Dark Souls - A Novelização
4 Capítulo 4 - A Fortaleza dos Mortos-Vivos
Notas iniciais
Quando sentiu a névoa se dissipar, o morto-vivo abriu seus olhos, e se viu em um corredor de pedra á céu aberto (Aliás, tudo era á céu aberto lá) que levava á um pátio muito mais espaçado através de umas escadas no final do corredor.
O morto-vivo começou á caminhar até lá, porém, ele sentiu algo de errado no ar. Por um momento, não conseguiu nem perceber o que causara o deslocamento súbito do ar, que retirara o oxigênio de seus pulmões, até que percebeu o imenso vulto caindo sob o corredor onde estava.
O morto-vivo caiu de joelhos quando não só o corredor, mas boa parte da fortaleza tremeu ante o peso da imensa forma que pousara lá como uma ave de rapina. Era uma criatura escamosa, vagamente reptiliana, com asas larguíssimas. O morto-vivo viu suas garras afiadas como machados de guerra, e sua imensa cauda, quase um segundo ser completamente diferente, uma cobra sem cabeça.
Porém, aquilo tudo durou por apenas um segundo ou dois, antes do dragão (Aquilo era um dragão, certo?) se lançar novamente aos céus, tão súbito e impetuoso quanto antes, deslocando uma grande nuvem de poeira com ele.
O morto-vivo agitou a cabeça para se livrar da surpresa, e deu um passo hesitante para trás. A construção era velha, mas ainda era sólida, e o piso não tremeu ou sequer mostrou qualquer sinal de fraqueza sob seu peso. Ele subiu as escadas e, então, percebeu dois guerreiros zumbis, por lá.
O morto-vivo percebeu outra coisa sob o pátio. Ele levava á dois outros lugares. Á um piso superior, com uma minúscula torre que conduzia até lá, e á outro pátio, onde havia dois soldados mortos-vivos armados com lanças e escudos de guarda.
Porém, sua atenção foi imediatamente retomada ao escutar o som de algo se quebrando. Uma das barricadas de madeira cobertas de musgo daquele local desabou por completo, se desmantelando. O motivo disto fora um golpe de espada de um guerreiro morto-vivo que estivera escondido, e agora se revelava.
Três contra um, mas o morto-vivo tinha a vantagem do cérebro e da habilidade. Não seria tão difícil assim, certo?
Até que escutou o próprio ar assobiar, e ao erguer a cabeça, ele percebeu a flecha que voava á sua direção.
Ele rolou para o lado, evitando o projétil que zuniu por onde sua cabeça estivera anteriormente, só parando ao se cravar firmemente na pedra daquele local. Ele ergueu a cabeça novamente, e percebeu o atirador.
Era um soldado morto-vivo, equipado com uma couraça de ferro rachada e uma besta, que já carregava outro dardo para atingi-lo. Maldito. Com ele interferindo, as coisas ficariam mais difíceis.
Os três zumbis atacaram em uníssono, erguendo as espadas e descendo-as sob o escudo do morto-vivo, o forçando de joelhos com a pura força bruta do golpe. A intenção deles era clara, mantê-lo imóvel para que o próximo tiro de besta o atingisse num lugar bem mais mortal do que no ombro ou no peito. Ele apertou os dentes, forçando o escudo para frente, e por um momento, as forças pareceram igualadas... Até que o morto-vivo começou á empurrá-los, e então, golpeou a canela de um dos zumbis. Foi um golpe superficial, mas as dezenas, centenas de pregos afiados da estrela-da-manhã faziam até mesmo os mais superficiais dos ferimentos serem uma experiência extremamente desagradável e sangrenta.
O zumbi em questão caiu de joelhos em pura agonia, e o morto-vivo pegou o outro pela goela e o ergueu, batendo a cabeça dele contra a do outro zumbi. Quando o tiro de besta veio, ele utilizou o morto-vivo como escudo, fazendo o dardo se afundar sob a parte de trás do crânio. O zumbi tossiu sangue na mão do morto-vivo, mas este ignorou o sangue maldito, e jogou-o de costas no chão numa brutalidade quase não vista, fazendo o dardo se aprofundar ainda mais para dentro da cabeça do pobre zumbi. O outro zumbi já havia se recuperado, mas o morto-vivo espetou a estrela da manhã em sua cara, o fazendo gritar fracamente e cair no chão, com a geografia do rosto sendo radicalmente alterada, com vulcões de sangue surgindo por todo o lado e entrando em erupção, jorrando seu conteúdo líquido por todo o lado.
O zumbi de joelhos começou á se por de pé, desferindo inúmeros golpes contra um morto-vivo. Um traçou uma linha escarlate em suas costas, e quando se virou para recuar, um corte diagonal foi aberto em suas costelas. Ele ergueu a estrela sanguinária e a fez se abater sob o pescoço do zumbi, destroçando-o por completo. O último zumbi, que ainda sobrevivia com sua cara desfigurada, foi morto por uma pisada brutal do morto-vivo, esmagando suas costelas, carne, pele, coração e um dos pulmões. Por dentro, o corpo dele estava uma ruína, muito pior do que seu rosto.
O morto-vivo sentiu uma pontada aguda de dor em seu peito ao sentir o dardo cravar-se lá. Momentaneamente zonzo, ele olhou para o dardo estancado em seu peito e o sangue que fluía de lá. O morto-vivo agarrou a estaca de madeira e a puxou, fazendo sangue jorrar da ferida.
Ele jogou o dardo de lado e olhou para cima, para o soldado que já armava outro dardo. Rapidamente, ele correu até a porta da torre em que se situava, e a abriu violentamente, bem á tempo de evitar uma flecha que batia no chão, alguns centímetros á frente de onde estava.
Acabou que aquela torre, se era pequena por fora, era ainda menor por dentro. Nem tinha escada que levava para cima. Só tinha outra porta que, quando aberta, levava á uma varandinha com quase nada... Exceto por um cadáver esbranquiçado que segurava firmemente um escudo de madeira em suas mãos.
O morto-vivo olhou para o escudo com grande interesse. O escudo dele era um amontoado de tábuas pregadas umas ás outras, já esse escudo realmente parecia um escudo, com formato de escudo, madeira de boa qualidade, com um dragão branco pintado sobre ele. Não era de metal, mas ainda era leve, e era mais resistente do que aquele que usava.
Guardou o próprio escudo naquela dimensão interna, e pegou o novo escudo de carvalho, passando o braço pelos anéis de metal incrustados na parte interior do escudo. Ele sentiu o peso invisível do outro escudo em suas costas, mas valeu á pena. Um escudo de madeira decente e uma estrela-da-manhã. Um par melhor do que aquele que usara inicialmente, um porrete rústico com um amontoado de tábuas. Mas a brisa que batia em seu peito não mentia. Até que arranjasse uma armadura, até os mais fracos dos inimigos podiam ser mortais para ele. Ele era incrivelmente resistente para um morto-vivo, verdade, mas qualquer guerreiro decente o destriparia em pouco tempo, se não tomasse cuidado.
O morto-vivo saiu da pequena torre, e subiu a escadaria em seu lado. Ao chegar ao topo, percebeu que havia outro guerreiro morto-vivo do lado do soldado atirador, que já mirava a besta nele. Em uma fração de um segundo, ele avançou no guerreiro morto-vivo, mergulhando de cabeça na barriga frágil dele, fazendo-o arfar com o impacto súbito, forçando o soldado á mirar de novo.
Ele bateu o escudo na cara do guerreiro zumbi, o fazendo recuar, tonto, e dando tempo ao morto-vivo bloquear o dardo atirado ás suas costas, se virando com o escudo erguido. Ele tremeu com o impacto, mas o dardo se cravou superficialmente na madeira daquele escudo.
O morto-vivo se virou novamente, e golpeou a axila do guerreiro zumbi, que já erguia a espada. Ele abaixou novamente, grunhindo de dor, enquanto sangue jorrava da ferida e seu ombro era parcialmente separado do braço.
Com um golpe na cabeça do zumbi, o guerreiro caiu no chão, morto. O morto-vivo se virou parar encarar o oponente com a besta, e outro projétil atingiu seu peito. Mais sangue fluiu de seu corpo, e o morto-vivo tremeu com o baque do dardo contra as costelas, as rachando. A dor momentânea seria insuportável á um ser humano, mas não para ele. O morto-vivo avançou, enquanto o soldado carregava rapidamente mais um dardo em sua besta. Ele chutou o soldado contra a borda da torre, e desajeitado, o soldado tentou atirar no morto-vivo. Mas ele esperava por isso, e afastou o dardo com o escudo, jogando-o de lado.
O soldado largou a besta e sua mão começou á fazer a sua trajetória para o punho de sua espada... Mas parou quando a estrela-da-manhã foi brandida até sua cabeça, quebrando-a e rachando seu capacete de ferro.
O morto-vivo largou o corpo dele lá, deixando o sangue e o cérebro esmagados escorrerem de sua cabeça para caírem pela amurada da torre.
Ele sentou-se, arfando em cansaço do esforço feito, e olhou ao redor. Á sua esquerda, havia uma ponte pequena que levava á uma torre arruinada, com um pátio largo, escadaria destruída e... Uma Fogueira?
Logo á frente dele, havia um corredor que levava á uma ponte, que por sua vez se conectava á outra torre. Uma plataforma alta ao lado da torre tinha três soldados mortos-vivos que empunhavam bombas, julgando pela sua aparência. No momento em que tentasse cruzar aquele corredor, teria uma recepção explosiva.
Atrás dele, do lado do pátio de entrada, ele reparou que os dois mortos-vivos de guarda não tinham se mobilizado para atacá-lo. Eles permaneciam alertas e hostis, mas ficaram parados, encouraçados pelo ferro velho e pano apodrecido, segurando uma lança e um escudo largo, de ferro puro. Soldados mortos-vivos lanceiros.
Mas o que mais o intrigou foi que, daquele ponto de vista superior, por entre um amontoado de caixas, sacos de estopa e barris, dava para ver algo. Uma sombra, como algo que levava para baixo. Que diabos era aquilo?
Decidiu que ia explorar, mas primeiro, precisava descansar.
Na hora em que se ergueu, sentiu várias pontadas doloridas por todo o seu corpo. As feridas ainda estavam abertas, e estava cansado. Quanto mais cedo chegasse à Fogueira, melhor.
Caminhou até lá, ignorando o leve ranger da ponte ao cruzá-la, e sentou-se lá, sentindo a fogueira revitalizá-lo, sentindo as feridas se fecharem e seu cansaço ser devorado pelas chamas reconfortantes. De repente, ele se sentiu em casa, em seu lar. Era a sensação de qualquer morto-vivo que se sentasse na beira de uma Fogueira. Era o único lar onde podiam se sentir em casa.
Ele re-encheu o frasco vazio de Estus, e após relaxar por mais alguns minutos, se pôs de pé. A jornada até o Sino continuava, afinal.
Andejou de volta ao pátio inicial, e de lá, rumou para o pátio ao lado, onde os dois lanceiros aguardavam.
Ao vê-lo se aproximando, ambos se esconderam atrás de seus escudos, só deixando os olhos e o topo da cabeça á mostra, e baixaram as lanças, as apontando em sua direção.
Passaram em andar lentamente em moções circulares, rodeando o morto-vivo, procurando por aberturas em sua defesa. Ele agitou o escudo, estapeando uma lança para o lado, e avançou, golpeando com brutalidade. Porém, o lanceiro era mais habilidoso do que esperado. Ergueu o escudo, e o impacto criou várias faíscas, além de fazerem ambos tremerem. Imediatamente, o lanceiro empurrou a lança para trás, e o morto-vivo teve de dançar para o lado á fim de evitar ser espetado como uma carne para churrasco.
Mas quando alguém ataca, ele se torna vulnerável... Pelo menos, em teoria. O morto-vivo agitou a maça, e novamente o escudo a interceptou. O outro lanceiro avançou, forçando o morto-vivo á rolar para trás.
Os dois lanceiros andaram lentamente até ele, com a certeza de uma cobra que acuara a sua presa. O morto-vivo, porém, estava planejando um modo de derrotá-los. E já tinha uma estratégia, só precisava aplicá-la.
Ele ergueu o escudo e andou até o lanceiro á sua esquerda, o rodeando com cuidado. Tanto ele quanto o outro lanceiro tentaram espetá-lo, mas com uma dança complicada, ele se esquivou das duas pontas de metal, e então chutou o escudo do primeiro, o derrubando no chão. O morto-vivo pisou sob ele, e então ergueu a maça e a desceu, dando um sangrento fim á cabeça do zumbi lanceiro.
Ele repetiu o processo com o segundo, e após este estar finalmente derrotado, o morto-vivo olhou para o amontoado de caixas que escondiam a escada que vira mais cedo. Ele andou até elas, e com alguns golpes bem colocados e fortes, ele reduziu as caixas e barris á tábuas quebradas, e os sacos de estopa á um amontoado de estopa rasgada.
Tal como um explorador experiente, ele deu uma cautelosa olhada para baixo antes de descer a escada, á passos lentos. Sua mão apertava firmemente a maça, pois seus instintos o alertavam da presença de mais alguém por lá.
O lugar era uma sala pequena e que já fora cômoda, agora arruinada e estranhamente sinistra. A luz vinha da varanda aberta e das rachaduras da parede, fazendo o lugar ser bem iluminado. Enquanto era dia, pelo menos.
Ele caminhou até a varanda, e ao chegar lá, se deparou com uma cena estranha. Um morto-vivo esquelético, vestido com uma túnica puída cinzenta e uma bandana branca, sentado num tapete, rodeado por caixas e barris, armas, armaduras e equipamentos.
O morto-vivo franziu a testa e se aproximou, e o outro morto-vivo o percebeu e ergueu a mão em um gesto de paz.
— Você parece ter seus nervos com você, hm? Se sim, então você é um freguês bem-vindo! Eu vendo coisas por almas, tudo está á venda! – Ele riu, uma risada aguda e estranha.
O morto-vivo franziu a testa, e perguntou, com um óbvio tom de incredulidade:
— Você vende coisas aqui? De todos os possíveis lugares, aqui?
O mercador deu de ombros quando respondeu:
— Na verdade, aqui é muito bom, sabe... Os outros mortos-vivos não se importam com um velhote como eu. E eu tenho Yulia... E ninguém joga pedras em mim mais. Você também é morto-vivo. Sabe como isso é. Fui muito maltratado lá em casa.
O morto-vivo assentiu com seriedade. Mortos-vivos, fora de Lordran, eram criaturas consideradas malditas e arautos de má-sorte e desgraça. No mínimo, sofriam pressão extrema e agressões diárias. No máximo, o que era normal, era serem caçados e mortos. Também já passara por isso. E ele supôs que a tal “Yulia” fosse um bicho de estimação, ou algo do gênero. Não vira nenhum, mas considerando tudo que acontecera em menos de 24 horas, ele não duvidou da presença dessa coisa.
— Onde essa... “Yulia” está? – perguntou, olhando para o mercante com uma expressão de curiosidade. Em resposta, o esquelético (Literalmente esquelético. Ele mal parecia ter alguma carne entre a pele e o osso de seu corpo) vendedor sorriu misteriosamente... E meio insanamente. Algo normal de mortos-vivos que morreram muitas vezes, ou que estavam á apenas uma morte de distância de se tornarem Vazios.
— Oh, Yulia está sempre comigo! Mas basta falar de mim, vamos falar sobre minhas mercadorias, não?
— Mas não tenho dinheir-
Foi interrompido por um aceno do vendedor, impaciente.
— Ora, ora, você é estrangeiro? Em Lordran, não usamos pedaços de metal como economia. Pelo contrário, usamos algo muito mais econômico e fácil de adquirir... Almas. – Ele sorriu mais uma vez, olhando para o morto-vivo com olhos de predador.
— Almas? – ele repetiu, lentamente.
— Sim, almas! Você tem algum problema nos ouvidos, por acaso? – O vendedor ralhou, ainda sorrindo.
O morto-vivo ia contestar isso, quando se lembrou das chamas brancas que coletara dos corpos ressequidos dos mortos, da sensação de ser preenchido por algo quando matava algum ser, vivo ou não-vivo. Era o poder duma alma, o que tornava alguém mais forte, mais humano, também era economia em Lordran.
— Vamos ver o que você tem, então. – O morto-vivo cedeu. – Não gosto da brisa nas minhas partes. Lembra-me do quanto estou vulnerável.
— Oh, então veja essa coleção de armaduras de malha que tenho! – O vendedor exclamou, mostrando alguns de seus equipamentos.
Após alguns minutos de barganha e troca de almas (O processo era simples. Simplesmente precisava focar naquela sensação estranha de que absorvera algo, e tentava manifestar aquela coisa. Então, voilá, chamas brancas apareciam em sua mão, preparadas para serem absorvidas de novo), ele conseguiu obter calças e um colete de cota de malha, com longas e altas botas de metal leve. Também conseguiu uma Caixa Sem Fundo, que era justamente o que seu nome indicava. Símbolo de avareza, essa caixa era usada como uma “mochila” de viagem, no sentido em que podia armazenar um número infinito de itens sem jamais ficar mais pesada ou danificada. Um apetrecho utilíssimo a qualquer aventureiro. Além disso, também adquiriu uma caixa de reparos, cheia de instrumentos para consertar armaduras e armas.
O morto-vivo estava amarrando o colete de cota de malha, sentindo os anéis de ferro tilintarem, quando percebeu o quanto estivera vulnerável. Ele lutara contra vários inimigos, alguns dos quais portavam bombas, trajando nada além de uma tanguinha digna dos distantes antepassados dos homens, da época da Escuridão.
Agora se sentia melhor. Um colete de anéis de metal, pequenos e firmemente entrelaçados uns sob os outros, com um grosso cinto de couro com fivela metálica prendendo a camisa de cota de malha ás calças também compostas de vários anéis, com ocasionais placas de metal nos joelhos, tornozelos e pés. Suas mãos estavam nuas, assim como sua cabeça, mas ainda era melhor do que ficar descoberto.
— Muito obrigado! – Novamente, a risada daquele mercador. O morto-vivo franziu a testa. Não sabia se gostava ou não daquele cara, mas pelo menos, lhe fora útil.
Ele saiu daquela varanda, e naquele instante, percebeu algo á sua esquerda. Uma escada que levava para baixo... Onde será que aquilo daria?
A curiosidade levou o morto-vivo até lá, e seus instintos o salvaram novamente.
Ele estava caminhando até a escada, quando ele percebeu um súbito movimento á sua direita. Ele olhou para lá instintivamente, e ele não viu nada, além de um estande cheio de potes e taças de barro e livros ressequidos... Até que esta explodiu em uma nuvem de cacos e estilhaços de madeira, por um golpe de machado de alguém que estivera escondido ali atrás.
A imensa lâmina de metal caiu sob o morto-vivo, que ergueu o escudo de madeira e bloqueou o ataque. O choque anestesiou o seu braço, e ele sentiu-o fraquejar ante a imensa força do golpe. Momentaneamente cego pela explosão de madeira e barro, ele desesperadamente chutou á frente dele, tentando se livrar de seu agressor, e deu certo. Ele escutou um satisfatório “Uff!” e sentiu sua bota de metal empurrar algo para longe de si. O morto-vivo se pôs de pé novamente, agora vendo seu oponente. Era outro dos guerreiros mortos-vivos de machado. Seus olhos alaranjados estavam cheios de fúria assassina e confusão momentânea por serem chutados. Antes que este pudesse se recuperar da confusão, o morto-vivo atacou, brandindo sua maça espinhenta na cabeça do usuário de machado, fazendo seu rosto explodir e aflorar como uma rosa de sangue, e este morreu irreconhecível, com seu cadáver batendo no chão de pedra e tingindo-o de vermelho, com o sangue e fluidos que saíam de sua cabeça.
O morto-vivo praguejou contra o outro, que tentara atacá-lo, e prosseguiu descendo as escadas.
Ele se viu em um corredor de pedra razoavelmente estreito que levava á uma escada enferrujada, e no caminho entre ele e a escada, havia um grupinho de mortos-vivos de tanga, armados com espadas tão quebradas e velhas que mal serviriam para aparar uma barba.
Em suma, um grupinho de zumbis nus. Eles não eram grande coisa, mas como dizia o ditado, a união faz a força. E o morto-vivo sabia disso.
Se todos avançassem, seria um problema para o morto-vivo, mas um problema que ele poderia remediar sem muita dificuldade. Se avançassem em duplas ou em trios, a situação ficaria mais fácil ainda... Mas um erro dele, e ele se veria morto de uma forma brutal e estúpida.
Os dois primeiros do grupo correram até ele, de maneira desengonçada e trôpega. O morto-vivo aguardou, e quando eles saltaram até ele, o morto-vivo deu um pequeno salto para trás, evitando por um triz os golpes da dupla. Quando as lâminas cegas cortaram o ar onde ele estivera momentos antes, o morto-vivo simplesmente balançou a maça de um lado para o outro, como um explorador balançaria sua faca para cortar galhos numa floresta.
Os mortos-vivos anêmicos caíram no chão, mortos, e ele prosseguiu na direção dos três restantes. Embora não em uníssono, e com certeza não no mesmo ritmo, eles saíram praticamente ao mesmo tempo. Um estava andando, os outros dois corriam. O primeiro foi recepcionado com um rápido golpe do escudo do morto-vivo seguido com um devastador arco com a estrela-da-manhã. Ele literalmente foi lançado pelo ar, caindo três metros adiante com um baque seco e crocante, com vários estalidos permeando o ar.
O segundo conseguiu atingir o braço do morto-vivo com um rápido golpe da sua lâmina, mas a lâmina quebrada deslizou pela cota de malha, apenas arranhando superficialmente os anéis da cota de malha em meio de uma chuva de faíscas. O morto-vivo chutou-lhe o peito, se afastando do atacante, e então o finalizou com um golpe da sua maça que perfurou e quebrou os ossos da cabeça do morto-vivo Vazio, e o impacto foi tamanho que um dos olhos da criatura saltou para fora da cabeça, enquanto o outro era dilacerado pelos vários espinhos da estrela-da-manhã.
Os corpos caíram com um baque seco, o baque de algo que há muito já perdera sua vida e razão de viver, algo que passara da sua data de validade na terra. Ele olhou para a escada, agora desimpedida, e andou até ela, em meio de sangue e destroços de mortos-vivos espalhados pelo local. Ele subiu a escada silenciosamente, erguendo um pé, depois uma mão, agarrando o próximo suporte e se alavancando para cima, até que atingiu o telhado. O morto-vivo se ergueu com um rápido salto, e então olhou ao redor.
Havia um cadáver ressequido no canto do telhado (Carregado com facas de atirar, que foram roubadas pelo morto-vivo), e logo um pouco embaixo, o corredor que vira logo na entrada na Fortaleza dos Mortos-Vivos.
Ele podia estar coberto por uma armadura de metal, e carregado de itens, mas ele era surpreendentemente ágil. Caiu de pé no chão logo abaixo, e retornou ao pátio inicial, subiu as escadas e foi a torre, onde descansou mais uma vez na Fogueira.
Agora estava coberto por uma armadura. Estava preparado para encontrar seus adversários, quando percebeu uma coisa.
A sua Humanidade.
Ele ergueu a sua mão direita, que estava trêmula. Um minúsculo espírito negro formou-se na sua mão, com uma ligeira aura branca. Ele dançava e remexia-se sob a mão do guerreiro, brincalhão e curioso. A Humanidade. Uma coisa misteriosa e indefinida. O que era a humanidade, afinal? Se ser humano era poder pensar e ser racional, e ter um compasso moral, por que apesar de não ter a Humanidade dentro de si não afetava-lhe esses sentimentos, diretamente? Com certeza não era a alma. Muita coisa inumana que conhecia havia almas, enquanto mal possuíam uma milionésima parte de uma Humanidade.
Ele suspirou. Não era uma resposta que saberia em breve.
Mas sabia o que precisava fazer.
O guerreiro pôs-se de joelhos, colocando-se a frente da Fogueira. Ele colocou sua mão sob as chamas abençoadas da Fogueira, e fechou os olhos. Concentrou-se. Focou em seu ser, focou-se nos recantos mais profundos de sua alma.
O morto-vivo fechou sua mão, transformando-a em um punho.
O espírito foi esmigalhado em centenas, milhões de partículas negras que o envolveram. Ele se sentiu revitalizado, se sentiu bem! E acima de tudo, sentia algo de especial...
Começou a brilhar. Uma luz ofuscante, com partículas negras fluindo de seu corpo. Pontos de pura luz e trevas brilhavam sob seus olhos, logo a sua frente, e uma sensação de calor envolveu o morto-vivo... E então parou.
Ele piscou. Fora súbito, e a sensação de bem-estar já passara. Sentia-se um pouco melhor, e com certeza diferente, mas afora isso, tudo era exatamente a mesma coisa. Olhou para a própria mão, e foi então que percebeu.
Ele flexionou os dedos de sua mão limpa, branca. Ele tocou a própria face, e percebeu que a sua face não estava mais ressequida, percebeu que as feridas haviam ido embora. Agora sua pele estava normal, bruta, mas lisa. Seus olhos castanhos miraram as chamas, que pareceram faiscar, como numa risada. Ele passou as mãos pelo cabelo, que não mais era embaraçado e sujo. Claro, não eram cheirosos ou lisos como um da realeza, mas pelo menos estavam, bem, agradáveis. Não pareciam duros ao toque. E acima de tudo, sentia que a marca em formato de árvore em seu peito desaparecera. Não havia cicatriz ou lembrança daquela marca em seu peito.
Ele havia recuperado sua forma humana.
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