Daylight
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ele estava quase certo de que a enfermeira de cabelos dourados era uma ilusão.
Só podia ser, afinal, da última vez que ele estivera cem por cento consciente haviam lhe dopado com tanta morfina que seria suficiente para que voasse para outra dimensão; não sabia por quanto tempo havia dormido, mas não conseguia nem mexer os braços, e só podia continuar sobre o efeito de drogas. Além disso, a enfermeira que encarava bem no fundo de seus olhos era realmente bonita, do tipo bonita-como-uma-princesa, um tipo de aparência quase inacreditável, aquele tipo de beleza que, em algum ponto de sua vida, um homem parava de procurar.
Percy sorriu ao pensar na possibilidade que ela fosse beijá-lo; afinal, ilusões de soldados feridos como ele sempre envolviam enfermeiras atraentes e sexo. Ele quase podia sentir o gosto dos lábios dela: teriam o surreal gosto de mel, não, de algodão doce... Oh Deus, ela estava tão perto, e...
- Você baba enquanto dorme.
A voz firme, e quase carregada de descaso da enfermeira puxou Percy para fora de seus pensamentos: não sabia se se sentia feliz, pela enfermeira loira ser real, e não um fruto de sua imaginação, ou se sentia decepcionado por ela ser real e ter notado que ele babava enquanto dormia. Do jeito que as coisas iam andando, ele não ia beijá-la nem mesmo em um sonho.
- Está se sentindo bem hoje? — Ela perguntou, e, de repente, Percy sentiu vontade de nunca mais falar nada. De qualquer forma, foi inundado de desconforto quando sua visão se acostumou com os seus arredores: se encontrava na grande tenda marrom que usavam como um hospital improvisado. Era apenas a segunda vez que estivera ali (o que, para um soldado que já estava em serviço por dois anos, era um milagre) e já o detestava. O calor beirava o insuportável, e gotas de suor já espirravam de sua testa. Queria livrar-se da manta que o cobria até os joelhos, mas ainda não estava pronto para se mexer.
- Sim. É. Acho que sim... — Percy murmurou, e a enfermeira moveu-se para a sua direita para anotar algo em uma prancheta improvisada. — Faz... Faz quantos dias que estou aqui? — Perguntou.
- Três dias. — A enfermeira de olhos cinza deu um peteleco na prateleira. — O doutor responsável removeu a bala do seu ombro, e o tecido já está cicatrizando. E babou enquanto dormia durante essas setenta e duas horas. Traduzindo, para um soldado em boa forma como você, que precisamos desocupar sua cama para alguém que precise mais dela, como você provavelmente já sabe. — A loira deu de ombros, e o cérebro de Percy parecia fritar. Enfermeiras bonitas eram sempre tão simpáticas (ao menos, era o que diziam) e quando ele finalmente tem a chance de conhecer uma, ela tem a voz carregada de sarcasmo e de impaciência. Realmente, não era um homem de sorte.
- Certo, certo. — Tossiu, tentando parecer magoado, mas ela não se importou. Limitou-se então a fechar os olhos, e se permitiu a viajar para milhares de quilômetros dali. Quando as coisas ficavam difíceis, ou, como naquela situação, levemente irritantes, Percy procurava-se ser um homem paciente e lembrar-se do motivo pelo qual estava ali, naquele hospital improvisado, nos arredores da cidade de Dohuk, na província de Dahuk, ao noroeste do Iraque.
Tinha se juntado ao Exército Americano uma semana depois que completou dezoito anos. A decisão já havia sido feita desde que era um moleque magrelo de sete anos, para o desgosto da mãe. Sally era mãe viúva, e havia perdido o marido e o pai de Percy, Poseidon, no início da mesma guerra que ele participava agora: em 2003, quando Percy tinha apenas 12 anos, Poseidon morreu com um tiro de bala no peito cinco meses após o início do conflito no Iraque, o que fez a vontade do garoto de ser um honrado soldado dos Estados Unidos da América ainda maior. Começou seu treinamento no mesmo ano que completara seus dezoito, em 2009, e devido à falta de soldados para patrulhar o noroeste do Iraque, em 2010 já foi posto em campo de batalha, onde permanecera até que foi ferido pela segunda vez, em 2011. Um tiro de raspão no ombro durante um ocasional tiroteio o levara onde estava agora, na tenda situada perto de um dos grandes riachos de Dohuk, ainda que no meio do deserto.
Agora, perguntava-se sobre o seu pelotão. Onde estaria o Tenente Charles Beckendorf? E seus amigos soldados, como Grover, Nico e Tyson? Se realmente fazia três dias que estava ali, sabia que os fiéis colegas já teriam procurado por ele.
- Ei, moça. — Chamou a enfermeira que se ocupava dobrando tiras de gaze ao meio. Fez de propósito, para irritá-la da mesma maneira que ela havia o irritado, o que pareceu funcionar, e virou-se para fuzilá-lo com o olhar. Se é que era possível, aparentemente nervosa daquela maneira, ela ficava ainda mais surrealmente bonita.
- Meu nome é Annabeth, está bem? Annabeth Chase. — Fez que sim e aproximou-se dele.
- Está bem, hm, moça. — Percy provocou, um sorriso maligno brotando em seus lábios, mas que não deixou aparecer. Gostava de tirar-lhe a paciência, mas não queria deixá-la assim tão brava, já que ei, ele ainda tinha esperanças de que um dia pudesse beijá-la (quase impossível, mas um cara pode sonhar). — Gostaria de saber onde está meu batalhão. Divisão 21, de Charles Beckendorf.
- Foram eles que trouxeram você aqui, mas segundo Tenente Beckendorf, tiveram que retornar à base. Aparentemente, estão acontecendo ataques contínuos naquela área, mais próxima da cidade. — Annabeth respondeu, voltando a dobrar as gazes e colocá-las numa pequena gaveta de madeira improvisada ao lado de seu leito enquanto falava. Pelo que Percy percebia ao olhar para as camas posicionadas uma ao lado da outra, todos estavam ocupadas de soldados feridos. — Mas Grover veio visitar você, hoje mais cedo. É esse o nome dele, não é? Parecia preocupado. Disse que voltaria amanhã, com os outros.
- Obrigado. — Percy respondeu, dando-lhe um sorriso sincero. Annabeth hesitou, quase que como tivesse medo de retribuí-lo, mas sorriu também.
- De nada. Agora, procure dormir. Acabou a morfina, e logo os amputados começam a gritar.
Percy esperou que fosse mentira, mas, quando o brilho nos lindos olhos cinza de Annabeth desapareceu juntamente com o seu sorriso, aceitou o conselho, e fechou os olhos.
XXX
No dia seguinte, esperou pela visita de Grover e dos amigos, mas esta nunca aconteceu.
A tenda hospitalar marrom estava mais lotada do que nunca: Dohuk nunca havia sido um ponto de grandes conflitos, ao menos não até agora, mas haviam tantos feridos sendo transportados para a improvisada enfermaria que Percy se perguntava de onde estavam vindo: os conflitos raramente aconteciam ali, no meio do deserto, o que significava que os soldados feridos vinham diretamente da cidade, perto da base militar onde servira pelos últimos dois anos. Já começava a se preocupar; o grande número de novos pacientes (que estavam sendo tratados até mesmo sobre cobertores espalhados no chão, pela falta de camas) e o fato de que os conflitos ocorriam na base em que estivera até poucos dias atrás fazia com que temesse pela vida dos amigos, que até agora não haviam aparecido.
Incomodou-se quando percebeu que procurava por Annabeth. De vez em quando, ela passava correndo de um lado para o outro, mas não parou para sorrir para ele ou nem mesmo fazer outra piada sobre sua baba noturna. Ele não devia desejar sua companhia; diabos, tinha conhecido ela no dia anterior, os dois trocaram provocações e pequenos insultos, e por fim, um sorriso, e só. Era provavelmente porque ela era muito bonita, só isso. E gostosa, também. É, muito gostosa. Só por isso.
As coisas só começaram a se acalmar lá para o fim da tarde. Duas enfermeiras que Percy não conhecia o mudaram de lugar para uma cama mais simples e mais baixa ao chão, para que pudessem ocupar o colchão confortável e alto que estivera antes com alguém que realmente precisasse dele. Ele não podia esconder seu contentamento quando Annabeth veio examiná-lo à noite, sobre a luz de diversos lampiões presos ao teto da tenda.
- E aí? — Ela cumprimentou, agachando-se ao lado dele no chão. Percy tentou não notar na maneira que o uniforme branco e apertado de enfermeira subia até para cima do meio de suas coxas, e como ela era verdadeiramente gostosa. Procurou se controlar. Não precisava de uma ereção na frente dela, pelo amor de Deus, ia morrer de vergonha. — Boas notícias. Amanhã à noite vão te liberar, e vai poder voltar para a base. Um jipe vai vir te buscar.
Antes que Percy pudesse responder, os dedos dela já se apressaram em desabotoar a camisa verde musgo que ele usava. Ficou vermelho como um pimentão -- sabia que ela ia apenas trocar o curativo em seu ombro, mas ei, ele estava à um passo da nudez perto de uma moça linda.
- Olhe pra você, está todo vermelho. — Annabeth deu um risinho, removendo o curativo anterior e limpando o ferimento pré-cicatrizado com um algodão encharcado de álcool. — Pobrezinho. Faz muito tempo que você... Esteve com alguém... Daquele jeito, não é mesmo? — Ela limpou a garganta, refazendo o curativo de gaze e esparadrapos rápida e cuidadosamente. Percy estava tão envergonhado que nem sentia dor, mas quase fez bico quando Annabeth terminou o serviço e abotoou a blusa novamente. — Não se preocupe. Já consertamos você, e agora --
Annabeth foi interrompida quando um homem alto, bronzeado e de cabelos cor de areia se aproximou por trás dela. Tinha penetrantes olhos azuis, e usava um uniforme repleto de medalhas coladas ao peito. Pigarreou para ter a atenção da moça, e assim foi.
- Annabeth. — O homem falou com um tom brincalhão, e um sorriso surgiu no rosto de Annabeth quando ela levantou-se do chão para virar-se e abraçá-lo, coisa que Percy não gostou, e também não sabia explicar por que.
- Como está, Luke? — Annabeth cumprimentou, o grande sorriso ainda evidente em seus lábios rosados e bonitos. — Ou devo dizer, General Castellan. — Deu uma piscadela para o loiro, que riu baixinho juntamente com ela. — Parabéns, por ter sido promovido. Fiquei orgulhosa. — A mão pequena e delicada de Annabeth acariciou o bíceps musculoso de Luke, e os interiores de Percy pegavam fogo: de onde se conheciam? Seriam namorados? E, se fossem, porque sentia a extrema vontade de botar fogo à cabeça do general?
Luke murmurou mais um monte de baboseiras sobre seu novo cargo no exército, obviamente tentando impressionar a ainda sorridente Annabeth. Percy sempre quis continuar como soldado, mas sabia que promoções como aquela eram inevitáveis: Tenente Charles já havia conversado com ele sobre tomar seu posto. De qualquer forma, ele não gostava daquele General Castellan, nem um pouco.
XXX
Quando Percy recebeu alta na noite seguinte, sentia ainda não havia recebido a visita de nenhum de seus colegas da base.
Esperava que estivessem seguros: o batalhão Divisão 21, ou seja, o que ele fazia parte, era conhecido entre todos os generais por ser o que mais resistia quando as coisas ficavam feias, e o nariz estratégico de Percy o dizia que as coisas não andavam bem pela base em que servira pelos últimos dois anos. De qualquer forma, ainda rezava para que os seus amigos só tivessem ficado com preguiça de ir visitá-lo. Ninguém na enfermaria tinha notícias de sua base, e por isso, estava ansioso para partir e certificar, com seus próprios olhos, que as coisas estavam bem.
- Já vai? — Escutou a voz de Annabeth atrás de si, e antes que pudesse se segurar, já estava sorrindo. A luz de vários lampiões da grande tenda hospitalar a iluminavam; seus cabelos cacheados e dourados estavam soltos, mas ela ainda estava em seu uniforme branco de enfermeira, o colado vestido fazendo do seu corpo ainda mais escultural e atraente. E ele realmente precisava parar de ficar encarando.
- É. — Percy fez que sim, mas, enquanto os olhos cinza de Annabeth olhavam dentro dos seus, ele foi consumido por uma inexplicável vontade de ficar. — O jipe já chegou. — Ele encarou o veículo do exército estacionado ao lado esquerdo da tenda; o local era cercado de milhares de montanhas, e como estavam no deserto, o céu era de uma mistura de roxo com azul anil, ainda iluminando a areia dourada sobre o chão.
- Bom... Só queria te desejar boa sorte. Com... Com o ombro. — Annabeth mordeu o lábio inferior, gesticulando para o ombro quase cem por cento curado de Percy. Ela parecia ansiosa, como se quisesse dizer algo que não tinha coragem de falar, assim como ele.
"Ah, que diabos", Percy pensou. "É minha última chance, por que não?"
- Obrigado. — Ele agradeceu, segurando a bolsa pequena de troca de roupas (todas uniformes, com alguns suprimentos em apenas caso de emergência) e fez que sim. Por alguns segundos, ele encarou o chão, e Annabeth fazia o mesmo. — Ei, eu estava pensando... — Limpou a garganta, e Annabeth lhe ofereceu um sorriso quase esperançoso. — Quem sabe... Podemos nos ver de novo. Sei lá... Numa situação em que eu consiga mexer o braço, pelo menos. — Deu um riso sem humor, carregado de nervosismo. E se ela risse dele? E se falasse que não se envolvia com caras que babavam a noite? E se aquele babaca do Castellan fosse realmente namorado dela?
- Seria legal. Eu adoraria. — Annabeth riu, e Percy levantou a cabeça para olhá-la novamente. Antes que pudesse admirar sua mais uma vez surreal aparência, a tenda atrás dela irradiou-se numa luz insuportavelmente laranja, o barulho da explosão chegando aos seus ouvidos ao mesmo tempo em que o corpo da moça foi empurrado pelo impacto, e também no mesmo instante que a bomba lançou uma fumaça negra pela noite.
Notas finais
O título da fic vem de uma das minhas músicas preferidas da banda Maroon 5.
Seguinte, como sempre, peço no MÍNIMO 10 reviews pra continuar, beleza?
Beijos,
Ju
Fale com o autor