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2 Capítulo I - Lover Boy


Com o final do campeonato, os estudantes voltaram para as suas rotinas: estudos e mais estudos. Era a última semana dos testes finais e a escola se dividia entre alunos desesperados, que tentavam recuperar e alcançar a média, e alunos mais tranquilos que não dependiam das notas finais. Aomine, no entanto, não se encaixava em nenhuma das categorias.

– Aominecchi! – A voz era de Kise, que entrava na quadra e se livrava da sua mochila e materiais escolares. Aomine resolveu marcar a última cesta, sem muita vontade, antes de dar atenção ao loiro.

– Hm? – O sorriso do moreno tranquilizou o outro jogador que se abaixou para pegar a bola de basquete que havia rolado em direção aos seus pés.

– Aominecchi... – Ainda abaixado, Kise abraçou a bola e olhou para o outro. Estava em prantos, com os olhos cheios d’água. – Eu preciso de ajuda para estudar! Eu não sei como eu irei passar nos testes, Aominecchi!

– Oe, Kise! – O moreno puxou o colega de equipe pelo casaco, fazendo ele se levantar. – Eu... eu não posso fazer isso. Você deveria conversar com o Tetsu.

Aomine parecia constrangido – e tudo isso era muito evidente devido ao seu sorriso amarelo e a gota de suor que escorria pela testa. A verdade é que ele tinha uma coleção de notas vermelhas e não queria que aquela notícia chegasse aos ouvidos das outras pessoas – principalmente aos ouvidos de Satsuki.

– Kurokocchi? Mas, Aominecchi... – Kuroko não era um aluno exemplar e de colecionar notas altas; Kuroko era um aluno mediano que, com muito esforço, conseguia fugir das notas baixas.

– O que vocês querem? – Um terceiro elemento surgiu na conversa.

Se não fosse pela voz já conhecida, Aomine e Kise podiam jurar que a bola de basquete, ainda no chão, estava conversando com eles. Mas era o Jogador Fantasma, Kuroko Tetsuya, que havia chegado sorrateiramente – ou já estava lá e os outros não tinham percebido. E como sempre, Kuroko fez com que os dois pulassem de susto.

– Kurokocchi! – Os olhos de Kise brilharam, como se a presença do Jogador Fantasma fosse um sinal para a sua salvação – ou melhor, a salvação das suas notas. O loiro não resistiu e abraçou o menor, erguendo e girando ele no ar. Kuroko, por outro lado, não estava gostando nada daquilo, levando Aomine, a fim de salvar o seu amigo do abraço sufocante, a intervir. Após levar alguns tapas de Aomine em seu ombro, Kise largou o pequeno no chão.

– É em relação aos testes, não é? Eu tenho algo que poderia te ajudar, mas... – Kuroko estava revirando a sua mochila, quando os três ouviram o aro balançar.

A bola percorreu o aro, se equilibrando, dando duas voltas antes de cair na cesta e quicar duas ou três vezes no chão. Os três procuraram a origem do arremessador, encontrando Midorima do outro lado da quadra, ajeitando seus óculos. Foi uma cesta de três pontos, quase impossível.

– Tch! Hoje não é o meu dia de sorte. – Midorima resmungou mais duas ou três palavras e se reuniu com os demais jogadores. – O que aconteceu com o Kise? Eu não irei dividir nenhum dos meus amuletos da sorte para você se dar bem no White Day.

Os outros ficaram atônitos e incrédulos: ele realmente tinha amuletos da sorte especialmente voltados para garotas? E por que justamente o Midorima, tão reservado, se importaria com um festival como o White Day? Perguntas que não foram respondidas. A verdade é que todos eles estavam ansiosos e preocupados com o festival, já que não tiveram tempo para aproveitarem o dia de São Valentim. Todos, com a exceção de Aomine.

– Midorimacchi, então você já tem uma escolhida? – Mulheres era um assunto que Kise gostava, afinal, ele tinha uma fila enorme delas atrás dele.

Mas mais do que isso, ele gostava de provocar o jogador mais reservado da Teikō. Midorima, por sua vez, resolveu não responder ao loiro de imediato, mas a sua expressão acabou falando por ele: além das bochechas estarem levemente vermelhas, uma veia, no canto de sua testa, surgiu devido a sua irritação.

– E-eu não sei do que você está falando! – Finalmente explodiu e saiu da quadra da mesma forma como chegou: rápido. Os outros a caíram na gargalhada.

– Kurokocchi, Aominecchi, falando em White Day, vocês já têm as suas escolhidas? – O olhar malicioso era típico de Kise, que queria arrancar algum tipo de confissão dos seus colegas de equipe.

Aomine tentou intervir com inúmeras desculpas clichês, mas Kuroko falou primeiro, sem dar chance ao moreno de sequer abrir a boca.

– Eu acho que sim, mas... – Kise e Aomine trocaram olhares e então voltaram confusos para o baixinho, exigindo que ele ao menos terminasse a frase. – Mas eu não tenho tanta certeza. Ela é mais velha e mais alta do que eu.

Os outros praticamente caíram para trás. Mais importante do que aquela notícia reveladora, Kuroko não iria presentear Momoi. Aomine temeu pela sua amiga de infância, e temeu pelos próprios ouvidos, já que seriam eles que iriam aguentar a choradeira da gerente.

– Aominecchi, e você? – Aomine pensou em desconversar, mudar de assunto ou fingir que não havia entendido, mas desistiu no meio do caminho.

A verdade é que ele não tinha um par, muito menos alguém por quem ele poderia se interessar. Mas verdade seja dita: Aomine, assim como Kise, tinha incontáveis fãs, mas a expressão carrancuda e a sua guarda costas – Momoi Satsuki, que afugentava as mulheres para que o ala-pivô da Teikō pudesse se concentrar mais nos jogos e nos treinos – o impediam de ter qualquer tipo de contato com outras pessoas do sexo oposto.

– Eu não escolhi ninguém. Não que isso realmente importe. – Se abaixou, pegando a bola de basquete que ainda estava nos pés de Kise, e jogou, sem ao menos olhar para cesta. Foram dois pontos.

– Mas Aominecchi, até Kurokocchi tem uma escolhida. Já sei! Vou ajudar você. – Os olhos de Kise brilharam, e os de Aomine nem tanto.

O loiro tirou do bolso da calça a sua carteira, e de lá arrancou, ao que parecia, uma lista completa de todas as garotas da Teikō Junior High – com direito a fotos, idade, peso e até altura. Kise separou algumas, entre elas uma das garotas mais almejadas pelos alunos: Miwa Asao. Era alta, magra, cabelos pretos que batiam na altura dos ombros e o rosto era angelical, como a de uma boneca. Assim como Kise, Miwa era o centro das atrações entre o público masculino e também trabalhava como modelo. Mas havia um grande problema – ou melhor, no caso dela, era pequeno, bem pequeno.

– Mas... ela parece uma tábua! Quem roubou os peitos dela?! – A resposta do moreno já era esperada. Kise tentou retrucar e até Kuroko tentou ajudar o loiro, mas já era muito tarde. – Como pode ela pode ser modelo?! Se ao menos fosse a Hitomi Tanaka, Miyabi Isshiki, Miri Hanai... – Aomine tinha um profundo conhecimento na área do entretenimento, especialmente quando o assunto era modelos dotadas de seios fartos. A lista continuaria se ele não tivesse levado um tapa forte na cabeça antes.

– HENTAI! – A pancada foi acompanhada com um grito feminino e agudo. Era Momoi Satsuki. – Quantas vezes eu te disse para não falar dessas garotas quando eu estou presente?! V-você tem que se concentrar no treino, seu... seu hentai! – E levou outro tapa, dessa vez na testa.

Aomine conseguia tirar Satsuki do sério com facilidade – mesmo quando não era a sua intenção. Àquela altura, não se via a sombra de Kuroko em lugar algum.

– Momoicchi! – Kise tentou iniciar uma conversa amigável com a sua gerente, mas parecia que o alvo era o moreno tarado.

– Aomine-kun! – Estufou as bochechas, formando um bico meigo nos lábios. Aomine correu para consertar a sua besteira, mas ela o interrompeu. – Eu quero que você me acompanhe no próximo final de semana, no sábado, na verdade. Eu preciso pegar algumas coisinhas no centro da cidade e eu preciso de você para ser o meu... o meu guarda costas!

Rejeitar aquele pedido seria um atestado de morte, então tudo que restou para o moreno foi balançar a cabeça e aceitar. Após se despedir dos dois jogadores, Satsuki saiu da quadra saltitando.

– Aominecchi... – Kise chamou o moreno enquanto eles assistiam a silhueta da gerente desaparecer no clarão ao sair pela porta. – Sábado começa o festival. Vocês têm um encontro!

O loiro parecia confuso, mas empolgado com a ideia. Aomine, por outro lado, sequer conseguiu digerir aquela informação.

– Um encontro? Hmph! É impossível. Ela deve ter se enganado. E além do mais, nós somos amigos de infância.

Kise balançou a cabeça, discordando.

– Momoicchi nunca se engana. Ela nem ao menos procurou por Kurokocchi. Vocês têm um encontro e eu irei te ajudar!

E de fato, eles tinham um encontro. Embora Aomine negasse, pela primeira vez, ele sentiu um vazio no estômago. Não necessariamente um vazio, pois dentro dele, borboletas perambulavam; era uma sensação estranha, indescritível, e tudo acabou sendo causado pela pessoa mais improvável de todas: Momoi Satsuki.