Darkness
6 Química, não é?
Notas iniciais
No dia seguinte, Sarah chegou atrasada na casa de Ryan, onde teria a primeira aula de reforço e tocou a campainha da casa um tanto grande do garoto.
–Ate que em fim!- Exclamou Ryan abrindo a porta.
–Pelo menos eu vim, né? Diferente de certas pessoas...- Sarah deixou as palavras soltas no ar passando pela porta
–O que? Eu? O que eu fiz?- Ele perguntou confuso fechado a porta
–Nada. Só quis falar isso- Disse a garota entrando na casa — Onde a gente vai "estudar"?- Ela fez aspas com os dedos.
–Por que as aspas? Nos vamos estudar.
–É muito difícil, quase impossível, estudar comigo à mais de 100Km de distancia- Disse Sarah se afogando em risadas.
Ryan franziu as sobrancelhas, mas permitiu-se em sorriso tímido.
–Onde a gente vai estudar? — Ela sorriu
–Pode subir as escadas, vamos estudar no meu quarto- Respondeu o garoto com uns poucos segundos de atraso da pergunta balançando a cabeça.
Sarah assentiu com a cabeça e foi em direção à escada, sendo seguida por Ryan.
–Ah! Segunda porta à esquerda — Ele falou ao perceber o olhar de Sarah diante de tantas portas
–O que vamos estudar hoje? — A garota perguntou antes de abrir a porta
–Você escolhe — Ryan respondeu dando os ombros
–Química! — Ela deu um salto quando respondeu
–Nem vou perguntar o motivo... — Ele falou baixo, mas não muito para ela ouvir
Sarah sorriu e entrou no quarto de Ryan. Era grande, as paredes repletas de livros e itens de colecionador de diversas séries e sagas nas estante, com um armário mais no canto, uma cama grande e uma mesa redonda onde obviamente eles iriam estudar. Ela se adiantou indo em direção à mesa onde colocou seus materiais, claramente desorganizados e depois se sentou. Ryan se sentou também, assim que ele abriu o próprio livro de química que pegou da estante ela fez uma cara de tédio bufando.
–Se quiser começar com outra matéria... — Ele sugeriu
–Não, não adianta. Qualquer uma vai me dar preguiça e eu não vou conseguir entender de qualquer jeito! Se você ainda não percebeu... Eu sou meio burra.
Ryan segurou os ombros da garota, olhando nos olhos cor de mel da mesma dizendo:
–Você tem que ter mais autoconfiança, Sarah. Acreditar em si mesma, você sabe que é capaz.
Sarah olhou fixamente para os olhos azuis por trás das lentes dos óculos de grau.
–Eu... — Ela hesitou — Eu.. Consigo
–Isso — Ele balança a cabeça concordando e ri.
–Espera um segundo... Acho que é a primeira fez que eu escuto a sua risada... — Ela fecha os olhos e continua — É bom escutar...
Ele percebe que ainda está segurando os ombros dela, mas não consegue soltá-los corando por isso e pelo comentário dela.
A garota abres os olhos e seus olhares se encontram, fazendo Ryan finalmente soltá-la e desviar o olhar.
–É... — A voz do garoto soava confusa e ele quase derrubou o livro — Química, não é?
***
–Alô? — Falou Jennifer atendendo o telefone
–Jenn, e ai? Pensou nas minhas milhares de propostas e pedidos? Na verdade é só uma proposta e um pedido que é são a mesma coisa, mas pensou? — Jason tinha um tom esperançoso na voz
–Eu não acredito que você me ligou pra isso! – Ela disse rindo, surpresa e feliz com o telefonema.
–Não, na verdade também liguei pra outro pedido, outra proposta...
–Não, não vou aceitar ir ao baile com você, já falei mil vezes...
–Não, não é isso, mas se você mudar de ideia...
–Não!
–Ok! – Ele respondeu rapidamente — Quanto "não", em?
–Então você vai desistir? – Perguntou ela se enchendo de esperança, mas um pouco triste com a possível desistência.
–Nunca! – Riu Jason – O pedido que quero te fazer é outro. Você quer sair comigo?
–O-o que? Para onde?
–Ah, eu não sei. Não pensei nisso...
–Você me chama pra sair, mas não sabe pra onde?
–É que achei que você não fosse aceitar e enquanto eu insistisse ia pensando em um lugar, mas ai você me veio com um sim e eu não sei para onde vamos.
–Ai meu Deus! – Ela disse rindo
–Então, quer ir comigo ao... Sei lá, um lugar qualquer?
–Ah, que dia?
–Quando você quiser.
–Ok.
–Esta bem... Já que você insiste, vamos agora!
–O quê? Hoje?... Tudo bem, mas preciso de... 1 hora.
–Passo pra te buscar daqui 1 hora então.
–Não precisa Jason...
–Só na esquina?
–Não precisa Jason...
–Em 1 hora na esquina.
Jason desligou o celular e Jennifer caiu na risada deitando-se em sua cama pensando em como seria o tal “encontro”, cujo ela preferiu não chamar assim e sim apenas de... Algo, que sem querer, a fez feliz.
***
Uma hora depois Jennifer o encontrou no local marcado, vendo já de longe o bonito carro preto do garoto.
–Uau! Você esta... Incrível! – Jason disse ao abaixar o vidro do carro
–Obrigada, mas não fala isso de novo. – Pediu Jennifer passando os poucos fios de cabelo soltos da trança para trás da orelha timidamente
– Desculpa, não falo mais, é que você esta mesmo incrível.
–Para! – insistiu a garota
Jason balançou a cabeça, em uma tentativa falha de desviar os olhas da garota, que trajava um vestido preto, que o fez arregalar os olhos, com uma longa trança ruiva descendo pelo seu ombro e tênis Vans vermelhos.
Ele saiu do carro, indo para o lado do carona, e abriu a porta para que ela entrasse no carro, abaixando a cabeça para esconder as bochechas vermelhas.
–Obrigada – disse ela tímida.
Jason já ligando o carro, com o habitual CD do Arctic Monkeys, começou a dirigir perguntando:
–Então, que tal uma resposta?
–Pra que, Jason?
–O baile, Jenn.
–Uh... Que tal não?
–Vamos, Jenn... Por favor?
–Não, mude de assunto e tire essa cara de cachorro que caiu da mudança do rosto.
Ele riu, fazendo Jennifer sorriu pouco.
–Tem uma coisa pra você no banco traseiro — Jason falou
A garota se virou com um pouco de dificuldade devido ao cinto de segurança e sua mão logo encontra uma solitária rosa vermelha, escura como sangue, mais muito bonita. Jennifer com muita vergonha agradeceu, e com o céu já escuro, chegaram em seu destino. Jason, cavalheiro como sempre, puxou a cadeira para Jenn, que já não conseguia esconder as bochechas vermelhas.
–Achei que você não aceitaria meu convite.
–É, e aqui estamos — falou Jennifer sorrindo.
–Agora só falta o outro convite...
–Jason é serio, eu te acho muito legal, mas apesar disso te conheço a apenas duas semanas....
–Eu também te conheço há só duas semanas e eu estou deixando muitas coisas de lado por vo...- Ele hesita- É complicado.
–Agora, explique-se – Disse Jennifer olhando para os olhos de Jason e percebendo que aquilo que ela pedira para ele explicar era realmente difícil para ele, mas antes de poder falar alguma coisa para impedi-lo de falar algo que o chateasse, Jason falou:
–Bem, digamos que eu deveria estar fazendo algo muito importante e eu não devia perder o foco como estou perdendo. Cada segundo que eu devia estar dedicando a isso eu perco pensando em você.
–Jason, eu... – A garota estava sem palavras
–Esperava que não dissesse nada. O que vai querer? – Ele abre o cardápio tampando o rosto.
Ambos fazem seus pedidos e Jenn acaba perguntando:
–Você não acha melhor desistir de mim e retomar o foco no que você realmente precisa fazer?
–Eu não quero desistir de você, mas eu não posso mesmo perder o foco. Eu preferiria passar esse tempo com você, mas eu realmente tenho que me dedicar à isso. – Ele vira o rosto e muda repentinamente de assunto – Então, onde está Sarah?
Jennifer se sentia estranha... Era difícil entender Jason e aquilo que ele estava dizendo, embora o básico já tivesse entendido, ele devia estar focado em algo ao invés de estar ali, falar e pensar nela... Mas o que seria esse algo? O que era tão importante para deixar Jason daquele jeito? E o que exatamente aquilo fazia com ela? Por que ela se sentia daquele jeito... Um jeito que nem ela sabia explicar.
–Estudando
–Sério?
Os pedidos chegaram, mas eles não paparam a conversa.
–Sim, a diretora quer que o Ryan dê aulas particulares para ela.
–Ryan?
–O cara que levou a culpa pela explosão no laboratório.
–Ah, sim! Ela é tão ruim assim mesmo?
–Mais ou menos, mais para menos do que para mais. Isso vai ser bom para ela.
–Com certeza... O Ryan é bem inteligente, não é? – Jason ainda evitava olhar para a garota, se atrevendo às vezes apenas para aprecia-la e ver como a luz refletia em seu lindo cabelo ruivo.
–Ele é sempre o primeiro da turma. Sempre.
Jennifer olha o relógio na parede, vendo que devia ir embora.
–Caral... – Jennifer parou percebendo que ia xingar e continuou – Caraca! Você viu a hora? Tenho que ir para casa. Não posso deixar minha avó sozinha. Ainda mais com essa onda de sequestros perto de onde eu moro. Você viu quantos desaparecidos?
–Sim, eu vi – Jason terminou seu cappuccino.
–Bem... Você poderia me levar em casa?
–Claro! – Ele exclamou, mas sem muito entusiasmo – Achei que ia ter que insistir, mas vou te deixar um quarteirão a menos, ok?
–Sem problemas
A curta viajem foi silenciosa, assim que chegaram em seu destino Jennifer apenas acenou e seguiu seu caminho, nem sequer olhando para trás quando o carro de Jason manobrou e foi embora.
Ela tinha que fazer alguma coisa, Jason tinha que manter o foco em seja lá o que fosse e ela estava atrapalhando, tinha que fazer alguma coisa.
Assim que chegou em casa e verificou se sua avó estava bem, ligou para Sarah
–Jennifer! – A garota ouviu a alegre voz de Sarah no outro lado da linha
–Como você sabe que sou eu?
–Sabe... Existe uma coisa mágica chamada “identificador de chamadas”
Jennifer riu, mas logo se lembrou para que ligou para a amiga
–Como foi a aula de reforço?
–F-foi uma... Aula...
–F-foi uma aula? – Jennifer repetiu confusa
–Foi...
–Ah, legal, uma aula. A sua aula de reforço foi uma aula
–A gente meio que quase se beijou – Dito isso, Sarah desligou a ligação.
Em menos de 10 segundos depois o telefone de Jennifer já tocava com o nome de Sarah na tela
–E eu fui a um encontro com o Jason – Jennifer falou tão rápido que ficou surpresa dela mesmo saber o que tinha falado
–Meu Deus! – Sarah gritou de alegria – Jennifer e Jason... Olha como fica bonitinho os nomes dos dois juntos, eu amo vocês! Posso ser madrinha do casamento?
–Sarah, que casamento? Foi só um encontro. A gente nem “meio que quase se beijou” que nem você e o Ryan.
–Não me lembre disso, pelo amor do unicórnio de chifre de arco-íris.
Jennifer não conseguiu evitar uma gargalhada e disse:
–Consegue acreditar que não se beijaram?
–Para, Jennifer! O Ryan é legal, inteligente, muito inteligente, charmoso, educado... Mas eu não gosto dele! E outra, vamos voltar para o assunto Jennifer e Jason! Por favor!
–Não tem nada disso, Sarah. Nós conversamos hoje e eu percebi que estou atrapalhando ele
–Atrapalhando? Em que?
–Não sei, ele não me disse... Mas Sarah, ele parecia realmente preocupado com isso, não posso deixar que isso continue assim!
–Mas...
–Espera! Tem outra pessoa me ligado, amanhã a gente se fala.
–Tudo bem, boa noite!
–Tchau. — Ela desligou a ligação com a amiga — Alô?
–Filha! — A voz masculina do outro lado da linha foi escutada por Jennifer
–Pai?
–Que bom que atendeu, minha querida!
Jennifer não sabia o que dizer, seu pai, que a abandonou quando sua mãe morreu, sei pai, que nunca havia ligado durante anos, seu pai que nunca se lembrava de ligar nem para lhe desejar feliz aniversario... Seu pai, que estava ligando agora e a chamando de querida,
–O quê você quer? — A voz da garota soava grossa, como ela queria
–Filha, eu quero me redimir, quero seu perdão. Já passei tanto tempo do seu crescimento longe e arrependo de cada segundo perdido, eu...
–Pare! Eu não quero ouvir! Se arrepende, é? Você passou 14 anos! 14 anos da sua vida longe de mim! Acha que é o único que sentiu a falta dela? Acha que é o único que ainda sente a falta dela?
–Jennifer... Eu...
–Cala a boca! E é melhor não me procurar mais!
Em seguida ela desligou o telefone, saindo sorrateiramente do seu quarto e descendo as escadas. Pegou um casaco e saiu pela porta dos fundos indo em direção à floresta. Como já era noite, ela sentiu o vento frio bater contra o rosto enquanto as lágrimas escorriam por ele livremente. Andou mais um pouco e parou para se sentar em uma pedra, abraçando os joelhos e soluçando enquanto lagrimas e mais lagrimas ainda caiam.
A garota havia perdido a mãe aos 3 anos de idade e se lembrava vagamente dela. Se lembrava da mulher mais bonita que já tinha visto com seus longos cabelos ruivos descendo pelas costas, um rosto angelical e ao mesmo tempo que demonstrava coragem para fazer qualquer coisa e um sorriso que nunca saia do rosto. De repente ela ouviu um singelo farfalhar de assas e olhou para o alto vendo um corvo no galho da arvore perto dela. Ela se levantou dando um passo para mais perto do corvo, que voou e instintivamente ela o seguiu correndo.
Logo, ela se encontrou em uma enorme campina, do outro lado estava a parte mais sombria e fechada da floresta. Ela teve a impressão de que já tinha visto aquele lugar... Em um sonho provavelmente. Olhando para o alto ela viu alguns pássaros voando mesmo sendo noite e ele tinha certeza que não eram corujas e sim corvos como aquele que ela havia seguido.
Ela recuou e saiu correndo de volta para casa, onde entrou em seu quarto e desabou na cama indo dormir logo depois. Naquela noite Jennifer teve sonhos, sonhos com corvos, campinas e com a Floresta dos Vom.
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