Daydream
2 02
Os dois amigos foram despertados pela poeira densa e por uma luz forte que vinha da direção oposta, seguida por um estrondo. Levantaram-se devagar, esfregando os olhos, na tentativa de despertar mais depressa. Lentamente, foram abrindo os olhos, e perceberam que havia alguém parado, de onde a luz vinha. Recuaram um pouco, com certo medo, até ouvirem a voz da pessoa. –Acordem. Já passou da hora. Ainda muito acuados, deram passos lentos e incertos em direção à porta, procurando dar o máximo de proteção um ao outro. Não tinham certeza se estavam mesmo nas masmorras do castelo, e se estivessem: o que aconteceria a eles? Lalien não se lembrava de ter conhecido nem mesmo um ladrão que dizia ter escapado daquele lugar. E como seus feitios haviam se espalhado pela cidade toda, não duvidou muito que o pior viria. Mesmo assim, tentava amenizar a situação, ao lado de Suke, tentando acalmá-lo. Apesar de que ele não parecia tão desesperado quanto ela, talvez por desconhecer toda a história daquele lugar. A luz forte os cegou por um instante após deixar aquela sala escura. Lentamente, abriram os olhos. Estavam numa espécie de corredor, com inúmeras portas de ferro, todas trancadas. Parecia não ter fim, tão imenso era aquele corredor; e por mais incrível que pareça, não transmitia um sentimento de desespero. Todo o aposento era branco, com exceção das portas prateadas. Não havia decoração, porém, no fim daquela imensidão, havia uma enorme porta vermelha, cuidadosamente decorada de dourado; e na outra extremidade, outra porta enorme, de cor preta. –Primeiro, por ali. –o guarda apontou para a porta preta. E eles puderam ter a certeza de que estavam no castelo. Caminharam até a porta escura, seguidos por três guardas. Não fosse a poderosa armadura encobrindo seus rostos, Suke poderia identificar o maldito guarda que havia feito aquilo com eles, e não hesitaria em (tentar) dar um soco bem no meio de seu rosto, apesar de saber que não daria muito certo. Mas tamanha era a raiva que sentia, que pouco se importaria se quebrasse os dedos ou algo pior acontecesse com ele, desde que fizesse o que tinha vontade. Mas quando Lalien tocou sua mão, num explícito gesto de medo, o garoto voltou à realidade. Era estranho ver uma ladra desse jeito, tão indefesa e amedrontada. Mas apesar de tudo, eram apenas crianças ainda. Apertou sua mão em resposta, e seguiram juntos até ficarem de frente com a porta escura. Um dos guardas ultrapassou os dois amigos, e bateu na porta, levemente. Alguns segundos depois, fez-se ouvir um barulho estrondoso, como se mil trancas haviam sido destrancadas, todas de uma vez. E, lentamente, a porta foi se abrindo. Era um espaço amplo, mas diferentemente do corredor, os dois sentiram-se mais desesperados ainda. Centenas de maquinarias funcionavam, causando muito calor naquele ambiente escuro. Em cada máquina, dezenas de pessoas faziam uma fila, vestidas apenas com as roupas de baixo, segurando suas roupas nos braços. Obviamente, estavam esperando algo, e poucos notaram a presença dos novatos. –Mas que diabos é isso, afinal? –exclamou Lalien, achando tudo aquilo extremamente estranho. –Aqui se encontram a lavanderia e os locais de banho. Mas isso não diz respeito a vocês. Andem, por aqui. Lalien ainda olhava para toda aquela gente sem roupa, com a mesma estranheza. Um dos guardas a pegou pelo braço, e, junto de Suke, começou a puxá-los em direção a um outro corredor, bem mais estreito que o corredor branco. Mas ao olhar uma última vez para aquele local, uma pessoa em especial chamou a sua atenção: alta, cabelos castanhos longos e ondulados até o joelho, olhos amarelos como a Lua. Olhava sempre para frente, com um olhar triste. Aquela é... Não, não pode ser ela! Mas antes de poder observar mais e ter certeza, viu-se no pequeno corredor, ao lado de Suke e dos guardas. Mais uma vez, havia inúmeras portas de ferro, dessa vez, enferrujadas e velhas. Um dos guardas tomou Suke pelo braço, afastando-o de Lalien. Os dois amigos se entreolharam, novamente procurando algum tipo de ajuda mútua naquele ato; em vão. Suke foi empurrado por uma das portas, assim como Lalien. Ao entrar na sala minúscula, em que mal cabiam ele e o guarda, Suke se deparou apenas com um pequeno amontoado de roupas postado num dos cantos. Só então percebeu que ainda estava com os mesmos trapos de sempre. –Vista-se. Suke olhou com desconfiança para o guarda. Não sabia o que estava fazendo ali, e ainda teria que trocar de roupa na frente de um estranho... Pode parecer normal aos olhos de alguns, mas para o garoto era algo extremamente embaraçoso. Pegou as roupas na mão, tomou coragem e fixou os olhos no guarda. –Mas para que isso, afinal? Para onde nós vamos depois disso? –Vista-se de uma vez. Você logo saberá. Intimidado pela voz que saía daquela forte armadura, o garoto não teve escolha. Retirou os velhos trapos, ficando completamente nu, e enrubescendo cada vez mais. Ao pegar as roupas novas, deparou-se com uma peça a qual nunca tinha usado antes; uma simples... roupa de baixo. De certa forma, o menino ficou maravilhado com aquela peça. Tratou de vesti-la logo, mesmo porque, estava morrendo de vergonha, apesar de o guarda pouco se importar com a intimidade do garoto. Colocou a barra da calça dentro das botas, vestiu a camiseta preta, seguida de um colete da mesma cor das calças. Não havia espelho para poder ver como estava, mas se sentia, pela primeira vez na vida, uma pessoa de verdade. Sentia-se protegido de certa forma, sem se preocupar se suas partes íntimas iriam ficar à mostra. Foi então que pensou em Lalien, e em como as meninas deviam se preocupar mais com isso do que ele mesmo se preocupava. E finalmente, sorriu pela primeira vez no dia. Imaginou como Lalien poderia ter se vestido; e surpreendeu-se ao vê-la trocar as velhas roupas por uma camiseta justa, shorts e botas. A menina reagiu da mesma forma ao ver o amigo bem vestido, mas era inteligente demais pra se distrair assim. Sabia que havia algo por trás disso tudo. Havia reparado que suas roupas e as de Suke eram parecidas com as de todas aquelas pessoas semi nuas que havia visto. Só precisava descobrir o que elas faziam lá... Mais uma vez, os guardas os conduziram pelo corredor, passando pela lavanderia. Lalien tentou observar mais detalhadamente, a fim de encontrar a pessoa que há pouco havia visto. Mas muito provavelmente, já havia adentrado uma daquelas máquinas gigantescas, como todos os outros fizeram. Novamente, estavam no enorme corredor branco. E um dos guardas lhes indicou a porta vermelha dessa vez. Agora, juntos novamente, Suke observava Lalien pensativa. Imaginou o que se passava na cabeça dela; talvez estivesse pensando em algo para escapar daquele lugar, com medo do que pudesse acontecer dali em diante. Suke compreendia seu suposto raciocínio. Foi estranho para o menino ver tantas pessoas juntas seminuas com suas roupas nas mãos em fila, como se estivessem esperando por algo estranhamente tenebroso e aguardado. Lembrando-se dessas pessoas, Suke começou a imaginar que tipo de “lavanderia” e “salas de banho” eram aquelas. E por mais que tentasse, não conseguiria adivinhar o que Lalien estava pensando. Sua mente possuía uma única imagem no momento. O que ela faz aqui? Eu não entendo... E, inconscientemente, sussurrou aquele nome o qual tanto ouvira falar, e o qual tanto pronunciou quando se uniu ao grupo de ladrões de Swallowtown. Reparando na face da amiga, a qual possuía uma feição de certa forma triste mas ao mesmo tempo pensativa, Suke apanhou sua mão, fazendo-a virar o rosto para o amigo, surpresa. Encontrou um doce sorriso em sua face, como se aquela feição a fizesse esquecer do lugar onde se encontravam e, apesar de o pequeno não saber, da pessoa que vira. A menina sorriu, sutilmente, e apertou a mão do amigo, sentindo um calor aconchegante chegando em sua face e a tranqüilizando por hora. Seguiram assim, de mãos dadas, um consolando o outro, não sabendo exatamente como, até a outra extremidade do corredor. Caminhavam em direção à porta vermelha e dourada, sempre com os três guardas em seu encalço, observando cada movimento dos dois amigos. Antes de chegar até a porta, ela parecia cada vez maior a medida que se aproximavam. Aparentava ter sete metros de altura e no mínimo três de largura, apesar de o corredor ter sua largura relativamente menor. Era cuidadosamente detalhada com dourado. Os desenhos formavam às vezes formas indefinidas, às vezes flores e ramos, e Suke podia jurar ter visto os rabiscos de ouro formarem o desenho de uma libélula, na parte mais alta da luxuosa porta. Ao lado da porta –que perceberam ser, na realidade, de madeira vermelho-fogo- havia um pequeno compartimento dourado e quadrado, posto na parede. Um dos guardas se aproximou, e o tocou de forma aleatória, parecendo ser uma senha. Novamente, ouviu-se um peculiar barulho de mil trancas se abrindo, mas dessa vez, era diferente; parecia ser um som mais abafado, como se as trancas fossem novas, ou mais conservadas. Lalien e Suke iriam perceber que esse era o menor dos luxos quando a porta se abriu, lentamente. O cômodo que foi revelado era uma incógnita para os dois. Novamente, era vermelho-fogo com decorações em dourado, mas era estrondosamente menor que o aposento revelado pela porta preta, quase do tamanho de um pequeno quarto. Não havia mobília. As paredes, assim como o chão e o teto, eram vermelhas com o que pareciam ser ramos em dourado, por toda a parte. Lalien novamente não percebeu, apesar de tentar olhar minuciosamente para o local antes de adentrá-lo (ela possuía uma estranha mania; procurar engenhos e máquinas nos lugares mais inusitados, talvez para conhecer mais sobre eles e quem sabe um dia, montar algo realmente benéfico para sua cidade), mas novamente Suke percebeu desenhos de libélulas na parte superior do cômodo. Libélulas de novo? -O que há de errado? –disse finalmente um dos guardas. -Nunca entraram em um elevador antes, não é mesmo? -Elevador? –exclamou Lalien. Os únicos elevadores que conhecera eram minúsculos e apertados, e eram utilizados somente em casos de fuga. -Não há perigo. Vamos, entrem logo. Suke entrou primeiro, depois Lalien, seguida dos guardas. Assim que o último dos guardas pisou no elevador, as enormes portas começaram a se fechar, e puderam ver as inúmeras trancas que as constituíam. Grandes pequenas, vermelhas, douradas; de todos os tipos que Lalien já tinha visto. Estava maravilhada com aquela visão, até se esquecendo de se perguntar aonde o tal elevador iria levá-los. Até que Suke a cutucou, tirando-a de seu pensamento, e apontou para cima, lá no alto, quase impossível de enxergar. -Há uma libélula ali. -Suke, por que diabos eu iria querer saber de uma libélula numa hora dessas? -Porque na parte de fora também havia essa libélula... E... Suke continuava observando, e Lalien fez o mesmo, vendo a face do amigo. Teve que forçar os olhos para poder enxergar o mesmo que o amigo, até ver algo mais... Em volta da libélula desenhada, havia inúmeros, montes de pequenos casulos, unidos por uma estranha rede vermelha, como se estivessem ali a tanto tempo sem chocar, que as aranhas já haviam feito teias em volta deles. Mas que diabos... Teias vermelhas? –Ora... Acho que é normal... não? –Por que seria? –o menino continuava a olhar para cima, mais curioso do que assustado ou intrigado. –Veja a altura disso... É impossível alguém alcançar aqueles insetos, por isso toda essa sujeira... –Isso não explica o fato de todos aqueles casulos ainda não terem sido abertos. –continuava olhando pra cima. –...Ok, agora você está me assustando! –Silêncio, vocês dois. Lalien observou o guarda, e aí lembrou-se de que estavam em um elevador, ou seja, iam parar em algum lugar. Sabendo que Suke não se importaria em perguntar, tomou coragem e finalmente disse: –Pra onde estamos indo, afinal? –Nosso Senhor deseja vê-los. Lalien arregalou os pequenos olhos, surpresa. Suke olhou de relance para o guarda, interessado de certa forma. –Não é sempre que ele deseja conhecer seus novos criados. Considerem-se pessoas de sorte. –Como é!? Criados!? –Tudo será esclarecido. Os outros dois guardas se entreolharam, e depois olharam para o guarda com quem Lalien conversava, como se o reprimissem. –Devem estar confusos, e de certa forma assustados. Mas nada de ruim acontecerá a vocês daqui pra frente. Se tivesse de acontecer, haveria acontecido a 120 andares atrás. Lalien achou ter visto como que um sinal entre os guardas, mandando o que transmitia as informações mais do que devia silenciar-se. Rezava para que chegassem logo onde deveriam e assim... Havia ouvido bem? 120 andares? Estava pronta para perguntar sobre isso, quando um estrondo e um pequeno tremor tomaram conta do elevador, assustando a menina e seu amigo. Novamente as trancas começaram a se destrancar por si mesmas, causando mais barulho e interesse em Lalien. Suke a segurou pela mão, aparentemente tentando confortá-la, mesmo parecendo que a ação deveria vir da garota. Em uma fração de segundos, estavam do lado de fora do elevador, enquanto os guardas permaneciam dentro deste. Foram empurrados de repente, e Suke pôde ver o olhar penetrante de um dos guardas por aquela barreira de metal antes de as portas serem fechadas novamente. Encontravam-se em um cômodo diferente mais uma vez. Outro corredor branco sem mobílias, mas dessa vez com rabiscos dourados e azuis cobrindo as paredes e o teto. Em seu fim, encontraram outra porta gigantesca, de cor azul, decorada com os mesmos traços dourados que Suke reparou com tanto interesse. –Será outro elevador? Não gostei muito de andar nessas coisas... -Lalien... –Hm? -Também há libélulas aqui. –Mas o que deu em você, hein? É algum maníaco por libélulas e não me contou nada? –Você não vê? Elas estão bem aqui, nas paredes... Não vê? –o menino apontava, inocentemente. –Tudo o que eu vejo são rabiscos feitos de ouro que me dariam comida e abrigo por pelo menos o resto da minha vida se eu os vendesse! –São tão valiosos assim? –as pequenas orbes do garoto se iluminaram. –Sim, de fato, possuem um grande valor. As íris inocentes miraram em uma figura não tão alta parada em frente à porta azul fechada. Vestido em um traje elegante de branco puro com detalhes em azul e dourado, quase que fazendo parte da composição do corredor, fitava as duas crianças com duas enormes safiras e um sorriso um tanto convidativo. Os cabelos possuíam um incrível tom azul claro, deixando-se cair somente até o fim de suas orelhas bem desenhadas. Os lábios finos e aparentemente suaves deixavam escapar uma voz doce e gentil, atiçando a audição dos dois a quem dirigia suas palavras. –Por favor, entrem. Estive aguardando vocês a manhã toda. –disse, sorrindo. Por um momento, os dois mantiveram-se nos lugares, tentando organizar aquele monte de informações dentro da mente. Quem era aquele menino que de repente aparecera em frente a eles, os convidando para entrar sabe-se lá onde e porquê? Afinal, qual o real motivo de estarem ali? A pequena ladra tentava buscar uma resposta em vão, confundindo ainda mais sua cabeça. Percebendo a hesitação dos dois, o menino de cabelos azulados aproximou-se, fazendo com que Lalien desse um passo para trás, hesitando. Quase puxou Suke para fazer o mesmo, vendo que o menino não se movera nem sequer um milímetro com a aproximação do estranho. Ficou tão perto que Suke pôde ver melhor aqueles olhos azuis tão sutis e ao mesmo tempo intrigantes que o fitavam sem o menor medo. Estranhamente, as palavras não correspondiam ao que as suas orbes queriam dizer, por algum motivo desconhecido. –Não precisam ficar com tanto medo. Os guardas não disseram que nada de ruim irá acontecer a vocês? Espera um pouco... Então, esse menino é... –Você é o Senhor dos guardas? Seus olhos abriram-se de uma forma estranha para o menino à sua frente, que encontrava-se dentro das grandes safiras. De uma forma tão inocente, conseguira deixar a mente do menino totalmente desconcertada. Nunca ninguém havia o tratado daquela forma tão pura, desconhecendo totalmente a sua pessoa, seus feitos naquele lugar, seu passado, e muito possivelmente, seu futuro. Pela primeira vez na vida, era tratado como um qualquer, como uma pessoa normal que, aos olhos do garoto, era um desconhecido estranho. Fixou os olhos nas íris do menino a sua frente. Queria saber o que de tão diferente aquela face possuía. Afinal, não era todo dia que era tratado como um igual. Suke não compreendeu o estado do menino de cabelos azulados. Estava curioso, e nem passava por sua cabeça ter feito algo errado ou ter desrespeitado alguém ao fazer aquela pergunta. Continuava mirando os olhos do menino, esperando por uma resposta, inocentemente doce. O de cabelos azuis via-se aprisionado naquelas íris obscuras e convidativas. Convidativas até demais... Recompondo o sorriso desenhado em sua face pouco a pouco, o de cabelos azuis separou os lábios e deixou sua voz fluir. –Muito prazer em conhecê-lo, Hyousuke. Seria uma honra se você se dirigisse a mim como Naito a partir desse momento. \"...Por que esse cara fala de um jeito tão estranho?\", perguntava-se Lalien, a uns poucos passos atrás de Suke. Pôde ver o jeito que Naito reagiu à pergunta do amigo, graças a sua altura um pouco mais elevada. E como toda boa ladra, não deixaria um mínimo detalhe sequer passar despercebido aos seus olhos; pelo menos se tratando daquele garoto estranho. -E você deve ser a senhorita Lalienaya. Encantado, eu diria. –disse, pegando a mão direita da menina e fazendo uma reverência. \"O que é isso agora? Tá dando uma de príncipe pro meu lado?!\" Soltando a mão da garota, passou por Suke, chegando até a porta azul fechada. Novamente, assim como o guarda fez a 120 andares abaixo, apertou alguns pequenos botões dourados contidos numa pequena caixa de mesma cor, colocada na parede ao lado da porta. Feito isso, apenas afastou-se, deixando os lados da grande porta azul se separarem, mostrando mais uma vez um novo cômodo para os dois “convidados”. Novamente o cômodo era extremamente luxuoso, com uma iluminação mantida apenas por três abajures dourados de tamanho um pouco maior que o normal. Aquela parecia ser a única porta de entrada, e todo o aposento seguia o mesmo padrão de azul com rabiscos dourados; desde as paredes e o teto até uma enorme poltrona posta atrás de uma grande mesa de madeira negra. Apenas o chão era composto de um azul límpido, que puderam constatar ser de camurça fofa, muito confortável. Atrás da poltrona, a parede parecia possuir traços dourados diferentes do restante, intrigando Suke mais ainda. Lalien estava maravilhada com todo aquele ouro que vira em apenas um dia de sua vida, e já imaginava como poderia sair dali para contar aos outros ladrões... Seus pensamentos foram interrompidos pelas palavras de Naito, que apontava duas pequenas cadeiras postas em frente à grandiosa mesa de madeira. –Queiram sentar-se, por favor. As cadeiras eram igualmente confortáveis e azuis, o que foi mais que um convite para os dois. Suke achou meio estranho, e ainda preferia sentar-se na colina em frente a seus pais, admirando o pôr-do-sol, ou o que aquela torre gigantesca lhe permitia ver. Naito dirigiu-se à poltrona, sentando-se e soltando um suspiro. Arrumou aleatoriamente alguns papéis de cor ocre em cima da mesa, rapidamente voltando seus olhos para os dois, mais precisamente para Suke. –Pois bem, imagino que estão extremamente confusos sobre isso tudo. \"Agora que você adivinhou?...\" Apoiando os cotovelos na mesa e levando as mãos entrelaçadas até o queixo, Naito prosseguiu. –Não imaginam mesmo por qual motivo estão aqui? O silêncio entre os três parecia denunciar que não. Naito deixou um sorriso ser desenhado novamente em sua face, e continuou. –Lalienaya, a pequena ladra de Swallowtown. Seus feitos se espalharam pela cidade toda, chegando até mesmo aos meus ouvidos. Pelo que sei, possui agilidade e habilidades mecânicas inigualáveis. Fazia um tempo que estava querendo você aqui conosco, para nos ajudar. Afinal, se não nos ajudar... acaba nos destruindo, não é mesmo? –sorriu de uma forma bem estranha para Lalien. –Bem... eu... –Mas não se preocupe. Eu sei bem como é a relação entre ladrões e trabalho. É claro que você ganhará algo por suas habilidades, além de comida e abrigo aqui, na Torre Central. –Então estamos mesmo na Torre?... –Não poderiam ir muito longe, e mesmo se pudessem: para onde iriam? A próxima cidade fica a pelo menos dez dias de viagem daqui, e sabe... eles não são muito amigáveis conosco. -Un... Naito apertou um pequeno botão de cor amarela colocado em sua mesa. E rapidamente mirou Lalien novamente com um sorriso no rosto. –Espero que não se importe em trabalhar na área de manutenção do núcleo. \"Núcleo?...\" –Não se preocupe. Logo você saberá tudo o que precisa saber. Tenho certeza que alguém muito experiente te ajudará com tudo o que puder e for necessário. Por favor, siga o guarda. Ele te levará até o núcleo. Lalien olhou para Suke com um olhar novo para o amigo. Uma forma estranha de olhar que Suke estava vendo pela primeira vez. Parecia querer chorar, mas também parecia querer acabar com tudo a sua volta. Lalien o olhava com nítido medo. Porém, tinha mais medo do que poderia acontecer a ela e a Suke se não cumprisse as ordens de Naito. Lentamente, foi levantando-se da cadeira. Olhou para Naito, depois para Suke, e finalmente para o guarda parado em frente à porta azul, que esteve aberta o tempo todo. Hyousuke a seguiu com o olhar até a amiga desaparecer atrás das portas azuis que se uniam e a separavam dele. Estava preocupado... Queria ter ido junto com ela. E afinal, por que não foi e continuava ali, parado em frente ao cara estranho? –Não se preocupe, Hyousuke. Vocês poderão se encontrar todos os dias, no final do expediente. Não é tão ruim assim, não é mesmo? Suke continuava virado para a porta, agora fechada. Porém, seus olhos estavam vidrados em outra coisa. Uma coisa diferente, que nunca tinha visto antes... Era brilhante e chamativa, e pareciam ser aquelas coisas que o menino havia visto tantas vezes antes... \"Por que todas essas libélulas estão presas nessa caixa de vidro?...\" –Hyousuke! O garoto virou-se para Naito num pulo, de certa forma assustado. Agora prestava atenção no garoto de cabelos azuis, que, reparando agora, parecia ter a mesma idade que ele. Seus olhos estavam fixos nos de Suke, e com aquele mesmo sorriso estranho na face. –Bem, vamos falar um pouco de você agora... Pra falar a verdade, não sei muito sobre a sua pessoa... Gostaria de me dar uma pequena introdução? O menino mirou seus olhos para baixo, um pouco constrangido. Ninguém nunca havia perguntado exatamente quem era ele, além de perguntarem seu nome. Não sabia o nome de seus tutores, nem de seus pais verdadeiros. O único nome que foi dado a ele era simplesmente Hyousuke –sem sobrenome, sem nem mesmo uma pista sobre seu passado, sobre seus parentes, sobre ele mesmo. Prestando mais atenção na pergunta do garoto, Suke, ao invés de responder, refazia a pergunta inúmeras vezes em sua mente, sem obter qualquer tipo de resposta: Quem é você? Os olhos do moreno encontraram-se com os do estranho. Novamente, ele estava com aquele sorriso incomum delineado em seus lábios, enquanto suas íris enquadravam o pequeno em um jogo de gestos e olhares. Não demorou muito, e as maçãs do de olhos castanhos fizeram-se ver, em seu tom mais avermelhado, enquanto tentava observar qualquer coisa longe de Naito. Mais um sorriso. O menino agora o fitava. –Não se preocupe, não sou o tipo de pessoa impaciente. Eu poderia ficar aqui o dia inteiro esperando a resposta, olhando pra esse seu rostinho lindo. Novamente, o pobre garoto só pôde enrubescer, desviando o olhar. Era a primeira vez que sentia aquele calor diferente preencher sua face em segundos, ainda mais olhando para alguém que acabara de conhecer, um total desconhecido, desprovido de sentimentos e olhares importantes. Porém... Mesmo assim, sentia algo diferente dentro de si quando encontrava aquelas enormes pedras preciosas azul índigo, e quando elas o prendiam dentro de suas limitações, apenas para poder apreciá-lo por um segundo sequer. Não lera muita coisa em sua vida para ter conhecimentos suficientes sobre o assunto, ou para encontrar uma explicação aceitável. Apenas imaginava se era aquilo que vira uma vez na cidade... Naito, percebendo o desconforto de Suke, resolveu abrir uma certa exceção. –Como percebi que você não vai me responder mesmo... –afastou-se ligeiramente da mesa de madeira escura, e suspirou- Há algo que você queira me perguntar, Hyousuke? Afastando uma mecha de seu cabelo incrivelmente azulado, mirando qualquer lugar da parede, foi surpreendido pela inocente pergunta do mais novo integrante: –Eu gostaria de saber... quem é você, e o que eu e a Lalien fazemos aqui... Sorrindo, e aproximando-se novamente do garoto, disse: -Você é certamente uma pessoa especial, Hyousuke. Eu lhe disse para fazer apenas uma pergunta, e você me desobedeceu. É uma pena começar seu primeiro dia de trabalho dessa forma, não? Se Suke tivesse pelo menos um pouco da inteligência e astúcia de Lalien, perceberia a resposta que lhe fora dada. Tratava-se, explicitamente, de um chefe e seu mais novo funcionário. Mas tudo o que o garoto fez foi novamente fitar uma coisa qualquer naquela luxuosa sala azul, fugindo dos olhares de Naito, que divertia-se com a situação. –Mas está com sorte hoje, garoto. Como estou de bom humor, lhe farei o favor de responder uma de suas perguntas... Passando por cima dos papéis postos na grande mesa, subitamente, seus lábios encontraram-se com a orelha direita de Suke, vermelha, exatamente como o resto de seu rosto. –Digamos que daqui pra frente... –a mão direita delineava o contorno da face do menino, acariciando-a de forma... doentia... terna.- ...você terá de fazer tudo exatamente do jeito que eu mandar... Assim, você não sofrerá dor alguma, meu querido cachorrinho... Suke cerrava os olhos, num singelo misto de sentimentos; medo, temor, raiva, e... desejo. Desejo pelo desconhecido, pelo jamais provado; desejo por aquilo que nunca pensou que ia provar, desejo de sentir um calor que não fosse seu próprio encontrar com seu corpo em êxtase... \" Mas... Não é assim... Não pode ser assim...\" Fechou os olhos profundamente, reunindo forças para se livrar daquele pecado que não podia cometer, enquanto ouvia claramente a respiração do outro garoto em seu ouvido. Uma respiração ofegante, chamativa, convidativa até demais... Estava prestes a colocar seu punho contra o peito de Naito, e lutar para sair dali o mais rápido possível, com todas as suas poucas forças. Mas foi surpreendido mais uma vez, com os lábios finos e bem definidos do outro garoto encontrando suas bochechas avermelhadas, num doce e rápido beijo sem permissão alguma do de longos cabelos castanhos. O de cabelos azulados afastou-se finalmente, os olhos brilhando como nunca. Apoiou sua mão direita na mesa, com seu sorriso habitual estampado na face. Levantando a mão esquerda na altura dos olhos do de cabelos longos, esticou os cinco dedos; um gesto um tanto estranho para o pequeno... –Até logo, meu querido inu-chan. Suke não pôde explicar o que aconteceu naquele momento. Não sabe como de repente estava do lado de fora da grande e luxuosa sala azul e dourada, com sua enorme porta fechada e devidamente trancada. Lembrava-se de parecer ter sido empurrado para fora por um vento extraordinariamente forte, como nunca havia sentido antes, nem mesmo nos dias mais frios sentado em cima da colina. Encontrava-se caído sentado no chão do corredor, de frente para a grande porta azul, tentando reorganizar os pensamentos na mente... Uma curta e doce melodia soou atrás de si... Ouviu um barulho estranho, como pedaços de ferro encontrando-se sutilmente... As portas do precário elevador abriram-se. Os grandes olhos castanhos de Suke admiraram-se inegavelmente... ... –Oi! –disse a pessoa alta- Você vem ou prefere ficar “paradão” aí?
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