Daylight

1 Capítulo Único


Notas iniciais
One revisada depois de alguns anos. Teen Wolf e seus personagens não me pertencem. Sempre que quiser, deixe comentários. Me sina no Instagram @cadaverdafantasia.

—Derek. — Stiles tinha acabado de entrar no loft do lobisomem que há pouco se exercitava. — Meu pai... ele... meu pai está morto. Ele se foi Derek. — Stiles tinha os olhos cheios d'água.

O menino olhou para o lupino do outro lado da sala com uma expressão dolorida, podia sentir seu corpo desabar de dentro para fora, o mundo que ele conhecia se desfez, tudo estava acabado, John Stilinski estava morto e ele tinha a impressão de que ele também. Derek encarou o garoto tentando engolir o choro, ao mesmo tempo que seus músculos travaram o impedindo de segurar Stiles que desabou sobre os joelhos no chão do loft escuro, chovia torrencialmente lá fora e ele ainda demorou a se aproximar até ouvir o primeiro soluço.

—Eu sinto muito. — Derek sibilou agachado na frente do garoto, vendo seus ombros subirem e descerem em um pranto desconsolado.

Era estranho para Derek ter Stiles ali, lhe dando a notícia de que o xerife estava morto e de alguma forma, era difícil para ele não se comover com o pranto de um menino que tantas vezes colocou a vida em risco para salvá-lo, dos amigos e do próprio pai. O lobo não fazia ideia do que tinha acontecido, poderia ser uma morte por acidente de trabalho, uma fatalidade ou causas naturais, ele não fazia ideia do que levou John Stilinski para a morte, ele só tinha a certeza de que aquele garoto que todos conheciam, o Stiles que todos podiam contar, estava morto e sobrou aquele vazio que de alguma forma o menino Stilinski tentava preencher com lágrimas.

— Quando aconteceu? — Stiles escutou a pergunta ecoando por sua cabeça e se obrigou a encarar o mais velho ao seu lado, estava com a visão turva pelas lágrimas, mal conseguia respirar direito.

— Agora pouco... eu não... isso... Derek. — ele soluçou antes de afundar o rosto nas palmas das mãos, uma tristeza que empesteia o local com seu cheiro ocre e o ritmo quebrado das batidas do coração que acertavam Derek em cheio, ele quase se perdia em meio aquele clima de depressão.

— Tudo bem, não precisa explicar. — Stiles sentiu a mão pesada e grande de Derek apertar seu ombro. — Vamos sair do chão. — Derek levantou puxando o menino junto, Stiles estava tão abalado que não se negou quando o lobo o guiou até uma parte do loft que ele não conhecia.

Só se deu conta que estava em um quarto e sentado em uma cama de casal, quando sentiu o mais velho tirar seus tênis e o acomodá-lo em meio a cobertas quentes, ele não estava sob controle das lágrimas lívidas que mancharam seu rosto, ele apenas olhava para o nada e sentia o calor de Derek próximo, que o cobria. O lobo o deixou ali, não sabia se puxava o garoto contra o próprio peito e repetia palavras que nunca o confortaram ou se apenas ficava quieto o observando, ele simplesmente não fazia ideia de como reagir. Lembrava que ao perder a família a comoção da cidade foi total, mas em partes para acusá-lo e por outro lado para apoiá-lo, mas nada o confortava naquele momento de dor e ele tinha certeza que um monte de palavras não faria Stiles menos infeliz.

Stiles manteve o silêncio, sentiu a mão de Derek em suas costas por cima da coberta e suspirou, o lobo estava perdido e mesmo assim tentava confortá-lo, ao mesmo tempo que ele estava confuso e exausto, sua vida estava terminada e aquele era o fim para tudo o que ele conheceu até então. Seu pai, sua única família, tinha partido e nunca mais ele poderia ouvir uma bronca ou qualquer tipo de reprimenda que ele às vezes buscava sem perceber, não sentiria mais o abraço apertado todas as vezes que um achasse que perderia o outro e muito menos poderia se sentir constrangido com o senso de humor do pai, que era muito peculiar, assim como o dele. Tudo doía, de dentro para fora. Era tão forte que ele não conseguia mais lutar contra as lágrimas ou o desespero começando a tremer e chorar compulsivamente.

— Eu sei que é difícil, acredite quando digo que sei. — Stiles sabia que Derek tinha noção do quanto doía. — É uma dor que nunca cessa, mas você aprende a lidar com ela. Você vai sobreviver. — Derek quebrou a falta de contato e puxou o menino contra seu corpo, Stiles chorava cada vez mais alto.

— Ele não podia... por quê? Eu... — nada desde que Stiles entrou naquele loft fez sentido e mesmo assim, Derek compreendia tudo, toda aquela dor.

— Shh! Tudo bem, eu sei. — ele alisou os cabelos desgrenhados do garoto que fungava e soluçava em seus braços. — Respire Stiles, apenas respire. — o lobo pedia enquanto o aninhou em seu peito.

Demorou pelo menos duas horas para Derek conseguir fazer o garoto dormir e quando o fez, ainda ficou o observando por longos minutos antes de sair daquele quarto e pensar para quem ligaria primeiro, talvez Melissa ou Scott soubessem o que de fato tinha acontecido, talvez eles estivessem atrás do garoto.

—Scott. — quando o alfa atendeu o telefone, Derek sentiu um aperto no peito.

— Ele foi até aí? — Scott tinha a voz embargada, como quem já tinha chorado um bom bocado.

— Está dormindo agora, o que aconteceu? — Derek podia sentir a morbidez mesmo de longe.

— John teve um ataque cardíaco, quando a emergência chegou em casa, Stiles não estava mais lá e o xerife... — Scott não precisou terminar aquela frase.

— O que vai acontecer agora? — o lobo observou o garoto dormir tranquilo através da porta.

— Minha mãe está providenciando o enterro e eu estava atrás do Stiles, ele deve estar péssimo. — Scott também estava. — Eu tenho que ajudar minha mãe com algumas coisas, será que você pode ficar um pouco com ele? — o tom hesitante de Scott o incomodou.

— Não se preocupe e me mantenha informado. — Derek desligou, via o menino se mover na cama lentamente e resmungar coisas sem sentido.

Quando Stiles acordou naquela madrugada ele viu que estava em um lugar diferente da sua casa e aos poucos a consciência o trouxe de volta a realidade triste e cortante em que ele se encontrava. O nó na garganta trouxe as lágrimas que ardiam bem mais agora que seus olhos estavam sensíveis pelo sono e pelo excesso de choro passado, ele levantou e foi até o banheiro, demorando um pouco para encontrá-lo já que as idas ao loft de Derek se resumiam a ficar na sala e ser devidamente escorraçado ou espancado por algum ser sobrenatural. Ele entrou no banheiro e ligou a luz, precisava esvaziar a bexiga e quando foi lavar as mãos, viu seu próprio reflexo no pequeno espelho. Engoliu em seco algumas vezes ao se reconhecer tão abatido e lembrar mais uma vez o por quê.

Saiu dali cambaleando, estava com uma dor de cabeça infernal, um pouco desorientado pelo sono e a vista inchada e não fazia ideia de onde estava Derek. Foi até o corredor que dava na sala e se apoiou na parede por um momento, sentia fome, sede e um aperto sem fim no próprio peito e aquelas malditas lágrimas que não paravam de cair. O que seria dele agora? Era a questão que mais o atormentava. Chegou ao ambiente mais amplo do loft, viu a cozinha americana, a mesa em frente às grandes janelas de vidro velho manchado e o sofá em frente a TV de tela plana grudada na parede, uma das poucas coisas eletrônicas que Derek resolveu obter depois do Void. Ouviu um ressonar baixinho, a respiração tranquila e roncos quase inaudíveis vindo do sofá, viu o lobo mau cabendo naquele estofado desconfortável e se sentiu culpado por lhe tirar a cama, ao mesmo tempo agradeceu por ter recebido algum tipo de conforto do mais velho.

—Aconteceu alguma coisa? — Derek perguntou bocejando, tinha escutado o menino ir ao banheiro, mas só resolveu sair do seu sono quando sentiu ele próximo demais.

— Não. — Stiles respondeu baixinho, seu rosto ainda coberto por lágrimas e a postura nada altiva e corajosa.

— Sente aqui. — Derek sentou no sofá e se alongou, Stiles podia ouvir o estalar do pescoço do ômega. — Eu sei que é difícil Stiles, vai ser cada dia mais complicado viver uma vida onde não se tem ninguém a quem recorrer, ninguém para quem voltar no fim do dia. — o garoto desviou o olhar e mordeu o interior da boca, não queria desabar com aquela realidade. — Olhe para mim. — Derek tocou seu queixo e ele obedeceu. — Você sempre foi o mais forte de todo o bando e todos nós estamos ao seu lado. Ninguém vai te abandonar. — Derek esperava que isso confortasse o menino, mas os soluços que cortaram o silêncio que se instalou o confundiu.

— Como você não enlouqueceu? — o menino perguntou abraçado aos próprios joelhos, o rosto enterrado nas pernas e a dor ecoando pelas paredes do loft.

— Eu não sei, eu tinha tanta raiva dentro de mim que me mantive firme e eu tinha Laura, até que ela se foi e eu me perdi de novo. — Derek encolheu os ombros, lembrar da sua dor não ameniza em nada a de Stiles.

— Eu não tenho ninguém, não tenho mais ninguém. — ele repetiu apertando-se mais em uma posição quase fetal.

— Não, você não tem mais sua família e isso machuca de formas insuportáveis, mas ainda restam os seus amigos Stiles, todos estão aqui por você. Todos estarão sempre ao seu lado. — o menino tinha dúvidas quanto a isso, sempre se viu sacrificando demais por todos e a recíproca era verdadeira, mas agora? Ele nunca mais conseguiria ser aquele Stiles de antes e seus amigos não gostariam do que ele se tornou.

— Eles também vão embora. — o tom era amargo, Derek sabia como era se sentir abandonado, sozinho e com medo de perder quem sobrou no caminho e o menino tinha razão, todos iam embora e seguiram suas vidas em algum momento, mas ele não deixaria Stiles se tornar alguém como ele, nem que isso custasse toda sua dedicação.

— Eles podem ir se quiserem, mas eu vou ficar. — Stiles encarou o lobo surpreso. — Eu não vou sair daqui agora ou em qualquer momento. — o menino apertou os lábios.

O clima ficou estranho, Stiles não esperava aquele tipo de apoio vindo de Derek. O lobo se comprometeu com ele e mesmo sem nenhum poder sobrenatural ele podia sentir a verdade naquele olhar, naquelas palavras. Se obrigou a parar de chorar e se arrastou até Derek, deitou em suas coxas, tinha receio de ser rejeitado, mas ele precisava de contato físico agora, ele precisava de um pouco mais do conforto que recebeu até dormir horas antes e para sua surpresa Derek alisou seus cabelos desajeitado, como se nunca tivesse feito um cafuné em toda sua vida.

No dia seguinte Derek acordou cedo e viu o menino dormir enroscado em todas as cobertas da cama, parecia que um furacão tinha passado por ali e ele quase sorriu vendo o garoto arreganhado, de boca aberta e se assustando com o próprio ronco diversas vezes. Derek aproveitou aquele momento para ir até a casa de Stiles, Scott tinha ligado cedo e dito que o velório seria ali e que estavam arrumando as coisas, seria bom se o garoto tivesse um par de roupas limpas para vestir antes de se despedir do pai. Scott ajudou Derek a encontrar a maioria das coisas e o lobo lembrou de levar a caixa de remédios que tinha no banheiro, sabia que Stiles tomava alguns comprimidos para seu TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade – e não queria o menino em uma crise em meio aos atuais acontecimentos.

Voltou para casa com isso e o café da manhã, viu que o menino ainda dormia e depois de arrumar tudo na mesa, resolveu tomar um banho. Quando saiu, viu Stiles coçar os olhos na cama e bocejar, era bom ver que o menino conseguiu descansar ao menos um pouco. Stiles encarou o lobo enrolado em uma toalha branca e franziu o cenho, voltou a coçar os olhos e se espreguiçou, a cama estava tão bagunçada que parecia que ele tinha lutado com alguém ali e ele nem sabia como chegou lá. Derek pegou uma cueca dentro da cômoda e vestiu, depois colocou uma blusa e por fim o jeans, sentiu os olhos de Stiles o observando e parou encarando o menino por alguns segundos.

—Tudo bem? — ele tinha as sobrancelhas arqueadas e uma ligeira impressão de que Stiles estava constrangido.

— Eu não lembro como vim parar na sua cama. — o garoto parou por aí, mesmo que tivesse uma continuidade sugestiva para aquele comentário.

— Você adormeceu no sofá e eu te coloquei na cama. — Derek respondeu caminhando até uma cadeira e pendurando a toalha. — Eu comprei café da manhã, vou estar te esperando na sala. — o lobo pensou em esperar por uma resposta, mas era melhor não.

Stiles saiu da cama e foi até o banheiro, lavou o rosto algumas vezes e seguiu para a sala onde a mesa de madeira velha estava tomada por alguns alimentos, seu estômago roncou e Derek riu ao ouvir, ele deu um sorriso contido, era fácil estar ali com Derek, de alguma forma era reconfortante e ele não precisava pensar nas outras coisas ao seu redor tentando parecer forte.

—Desculpe por te tirar da sua cama. — ele pediu envergonhado, não sabia de onde vinha aquela onda de timidez, mas a abraçou naturalmente enquanto comia.

— Não se preocupe com isso. — Derek manteve sua postura pouco sociável. — Eu trouxe roupas limpas e uma caixa de remédios, eu não fazia a menor ideia de qual servia para o seu TDAH então trouxe todos. — Stiles sorriu.

— Eu tinha esquecido completamente deles. — o menino levantou e pegou a caixa que estava em uma das cadeiras. — Eu só uso esses dois. — Stiles mostrou a embalagem de Ritalina e a outra de Adderall.

— Vou lembrar disso na próxima vez. — Derek largou o copo de suco vazio na mesa. — Stiles. — ele chamou o garoto que voltou da cozinha depois de tomar o remédio.

— Hum? — o menino estava tão abatido que nem as horas de sono puderam lhe tirar a tristeza, o inchaço dos olhos ou a palidez.

— O velório começa às três da tarde, Melissa arrumou tudo. — Stiles engoliu em seco e apertou os dedos em volta do tecido do moletom que vestia.

— Ta. — ele pegou a mochila que Derek trouxe e seguiu para o banheiro.

Stiles chegou mais cedo, não trocou mais nenhuma palavra com Derek desde o momento em que o mais velho sugeriu que ele tivesse um tempo a sós com o pai, para se despedir. Para Stiles aquilo não era uma despedida, conversar com um cadáver não era uma despedida justa e muito menos ter a cidade toda se 'despedindo' e tentando confortá-lo, aquilo não ajudava em nada. Se trancou no quarto quando algumas pessoas começaram a comentar o quanto John era um bom homem e não merecia ter partido de forma tão repentina, ele mesmo não aguentava sequer ouvir os amigos lhe desejando os pêsames. Esperava mais dos amigos, esperava que eles entendessem que perder alguém não fica mais fácil quando tentam te confortar com palavras ocas como aquelas, mas eles pareciam cegos quanto a isso, o que o fez querer mais e mais estar só.

—Stiles. — o menino levantou o rosto do travesseiro e viu o homem alto, loiro e magro o observar hesitante.

— Parrish. — sua voz estava rouca demais.

— Eu vim saber se você precisa de alguma coisa, eu sei que é uma situação delicada e muita gente está te cercando agora, mas seu pai era um bom homem e não gostaria de ver o filho tão triste. — aquela foi a primeira vez no dia em que Stiles não escutou votos frios de condolências.

— Eu vou me virar. — ele respondeu engolindo em seco.

— Eu trouxe um pouco de água e... — o loiro fez uma pausa, agora vendo-o com mais clareza, Stiles percebia os olhos vermelhos e inchados do rapaz, alguém que estava triste com a perda do parceiro de trabalho. — eu trouxe o distintivo e o uniforme do seu pai, eu sei que você amava o trabalho dele, assim como ele. — Stiles sentou na cama e encolheu os ombros, Parrish se aproximou.

— Obrigado. Ele era um herói para mim, sabe? Não é fácil perder um herói. — o garoto mordeu o lábio inferior, estava com dor de cabeça de tanto chorar.

— Seu pai fez muito por mim, perdê-lo foi... está doendo. — não fazia muito sentido a frase do policial, mas Stiles entendia perfeitamente.

— É bom saber que alguém tinha tanto apreço assim pelo xerife. — Stiles se permitiu um sorriso, triste e rápido, que foi retribuído pelo olhar cabisbaixo e de um verde esmeralda profundo de Parrish.

— Stiles. — Derek entrou no quarto e o menino o encarou. — Oh! Desculpe, é que... — Derek coçou a nuca e emudeceu.

— Tudo bem. Parrish só veio ser... cordial. — Stiles escolheu a palavra com cuidado sem saber bem o motivo.

— Vão começar o cortejo. — ele avisou e Stiles suspirou.

Ver o caixão do próprio pai sendo submerso em terra era difícil e só trazia mais e mais lembranças de que ele nunca mais ouviria a voz do xerife, nunca mais seria repreendido por se meter em alguma cena de crime, nunca mais poderia ajudá-lo com o almoço de domingo, ou controlar suas refeições, o uísque ou a falta de repouso entre os turnos. Stiles nunca mais precisaria inventar desculpas para proteger o pai, sequer precisaria proteger alguém já que estava sozinho agora e nem de longe tinha ideia de como seria sua vida dali para frente.

— Quando você quiser querido, eu e Scott podemos levá-lo para casa. — Melissa deu um aperto singelo em seu ombro e ele suspirou olhando ao redor, não tinha mais ninguém ali, Scott estava em seu outro lado e ele se viu decepcionado por Derek não ter o esperado.

— Eu vou ficar bem, vocês podem... ir. — ele encarou Melissa primeiro e ela franziu o cenho.

— Eu aluguei um jogo novo, nós podemos nos distrair ou fazer o que você quiser. — Scott passou o braço pelos seus ombros e ele sorriu para o melhor amigo.

— Eu prefiro ir para casa e... — seu peito parecia apertar a cada segundo. — só gostaria de ficar sozinho. — o garoto deu de ombros e Scott se afastou.

— Podem ir, eu levo ele. — Stiles encarou Derek se aproximando, ele não fazia ideia de onde o lobo estava, mas se sentiu menos sozinho ao tê-lo ali.

— Mas... — Scott tentou protestar quando sua mãe o puxou.

— Mande uma mensagem avisando que está tudo bem. — ela pediu e Stiles assentiu voltando a encarar o chão coberto de terra que logo possuiria uma lápide para John.

Stiles não tinha muita vontade de falar e sentia a clara distância física de Derek, ele conseguia sentir o respeito que o lobo estava tendo com seu espaço pessoal. O garoto sentiu o soluço escapar quando novamente a ideia de ir para casa o atingiu, ele não queria entrar naquela casa e ver o local onde seus pais o criaram e então constatar que estava sozinho, para sempre.

—Aqui, você precisa se manter hidratado. — Derek estendeu uma garrafa de água e Stiles o encarou por um segundo antes de aceitar.

— Obrigado, você... sabe, eu não acho... — ele não sabia ao certo o que dizer.

— Eu estou aqui Stiles, não vou sair daqui. — o garoto assentiu. — Leve o tempo que precisar, eu sei que é um grande choque o que está vivendo. — Stiles deu alguns goles na água e sentiu a garganta estranhar o líquido, não sabia que estava com tanta sede.

Eles não disseram nada por um longo tempo, já estava escurecendo e esfriando quando Stiles levantou do gramado e caminhou até onde Derek se mantinha encostado ao camaro, o lobo observou cada passo do menino, assim como tinha ouvido parte de uma conversa triste entre ele e o túmulo de seus pais.

—Nós podemos ir embora? Eu estou com frio. — Stilinski tinha os ombros encolhidos e as mãos enterradas nos bolsos da calça social preta, não se lembrava por que o obrigaram a vestir aquilo e se sentia gelado e desconfortável.

— Vamos. — Derek abriu a porta do carona para ele que entrou e sentiu o corpo relaxar no estofado, principalmente quando o mais velho entrou e deu a partida ligando o aquecedor.

— Esse não é o caminho da minha casa. — Stiles observou enquanto Derek pegava algumas vias que davam para o outro extremo da cidade.

— Eu sei, estou te levando para comer. — o estômago do garoto roncou quase que imediatamente e ele se encolheu envergonhado. — Não se preocupe, não é nenhum lugar onde você precise ouvir as pessoas lamentando. — o garoto sorriu tímido quando a mão do lobo tocou seu joelho o confortando.

Stiles não tinha ideia da fome que sentia ou da existência daquele restaurante, ele não conhecia ninguém, mas podia ver na TV a cobertura do velório e enterro do xerife da cidade, engoliu em seco sentindo o estômago revirar e afastou o prato quase vazio, Derek pegou sua mão e apertou ao mesmo tempo que sinalizava para a garçonete que queria a conta.

— Estamos indo para onde? — Derek perguntou quando voltaram ao carro depois de Stiles se acomodar no banco com um aspecto cansado.

— Eu só não quero ir para casa. — ele se encolheu mais ainda e Derek concordou dando partida.

O lobo não tinha certeza, mas não levaria o garoto para mais sofrimento, tudo o que Stiles precisava era de conforto e cama, sua casa era perfeitamente capaz de proporcionar isso. Pararam em uma loja de conveniência onde Derek comprou um amontoado de coisas úteis para alimentar o adolescente por alguns dias, ele não queria forçar a barra, mas estaria preparado caso Stiles quisesse ficar no loft por algum tempo até decidir se voltaria para casa ou iria para a residência dos McCall.

— Pegue a mochila no banco de trás. — Derek pediu ao mesmo tempo que abrisse a mala e tirasse algumas sacolas de mantimentos.

— Essa bolsa é minha. — o garoto estranhou e seguiu Derek depois do lobo acionar o alarme.

— São algumas coisas suas, não esperava que você fosse ficar em casa. — Derek deu de ombros e Stiles o ajudou a abrir a porta.

— Obrigado. — Stiles corou, ele não se sentia habituado a ter Derek cuidando dele daquele jeito, mas apreciava o gesto.

— Você deve estar cansado, pode tomar banho e depois cama. — Stiles deu uma gargalhada nervosa. — O que foi? — Derek franziu o cenho, suas sobrancelhas expressivas se uniram e isso fez o menino rir mais ainda.

— Você está agindo como algum tipo de... — as risadas cessaram, Stiles finalmente percebeu o que estava fazendo e Derek apertou os lábios ao compreender o que aquilo significava. — pai. — o menino apertou os lábios e mordeu o interior da bochecha.

— Só tome um banho e tente relaxar, não se preocupe com nada, ok? — Derek estava bem próximo agora, o contato físico entre eles quase nunca existia, mas Stiles ansiava que ele o abraçasse, mas isso não aconteceu.

— Eu... já volto. — ele caminhou lentamente para o banheiro.

Derek aproveitou para guardar as compras, mandar uma mensagem para Scott e ajustar sua cama na sala, depois foi até o quarto pegar suas próprias roupas, não queria atrapalhar Stiles, queria dar a ele um tempo sozinho, ele sabia como era importante ter apoio e ao mesmo tempo possuir espaço para pensar e sentir seu próprio luto. Stiles tinha acabado de sair do banheiro, estava enrolado em uma toalha, os cabelos pingando água quente, ainda tinha vapor exalando de seu corpo quando ele esbarrou em Derek e sua toalha foi para o chão.

— Droga. — Ele se abaixou e Derek fez o mesmo, ambos batendo com a cabeça na do outro.

— Ai! — Derek reclamou e Stiles não sabia de que forma isso poderia ser mais constrangedor.

— Desculpe eu... — Derek se levantou e entregou a toalha para Stiles.

— Tudo bem, eu não deveria estar na frente da porta é que essa gaveta tá emperrada. — o lobo reclamou e o garoto se enrolou novamente na toalha.

— Tudo bem, não tem problema. — ele caminhou hesitante até a cama e começou a fuçar suas coisas.

— Eu vou tomar banho. — Stiles assentiu e suspirou aliviado ao se ver sozinho novamente.

Quando Derek voltou ao quarto já vestido, não tinha o menor sinal de Stiles por ali, caminhou até a sala e viu o menino dormir no sofá enquanto segurava o controle da TV que exibia um filme qualquer de comédia, sorriu ao ver a expressão relaxada do garoto e se aproximou o pegando no colo para levar para a cama, não era como se dormir no sofá fosse extremamente confortável para um adolescente do tamanho dele.

—O que... Derek! — ele se debateu exasperado.

— Está tudo bem, só vou te levar para a cama. — o lobo tentou argumentar.

— Me coloque no chão! — ele pediu ainda sonado, Derek apenas o fez. — Eu vou dormir no sofá e você na sua cama, eu não posso invadir sua casa e tomar seu espaço assim. — o garoto se encolheu, tinha esfriado mais ainda e seu cabelo ainda tinha sinal de que estava molhado.

— O quarto está quente Stiles, aqui na sala não tem aquecedor e você vai ficar doente assim. Eu não me importo com o sofá. — ele tentou argumentar, mas Stiles estava decidido.

— Não, eu não vou para a cama e deixar você nesse frio. — Derek bufou, queria ser paciente, mas Stiles sempre o amola.

— E o que você sugere Stiles? Que eu coloque você dentro da lareira enquanto aquela cama fica lá vazia? Eu não durmo muito, não é como se ela me fizesse falta. — o tom de Derek soou mais duro do que ele queria e Stiles apertou os lábios.

— Eu deveria ir para casa. — o garoto enfiou as mãos dentro do moletom que vestia e desviou o olhar.

— Não, você não deveria, só seja um pouco menos teimoso e aceite a gentileza que eu estou tentando fazer. Eu juro que não me importo e se você quiser eu posso dormir no chão do quarto, assim ambos ficamos quentes. — o garoto hesitou.

— Eu não quero te irritar. — Stiles estava na defensiva, o cheiro de confusão e insegurança invadiu Derek de um jeito assustador.

— Não me irritou, vamos. — o lobo puxou o garoto pelo casaco e eles entraram no quarto. — Deite. — ele exigiu e Stiles obedeceu encarando tudo com uma inquietação incomum.

— Eu já volto, vou buscar as coisas no sofá e preparar minha cama aqui. — Stiles segurou o pulso do lobo que acabara de cobri-lo com camadas quentes e confortáveis de edredom.

— Fica, quero dizer, você pode dormir na cama também. — as bochechas de Stiles esquentaram. — Eu... bom, Scott e eu já dormimos juntos mais vezes do que eu posso contar, não vai me matar dividir a cama com você, é mais confortável e eu vou me sentir melhor assim. — Derek arqueou as sobrancelhas um pouco surpreso com a proposta. — Bom eu não acho que isso soou muito... — Derek apenas se afastou e tirou a camisa que vestia dando a volta na cama e deitando.

— Tudo bem Stiles, não precisa se explicar. — o menino viu o mais velho se enrolar no edredom e suspirou ao sentir o calor dele o atingir mesmo sem tocá-lo, era estranha a vontade que ele sentia de se enroscar no outro.

— Boa noite Derek. — o garoto se virou de costas para o lobo e tentou dormir.

— Boa noite Stiles. — Derek continuou a observar a respiração vívida do menino.

Uma semana tinha passado e Stiles parecia melhor. Derek de alguma forma o distraía e Scott andava passando bastante tempo no loft junto com ele, jogando videogame ou assistindo filmes, eles simplesmente se divertiam e quando o alfa não podia estar com o adolescente, Derek estava e para a surpresa de Stiles, era divertido também.

—Bolo? — Derek se surpreendeu ao ver Stiles na cozinha desinformando um bolo.

— De baunilha, Peter disse que era o seu favorito e eu queria agradecer pelo que você tem feito. — Stiles estava vermelho, sempre que ele tinha algo a dizer para Derek a timidez assumia lugar em suas bochechas, mas o lobo gostava disso.

— Obrigado Stiles, fazem anos que eu não como bolo de baunilha. — Derek sentiu a necessidade de abraçar o garoto, ultimamente ele sempre se via tentado a encostar em Stiles de alguma forma.

— Vá se lavar, eu vou servir. — o garoto sorria, Derek gostava disso.

Nenhum dos dois poderia negar que aquela melancolia e tristeza se arrastava pelo loft, mas aos poucos eles se entendiam e adaptaram suas vidas para conseguirem dividir o espaço. Peter sugeriu algumas mudanças, então eles estariam dispostos a fazer alguns reparos para que os três pudessem viver bem ali, mesmo que Derek insistisse em ser uma surpresa para Stiles.

Stiles tinha passado uma semana inteira na casa de Scott, primeiro Derek o incentivou e depois o menino tinha na cabeça que ele precisava dar algum espaço para o lobo e ficar com seu melhor amigo não era bem um sacrifício. Quando ele voltou para o loft tomou um susto. Tudo parecia ter mudado, a porta fora trocada por algo menos pesado e mais resistente, a sala estava mobiliada e pintada, a escada em caracol agora era uma escada bonita e simples, a cozinha estava adornada por eletrodomésticos, tudo tinha mudado e isso o incomodou um pouco.

Derek observou o garoto por alguns segundos, ele tinha acabado de chegar também e só esperava que Stiles retornasse a noite, mas algo tinha mudado e o cheiro de confusão o invadia a cada passo hesitante que o menino dava ao desbravar o apartamento. Quando Stiles se deu conta da presença de Derek eles se encararam por alguns segundos e o vislumbre de tristeza deixou o lobo confuso.

—Então... o que achou? — Derek começou. — Eu pensei que seria bom transformar esse lugar em um... — Stiles suspirou interrompendo Derek.

— Isso parece um lar, não combina muito com você. — Stiles o encarou assustado com suas próprias palavras. — Quer dizer... eu não... — Derek riu.

— Tudo bem Stiles, não é como se eu não estivesse de acordo, mas Peter sugeriu e como ele e Malia também vão morar conosco, eu pensei que seria útil algumas mudanças. — o garoto deu de ombros.

— Eu vou guardar minha mochila. — ele comentou. — Depois eu poderia estrear sua cozinha? — Derek concordou.

— Eu tenho uma surpresa para você. — o lobo comentou guiando o adolescente pela escada e então o colocou em frente a uma porta de madeira.

Stiles ficou decepcionado. O quarto era incrivelmente bonito, arrumado e nerd, assim como ele sempre gostou, mas era só seu e isso significava que Derek não o queria mais dividindo a cama com ele ou ser acordado por seus pesadelos inúteis. Aquelas mudanças deixaram tudo claro, Derek não conseguia lidar com tudo o que Stiles tinha trazido para sua vida e isso o decepcionava.

—Você não gostou. — Derek assumiu e Stiles não o encarou.

— É muito bonito e a minha cara, claro que eu gostei. — não era uma verdade completa, mas Stiles admitia que Derek sabia decorar. — Foi você quem escolheu tudo? — uma centelha de esperança se abateu sobre ele, por quê Stiles estava fazendo um caso em cima disso?

— Cada coisa, mas eu trouxe suas coisas também. Eu imaginei que um garoto da sua idade precise de um pouco de privacidade. — Derek explicou.

— Certo. — Stiles se jogou na cama. — Isso parece bom. — ele tentou ser agradável, Derek tinha feito um esforço tremendo. — Você deveria experimentar. — o menino bateu no espaço ao seu lado, agora ele tinha uma cama de casal só para ele.

— Scott pode vir dormir quando quiser. — Derek comentou sentando na beirada da cama.

— Tenho certeza que sim. — Stiles puxou Derek pela camisa o fazendo deitar. — Experimentar camas é assim. — ele se jogou novamente na cama caindo parcialmente em cima do lobo.

— Oh! Agora você vai ver só! — Derek gemeu e empurrou o garoto de lado se colocando por cima dele e o enchendo de cócegas.

— Ai meu Deus! Derek! — Stiles se debatia e ria descontroladamente. — Derek, pare! — ele tentou se soltar mas o moreno o imobilizou bem. — Por favor! — ele gritou sem ar e vermelho de tanto esforço, o lobo o soltou.

Derek ainda não entendia bem os motivos de Stiles não gostar totalmente da ideia de ter um quarto e ele mesmo se sentia desconfortável com a ideia do menino ficar tão longe, mas Peter o convenceu que garotos na idade de Stiles não gostam de dividir seu espaço pessoal e não era porque Derek se sentia indiferente a isso que o adolescente precisava fazer o mesmo.

Stiles teve três pesadelos naquela noite e desistiu de dormir. Acordou a primeira vez com a respiração ofegante, acendeu a luz e tentou voltar a dormir, não queria acordar Derek e ele tinha certeza de que o acordaria se ficasse zanzando por aí. Na segunda vez ele acordou assustado, teve vontade de gritar e chorar, mas abafou as reações se afundando mais nos edredons e decidindo não dormir mais, o que não funcionou. Na terceira vez ele acordou gritando e quando se deu conta do que acontecia, seu rosto coberto de lágrimas estava contra o peito quente e macio de Derek, enquanto o lobo o imobilizou delicadamente.

—Tudo bem, vai ficar tudo bem. — ele repetiu, até que o menino se acalmou.

— Você pode ir, eu não queria te acordar. — Stiles se remexeu querendo se livrar do abraço, mas Derek não permitiu.

— Esse é seu terceiro pesadelo Stiles, acha mesmo que eu não ouvi? Eu só não entendo porquê você não me chamou antes. Eu pensei que você queria ficar sozinho então não forcei a barra, mas você estava gritando e chorando, isso não é o tipo de cena mais agradável de se ignorar. — Stiles arfou, não sabia o que dizer então relaxou nos braços do maior.

— Eu não deveria te dar tanto trabalho, você não tem nenhuma obrigação comigo. — o tom áspero incomodava Derek que se afastou e entregou um copo d'água para o menino.

— Eu nunca fiz nada disso por obrigação Stiles, por quê está agindo assim? — Derek estava sério e só agora Stiles percebeu que ele só estava de cueca.

— Você me mandou passar uma semana na casa do Scott e depois me tirou do seu quarto, isso são avisos sutis de que estou incomodando e eu não quero encher o seu saco Derek. — Stiles tinha tanta coisa na cabeça nesse momento que nem se deu conta do que disse.

— Stiles, eu não te mandei embora, só queria fazer uma surpresa, por isso, você parecia decepcionado com o quarto. — Derek puxou o garoto para o seu peito, ambos deitados na cama agora, aquilo era novo para Stiles, novo demais. — Eu não estou te afastando Stiles, mas você é um adolescente e eu nunca conheci nenhum que goste de dividir a cama de casal com alguém como eu. Eu sei que você fez tudo isso porque achava que me incomodava e estava me expulsando do meu espaço, mas não, eu nunca me importei de estar na mesma cama que você. — Derek riu. — Você é tão estúpido Stilinski. — o garoto se encolheu, estava com vergonha do que disse e confuso.

— Eu sou um idiota. — ele mesmo se xingou e tentou sair daquele abraço, mesmo que gostasse de estar ali, não se sentia confortável com tanto contato físico.

— Sim você é, da próxima vez me deixe saber como se sente. — Derek não o prendeu contra seu corpo e Stiles gostaria que ele tivesse feito.

— Você pode ir dormir se quiser, eu não vou mais gritar ou coisa do tipo. — Derek arqueou as sobrancelhas ao ver Stiles desviar o olhar.

— Você está com vergonha? — Derek se levantou, era divertido ver algumas reações em Stiles.

— Não. — o garoto fez beicinho e se afundou entre os cobertores.

— Bom, se você diz. — ele deu de ombros sorrindo. — Boa noite Stiles. — o garoto resmungou quando Derek já tinha fechado a porta.

Hoje completava um mês desde a morte de John e era oficialmente o dia em que Stiles precisava voltar para a escola. O filho do falecido xerife tinha pensado muito sobre o assunto na noite anterior, na verdade, durante toda a semana e chegou a conclusão de que seu pai odiaria se ele perdesse o ano por causa do luto. Assim ele desceu arrumado e encontrou Malia tomando café animada entre uma piada e outra de Peter. Os dois pareciam se entender, pai e filha pareciam ter entrado em um consenso silencioso onde eles se permitiram conhecer e aprender um com o outro e isso alegrava Stiles, porque ele gostava bastante da garota e não podia negar que ver Peter menos psicótico era uma boa coisa.

—Você vem Stiles? — Malia perguntou pegando sua mochila.

— Vou, eu só... — Stiles pareceu perdido por um momento. — Onde está Derek? — ele perguntou finalmente pegando um copo e servindo café para si mesmo.

— Dormindo, ele passou boa parte da madrugada assistindo TV. — Peter respondeu continuando a tomar seu café.

— Você pode dizer que eu fui? — o garoto hesitou ao encarar o Hale mais velho.

— Claro, vão em frente. Divirtam-se. — o deboche era aparente e Stiles revirou os olhos ao terminar seu suco e acompanhar a garota.

Estar de novo na escola era... estranho. Todos o olhavam como se sentissem pena e Stiles odiava isso. Malia o arrastou por todos os corredores até a primeira aula sem deixar ninguém se aproximar e ele gostava disso, não estava disposto a ouvir condolências de ninguém, não queria se sentir deprimido, mas já era bastante difícil estar ali. Scott ficou surpreso em ver o melhor amigo na sala e todos os professores pareciam pegar leve com ele, exceto Bobby Finstock, naquele dia, Stiles passou a gostar mais do treinador, porque era comum ser maltratado e ouvir gritos daquele homem e hoje não foi diferente.

Ele estava exausto quando saiu do treino e ficou surpreso ao ser convidado a realmente participar dessa vez, talvez aquela era a forma do treinador de dizer que sentia muito e no fundo Stiles apreciou isso. O filho do falecido xerife só não esperava encontrar Parrish na porta da escola com sua viatura e uma caixa de rosquinhas.

—Aconteceu alguma coisa? — Stiles sentiu a adrenalina correr por suas veias, fazia tempo que nada sobrenatural acontecia, talvez novos sacrifícios ou coisas muito mais assustadoras estivessem sondando Beacon Hills.

— Não eu só pensei em vir e, — Parrish coçou a nuca, parecia nervoso. — sei lá, faz tempo que não nos falamos e a delegacia anda um inferno com o novo xerife, eu só pensei em dar uma pausa. — Stiles suspirou.

— Vamos dar uma volta, uma pausa pode ser boa. — Parrish sorriu e o menino entrou na viatura. — Então, o que você tem feito? — Stiles aceitou uma das rosquinhas enquanto Parrish dirigia sem rumo.

— Turnos triplicados, quanto mais trabalho, menos eu posso pensar em como essa vida é fodida. — Stiles riu.

— Acho que foi por isso que eu voltei para a escola, ficar em casa não ajuda muito. — o garoto se pegou pensando no próprio pai mais uma vez, ainda mais vendo o painel da viatura.

— Ele estaria orgulhoso por você não faltar a escola. — Parrish para no acostamento e pega uma rosquinha.

— Talvez. — Stiles dá de ombros.

— Desculpe se... — o garoto faz um barulho com a língua.

— Nem pense nisso, agora me conte sobre o caso da menina que desapareceu, eu ouvi alguma coisa no noticiário. — era bom poder falar com Parrish.

Derek estava completamente nu quando Stiles entrou em seu quarto, o lobo dormia tranquilo na cama e isso deixou o garoto sem saber exatamente o que fazer, até que o maior se deu conta de que alguém o observava.

—Stiles? — Derek o chamou, vendo que o menino estava de costas e murmurando alguma coisa bem complicada de decifrar. — O que aconteceu? — o lobo se remexeu na cama e se enrolou no lençol percebendo que estava pelado. — Oh! Droga! Desculpe por isso. — não que o maior se importasse com sua nudez, mas não era um costume sair andando pelado na frente do garoto.

— Tudo bem, eu só queria saber se você se importa que Scott, Kira e Lydia venham comer pizza essa noite. — Derek vestiu um moletom e contornou Stiles parando na sua frente.

— Sem problemas, como foi a escola? — o lobo coçou a nuca olhando a hora. — Deus! Como eu consegui dormir tanto? Você só chegou agora? — Stiles assentiu.

— Eu dei uma volta com Parrish. — Derek arqueou as sobrancelhas surpreso.

— Se divertiu? — o garoto deu de ombros seguindo Derek para fora do quarto.

— A aula foi difícil, as pessoas não sabem que quanto mais se fala sobre o assunto, mais dói. Parrish tornou minha tarde melhor. — Derek concordou enquanto pegava coisas na geladeira.

— É bom que você se distraia. — Stiles concordava.

— Eu meio que senti sua falta de manhã. — o garoto coçou a nuca em sinal de nervoso e Derek se virou para ele surpreso.

— Stiles! — Malia entrou na cozinha saltitante, o garoto se virou e ela sentiu como se estivesse atrapalhando alguma coisa. — Desculpe, é que o pessoal chegou. — Derek pegou o sanduíche que terminou de preparar e uma garrafa de suco.

— Eu vou estar no quarto. — o lobo passou direto e Stiles suspirou.

— Desculpe. — a menina coiote pediu mais uma vez.

— Não foi nada, eu só estava contando o meu dia a Derek. — ele deu de ombros e foi para a sala.

Se tornou fácil ir para escola e ignorar aqueles olhares e cochichos enquanto estava perto de seus amigos, sair com Parrish três vezes na semana e então passar algumas horas dividindo seu dia com Derek, isso se arrastava de um jeito agradável e rotineiro para Stiles, até que as coisas mudaram drasticamente. Kate estava de volta como uma espécie de criatura jaguar e ninguém acreditava que em algum momento os breves pesadelos de Derek, que só Stiles tomou conhecimento, poderiam ser reais. Novos caçadores estavam na cidade e a piromaníaca psicótica parecia disposta a caçar Derek por toda parte.

Stiles estava sozinho de novo e muito preocupado. Peter, Derek e Scott fizeram uma viagem de emergência, eles queriam achar pistas desses caçadores e manter a todos em segurança. O filho do falecido xerife não gostava daquela solidão toda, principalmente quando não podia se comunicar com nenhum dos seus amigos. Os dias se arrastavam, a escola era difícil, o medo o acompanhava por todo lugar, até Parrish se deu conta de que o menino estava diferente. Stiles não dormia mais, não comia direito e andava com crises incalculáveis de ansiedade. Estava tudo desmoronando, de novo.

—Já pensou em arrumar um emprego? — Parrish sugeriu, Stiles andava tão entediado naquele loft triste e vazio.

— Onde? Essa cidade minúscula não consegue empregar um adolescente terminando a escola. — o garoto pareceu infeliz.

— Tenho certeza que o xerife não se negaria a deixar você no RH. — Stiles hesitou, estaria tão perto de lembranças, lembranças que ainda machucavam.

— Você acha? — ele mordeu o canto da boca inseguro e se assustou com o braço do policial o puxando para perto.

— Se você quiser eu posso falar com ele mais tarde, meu turno começa em quarenta e cinco minutos. — ele encarava Stiles que pensou um pouco antes de dar seu veredito.

— Seria bom ocupar parte do meu tempo. — ele deu de ombros e Parrish se afastou.

Derek voltou dois meses depois dele começar seu primeiro emprego e Stiles estava tão animado com a volta do lobo e do melhor amigo que não conseguia se concentrar em nada do que Parrish disse no caminho para o estacionamento naquela noite. Derek e Scott estavam de volta e Stiles só queria poder esmagá-los contra seu peito e xingá-los por não terem dado notícias.

Scott estava bem, muito bem por sinal e Kira prometeu deixá-lo em casa depois da rodada de pizza na lanchonete. Stiles não entendia por quê Derek se recusou a ir, mas Peter assumiu que era por ele estar muito cansado e abalado com toda a situação. Stiles pediu para ir embora mais cedo, dizendo que no dia seguinte teria uma carga de trabalho enorme e que queria verificar se estava tudo bem com Derek. Ninguém se opôs, ninguém nunca se opunha quando Stiles decidia procurar Derek ou vice-versa, Scott mesmo já tinha assumido que seu melhor amigo não era mais só dele, apenas não tinha certeza se a aproximação daqueles dois era como a de irmãos ou algo mais.

Stiles ficou assustado ao ver Derek ardendo em febre na cama quando ele chegou e a trilha de gotas escuras da sala até o quarto do lobo. Ninguém tinha mencionado um ferimento que ia do ombro até o fim das costas de Derek, ninguém tinha mencionado que ele parecia morrer a cada segundo que passava. A cama estava suja e todo o lugar parecia um pouco caótico, Stiles quase não conseguiu reagir ao ouvir um grunhido vindo dos lábios do lobo que se remexeu de dor.

— Meu Deus, Derek! — o garoto se arrastou até a cama, ainda se sentia trêmulo e assustado com toda aquela cena. — Quem te fez isso? Por que ninguém me contou? — o menino não esperava realmente uma resposta, então apenas correu até o banheiro e fuçou todos os armários até encontrar o que procurava.

— Eu estou bem Stiles, não se preocupe. — Stiles bufou e colocou a maleta na cama.

— Você consegue sentar? — ele perguntou hesitante e Derek se esforçou ao máximo para fazê-lo. — Vou trocar esse lençol e colocar algumas toalhas, só deite de bruços, ok? — Derek assentiu.

As mãos de Stiles estavam frias quando tocaram a pele de Derek e o lobo notou os tremores também, assim como o ritmo quebrado de seu coração e o cheiro de tristeza e pânico irradiando do garoto. O maior não podia negar que era muito bom ter o menino cuidando dele, se preocupando com ele e por outro lado, doloroso por estar causando algum tipo de tristeza no menor.

—Stiles. — Derek estava sonolento, sua energia estava tão fraca que ele já podia sentir os primeiros sinais de inconsciência.

— Estou te machucando? Vou acabar logo. — Stiles tentou ser mais delicado.

— Eu estou quase apagando, fale comigo. — o garoto exasperou com aquilo.

— Sobre o quê? — ele estava em pânico, sabia que Derek poderia apagar e entrar em choque, ele precisava de ajuda.

— Qualquer coisa, só fale. — Derek insistiu.

— Ok... eu arrumei um emprego e é na delegacia, no RH, mas ainda na delegacia e eu achei que seria mais difícil, sabe? — Derek respondia com resmungos. — Foi difícil no início, mas agora já fazem dois meses então, eu me acostumei e nem é tão perto da sala do meu pai, Parrish tem me ajudado com a forma que a falta do meu pai tem me afetado. Você partiu e eu... não acho que isso seja um assunto para agora, eu não deveria cobrar nada. — Stiles tinha terminado de limpar toda a ferida. — Preciso que você sente. — ele pediu vendo Derek se esforçar.

— Eu não deveria ter te deixado sozinho, mas era perigoso. — Stiles se sentiu mal por reclamar.

— Não importa mais. — Stiles fechou o curativo em torno do lobo e Derek segurou seu pulso.

— Importa. Stiles, eu estive muito mais perto da morte do que eu gostaria e mais de uma vez e tudo o que eu conseguia pensar era o que aconteceria com você. Eu não queria quebrar minha promessa e eu não vou. — Stiles soltou o ar com dificuldade e encarou Derek com um nó esquisito na garganta.

— Você precisa descansar. — o garoto desconversou e levantou, queria quebrar aquele contato físico e visual, queria poder pensar direito sobre como se sentia, sobre o que tudo aquilo significava.

Derek não se opôs, nem disse mais nada. Esperou Stiles trocar os lençóis e dormiu, o menino saiu do quarto e se ocupou em limpar toda a trilha de sangue escuro do lobo, depois tomou seu próprio caminho para o quarto e tomou um longo banho, não saía da sua cabeça tudo o que tinha ouvido de Derek e ele não entendia por quê estava tão confuso. Derek tinha palavra e queria cumpri-la, era só isso. Não era?

Derek dormiu por dois dias inteiros e acordou completamente recuperado na sexta-feira. Levantou e deu de cara com Stiles cochilando em uma cadeira, desajeitado e torto, sorriu. Era involuntário, ele sempre reagia de forma feliz ao que quer que seja que Stiles fizesse, era irritante e inconveniente, mas era real. O lobo levantou sentindo o estômago roncar de fome e a vertigem o atingir, o barulho de seu corpo tombando contra a cama assustou Stiles.


—Você acordou. — o garoto tinha a voz rouca de sono.

— Você não precisava ficar sentado nessa cadeira. — Stiles estalou o pescoço entre resmungos dolorosos.

— Tudo bem, eu cochilei sem querer. — o garoto coçou a própria nuca e caminhou até a cômoda pegando uma garrafa de água e levando até Derek.

Parecia que a cena de Cora lhe oferecendo água estava se repetindo, só que dessa vez ele não estava incapaz de fazer isso por si mesmo, mas não tinha a menor vontade de afastar Stiles, ele se sentia confortável com o toque singelo do menino em seu corpo e o cuidado que ele tinha em derramar água aos poucos sem fazê-lo engasgar. Derek estava feliz por ter Stiles, grato pelo menino se importar.

— Você me deve um monte de explicações. — Stiles sentou ao seu lado na cama.

— Eu sei, desculpe por assustá-lo. Kate quase me matou, mas... — ele desviou o olhar e suspirou. — eu não consegui pegá-la. Ela fugiu novamente. — o garoto mordeu o lábio inferior e se aproximou mais, experimentou tocar o rosto de Derek que cedeu ao contato.

— Não é sua culpa, você fez o que tinha que fazer. Não se martirize, estamos todos bem, você vai ficar bem. — Derek apenas continuou a sentir os dedos do menino em sua barba.

— Ela vai voltar e ela virá atrás de mim Stiles, não é... — Stiles tocou os lábios do lobo o calando com força demais.

— Não! — ele se afastou exasperado. — Se você me mandar embora, se você... Derek! Eu não vou admitir um “eu só quero te proteger”, não vou! — Derek levantou sentindo o corpo fraquejar e se arrastou até onde o menino estava, às costas de Stiles colaram na parede quando o lobo o encurralou.

— Cale a boa, ninguém está te mandando embora. — Derek suspirou, estava tão difícil ficar de pé.

— Você não deveria estar de pé. — Stiles se viu envergonhado pelo seu pequeno surto. — Deixe-me ajudá-lo. — ele tentou se mexer, mas Derek apenas se encostou mais sobre ele, seu peso prensando o mais novo contra a parede.

— Stiles, eu não quero que você se afaste, mas eu não posso deixar você alheio ao perigo. Eu prometi ao Scott que te mandaria para ele, mas eu não consigo fazer isso, eu... — Derek não aguentava mais ficar de pé.

— Hey! — Stiles tentou mantê-lo, mas era difícil. — Tudo bem Derek, eu posso fazer minhas próprias escolhas e me entender com o Scott. — ele tomou fôlego e arrastou o lobo para cama. — Agora descanse e esqueça tudo isso. — Derek se encolheu.

—Você já vai? — ele perguntou hesitante.

— Buscar comida, você está fraco e precisa se alimentar. Aguente firme, eu já volto. — o lobo apenas concordou e fechou os olhos, dormir parecia tão fácil.

Derek demorou um tempo até estar bem o suficiente para Stiles parar de se preocupar, mas isso os aproximou mais ainda e deixou o lobo cada dia mais confuso. Não era como se todos ao redor não percebessem o jeito mais maleável que Derek tratava Stiles, não era como se fosse invisível a forma como os dois trocavam muito mais afeto do que o lobo com a própria irmã e foi quando Cora voltou para Beacon Hills que as coisas começaram a ficar difíceis para Derek.

— Então você quer sair ou não? — a Hale mais nova estava jogada na cama de Stiles enquanto ele tentava manter a toalha na cintura.

— Você realmente quer que eu te responda assim? — ele olhou para si mesmo, molhado e coberto apenas pela toalha.

— É só uma resposta Stiles, não é tão difícil. Sim ou não? — ela insistiu de pé e bem próxima a ele.

— Tudo bem, agora deixa eu me vestir. — ele se esquivou daquela proximidade e a menina saiu dando pulinhos de felicidade.

Ir a um parque de diversões não estava nos planos de ninguém, até Kira dar a ideia e todo o bando decidir ir. Peter não estava muito a fim, mas de alguma forma Lydia o convenceu. Ainda era estranho ver eles dois juntos, mas Stiles não estava julgando, ele nem conseguia julgar mais nada corretamente, só achava estranho.

— Então você está com alguém Stiles? — Cora perguntou em meio a roda de amigos que se amontoavam para comer batatas fritas.

— Não, eu não tenho pensado muito sobre isso. — ele não se incomodava mais com sua vida amorosa, não desde Lydia.

— Você e Derek formam um ótimo casal de encalhados. — o comentário veio de Peter e Stiles fingiu não perceber o uso da palavra 'casal'.

— Quem realmente te garante que Derek está sozinho esse tempo todo? — Lydia quem trouxe a questão, Stiles não se sentia mais confortável em levar o foco ao lobo ausente.

— Nós vamos mesmo falar da vida sexual de Derek? — Scott fez o comentário com o nariz torcido, ele nunca gostava desses assuntos.

— Podemos falar sobre a sua. — Malia jogou uma batata nele e todos riram.

— Não se preocupem com a nossa vida sexual. — Kira deu um pequeno beijo na bochecha do alfa e todos fizeram um barulho esquisito de tédio.

— Tão previsíveis. — e o assunto mudou.

— Você está gostando de trabalhar na delegacia Stiles? — Cora parecia interessada em tudo o que perdeu da vida do garoto.

— É bom, ocupa meu tempo e eu tenho bastante contato com algo que eu gosto. — ele deu de ombros e voltou a beber sua Coca-Cola.

Foi um passeio divertido. No fundo, Stiles precisava daquela proximidade com os amigos, o fazia se sentir muito melhor, tão bem que não se deu conta de que estavam falando de seus pais ou o quanto a intimidade com os amigos se tornou fácil de repente.

No dia seguinte ele percebeu o quanto as coisas poderiam ser diferentes. A escola estava repleta de policiais, Parrish parecia comandar seus homens para proteger os alunos de alguma coisa, Stiles queria não ter coragem para perguntar o que é, mesmo que ele fizesse alguma ideia.

—Alguém deixou uma trilha de corpos do México até aqui. Você deveria tomar cuidado. — Stiles sentiu a tensão correr seus músculos.

— Alguma pista? — o garoto precisava saber.

— Tudo indica que é uma mulher, pegadas femininas. — Parrish puxou Stiles para mais perto. — Tome cuidado, sério. — o garoto riu.

— Tudo bem, eu posso me cuidar. — ele deu de ombros. — Te vejo na estação. — o garoto voltou para aula.

Derek estava preocupado, ele esperava mais de Kate, mais cautela, cuidado e até um pouco de autopreservação, claramente a jaguar e psicopata não tinha nenhum deles e parecia querer provocar todos que estavam no território e aos arredores de Beacon Hills.

—Então vocês estavam no México? — Stiles largou sua mochila na sala enquanto abordava o mais velho.

— Como você sabe? — Derek largou seu livro e se virou para ele.

— Kate fez uma trilha bastante humana de lá até aqui. Vocês precisam pará-la. — Derek sabia que sim.

— Chris Argent está na cidade de novo, talvez ele possa nos ajudar, Kate ficou muito forte nos últimos anos. — Stiles se jogou no sofá ao seu lado.

— Escute, eu vou fazer umas pesquisas e talvez roubar alguns arquivos da delegacia, eu já fiz isso antes e posso tentar ajudar. — Derek revirou os olhos.

— Eu não quero vê-lo preso Stiles, eu sei que já foi mais fácil, mas agora? É preciso ter cuidado. — Stiles engoliu em seco, a parte implícita daquela advertência o magoou.

— Tudo bem. Eu preciso me trocar, tenho trabalho. — Derek viu o menino sair da sua vista e sentiu o coração doer.

Stiles fez do mesmo jeito. Roubou arquivos, montou o dossiê e foi completamente improdutivo em seu dia de trabalho, ele estava saindo da estação quando esbarrou com Parrish e o novo xerife, sem contar com a presença desagradável de Rafael McCall.

—Stiles. — Rafael o cumprimentou.

— Boa noite. — Stiles não o encarou, algo dentro dele ainda o fazia lembrar de todas as vezes que Rafael dificultou a vida de seu pai e do seu melhor amigo.

— Já está de saída? — o garoto arqueou as sobrancelhas.

— Pensei que era óbvio. — o xerife entrou rindo.

—Posso falar com você? — Parrish cortou aquela interação.

— Claro. — o menino deu de ombros e viu Rafael entrar na estação. — O que aconteceu? — o menino tinha as mãos nos bolsos, a noite estava fria.

— Você lembra quando eu disse que estava saindo com alguém? — Parrish tinha criado um tipo de intimidade que Stiles não imaginava ter com o policial.

— Sim, seu encontro misterioso. — Stiles riu e viu o semblante do loiro cair um pouco. — Oh! Eu sinto muito. — Parrish sorriu triste.

— Eu não sei o que fiz de errado, parece que trabalhar em muitos turnos é prejudicial para minha vida amorosa. — Stiles mordeu o lábio inferior evitando uma piada.- Devemos sair. — o garoto soltou.

— Como? — Parrish parecia surpreso.

— Sair e afogar as mágoas. Você é o único que vai estar bebendo, mas eu posso dirigir e te arrancar risadas. — o garoto ofereceu.

— Estou de plantão essa noite, essa maldita exibicionista está me tirando o sono. — Parrish lamentou.

— Amanhã, depois do meu turno, você vai estar de folga. — o loiro sorriu.

— Tudo bem então, até amanhã Stiles. — o garoto ficou surpreso com o abraço, Parrish sempre foi do tipo pegajoso, mas Stiles não estava acostumado com tanto afeto.

Quando Stiles cruzou a porta, Derek podia sentir um cheiro masculino, forte e enjoativo no garoto, sem contar com alguma animação que parecia refletir do adolescente, como um estado de espírito contagiante, a não ser pela carranca que o lobo fez.

— Boa noite cachorros. — as piadas já não incomodavam mais, todos sabiam que era o jeito de Stiles dizer que estava feliz por tê-los ali.

— Você fede. — Cora torceu o nariz.

— Obrigado. — Stiles revirou os olhos.

— Sério Stiles, você fede a homem. — Scott esfregou o nariz.

— Parem de me cheirar. — Stiles fechou a cara e tirou uma pasta da mochila. — Derek. — O lobo mais velho estava se sentindo tão mau humorado.

— O quê? — o tom fez Stiles franzir a testa.

— Tudo o que a polícia tem sobre Kate. — o garoto perdeu toda sua animação e deixou a pasta na bancada. — Vou dormir. — Stiles ignorou o roncar do próprio estômago ao ver Peter na cozinha.

— Realmente seu namoradinho te deixou cansado garoto. — Peter não podia perder a piada e Stiles subiu irritado.

Derek pegou a pasta, ele não sabia se agradecia ou brigava com o garoto por se arriscar, mas ele sabia que Stiles era parte do bando, que ele faria qualquer coisa para proteger aqueles que ama. Isso o fez pensar no que o menino já passou e como todos se comportaram mal por ele estar criando vínculos, uma vida fora do bando, isso fez Derek se sentir mal, de muitas maneiras.

— Onde você vai? — Cora perguntou enquanto o irmão montava uma bandeja.

— Vocês irritaram Stiles, mas ele ainda precisa comer. — Derek ainda estava enojado com o cheiro, mas ele não deveria, seu lobo não deveria lutar contra a felicidade do menino.

— Foi só uma brincadeira. — Scott resmungou voltando a jogar videogame com Cora.

Stiles não conseguia parar de se esfregar, ele não gostava de cheirar a outro cara, não quando isso incomodava sua família. Era estranho pensar na sensação de pertencimento que o invadia toda vez que um Derek relaxado o recebia no fim do dia, querendo saber do seu dia e o incentivando a enfrentar o que fosse difícil. Stiles não tinha percebido até desligar a água escaldante, quase insuportável para sua pele sensível, que ele precisava da aprovação de Derek, que ele precisava que o lobo o aceitasse, que a rejeição doía.

—Stiles? — Derek entrou no quarto do garoto e viu a porta do banheiro fechada.

— O que você quer? — Stiles queria ser duro, mas não conseguia, não vendo Derek na sua frente com uma bandeja com comida demais para uma pessoa e um olhar preocupado.

— O que você fez? — o lobo largou a bandeja na cama e se aproximou do adolescente seminu. — Stiles. — Derek pegou um dos braços do garoto e contornou os pequenos arranhões causados pela bucha, sem contar com a pele vermelha e irritada pelo banho exageradamente quente.

— Eu ainda estou fedendo? — Stiles perguntou com a voz embargada, ele não esperava que Derek o tocasse, que se preocupasse com ele.

— Meu Deus! Porra. — Derek puxou o garoto ainda molhado contra seu peito e alisou suas costas, o menino chiou. — Deixe-me ver. — o lobo o fez virar, suas costas estavam com alguns arranhões. — Por quê? — Derek precisava saber, acalmar seu lobo.

— Eu não quero ficar fedendo, não quero que você torça o nariz para mim. — Stiles se assustou com o fato de que só a opinião de Derek importava.

— Stiles. — Derek suspirou e puxou o menino contra seu peito novamente. — Eu não me importo como você cheira, eu não quero que você se machuque. — Derek engoliu o instinto de gritar e rosnar o quanto aquilo o machucava também. — Você não precisa de nada disso, tudo bem? Eu não estou torcendo o nariz para você. — Derek alisou com cuidado as costas do garoto.

— Eu sinto muito. — Stiles estava engolindo o choro, Derek podia cheirar sua angústia.

— Não sinta. Agora, por que, você não veste seu pijama e vem comer? Não quero que esfrie. — Stiles concordou se arrastando pelo quarto e pegando suas roupas.

O jantar foi silencioso, Stiles parecia brigar internamente com sua própria vergonha e estupidez, ao mesmo tempo, ele queria deitar nas coxas de Derek e se sentir confortado, querido e ouvir que ele não fez nada errado. Ele nem sabia o que tinha feito afinal.

— Peter é um idiota, mas cozinha como ninguém. — o garoto quebrou o silêncio limpando a boca.

— Ele sempre foi um bom cozinheiro, minha mãe adorava quando ele ia para cozinha. — Derek sorriu nostálgico.

— Obrigado, sabe? Por tudo. Você não tem nenhuma obrigação comigo e mesmo assim continua cuidando de mim. É bom, mas eu sinto que devo alguma coisa a você, que não é o que você gostaria de estar fazendo. — Derek sorriu, Stiles daria o mundo para ver aquele sorriso mais vezes.

— Eu nunca fiz nada contra minha vontade Stiles, se eu estou cuidando, me preocupando é porque eu quero. — Stiles corou. — Escute, você não tem que sentir como se me devesse. Eu não quero nada em troca, só que você não se machuque. — Derek observou o menino se encolher.

— Eu realmente estava fedendo ou era uma brincadeira? — a vergonha parecia envolver o menino.

— Você cheirava a outro homem, como se alguém tivesse se esfregando em você. — o garoto desviou o olhar. — Stiles, não há nada para se envergonhar, você não precisa manter distância das pessoas porque mora com lobisomens. — o garoto encarou Derek.

— Eu não tenho um namorado. — Derek riu, em parte o alívio que seu lobo sentiu foi o encorajador para aquela reação.

— Tudo bem se você tiver, não estou julgando. — mesmo que seu lobo desejasse rasgá-lo em pedaços para dizer que sim, ele se incomodava.

— Eu não penso em ficar com ninguém, eu acho que vocês sentiram o cheiro do Parrish. — Stiles abraçou os próprios joelhos. — Ele foi o único a me abraçar antes de eu vir para casa. — Derek engoliu em seco, algo naquele policial o desagradava.

— Você pode ter quantos abraços você quiser, dentro e fora do bando, não é porque somos lobisomens que estamos escolhendo com quem você se relaciona. — Stiles concordou, era bom sentir a aprovação de Derek, a única que importava.

— Obrigado. — Stiles relaxou.

— Venha cá. — Derek o puxou para um abraço. — Agora você cheira como eu. — ele brincou.

— Idiota. — Stiles riu e o abraçou mais apertado, tentando fazer com que o cheiro de Derek impregnasse em seu corpo.

— Escove os dentes e vá dormir, foi um longo dia. — Derek se afastou, Stiles queria contestar a perda de contato. — Stiles. — Derek o chamou enquanto pegava a bandeja para sair.

— Sim? — o garoto sentiu o coração perder uma batida.

— Obrigado pelos arquivos. — Derek decidiu que não valia a pena criar caso por isso. Stiles sorriu.

Aquela noite foi mais difícil, ele tinha acordado algumas vezes assustado, fazia tempo que os pesadelos não o acionavam, mas o dia foi estressante demais, agitado demais e sonhar com a morte de seu pai, era uma tortura lenta e dolorosa.

—Você está acordado? — Stiles murmurou contra a porta do quarto de Derek.

— Entre. — Derek bocejou enquanto o garoto se arrastava para dentro do quarto e fechava a porta atrás de si. — Pesadelos? — o lobo perguntou sentado na cama, os olhos apertados de sono, os cabelos desalinhados.

— Eu sinto falta do meu pai. — o garoto mordeu o canto da boca reprimindo o choro.

— Suba aqui. — Derek abriu espaço para ele na cama, Stiles não hesitou em se aninhar perto demais dele. — Não tem nada de errado em sentir saudade. — Derek fez círculos reconfortantes nas costas do mais novo.

— Eu preciso superar. — Stiles se virou para o lobo. — Eu quero superar. — os olhos caramelo piscaram para afastar as lágrimas, mas Derek podia sentir o cheiro de tristeza e dor.

— Eu estou aqui, tudo bem? — o garoto assentiu e hesitou em tocar o lobo por um momento.

— Eu posso te tocar? O contato físico... ele... sabe? — Derek sabia.

— Venha cá. — Stiles sentiu seu corpo quase em cima de Derek e suspirou aliviado, era bom se sentir acolhido. — Boa noite, Stiles. — Stiles sorriu e aspirou o perfume quente e confortável de Derek.

— Boa noite Derek. — não demorou muito pra caírem no sono.

Stiles perdeu a hora da escola e decidiu ir trabalhar mais cedo. Ele se sentia melhor agora, era engraçado como sendo humano algumas coisas lupinas funcionavam bem para ele. Hoje, ele enxergava Derek como seu alfa, ele sabia disso mesmo que o lobo não fosse mais um, ele confiava e se sentia em casa quando tinha o mais velho por perto, era como se estivessem ligados e ele gostava disso, muito.

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—Não é cedo para estar na estação? — Rafael perguntou ao ver o adolescente com um copo duplo de café.

— Não fui para a escola, perdi a hora. — Stiles deu de ombros e foi para sua mesa.

— Sei, seu computador vai ser examinado, então não o ligue. — Stiles franziu o cenho.

— Por quê? — Rafael sorriu triunfante.

— Tivemos uma invasão no sistema ontem, estão verificando, pois acham que foi daqui de dentro. — Stiles revirou os olhos.

— Vou dar uma volta então. — ele deu de ombros e saiu.

Stiles não estava preocupado, ele não fez um trabalho mal feito e boa parte do que conseguiu foi através do computador pessoal da escola, ele não era tão idiota a ponto de não saber o que estava fazendo, pelo contrário, mas ele tinha uma certa noção de como Rafael queria ferrá-lo e como seu dia estava caminhando para se tornar insuportável.

—Pronto? — Parrish estava à paisana, era estranho ver o policial vestindo outras cores que não o cáqui habitual do uniforme.

— Vamos. — Stiles subiu na moto do loiro e eles seguiram para o centro da cidade.

Jogar dardos e sinuca nunca foi tão divertido, tirou muito do estresse de Stiles e a companhia de Parrish era agradável. Algumas cervejas depois, ele não tinha mais tanta certeza de que gostaria de estar ali.

— Então, essa garota que te chutou, vocês estavam juntos há quanto tempo? — Stiles perguntou enquanto brincava com algumas batatas em seu prato.

— Não era uma garota, eu não sou muito inclinado a ficar com elas. — Parrish deu de ombros bebendo um pouco mais.

— Uh! Desculpe. — Stiles pediu envergonhado, ele nunca viu o policial dessa forma, nem imaginava que ele gostava apenas de homens, não depois de vê-lo flertar com Lydia uma porção de vezes.

— Ele disse que eu não sou bom de cama, que ele pode arrumar garotos mais novos e melhores. — Parrish tinha um tom magoado.

— Ele provavelmente fez isso para irritá-lo, você sabe. — Stiles deu de ombros e voltou a beber seu refrigerante.

— Você acha que eu sou atraente? — a pergunta atingiu o garoto em cheio.

— Eu nunca pensei sobre isso, mas você é bonito, muitos caras gostariam de ter o seu corpo. — não era uma grande coisa para Stiles, ele gostava de ser sincero.

— Você também gosta de caras, não é? — Parrish se inclinou em direção ao garoto.

— Eu acho que você bebeu demais. — Stiles tentou se afastar e o policial o puxou pelo pulso.

— Você é um garoto muito lindo Stiles. — a língua enrolada e o cheiro de álcool enjoou o adolescente.

— Você não quer fazer isso. — Stiles levantou.

— Hey! — Parrish gritou e Stiles respirou fundo vendo muita gente o encarando.

— Não faça escândalo, venha, vou levá-lo para casa. — Stiles pagou a garçonete e puxou o loiro.

— Você é muito bonito Stiles! — Parrish saiu gritando da lanchonete.

— Pare com isso! — Stiles grunhiu.

— Venha cá, eu sei que você gosta disso. — Parrish o jogou contra a parede e o encurralou.

— Parrish, você não quer me machucar. — Stiles tentou se soltar, mas o loiro o imobilizou e levou o nariz para a curva do seu pescoço.

— Você cheira tão bem. — Stiles sentiu os dentes do outro roçando em seu pescoço e a ereção empurrando sua coxa.

— Por favor, pense um pouco Parrish, você não quer fazer isso, você não quer me forçar. — Stiles engoliu o grito de dor quando o maior o mordeu com força, aquilo deixaria marca. — Me solta! — ele se debateu ao sentir uma das mãos pressionando sua bunda, enquanto a ereção friccionava contra seu membro flácido. — Porra! — Stiles choramingou ao sentir mais uma mordida. Tudo o que ele pensava era numa forma de sair dali.

— Tão gostoso. — Parrish ondulou contra seu quadril e ele grunhiu com mais uma mordida, quando os lábios do mais velho encostaram no seu e uma mordida arrancou um pouco de sangue e um grunhido de Stiles, houve uma pequena mudança de posição do loiro foi o suficiente para o adolescente aproveitar e desferiu uma joelhada contra sua virilha, o policial caiu no chão, Stiles só pensou em correr.

Derek chegou em casa de mais uma corrida noturna, ele sabia que todos tinham planos para a sexta-feira e que Stiles tinha marcado de sair com Parrish, ele só não queria pensar que o adolescente estava construindo uma vida fora do bando, se afastando gradualmente. O cheiro ocre de pânico e tristeza o atingiu e ele encontrou Stiles tremendo e chorando no lado de fora do loft.

—O que aconteceu? — Derek se agachou na frente do menino e o viu retrair-se ao toque. — Stiles, sou eu, Derek. — o garoto não o encarou, a respiração difícil e o cheiro de Parrish estavam impregnados. — Stiles. — Derek tentou se acalmar. — Stiles, olhe para mim. — ele não tentou tocar o garoto.

— Eu não queria. Eu juro que eu não provoquei, eu só tentei ajudar e... eu não sei, de repente... eu sinto muito. — o garoto encarou Derek, os lábios inchados e feridos.

— Parrish fez isso com você? — Derek pediu, o ódio oscilando com a vontade de aninhar o menino nos braços, Stiles apenas assentiu. — Filho da puta, desgraçado! — Derek rosnou, a semi transformação, o descontrole e então a visão de um Stiles encolhido e amedrontado o fez voltar ao normal.

— Eu sinto muito. — o menino repetiu baixinho, o choro, a vergonha, a dor física e emocional.

— Não foi sua culpa, eu sei que não. Deus! Você não tem o que se culpar, tudo bem? — Stiles o encarou, como se buscasse reprovação, mentiras. — Posso te tocar? — Derek pediu receoso. — Te levar para dentro? — o garoto hesitou.

— Eu não quero que ninguém saiba. — Stiles se encolheu mais ainda.

— Não tem ninguém em casa, ninguém vai saber. Somos só nós dois. — Stiles soltou o ar com dificuldade.

— Tudo bem. — Derek destrancou a porta e se voltou para o menino. — Eu posso andar. — o garoto levantou sozinho e se arrastou para o interior do loft.

— Para o meu quarto. — Derek o guiou. — Eu vou pegar um pouco d'água. — Stiles não contestou.

Stiles sabia que Parrish não tinha conseguido muito, mas era doloroso que alguém que ele confiava poderia estar o ferindo daquele jeito. Ele nunca imaginou que o policial a quem seu pai depositou tanta confiança iria tentar forçar qualquer coisa com ele, Stiles mal conseguia acreditar que em um minuto tudo estava bem e no outro ele estava tendo um pesadelo acordado.

—Aqui, vai te fazer bem. — Derek entregou ao menino uma caneca de chocolate quente.

— Obrigado. — a voz de Stiles tremia, como todo seu corpo.

Derek sentia a raiva crescer e construir algo insuportável dentro de si. Seu lobo estava ferido de forma inimaginável, algo dentro dele dizia que não era apenas o fato de Stiles fazer parte do bando, ou o fato de Parrish ter tentado forçar o garoto a qualquer coisa, o ódio e a dor, o jeito como seu lobo se retorcia e lutava para explodir em fúria e mágoa era mais profundo que isso, muito mais primitivo do que a proteção de um alfa, que ele nunca foi, por seu bando.

— O que ele fez? — Derek sentou ao lado de Stiles, tomando cuidado para não tocá-lo.

— Eu não sei se eu quero falar sobre isso. — Stiles não se sentia intimidado ou amedrontado como antes, ele só queria esquecer e tinha vergonha de se permitir passar por aquilo.

— Stiles, não foi culpa sua. — Derek tocou seu ante braço, Stiles se encolheu e o lobo pode ver as marcas de dentes começando a arroxear no pescoço do garoto. — Porra. — Derek sentiu seu estômago embrulhar e não conseguiu conter sua mão de tocar a ferida, Stiles choramingou.

— Derek, não. — o menino pediu sem se afastar realmente.

— Stiles, o que aquele maldito fez? — o tom de Derek era ferido, Stiles poderia quase dizer que o mais velho estava triste.

— Nós estávamos em um bar, jogamos sinuca e dardos, ele tinha acabado de terminar um relacionamento, eu só queria ajudar. — o tom dolorido de Stiles fez Derek engolir em seco. — Eu perguntei como ele estava levando o término com a namorada e ele disse que não era uma garota, não era uma parte importante, mas ele tinha bebido algumas cervejas e isso pareceu fazê-lo louco. — o garoto se encolheu, dando as costas para Derek.

— O que aconteceu depois disso? — o tom de Derek era mais duro do que ele desejava, seus músculos pareciam petrificados de raiva.

— Ele deu em cima de mim e eu me afastei, ele começou a falar muito alto, eu paguei e tentei levá-lo para casa, mas ele me jogou contra a parede, eu não queria, mas ele é maior e mais forte, doía. — Stiles voltou a tremer, Derek apertou os olhos e inspirou o cheiro nojento de Parrish que Stiles exalava.

— O que ele fez com você, Stiles? — Stiles se virou para o lobo, não conseguia encará-lo, mas parecia hesitante, necessitado.

— Ele me mordeu, suas mãos estavam por todos os lados e... ele estava tão duro, eu entrei em pânico, não conseguia gritar ou fazer qualquer coisa, ele... — o estômago de Stiles deu algumas voltas. — quando ele me beijou eu o chutei e corri, eu só parei quando cheguei, mas eu não conseguia parar de tremer e chorar, eu... — Derek puxou Stiles para o seu colo e o apertou.

— Shh... — o lobo o embalou.

— Não! — Stiles se afastou. — Não, por favor, eu não posso. O cheiro dele, o gosto dele, o toque... — Stiles fungou, o choro querendo sair mesmo contra sua vontade.

— Eu sei, posso sentir o cheiro dele em todos os lugares, mas ele não está aqui e eu não estou com nojo de você. Venha cá. — Derek exigiu, Stiles não se moveu.

— Eu quero tomar banho. — Stiles abraçou a si mesmo e Derek levantou.

— Pode usar meu banheiro, eu vou esperar na sala, tudo bem? — Derek esperou por uma resposta verbal.

— Você pode ficar? — Derek não esperava por isso.

— Sim. Quer que eu pegue suas roupas? — Stiles fez que não e Derek relaxou na cama.

Stiles sabia que não deveria, mas sentiu necessidade de esfregar seu corpo bem o suficiente para se sentir mais limpo que o habitual. A água quente o deixou com a pele vermelha e sensível, mas ele não estava machucado, nada além das marcas de dentes no pescoço e seus lábios feridos e inchados, existia alguma dor em seus pulsos levemente manchados pela pressão das mãos de Parrish e ele podia sentir suas costas doerem do impacto contra a parede, mas ele não se sentia mais sujo ou cheirando ao perfume doce e enjoativo do policial.

— Eu peguei o seu roupão. — Stiles saiu do banheiro abraçado ao tecido grosso e atoalhado.

— Pode pegar o que quiser. — Derek estava sem os tênis de corrida e sua camisa estava esticada na cadeira. — Eu vou tomar banho, estou fedendo da corrida. — Stiles riu, Derek gostou de conseguir fazê-lo rir mesmo em meio ao caos.

— Eu vou te esperar aqui. — Stiles manteve-se perto do armário.

— Ok. — Derek sorriu e entrou no banheiro.

Quando Derek voltou, Stiles estava cochilando na sua cama e vestindo um de seus moletons, ficava grande nele e ficava bastante visível algumas marcas em seu corpo, como um hematoma na base da coluna, os pulsos roxos e o pescoço mordido, sem contar com os lábios. Derek queria matar o vice-xerife Parrish, mas não o fez, preferiu caminhar até seu guarda-roupa e se vestir com um moletom parecido com o que Stiles pegou e então trancar seu quarto, desligar a luz e deitar ao lado do menino, os cobrindo e tentando dormir.

Stiles acordou suado e ofegante, ele demorou alguns segundos para se situar e perceber que estava dormindo ao lado de Derek, seu coração desacelerou aos poucos ao perceber que estava seguro, que ninguém poderia feri-lo, que não existiam Kanima, Darach, caçadores ou Parrish para machucá-lo, que Derek estava o encarando sonolento enquanto seu pânico se esvaía e ele finalmente voltava a deitar e aceitava o espaço que Derek ofereceu bem mais próximo, quase aninhado em cima do lobo.

— Pesadelo? — Derek o puxou para seus braços o tornando quente e seguro.

— Eu não consigo lembrar direito, mas a sensação é ruim. — Stiles inspirou o cheiro almiscarado e confortante do lobo.

— Você sempre pode falar comigo sobre isso, tudo bem? — Derek alisou lentamente a nuca de Stiles, o garoto tentou não se retrair, sabia que Derek era seguro.

— Eu estou cheirando a ele? — Derek considerou, podia sentir um odor tão fraco na ferida do pescoço de Stiles, ainda era incômodo, mas não era demais.

— Só aqui. — Stiles sentiu o toque fantasma de Derek nas feridas de mordida e se encolheu.

— Eu vou... — Derek não permitiu que o garoto saísse do seu abraço.

— Stiles. — o garoto o encarou receoso. — Você precisa descansar e eu estou aqui, Parrish não seria louco de machucá-lo comigo aqui, certo? Eu nunca permitiria. — Stiles sabia disso.

— Eu não quero cheirar a ele. — Derek sorriu e se ajeitou na cama, seu nariz resvalando na clavícula do garoto.

— Você não vai mais cheirar a ele, confie em mim. — Stiles confiava, era estranho, mas ele tinha uma confiança cega em Derek que ele não admitia até que precisou do lobo, como uma família.

— Eu faço. — ele murmurou e estremeceu ao sentir a língua morna de Derek tocar sua ferida. — O que você está fazendo, Derek? — ele pediu sentindo arrepios por todo o corpo, era uma mistura estranha de excitação e medo.

— Tirando o cheiro dele de você. — Stiles suspirou, era bom de um jeito esquisito. — Agora durma. — Derek sentiu o garoto relaxar e continuou.

Stiles não viu Parrish durante duas semanas. Derek o machucou, ele tinha certeza que sim, principalmente ao ver a mão ensanguentada e quase curada do lobo na manhã seguinte, a blusa manchada de sangue e um olhar explícito de que o que tinha acontecido não se repetiria jamais. Stiles queria negar que se sentiu bem, na verdade, ele desejava no fundo de si mesmo que seus princípios o ajudasse, que eles pudessem fazê-lo repreender Derek ou dizer que ele podia lidar com isso, mas ele não podia, no fundo estava grato por Derek o defender, cuidar dele como ele sabe que seu pai faria.

— Então você e Derek estão dormindo juntos. — Peter tinha uma das sobrancelhas arqueadas, como se quisesse insinuar alguma coisa.

— Não seja um imbecil. — Stiles retrucou.

— Você cheira a ele, como se pertencesse a ele, como se fossem um casal. — o humano não pensava nele como um par para Derek, mas gostava de se sentir próximo do lobo, cheirar como ele, pertencer. — Você está feliz com isso, inacreditável. — Peter parecia fascinado.

— Derek e eu somos amigos, não seja idiota. — o garoto fez uma carranca.

— Mentir para si mesmo não vai ajudar, criança. — Peter saiu deixando Stiles com aquela questão na cabeça..

Derek tinha se acostumado a dormir com Stiles, era confortável ter o garoto o fazendo de travesseiro, roncando, babando e roubando seu edredom. Ele gostava daquilo, mesmo que para Cora ele estivesse se enganando repetindo que era só o seu lobo gostando da sensação e do cheiro de família. Ninguém entendia por quê Stiles estava tão próximo ao lobo, ninguém sabia sobre Parrish ou os pesadelos, ninguém conseguia enxergar algo natural, Peter então, gostava de tirar sarro e dizer que Derek estava perdendo alguma coisa, que algo faltava para encaixar e compreender como Stiles e ele ficaram tão próximos e confortáveis com o contato físico.

— Stiles. — Parrish o abordou na estação. Seu braço engessado e os pontos no supercílio dava a confirmação que Derek se recusou.

— O que você quer? — o garoto foi ríspido o suficiente.

— Comunicar que você está demitido. — o policial entregou um envelope pardo para o garoto. — Leve suas coisas até o final do dia e acerte suas contas no RH.

— Qual o motivo? — Stiles estava indignado.

— Seu namorado me agrediu e o delegado pediu que eu não prestasse queixa em respeito ao John, mas eu não vou conviver com uma cadela, não vou trabalhar com você aqui, Stilinski. — Stiles engoliu em seco, a raiva crescendo dentro de si.

— Você me assediou! Eu ainda tenho a porra das marcas dos seus dentes no meu pescoço! — ele gritou, Parrish parecia se divertir.

— Quem pode garantir que são minhas? Eu tenho uma porção de protocolos médicos que enumeram minhas lesões, você tem alguns chupões que seu namoradinho pode ter feito para marcar o território. Não é como se ele pudesse confiar em uma cadela como você. — todos estavam assistindo àquela cena. — Não pense que eu esqueci todas as vezes que você implorou para me chupar. — a bile subiu a garganta.

— Parrish, basta! — Rafael McCall o repreendeu. — Stiles. — o garoto não queria ouvir, apenas saiu correndo da delegacia.

Stiles não voltou para casa naquela noite, nem no dia seguinte e Derek respeitou seu espaço. O menino não queria preocupar ninguém, mas precisava ficar sozinho, precisava digerir que ele tinha perdido o emprego por causa de um estúpido e ele não queria ver Derek enfurecido de novo.

Derek o tinha protegido e Stiles não se arrependeria de sentir o alívio que ele sentiu primeiro ao ver o lobo chegar manchado com o sangue de Parrish, muito menos hoje quando viu o policial todo quebrado. Ele mereceu.

Parrish gritou para todos naquela delegacia que Derek era seu namorado e ele não conseguiu desmentir ou se importar. Agora, ele só conseguia pensar naquelas palavras e sentir seu coração doer com a ideia de passar mais uma noite sozinho, em claro e sem o cheiro ou o calor de Derek ao seu lado. O mesmo Derek que o abrigou quando ele perdeu o pai, o mesmo Derek que o ajudou a se recuperar do Nogitsune, o mesmo Derek que o ajudou a superar o que ele teve com Malia.

No fundo, Stiles não queria admitir que Peter estava certo, ele estava mentindo para si mesmo, empurrando seus sentimentos para baixo, deixando a sensação de família, a maquiagem esconder toda a química que ele sentia por Derek. Stiles estava perdidamente envolvido com o lobo e não sabia o que fazer.

— Você está bem? — Cora perguntou ao ver Stiles entrar no loft depois de semanas.

— Tanto faz. — ele deu de ombros e subiu para o próprio quarto.

— Stiles. — Derek o chamou, ele ignorou e o lobo o seguiu. — Stiles. — Derek o puxou pelo cotovelo. — Out! — o mais velho fez uma careta ao ver o olho roxo de Stiles. — O que foi isso? — Derek se inclinou para tocar e Stiles retraiu o toque. — Ele te tocou de novo? — o tom irritado estava lá de novo. — Stiles, eu preciso saber quem fez isso!? — Derek aumentou o aperto no cotovelo do garoto, era instintivo, seu lobo gritava que violaram mais uma vez algo que o pertencia.

— Isso dói. — Stiles murmurou sentindo Derek o soltar imediatamente. — Isso foi no treino de lacrosse, eu briguei com um dos garotos depois de ouvir piadinhas sobre como ser uma boa cadela para o vice-xerife. — Derek franziu o cenho.

— Eu sinto muito. — Stiles riu amargo, ele queria ter coragem de jogar em cima do lobo tudo o que ele sentia, mas não tinha tanta força assim.

— Eu perdi meu emprego e se eu não arrumar outra coisa a casa vai a leilão. — Derek não entendia por quê Stiles tinha se afastado tanto, mas ele lutou para respeitar, tomando conta para que o garoto estivesse seguro e bem.

— Você não vai perder a casa. — Stiles arqueou as sobrancelhas. — Você não precisa se preocupar. — Derek se aproximou novamente e tocou o menino com delicadeza dessa vez. — Vamos cuidar desse olho primeiro. — Stiles podia sentir a respiração de Derek em seu rosto, era apenas demais, a ponto dele esquecer de tudo e se inclinar, até ter seus lábios sobre os do lobo.

Não era realmente um beijo e por mais que Stiles quisesse mais daquilo, o toque dos lábios do lobo era surpreso e ele mesmo não entendia o que estava fazendo, era fácil se deixar levar pelo cheiro e o calor de Derek, mas ele não deveria estar fazendo isso, o mais velho nunca deu nenhum tipo de sinal que gostava dele ou de qualquer outro cara, nem de ninguém na verdade, Derek era o tipo de homem que não demonstrava interesse nenhum por ninguém, não depois de tanta decepção e foi por medo de ser mais uma e ter estragado tudo que Stiles se afastou.

— Eu não sei por quê fiz isso. — ele não encarou o maior nos olhos. — Eu deveria ir. — Stiles tentou sair do quarto.

Derek ainda estava atordoado com a atitude do mais novo, mas a sensação de pertencimento, de completude que o envolvia, o cheiro de Stiles sempre foi algo muito parecido com lar, ele quase se perdia no odor quente, mentolado do menino. Ele amava o calor, o toque, toda a relação que eles construíram, mas aquilo, aquele beijo, ele não tinha certeza de como reagir. Pelo menos ele pensou que não sabia, mas seu lobo estava secretamente uivando e grunhindo, irradiando todo prazer de sentir os lábios macios do menino nos seus, até que Stiles estava se perdendo pelo corredor, tentando fugir e exalando vergonha e mágoa.

— Por favor. — Stiles implorou quando sentiu o lobo agarrá-lo pelos ombros. Derek apenas encarou os olhos do menino e o puxou para o que deveria ser um beijo de verdade.

Algo explodiu no peito do mais novo, os músculos cedendo, o corpo relaxando e os lábios se separando lentamente, abrindo caminho para a língua de Derek explorar, aquecer e brincar com cada canto de sua boca. Stiles tinha que admitir que a sensação do restolho de Derek pinicava, ele queria rir às vezes quando esfregava em um ponto sensível em seu queixo e poderia facilmente gemer quando o sentia em torno de seus lábios. Stiles estava perdido naquele beijo.

Derek soltou um gemido involuntário ao sentir os dedos do mais novo escorregarem por suas costas e pousarem nos quadris, agarrado ao cós do jeans apertado, unindo seus corpos e causando mais atrito e calor. Seu lobo estava vibrando e ele podia se perder por muitas horas na sensação de beijar Stiles, provar dele. Naquele momento Derek percebeu que era isso o que vinha fazendo falta nos últimos meses, que só isso iria acalmá-lo, que o garoto agora era sua âncora.

— Oh! Droga! — os dois se separaram abruptamente ao ouvir a voz retorcida de espanto, Derek não conseguiu evitar o rosnado de insatisfação que ele lançou para Scott.

— Hey, calminha aí! — Stiles segurou seu quadril com mais força e Derek estranhamente acalmou.

— Droga, cara! Vocês poderiam avisar que estavam fazendo essas coisas juntos. — Stiles revirou os olhos.

— Scott, o que você quer? — Derek manteve a posição próxima a Stiles, sua testa pousada no ombro do garoto.

— Eu ia chamá-lo para jogar, mas acho melhor ir embora. — Stiles apenas assentiu e o alfa se foi.

Era para o clima ficar estranho e Stiles começava a sentir esse desconforto, mas Derek o encarou e lambeu o contorno macio de seus lábios o fazendo suspirar e engolir um gemido de satisfação.

— Nós precisamos falar sobre isso. — Stiles comentou sentindo as mãos de Derek agarrando sua cintura.

— Depois. — Derek grunhiu e voltou a beijá-lo.

Era quente ter Derek o imprensando contra a parede, beijando sua boca, chupando sua língua, mordiscando e puxando seu lábio inferior, o fazendo duro, difícil, necessitado, inchado, dolorido, constrangido por cada som que escapava sem autorização da garganta, mas Stiles não deixou de perceber como o lobo respeitava uma linha imaginária, como ele nunca ia longe demais, até suas mãos não se moveram um milímetro fora de sua cintura, isso o aquecia de outras formas, o confortava emocionalmente, o fazia querer acarinhar e cuidar de Derek da mesma forma, eram aquelas e muitas outras demonstração de afeto, apreciação e respeito que fizeram Stiles tão apaixonado e esmagado sentimentalmente por Derek Hale.

— Ok, eu acho que eu preciso de ar. — Derek o deixou com algum espaço para tomar fôlego, os olhos do beta ardiam em um azul perigoso. — Você está bem? — Stiles hesitou, ele não queria ouvir que tudo era um erro ou um impulso, mas ele estava longe de evitar aquela conversa, ele só queria saber se não era o único a sentir tudo aquilo.

— Isso foi repentino. — Derek mordeu o lábio inferior, nunca Stiles o tinha visto inseguro, passando fragilidade antes.

— Você quer que eu vá embora? — doía pensar que a resposta poderia ser sim, mas Stiles queria o bem do outro, faria qualquer coisa para conseguir o bem de Derek.

— Não! — o lobo se apressou em dizer. — Só estou me perguntando como demorei tanto tempo para enxergar isso. — Derek se sentou na cama do menino e enterrou o rosto nas mãos.

— Você está me deixando confuso. — Stiles sentou ao seu lado.

— Você não sente isso? — Derek pediu com a expressão torcida.

— Como se tudo fosse muito errado? Como se eu não pudesse gostar de alguém com quem eu tive as piores brigas do mundo? Como se fosse errado gostar de você tanto que até dói? — Stiles sempre foi verborrágico, Derek sempre apreciou e odiou proporcionalmente isso no garoto.

— Como se estivesse tudo melhor agora que eu te beijei, agora que eu posso admitir que gosto de você, que é tudo real. — Derek encarou o menino com cautela.

— Há quanto tempo você sabe que eu sou sua âncora? — Stiles começou a encaixar as peças lentamente.

— Desde o segundo em que você cruzou a porta do loft tão ferido e magoado com a perda do seu pai que meu peito parecia prestes a explodir com a sua dor. — Derek conseguia enxergar tudo com clareza agora.

— Você quase matou o Parrish, por minha causa. — Stiles parecia confuso, Derek mal conseguia distinguir suas emoções.

— Ele te machucou. — Derek lamentou. — Ele tentou tomar de você sua escolha, ele tentou fazer de você uma marionete. — os dedos do lobo resvalaram contra o contorno arroxeado ao redor do olho de Stiles, a tentação de sugar toda a dor.

— Ele tentou me marcar, roubar seu companheiro. É algo muito mais primitivo o que você sente, eu sei que você como homem e em plena racionalidade não faria de mim uma propriedade, pelo menos, eu espero que não. Seu lobo tomou o controle quando você me viu assustado, ferido, cheirando a ele, por isso, você me marcou, me lambeu, me acalentou... — Derek sentia um tom quase acusatório.

— Eu te amo. — as palavras escaparam.

— Você não quis dizer isso. — Stiles não esperava que Derek fosse quem se declararia.

— Stiles. — Derek resmungou, ele não queria se sentir rejeitado. — Escute, você não tem que me amar de volta, só não duvide, tudo bem? — Stiles riu.

— Eu faço. — Derek franziu o cenho.

— Como assim? — o lobo de Derek não queria ter dúvidas.

— Eu quis dizer que eu faço isso, te amar. Eu não sei em que momento eu me apaixonei Derek, mas o amor, ele foi construído aos poucos. Você esteve lá por mim o tanto de vezes que eu estive por você. Nós construímos isso, mesmo que eu ainda não saiba o que é, eu também faço isso, eu também quero você feliz, eu também te amo. — Derek engoliu em seco.

— E se isso não funcionar? Eu nem sei o que é isso. Você é só um garoto, não deve se prender a um cara como eu. O que eu tenho para oferecer a você Stiles? — o adolescente revirou os olhos e engatinhou até o lobo, até fazê-lo deitado na cama.

— Cale a boca Derek. Você foi o único que esteve lá quando eu mais precisei, do jeito que eu precisei, sem meias verdades, sem segundas intenções. Você nem sabia o que isso era, até que eu te beijei! Escute, eu quero tentar, se você quiser, eu quero fazer isso funcionar, me faz bem. — Stiles se inclinou sobre o lobo e o beijou. — Eu sou o adolescente, eu tenho o direito de pirar. — o garoto sorriu divertido enquanto guiou as mãos do mais velho até suas coxas. — Adolescentes gostam de ser tocados e você é um lobo, contato físico é uma coisa importante. — Derek riu e apertou as mãos nas coxas do garoto.

— Não seja ridículo Stilinski. — Stiles sentiu o lábio inferior ser puxado e ronronou.

As coisas estavam funcionando melhor agora. Todos pareciam confortáveis com o relacionamento do lobo com o adolescente, Stiles parecia mais feliz, mesmo que as férias e o desemprego fossem preocupações constantes.

— Isso é para você. — Cora entregou um envelope a Stiles pela manhã, era da prefeitura.

— Derek! — o garoto foi até o quarto do lobo. — Onde está Derek? — Stiles estava confuso, o lobo parecia não ter dormido em casa.

— Viajou, Peter e ele foram atrás de Kate, pista quente que ela esteve na cidade vizinha ontem, — o estômago de Stiles revirou.

— Derek pagou a casa, não está mais hipotecada. — ele murmurou triste. — Ele fez isso para o caso de não voltar. — Cora tenta consolar o menino.

— Ele é um lobisomem forte, ela não vai matá-lo. — a ideia enjoou Stiles.

— Eu volto mais tarde. — o garoto rompeu pelo loft com uma ideia louca na cabeça.

Parrish estava de plantão quando Stiles entrou na delegacia procurando por Rafael McCall. O detetive acha bastante estranho a presença do garoto depois do escândalo que o vice-xerife fez, mas o recebeu e se propôs a ajudar.

— Eu não sei o que isso vai custar, mas não importa, estou grato. — Stiles apertou a mão do mais velho.

— Cortesia pelo seu pai. — Stiles sabia que poderia não ser só isso, mas aceitou.

Derek estava coberto de sangue e Peter tinha um ferimento a bala de prata embebida de wolfsbane, seu tio poderia morrer se não expelisse e tratasse logo, mas Kate parecia divertir-se ao lutar incansavelmente contra Derek, o beta já estava em seu limite.

— O que você está fazendo aqui? — Peter rosnou de dor quando Stiles o puxou para fora do galpão.

— Salvando a bunda peluda de vocês. — Faz dois dias que Stiles estava em uma busca incansável.

— Você não tem um pingo de autopreservação. — Peter tentou controlar suas lamentações.

— Vamos logo, eu não vou deixar Derek para cuidar de você. — Stiles retrucou arrastando Peter com mais pressa.

— Onde você está me levando? — a voz de Peter estava cansada, ele não tinha muito para assimilar.

— Lugar seguro, é tudo que precisa saber. — Stiles viu o loiro apagar. — Traga Derek vivo ou eu mesmo vou rasgar a sua e a garganta de Kate. — Chris riu e entrou no galpão.

— Ele vai salvá-lo, não se preocupe. — Isaac tranquilizou Stiles e o ajudou com Peter.

— Eu posso me virar, seja útil lá dentro. — o menino incentivou o beta a se juntar na batalha.

— Não faça nenhuma loucura. — Isaac advertiu ao pular da caminhonete e entrar no galpão.

Peter ficaria bem, Stiles foi sagaz o suficiente para mantê-lo vivo, mesmo sem saber se era o destino que o Hale mais velho merecia. Derek saiu carregado do galpão, beirava a inconsciência e mesmo sem ter a mínima noção dos danos, Stiles sentia sua dor.

— Hey, você vai ficar bem. — o adolescente alisou o rosto ensanguentado do mais velho enquanto o ajeitava na parte de trás da caminhonete. — Vamos para casa. — Derek se permitiu apagar.

Derek acordou em sua cama, o cheiro de Stiles estava por toda a parte e ele podia sentir a respiração do garoto contra suas costas. Seus olhos abriram lentamente e ele pode ver o menino agarrado às suas costas e cochilando, era uma das melhores sensações do mundo, se ele não tivesse como última lembrança, Kate o rasgando com suas garras.

— Você acordou. — Stiles se espreguiçou e bocejou, Derek o imitou por empatia.

— Como eu vim parar aqui? — sua voz estava grossa e estranha pelo desuso.

— Eu fui atrás de você, pedi reforços, usei qualquer conhecimento que eu tinha e todos os meus neurônios, então Chris e Isaac me ajudaram e nós obtivemos você e Peter muito feridos, mas vivos. Você nunca mais pode fazer isso comigo, nunca mais ouse se despedir de mim do jeito que fez. — Stiles tinha um tom magoado, seu cheiro de pânico invadiu o lobo. — Dói. — doía em Derek também.

— Eu sinto muito, quis mantê-lo seguro e estraguei tudo. — Derek se virou para o menino que voltou a deitar.

— Não seja estúpido, você conseguiu, Kate se foi. — Derek não sabia se gostava mais da notícia ou do carinho involuntário em seu pescoço.

— Kate, não importa. — o lobo puxou o menino para perto e o beijou.

Nunca Stiles se veria com Derek, não se ele fosse levar em conta toda a vida que eles tiveram nos últimos anos, não se ele levasse em conta que desde que tinha quinze anos Derek agia como um pé no saco e parecia ter predileção por machucá-lo fisicamente e depois o destino conspirava e os colocava para salvar a bunda do outro de algum ser sobrenatural, até mesmo em situações comuns.

— Hey, calminha aí. — Stiles o parou sentindo as mãos do lobo invadirem a calça do seu pijama. — Cora está em casa, ela e Scott estão jogando videogame na sala. — Derek bufou.

— Eles deveriam ir dar uma volta, no entanto, eu não quero te pressionar. — Stiles gargalhou e voltou a beijar seu namorado.

— Acredite, não me faltou vontade de abusar de você durante seu sono de três dias. — o garoto correu os lábios pela barba fofa de Derek, até chegar a pele sensível do pescoço e beliscar com os dentes.

— Foda-se. — Derek agarrou a bunda de Stiles e o puxou para cima de si.

— Sempre tão delicado. — o garoto brincou ondulando os quadris sobre o mais velho.

— Pelos deuses, Stiles! — Derek grunhiu ao sentir sua ereção se formar sob o remexer de quadris do garoto.

— Você sabe que eu nunca fiz nada disso, certo? — o adolescente puxou a camisa de Derek o despindo.

— Está tudo bem, vamos com calma, eu não quero te machucar ou pressionar. — Stiles sorriu e voltou a atacar a boca do namorado.

Quando nenhuma roupa sobrara no corpo dos dois, Derek se colocou por cima do garoto e fez uma trilha morna com a língua do pescoço ao pau de Stiles, o garoto gemia e ronronava, era difícil se controlar assim, mas Derek estava absorto pelo cheiro, a entrega e as reações do menino.

— Derek. — Stiles puxou o cabelo do mais velho ao sentir sua boca envolver seu membro e torná-lo molhado de saliva.

— Algum problema? — Derek estava atento às reações do menino, não tinha a menor possibilidade dele não estar gostando do que o lobo fazia.

— Isso é ótimo, mas eu não quero gozar e eu vou, se continuar me chupando – Derek riu e voltou ao topo da cama e o beijou.

— Como você quer fazer isso? — o maior perguntou esfregando seu membro no de Stiles.

— Você já fez isso antes? — Derek franziu o cenho. — Já esteve com outro homem, assim? — Stiles corou.

— Sim. — o menino fez beicinho.

— Isso é injusto. — ele reclamou.

— Estamos conversando sobre meu passado sexual agora? — Derek debochou.

— Eu só não queria ser o único inexperiente aqui, tudo bem? — o tom ofendido não enganava Derek, Stiles estava se divertindo e tentando maquiar o nervoso.

— Eu acho que eu posso ter um pouco mais de autocontrole, então seria uma boa ideia você me mostrar o que sua boca consegue fazer. — Stiles riu e fez Derek rolar na cama, ficando por cima.

— Minha primeira vez não deveria ser divertida, ok? Isso deveria ser constrangedor e doloroso, não divertido e descontraído. Eu nem consigo sentir medo! — o garoto comentou se arrastando para a virilha de Derek e esfregando seu nariz ali.

— Porra! Eu tenho certeza que você está me provocando de propósito.

— Eu pensei que um pouco de instinto não faria mal. — Derek perdeu o rumo ao sentir os lábios do garoto em suas bolas.

Derek deu trabalho, mas Stiles estava decidido a fazê-lo vir com um boquete e depois de alguns minutos, longos minutos, o suficiente para sua boca ficar dolorida, o lobo deu os primeiros sinais de orgasmo e o menino abandonou seu membro, deixando os jatos desconexos de porra atingirem seu rosto e darem a Derek uma das visões mais eróticas que ele podia ter na vida.

— Deus Stiles! — o lobo arfou sem fôlego, afetado pela imagem de um Stiles com o rosto coberto de sêmen e os efeitos de seu próprio orgasmo.

Stiles sentiu o lobo o prender debaixo de si e lamber cada vestígio de sêmen em seu rosto, era sexy, o garoto teve que admitir, mas ele precisava de mais, ele queria muito mais.

— Eu quero você Derek, eu quero te foder. — o mais velho gemeu. — Eu quero ver você se preparar para mim, fazer-se aberto e sedento por mim. — Stiles mordeu o ombro do lobo que rosnou.

— Você será minha ruína Stiles. — Derek se afastou.

Lubrificante e camisinha estavam espalhados na cama, Derek tinha dois dedos enterrados dentro de si e gemia pelo contato com a própria próstata, ele ainda se sentia sensível pelo primeiro orgasmo, mas a ansiedade de ter Stiles dentro de si o fazia desleixado e apressado com a própria preparação.

— Eu estou pronto. — Derek mordeu o lábio inferior enquanto Stiles se tocava lentamente e então desembalar um preservativo e vestia. — A gente não precisa realmente disso. — Derek fez beicinho.

— Você quer que eu te foda sem camisinha?

— Eu quero sentir você, não um pedaço de plástico.

— Isso não é muito educativo, ok? — Stiles riu e Derek revirou os olhos.

— Eu sou um lobisomem, não existem doenças sexualmente transmissíveis para mim.

— Tudo bem senhor lobisomem, sem camisinha então. — Stiles continuava divertido. — Eu quero saber se isso for ruim, ok? — Derek respirou fundo antes de sentir a invasão.

Stiles era cuidadoso, mas Derek não podia dizer que não sentia nenhuma dor, ele sentia muita dor por sinal, algo sobre ele ter se preparado com desleixo e não ter levado em consideração o quanto Stiles podia ser grande, fazia um tempo que Derek não sentia nada assim.

Os gemidos de Stiles e Derek encontraram um ritmo, assim como os movimentos quebrados em busca de um orgasmo. Derek sentia o membro inchar e vazar quando sua próstata era acertada e implorava por estocadas mais rápidas e intensas, Stiles estava ofegante e próximo demais do próprio orgasmo.

— Eu não vou durar muito. — o tom culposo fez Derek lamentar.

— Quero sentir você gozar, dentro de mim. — foi o suficiente para o garoto se desmanchar.

— Porra! — ele amaldiçoou e vibrou com o orgasmo.

Derek ainda estava duro quando Stiles saiu de dentro dele, o corpo do garoto tremia, o lobo o encheu de beijos.

— Você não gozou. — Stiles murmurou sonolento, êxtase o definia.

— Eu não preciso de um segundo orgasmo, não pense nisso. — Derek tocou seus cabelos.

— Você não quer me foder? — o rosto corado, os olhos escurecidos pelo tesão e os lábios vermelhos e inchados eram um convite e tanto.

— Por que você tem que ser um provocador? — Stiles riu cansado.

— Me foda de uma vez, eu quero sentir isso, eu quero você me preenchendo, me fazendo gritar e vir mesmo tão sensível.

— Porra. — Derek mordeu sua clavícula de leve e molhou os dedos com lubrificante. — Não me deixe machucá-lo, tudo bem? — Stiles assentiu.

— Eu confio em você.

— Você já se tocou assim? — Derek pediu, conversa suja parecia funcionar com o garoto.

— Sim, faz tanto tempo e é tão bom. — Stiles gemeu sentindo os dedos de Derek o provocando.

— Você quer tanto o meu pau, não é? — Stiles gemeu.

— Eu quero isso, muito, agora. — Derek riu e mordiscou o ombro do mais novo.

— Seja paciente, eu não quero que você sinta nenhuma dor. — Stiles gemeu mais difícil quando o terceiro dedo o invadiu.

Derek não teve pressa, mesmo quando Stiles pediu por mais, implorou e usou toda sua imaginação suja para provocá-lo e levá-lo ao inferno. Stiles não podia dizer que era indolor, mas Derek fez um ótimo trabalho em mantê-lo preparado para a invasão. O desconforto durou algumas estocadas, mas ele estava tão quente e pronto para aquilo que só conseguiu implorar por mais, pedir, gemer e se remexer de encontro ao membro do namorado. Naquele momento, ambos estavam em busca do orgasmo, ambos queriam mais, melhor, mais difícil, mais intenso, mais rápido. Derek estava perto e precisou apenas de alguns golpes para levar Stiles ao orgasmo junto consigo. Ambos estavam exaustos e enroscados, sujos e satisfeitos, felizes.

— Eu quero que você venha morar comigo na minha casa. — Stiles comentou pela manhã, depois de um banho, sexo no chuveiro e um café da manhã.

— Você quer voltar para lá? — Derek pareceu hesitante.

— Eu quero reorganizar aquela casa para ser nossa, você comprou para mim, eu quero dividi-la com você. — Stiles esperava que o lobo pelo menos considerasse a proposta.

— Parece bom para mim. — Derek o puxou para perto. — E quando você for para a faculdade? — Stiles depositou um beijo no peito de Derek e se aninhou, eles estavam cansados pela maratona sexual.

— Eu vou cursar a universidade local e Rafael me prometeu um emprego na delegacia para quando eu começar a cursar. — Derek o abraçou.

— Eu preciso arrumar alguma coisa para fazer também. — Stiles traçou círculos no abdômen do lobo.

— Desde que te faça feliz. — o menino deu de ombros.

— Você me faz feliz. — Derek se sentiu clichê, mas era o tipo de coisa que combinava com eles, com essa nova vida.

— Eu te amo. — Stiles mordeu o braço do lobo.

— Eu também o amo. — Derek virou o menino e o atacou com cócegas.

Notas finais
One revisada depois de alguns anos. Teen Wolf e seus personagens não me pertencem. Sempre que quiser, deixe comentários. Me sina no Instagram @cadaverdafantasia.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!