobre o outro monte ao lado erguiam-se as bandeiras do Rift e Volskygge, Espadas Cruzadas e a Letra V; em torno de cada monte foi formado um circulo que vigiava em todas as direções, eriçado de lanças e espadas. Mas na frente, na direção de Skuldafn, onde o primeiro e terrível assalto viria, estavam os filhos de Orthorn à esquerda, com os Guardiões da Alvorada ao redor deles, e á direita o Príncipe Clagius com os homens de Volskygge, altos e belos, além de soldados escolhidos do Dour. “Meu herdeiro,” ribombou a voz na mente de Vorstag, “assisti com orgulho enquanto você se tornava uma arma – uma arma da justiça. lembre-se: nossa linhagem sempre governou com sabedoria e força, e sei que você sempre exercerá seu poder com prudência.

O vento soprou, as trombetas cantaram, flechas zuniram; mas o sol. agora subindo em direção ao sul, foi velado pelos vapores de Skuldafn, e através de uma névoa ameaçadora ele reluzia, remoto, num vermelho morto, como se fosse o final do dia, ou talvez o fim de todo o mundo de luz. E das trevas que se adensavam os dragões vieram com suas vozes frias, gritando palavras de morte; então toda esperança se extinguiu, mas Vorstag ergueu Arandagon que reluziu no céu, e todos o olharam petrificados: “Mas a vitória verdadeira, meu filho”, sussurrou a voz, “é inspirar os corações de seu povo”.

A petrificação então se quebrou como um encanto sob a cura daquela espada reluzente, vívida e forte como já fora em outrora. Pareceu então que aquela voz que sussurrava na mente de Vorstag se alastrou pelo ar, penetrando até nos terríveis ouvidos dos draugrs: “Digo-lhe isso, pois”, e então o exército correu atrás de Vorstag, com um longo urro para dentro dos terríveis exércitos de draugrs, mas a voz continuou no coração de Vorstag: “antes que os seus dias cheguem ao fim… você deve ser rei”.

Ralof se curvara, esmagado pelo terror contra o chão, quando ouviu Savos recusar os termos e condenar o elfo que o salvara ao tormento do dragão, mas conseguira controlar-se, e agora estava ao lado de Segunivus, na primeira fileira de Haafingar, com os homens de Clagius. Pois parecia-lhe melhor morrer logo e deixar a amarga história de sua vida, uma vez que tudo estava arruinado.

— Gostaria que Ulfric estivesse aqui — ouviu sua própria voz dizer, e pensamentos velozes passaram-lhe pela mente, no momento em que via o inimigo avançando para o ataque. — Bem, bem, agora pelo menos entendo a pobre Elisif um pouco mais. Poderíamos morrer juntos, Ulfric e eu, já que devemos morrer de qualquer forma, não é mesmo? Bem, como ele não está aqui, espero que encontre um fim mais fácil. Mas agora preciso dar o melhor.

Sacou o machado e o contemplou. “Esta espada foi feita justamente para uma hora como esta”, pensou ele. “Se pelo menos eu pudesse golpear com ela o Mensageiro nojento, então quase empataria com o velho Ulfric. Bem, vou golpear alguém deste bando de animais antes do fim. Gostaria de poder ver um sol fresco e a relva verde outra vez.”

Então, no momento em que o stormcloak pensava em tais coisas, o primeiro ataque chocou-se contra eles. Os draugrs, impedidos pelas muralhas que se espalhavam diante dos montes, pararam e derramaram suas flechas contra as fileiras de defesa. Mas em meio a eles chegou, a largas passadas, rugindo como animais, uma grande companhia de trolls das montanhas, vinda das Ruínas de Rkund. Eram mais altos e mais encorpados que homens, e estavam vestidos apenas com malhas justas de escamas resistentes; mas carregavam escudos redondos, enormes e negros, e brandiam pesados martelos em suas mãos encaroçadas. Temerários, correram sobre as pedras e atravessaram-nas andando, urrando enquanto se aproximavam. Como uma tempestade caíram sobre a fileira dos homens de Haafingar, batendo sobre elmo e cabeça com arma e escudo, como um ferreiro que malha o ferro quente e flexível. Ao lado de Ralof, Segunivus caiu, subjugado e aturdido; o grande chefe dos trolls que o derrubara debruçou-se sobre ele, esticando uma garra sufocante, pois essas cruéis criaturas costumavam morder as gargantas daqueles que derrubavam.

Então Ralof deu um golpe para cima, e o machado perfurou o couro e penetrou fundo nas entranhas do troll, cujo sangue negro jorrou aos borbotões. A criatura cambaleou para a frente e foi ao chão, desmoronando como uma pedra, enterrando os que estavam embaixo. Negrume, fedor e uma dor esmagadora dominaram Ralof, e sua mente caiu numa grande escuridão. “Assim tudo termina como eu suspeitara”, disse seu pensamento, no instante em que se perdia; riu um pouco ainda dentro de si mesmo antes de fugir, parecia quase alegre por estar afastando finalmente toda a dúvida, a preocupação e o medo. E então, no momento em que o pensamento voava para dentro do esquecimento, ouviu vozes, que pareciam estar gritando de algum mundo esquecido lá em cima:

— O dragão branco está chegando! Paarthurnax está chegando!

Por mais um momento o pensamento de Ralof perdurou.

— Hakon! — disse ele. — Mas não! Isso aconteceu na história dele, há muito e muito tempo. Esta é minha história, e agora está terminada. Adeus!

E seu pensamento voou para longe; seus olhos não viram mais nada.

Faendal e Kharjo atingiram uma enorme escada espiaram lá acima. Uma rajada de energia aeterial subia de uma boca escancarada na pedra, mergulhando nos céus, e um ribombar profundo agitava o ar.

— Vorstag! — chamaram eles.

Não houve resposta. Por um momento ficaram ali parados, seus corações batendo com temores alucinados, e então subiram os degraus. Uma sombra os seguiu. Num primeiro momento, não conseguiram ver nada; a luz era tão forte que ofuscava tudo. Eles haviam chegado ao coração do reino de Alduin, e ao centro de seu antigo poder, o maior de Tamriel; ali todos os outros poderes eram subjugados. Temerosos, eles continuaram subindo, enquanto atrás de si os exércitos se massacravam. Então, de repente, veio um clarão azulado que se ergueu nos ares, e engrossou a energia aeterial. A luz irrompeu outra vez, e lá, no final na escada, num grande portal, estava Vorstag, negro contra o clarão, tenso, ereto, mas imóvel como se tivesse sido transformado em pedra.

— Vorstag! — gritou Kharjo.

Então Vorstag se mexeu e falou com uma voz clara, na realidade com uma voz mais clara e poderosa do que eles jamais o ouviram usar, e que se erguia acima da pulsação e dos abalos, retumbando no teto e nas paredes.

— Cheguei — disse ele. — E agora tenho que fazer o que vim fazer! Alduin se esconde como um verme dentro desse portal, e eu devo procurá-lo.

E de repente, pulando na fonte da luz como se mergulhasse num lago, desapareceu do elfo e do khajiit. Kharjo abriu a boca assombrado, mas não pôde gritar, pois naquele momento muitas coisas aconteceram. Alguma coisa golpeou-o violentamente pelas costas, suas pernas ficaram presas por baixo e ele foi jogado de lado, batendo a cabeça contra o chão de pedra; uma sombra escura flutuou sobre ele. Kharjo ficou deitado e imóvel, e por um tempo tudo ficou escuro.

E lá bem distante, no momento em que Vorstag pulou no portal aeterial, exatamente ali, em Skuldafn, o próprio coração de seu reino, o poder de Alduin sofreu um abalo, e as Torres tremeram dos alicerces até o topo orgulhoso e cruel. De repente o Devorador de Mundos percebeu a presença de Vorstag. Então sua ira incandesceu-se numa chama devoradora, mas seu medo ergueu-se como uma vasta fumaça para sufocá-lo Pois ele sabia do perigo mortal que estava correndo, e percebia o fio pelo qual estava agora pendurado seu destino. De todas as suas estratégias e teias de medo e traição, de todos os seus estratagemas e guerras sua mente se libertou, e todo o seu reino foi atravessado por um tremor, seus escravos vacilaram, seus exércitos pararam e seus capitães, subitamente sem liderança, desprovidos de vontade, hesitaram e se desesperaram. Pois foram esquecidos. Toda a mente e o propósito do Poder que os controlava concentravam-se agora com uma força arrasadora no Portal. A um chamado seu, rodopiando com um grito lancinante, numa última corrida desesperada voaram, mais rápidos que os ventos, os dragões, os Sacerdotes Dracônicos, e com uma tempestade de asas arremessaram-se em direção do Portal de Sovngarde.

Kharjo levantou-se algum tempo depois. Estava zonzo, e o sangue que jorrava de sua cabeça pingava-lhe sobre os olhos e encharcava os pêlos. Avançou tateando e então viu uma cena estranha e terrível. Faendal, atrás do Portal, lutava como um ser ensandecido contra centenas de inimigos. Pela retaguarda dos draugrs e alik’rs, a tropa escassa do Rift se misturava com os soldados de Haafingar. Tombava para a frente e para trás, algumas vezes chegando tão perto do portal que quase caía lá dentro, outras recuando, caindo ao chão, levantando-se e caindo de novo.

Os fogos do Portal despertaram irados, o clarão azulado incandesceu-se, e toda a ruína ficou repleta de luminosidade e calor. Houve um rugido e uma grande confusão de sons. Labaredas de fogo aeterial se alçavam e lambiam o teto. A pulsação cresceu num grande tumulto, e a pedra da ruína tremeu. Uma luz arroxeada surgiu na frente do portal, e Vorstag apareceu: a armadura de osso de dragão estava quase carbonizada, e ele caiu de joelhos. Faendal sumiu de sua vista. Ele correu até Vorstag, e levantando-o carregou-o até a escada. E ali, na soleira escura do Portal de Sovngarde, bem acima das ruínas de Skuldafn, tal estupefação e terror sobrevieram que ele ficou parado, esquecido de todo o resto, imóvel como alguém que foi transformado em pedra. Teve uma visão rápida de nuvens rodopiando, e no meio delas torres e ameias, altas como colinas, fundadas sobre um poderoso trono de montanha acima de abismos incomensuráveis; grandes pátios e calabouços, prisões sem olhos, íngremes como penhascos, e portões escancarados feitos de metal e pedra: e então tudo acabou. Torres caíram e pedras deslizaram; paredes desmoronaram e derreteram, esboroando-se; enormes espirais de fumaça e jatos de vapor subiam do portal, subiam e se espalhavam, até formarem um teto semelhante a uma onda ameaçadora, e sua crista alucinada se crispou e veio descendo e cobrindo tudo, espumando sobre a terra. E então, por fim, através das milhas da planície chegou um ribombo, crescendo até se tornar um estrondo e um rugido ensurdecedores; a terra tremeu, a planície arfou, abriu-se em brechas e o Skuldafn cambalcou. Chamas azuis se lançavam de seu portal. Os céus explodiram em trovão, cortados por relâmpagos. Como chicotes açoitando caiu uma torrente de chuva negra. E no coração da tempestade, com um grito que atravessava todos os outros sons, rasgando as nuvens, os dragões vieram, caindo como raios em chamas, como se estivessem presos na destruição da ruína e do céu, e no fogo estalaram, murcharam e se apagaram.

— Bem, este é o fim, meu amigo — disse uma voz ao seu lado.

E ali estava Vorstag, pálido e exausto, sua coroa denteada coberta de cinzas e enegrecida pelo fogo, e apesar disso era ainda um rei; agora em seus olhos só havia paz; nem luta de vontade, nem loucura, nem qualquer temor. Seu fardo fora levado.

— Vorstag! — gritou o khajiit, caindo de joelhos.

Em meio a toda aquela ruína do mundo, naquele momento ele só sentiu alegria, uma grande alegria. E então Kharjo viu que escorria sangue de sua armadura de ossos de dragão, perfurada por terríveis garras.