Darkness

26 Peace, Finale.


Notas iniciais
Bem, é isso pessoal. Primeira temporada da fic acabou... T.T

Estava escuro e frio naquela noite. Uma chuva forte e densa caia sobre todo o quarteirão e as casas velhas de madeira. Meus braços estavam acorrentados, e minhas pernas também, me impossibilitando de correr ou qualquer outro movimento que exigisse rapidez. Alguns braços pesados me empurravam para frente sempre que eu parava para olhar o horizonte. Meus braços nus e molhados começam a doer, mas as mãos atrás de mim não me deixam parar, fazendo-me andar até o final do quarteirão, que é basicamente como uma esteira. Eu estou andando, mas parece que não consigo sair do lugar. Agora, o horizonte, além das casas, ganha um cenário, que não é dos melhores.

O céu se resume em fogo e fumaça, com sombras enormes e de formatos quase idênticos. Fogo e mais fogo se espalhando, e a fumaça crescendo ainda mais, e assim que o céu despencar vai colidir nessa cidade solitária, e com essa sombra no chão, ouço pessoas gritando enquanto o fogo se espalha pelos seus corpos. E logo depois, não sobra nada, além de um corpo sem vida, sem alma, sem nada.

Não consigo conter todas essas vozes e gritos dos desesperados e tento correr para longe, segurando as mãos na minha cabeça e indo em direção a primeira casa a minha frente em meio aos tropeços que dou no meio do caminho. Fecho os olhos e jogo-me contra a porta de madeira, que se quebra com facilidade e me faz cair em um piso duro, provocando uma enorme dor no meu ombro. Permaneço de olhos fechados até perceber que todo o som parou, os gritos, os berros, acabaram. Tudo que ouço são alguns choros silenciosos perto de mim, o que me faz abrir os olhos e encarar uma garota com um manto cinza queimado e que me encara com seus olhos verdes enquanto deixa as lágrimas caírem pelo seu rosto rosado. Ela...

Limpo as lágrimas do seu rosto, percebendo que minhas correntes sumiram, mas eu não me importo mais. Só quero mais tempo com ela. Só preciso de mais tempo. Puxo-a para mais perto de mim e a abraço, apertando-a forte, e, pela primeira vez, não a ouça reclamar de como eu a aperto quando a abraço. Me pego chorando enquanto me solto de seus braços e encaro de novo seu rosto. Um sorriso se forma de orelha a orelha diante de mim. Não posso evitar e sorrio também. Mas esse sorriso dura pouco.

Em questões de segundos, ela começa a ir com o vento, como fumaça. Desaparecendo diante dos meus olhos, de novo. E em questão de segundos, me vejo sozinho em um salão totalmente branco, e com um manto cinza em meu colo.

...

Abro os olhos e vejo que estou numa cama macia, com uma coberta quente e aconchegante. Lágrimas caem incontrolavelmente entre meus olhos e tento não emitir nenhum barulho, pois acho que alguns de meus amigos devem estar acordados, tentando descobrir como eu estou depois de tudo. Depois que meu pai explodiu em estrelinhas e sumiu nos céus, Jace liberou a casa para que possamos recuperar as forças, depois de todas as mortes que tivemos, os amigos que perdemos... Ele disse que poderíamos ir vê-los assim que quiséssemos e podíamos descansar e passar o tempo que for necessário de luto.

Viro de lado na cama, deixando que um pouco do vento frio entre através de minha coberta, o que me faz segura-la e apertá-la mais contra o corpo. Fecho os olhos e tento dormir novamente, mas a primeira imagem que me vem na minha mente são as sombras naquela cidade em chamas e logo depois o manto cinza... Levanto-me da cama e saio do quarto, me dirigindo pra cozinha. O tempo está nublado, o que tem ocorrido durante todo o dia desde o fim da guerra. Provavelmente alguma alteração climática causada pelo “Senhor do Machado” antes de explodir em chamas azuis. Pego um pouco de leite na geladeira e coloco-o numa caneca de Natal, cheia de desenhos de flocos e árvores enfeitadinhas. Bebo tudo com um único e demorado gole.

Olho através da janela da cozinha e vejo que começou a chover levemente. A chuva logo engrossa e a temperatura abaixa, pelo menos, uns 10º graus. Continuo olhando para além da janela, pelo céu cinzento e cheio de nuvens claras. Em meio a todos os pingos de águas, uma forma um pouco maior cai entre elas. Uma pena branca desce graciosamente em meio a chuva feroz ao seu redor.

— Oi. — Diz uma voz familiar atrás de mim. Viro-me e olho para Cas.

— Oi. — Digo um pouco triste e não olhando diretamente para o rosto dele e sim para seu terno. — Belo terno, a propósito.

— Obrigado. Comprei a uns quarteirões daqui. É uma lógica magnífica. Um pouco cara, é claro... — Ele para por um momento com um sorriso no rosto, e logo volta à expressão triste e sentimental. — Dante... Precisamos... Ir.

— Não. — Coloco a caneca na pia e o olho nos olhos. — Não precisamos. Eu não vou ver túmulos com nomes dos meus amigos. Não quero saber seu aniversário e muito menos relembrar quatro dias atrás. Eu só quero que isso suma de vez.

— Apenas se despeça deles. — A expressão dele fica mais pesada. — Se despeça dos seus amigos. Deixe-os saber que você não vai desperdiçar seu futuro olhando apenas pro passado. Que você não vai passar a vida trancado no quarto e chorando todos os dias. Até porque, isso seria muita viadagem, cara, até pra você.

— Cas... Eu não posso...

— Uma vez, um homem me disse que não devemos ficar olhando sempre para o passado, amigo. “Devemos olhar para frente e ficar feliz por ainda estarmos vivos. Se ficar todo tempo olhando para o passado, você perderá todas as suas chances.”

Abaixo a cabeça e puxo a cadeira, sentando-me e brincando com os dedos e a manga da camisa. As palavras ficam metralhando na minha cabeça por um tempo, até eu levantar a cabeça e o encarar novamente.

— Que chances?

— Acho que terá que viver pra descobrir, amigo. — Ele dá um sorriso para mim. — Suba lá em cima e se troque. Pode ser camisas normais, eu sei que você não gosta muito de terno e essas coisas de “riquinhos estúpidos”.

Rio e isso me anima um pouco. Troco um aperto de mãos com Cas e subo, tomando um longo banho de água quente e colocando um Jeans, moletom cinza e um All-Star branco. Quando desço, vejo que Jace está sentado no sofá, Selena está grudada em seu ombro de uma forma carinhosa. Logo sinto a falta de Wren e Tony, e lágrimas começam a transbordar dos meus olhos. A cada passo descendo aquela escada, uma pessoa diferente me vem à mente. Amy, Tony, Wren, Fran, Nath, Alice, Joh... Todos vieram como um soco no estômago.

Quando chego perto do sofá, os dois se viram para mim e dão um pequeno sorriso. Selena está com um vestido preto e Jace com um terno aparentemente antigo pra atualidade. Eles se levantam e me abraçam forte. Enquanto estou abraçado com Selena, vejo-a chorar um pouco, mas logo se aperta ainda mais a mim. Minutos depois, Ery aparece na sala, com um blazer preto e todo arrumado, o que me deixa um pouco vergonhoso por usar roupas normais. Trocamos um abraço e nos amontoamos em carros diferentes.

...

Logo depois de chegar à quadra certa, desço um pequeno conjunto de matos e gramas até reconhecer alguns nomes, e então, eu começo a perceber lágrimas se formando nos meus olhos.

Percorro todos os nomes, fungando enquanto passo por cada um. Não sei como todos morreram, mas, pelo o que eu sei alguém no campo tinha possuído Wren e Tony e fazerem eles se matarem, como eu tinha visto antes. Também possuíram Joh e a fizeram se cortar até a morte com a faca dos anjos, como eu também havia previsto. O que achei estranho foi o fato de Alice morrer, fora da ordem que eu tinha visto. Paro no túmulo de Joh, relembrando quão misteriosa ela era. Cas aparece do meu lado, triste e vazio.

— Sinto muito. — Digo baixo. — Sei que deve ser difícil...

— Ela gostava muitos de vocês, humanos. Ela tinha uma admiração incrível por todos vocês... — Respondeu ele, ignorando o que eu disse.

— O que?

—... Por isso a enterramos assim, como os humanos. Por isso enterramos todos assim. Poderíamos ir para os céus, e enterrado eles lá, mas, acho que não era isso que eles queriam.

— Provavelmente não... — Fico quieto por um minuto, encarando o túmulo e consigo perceber, que, flores parecidas como rosas e orquídeas nascem perto do túmulo. Flores pretas e magníficas, me deixando sem palavras. Por algum motivo estranho, elas me lembravam Joh. Não sei por que, mas, apenas era como ter sua presença por perto. — Cas...? Você acha que...?

— Isso mesmo. É uma parte dela. A parte pura e cheia de vida. — Isso me cala de uma vez e eu permaneço em silêncio, olhando todos os túmulos, procurando um único nome que eu ainda não achei.

— Jace? — O chamo, virando-me de costas. — Onde está Lua?

Tudo se silenciou. Tudo que se ouvia eram o som dos ventos e a respiração de cada um.

— Dante, eu acho que temos que conversar. — Olhei indignado para ele. Como ele poderia não ter enterrado-a? Por que ele não fez isso?! Sim, eu sei. Sem corpo. Mas, apenas um enterro, em sua memória...

— Pois então fale.

— Digamos que temos uma chance de trazer Lua de volta. Apenas uma. O que você faria?

Aquilo me paralisou completamente. Como poderíamos trazer uma pessoa que já está morta de volta à vida, ainda mais sem corpo? Certo, tem o inferno, mas ela não foi para lá. Não tem como salva-la... Espera.

— Eryck — Me viro para o menino de cabelos castanhos e enrolados. — Lembra de como abrir o inferno, certo?

— Bem, sim... — Ele responde um pouco assustado. — Por quê?

— Se podemos ir para lá, podemos ir para o céu também, certo? — Todos me olharam, como se aquilo não fosse surpreendente.

— Sim, podemos. — Responde Cas.

Uma mistura de emoção começou a rodopiar dentro de mim como um furacão. Eu não consegui controlar um sorriso. Não consegui conter lágrimas que se formam pelo meu rosto. Tudo que conseguia sentir agora esperança. Eu tinha um propósito agora. E era trazer Lua.

— Mas só daqui a dois anos. — Diz Selena, calma e firme. Aquilo me fez despencar um pouco. A alegria se foi em segundos e logo uma duvida se formou em minha mente.

— Por que todo esse tempo? Por que não agora?

— Castian foi expulso do céu. Por causar a maior treta entre anjos e demônios, híbridos, todos eles. Daqui dois anos, um anjo virá a Terra para vigiar uma menina. Não sabemos direito sua história, mas, Cas diz que essa menina é muito importante para os anjos, e que devemos achá-la e esperar até o anjo vir vê-la, assim, Cas rouba a “graça” do anjo, restaurando seus poderes e conseguir ir ao céu, com todos nós.

Não consigo conter um sorriso.

— O que estamos esperando? Vamos ir atrás dessa menina agora!

Com isso, dei uma ultima olhada para todos os túmulos, sorrindo para eles. Se pudermos trazer Lua, podemos trazê-los também, certo?

Com esse pensamento, faço todos entrarem nos carros e irem de volta para a casa de Jace.

...

Agora provavelmente deve ser duas ou três da manhã. Estou deitado no teto da casa, olhando para as estrelas e dando um tempo na minha procura. Dando um tempo nas emoções que sentia até agora pouco. Apenas relaxar já é um começo.

Agora eu percebo, como tudo mudou. Tudo começou com uma vidinha de merda, indo na casa de uma garota, ver a Sua casa pegar fogo e olha o que virou agora? Uma treta entre nós e os anjos do céu. Em nenhuma hipótese eu preveria isso para mim no futuro, mas é sempre assim. Inevitável.

Começo a correr meus olhos pelos céus, tentando formas as constelações que algum dia minha mãe havia me ensinado. Sem sucesso. Opto por apenas fechar os olhos e pensar no futuro.

Eu irei para o céu. Eu vou trazer Lua de volta. Irei trazer todos de volta. Iremos ter uma vida tranquila e normal, como todo mundo. Podemos fazer os anjos entrarem em uma trégua. Se conseguirmos, tudo pode ficar melhor. Bem, pode não ser tão fácil assim, mas daremos um jeito. Se conseguirmos fazer Cas virar um anjo novamente, poderemos salvar a todos.

Começo a pensar em Cas mais cedo em casa, enquanto chovia e ele me ajudava com minha autoestima.

“Devemos olhar para frente e ficar feliz por ainda estarmos vivos. Se ficar todo tempo olhando para o passado, você perderá todas as suas chances.”

— Ele está certo. — Digo calmamente. — Eu não posso ficar aqui chorando e me arrependendo de tudo. Afinal, eu sou uma bomba-relógio sem limites.

Abro os olhos e sorrio para as estrelas.

Notas finais
Se vocês se deram o trabalho de ler até aqui, vai ter uma segunda temporada, ok? Terão que aguentar mais disso tudo u-u
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!