Sam passou a mão pelos cabelos, observando a entrada no meio da floresta com certo receio. Tinha certeza de que alguma coisa daria errado se entrasse lá sozinho, mas John estava numa caçada longe dali e aquele era o seu trabalho. Suspirou, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta, e finalmente entrou, com passos silenciosos, tendo a impressão sinistra de que as árvores se fechavam pelo caminho que deixava para trás.

Mas ele próprio não queria virar o rosto para saber se era verdade. Sabia que, se fizesse isso, sairia correndo no momento seguinte. Não tinha medo de muita coisa, geralmente, mas aquele lugar lhe causava arrepios e um mal-estar terríveis. Seus pés bateram em alguma coisa e ele se abaixou para pegar, reconhecendo um cartaz antigo, com a escrita garranchada e apagada demais pelo tempo para conseguir ler.

O rapaz suspirou e, automaticamente, dobrou o cartaz para colocá-lo no bolso. Se tivesse sorte, descobriria mais tarde o que era. Um vento frio bateu contra seu rosto e ele teve a impressão de que havia escurecido rápido demais, ou talvez já estivesse fundo na floresta o suficiente para que a luz do sol não pudesse passar entre elas.

Era uma burrice tremenda entrar na floresta sozinho, ele sabia, mas não podia pedir ajuda. Todos os caçadores que conhecia estavam ocupados e ele também não queria ninguém dizendo o que deveria fazer. Já tinha 21 anos, pelo amor de Deus! Era grandinho o suficiente para caçar sozinho!

Um pouco mais a frente, algumas luzes se acenderam e Sam teve a impressão de que elas só apareceram ali porque ele se aproximara. Resolveu chutar o receio de uma vez para bem longe e caminhou na direção das luzes, vendo nas árvores cartazes tão ou mais antigos quanto aquele que estava em seu bolso, mas igualmente ilegíveis. Não demorou muito e ele quase tropeçou em algo, e teve que se abaixar para ver o que era.

Um pedaço de lona antiga, vermelha como sangue, talvez de um circo há muito esquecido, que jazia ali como numa funesta lembrança. Ele fez questão de afastar esses pensamentos e se ergueu, procurando algo incomum ao redor, mas logo encontrou o que queria, e que ele deveria admitir que fez seu sangue gelar nas veias por um instante que lhe pareceram horas.

Um enorme circo se erguia à sua frente, a lona alcançando quase o topo de algumas árvores mais altas e tão vermelha quanto o pedaço que havia tropeçado. Podia ouvir sons do lado de dentro, risadas quase loucas, e não se incomodou com a súbita vontade de se virar e sair correndo. O que o incomodou realmente foi não ter ímpeto para tanto.

- Veja, veja, mais um. – Uma voz um pouco acima da sua cabeça ecoou e ele ergueu os olhos, engolindo em seco. Não tinha certeza se aquilo eram duas crianças ou o que. O fato era que era extremamente desconfortável olhá-las. Tinham um sorriso maldoso e infantil, as pernas balançando para fora do galho e carregavam balões de muitas cores escuras. – Mas é muito grande...

- Não importa, ele irá gostar. Vamos, vamos, entre. Estávamos esperando você.

Sam não soube como, mas no segundo seguinte ele já estava seguindo as duas crianças, se chutando mentalmente por estar fazendo algo tão estúpido. Logo já estavam dentro do circo e ele teve que olhar ao redor, quase se perdendo ao notar que era bem maior do que estava imaginando. As crianças (que agora lhe pareciam muito mais uma só do que duas) pegaram sua mão e o puxaram até um corredor, desaparecendo em seguida, e ele teve a impressão de que aquele era um lugar em que qualquer coisa poderia acontecer.

- Entre, vamos. É divertido. – Uma voz ecoou do corredor, baixa o suficiente para ele imaginar que havia sido sussurrado em seu ouvido, mas mesmo assim entrou, procurando o dono da tal voz. Parou em frente a uma espécie de jaula, onde uma garota estava encolhida contra as grades, os olhos vendados e o vestido longo, escuro e esfarrapado cobrindo quase todo o seu corpo.

- Ela não é bonita? – Ele se assustou quando as crianças falaram, saídas sabe-se lá de onde ou quanto. – Você não a acha bonita?

- Acho. – Sam disse a coisa mais sensata que pensou no momento, mas não era uma total mentira. Se fossem em outros aspectos e numa roupa nova e cuidada, ele a acharia realmente bonita. Mas agora não estava nada confortável em ficar observando-a.

“Que maldito lugar é esse?” Ele se perguntou, olhando ao redor. Era um lugar escuro, estranho e tudo parecia estar em um ponto diferente quando olhava de novo.

- Sente ali ó. – As crianças o empurraram para algumas cadeiras vazias, fazendo-o se sentar. Sam engoliu em seco, achando que o mais sensato era fazer tudo o que aquelas crianças dissessem, por mais apavorante que fosse. – Aproveite o espetáculo!

"Isso é... Oh, inferno! Um circo!"

E era mesmo. O mais apavorante, bizarro e estranho circo que já estivera, mas era um. Sentiu um arrepio percorrer seu corpo e fechou os olhos por um instante, rezando para que saísse daquele lugar inteiro antes que tivesse um ataque de pânico, e não demorou em notar porque aquelas crianças o incomodavam tanto. Estavam usando uma roupa de palhaço, apesar de estarem manchadas de sangue em alguns pontos.

“Por que, Deus? Por que só eu venho me perder num lugar desses sozinho?”

Foi quando Sam notara que as crianças, na verdade, era um único corpo com duas cabeças. E ele sentiu seu estômago se desprendendo aos poucos de seu interior quando um segundo palhaço macabro entrara no picadeiro. Esse era um adulto, seguido por dois coelhos gigantes cor de rosa com sangue na boca.

Ele tremeu fortemente na cadeira, o medo correndo por todos os lugares possíveis e imagináveis de seu corpo. Viu a criatura de duas cabeças tirar a menina de dentro da jaula e arrastá-la até onde ele estava, deixando-a ali ao seu lado, e o rapaz se impressionou com a força, porque, apesar de tudo, aquilo era uma criança, ou havia sido, talvez.

“Meu Deus...” Ele engoliu em seco audivelmente, tentando fazer suas mãos pararem de tremer, mas era tão fácil quanto deixar de olhar aquelas criaturas. Era como se alguma coisa prendesse seus olhos nelas. Conseguiu voltar a respirar e fechou os olhos com força, e iria se levantar quando sentiu mãos frias em seus ombros. Ergueu o olhar para ver dois olhos verdes e cheios de malícia.

- Bonito, não? – O palhaço mais velho riu histericamente. – Será que você irá gosta dele cachorrinho? – Sam nunca ficou com tanto medo em toda sua vida quanto estava naquele momento.

- N-não me machuque, por favor... – Pediu baixo, com a voz rouca e apavorada.

- Não vamos machucar. – O palhaço sorriu maldoso. – Não, não mesmo.

O rapaz engoliu em seco e fechou os olhos quando a coisa que segurava seus ombros se abaixou para lamber seu rosto devagar, como se provando, e Sam estremeceu.

- P-por favor... – Ele não entendia o porquê de estar agindo como uma criança assustada, mas era exatamente como se sentia. Gemeu baixo quando a coisa arranhou seus braços com as unhas compridas feito garras, fundo o suficiente para fazer o sangue brotar, e imaginou que iria desmaiar quando ela passou a língua pelos cortes, arrulhando. – N-não...

- Shh... – Sussurrou a coisa ou pessoa, subindo por seu braço com a boca vermelha de sangue, manchando sua roupa até chegar na parte do pescoço, deixando manchas rubras por toda a extensão da pele úmida de suor frio.

- Já chega. – O palhaço retrucou secamente e, com um ganido alto, a coisa foi se esconder nas sombras, Sam não sabendo o que havia realmente acontecido por estar tonto demais para pensar. – Perdoe-o, às vezes ele fica... Excitado demais.

- O-o que quer de mim?

- Que você fique para o espetáculo. – O outro sorriu ainda mais, um sorriso sádico e meio insano, e o rapaz tremeu mais, se isso era possível. – Você irá gostar muito.

Sam sentiu um soluço em sua garganta, mas o conteve com esforço, fechando os olhos. Queria parar de tremer, de sentir medo, só que não era tão fácil como gostaria. Sentia-se uma criança assustada, prestes a começar a chorar a qualquer instante. Não conseguia entender por que se sentia daquele jeito, apenas queria sair correndo dali e sem olhar para trás. Foi quando notou que estava amarrado firmemente à cadeira, sem saber como aquilo havia acontecido.

- Me solta! – Gritou, engolindo mais um soluço.

- Tão agitado. – O palhaço riu e se aproximou, fazendo Sam apertar os olhos com força. – É só relaxar. Logo você vai achar muito divertido.

O rapaz tentou se soltar, fazendo esforço para livrar seus pulsos, mas as cordas estavam amarradas com mais força que ele estava acostumado. Sentiu o sangue começar a escorrer da pele machucada e mordeu o lábio inferior para não soluçar, seu coração batendo com uma rapidez que o fazia pensar que teria um ataque cardíaco a qualquer momento.

As malditas cores o faziam se enjoar, e ele não conseguia se concentrar em coisa alguma, e nem queria realmente. Era como estar em um pesadelo do qual não podia acordar, por mais que quisesse. A criança com duas cabeças ria histericamente, divertindo-se com o seu desespero, e Sam mal notou quando, finalmente, acabou desfalecendo.

-x-x-x-x-x-

“É só um maldito sonho.” Sam pensou com firmeza quando acordou, mas recusou-se a abrir os olhos por vários momentos. “Eu só tive um sonho muito, muito real... Isso acontece com todo mundo. Oh merda, eu estou fodido.” Completou para si mesmo ao abrir os olhos e notar que estava preso à correntes grossas que pendiam da parede.

- Ele acordou, ele acordou. – Ele ergueu os olhos e levou um susto ao ver a coisa de duas cabeças perto de si. Com a luz e por estar tão perto, conseguiu distinguir costuras mal-feitas (talvez de propósito) nos pescoços dela, como se colocar as duas cabeças ali fosse feito às pressas. Eram gêmeos, um garoto e uma garota, e sorriam mais docemente que antes. – Acha que ele vai gostar?

- O-o que...? – Sam piscou algumas vezes. Sua cabeça ainda rodava e ele sentia vontade de vomitar a qualquer instante. – O que tá acontecendo?

- Você é um de nós agora. – Uma voz rouca e baixa soou de um canto e o rapaz teve que virar o rosto para tentar vê-lo. – Bem, logo será.

O moreno engoliu em seco quando o outro saiu da escuridão e reconheceu os olhos verdes de antes, mas agora ele parecia mais assustador e perigoso. Talvez fosse uma espécie de camisa-de-força que ele usava que lhe passava esse sentimento. Era um rapaz loiro, com os cabelos caindo sobre seus olhos, e um sorriso maldoso e irônico nos lábios.

- Sim, sim. – A menina gêmea falou, parecendo animada. – Recém chegados são sempre divertidos! – Ela bateu palmas, rindo.

- Q-que lugar é esse? – Sam conseguiu formular uma frase depois de alguns segundos, tentando não voltar a tremer de medo.

- Ora, o Circo do Bosque Negro, é claro. – O menino rolou os olhos claros e sorriu. – O Mestre ficou feliz quando você chegou, sabe? Os outros vão gostar muito de te ver. Não acha, cãozinho?

- Sim. – O loiro sorriu mais e passou a língua pelos lábios. – O sangue dele é bom. Gostaria de provar mais.

- Shh, não fale alto. O Mestre pode ouvir. – A menina comentou, parecendo assustada.

- Por favor, me deixem ir embora... – Sam murmurou.

- Não. Você não pode sair. Ninguém pode depois que entra. – O loiro retrucou e por um momento pareceu assustado. – O-o Mestre!

O Winchester nunca soube como eles conseguiam se esconder tão rápido, mas em questão de instantes estava sozinho. Engoliu em seco quando ouviu passos em sua direção e fechou os olhos, tentando não tremer, mas gemeu de dor quando alguém segurou seu rosto com força e o obrigou a fitá-lo.

- Bonito... – Ele reconheceu a voz do palhaço de antes e estremeceu. – Pena que seja tão velho. Não importa, vão gostar desse seu rostinho. Do que será que você tem medo?

Sam gritou de dor quando o homem segurou sua testa, uma dor lacerante se espalhando por seu corpo. Era diferente de qualquer dor que havia sentido em sua vida de caçador, muito mais forte e insuportável do que estava acostumado. Via, de relance, algumas imagens, mas a dor era tanta que não conseguia se concentrar em nada além de tentar parar de gritar.

- Interessante. – O rapaz soluçou baixo, agradecido, quando o homem se afastou, e agradeceu baixinho por aquela dor maldita parar. – Muito interessante. Você. – Ele ouviu alguma coisa se aproximar sorrateiramente e algo cair no chão, fazendo um barulho metálico. – Já sabe o que fazer.

Ele ouviu o homem se afastar e atreveu-se a entreabrir os olhos, deixando algumas lágrimas escaparem. Reconheceu o loiro, sem aquele tipo de camisa-de-força de antes. Sem delicadeza, ele afastou suas pernas e se sentou entre elas, distraído em abrir devagar os botões da camisa que o moreno usava.

- P-por favor... E-eu ajudo vocês a saírem daqui... – Sam engoliu um soluço.

- Você não pode. – O loiro murmurou tão baixo quanto um rosnado. – Ninguém sai depois de entrar.

- E-eu posso tentar... Por favor...

- Não se preocupe bonitinho. – A menina havia saído da escuridão e o gêmeo o fitava com uma expressão entre alegre e infeliz. – Logo você vai ficar aqui com a gente.

- E você vai gostar. – O menino completou, sorrindo levemente.

- Deixa eu tirar vocês d-daqui... – Sam engoliu em seco. — E m-m-meu pai pode n-n-nos ajudar... P-por favor... – Pedira baixo, choramingando assustado.

- Seu pai não pode ajudar. Ninguém pode bonitinho. – As crianças comentaram juntas, entristecidas.

- P-por que estão fazendo isso? – O moreno sentiu um soluço subir pela garganta e o engoliu com dificuldade. – Eu s-só quero ir pra casa... Por favor...

- Essa é a sua casa agora. – O loiro retrucou, passando os dedos frios pela pele clara de Sam, que fungou.

- E-eu tiro todos v-vocês... P-por favor... – O rapaz insistiu, sentindo as lágrimas começarem a escorrer por seu rosto. – N-não faz nada comigo...

O loiro aproximou o rosto da curva do pescoço do caçador, cheirando-o e fungando contra a pele úmida do rapaz, que agora não engolia mais os soluços de medo, deixando-os escapar por seus lábios entreabertos e trêmulos.

- Não chore... Sammy, não chore... – O garoto pediu de forma doce, cerrando os braços ao redor dele.

- M-me solta... – Ele pediu, ignorando completamente que o loiro sabia seu nome. Aquilo tudo era tão confuso que não conseguia entender mais nada. – P-por favor...

- Não posso. Logo vai estar tudo bem.

O Winchester gemeu de dor quando o rapaz mordeu seu pescoço com força, sentindo o sangue escorrer pela pele, e não demorou muito para sua cabeça voltar a rodar. Não queria voltar a desmaiar, tinha medo do que iria acontecer se apagasse, mas era muito mais forte que ele. Assim que o loiro se afastou, fechou os olhos e desmaiou novamente.

- Não faça isso de novo! – As crianças sibilaram irritadas, dando uma bofetada no loiro, que caiu no chão.

- Ele não vai tirar vocês daqui. – O rapaz murmurou, limpando o sangue dos lábios. – Ele não pode.

- E se ele puder? Seu cachorro bobo!

- Não posso desobedecer. – Ele retrucou. – Sinto muito.

- Vai embora! – As crianças gritaram irritadas e o rapaz concordou, afastando-se, enquanto elas se sentavam perto de Sam, que acordava aos poucos.

- Desculpe, ele é um cachorrinho malvado. – A menina sorriu. – Você pode mesmo nos tirar daqui?

- E-eu... Posso tentar...

- Vamos ajudar você então. – As crianças disseram sorrindo de forma medonha e o rapaz estremeceu levemente, esboçando um sorriso apavorado para aquela coisinha que era duas em uma.

- Vão acabar mortos, isso sim. – O loiro resmungou, e Sam o viu balançando-se preguiçosamente numa rede puída pendurada bem perto do teto.

- Não ligue pra ele. – O menino pediu, rolando os olhos.

- Bem, de qualquer forma eu terei comida mais tarde. – Ele arrulhou, entre orgulhoso e sarcástico, e se afundou na rede até desaparecer de vista. Sam engoliu em seco, pensando se queria ou não saber sobre o que o loiro falara.

- Como vocês... Chegaram aqui?

- Ah, é uma história engraçada. – A menina comentou.

- E beeeeem comprida. – O menino sorriu.

- Nós nos perdemos do papai e da mamãe, e gostamos muito de circo sabe? – A menina começou. – Aí um homem muito bonito falou que tinha um circo especial.

- Muito especial. – O menino concordou. – E que poderíamos ficar lá pra sempre.

- Mas... Como ficaram... Assim? – Indicou o corpo pequeno com as duas cabeças meio incomodado.

- Isso também foi engraçado. – O menino riu e abriu os botões da roupa de palhaço. Sam teve que fechar os olhos quando vira metade do corpo do menino costurado com arame à metade da menina. A pele parecia estar... Podre ao redor do arame, com escoriações, sangue seco e marcas amareladas.

- Por que ele fez isso? – Sam perguntou desconfortável.

- Porque ele gostava de nos ver juntos. Quando nos abraçávamos. – A menina comentou. – Daí ele nos dividiu, e nos costurou.

- M-Meu Deus... – O moreno engoliu em seco ruidosamente e tentou tirar aquela imagem horrenda da cabeça. – E ele? – E indicou o loiro com um aceno leve de cabeça.

- Não sabemos. – Os gêmeos falaram juntos.

- Ele já estava aqui quando chegamos. Mas antes ele era muito mais divertido antes. – A menina mostrou a língua na direção da rede e Sam ouviu o rapaz dar um rosnado impaciente.

- É. Antes da dama chegar. – O menino apontou para um canto escuro.

- Dama? – Sam questionou.

- É. A dama. Eu a odeio. – A menina emburrada.

- Por quê?

- Porque ela tem ciúmes. – O menino sorriu maroto.

- Hmpf. – Ela emburrou-se mais e Sam deu um meio sorriso.

- De onde ela veio?

- Não sabemos também. – O gêmeo respondeu.

- Ela não fala muito. – A garota segredou. – Porque ela era muito bonita antes de chegar, mas agora não é.

- Hun... – O Winchester meneou a cabeça, confuso, e as algemas machucaram mais um pouco seu pulso ferido. – Droga.

- Vai parar de doer logo.

- Eu espero que sim... – Sam suspirou pesadamente. – O Mestre tem nome?

- Ele não precisa de nome. – A menina respondeu. – Ele é o Mestre.

- E se tivesse nome, seria sem graça. – Completou o menino.

- É. Com certeza. – O rapaz desviou o olhar para a rede que balançava silenciosamente. – Você não quer sair daqui?

- Nunca disse isso. – O loiro comentou preguicosamente.

- Então por que não me ajuda?

- Porque não sou suicida. Mas tem um lado positivo nessa loucura de vocês, eu não passarei fome por uns bons dias.

- Ignore-o. – A menina pediu.

- Você come... Carne humana? – Sam engoliu em seco enquanto o loiro balançava os ombros, indiferente.

- É melhor do que insetos, com certeza.

O Winchester reprimiu uma careta de nojo e meneou a cabeça, tentando espantar aqueles pensamentos. Respirou fundo, tentando se acalmar e querendo pensar num jeito de saírem dali, mas não parecia nada fácil como gostaria. Agora que conseguia notar, estava na mesma jaula que vira antes, mas por dentro ela parecia maior do que havia reparado. Soltou um suspiro baixo e tentou, mais uma vez quando as crianças se afastaram para uma sombra, soltar os pulsos, mas tudo o que conseguiu foi machucá-los mais.

- Pare de se mexer ou eles vão achar que eu estou te machucando. – O loiro sibilou, levemente irritado, e Sam obrigou-se a parar.

- Você tem nome?

- Tinha. Mas eu esqueci. É tão fácil esquecer o nome. – O rapaz sacudiu os ombros rapidamente, voltando a se balançar.

- Você está aqui há muito tempo?

- Faz. Eu era pequeno, me perdi do meu pai. – O loiro cruzou os braços atrás da cabeça, aproveitando a liberdade. – Ou ele me abandonou. Eu nunca soube. Não fez diferença antes e não faz agora.

- Então por que continua aqui? – O Winchester quis saber. – Por que você não tenta sair desse lugar?

- Eu já disse, não sou suicida.

- O que o "Mestre" pode fazer? – Sam perguntou curioso, ajeitando-se numa posição que não sentiria muita dor.

- Nada. Só torturá-lo até suas entranhas ficarem no avesso. E depois te atirar pros cães.

- E no caso, seria você.

- Ah sim. – O loiro sorriu maliciosamente e o caçador teve a impressão de ver os olhos dele brilharem com desejo e malícia por um momento. – Exatamente.

“Deus, onde foi que eu me meti agora?” Ele pensou, balançando a cabeça.

- E também... – O loiro continuou. – O Mestre é bom comigo. Isso é, quando não se zanga.

- Agora eu entendi. – Sam riu sem humor. – Porque te chamam de cãozinho. É o que você é, não? – E voltou a rir. – Só um cachorro miserável que vira pro primeiro que te dá comida e faz tudo o que ele manda.

O loiro o ignorou, voltando a se afundar na rede, e o Winchester teve que respirar fundo para conseguir parar de rir. Não entendia o que era tão divertido, mas já estava completamente fodido mesmo. Recostou-se melhor na parede fria e fechou os olhos, querendo adormecer, mas o chão era duro e gelado o bastante para mantê-lo acordado. Demorou algum tempo, e finalmente conseguiu fazer o sono chegar e dormir.

Notas finais
Reviews não matam, sabe? Eu ficaria muito feliz se você pegasse seus dedinhos e dois minutos do seu tempo para deixar alguma coisa além de "gostei, continua". Isso é revoltante para qualquer ficwriter.
Como é AU, eu acho que vocês não vão quebrar muito a cabeça para descobrir onde o Dean está escondido, hehehe. Beijos e até a próxima!