Daughter Of War

6 Agitação


Notas iniciais
Ois Desculpem a demora pessoinhas do meu core ♥ me desculpem também pelos comentários não respondidos, mas saibam que eu li todos, e gostei bastante ♥ prometo responder todos dessa vez o/ Boa leitura.

Já fazia cinco dias que eu havia chegado ao Acampamento.

Ou melhor, cinco dias que eu estava consciente, considerando que fiquei uma semana à beira da morte.

Cinco dias totalmente entediantes.

Quer dizer, não parecia ser entediante para quem já havia sido reclamado. Os campistas ficavam em chalés de acordo com seu parentesco divino, e isso parecia fazer com que eles fossem bem enturmados entre si. Mas, já que eu não tinha pra onde ir, sequer tinha alguém pra conversar.

Admito que estava sozinha por minha culpa, em parte. Não sou o tipo de pessoa que se enturma fácil ou que ao menos se esforça pra isso. Por isso, todas as vezes que alguém sequer olhava na minha direção, eu devolvia um olhar do tipo “Nem vem”. Obviamente acabei isolada.

Não que eu tivesse problema em ficar sozinha – passei a maior parte da vida assim. Mas agora eu sentia-me completamente desamparada, precisava de alguém pra conversar. Mas é claro que eu não ia correr atrás disso.

Por quê? Bem... Porque não.

Eu estava sentada em um banco próximo ao lago de canoagem. Parecia só um lago normal a não ser pelas meninas taradas que davam em cima dos garotos... Náiades, acho. Fazia um frio de bater os dentes, mas eu já estava cansada de ficar no quarto de hóspedes da Casa Grande, por isso resolvi dar uma volta.

Pra ser sincera, eu estava fugindo de Quíron. Parece que os campistas tinham que realizar atividades diárias e Quíron queria que eu participasse — mas digamos que eu não estava nem um pouco a fim de fazê-las, então estava evitando-o sempre que possível.

As atividades não pareciam ser chatas. Eram coisas do tipo arco e flecha, canoagem, esgrima (que era a única que eu realmente tinha vontade de participar) e equitação de pégasos. Aquela era a que mais me intrigava. Tive um mini-ataque cardíaco quando olhei pra cima e vi um cavalo voador cortando o céu. Ficava imaginando se os pégasos faziam cocô enquanto voavam. Não devia ser nada agradável ser atingido por estrume de cavalo voador enquanto se está caminhando, por isso eu sempre procurava abrigo quando via um.

Ás vezes eu pensava na hipótese de que alguém havia colocado uma quantidade enorme de drogas na minha comida e que eu estava alucinando tudo isso. Mas acho que os efeitos não duram tanto tempo.

Outra coisa que me impressionava eram as habilidades de alguns campistas. Outro dia eu havia visto o tal de Percy fazer umas coisas muito loucas no lago de canoagem e ele estava, tipo, andando na água. Eu quase comecei a apelidá-lo de Messias – porém eu não falava com ele. Como já disse ele parecia ser um cara legal, conhecia todo mundo, era o “bonzão” do Acampamento; mas os olhares desconfiados que Percy me lançava me incomodavam bastante. Ele não estava sendo grosso nem nada, mas isso não deixava de me irritar.

Mas ele não era o único. Eu sentia que todos estavam um pouco desconfiados quanto a mim. Annabeth – uma das poucas pessoas que não hesitava em vir falar comigo – já havia admitido que não era normal que meu pai divino não houvesse me reclamado ainda. Ela disse que a idade certa era aos treze anos, e eu já tinha quase dezesseis, sem contar que já fazia dias desde que havia chegado aqui.

Estava sendo rejeitada. Como sempre.

Todos esses pensamentos viajavam por minha mente quando percebi que alguém havia se sentado ao meu lado. Eu não estava muito a fim de contato social, então ignorei a pessoa totalmente, nem sequer olhei para o lado.

— Eh... Olá — a pessoa disse, hesitante. Mas o que me chamou a atenção foi que ela havia dito em português.

Fitei a pessoa ao meu lado. Era uma garota, aparentava ter a minha idade. Tinha a pele morena, num tom quase que “avermelhado”, cabelos pretos longos e extremamente lisos, olhos cor de âmbar. Uma brasileira, com certeza. E tive a leve impressão de que a conhecia.

Minha mente travou quando eu fui responder. Estava falando inglês com tanta frequência que tive que pensar para lembrar como se fala português.

— Oi. — falei, sem um pingo de ânimo. Senti um pouco de pena por ela ter vindo puxar conversa comigo. Parecia ser uma pessoa tímida.

Pensei que ela iria sair dali quando eu não estendi a conversa, mas a garota era persistente.

— Hm... E então... O que está achando daqui? — ela perguntou como quem não queria nada, mas sua voz ainda estava hesitante.

Revirei os olhos sem que ela visse.

— Olha, na boa... Sem querer te ofender, mas não estou muito a fim de conversar. — eu disse.

Pude perceber seu constrangimento.

— C-Certo... Bem... Se quiser conversar com alguém, é só me procurar — ela murmurou, já se levantando.

Mas então uma luzinha se acendeu em minha mente. Eu tinha lembranças muito vagas de quando havia ficado apagada – cheguei a acordar algumas vezes, mas voltava a apagar logo depois. Cheguei a ver algumas pessoas, mas lembrava-me vagamente...

— Ei, espera — eu chamei, surpreendendo a garota. — Você é uma das médicas que estava cuidando de mim, certo?

Ela abriu um sorriso aliviado e voltou a se sentar no banco.

— Sim. Na verdade, não sou bem uma médica... Sou uma curandeira. — Ela deu um tapinha na aljava dourada em seu ombro que só agora havia notado.

Franzi o cenho, me esforçando para lembrar o que aquilo significava.

— Filha de Apolo? — perguntei, e ela concordou com a cabeça. Notei com estranhamento que ela tinha apenas uma mecha loira no cabelo.

— O pessoal normalmente não acredita que eu seja filha de Apolo... Sabe como é. Não me pareço com uma.

— Hm. — Ela realmente não parecia. Filhos de Apolo são loiros. — De onde você é?

— Pernambuco. — O sotaque dela já havia denunciado isso. — Há propósito, meu nome é Marina. — Caímos em um silêncio desconfortável pela falta de assunto (apesar de tudo eu ainda não queria conversar, mas achei que ela podia ser uma pessoa legal). — Hm... De onde você é? — ela enfim perguntou.

— São Paulo. Há quanto tempo chegou aqui? — perguntei. Resolvi que conversar não era tão ruim assim.

— Dois anos.

— Você já estava aqui durante a batalha contra Gaia? — perguntei. Pra ser sincera eu estava bastante curiosa quanto a essa batalha. A ideia de ter algo como uma guerra aqui me parecia bem interessante, mas eu não tinha com quem conversar sobre isso.

—Não, eu cheguei logo depois. — ela disse. — Cheguei como a maioria dos meio-sangues: meu cheiro começou a atrair muitos monstros e um sátiro foi me buscar.

— E sua mãe, tipo... Não desconfia?

Ela olhou-me como se eu estivesse louca.

— Ela sabe. Nunca iria me deixar vir pra cá se não soubesse.

— Ah. — murmurei. Até agora eu estava crente de que todos os campistas daqui eram órfãos ou vieram fugindo de casa, mas pensando bem, essa ideia era absurda. É óbvio que boa parte tinha pai ou mãe.

Ao longe avistei um casal caminhando de mãos dadas – Percy e Annabeth. Eles caminhavam em direção ao Acampamento Júpiter, com livros nas mãos, já que frequentavam a Universidade local. Era aquele tipo de casal que chega a ser impossível de imaginar separados. Annabeth avistou-nos e acenou. Marina acenou de volta animadamente, enquanto que eu só balancei a cabeça.

Percy acenou também, mas ao perceber-me, seu sorriso vacilou. Isso estava realmente me irritando.

Eu devo ter feito uma cara bem estranha, pois Marina perguntou:

— Você não gosta de Percy?

Mudei de posição no banco, desconfortável.

— Tenho a impressão que ele não gosta de mim.

Ela pareceu surpresa.

— Acho difícil. Percy não é o tipo de pessoa que hostiliza outros campistas. Sabe, há alguns anos atrás, nem sempre os deuses reclamavam seus filhos... Quem não era reclamado era simplesmente socado no chalé de Hermes. Mas depois da batalha contra Cronos, Percy fez os deuses jurarem que iriam reclamar seus filhos quando completassem treze anos. Também fez com que os chalés dos deuses menores fossem construídos... Hades, por exemplo, não era bem-vindo no Acampamento, mas agora ele tem um chalé. — Subitamente me lembrei de Nico. Eu não havia falado com o rapaz desde aquela noite, mas havia visto-o algumas vezes. Ele parecia ser tão sociável quanto eu. — Percy fez muito por esse acampamento e pelos semideuses. Então duvido que ele tenha alguma coisa contra você.

Pensei sobre suas palavras. Eu já tinha ouvido falar que Percy havia participado de duas grandes profecias e que havia comandado os semideuses contra um exército de monstros em plena Manhattan, mas não sabia que ele tinha feito tanta coisa. Talvez fosse só coisa da minha cabeça o fato de ele desconfiar sobre mim.

Eu estava prestes a fazer um comentário quando senti um calafrio subir minha espinha. Apertei os braços a fim de espantar o frio.

Foi então que comecei a escutar as vozes.

Eram como sussurros que começaram a varrer minha mente. Eu não entendia o que diziam... Mas alguns chamavam meu nome.

— Você está escutando isso? — perguntei para Marina. Ela franziu o cenho.

— Escutando o quê?

Balancei a cabeça e apertei os olhos. As vozes começaram a ficar mais altas e distintas em minha mente... Começaram a gritar. Algumas davam risadas.

“Você é uma maldição”.

Levantei-me do banco, me distanciando de Marina. Apertei a cabeça com as mãos.

— É só sua imaginação... Só sua imaginação... — Comecei a murmurar pra mim mesma.

— Jessica? Está tudo bem? — Marina perguntou, hesitante.

Um vento extremamente gelado açoitou meu corpo. Eu tinha a impressão de que um estádio de futebol lotado estava gritando em minha mente.

Era enlouquecedor.

Escutei Marina chamar meu nome quando comecei a correr sem rumo. Lembrei-me do sonho do labirinto... Eu tinha exatamente a mesma sensação de que algo estava correndo atrás de mim, vindo me matar.

Eu não estava olhando para frente quando trombei em uma garota que corria na direção oposta à minha.

— Me desculpe... — a garota murmurou. Ela era afrodescendente, tinha os cabelos pretos extremamente cacheados. Quando nos olhamos, sua expressão mudou completamente. Sua pupila dilatou visivelmente e a cor dourada de suas íris mudou para preto de um modo assustador. Ela arregalou os olhos e quase pareceu assustada. — V-Você...

Não esperei pra ver o que ela ia falar. Desviei e continuei correndo; eu sentia que meus ouvidos iam explodir. As pessoas estranhavam quando me viam correr. Parei de correr subitamente, parando para respirar; eu estava com falta de ar.

— Ei, você está se sentindo bem? — uma garota perguntou, aproximando-se de mim. Uma filha de Afrodite, provavelmente. Mais outras pessoas começaram a se aproximar, não sei se por curiosidade ou preocupação. Eu devia estar parecendo bem doente. — Rápido, beba — ela ofereceu-me uma garrafa d’água.

Comecei a beber, trêmula. As vozes não havia cessado. Senti outra forte rajada de vento gelado.

— M-Mas que merda é aquilo?! — alguém atrás de mim falou.

Levantei a cabeça e olhei para onde o garoto estava apontando.

No topo da colina havia uma multidão de... fantasmas.

A barreira mágica impedia que eles entrassem, por isso estavam todos abarrotados feito um bando de zumbis. Todos eram escuros como sombras e gritavam. As vozes na minha cabeça... Eram deles.

Haviam centenas. Milhares. Eles cercavam toda a barreira do Acampamento.

Imediatamente vi os campistas pegando suas armas e correndo para lá. O dragão que protegia o Velocino de Ouro rugia e tentava espancá-los com sua cauda espinhosa em vão, já que eles eram como névoa.

Vi Quíron saindo da Casa Grande, sem entender o que estava acontecendo. Os romanos também pegaram suas armas e correram em direção à barreira mágica. Ninguém entendia o que estava acontecendo, mas era como se os fantasmas quisessem entrar, por isso todos pensaram que fosse uma invasão. Todo o Acampamento entrou em polvorosa.

— Os lares estão enlouquecidos! — escutei algum romano gritar ao longe. — Cadê o filho de Hades?!

Comecei a correr em direção ao topo da colina também, apesar de não estar carregando nenhuma arma. Era meio inútil que estivessem correndo para lutar contra os fantasmas porque, bom... são fantasmas.

Cheguei ao topo acompanhada de mais um punhado de semideuses. Paramos ali, sem saber o que fazer. Eles realmente pareciam zumbis, caindo aos pedaços, mas eram todos meio transparentes de modo que era possível enxergar através deles.

— Como foi que conseguiram sair do Mundo Inferior? — um garoto ao meu lado murmurou.

Eu dei um passo pra frente, a fim de enxergar melhor. Mas, no momento em que eles puderam me ver claramente, começaram a ficar ainda mais agitados; era como se estivessem “arranhando” a barreira mágica a fim de passar. Gritavam coisas incompreensíveis, mas uma coisa dava pra escutar...

— Estão chamando seu nome — o garoto disse, me fitando, de olhos arregalados.

Então escutamos o barulho estridente de uma lâmina sendo desembainhada.

Nico apareceu, sua espantosa espada negra de ferro Estígio em mãos. Ele tinha uma aura de pura escuridão em volta de seu corpo e um olhar que faria qualquer um tremer. Imediatamente a massa de semideuses abriu espaço para que ele pudesse passar.

Os fantasmas recuaram. Nico deu um berro e cortou o ar com sua espada, e uma onda de energia negra se soltou dela. Os fantasmas tentaram correr, mas ao serem atingidos pela energia escura, desapareciam em névoa. A onda varreu todos os fantasmas até que não sobrasse mais nenhum.

As vozes em minha mente cessaram imediatamente.

Todos ficaram em um silêncio espantoso. Nico havia expulsado milhares de fantasmas com um só golpe de sua espada, e ele sequer parecia cansado. Então, esse era o poder do filho de Hades?

Quíron apareceu acompanhado de mais alguns semideuses curiosos. Ele tinha a expressão preocupada.

— Nico, precisamos conversar — ele disse.

A multidão de meio-sangues começou a dispersar, a maioria relutante, pois queriam saber o que estava acontecendo.

Nico não prestou atenção em Quíron, continuou olhando fixamente para o lugar onde os fantasmas estavam há alguns instantes. Olhei para a mesma direção.

Ainda havia um fantasma lá. Era mais alto que os outros, mais escuro e frio. Tinha olhos vermelhos e rosto irreconhecível...

Era ele.

Arregalei os olhos. Ele não havia aparecido desde que eu entrei no Acampamento, eu sequer sabia aonde tinha ido parar. Por que tinha aparecido agora? Percebi que todos estavam ignorando-o, o que significava que não podiam vê-los, nem Quíron. Mas eu podia.

E Nico percebeu. Ele olhava de mim para o fantasma de testa franzida, a expressão confusa.

— Nico, vamos — Quíron insistiu, mas Nico não se mexeu.

Ele começou a se mexer. Olhava para mim. Abriu sua boca desfigurada e tive calafrios quando o escutei dizer, numa voz profunda e gutural:

— Você é uma maldição.

E desapareceu em névoa.

–

Era hora do jantar.

O assunto da noite era obviamente a invasão fantasma. Ninguém tinha entendido o que havia acontecido, muito menos eu. Podia escutar os cochichos em todas as mesas. Alguns falavam sobre como Nico havia expulsado-os, e até eu ainda estava impressionada – aquele fora sem dúvida o melhor exorcismo de todos os tempos. Alguns lançavam olhares tortos em minha direção. A notícia de que os fantasmas gritavam meu nome havia se espalhado rápido. O pior é que, como eu não tinha chalé, era obrigada a me sentar na mesa principal com Quíron onde todos podiam me ver. Eu não gostava daquela atenção. Queria sair dali imediatamente, mas a fome falava mais alto.

Fui jogar parte da minha refeição na fogueira como sempre (Coisa que me deixava muito indignada; desperdício de comida para um deus que eu sequer conhecia) e voltei para a mesa. Comecei a devorar minha comida sem tirar os olhos do prato, pois não queria ter que olhar pra toda aquela gente me encarando. O pior de tudo é que eu estava sozinha na mesa principal, já que Quíron ainda estava tendo sua conversa com Nico.

Eu estava quase acabando de comer quando vi Quíron caminhando para o pavilhão ao lado de Nico e mais uma garota. Lembrei-me imediatamente dela: era a menina com quem eu trombei acidentalmente. Quíron veio em direção à mesa principal enquanto Nico e a garota caminharam para a mesa de Hades.

Percebi que todos olharam para Quíron, ansiosos por notícias. O centauro virou-se para os campistas e disse:

— Sei que todos querem saber sobre os motivos dos acontecimentos de hoje mais cedo. Ainda estamos investigando, por isso sejam pacientes. Mas não se preocupem, foi-me garantido que isso não voltará a acontecer. Podem voltar a comer — ele disse, e alguns murmúrios de reclamação foram ouvidos.

Involuntariamente, minha atenção foi chamada para a mesa de Hades. Era a mais distante e parecia ser a mais escura de todas. Nico e a garota conversavam algo que parecia ser bem sério. Os dois olharam rapidamente na minha direção, mas ao perceber que eu encarava-os de volta, desviaram o olhar.

— Quíron, quem é aquela garota? — eu perguntei disfarçadamente.

— Aquela é Hazel Levesque. É romana filha de Plutão, ou seja, irmã de Nico.

Assenti devagar. Terminei minha refeição devagar e já me preparava para sair quando Quíron chamou:

— Jessica, teremos que conversar depois... Sobre o que aconteceu hoje. — o tom dele me incomodou.

— Certo. — eu disse, hesitante. Levantei-me e pretendia sair sem chamar atenção, mas alguém me chamou.

— Espere um pouco aí, novata!

Me virei na direção da pessoa que havia chamado. Eu devia ser a única novata ali, já que todos me encararam também. A pessoa que me chamara era da mesa de Ares, uma garota enorme de cabelos castanhos e olhos escuros. Clarisse. Já tinha ouvido falar dela.

— O que é? — perguntei friamente.

Clarisse caminhou em minha direção, tinha um sorriso cruel no rosto que teria intimidado qualquer uma – menos eu. Ela não passava de qualquer outra garota com quem eu já tinha brigado antes.

— Eu acabo de me lembrar de que faz mais de uma semana que você chegou e até agora não fizemos a cerimônia de iniciação — ela disse em alto e bom som para que todos pudessem ouvir. Éramos o centro das atenções.

Franzi o cenho.

— Cerimônia de iniciação? — perguntei.

— Sim. Você é a garota que matou um drakon sozinha, certo? Bom, você não é a primeira a fazer isso. — Tive a leve impressão de que ela estava se referindo a si mesma. — Se é tão habilidosa a ponto de ser capaz de fazer uma coisa dessas, com certeza é habilidosa o suficiente para fazer a cerimônia.

Ela fez um silêncio dramático. Pude perceber que essa história de cerimônia era mentira, era só uma desculpa para vir me encher o saco.

— Um duelo! — ela falou. Todos os campistas ficaram cheios de expectativa. — Você terá que duelar se quer mostrar seu valor.

— Um... Duelo? — murmurei.

— Sim, um duelo de espadas. Se perder, terá que pagar as consequências. Se ganhar, terá provado seu valor.

— E se eu quiser recusar?

— Então... Você não vai passar de mais uma covarde que teve um momento de sorte.

Os campistas murmuravam entre si, esperando para ver minha resposta. Vi Annabeth sentada junto com seus irmãos observando-me com preocupação.

Eu deveria recusar aquilo. Não é desse jeito que se prova seu valor. Clarisse só estava querendo chamar atenção. O mais sensato seria recusar essa ideia estúpida, certo?

Errado.

— Eu aceito seu desafio — falei, e os campistas entraram em polvorosa. Parece que duelos eram coisas bem populares por aqui.

Clarisse sorriu, vitoriosa.

— Ótimo! Mas não sou eu quem duelará com você — Clarisse falou. — Jack!

Um garoto da mesa de Ares se levantou e engoli em seco. Ele era enorme. Muito musculoso, afrodescendente, os cabelos raspados. Ele tinha algumas cicatrizes finas no rosto. Abriu um sorriso tão cruel quanto o de Clarisse.

— Você também precisa provar seu valor. Aceita duelar com nossa colega aqui? — Clarisse perguntou.

Jack olhou-me como se eu fosse uma barata em que estava prestes a pisar.

— Com prazer. — ele disse.

Os campistas começaram a gritar em aprovação novamente. Garotos podiam lutar contra garotas? Bem, parece que as regras por aqui são diferentes.

— Vai voltar com sua palavra? Ficou com medo? — Clarisse perguntou, encarando-me. Pude ver que ela queria que eu desistisse.

Até parece que um touro de Ares iria me fazer arregar.

— Não. Vamos logo com isso — eu disse.

Os campistas levantaram-se, se preparando para assistir à luta.

— Quíron! Você vai permitir isso?! — Annabeth gritou, indignada.

O centauro parecia hesitante. Ele sabia que se dissesse não os campistas iriam ficar revoltados.

— Duelos são permitidos... Não posso interromper — ele disse.

— Então, todos para a Arena! — Clarisse gritou, enquanto a massa de semideuses seguiram euforicamente para o local da luta.

–

A Arena ficou lotada rapidamente.

Os romanos ficaram sabendo sobre o duelo rapidamente e vieram. Gregos e romanos se amontoavam, procurando espaço na arquibancada. Dois gêmeos de Hermes gritavam:

— A matadora de drakons ou o touro de Marte? Façam suas apostas! — Vários semideuses estavam à volta dos dois, apostando dracmas, armas e itens mágicos.

Sim, Marte. O tal de Jack era romano. Parece que não havia problema em romanos se misturarem entre as mesas de jantar, contanto que sentassem nas mesas correspondentes à personalidade grega de seu pai, em respeito às regras.

O fato de ele ser romano me preocupou um pouco, já que o estilo de luta dos romanos é diferente da dos gregos. O fato de eu nunca ter participado de uma aula de esgrima sequer também me preocupou. Mas resolvi confiar em meus instintos como fiz com o “treino” contra os autômatos, algumas noites atrás.

Rapidamente Annabeth veio até mim.

— Você está ficando louca?! Como acha que vai ser capaz de vencê-lo?! — Ela soltou. — Você sequer participou das lições de esgrima!

— Obrigada pela confiança, Annabeth. — eu disse, irritada. — Não vou passar por covarde.

— Mas você já provou seu valor ao ter matado aquele drakon, coisa que quase ninguém aqui já fez antes — ela falou. — O que você fez foi cair na provocação de Clarisse!

Encarei-a.

— Annabeth, eu vou lutar e fim de papo. Se eu perder, ótimo. Mas pelo menos vou ter perdido lutando, não tendo desistido. E mais, esse carinha só tem tamanho.

Annabeth bufou.

— Certo! Você venceu. Mas saiba que Jack é um ótimo lutador. Ele é filho de Marte, afinal. — ela disse e foi em direção à arquibancada sentar-se ao lado de Percy e alguns amigos.

Logo depois alguns filhos de Hermes, Atena e Apolo vieram correndo até mim.

— Muito bem, garota! Apostei vinte dracmas de ouro em você, então é bom que vença. — um dos filhos de Hermes disse, puxando-me para o canto. — Você precisa colocar sua armadura.

— Armadura? Eu sou obrigada a usar isso? — perguntei enquanto uma garota de Atena já se adiantava em me ajudar a colocar aquela coisa.

— A não ser que você queira ser toda furada... Sim, precisa.

Eles me ajudaram a colocar todo o equipamento que parecia pesar uns cinquenta quilos. Entregaram-me uma espada e um escudo.

— Lembre-se de proteger a região do abdome e das pernas. Jack vai tentar te atingir nessas regiões — a garota de Apolo falou.

— Certo. — murmurei. — Por que apostaram em mim?

— Apostamos em qualquer um que esteja contra Ares. Marte, nesse caso. — outra filha de Atena disse. — Já está na hora. Não perca, ou vamos matar você!

Me dirigi para a área de combates, e Jack entrou quase ao mesmo tempo. A multidão começou a gritar. Os faunos (ou sátiros, tanto faz), ninfas e outros seres da natureza se amontoavam entre os espaços das arquibancadas, tentando conseguir uma boa visão. Alguns espíritos do vento sobrevoavam a arena, eles com certeza tinham a melhor visão do jogo. Até mesmo Reyna, a pretora do Acampamento Júpiter estava presente para assistir.

Tentei não pensar que haviam tantos olhares em cima de mim e me concentrar no meu oponente. A espada de Jack era maior que a minha e feita de ouro imperial. Era uma espada no estilo romano, mas eu soube que podia dar conta daquilo.

Quíron ia dar as regras. Ele chamou a atenção de todos, que ficaram em um silêncio momentâneo.

— Muito bem, vocês já conhecem as regras. O jogo acaba quando um dos dois não conseguir mais lutar ou quiser desistir. Podem usar todas as suas habilidades, porém objetos mágicos não serão permitidos. Não podem usar a lâmina na região da cabeça nem tentar decapitar o oponente. Vocês não estão permitidos a tentar decepar qualquer membro do outro oponente. E por último... Tentem não se matar. Estão prontos? — Assenti, assim como Jack. — Podem começar!

A multidão voltou a gritar euforicamente. Começamos a andar em círculos. Jack riu por baixo do elmo.

— Você ainda tem tempo de desistir — ele disse.

— Digo o mesmo.

Ele atacou.

Consegui bloquear seu ataque com meu escudo. Ele deu um giro, pronto para repetir o ataque e nossas espadas se encontraram pela primeira vez, fazendo um barulho metálico que ecoou por toda a arena. A multidão gritava cada vez mais alto. Jack desferiu uma série de golpes que consegui aparar com minha espada, mas ele estava me forçando para trás. Eu tentei parar, mas a vantagem de força estava com ele, obviamente. Empurrou-me com seu escudo, fazendo com que eu perdesse o equilíbrio e quase me estatelasse no chão, mas consegui me manter de pé.

— Nada mal. — ele falou. — Mas eu ainda nem comecei.

— Você fala demais — eu disse antes de atacá-lo.

Eu tentava procurar brechas em sua defesa com minha lâmina, mas ele bloqueava sempre quando eu encontrava alguma. Meu braço começou a ficar cansado; aquela espada era pesada demais.

Jack se aproveitou de um momento em que fui lenta demais e atingiu-me na cabeça com o cabo da espada com tanta força que deve ter esmagado meu elmo, e logo depois chutou-me na barriga, me fazendo voar alguns metros para trás.

Minha cabeça girava. Eu tentava conseguir equilíbrio para me levantar. A multidão gritava histericamente: alguns comemoravam minha queda, já outros gritavam “levante-se!”. Consegui me levantar com um pouco de dificuldade, a visão turva.

Jack ria.

— Quanta persistência! Se eu fosse você, tinha ficado deitada no chão pra me poupar de tanta humilhação.

— Cale essa boca! — falei, começando a ficar genuinamente irritada com tanto deboche.

Jack investiu contra mim, e era óbvia sua vantagem. Eu ainda estava tonta por causa de sua pancada em minha cabeça, por isso mal conseguia erguer meu escudo para me defender. Jack nem parecia estar lutando à sério. Tentei investir contra ele, mas ele bloqueou meu ataque com o escudo e me deu outra pancada com o cabo da espada em minha boca, me fazendo ir pra trás.

Senti um gosto salgado. Passei a mão em minha boca, e ela sangrava. Levantei minha cabeça; pude ver Jack rindo em deboche, assim como Clarisse, seus irmãos e romanos de Marte. Eu parecia patética. Aquela luta já estava praticamente vencida.

E foi aquilo me encheu de ódio.

Foi como se minha visão houvesse se tingido de vermelho. Cuspi sangue e limpei minha boca. Foi então que percebi o porquê de eu estar lutando tão mal: era culpa daquela maldita armadura, que fazia meu peso dobrar e minha velocidade diminuir.

Arranquei meu elmo, jogando-o para o lado.

— O que? Vai desistir? — Jack perguntou com um sorriso que me fez querer quebrar sua cara mais do que eu já queria.

— Não, querido. É você quem deveria fazer isso enquanto há tempo. — Abri meu típico sorriso “vou te matar”, e a confiança dele pareceu ter vacilado.

Sem mais nem menos, comecei a tirar minha armadura.

A multidão olhava com estranhamento, sem entender. Eu arrancava a armadura com força, sem sequer precisar desatar as correias. Logo, pude sentir que poderia começar a lutar de verdade, sem aqueles quilos extras me atrapalhando.

— Agora podemos lutar.

Jack correu em minha direção. Eu lancei meu escudo contra ele, que rodou como um bumerangue no ar; Jack foi obrigado a parar de correr para proteger-se de meu escudo, que fez um barulho muito alto ao chocar-se e o forçou pra trás.

A multidão voltou a gritar. Eu corri em direção à Jack e saltei em um golpe que ele quase não conseguiu desviar. Agora eu não tinha um escudo, o que significava que não tinha proteção alguma – mas o que também significava que eu estava livre para fazer os movimentos que quisesse e estava mais rápida.

Comecei a atacá-lo com força total. Eu sequer pensava no que estava fazendo, apenas fazia. Desviava de todos os seus golpes e atacava-o consecutivamente para que ele não tivesse tempo de se defender. Ele era mais forte, mas eu era bem mais rápida. Então, em um momento, girei sua lâmina com a minha de modo que ele quase teve que soltá-la e dei uma coronhada em sua cabeça com o cabo de minha espada, fazendo-o cair pra trás.

Ah, como é bom os gosto da vingança.

Ele obviamente ficou tonto. A multidão urrava com a súbita reviravolta. Jack agora parecia cansado, enquanto eu sentia que podia lutar ainda mais.

— Você parece cansado. Vamos acabar logo com isso, certo? — eu disse.

Jack levantou o olhar para mim cheio de fúria. Ele veio atacar-me com a espada, mas eu aparei seu golpe sem dificuldades. Girei com os pés e dei uma cotovelada na sua cara, fazendo-o cambalear pra trás. Ele veio com seu escudo à fim de me empurrar, mas dei um chute tão forte que fez com que seu escudo saísse voando. Antes que ele pudesse se defender, dei um golpe com meu braço em seu pescoço, fazendo-o cair no chão.

Jack se levantou rapidamente e veio correndo em minha direção, seu olhar cheio de raiva e exaustão. Ele levantou sua espada; bloqueei o golpe e com uma rapidez impressionante me abaixei, dando-lhe uma rasteira que o fez cair.

Um segundo depois, eu tinha meu pé pressionado contra seu peito e a ponta de minha espada em sua garganta.

Jack me olhava espantado. A multidão entrou em um silêncio incrédulo, mas logo depois começaram a gritar em vitória. Jack estava desarmado, não iria conseguir continuar lutando.

Eu havia vencido.

Quíron estava prestes a anunciar a vitória, mas de repente todos ficaram quietos novamente, as expressões atônitas. Olhavam para algo acima de mim.

Senti um formigamento na ponta dos dedos e olhei pra cima.

Acima da minha cabeça havia um holograma de cor vermelho-sangue. Era o símbolo de uma cabeça de javali.

Imediatamente todos os campistas começaram se ajoelhar, inclusive Quíron. Até mesmo os romanos se curvaram. O que aquilo significava?

— O-O quê? — murmurei, completamente confusa.

— Salve, Jessica Zanelatto — Quíron anunciou, a voz grave e formal. — Filha de Ares, o deus da guerra.

Notas finais
Eu acho que todos já deviam ter adivinhado que a Jessica é filha de Ares, acho que já havia deixado isso um tanto quanto óbvio r-r Comentários? *u* Até a próxima o/