Darth Vader - O Despertar
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Capitulo 4: O deus morto
Destróier Estelar Desolação, órbita de Coruscant
O shuttle particular de Darth Vader pousa suavemente no meio do hangar, frente a suas fileiras de batalhões que reúnem-se para recepcioná-lo. O almirante Nonrodd, condecorado depois da vitória em Bal’demic, caminha por entre as tropas em direção ao transporte. Sua pele está suada, e enche-se de calafrios ao deparar-se com o lorde sith, que desce, altivo, pela rampa da nave.
– Lorde Vader, é uma honra recebê-lo.
– Antes de mostrar suas gentilezas, é melhor me dizer como transcorreu a campanha em Kato Neimoidia.
– Nós vencemos, senhor – a duras custas, mas vencemos.
– A duras custas?
– Nós perdemos alguns andadores e veículos, senhor, mas a Syennar logo providenciará novos batedores. Temos noticias de que um novo destróier está em fase final de desenvolvimento.
– Muito bem. Lembre-se, almirante, a galáxia precisa saber que nossos recursos são ilimitados. É através de nossa superioridade bélica que mantemos o controle sobre os povos.
– Sim, senhor, eu compreendo.
– E quanto ao general Ozzel?
– Ele foi condecorado, milorde – e agora se dirige para Corellia para tratar de uma pequena crise comercial envolvendo o submundo do planeta. Parece que alguma organização criminosa mantém o comando na região.
– Muito bem, mantenha-me informado. O imperador enviou alguma mensagem?
– Não senhor, ele se recolheu à sua residência, em Coruscant, e exigiu que não fosse incomodado. Ele por acaso lhe passou alguma ordem?
– ...sim. Ele ordenou que uma expedição fosse realizada no mundo de Prakith, no núcleo profundo. O local é povoado por fanáticos religiosos, por isso ele solicitou que um destacamento me acompanhasse durante a missão.
– O núcleo galáctico? Senhor, aquela é uma região turbulenta, são poucas as rotas que passam ilesas pelo trajeto. Não sei se temos algum piloto com experiência nesta localidade.
– Então, é melhor que encontre alguém o mais rápido possível. Se necessário, vá até Coruscant.
– Sim, senhor.
– Da próxima vez que o vir, almirante, é bom que já esteja tudo preparado. Quanto a mim, irei a minha câmara de meditação, e espero não ser incomodado – não sou o imperador, mas lhe garanto que minha raiva é tão grande quanto a dele – com o frio até o mais fundo de seus ossos, Nonrodd retirou-se com os pés trêmulos.
Vader há muito estava habituado a suportar o fardo que se tornara sua vida, mas era realmente difícil se desviar do fato de que sua armadura extra o tornava muito mais pesado – no entanto, o peso não se fazia imensurável, devido à potência muscular que provinha dos produtos que os orbalisks injetavam em seu sangue. Por isso, apesar de pesar o dobro de outrora, caminhava com facilidade, e sentia seus membros mais livres e flexíveis. Graças a essas dádivas, quase se esquecia de suas limitações, e do sonho que tanto o perturbava nas não muitas vezes em que abraçava o sono. Como uma secessão de imagens impiedosas, toda vez que adentrava o terreno dos sonhos ela aparecia diante dele, como se tivesse a intenção de zombar de tudo o que lhe havia acontecido. Mas, mesmo sabendo, no íntimo, que aquela situação não era real, não conseguiria sentir raiva da mulher que perdera nas mãos do destino. Não, o que lhe corroía a alma era a culpa, a dor que sabia – não era capaz de evitar – uma ferida profunda em sua alma. Diferente de qualquer pessoa, porém, Vader não perdia suas esperanças, pelo contrário, usava a própria dor como chamariz para sua fúria interior. Por isso, cada tormento, cada terror onírico ajudava a definir, por completo, qual seria seu objetivo – o que realmente realizaria quando, em suas mãos, tivesse o total poder sobre a matéria, a vida e a morte – em última analise, a dor era seu instrumento de motivação. E, mesmo sentindo os diversos parasitas ao seu redor, sugando seus fluidos, ainda era apenas uma a dor que juntava-se a todas as outras.
Núcleo Profundo, momentos depois...
O colossal destróier surge do hiperespaço, próximo ao núcleo profundo, localizado nas vizinhanças do buraco negro maciço que forma o centro da galáxia. Aqui, a pressão da atmosfera é bem maior do que na capital. Snunn Vla Nak é um dos mais graduados pilotos da marinha imperial, e um dos poucos que sobreviveram à incursão pelas perigosas vias que correm as proximidades do núcleo. Por ter nascido em um mundo sustentado pelas mercadorias que ali transitavam, teve que aprender a lidar com o perigoso trajeto. Ao entrar para o exército imperial, tornou-se um piloto de caças. Agora, havia sido convocado para conduzir um pequeno contingente aéreo até um planeta no centro desse local.
– Veja, senhor, ali está – o núcleo – Nak falava pelo microfone a todos as naves da frota — recomendo muito cuidado ao voar, especialmente aos caças TIE – esta zona da galáxia tem uma gravidade muito forte, e as estruturas dos caças provavelmente não irão agüentar. Para sua segurança, é melhor que voem em nível delta, e próximas umas das outras – e de modo algum se desviem do trajeto que eu fizer – acreditem, as coisas são muito complicadas quando você sai da estrada- lentamente e com precisão, o caça-líder entrou na zona do núcleo, seguido pelo caça modificado de Vader e o restante. Embora relutantes em usar um veiculo tão frágil para uma missão tão famigerada, a viagem não era tão longa, já que Prakith é próximo à borda. No entanto, para chegar até ele, era preciso voar pelo núcleo profundo, já que, fora dele, havia o poderoso centro gravitacional da galáxia.
No total, eram dez naves que seguiam pelo curso, na verdade uma rota comercial abandonada há muito pelos mandalorianos. Felizmente, a região é isolada até da influencia de contrabandistas e mercenários. Como uma grande jóia negra no breu do espaço, Prakith despontou no horizonte, banhado por um sol de luz opaca. Se havia um mundo que suportasse toda a negritude e horror do lado sombrio, era este – sua aparência, cinza e lúgubre, sem nuvens ou nada que lembrasse vida, o fazia parecer um enorme mausoléu. À medida que se aproximava, Vader sentia um mal incrível que permeava o lugar, um mal que gritava em diversas vozes distintas, todas entoando um mantra horripilante e desconhecido.
– Chegamos, senhor. Prakith. É um mundo desolado, e realmente não seria minha escolha para tirar umas férias...alguns dizem que é habitado, mas em todas as vezes que passei por aqui nunca vi nada. Não faço a mínima idéia do que o imperador poderia querer neste inferno.
– Os interesses do imperador não cabem a você – Vader não apreciava o tom excessivamente informal do piloto — diga-me, soldado, há algum local onde possamos pousar?
– Já disse, senhor, não tem nenhuma cidade aqui.
– Muito bem, então terei que assumir a liderança. Sigam-me.
Vader procurou ampliar sua percepção, na tentativa de encontrar a imensurável fonte maligna que sentira. Voando à frente dos outros, notou uma perturbação na força ao entrarem na atmosfera. Todo o ar parecia permeado pelo poder do lado sombrio, mas o foco concentrava-se em um só local. Ignorando a escolta, Vader voou rápido de encontro ao local, chegando rapidamente à superfície pedregosa. O epicentro estava vindo de uma estranha construção com aspecto religioso, envelhecida pelos séculos, mas que ainda guardava os requintes de sua época de ouro. Vader pousou, e as outras naves chegaram em seguida. Em sua nave, mais ampla que as outras, trouxera ainda o almirante Nonrodd, que destacara como líder das tropas.
– Almirante, ordene aos soldados que façam um reconhecimento do templo adiante.
– Sim, senhor. Nossos sensores dirão se o local é desabrigado ou não.
Dois dos soldados liberaram duas sondas, do mesmo tipo que Vader usara em Ambria, que dispararam rumo ao templo e suas imediações.
– Vamos, homens! Avancem!
– É isso aí! Nada mais animador do que explorar uma construção caindo aos pedaços! – Nak não estava muito animado com a incursão, mas sabia da fama de Vader e decidiu seguir em frente.
Poucos minutos depois, os soldados já haviam entrado no templo, e na alameda exterior, cercada por estátuas encapuzadas tomadas pela fuligem, restavam apenas o almirante, seguido de perto pelo sith.
– Eu sinto uma presença...é como se toda a força maligna do planeta se centrasse aqui, mas...não é apenas uma, mas várias...
Mal Vader acabara de falar, e de diferentes locais surgiram figuras encobertas por panos, portando, nas mãos, uma espécie de espada curva. Correndo, velozes como ratos do deserto, atacaram os dois. Enquanto o almirante veio ao chão, Vader recebeu um golpe no braço, que rasgou seu traje, expondo a armadura orbalisk. Destro, pegou o sabre e respondeu aos atacantes, golpeando seus flancos e membros – seja quem fossem, as misteriosas figuras não estavam acostumadas a enfrentar resistência. Limpando seu caminho com golpes firmes e cirúrgicos, Vader passou pela entrada das ruínas. Apavorado, o almirante o seguiu. Ao notar que os estranhos agressores não pareciam ter fim, agarrou algumas pedras quebradiças da entrada do templo e soterrou os que por ali passavam – em seguida, bloqueou a entrada, com uma pedra maciça – logo a única luz que clareava o local vinha de seu sabre-de-luz vermelho.
– Você fechou a saída! E agora, como escaparemos daqui? – o almirante deixou explicito o quanto estava desesperado.
– Seu medo o condena, almirante – a figura negra de Vader mesclava-se às sombras, tornando-o ainda mais assustador — ele desmascara sua pretensa coragem. Então, a menos que você crie alguma bravura dentro de si, sua inútil existência se findará em breve – o homem ameaçou dizer algumas palavras, mas o pavor o fez engolir todas elas.
Sob a luz rubra que despontava no interior do templo, Vader notou a parede, coberta por ideogramas e hieróglifos distintos, que denotavam a longevidade da construção.
Avançando pelo corredor, Vader e o almirante ouviram tiros adiante. Alheio ao seu companheiro temeroso, Vader correu em direção à origem do barulho. No final daquela galeria, que percorria aproximadamente dez metros, havia um grande salão oval, cercado por colunas e mais estátuas, semelhantes às de fora. No centro do átrio, os soldados imperiais lutavam contra mais um grupo de inimigos – como puderam se esconder em meio às ruínas, e se ocultar das sondas era um grande mistério.
Percebendo a desvantagem dos soldados, Vader decidiu entrar na batalha. Com suas poderosas pernas, saltou sobre os atacantes que se refugiavam próximos ao canto nordeste, descendo ao chão com um devastador golpe em linha reta, derrubando três deles. Um quarto tentou estocar sua lamina, e ao rebatê-la, Vader notou que, contra ela, seu sabre era ineficaz. Com um forte impulso, empurrou o inimigo para trás, com tal força que seu corpo rolou em cambalhotas até a parede oposta. Das fissuras ao lado, mais dois tentaram investir – rapidamente Vader estendeu a espada – empalou um, agarrou o outro pelo braço e o usou de porrete contra os que se atiravam contra sua já reduzida escolta. O som de ossos quebrados ecoava pelo salão.
– Quem são esses inimigos? Como as sondas não os detectaram?
– Senhor, quando chegamos, as sondas estavam destruídas! Esses vermes parecem sair das profundezas do inferno!
– Então, vamos mandá-los de volta – enquanto os soldados atiravam rajadas com seus blasters, Vader disparou aos novos inimigos que se aproximavam, com os braços armazenando energia para mais um ataque. Ao chegar próximo aos atacantes, moveu-os de um lado a outro de seu corpo – sua força realmente havia aumentado consideravelmente – rasgando ao menos cinco homens à sua frente – em seguida, fez o contrario, retalhando mais quatro – à essa altura, o chão já estava forrado de restos humanos e membros mutilados – quase não se podia ver o piso empoeirado. Da nova leva de hostis, restou apenas um, que já estava com a julgular nas mãos de Vader.
– Quem são vocês? Por quê nos atacaram?
– Hereges! Como se atrevem a violar a tumba de nosso deus-rei? Se perturbarem seu sono, pagarão caro! – apesar da situação, o homem não demonstrava medo algum.
– Então, é aqui o túmulo do sith?
– Você...não sabe com o que está lidando. Pode ter nos derrotado, mas o rei da malevolência irá fincar as garras em suas carnes até não restar mais nada!
– Logo veremos quem é a ameaça – Vader não esmoreceu diante das afrontas – seu deus está morto há muito tempo. Creio, então, que não haverá repouso para sua alma – com um movimento, fechou a mão violentamente, torcendo o pescoço do guardião da tumba, que acabou por se tornar mais um cadáver entre os muitos que jaziam sobre o chão. Para eles, as orações e preces chegaram ao fim.
No fim da batalha que se desenrolou, sobraram apenas Vader e três stormtroopers – o almirante saiu do local onde havia se refugiado, ainda respirando aceleradamente. Vader novamente seguiu seus sentidos, e se dirigiu ao corredor no lado oposto do átrio em que se encontravam, seguido pelos soldados, em formação de defesa, e o almirante, que ensaiava passos relutantes.
– Ele está aqui – tenho certeza – Vader, já dentro da galeria, acelerou os passos, atento a qualquer possível ataque – uma luz no fim do túnel escuro indicava outro átrio que se abria dentro do templo. No entanto, a poucos metros da saída, Vader parou, subitamente.
– Parem! – o grito de Vader ecoou pela galeria, mas os soldados, avançando rápido, não tiveram chance de parar – do solo se ergueu uma grande lamina circular, que quase chegava ao teto – a armadilha se sucedeu tão veloz que um dos soldados foi cortado ao meio, o outro perdeu o braço, se recolhendo à parede, esforçando-se para estancar a hemorragia monstruosa.
– Eu dei ordem para parar – Vader parecia mais preocupado com a desobediência de seus subalternos do que com a tragédia que se abatia sobre eles. No final, apenas Snunn e Nonrodd foram poupados.
Com a lâmina estancada no meio do caminho, Vader usou o sabre para abrir passagem – passou, então, a caminhar lentamente, passo a passo, em cadência reduzida.
– Vá na frente, soldado. Verifique o terreno à frente para descobrir se existem mais armadilhas – o almirante tentou simular uma postura autoritária, mas a situação lhe causava um medo constante que mal podia esconder.
– Se quiser que eu vá ao inferno, senhor, irei com prazer para Nar Shadaa – acho que na lua dos contrabandistas existem bem menos perigos que neste maldito templo – Nak era um excelente piloto e exímio soldado, mas seus modos nunca foram recatados – aparentemente, seus talentos o salvaram da corte marcial.
– Está desafiando minha ordem, soldado? – Nonrodd tentou levantar a voz.
– E quem vai me obrigar a cumpri-la, você? Olhe, há uma grande diferença entre obediência e idiotice, e parece que você quer me empurrar para a segunda alternativa – até então alheio à discussão, Vader arrancou o soldado do solo, atirando rumo ao pavilhão à frente.
– Ei! O que você pensa que está... – ao passar pela entrada, o homem foi atingido por um bloco notável de pedra – sem tempo para gritar, seu corpo se espatifou com o impacto, restando apenas uma poça de sangue sob o enorme obelisco rochoso, cada vez maior. Com um movimento, Vader empurrou a rocha para o lado, expondo os restos esmagados do soldado – não era uma visão agradável, e o almirante se conteve para não vomitar. Mas Vader há muito era insensível perante tais coisas, já que o odor da morte tornara-se familiar para ele. O vestíbulo em que entravam era bem maior que o ultimo, e, devido à suntuosidade, deveria ser o átrio central do complexo. No centro da sala circular, havia uma espécie de altar, cercado por milhares de pergaminhos, envelhecidos pelo tempo – na ponta do altar, havia uma pedra mais elevada, com um estranho cristal vermelho no centro.
– Minha nossa!... o que...o que é isso...?
– O que você vê diante de si, almirante, é a tumba de um antigo lorde sith – aos poucos, Vader se aproximou, com cautela – estes devem ser seus manuscritos – Darth Andeddu era um homem mesquinho, por isso se recusou a partilhar seus conhecimentos, preferindo morrer com eles.
– Está dizendo que há um homem sepultado neste altar?
– Sim, almirante.
– Mas e essa...e essa pedra vermelha? Veja o seu brilho... – como um inseto atraído pela luz, o almirante foi capturado pela visão da pedra misteriosa, cercada por estranhas insígnias – certamente o imperador vai ficar satisfeito se levarmos este presente a ele – ignorando o medo que sentia há pouco, o homem levou, inadvertidamente, a mão até o diamante rubro, com os olhos fixos nele – ao tocá-lo, foi como se o material grudasse em sua pele, em um forte ardor, insuportável.
– Aaah! Tire isso da minha mão! Tire isso daqui...! – Apesar do nítido sofrimento do almirante, Vader permanecia inalterado. Sua intuição já lhe dizia o que estava havendo.
– Deve tomar mais cuidado com sua cobiça, almirante – Vader sentia a força inominável que exalava do objeto, força que cada vez mais se alastrava pelo corpo de Nonrodd – essa é sua punição por mexer com forças que não compreende.
Vader mal falou, e o homem enpalideceu, sua pele antes rósea e macia enrugou-se, a ponto de tornar-se seca, sua face secou, revelando os cumes ósseos de seu crânio, e toda a sua pele foi sumindo como se queimada por um poder invisível – a dor excruciante, atravessou todo o corpo do homem, que não possuía voz suficiente para gritar – com os olhos sem pálpebra – e a pele rugosa e cadavérica – o homem caiu por terra, como se a vida o abandonasse. E foi exatamente isso que Vader sentiu. No entanto, o corpo físico do cadáver ainda estava habitado.
Ao se aproximar, Vader notou que as mãos do morto começaram a se mover, e seus braços ensaiaram um movimento para se levantar. Súbito e macabro, o corpo se ergueu, de forma bizarra – primeiro as pernas e depois o tórax – contorcendo-se como se estivesse acordando de um sono que havia durado milênios. Ao contrário do almirante há pouco ainda vivo, Vader sabia muito bem o que se passara. Ao erguer a cabeça magérrima, o cadáver falou algo indissolúvel, em uma língua estranha. Suas feições não denotavam suas intenções. Em resposta, Vader se curvou, com reverência.
– Saudações, lorde Andeddu, senhor sombrio dos sith – o tom usado era o mesmo com que tratava seu mestre – sou seu humilde servo – o que posso oferecer em troca de seus segredos?
A língua era estranha para o morto, mas sua sabedoria era grande – com sua poderosa percepção, pode claramente discernir as intenções de seu estranho visitante. Sua reação foi completamente inesperada. Diante da sombria figura inclinada, ergueu a mão esquelética, suavemente, lançando Vader para trás, abrindo um rastro de areia no chão.
– Quem é você, que invade meu santuário e me atormenta o sono? – a voz do desmorto era seca e cortante, e parecia alcançar os recônditos mais profundos da alma. Como dominara a língua de seu intruso, ninguém sabia.
– Sou Darth Vader, um lorde sith, e possuo o direito de reivindicar seu conhecimento! – Vader postou-se de pé novamente.
– Um sith? A ordem dos sith morreu há muito tempo – o que vejo diante de mim não passa de uma farsa.
– O que sabe sobre mim?
– Ao que parece, mais do que você mesmo – de fato, Vader sentia como se duas mãos tivessem entrado em sua mente e interpretado toda a sua historia – como se suas memórias não passassem de um livro aberto – Eu errei ao conceder minha sabedoria a outros, como ao ultimo sith que veio aqui, Tyrannus – das trevas, eu pude presenciar sua queda – e você, pretenso sith, como ele, também é indigno de minha herança – ao terminar a sentença, balbuciou novamente sua língua misteriosa – uma coroa de ouro materializou-se em sua cabeça, um cetro longo formou-se em sua mão, e as roupas do oficial do império deram lugar à sua veste de sacerdote – ao invés de andar, porém, levitou, erguido pela força – arrancando um dos 5 pilares que cercavam sua tumba, atirou-o contra Vader, que desviou, a tempo de lançar uma onda de energia – que não teve efeito. Com a força reunida, saltou, e o deus-rei segurou o golpe com o cetro, sem esforço, jogando Vader para o lado, que caiu rente à pilha de pergaminhos.
– Você se atreve a profanar meu tesouro, meus segredos, meu título? – furioso, o sith reencarnado avançou, agarrando Vader, ainda atordoado, e atirando-o contra o outro lado do átrio. Com o impacto, seu traje se rasgou, junto com a capa, mas sua força não esmoreceu.
– Esta armadura... – Andeddu reconheceu a estranha couraça que protegia Vader – então, você se julga mesmo digno de roubar o que não lhe pertence?
– Que direito você tem, sith – Vader se dirigiu com firmeza diante do colosso – de esconder seus segredos? Você não passa de um covarde, que escolheu se esconder ao invés de perpetuar sua sabedoria pelos séculos!
O sith não respondeu, mas sua face franziu, os olhos vazios se avermelharam, e então passou a fazer uma serie de gestos com as mãos, como se conjurasse um feitiço – Vader se aprontou para mais um ataque, mas jamais poderia se preparar para o que viria a seguir.
– Agora, veremos, pretenso sith, se você realmente conhece o verdadeiro poder!- ao dizer isso, Andeddu abriu os braços, e uma onda ofuscou todo o local com a luz intensa.
O cenário se mudou por completo, o chão, as paredes, tudo sumiu, dando lugar a um pasto verdejante sob um sol radiante e um vento suave e refrescante. A cena atingiu Vader em cheio, pois sabia, diante daquela visão lacustre: estava em Naboo, exatamente como em seu sonho. Mas desta vez, era absurdamente real: podia sentir o vento, a textura do chão a seus pés – quando se deu conta, não estava mais de armadura – era Anakin Skywalker, em sua indumentária típica dos jedi. Seus braços e pernas estavam de volta, como antes – Vader sabia que aquilo não era real, mas não conteve sua reação diante de tal visão. Sem controle, um sorriso se formou em seu rosto, a alegria o tomou de sobressalto. Extasiado pelo momento, ouviu uma voz o chamando – uma voz calma e melodiosa.
– Ani! Meu querido Ani!
Ao se virar, um tremor correu por seu corpo, pois era sua mãe, Shmi, quem o chamava. Tentou se conter, mas não pode: saiu correndo, de encontro à mãe, que o abraçou com todo carinho e calor que se lembrava, a sensação era indescritível.
– Mãe? O que a senhora está fazendo aqui? – Apesar de sua felicidade recente, ainda havia algo que o fazia duvidar do que ocorria.
– Não se lembra, Ani, querido? Você e Padmé me convidaram para as comemorações dos Gungan – então, ele notou que sua mãe não vestia trajes simplórios de uma escrava, mas um rico tecido cravejado de jóias – veja, ali vem vindo seu filho, Jinn!
Desviando os olhos, algo se feriu dentro de sua alma – seus olhos viam sua esposa, Padmé, linda como sempre fora – conduzindo uma criança com menos de um ano de idade, que já arriscava alguns passos em direção ao pai – o jedi não se segurou, e uma lágrima correu por sua face.
– Veja, Ani, Jinn acaba de dizer sua primeira palavra. Vamos, querido, diga para o papai! – Padmé estava tão encantadora como sempre, ao respirar, Anakin podia sentir seu aroma adocicado.
A criança fez alguns gracejos, mas se manteve calada.
– Ora, vamos, querido, quer deixar seu pai com ciúmes? Padmé se abaixou e ergueu o rebento em seu colo.
– Quem sabe ele não perde a timidez se estiver no colo do pai? — Shmi destilava longos anos de bondade maternal – vamos, Padmé, deixe Ani segurá-lo um pouco...
O jedi não entendia – não sabia ao certo como chegara àquela situação – mas tudo era tão perfeito, tão sublime, que mesmo suas duvidas mais insistentes caíam por terra. Nada importava naquela hora – tudo o que queria era sentir a pele macia de seu filho, provar o néctar dos lábios de sua amada novamente, acalentar-se nos braços de sua mãe. No entanto, ao estender o braço em direção ao bebê, seu carinho paterno foi bruscamente interrompido quando um sabre vermelho – sangue trespassou o corpo de seu grande amor- Anakin sentiu sua vida se esvair com um grito desesperado. Seu belo corpo caiu nos braços do jedi.
– Ani...não me deixe morrer...Ani...eu...te...am –
– Não...! ...meu deus, não! – enquanto Anakin praguejava intensamente, uma respiração asmática tomou o cenário silencioso – a figura negra levantou-o no ar, e ele sentiu um pesado punho espremendo-lhe a garganta. Em tom gultural, o ser de sombras disse:
– Somente um tolo acreditaria em uma ilusão tão débil... Veja – olhe ao seu redor, pretenso sith – nada disso é real.
Como um tiro certeiro, a realidade voltou, impetuosa, à mente de Vader, ainda no corpo do jedi.
– O que...você fez...comigo? – o falar era doloroso.
– Simplesmente lhe dei tudo o que mais queria... e lhe arranquei tudo. Você é um homem fraco, Anakin Skywalker.
– Anakin...está morto...! Não há...lugar...para a fraqueza dentro de mim! – tomado de sobressalto por toda a raiva que um homem pode ter, evocou uma onda de puro ódio, que o libertou, e jogou seu sósia para longe, abrindo um rastro de destruição no meio da plantação, ainda em Naboo.
– Sua coragem me impressiona, jedi caído – mas este é o meu mundo. Enquanto eu estiver no controle, sua derrota é inevitável – correndo em direção ao jedi, o falso Vader atacou – ligeiro, o jedi pegou seu sabre azulado, rebatendo o golpe – a força do inimigo era tanta que seus pés deslizaram para trás. Ambos passaram, então, a se golpear incessantemente, como se ainda estivessem nos tempos áureos dos cavaleiros jedi – ambos empatados, na maioria das habilidades – mas o sith possuía uma sabedoria sem igual – enquanto bloqueava um golpe, como uma muralha impenetrável, deixando-os em uma posição estática – levou a mão livre ao céu.
O cenário antes radiante e celestial cedeu lugar a um ambiente desolado feito de rochas e magma, inconfundível para Vader – antes no ensolarado Naboo, agora estavam no infernal mundo exterior de Mustafar, com incontáveis vulcões cuspindo lava no horizonte. O calor veio à pele do jedi tão real quanto o toque de seus entes queridos ainda há pouco.
– Como se sente diante de seu maior pesadelo, sith tolo? Sua fraqueza foi revelada, exposta à flor da pele – foi neste mundo que você nasceu – é neste mesmo inferno que você sucumbirá!
O falso Vader, ainda com o jedi resistindo a seu ataque, forçou sua defesa de forma brutal – tão forte que o jedi cambaleou para trás. Caído, ferido e cercado pelo calor escaldante, Anakin via, com os olhos fraquejando, a sombria figura de Vader – chegando a sentir, realmente, a mesma sensação que causara em centenas de pessoas – imparável, implacável, o sith se aproximava, uma sombra negra defronte à lava escarlate. No entanto, em seu coração, o Vader real não tinha mais lugar para o medo. Com um pulo, levantou e apertou os passos, saltando sobre seu algoz. Mas, assim que o alcançou, a figura se dissipou, como uma sombra que some de encontro a luz – Anakin bateu no solo, urrando de dor. O falso Vader surgiu à suas costas.
– Você não pode negar, não importa o quanto tente, sith: você ainda é Skywalker, sempre será; por mais que se esforce, nunca vai conseguir mudar seu destino!
– Por quê...você acha que vim aqui, covarde? Se ainda há uma chance de mudar tudo, não é você, sith patético, que ira se interpor entre mim e meu objetivo! – o jedi superou a dor e atirou o sabre contra seu reflexo distorcido – que, apesar de todo seu poder, não pode conter a velocidade do ataque – logo a figura sombria e familiar estava trespassada pela lâmina cor de safira – tombou, de joelhos, no chão magmático, frente a um rio de lava ardente. Como um grotesco truque de mágica, as trevas da figura sinistra se moveram, e a forma de Vader se alterou, para surpresa do jedi, na imagem angelical de Padmé, ainda grávida.
– Ani...você...o que você fez?! Você me matou...
– Pare... Pare de fazer seus jogos comigo! Eu sei que você não é real!
– Engano seu, jedi. Sou muito real – a mulher, subitamente, levantou-se e arrancou o sabre de seu peito, e o desmaterializou em suas mãos – de onde você tira sua raiva, sith? Quem você mais odeia? – Padmé o olhou como se sondasse sua alma – você, sith – é você, e o que você fez – essa é a fonte, a raiz de seu ódio, de seu poder – sem ela, tudo que tem em mãos perde o sentido. É por isso que não pode mudar seu destino – ao erguer a mão, o corpo do jedi começou a arder mais ainda – sua pele começou a queimar, gradativamente, das pernas até o tronco – caindo à margem do rio, logo seu corpo estava envolto em chamas, e seus membros desapareceram, em uma dor muito além dos limites humanos. Em menos de dez minutos, o jedi agora era uma aberração, com o corpo calcinado, pernas e braços reduzidos a cotocos, a cabeça latejando pelo traumatismo craniano.
– Vamos, Skywalker, admita: você me odeia por que eu morri. Diga! – a simples visão de sua amada era torturante, mas não era mais amor o que o jedi sentia, mas ódio. O mais puro, que vinha direto de seu coração negro.
– Já...disse...! ....Skywalker... está.... morto!!!!!! Em resposta a sua fúria, sua armadura e aparelho de sustentação de vida se formaram à sua volta, bem como suas próteses e o capacete – revigorado, Vader usou do próprio artifício de seu inimigo, e desmaterializou-se frente a ele – surgindo atrás, empalando-o com seu sabre. A forma de Padmé desvaneceu, dando lugar ao ser cadavérico que arquitetara toda a ilusão. A múmia, surpresa pelo choque, deixou o cenário se dissolver — aos poucos, a paisagem vulcânica derreteu – Vader e seu oponente retornaram ao templo onde haviam iniciado a batalha. No instante seguinte ao retorno, o corpo empalado se esfarelou, tornando-se pó, espalhando-se pelo cenário.
– Então, é nesta pedra que seu espírito se mantém – Vader ergueu o rubi com telecinese – este deve ser seu holocron, Lorde Andeddu – agora ele é meu – Vader o levou, levitando, percorrendo o caminho por onde viera. Próximo a entrada, um tremor sacudiu o solo do planeta – Vader quase tombou para a frente – passado o abalo, seguiu pelo portal ornamentado que marcava a entrada do templo, e outro terremoto ocorreu sob seus pés. Já no lado exterior, frente à alameda cercada por estatuas, ouviu um som ensurdecedor, como se fosse um grunhido selvagem oriundo das profundezas da terra – eis que então, sem aviso, o solo se abre em uma grande fissura, pela qual atravessa um monstro gigantesco – de compleição semelhante à de um rancor, o monstro não tinha olhos, mas um único orifício repleto de dentes, que lembrava um sarlacc – com dois pares de braços e as costas cobertas de espinhos, tinha aproximadamente a mesma dimensão de uma grande belonave — sua pele tinha textura similar às rochas do local – era como se o planeta tivesse ganhado vida, em resposta a seu invasor. Diante do monstro colossal, Vader escutou uma voz, que vinha em ecos do interior do templo:
– Você não tem idéia do poder que tem diante de si – como um redemoinho de areia, a imagem de Andeddu formou-se diante de Vader, a partir da mesma poeira que havia se tornado – sua alma é poderosa, sith, mas seu corpo está à altura desse poder?
A imagem novamente se desmanchou, e o colosso, inerte até então, avançou – causando solavancos no terreno em que pisava – com os braços, golpeou o chão pesadamente – Vader escapou, mas o impacto o lançou alguns metros em direção à fissura, fazendo-o rolar até quase alcançar a borda do abismo. Destro, se ergueu sob as pernas rígidas da fera, e saltou, agarrando-se às placas que surgiam na pele rochosa. Escalando o gigante velozmente, alcançou sua crista dorsal, que possuía uma trilha crescente de espinhos. Ao notar sua presença, o leviatã se sacudiu, tentando derrubá-lo – Vader segurou firmemente um dos espinhos, percorrendo, através do estreito espaço entre eles, o caminho rumo às largas costas – quando estava quase lá, o monstro esticou a espinha, e o terreno se inclinou a ponto de se tornar vertical – Vader, mais uma vez, pulou sobre um espinho, estabilizando-se no cenário íngreme. Ainda agarrado, Vader viu a imagem do sith novamente se materializar, na pele da besta – de pé como se grudado à parede, o ser esquelético olhava fixamente para ele – seus olhos eram tomados por uma negritude tão densa que pareciam dois abismos intermináveis.
– Você acha que sairá vivo deste mundo, pretenso sith? Em nossa primeira batalha, eu o subestimei – mas você ainda é indigno de ser possuidor de meu poder – com seu cetro dourado, o sith desmorto deflagrou um intenso relâmpago – o raio atingiu Vader em cheio, fazendo-o despencar da altura fenomenal em que se encontrava – jogado em direção ao solo, sua queda foi interrompida quando o colosso o agarrou, com uma de suas mãos gigantes. Em meio aos dedos da fera, Vader sentia como se toneladas de pedra o pressionassem – virando a terrível bocarra em direção a ele, do centro desta se sobressaiu um grande bico, que se abriu, prestes a saborear sua nova presa. Das laterais da boca, saíram vários tentáculos que envolveram as pernas de Vader – afrouxando os dedos, o monstro o soltou, e ele foi sugado em direção às fileiras de dentes pontiagudos.
– Agora, sith – é hora de juntar-se à sua amada – o deus-rei estava agora sobre a cabeça disforme da fera, deliciando-se com o desespero de seu algoz, que se debatia para evitar seu destino cruel — alcançando o sabre, cortou os tentáculos – com a dor, o monstro ergueu a boca para cima – com força – auxiliado pelos orbelisks que cobriam sua pele – Vader apertou o bico do sarlacc, evitando que se abrisse, e enfiou o sabre de um lado a outro, aproveitando o impulso para cortá-lo ao meio – saltando, rente ao corpo do colosso, usou a lâmina de energia para deter a queda, rasgando a pele rochosa de cima para baixo – enfim, aterrisando em segurança.
– ...sim...mas não....desse jeito... – Vader estava ofegante, mas sua reação era de triunfo – com a lesão que se estendia da cabeça ao abdome, a aberração cambaleou, desajeitada pela dor, e acabou caindo na fissura da qual, por ironia, havia surgido.
Triunfante, Vader estava com o traje rasgado, e manchado de sangue e gosma do titã que derrotara – pelos rasgos em seu traje, podia-se ver os besouros mesclados uns aos outros e atrelados à sua pele – parecia estranho, mas ele se sentia mais forte agora, depois da batalha, do que antes. Sua fadiga, suas feridas, foram todas anestesiadas pelos orbalisks que agora estavam em simbiose com seu corpo outrora danificado, que tornava cada vez mais poderoso. Com a poeira ainda erguida pela luta cataclísmica, Vader retornou à entrada do templo, e ao longe, pode avistar o diamante vermelho que encerrava a essência maligna de seu criador. Ergueu-a no ar, novamente a seu alcance.
– Eu venci, a vitória é minha – tenho o direito de reivindicar o que me pertence. Lorde Andeddu, seu holocron agora é meu.
Assim como o cubo que achara, graças aos desígnios da força, em Bal’demic, o rubi que possuíra o corpo de seu almirante não era uma simples pedra. O sith que o criou descobriu um modo de preservar sua alma enquanto seu corpo apodrecia, transferindo-a para um objeto. Inconscientemente, Vader se questiona se o imperador jamais se interessou por esses dons – o que realmente era difícil de conceber, considerando sua ganância e pavor pela hora da morte – sim, o arrogante Palpatine sabia, mas por algum motivo egoísta não considerava seu aprendiz digno de aprender estas lições tão valiosas. Esta era a oscilante relação entre mestre e aprendiz na ordem do sith, sempre fora assim – o mestre que detinha o poder e o negava, e o aprendiz que o almejava com fúria.
Com o rubi em mãos, pouco importava a Vader a devastação do cenário ou a morte de seus homens. Agora, seu objetivo estava cada vez mais próximo. Restava apenas mais um artefato para, então, invocar os espíritos dos antigos siths e usar seu imenso poder para poder, enfim, trazer da morte a pessoa que mais amara – apesar do choque causado pela ilusão que vivenciou, a experiência serviu, afinal, apenas para gerar mais expectativas em sua mente – e alimentar sua confiança – Vader agora tinha certeza – apesar do que estranho muun disse – os espíritos dos lordes siths reclusos às trevas poderiam, sim, ser capazes do que pretendia – mas jamais cederiam seu poder de maneira tão fácil.
Estaria Vader pronto para desafiar seu poder?
Capítulo 5: O cerne do mal
O caça movia-se, pelo motor iônico, através do cosmo profundo – era a nave de Darth Vader, semelhante ao caça-padrão da marinha imperial, mas ligeiramente modificado com inovações mecânicas, todas extraídas de peças da Siennar, o gigantesco conglomerado comercial responsável pela fabricação de naves e demais veículos – na época do fim da republica, suas criações foram de importância vital para o rumo das guerras clônicas – com a ascensão do império, a estatal foi monopolizada por sua cúpula militar.
Vindo do mundo misterioso de Prakith, Vader conheceu a difícil jornada pelo setor obscuro do núcleo profundo – sem um guia, seus únicos aliados eram sua experiência e sua formidável pericia como piloto. Agora, já saíra das proximidades do núcleo e já estava livre da gravidade traiçoeira que permeava o local – em direção a Korriban, Vader ligou o piloto automático enquanto se dirigia à ala médica – a nave de Vader era uma das poucas modificadas para comportar uma pequena ala de emergência, com dróide-médico e recursos básicos de prontos-socorros. Deitado na mesa de cirurgia, respirava e expirava o ar filtrado e insosso gerado pela câmara. Apesar da proteção extra dos orbalisks, as maquinas que executavam as funções vitais em seu organismo eram ultrapassadas, e precisavam ser trocadas constantemente, pois se danificavam facilmente. A rotina de cirurgias intermináveis era angustiante e humilhante para Vader, que geralmente ficava acordado, anestesiado apenas no local do corte. E agora, mesmo com os orbalisks, a cirurgia ainda era possível – um corte preciso poderia passar por entre eles e abrir sua pele. Como de costume, o dróide-cirurgião, responsável pela manutenção de seu metabolismo, preparou-se para iniciar a operação, mas hesitou.
– Sinto muito, senhor, mas não poderei reparar seus órgãos – Vader enrugou a testa diante da recusa do dróide.
– O que significa isso? – até então calado, deixou a raiva se manifestar em sua linguagem – os órgãos precisam de reparos.
– Sinto muito, milorde – o tom formal era paradoxal à sua atitude – tenho ordens expressas.
– Quem lhe deu essas ordens? – Vader ameaçou amassar a cabeça do robô, mas se conteve, pois este era o único médico que havia em sua nave.
– Essas ordens correspondem à minha programação, senhor.
Vader entendera, por fim – todos os seus dróides eram produzidos e programados sob supervisão do imperador, e, no fim das contas, eram conduzidos sob sua vontade – o imperador não devia estar muito satisfeito com as ações de seu ilustre discípulo – além de desobedecê-lo, invadiu sua residência, em Coruscant – Vader forçou seus servos a guardar segredo, mas no fundo, sabia – que cedo ou tarde algum deles revelaria o ocorrido a Palpatine, sob tortura – algo que ele entendia muito bem. O imperador deve estar punindo-o, executando, por fim, uma diretriz que ele nunca esperaria usar – uma punição cruel – e eficaz – Vader sabia que, diante de seu poder, qualquer homem poderia ser dobrado, mas, contra uma máquina, uma inteligência artificial isenta de emoções e limites humanos, ele sabia, nada poderia fazer. Com os sistemas internos danificados, não haveria muito tempo – Vader seria forçado a acelerar seus planos, caso quisesse chegar ao santuário sith em Korriban.
Entrando na velocidade da luz, a pequena nave imergiu espaço adentro, como se sumisse no horizonte – graças à estrutura acoplada ao veiculo, sua propulsão era superior à maioria dos caças espaciais – somente um piloto habilidoso e astuto saberia pilotar um mecanismo complexo como este.
Despontando no horizonte da órbita de Vjun, Vader penetrou na atmosfera ácida do planeta – inofensiva a seus sistemas de filtragem de ar – voando, com velocidade acima do comum, para sua fortaleza escondida à margem de um lago de acido sulfúrico. Com um hangar previamente preparado, ele recolheu a nave ao interior do castelo de Bast. Ao descer do veículo, aproveitou o ar filtrado recluso ao ambiente hiperbárico, e tirou o capacete, dirigindo-se à sua sala de meditação, onde havia deixado o holocron cujo espírito o auxiliara, dando-lhe uma chance que não poderia desperdiçar.
Vader não conhecia Korriban – o mundo afastado e escondido dos mapas galácticos era vasto, e ele precisaria de um guia experiente para lhe indicar o caminho. Sem tempo e opção, escolheu levar o holocron consigo – o estranho sith que lhe negou o nome havia mostrado a ele cada uma das etapas necessárias ao que pretendia executar – com mais conhecimento e disposição para compartilhá-lo, ele era, segundo Vader pensava, a melhor escolha em uma situação conflitante como aquela. Sobre a mesa elíptica e prateada, Vader viu o cubo, cuja presença era tão poderosa que podia percebê-la de longe – o mesmo ocorria com o cristal rubro que trouxera do templo do deus-rei, Darth Andeddu.
A poucos passos da mesa, Vader parou por um instante – repentinamente, sentiu uma presença – algo curioso, já que a localização de seu refúgio era desconhecida da alta cúpula do império, e do próprio imperador – este era o principal motivo por ter escolhido um mundo tão distante e inóspito como Vjun. Desviando-se de seu objetivo, seguiu ao complexo de corredores que davam acesso à entrada do palácio – por questão de segurança, levou a mão à espada – a pelo menos dez metros, podia-se ver o portão semicircular que bloqueava a porta – munido de biosensores com reconhecimento genético, que só permitiam a entrada de seu morador – além de Vader, ninguém mais conseguiria entrar. Mesmo assim, a presença forte se achegava cada vez mais, veloz – foi então que o portão, mesmo maciço, foi cortado ao meio, por um sabre – de cor negra – e suas duas metades foram puxadas para fora com força. Através da entrada destruída, surgiu um homem – seu traje era semelhante ao usado pela guarda pessoal do imperador -mas este era negro, e portava um sabre de luz duplo, cujo tamanho lembrava uma lança. Vader o reconheceu – ele era um dos chamados soldados das sombras, membros da escolta escolhidos pessoalmente pelo imperador para se sagrarem guardas de elite, especializados no cumprimento de missões de caça e assassinato, com lealdade e obediência tais que beiravam o fanatismo. Seu capuz era sólido e liso, exceto pelo visor em forma de T – característico dos trajes mandalorianos – seu traje, assim como o de Vader, era totalmente negro, de modo que sua silhueta mesclava-se ao breu à sua volta.
Segurando o sabre duplo com apenas uma das mãos, acelerou, ensandecido, rumo a Vader, que estendeu os braços, segurando firme o sabre, em posição de defesa – ao atingir seu oponente, o guarda girou as lâminas em um círculo completo, ao que Vader se desviou, sendo, porém, atingido no antebraço – sem efeito. Com os músculos entorpecidos pela ação dos parasitas, Vader sentia seu poder se triplicar – com um golpe de um lado a outro, jogou o guarda para trás, que não recuou – em mais uma tentativa, ensaiou dois golpes contra o sabre rubro de Vader, esperando que sua defesa fraquejasse – movendo o corpo à frente, Vader chutou, com brutalidade, o homem, e, em seguida, com a mão livre, acertou um soco na cabeça do guarda – rachando o vidro de seu visor.
Sem se abalar, o guarda de elite estendeu o braço, jogando um pulso de energia contra Vader, que voou em direção à sala de onde viera, batendo as costas na quina da mesa de aço mandaloriano – mesmo com a armadura orbalisk, o impacto se alastrou por seu tórax. Ao se levantar, recobrando-se do choque, Vader pode ver o guarda jogando sua capa ao lado, de modo que seus movimentos ficassem mais amplos – após livrar-se do manto, seu algoz avançou – Vader, destro, colocou-se do outro lado da sala – em um potente salto, seu adversário girou o corpo no ar, com a espada em riste, simulando um ciclone mortífero – rolando para o lado da sala oval, Vader escapou, mas o golpe rearranjado oriundo da aterrissagem do guarda sombrio atingiu seu ombro, arrancando a placa de obsidiana que o cobria, expondo um dos maiores dentre os artrópodes que aderiam-se a seu corpo. Com grande agilidade e notável pericia em esgrima, a figura negra logo estava diante dele, executando mais um empuxo, que o jogou contra a parede. Com uma ampla camada de proteção, Vader mal chegou a sentir a dor.
Andando com um caminhar firme e os pulsos cruzados sobre o cabo do sabre, passou a tomar espaço de seu algoz, que insistia em manter-se próximo, pronto para acertá-lo quando cometesse algum deslize. Assim, desse modo, ambos seguiram de volta ao corredor. Girando o sabre duplo – desferindo golpes em ‘X”, revezando entre as duas mãos, o guarda cada vez mais forçava Vader em direção à entrada que destruíra – seus golpes eram tão precisos que marcavam as paredes sólidas que forravam as laterais do corredor. Esperando pelo momento certo, Vader finalmente achou uma brecha no ataque e o rebateu – ao choque das laminas, faíscas se soltaram, em um clarão. Cada um dos duelistas agora lutava para não esmorecer – ambos com os sabres estáticos, esforçando-se para enfim, valer-se da fraqueza do oponente.
Com a força multiplicada pelas substâncias em seu sangue, Vader soltou uma das mãos e agarrou o guarda na altura do peito – com toda a fúria, deu um grito, abafado pela máscara – e atirou o guarda à entrada de seu palácio, que se chocou com força contra o solo – seus membros fraquejaram – aproveitando a fraqueza do algoz, Vader novamente o chutou – e o corpo do guarda já atordoado rolou na areia, parando bem próximo à margem do lago que beirava o castelo de Bast. Já exaurido e sem sua arma, o homem acabou à mercê de Vader, que o pegou, com as duas mãos, pelo pescoço, erguendo-o acima de sua própria altura.
– Foi o imperador que o mandou, não? Como você me encontrou? — cada sílaba proferida por Vader ressoava com raiva – Responda!
O homem demorou alguns instantes para responder.
– Ras...tre...ador. Não foi...difí...cil...encontrar seu...castelo – mesmo diante da morte, o homem expressava determinação em sua fala.
– O imperador sabe da localização do castelo?
– N....Não...eu...o...rastreei...por conta pró...pria. Mas...minha nave – o veículo do membro da guarda das sombras repousava sobre um banco de areia próximo – o imperador...vai seguir seu sinal...seu segredo não durará muito tempo...
– Hmm. Claro, todas as naves dos agentes do imperador são rastreadas. Receio, então, que terei de fazer uma queima de arquivo.
Soltando o homem, seu corpo veio a seus pés como um saco de feno – concentrando sua telecinese sobre a nave — que Vader reconheceu como sendo um dos novos caças TIE – elevou-a, delicadamente, movendo-a para o lago de ácido.
– O que você está... – reunindo suas forças, o guarda se ergueu, ameaçando seu alvo – mas já era tarde. Já com o caça sobre o lago, simplesmente soltou-o – ao cair, o metal corroeu-se por completo – a outrora imponente nave desintegrou-se em segundos.
– Você pensa que escolhi este mundo por acaso, guarda? Este não é um lugar agradável aos visitantes — como você infortunadamente descobrirá.
Com a mesma técnica usada por seu próprio inimigo inda há pouco, reuniu um forte pulso de energia em sua mão direita, liberando-o no peito do guarda à sua frente – a onda destruidora levantou diversos grãos de areia e atingiu o homem em cheio, fazendo-o rodopiar por vários metros até cair no lago corrosivo – mesmo sua forte armadura não agüentou e derreteu — assim como sua carne – desaparecendo, gradativamente, em meio ao ácido de cor acre.
Com dois de seus obstáculos eliminados, Vader rapidamente voltou a sua fortaleza — agora com a fachada destroçada – com sua percepção apurada, sabia que os órgãos artificiais dentro de si já começavam a dar sinais de falha – ainda mais debilitados que antes pela batalha intensa que ocorreu – sua respiração era mais difícil, e os músculos não eram mais assistidos pelos estímulos elétricos – trabalhando, enfim, por conta própria, como Vader tanto antecipara em seu treinamento particular. A única coisa que ainda permanecia em funcionamento era sua nutrição – mas ele não fazia idéia de quanto tempo mais o sistema permaneceria enviando nutrientes para sua corrente sanguínea. Com ainda muitas batalhas em seu percurso, e abandonado por seu próprio mestre, ele teria de ser independente, como fora, em sua outra vida – encontrar um meio de conseguir chegar vivo até seu destino.
Momentos depois...
A ala médica do castelo de Bast era bastante ampla, certamente bem mais refinada e com muitos mais recursos de que dispunha em suas belonaves. Já sem o traje que o confinava, sua única prisão era a carapaça dos dezenas, centenas de orbalisks que o circundavam – achegou-se da mesa de operações, da qual o dróide médico inspecionava em cumprimento de sua programação.
– Diga-me, dróide – o respirar de Vader, lentamente, tornava-se mais difícil — você também está sob ordens do imperador? Se recusa a restaurar meus órgãos vitais?
– Milorde, minhas capacidades estão completas e em total funcionamento –mas, por algum motivo que não pude definir, minhas diretrizes me impedem de realizar qualquer operação médica – algo está interferindo em minha programação.
– Muito bem. Diga-me então, apenas o que poderia ser feito para prolongar seu funcionamento, sem precisar valer-se do corte abdominal – como você disse, não tem permissão para realizar a cirurgia.
– Prolongar o funcionamento dos órgãos? Senhor, a tecnologia da qual são compostos é ultrapassada – receio que o único método seja mesmo o cirúrgico.
– Tem certeza de que não há outro meio?
– ...acredito que...uma descarga elétrica...na freqüência correta – sim, isso poderia — não consertar, mas retardar a pane geral.
– E quanto tempo duraria o efeito gerado?
– Eu diria...aproximadamente 12 horas, dependendo da potência da corrente.
– Que freqüência seria esta?
– ...entenda, milorde – as máquinas que cumprem suas funções mais necessárias são feitas de mecanismos similares ao da maioria dos dróides – inclusive este.
De repente, a solução que Vader buscava estava bem diante dele.
– Então, é essa freqüência elétrica que os mantém funcionando, certo?
– Sim, milorde.
– Excelente – reunindo toda a força que acumulou nos músculos do braço, Vader agarrou o dróide-cirurgião, e, segurando-o com um braço – passou a esmurrar seu peito metálico com o outro — com os golpes ensandecidos, o metal passou a afundar, retorcido – até o membro sintético de Vader adentrar, por completo, no tórax do robô – local onde se localiza sua fonte de energia – um núcleo de irídio, movido a eletricidade. Ao alcançar o núcleo energizado, uma corrente forte o atingiu, espalhando-se por todo seu corpo – apenas alguns segundos foram necessários – se a corrente se torna-se muito densa, os orbalisks começariam a definhar, e seus órgãos e tecidos queimariam de dentro para fora. Vader, destro, retirou a mão do dróide, e sentiu algo diferente em seu organismo. O teste em seu painel peitoral confirmara: os órgãos artificiais estavam funcionando regularmente – mas o preço podia ter sido muito alto – os orbalisks em sua pele se agitavam, feridos pela energia – Vader tinha duvida se agüentariam um segundo choque – e sabia muito bem o que aconteceria caso morressem. Graças a sua empreitada, Vader havia ganho mais tempo, mas continuava atado à um destino infeliz – que só poderia ser freado se completasse seu plano a tempo.
Sem pestanejar, seguiu a saleta que antecedia o hangar de sua nave – no local, vestiu seu traje reforçado, com auxílio incomôdo de alguns dróides – rapidamente, já havia embarcado – mas esta viagem seria diferente – não poderia utilizar o computador central como piloto, pois seu destino, Korriban, não constava nos registros galácticos – o trajeto teria de ser realizado manualmente – seria árduo, mas era o único jeito. No entanto, agora Vader trouxera consigo seu holocron – pois sabia que esta seria a etapa final, e necessitaria de instruções e de um guia para conduzi-lo pelo mundo-natal da ordem dos siths. Enquanto decolava, sua mente entrou em turbilhão, repleto de pensamentos.
Vader se incomodava profundamente com a repressão do imperador – com que motivo enviara, afinal, aquele guarda de elite em seu encalço? Também não lhe apreciava a idéia de ter seu transporte pessoal rastreado – que seu mestre sempre fora desconfiado, Vader já sabia – mas não imaginava que sua petulância pudesse ir tão adiante. Desta vez, ele ultrapassara todas as barreiras – quanto mais ódio de seu mestre surgia em seu cerne, mais motivado se sentia para dar cabo de sua arriscada missão – era algo perigoso, como presenciara, não podia ser comprovado antes da hora – seria, no fim das contas, certo confiar em um sith que mal conhecia? Até onde se sabe, poderia ser o próprio imperador o autor do artefato – ele poderia estar sendo usado, sem saber – não seria a primeira vez, e não seria a última. Estaria Vader novamente agindo como marionete de Palpatine? – as dúvidas enchiam sua mente – a idéia era concreta, mas não fazia sentido – por quê mandá-lo em uma missão importante e interrompê-lo com a ameaça de um assassino em sua trilha?
“O que importa, afinal?” – pensava – mesmo que fosse mais um estratagema maligno do homem que o trouxera ao lado sombrio, talvez ele pudesse tirar vantagem disso – usar os artifícios do imperador em benefício próprio – talvez o momento do aprendiz superar o mestre chegasse, então, antes do que o imperador – e Vader – imaginavam. Mas agora, tudo parecia incerto – o futuro estava encoberto, oculto – e apenas a força tinha ciência do que realmente aconteceria. De qualquer modo, Vader tinha plena certeza de que seu destino, seja qual fosse, só se concretizaria por meio de sua intervenção – e de mais ninguém. Se havia um lugar onde pudesse limpar sua alma da fraqueza e da bondade que ainda residiam dentro de si – como infortunadamente vira em suas experiências de cura – se havia um poder bruto e magnífico dentro dele – o “poder do escolhido”, segundo o imperador – Korriban, o cerne do mal, seria a chance perfeita – o momento que tanto sonhara, tanto almejava – o dia em que o jedi finalmente tombaria, e em seu lugar, um sith surgiria – para enfim, trazer paz à galáxia.
Momentos depois...
O setor Essdran era indubitavelmente o canto mais obscuro da galáxia. Graças à energia negra que prevalecia no local, sua visão se fazia embaçada aos pilotos incautos – apenas aqueles acolhidos pelo lado sombrio da força eram capazes de encontrá-lo, e aos mundos sith existentes dentro dele. Quando jedi, Anakin Skywalker ouvira histórias tenebrosas sobre o mundo que dera origem aos arquiinimigos dos jedi – um mundo de trevas, dor e sofrimento – julgando que os sith haviam sido extintos, os jedi não viram mais ameaça no distante planeta que agora despontava frente ao caça de Vader – após a ascensão do império, Korriban, assim como Kamino antes dela, foi apagada do mapa intergaláctico por ordem do imperador. Até mesmo seu mais fiel discípulo não tinha conhecimento da existência de tal mundo. Vader sempre se questionou sobre o assunto, mas realmente nunca tivera tempo ou interesse para descobrir. Agora, guiado pelo espírito de um antigo sith, ironicamente ele é levado justamente ao cerne do mal – que muitos diziam ser fruto da manifestação do próprio lado negro frente à luz representada pela ordem jedi. Agora, os jedi já não existem mais, e Korriban pode ser considerada apenas como mais um mundo imerso nas trevas.
Saindo do hisperespaço, através de uma rota abandonada desde a época das antigas guerras entre jedis e siths, Vader estava a poucas milhas de seu destino – sua prova, seu teste final – Korriban foi, por milhares de anos, a mãe, por definição, de vários lordes sombrios – os mesmos siths que agora repousam em seus mausoléus. Se havia um lugar onde pudesse invocar o poder sombrio – derrotar suas fraquezas – este lugar sem dúvida seria este. Para Vader, perdido no lado negro desde o fim das guerras clônicas, o planeta parecia um monstro colossal, cujas milhares, infinitas vozes malignas gritavam ao mesmo tempo – mesmo ainda distante, podia sentir um peso, uma força imensurável clamando em fúria e ódio.
Prestes a entrar na densa atmosfera do mundo desconhecido, Vader mais uma nava surgindo atrás, e uma presença que conhecia muito bem. No cockpit do caça, Vader pôde ver, de relance, o monstro que derrotara duas vezes e que teimava em driblar a morte – mais uma vez, lançava-se, insano, em direção ao seu alvo – adentrando o planeta sith, ambos se enveredaram em uma perseguição aérea – de inicio tomado por nuvens rubras repletas de relâmpagos, o cenário despontou, isolado e perturbador – era o chamado de Korriban, o chamado dos mortos. A apenas alguns quilômetros da superfície, Vader ainda era perseguido, e não conseguia, de forma alguma, evitar a figura grotesca que o caçava – disparando tiros de blasters, que ecoavam em meio ao ambiente sepulcral. Dando uma volta completa em seu eixo, Vader desistiu da defesa e decidiu-se pelo ataque – o canhão de plasma sobressaiu do bico do caça – em aparente vantagem bélica, ele disparou uma carga completa – surpreendentemente desviada com um giro vertical da nave inimiga. Passando abaixo dela, Vader girou em 180º graus, saindo à sua retaguarda – parando rente à sua lateral, onde abriu a escotilha de seu caça, e saltou para o lado – caindo sobre a fera – com o próprio punho, quebrou a cabine e agarrou-a, puxando-a para fora com o punho – a ação geralmente era danosa para Vader, mas, desta vez, não havia dor – nem cansaço. Com a força muscular acima do limite humano, atirou a criatura, da nave, em direção ao chão – que notou, estava bem mais próximo do que antes, devido à gravidade intensa do mundo sith. Enquanto o inimigo caía, Vader tomou retornou ao lugar na sua nave, assumindo o comando. Naquela velocidade e ritmo, jamais conseguiria uma aterrissagem agradável – por sorte, esta não era a primeira nem de longe.
O terreno desértico parecia estável, e Vader usufruiu da vantagem – a nave, rápida, entrou em atrito com o solo, soltando faíscas – com o desgaste, começou a desacelerar, e parou alguns metros à frente. Realmente ela era o único elemento vivo – em um raio de vários metros, nada havia além daquele mesmo cenário uniforme, mórbido e desolador.
Vader não fazia idéia de onde estava – a batalha o havia deslocado de sua meta – se não conseguisse achar uma direção, suas opções se esgotariam rapidamente. Por sorte, havia trazido o holocron consigo. O sith anônimo que o ajudava podia não ser confiável, mas fora útil como guia. Mais uma vez, ergueu o objeto – que exalava uma estranha aura, quase mágica – que respondeu a seu toque. O sith estava diante dele novamente, sentado em seu opulento trono de pedra.
– Então, parece que você conseguiu – o estranho não demonstrava nenhum contentamento ou satisfação – chegou a Pesegan.
– Vamos, diga-me, estranho sith: onde foi sepultado o senhor da fome? – Vader sempre calculava suas falas com clareza, mas agora deixava escapar seu senso de urgência.
– imagino que possa ouvir as vozes – o sith continuou indiferente.
– Sim, eu as ouço – um coro aterrador e desesperado de vozes sombrias – de onde elas vêm?
– estas são as almas dos muitos siths que aqui repousam, forasteiro – seus túmulos podem ter sido saqueados, mas seus espíritos permanecem. No entanto, há um deles, do qual até os mais temidos mestres de sua época tinham medo.
– Lorde Nihilus.
– Sim. Entenda, o propósito de todo sith não é a viver eternamente, mas viver para o mal – ainda assim, muitos eram apenas carne envolta em sombras – mas o senhor da fome não – ele era o mal encarnado – um fragmento do lado negro materializado em carne, sangue e ódio. Ouça as vozes, filho de Plagueis – a resposta está bem à sua frente.
À sua frente, estendia-se um terreno árido e sem vida, que terminava em uma depressão, que não conseguia discernir.
– Vamos. Caminhe. Os desígnios da força lhe favorecem.
Sem nenhuma direção que o pudesse dirigir, Vader seguiu então, à frente, em linha reta, até o aclive. Com um vento seco e frio às suas costas, caminhou por aproximadamente cinco metros até um grande desfiladeiro – de vários quilômetros de extensão. Tudo o que ligava a margem onde estava à outra era uma ponte de pedra, que de tão bem esculpida era difícil de definir se fora feita por ação do homem ou da natureza. Olhando para o fundo do abismo, reconheceu que ali era a fonte das intermináveis vozes cacofônicas a seu redor – a imensa falha no solo era como um poço de almas malditas – assombrado por séculos incontáveis – pelos siths que condenaram a si mesmos por suas ações pecaminosas. Ainda com o cubo na mão, Vader continuava atento ao sith.
– Este é o ponto final do vale dos lordes sombrios – seu trecho mais profundo e mortal – a passagem à sua frente é o único meio de chegar ao local de repouso de Lorde Nihilus, onde seu espírito jaz dentro de suas vestes.
– Imagino que esta incursão, como as outras, também terá um preço – aparentemente, o sith apontava os caminhos, mas sempre omitia os riscos existentes.
– Claro que terá, se você estiver disposto a assumi-lo. Vale a pena arriscar sua vida pelo seu maior desejo? – a questão exposta pelo sith tocou fundo na alma dilacerada de Vader.
– ...sim.
– Então, se você realmente o quer, lhe garanto que a vitória será sua – não se esqueça, filho da força – os títulos estranhos ainda incomodavam Vader – você é o escolhido, os extremos da força nada são para você. E através de você as profecias irão se realizar – depois da inesperada colocação, a imagem sumiu novamente, e o cubo – de modo bizarro – pareceu murchar para dentro, como se sua matéria se consumisse – nem mesmo a poderosa aura que continha havia restado – Vader não entendeu, mas considerou que sua missão, afinal, estava em seu epitáfio. Avançando um passo após o outro através da ponte estreita de quase cinqüenta metros, reuniu toda a sua determinação e seguiu pelo caminho mortal, tendo, sob seus pés, a fenda escura e negra, de cuja boca fétida saíam apenas maledicências.
– Não importa o quão poderoso seja, senhor da fome – minha vontade guiará meu destino – disse Vader para si mesmo, em um lampejo de esperança.
Sua concentração se rompeu ao ouvir o som de passos se aproximando velozmente – ao virar-se, lá estava seu rival – o monstro, a aberração que se interpôs entre ele e seu objetivo – como um pesadelo a atormentá-lo perpetuamente – um zumbi, um morto que ainda exibia vitalidade – Vader não fazia idéia de quem o havia concebido – se fora um fruto da feitiçaria macabra dos sith ou simplesmente um homem corrompido por algum poder maligno – o fato era que as células da criatura imortal que avançava curavam-se com uma rapidez espantosa – um dom que faria muitos lordes ao longo da história se remoerem de inveja. Vader não sabia como poderia derrotá-lo. Só sabia que teria de fazê-lo, a qualquer custo.
Alheio a todos o perigo que se expunha, o ser misterioso lançou-se contra seu algoz, parado na ponte de rocha firme, com as pernas sólidas contra o solo, inabalável. Ao ligar de seu sabre vermelho, Vader ligou também o seu, e que se seguiu foi o estalar do encontro entre as duas luzes – uma cena banal para qualquer jedi ou sith – apesar da provável queda que sofrera, o monstro não exibia nenhuma fratura ou corte profundo, apenas alguns cortes superficiais – e sua força também não mudara em nada desde a ultima luta que travaram. Seu vigor era tanto que parecia ser este o primeiro encontro entre os siths – ainda embalados em um estático teste de força, os sabres se separaram, e a volta se deu ainda mais potente – segurando firme a arma com ambas as mãos, Vader aplicava seu estilo de luta personalizado – esforçando-se para subjugar o adversário e compensar o painel de controle em seu peito – um inevitável ponto fraco – já a misteriosa criatura lutava feroz e furioso, com uma habilidade desaparecida desde a época de ouro dos jedis – quando os duelos com sabres eram não uma disciplina, mas quase uma arte a ser essencialmente dominada por qualquer pessoa sensível à força. Com o entrave balanceado igualmente, ambos seguiram, trocando golpes e cortes, movendo-se cuidadosamente para não beirar os limites da ponte.
Vader estava diferente da última vez que encarara a fera diante de si – que por sinal, quase o matou – com a força aumentada pelo sangue cheio de fortificantes – fornecidos por seus orbalisks – ele estava bem mais forte – e mais experiente, devido às aceleradas lutas que travara em Prakith e Vjun – onde aprendera, com a força bruta, a enganar os limites de seu corpo e mente. Ainda assim, podia sentir nos ossos cada golpe desferido pelo homem desalmado, de tão devastadores que eram seus golpes.
Depois de muito digladiarem, Vader e o sith agora estavam quase na metade da ponte – cuja rigidez começara a falhar pela luta – ambos se entreolhavam – cada um sentindo a raiva do outro – absorvendo o prazer do ímpeto, da selvageria da fúria em sua forma carnal – cada um analisando seu inimigo, como um predador que se prepara para dar o bote fatal. “Não posso matá-lo. Como poderei me livrar dessa maldição?” – pensou Vader, calculando em sua mente quais eram suas opções. Súbito, em sua brilhante mente apurada, a resposta surge – quase que instantaneamente, ele a aplica.
– Já estou farto de sua interferência, fera – não me interessa de que blasfêmia você nasceu ou quem o enviou – não permitirei mais que fique em meu caminho – girando a lâmina em um semicírculo, cravou-a, com todo seu vigor e raiva no chão da ponte, que rapidamente encheu-se de rachaduras — Vader reuniu toda a força a seu alcance ao torno do naco de pedra onde o sith estava, com as pernas bambas – rachando o solo no lado oposto ao sith, fez um esforço – sentindo a fúria transbordar-lhe às veias da epiderme, a pedra cedeu, e o trecho violentado desabou – com um salto de misericórdia, a aberração agarrou a borda onde Vader estava.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– Pode sentir as vozes abaixo de você, monstro? Em breve, você será uma delas! – Vader tomou impulso para atingir os braços do inimigo – agora à sua mercê – mas se deteve ao presenciar uma cena inusitada.
A cabeça do ser, ainda há pouco alheia à qualquer feição ou trejeito que pudesse ser associado a alguma raça ou hibrido – agora modificou-se, radicalmente – para surpresa total de Vader, a face antes desumana deformou-se – o crânio achatado se alongou, assim como a face – uma boca bem distinguível surgiu. Em uma questão de segundos, o ser inominável agora era um muun, cujo rosto e aura sentira, assustadoramente familiares – o ser a seus pés era o mesmo sith que havia visto no holocron – que o havia guiado e conduzido em sua tortuosa trilha em busca do que procurava.
– Meu filho...! Escute...não há muito tempo – a voz era exatamente a mesma que tanto o revelara sobre os segredos profanos da ordem sith – retorne...! se prosseguir...as conseqüências...você não tem idéia do cataclisma que ocorrerá se tiver sucesso...
Vader permaneceu calado, pensativo por alguns momentos – teria o sith que o guiou possuído a fera que enfrentava? Por um segundo – e apenas um segundo – sua mente duvidou – mas em seguida, recobrou a razão – ou pelo menos era o que pensava. Finalmente, disse:
– Não tente me enganar, sith tolo – já vivenciei uma ilusão antes – não será por meio de outra que desistirei dos meus anseios – com o fim da sentença, prosseguiu com o golpe até então contido, trespassando a cabeça do ser, cujos olhos agora meneavam como se em delírio – com a trepanação brutal, seu corpo amoleceu, caindo, por fim, no abismo repleto de almas malditas. Com o trajeto livre, Vader continuou a andar, até chegar ao outro lado do penhasco.
Desde que chegara àquele mundo de sombras e pó, seus sentidos eram atordoados por uma pressão quase esmagadora – mas, no lugar onde agora estava, o peso era titânico. Como se esmagado por uma mão invisível, seu corpo se arrastava, com dificuldade – seus passos eram pesados e doíam em cada fibra que fazia uso – mas o mais aterrador era o contraste do mausoléu – do qual se achegava, quase rastejando – que, diferente do abismo ensurdecedor, jazia em profundo silêncio – nenhuma voz ou aura era sentida. O túmulo a sua frente era atípico – não havia inscrição, marca ou sequer uma prece – apesar de sua suntuosidade, que remetia aos tempos de glória da irmandade sombria – não havia homenagem ou alegoria ao sith ali enterrado – se é que tal definição realmente seja correta.
Perto da entrada, uma escada de poucos degraus dava acesso à entrada – um portão, lacrado por um grande pedra negra. Lutando contra seu próprio corpo, que o traia, Vader movia-se por meio de sua fúria – principal fonte de seu poder – era ela que o movia em frente, mesmo com a respiração no limite — e a gravidade ameaçando tragá-lo, impiedosa. Com os músculos no máximo de seu poder, estava agora diante da porta – a pressão tornara-se maior. O sacrifício era tamanho que apenas para erguer sua coluna toda a sua força tinha que ser ministrada – apesar da dor – do cansaço – do imensurável peso em seu corpo – ergueu o sabre, a ponto de gritar de dor – e desceu-o de cima a baixo – cortando a pedra em duas. Com uma onda em circulo, afastou os fragmentos de seu caminho.
Por fim, com uma persistência admirável, entrou na tumba – mas nesta, não havia nenhum manuscrito, registro ou dados que contavam a história do sith – Nihilus não foi sepultado – foi preso – sua presença mortal ali fora confinada, para o universo jamais visse sua terrível aura novamente. Vader havia perguntado ao sith se haveria algum preço – agora, ele entendeu – não enfrentara nenhum ardil ou perigo – ao longo de toda esta jornada – cujo preço – cuja conseqüência – fosse tão drástica quanto esta que agora se exibia a seus olhos, por trás de suas lentes – em meio ao salão vazio, andou até o sarcófago que encerrava o senhor da fome.
“Nihilus está morto. Sua alma se apagou há muitos anos. Não há razão para não prosseguir – como sempre, Vader decidiu a favor de seu futuro, nem que isso significasse destruir o futuro da galáxia – é o que eu espero.”
Movendo, com força acima de seu normal, afastou o lacre que fechava o caixão – dentro dele, não havia um corpo – este já havia morrido há muito – mas uma estranha máscara, guardada em uma abertura especialmente esculpida para guardá-la. Foi então que percebeu – a pressão mortífera que o torturou havia sumido – certamente um artifício dos antigos siths que temiam que a tumba fosse invadida — cujo efeito fora, de algum modo, cessado com a abertura da tampa. Ergueu a máscara, no ar, notando suas curiosas marcas e a essência contida nela – Vader olhava diretamente ao estranho artefato, e tudo o que via era um imenso vazio – uma aflição que lhe dominaria facilmente a alma, caso não desviasse o olhar. Sem nenhum empecilho para lhe oprimir, o caminho de volta correu bem mais calmo – seu próximo destino, o templo sith, segundo as coordenadas que conseguiu em sua intrusão forçada na biblioteca real do imperador, estava em Dreshdae, a capital de Korriban – por muitos milênios o coração do império sith – e do próprio lado sombrio. Cruzada novamente a ponte, Vader estava na nave novamente – acionando os sistemas geográficos do computador de bordo, um mapa detalhado mostrava o exato local do grande templo do extinto império sith – a única informação que fora capaz de roubar dos arquivos do imperador, cujas informações mais valiosas eram encobertas por poderosas barreiras. Era o bastante – e necessário para o que Vader pretendia. A última peça agora estava em sua posse. Restava apenas iniciar o jogo. No entanto, cada experiência que vivenciara nesta jornada inesperada ensinou a ele que não se pode estar preparado para o imprevisível. E, assim como ocorreu em Ambria, em Prakith, e em sua chegada à Korriban, há pouco – seu passo seguinte era obscurecido por sombras – nada poderia prepará-lo para o que viria a seguir.
Capítulo 6: O arquiteto
Cortando a aridez que o cercava, a figura negra parecia se mesclar às trevas que cobriam a superfície do planeta. Veloz, o sith percorria o terreno, com a poeira agitando-se às suas costas – um vulto sombrio meio a uma imensidão sem vida – na planície fúnebre que se estendia, as fortificações de Dreshdae erguiam-se no horizonte como montanhas ornamentadas – a escuridão aos poucos cedia espaço aos raios de luz do único sol que banha as sombras – Horuset — mas nem mesmo sua luz enrubrecida podia afastar aquela sensação grotesca aos viajantes – muito menos a um sith – cuja alma já era irremediavelmente ligada ao lado sombrio – para o qual as sombras eram suas eternas aliadas – e as trevas, suas companheiras.
Como um santuário esquecido em uma terra morta, os templos siths, cercados por estátuas gigantescas de homens com as faces cobertas por um capuz – eram ainda mais impressionantes que o complexo que guardava os restos de Andeddu – nem mesmo o templo jedi, em seus dias de brilho, possuía tanta opulência. A aura de malignidade eterna que rodeava o local podia ser desagradável para os forasteiros – mas para Vader, era como voltar para casa. Era como se ali – no antro do culto sombrio – seu poder o tomasse por completo – cada órgão, tecido, célula – todo seu ser respirava a essência de puro mal que emanava daqueles santuários aterradores. Mas toda esta convergência vinha de um único local – ao longe, no exato meio da cidade – havia o maior de todos os templos – patéticos diante de sua magnitude. O templo sith era como uma colossal pirâmide – o solo da região, de areia e pó – abria um caminho até sua entrada – cujo portão inexistia, como se os antigos espíritos siths chamassem a todos que por ali passassem. Era exatamente o que Vader sentia. Nunca havia visto tamanho mal, ou energia escura – um poder fenomenal, ao alcance de apenas alguns passos – a tentação era difícil de se resistir.
Parando a nave rente ao solo arenoso, seguiu a pé, carregando os artefatos em uma caixa de vidro sólida – atraído para a fonte do poder absurdo que irradiava à sua volta, Vader perguntou-se se não acabaria como o tolo almirante Nonrodd – hipnotizado pela essência macabra de Lorde Andeddu. Enfeitiçado ou não, ele sabia que seu destino ali se concretizaria, seja qual fosse – enquanto andava, sua mente enevou-se – não sabia a razão, mas seu sonho – que tivera antes de sua epopéia se iniciar – vieram imparáveis, como um deja vu – seus debilitados olhos não viam mais as lentes monocromáticas, ou o cenário sombrio – era a imagem de sua amada – e fonte de sua raiva – Padmé – foi sua morte que forjou Vader como ele é – concebido na tragédia – com tantas lutas, incursões militares, guerras civis – a ação por fim acabava por afastá-lo de seu real objetivo – era esta – esta – a razão que o movera nesta incursão – com o olhar na visão de sua esposa, ainda em vida – por fim, compreendeu de onde vinha sua perseverança, sua motivação – o impulso que movia suas pernas, rumo a um futuro nebuloso, o qual nem mesmo o mais poderoso sábio jedi poderia prever. Em um momento incomum, permitiu-se uma dose de anseio – esperando, do mais fundo recanto de sua alma atormentada, que sua visão – sua ilusão – se tornasse real mais uma vez. Não haveria mais falhas, mais atrasos. Não desta vez.
Com a caixa flutuando à sua frente, chegou à entrada, podia sentir na pele o chamado dos mortos que sussurravam – a antecâmara do templo sith era simples, mas as paredes que a constituíam eram cheias de entalhes na pedra – símbolos e hieróglifos, aos quais Vader não tinha nenhuma compreensão. Ao pisar no centro do corredor, as tochas iluminaram o caminho – era como se o templo todo na verdade fosse um organismo vivo e consciente – Vader não se deteve com a superstição gerada pelo local, e lentamente, com o cuidado de quem adentra um território perigoso, seguiu adiante.
A câmara que se originava do estreito corredor era enorme – de formato retangular, apenas sua porção mais próxima podia ser vista, sendo o resto encoberto por um densa neblina ali enclausurada por milênios. Rodeado por colunas entalhadas e estátuas representando os preceitos mais vitais da disciplina sith- o salão era o completo oposto dos templos jedis, cuja essência era representar a pureza e a calma da contemplação da força onipresente – ali, o ambiente era tomado de trevas e fúria – como se uma sede insaciável de poder, uma ganância monstruosa, ali residisse. Vader conhecia esse sentimento muito bem. Como todo sith, seu espírito balanceava entre esses elementos. Ao centro, antes do cenário se perder nas sombras, uma espécie de altar se projetava do piso de pedra – um mineral incomum – que Vader nunca havia visto, cercado por figuras, também em pedra, de humanóides com o corpo segmentado – um bizarro hibrído de homem e inseto – que, do mesmo modo, não sabia identificar. Um círculo gigantesco e bem detalhado, para sua idade, cercava o altar. Ao alcançá-lo, o fluxo de energia maligna que sentira há pouco se amplificou – sem dúvida, estava perto daquele que fora o berço de muitos mestres e mestras – que, durante milênios, manipularam a galáxia, semeando discórdia e guerras entre os povos – definindo a situação que transcorria nos dias atuais.
– Enfim, estou no zênite de todo o poder negro – Vader, fortalecido por uma confiança raramente vista, estava agora próximo ao altar – eu sinto... a força daqueles que aqui viveram...e morreram...
Olhando mais de perto para a superfície do altar retangular, notou pequenas aberturas – um tanto gastas pelo peso dos séculos – e pela poeira espessa. Ao analisar as marcas, das névoas surgiu uma figura estranhamente familiar – era o mesmo sith que indicara o caminho até a caverna onde encontrara o holocron – exatamente como o vira, em Bal’demic, ali ele estava – um bith, trajado com uma armadura negra e um aparelho respiratório, que completava o semblante sinistro. Súbito, ele disse, em cadência monocórdica:
– Aqui, filho de Plagueis... pelo lado sombrio aqui você chegou – agora, cumpra a profecia – restaure a ordem na força – apenas você, escolhido, pode fazê-lo – Vader, meio desconcertado, estranhou a repentina aparição do sith – nada tema, filho da força – não há, para nós, siths, barreira alguma entre o corpo e a alma – por isso, saiba – eu o conheço muito bem – sei o que você mais deseja.
– Lorde Tenebrous – Vader lembrou-se da menção que o sith fizera a seu mestre, no holocron – você e seu aprendiz me mostraram os caminhos – por quê? Eu não compreendo...
– “o escolhido será aquele que trará equilíbrio à força, livrando a galáxia das trevas” – esta é a profecia jedi, não? Mas os cavaleiros da força se esqueceram de que uma profecia esta sujeita a várias interpretações – você sabe disso melhor do que ninguém – os jedi eram tolos. Não sabiam o real significado do que poderia ser o “equilíbrio” – e você parece também estar alheio ao seu real significado – pois bem, agora a balança está em suas mãos novamente, escolhido – o futuro depende unicamente da escolha que irá tomar.
Vader desconhecia a figura espectral à sua frente – e seu discernimento não o permitia interpretar a avalanche de dados que recebera – mas, de alguma forma, sentiu o eco da verdade nas palavras do sith.
– Diga-me, então, sith! Diga-me o que tenho de fazer, e o farei! Se o futuro está em minhas mãos, então eu o reconstruirei.
– Você tem apenas que colocar cada uma das peças no seu respectivo local. Isso o levará de encontro aos espíritos que procura, e ao poder que almeja. Vá. Faça sua vontade – tão ligeira quanto veio, a imagem desvaneceu-se em meio às sombras.
Naquele momento, Vader não sentia mais dúvida – ou fraqueza – em suas mãos estava agora a chance de reparar tudo o que havia feito – consertar o que estava imperfeito – trazê-la de volta – restabelecer a paz. Limpas do pó que as cobria, as aberturas do altar encaixavam com precisão em cada um dos artefatos que carregava – o rubi de Andeddu, no alto; a face de Nihilus no meio; e, no final, o mais curioso – uma mão – tudo previamente preparado, como se ele fosse o destinado a executar o ritual – com as demais peças encaixadas, estendeu também sua mão, acertando-a no espaço – Vader sentiu a palma se grudar à pedra – tentou arrancá-la, mas a atração era muito forte – com um silvo, a pedra começou a brilhar – uma luz negra, que passou a crescer, cada vez mais, até envolver Vader – mesmo com todas as forças que acumulava, seu esforço foi em vão, em poucos segundos já estava tragado pelo breu que continuou a expandir até envolver todo o círculo marcado no chão. Tudo escureceu.
Ao abrir os olhos, Vader já não estava mais no templo sith ou em qualquer localidade familiar – ao levantar-se, olhou ao redor – todo o terreno excêntrico era feito de um cristal negro, com algumas estranhas formações multifacetadas que se erguiam do piso – contudo, não eram opacos ou translúcidos, mas de um preto profundo e homogêneo. Onde estava, não havia céu, firmamento ou sequer nuvens – mas um negro que não deixava nada transparecer. O cenário se estendia por metro à frente – mas, como Vader percebeu – havia outros terrenos acima e abaixo daquele em que se postava. Sentia como se estivesse diante do próprio lado sombrio, tangível e materializado. Tudo o que ouvia era seu respirar cadenciado e mecânico.
– Quem é você, que me invoca na escuridão? Uma voz veio, distante – seu tom era firme e profundo — foi então que se deu conta que, à alguns metros adiante, havia um trono, precedido de uma escadaria – todos ornamentados com inscrições na língua sith – rodeados de um portal formado de cristais – também marcado por traços curiosos.
Foi então que Vader se deu conta que, no trono de cristal enegrecido, havia uma figura sentada – um homem, aparentemente, com um manto negro escuro cobrindo-lhe o corpo, e o rosto semi-encoberto pelo capuz – sendo visíveis, apenas, seu nariz e boca – cujas feições denotavam sua idade entre os quarenta e cinqüenta anos. Seus olhos estavam ocultos, mas Vader sentia que o desconhecido o fitava diretamente. Sem resposta, o estranho prosseguiu:
– Então, você é o peregrino que deseja meu poder.
– Sim, sith, eu o desejo – e o terei... – Vader estava deslocado – não sabia se a situação atual era real ou mais um engodo – poderia estar, agora mesmo, adormecido – imerso em um delírio sem fim, aprisionado para sempre em uma realidade de devaneios – mas, diante do estranho, usou toda a coragem que o trouxera até ali – que lugar é este?
– Você está, sith, no coração do lado sombrio – para cá vem todos aqueles que, em vida, dedicaram cada respiro, cada esforço para o mal – vê estes cristais? Cada molécula deles é pura energia sombria. Seu corpo jaz em nosso santuário, mas sua alma agora está presa aqui. Agora, lhe pergunto outra vez: quem é você?
– Eu sou Darth Vader, e aqui estou para concretizar meu destino.
– Sim... de fato, você abraçou o lado sombrio como seu aliado – a voz do estranho sob o capuz era fria e penetrante – e substituto da humanidade que já não mais possui. Sua bondade e felicidade degradaram lado a lado com sua carne deteriorada. Tudo que lhe restou foi o ódio.
– Se você me conhece e sabe a meu respeito, sith, então deve saber que mereço ser o portador de seu poder!
– Seu tolo – o sith ergueu-se do trono, exibindo um porte físico admirável para sua idade – meu poder já está em você – como acha que os orbalisks que agora arranham sua pele absorveram tanto poder? – a aproximadamente cinco metros de Vader, o homem desceu, um a um, os degraus da escada brilhante.
– Então é você... Lorde Bane – responda-me! O que devo fazer para trazê-la de volta à vida! Como posso controlar os midi-chlorians? Não tente me enganar, sith – eu conheço seus segredos.
– Como ousa, farsante? – Você não sabe nada sobre mim, acredite – de repente, Vader sentiu como se um peso enorme desabasse sobre suas costas, suas pernas falharam, e não pôde evitar a queda – mas eu – eu sei tudo sobre você – filho... de Plagueis!
Com Vader a seus pés, levou as mãos ao capuz, retirando-o – sua face era austera, sua expressão, sólida como uma rocha – seus olhos vermelhos eram rodeados por estranhas marcas de tinta negra – sua pele era castigada com algumas cicatrizes de batalha – a jornada enfim o trouxera diante do arquiteto da ordem, o criador da regra de dois – Lorde Darth Bane – um dos mais célebres mestres sombrios – cujo poder Vader arrepende-se por ter subestimado. Logo o sith estava diante dele, com sua vida nas mãos.
– É a esse que chamam de “escolhido”? Um homem fraco, alquebrado, fútil? Vamos! Erga-se! Quero que me mostre a extensão de seu poder! – com um gesto simples, liberou-o da prisão psiônica em que estava – lentamente, Vader se ergueu, encarando seu teste final – o último obstáculo.
– Muito bem então – Vader checou os sistemas hidráulicos de seus órgãos, e certificou-se de que ainda funcionavam – regulando sua respiração, postou-se em guarda – façamos um trato, então – se eu ganhar esta luta, você me dará o que quero – restaurará meu corpo e o de minha amada... eu sei que você pode fazê-lo.
– E se você perder? – o sith se mostrou interessado na proposta inusitada.
– Se perder, eu lhe ofereço meu corpo e meu espírito – é a sua chance para retomar seu lugar de direito, como líder dos sith – a expressão de Bane alterou-se diante da oferta tentadora – restaurar o legado de glória erguido pela ordem...
– Tenho de admitir, você possui uma mente aguçada – levando a mão à cintura, o homem apanhou um sabre de cabo requintado, de uma modelagem há muito esquecida pelas eras – ao acendê-lo, um facho de luz branco , envolto por uma tênue linha púrpura, surgiu no ar.
– Depois de todos esses anos de tormenta, finalmente a força me favorece! Então, lutaremos, sith – lutaremos, pois de sua morte o sith’ari retornará! – impulsionando o braço para trás do tronco, com o sabre em uma só mão, o sith lendário estendeu a outra mão, livre, à frente – uma técnica única, que combinava ataque e defesa em um só golpe.
– Então, veremos agora quem é o mais poderoso – Vader quebrou sua pose estática e saltou dois metros no ar, em direção ao inimigo – Bane ergueu o sabre e rebateu o ataque aéreo, usando a arma como um escudo – com o braço flexionado em defesa, estendeu-o em ataque, jogando Vader em direção ao trono. Em seguida, foi a vez de seu contra- ataque: à distancia, atirou a espada contra Vader – o sabre, como se possuído, rodopiava ao redor dele, rasgando seu traje e capa – mesmo bloqueando os golpes incessantes o máximo que podia, sofreu vários cortes – ao retornar o sabre para a mão de seu senhor, o traje pressurizado de Vader estava destruído – sua única proteção agora eram os rígidos orbalisks simbióticos em seu corpo.
– Não importa o que faça, não pode me ferir – Vader estava ofegante devido a seus órgãos, que começavam a falhar – mas não estava disposto a perder aquela batalha.
– Não era essa minha intenção – Darth Bane aproximava-se, manejando o sabre com uma só mão, pacientemente – os insetos que revestem seu corpo – são uma benção e uma maldição – eles o tornam forte e íntimo com o lado sombrio. Mas eles não são simbiontes, são parasitas: enquanto viverem, você está a salvo, mas, se morrerem – estendendo a mão, atirou uma forte onda de raios, que eletrocutaram todo o corpo de Vader, que podia sentir cada um dos besouros se agitar desesperadamente – você morre com eles.
– Maldito seja! – Vader quase não sentiu a descarga elétrica, mas percebeu que alguns dos orbalisks agora estavam moribundos – se morressem, a luta cessaria bem mais cedo do que esperava.
– Aos meus olhos, a vitória já é minha – levantando o sabre acima de sua cabeça, o sith avançou, com um insano grito de guerra na extinta língua dos sith – debilitado, mas ainda forte, Vader repeliu o golpe, empurrando o sabre em outra direção – em outra investida, Bane tentou acertar sua perna – girando a lâmina rubra abaixo, fez um bloqueio no último instante – com toda a raiva que o impulsionava, empurrou o sith para trás – mesmo com sua perícia, o milenar mestre sentiu a força tremenda, cambaleando para trás. Aproveitando sua posição indefesa, Vader desferiu um golpe preciso, que veio a acertar a coxa do sith. Porém, a expressão no rosto malévolo de Bane não era de dor ou raiva – mas um leve sorriso que raramente exibia.
– São poucos aqueles que conseguem se livrar de meus golpes – o sith permitiu-se uma demonstração de orgulho – todos os jedi e sith que ficaram no caminho de minha espada caíram em desgraça – talvez – talvez você seja um oponente mais digno do que imaginei.
Sua estranha gentileza, no entanto, não significava nem de longe, uma trégua. Com a mão livre, ergueu-a e cerrou-a no ar – o terreno sob Vader tremeu – o grande piso de cristal passou a levitar – em alguns segundos o trono e suas cercanias estavam acima de Bane – que, juntando as duas mãos no alto, subitamente as separou — paralelamente, a escada e o trono também partiram-se ao meio – para se salvar, Vader saltou – a quase dez metros do solo, a silhueta negra passou por sobre o sith, caindo atrás dele – suas pernas mecânicas eram resistentes, mas sofreram com o impacto. Vader ergueu-se, trêmulo, mas logo se restabeleceu. Bane manteve-se parado. Em meio a varias formações de cristal, semelhantes a estalagmites de uma caverna, o terreno não era favorável a uma luta acirrada. Sem aviso, um dos blocos reluzentes quebrou-se na base, sendo atirado contra Vader, que ficou atordoado – um outro cristal, atrás dele, o acertou , derrubando-o à frente – Bane estava usando o próprio relevo a seu favor. Por dentro da máscara, Vader sentia o sangue escorrendo pelo canto da boca. O suor ardia em seus olhos.
– Parece que me equivoquei – Bane caminhou, passadamente, para perto de seu algoz – onde está sua força, escolhido? – enquanto falava, outra pedra acertou em cheio a face de Vader – se você é um sith, então deve ser merecedor do título que carrega – o terreno sob Vader se ergueu, em um ângulo de 90º, atirando-o, ainda baqueado, aos pés do sith imortal. O lorde sombrio o pegou pelo pescoço, olhando firme em seus olhos, através das lentes.
– Você, cria da força, não é digno – olhe para si mesmo, escolhido – veja o motivo de todo o seu sacrifício inútil – a voz de Bane não tinha nenhum sinal de misericórdia – você pretende usar o lado sombrio para traí-lo!
– Do que...você...está...falando?! – a voz nunca foi tão dolorosa para Vader.
– Eu posso ver, sith – posso ver em sua alma – o que você mais deseja é consertar o que fez de errado – voltar a ser um jedi patético e sentimental, com uma família e uma vida de paz! Quanto desperdício...
– Do que...adianta...possuir o poder...se não se pode usá-lo para satisfazer seus desejos?
– Você me decepciona. Eu pensava que seus sonhos fossem de poder e conquista – mas não, você deseja trair a força! Somente agora, que o vejo mais de perto, pude percebê-lo – você é um tolo em desejar aquilo que não pode ser seu!
– Por quê...não? – Embora subjugado, Vader sentia a raiva subir-lhe à flor da pele.
– Você é o escolhido – tem os extremos da força em suas mãos – e fez sua escolha – não pode voltar atrás. Não perca seu tempo com desejos fúteis. Desde que sua alma abraçou a ordem dos sith, o poder e a cobiça são seus únicos objetivos, nada mais.
Com a jugular ainda na mão áspera do sith, Vader sobrepujou sua fraqueza.
– Não importa quem você é – sith, fantasma ou lenda – você não irá me impedir! – sedento por sangue, ele conjurou uma onda de energia invisível, que atirou Bane para trás, erguendo-se logo em seguida – vou lhe mostrar, sábio, toda minha fúria, digno ou não!
Atirando-se com toda a violência contra o espírito maligno, ignorou todos os seus limites, desferindo golpes de ódio contra ele – a batalha, antes desigual, parecia finalmente se equilibrar.
– Eu derrotei Andeddu – seus golpes, de tanta fúria que continham, maculavam o cenário, destruindo cristais, arranhando o piso espelhado – eu derrotei aquela criatura abominável – Bane não demonstrava sequer um lampejo de desespero, mas uma espécie de satisfação iminente pelo combate à sua altura – diga-me, Lorde Bane, por quê eu não poderia derrotar você?
Com os dois braços, Vader rasgava o ar com riscos impiedosos – Bane mantinha a defesa – mas, a cada golpe rebatido, respirava a fúria que vinha daqueles ataques – seu inimigo estava fora de si, atacando a esmo, sem disciplina, sem limites – usando apenas o poder sombrio. Mesmo ferido, exaurido, e atingido por algumas estocadas em pontos vitais de seu corpo, não cessava, como se estivesse em um transe gerado por sua fúria ensandecida. Depois de uma sequência de golpes que não parecia acabar, afinal quebrou a guarda de Bane, rasgando sua toga, rasgando-lhe a pele pálida.
– Você quer uma razão para sua derrota? Muito bem – Bane ergueu novamente a arma em riste – eu lhe direi.
Com um grito insano, e sem nenhuma precaução, Vader se jogou contra o mestre – saltando para o lado, Bane desviou, agarrando-o na altura dos ombros, com ambas as mãos fixas nos orbalisks que o assistiam.
– Você, sua farsa, não pode me deter. Este poder que o alimenta não lhe pertence – Vader sentiu um comichão percorrer todo seu corpo, como se os besouros adormecidos despertassem de uma hibernação profunda – ele é meu. Sempre foi.
Um a um, os besouros soltaram a pele de Vader, dirigindo-se ao homem que o segurava. Vader sentiu seu poder se esvair por entre seus dedos.
– Isso mesmo. Retornem a mim. Retornem a seu mestre – conforme os artrópodes deixavam o corpo de Vader, eles ajeitavam-se na pele de seu antigo amo, exalando prazer pela situação confortável – tornemo-nos um só novamente!
Através dos braços musculosos do sith, os besouros construíam uma couraça que corria toda sua tez branca. Retirando o hábito rasgado e manchado, Bane exibiu sua armadura orbalisk, orgulhoso por ter de volta uma força que há muito desejava. Diferente de Vader, a armadura dele parecia mais imponente e natural — como se, ao invés de um simbionte, os orbalisks fizessem, de fato, parte de seu organismo. Das trevas a seu redor, as sombras moldaram uma capa negra e densa, e um traje – que cobria-lhe suas pernas. Ao moldar a última sombra, uma aba formou-se em torno de sua cabeça – uma estranha formação óssea cobriu toda sua face, deixando expostos apenas o nariz e a boca. Seus olhos vermelhos e abismais tornaram-se ainda mais penetrantes entre as aberturas daquele capacete grotesco.
– Estou...completo...uma vez mais!
Com o peito e os membros quase desnudos, Vader por fim sentiu uma onda implacável de fraqueza e dor correr-lhe pelos músculos e órgãos – suas pernas ficaram bambas, seus braços mal sustentavam o peso do sabre – o simples esforço para se manter em pé era sobre-humano.
Súbito, a balança se inverteu – agora ele era apenas um reles mortal, à mercê diante de um dos lordes siths mais poderosos que viveram – agora restabelecido e no auge de seu poder. Infelizmente, a vitória tornara-se incerta. Vader, trêmulo, reuniu as poucas forças que lhe restavam, empunhando o sabre – que, devido à sua condição, pesava como um bloco de concreto. Sua respiração, antes cadenciada e firme, começou a falhar, conforme seus pulmões artificiais perdiam energia. O tempo havia corrido fatal para ele – provavelmente, seu prazo já havia esgotado, e não dispunha de um dróide para alimentar suas baterias uma vez mais. A esperança que tanto nutria parecia cada vez mais distante.
– Seus órgãos começaram a se exaurir, sith — Bane estava à sua frente, analisando-o, como um leão que estuda minuciosamente os movimentos de sua presa – seu corpo está severamente ferido, seu fim é uma questão de tempo – em cada palavra, o lorde exibia um demoníaco prazer pelo sofrimento evidente de seu desafiante – a vitória já é minha.
– Não...enquanto eu estiver...em pé!
– Você mal agüenta o peso de seu corpo... está em pé apenas pela força de sua determinação. Eu admiro isso. Mas já que você fez um trato, então terá que cumpri-lo!
Em sua forma definitiva e intimidadora, o sith ligou o sabre roxo e deu continuação à batalha, desta vez segurando-o com as duas mãos. Com uma inacreditável perícia e habilidade, movia o sabre de forma absurdamente rápida, de forma que tudo o que se via era sua figura sombria envolta por faíscas púrpuras – fraco, Vader não conseguiu manter a defesa, e acabou sendo atingido várias vezes, agora, diretamente na pele exposta, conjurando maldições para aplacar o tormento que o abatia. Como uma máquina incansável, Bane rodava seu sabre em giros precisos, calculados, desnorteando e ferindo seu algoz em seus pontos mais vitais, forçando-o a recuar em desespero.
– Diga-me, sith, como você se sente...
Em uma estocada, arrancou parte da placa peitoral que cobria seu torso, deixando para trás uma notável cicatriz.
– ...vendo todos os seus sonhos...
Em outra investida, seguida da derradeira, girou o sabre em sua mão, em um giro completo na diagonal, destroçando a parte superior do capacete de Vader, revelhando o topo de sua cabeça – e a pele enrugada e chagada que a cobria.
–...caírem por terra?
Enlaçando o movimento continuo deste último golpe, emendou um ataque na lateral de sua coxa – a dor, extenuante, obrigou Vader a cair de joelhos, refém da própria gravidade. Exausto e subjugado, o cansaço veio mais forte que nunca, e o sabre rolou de seus dedos, caindo no chão.
– Você...quer...saber...agh...como é? – os segundos finais de Vader corriam como uma corrida de bigas – eu...te direi... o que sinto...todos os dias..toda noite...todo segundo...uhn – abaixando pesadamente a cabeça, cuspiu o sangue que escapava pela boca – você não faz idéia...do que é... viver...uff – no ódio... com raiva daquele que destruiu...sua vida... e saber que você...é incapaz de matá-lo... pois ele vive...dentro de você...! Uma lembrança...em meio à uma vida vazia... não importa o que faça...ou quantas guerras você trave... ela sempre volta para te atormentar! Sempre volta para lembrá-lo... de que foi por suas mãos...que ela morreu!
– Chego a sentir pena de você, escolhido. Tanto poder, tanta fúria – e sua vida é uma sucessão de lamúrios por algo que você não pode reverter. No entanto, estou em débito com você, sith. Você me devolveu o poder que me foi tirado. Em troca, lhe concederei uma dádiva: vou torná-lo livre daquele que você mais odeia.
Ajoelhado ante o sith, os olhos de Vader pesavam. O painel em seu peito apagou, sinal de que suas máquinas finalmente pararam. Seu fim nunca estivera tão próximo. Ao chegar a um metro dele, Bane estendeu o braço, segurou a caixa de controle, arrancando-a – em seguida, em um giro em torno de seu eixo, o sabre roxo passou à altura de sua garganta, jogando seu filtro respiratório ao lado, restando apenas um ínfimo pedaço de seu elmo sobre a face. Vader fechou os olhos, buscando a serenidade – pronto para receber o golpe de misericórdia.
– Não se entristeça, sith. Encontrará sua amada esposa, afinal – Bane zombava enquanto esboçava um ataque fatal.
Mas o inesperado ocorreu. Como se dotada de vida própria, sua mão direita ergueu-se, destra – de seus dedos metálicos, raios elétricos saíram em direção ao sith à sua frente – a curta distância e o descuido de Bane tornaram a investida fatal – percorrendo todo seu corpo em múltiplas correntes, o calor gerado era muito forte para os orbalisks que formavam sua armadura – e, então, aconteceu o óbvio: um a um, os artrópodes definharam, com seus frágeis órgãos seriamente danificados – como defesa, eles injetaram um veneno fortíssimo no sangue de seu hospedeiro – como se quisessem que ele pagasse o preço por tê-los deixado morrer. Darth Bane veio ao chão, sentindo a morte correndo mortal em seu sangue. Seu corpo se debatia, tentando se livrar da situação.
– M-Maldito seja! V-Você – n-não...não é...você –aaaargh – há...outra – uff! Ele...f-fez...mesmoooo...ele – com sua queda, sua mascara óssea rachou, as trevas que o cobriam se esvaíram. Poucos segundos se passaram até que seus espasmos sumissem, aos poucos – ao morrer, seu corpo se desfez, como uma estátua de barro que se pulveriza diante de um vento forte.
Vader estava agora, de joelhos, diante de uma pilha de orbalisks mortos, com suas couraças enegrecidas. Seus órgãos falharam há muito tempo, e a asfixia logo viria em seu encontro. Fitando o vazio que o cercava, diante da estranha vitória, em um último instante, esqueceu-se da maldade que o acompanhara. Lembrou-se de seu sonho, de sua esposa – de seu filho. Agora tudo isto era apenas mais um devaneio sem sentido – mais uma ilusão cruel e irreal, fruto do reino onírico. Por muitas vezes, encarou a morte, como escravo, como padawan, como jedi – e agora, finalmente a encontrara, como lorde sith. Mas, ao contrário de outrora, não sentia mais raiva, medo ou ojeriza, não sentia mais saudade dos tempos agora sepultados. Fechando os olhos, deixou-se levar pelos desígnios da força – eles o trouxeram até ali, e o levariam adiante. Nascera Anakin Skywalker, cavaleiro jedi, e morreria como Darth Vader, lorde sith. O escolhido afinal cumpriria sua jornada.
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