Dark Paradise
1 Paraíso negro
Notas iniciais
Era uma noite de primavera na Inglaterra. Agradável, bela, iluminada e predisposta a acolher os jovens universitários londrinos. Muito embora naquele local em particular encontrava-se uma boa concentração de estudantes vindos de outros países. E era exatamente um grupo desses que estava se divertindo em um pub que frequentavam há muito tempo, desde que todos ali começaram a andar juntos.
O nome do Pub era “Voice.” O estabelecimento havia recebido esse nome porque era um ambiente em que, além de oferecer pratos personalizados com tema musical e bebidas igualmente, possuía salas que podiam ser reservadas e que continham máquinas de karaokê e juke boxes eletrônicas, onde se escolhiam diversas faixas musicais que fizeram e faziam sucesso, independentemente de sua data de lançamento ou estilo. Podia muito bem variar de The Beatles para Sara Brightman. Como de The Smiths para Iron Maiden. Dentre vários outros estilos musicais. O lugar era realmente grande e bem centralizado na rua.
Entrando no Voice, já se ouvia sair das diversas caixas de som, posicionadas acima das mesas, One more time do Daft Punk. Os fregueses pareciam estar à vontade, alguns mexiam a cabeça ou balançavam os pés e mãos conforme o ritmo tão viciante da música. Até mesmo os atendentes dançavam ao executar os pedidos, e ainda com eficiência. Mais ao fundo, passando um pouco da cozinha, havia os corredores com as salas de karaokê. Em uma delas, a maior, que além de mesas e sofás também tinha o privilégio de ter um banheiro exclusivo para os clientes que ali ficavam, estavam os distintos estudantes. Cada um mais interessante que o outro. No sofá escuro que ficava encostado em uma parede cheia de notas musicais fosforescentes, Fiodor, um russo de cabelos negros que usava um tapa-olho do lado direito, estava escolhendo as músicas que iria cantar ao lado de Edward, um de seus melhores amigos. Isso se o namorado baixinho e ciumento dele, Cheshire, deixasse. O pequeno rapaz, que mais lembrava um gato arisco, estava colado em Edward o adulando para irem rapidinho ao banheiro.
Gordon era um polonês que fazia o tipo “grandalhão, porém gentil.” Festeiro e barulhento, ele estava fazendo os pedidos de comida. Com a quantidade de gente que iria para lá, nada iria sair absurdamente caro. Para ajudá-lo a decidir, Wimber e sua namorada, de ar levemente vampiresco, iam perguntando o que cada um dos presentes gostaria de comer. De inicio, todos se assustaram com a aparência excêntrica da loira que Wimber trouxera e apresentara a eles como sendo sua garota, mas era legal e acharam totalmente engraçado o fato de ela ser fã de vampiros, já que um dos apelidos de Wimber era Morcego... Não por ele gostar desses seres mortos-vivos aristocráticos, mas por ele preferir mil vezes andar de noite do que de dia. Para ir a faculdade era sempre um sacrifício, mas para sair à noite com os amigos era outra história.
Conversando no outro sofá, estavam Valentine, Myu e Sylphid. Este último era novato na turma e amigo de infância de Valentine. Essa deveria ser a terceira ou quarta vez que saía com eles. Desde que os conhecera, se viu em um verdadeiro circo. Todos ali eram excêntricos, exceto pelo próprio amigo, ao seu parecer. Myu adorava insetos, colecionava borboletas e sempre que podia, falava sobre as várias espécies distintas que catalogava. E ele mesmo já tinha uma aparência bizarra... Aliás, falando em bizarro, Wimber também era. Parecia ser do tipo perigoso, pálido, olhos fundos, caninos salientes (tal qual um morceguinho), mas era tão preguiçoso quanto qualquer bicho de barriga cheia. Edward apenas tinha o pavio muito curto para alguém com um rostinho infantil daqueles. Fiodor só era esquisito por causa daquele tapa-olho, além de estar sempre de bom humor e isso era um pouco suspeito às vezes. Gordon aparentava ser o mais normal, só era o mais alto de todos ali... Elizabeth, era esse o nome da namorada de Wimber, parecia mais um fantasma do que um ser humano, contudo era bonita de alguma forma. Cheshire tinha a pele mais escura que a dos outros, era baixinho e parecia muito um felino. Faltavam apenas duas pessoas, e uma delas deixava Sylphid muito, muito nervoso. Mas isso era de se esperar. Afinal ele nunca tinha conhecido alguém como ela. E não iria demorar muito para chegar.
A iluminação do ambiente era pouca, com pequenas lâmpadas que mudavam de cor nos cantos. Isso empatava a visão, mas favorecia para outras coisas. Depois de decidirem o que iriam comer, Cheshire puxou Edward para um canto qualquer. Assim como Wimber e Elizabeth haviam escapulido para outro.
— Ainda bem que eu não sou o único que não namora por aqui! Segurar vela é muito chato... – Comentou Gordon enquanto dava um jeito de arrumar aquela mesa baixa para as comidas, retirando os cadernos que continham as numerações das músicas da máquina de karaokê.
— Tem razão. Já tive que segurar vela para um monte de gente... Não entendo por que nenhuma garota gosta de ficar comigo. – Resmungou Myu o ajudando.
— Talvez porque você seja conhecido como “garoto inseto”. Não? – Respondeu Fiodor indo trocar a música da juke box de Owl City para Poets of the Fall.
— Mas qual o problema com insetos? Eles são muito interessantes, sabia?
— Esse é o problema! – Todos responderam em uníssono, o que deixou o austríaco calado e emburrado de braços cruzados no cantinho do divã.
Eles riram da reação do insetinho, que acabou focando a atenção em seu celular. Havia uma mensagem para ele.
— Ah! Eles chegaram! – Myu disse se levantando para ir buscar os recém-chegados na porta da frente do Pub. O local já estava lotando e seria um pouco difícil dos outros dois entrarem, já que a sala em que estavam era exatamente no final dos corredores.
— Ouviu, Syl? A sua Rainha chegou. – Brincou Valentine rindo.
— Cala a boca... – O retraído belga respondeu de forma ríspida.
— Ah, o garoto ainda não superou o incidente! – Fiodor comentou achando graça daquilo.
Dessa vez todos riram, e bem alto. Até mesmo os dois casais que ressurgiram das sombras. Restou a Sylphid aguentar calado. Estavam se referindo ao dia em que, por acidente, ele havia caído aos beijos com a tal “Rainha”, mas sem de fato ter consciência de quem a pessoa realmente era.
Apenas foi um choque e tanto... E depois disso, Sylphid evitava olhar para ela. Inclusive fizera comentários maldosos dos quais agora se arrependera. Não havia dito a ninguém, exceto a Valentine, mas estava lá com esperanças de pedir desculpas e se redimir.
Quando Myu voltou, estava com o que aparentavam serem duas moças. Ambas absurdamente lindas, uma de cabelos ondulados e negros, com penetrantes olhos azuis, usando um belo vestido preto sem mangas. Isso contrastava com sua pele. Alguns deslumbrados alegavam que ela era como a luz do luar em uma noite sem estrelas: Bela, sedutora e misteriosa. Tinha o apelido de Branca de neve e era muito visada por quase todos os rapazes da faculdade.
A outra era ruiva. Mas o vermelho de seus cabelos se assemelhava a cor dos vinhos mais caros que as adegas poderiam ter e seus fios eram rebeldes ao ponto de moldarem perfeitamente seu rosto fino. Estava de jeans escuro, mas daqueles que colavam muito nas pernas. Sua camisa e a jaqueta que usava caíam perfeitamente em seu corpo, adaptando-se ao desenho de suas curvas, o que mostrava que era esbelta. Ela era a “Rainha” da qual falavam antes e a pessoa que conseguia tirar Sylphid do sério apenas com a sua presença.
Contudo, ela não era tão somente ela. Se chamava Kuin, um rapaz alemão, cujo apelido era “Queen” devido a pronuncia de seu nome e a sua aparência.
Queen não tinha uma completa distinção de gêneros, e não se sabia se era proposital ou não. Ele usava tanto roupas masculinas quanto femininas, e saía tanto com rapazes quanto com moças. Adelfa, a jovem do vestido preto ao lado, era a sua melhor amiga e era quase impossível de vê-los separados.
Adentrando a sala, os dois foram cumprimentados pelos amigos e sentaram-se no lugar que estava mais perto da máquina de karaokê, um pouco afastados do belga. Gordon foi prontamente conversar com eles. O adorável gigante estava completamente empolgado com a noite! Falava das comidas que esperava ansiosamente e das músicas que queria cantar competindo com alguém, coisa que vez ou outra adorava de fazer. A brincadeira era assim: vencia quem improvisasse melhor a letra da música, já que devido as etnias diversas dos amigos, não conseguiam falar inglês perfeitamente bem. O polonês de fato só tinha tamanho e gostava de falar, e muito. Não demorou e Myu e os dois casais se juntaram a conversa também.
— Hm, Queen está diferente hoje... – Comentou Fiodor, que ainda fazia companhia para Sylphid e Valentine. Estranhara o amigo. Geralmente ele estaria “menos largado” para ir a um pub.
— Mas ele é sempre diferente... – Sussurrou Sylphid, torcendo para que nenhum dos presentes tenha ouvido.
— Eu soube que ele não estava se sentindo muito bem na hora do almoço. Talvez ainda esteja um pouco mal. – Respondeu Valentine, aparentemente não tendo ouvido o comentário bobo do amigo.
— É, talvez. Bom, vou lá falar com ele! – Concluiu o russo dando um tapinha nas costas do mais velho, mas não antes de se virar para Sylphid e dizer. – Você também deveria falar com ele.
Droga. Mil vezes droga. Ficou se perguntando por qual motivo estúpido ele havia se interessado na garota ruiva, ao invés da Branca de neve naquele fatídico dia. Se tivesse sido assim, não estaria em uma situação ruim e constrangedora...
Para ele, no caso.
Mas tinha que ter uma queda por ruivas, não é mesmo?... Sylphid se amaldiçoara tanto naquela noite. Valentine sabia. Todos ali sabiam que Queen era um garoto e não contaram a ele, assim Sylphid pensava. Inclusive deram força para que acontecesse alguma coisa no pub. Resolveram que seria muito divertido ver o novato se agarrar com o ruivo e o deixaram. Quando Sylphid apalpou-o, com gosto diga-se de passagem, notou diferenças no corpo. Não foi preciso mais do que isso para o albino criar um escândalo. Ah, o belga gostaria de enterrar sua cara embaixo da terra, se pudesse. Ficou dias sem aparecer na faculdade e quando o fez, muitos já sabiam do ocorrido e tiravam sarro dele.
O problema maior foi depois. Não era a toa que Kuin era chamado de “Queen”, tanto por amigos quanto por outros e não demorou para Sylphid chama-lo assim, mas em forma de ofensa. No entanto, o alemão não parecia se incomodar com isso. Nunca perdia a compostura e até fazia piadinhas sobre seu aspecto. Sylphid não o entendia, então pensou que ele realmente gostava de "se fazer de mulher" e enganar os outros. Em suma, o belga tinha a pior das impressões sobre o rapaz e fazia questão de dizer isso a ele inúmeras vezes.
Entretanto, ele se deu conta de que havia pegado pesado demais e desde então se sentiu na obrigação de pedir desculpas. Embora não soubesse ainda como fazer isso.
Queen era uma pessoa distinta. Estranha aos olhos de uns, intrigante aos de outros. Porém, homem ou mulher, ele era perigosamente bonito. De um jeito intimidador, quase comparável a uma sereia, cuja beleza ocultava uma armadilha. Atraía a atenção de todos por onde passava, ouvia elogios e deboches, alguns o paravam para fotografá-lo e outros jogavam lixo nele.
Afinal de contas, ele era um Queer. Um termo, que apesar de inicialmente pejorativo, estava cada vez mais se tornando uma palavra comum e até resignificada dentro da sociedade. Porém, dentro do Campos Universitário, ele era um ser anormal e bizarro aos olhos de muitos.
Mas mesmo assim... Era inegável o desejo que ele despertava.
Não demorou muito e a comida chegou, e os drink’s também. Fiodor e Edward já estavam a cantar, Horror Show e Red Stars da banda The Birthday Massacre. Quando terminassem, iriam comer, dando lugar para outros cantarem. E assim sucessivamente o grupo de amigos fez. Wimber e a namorada cantaram Closer de Nine Inch Nails, enquanto Cheshire havia escapado para algum canto com Edward, outra vez. Francamente, esses dois não perdiam uma única chance de se agarrarem. Os amigos não pareciam se importar muito, sabiam que os dois mal se viam e que sempre que podiam, aproveitavam com vigor. Sylphid demorou para se acostumar com isso.
— Sabe, acho que se você bebesse ficaria mais fácil de ir se desculpar. Até rolaria mais beijinhos. – Valentine disse rindo em deboche. O aquariano estava mordiscando uns cubinhos de queijo da bandeja de frios à sua frete ao mesmo tempo em que degustava um uísque.
O mais novo revirou os olhos e levou a vodka nervosamente a boca. Não saberia dizer se estava irritado ou apenas inquieto. Olhava de soslaio para Queen, quem sabe o ruivo nem tivesse reparado nele, ou simplesmente resolvera ignorá-lo. Sylphid esperava que ele ao menos o fitasse, mas nem isso aconteceu. O alemãozinho ficou junto da amiga o tempo todo, mas com um sorriso fraco. Não parecia feliz, não interagia muito com os outros, mesmo que lhe dirigissem a palavra. Ele respondia atravessado. Será que ele não queria estar lá? Era por causa de Sylphid? Fosse o que fosse, o canceriano de olhos azuis resolveu deixar para lá.
Por enquanto.
Os estudantes se alternavam em comer, beber e cantar. Mas teve uma hora em que optaram por deixar um álbum aleatório de Rammstein tocando na juke box. Myu e Gordon então decidiram fazer uma maluca competição de quem conseguia beber cerveja em um copão de uma vez só. Wimber havia ido dar o pescoço para a namorada, Edward e Cheshire... Bom, melhor não procurar saber o que estavam fazendo no banheiro. Pobre Fiodor, estava se segurando para não fazer xixi nas calças. Embora ele pudesse muito bem sair da sala e procurar outro banheiro...
— Não vai cantar? – Valentine perguntou para Sylphid enquanto olhava para Queen e Adelfa escolhendo músicas, enquanto dividiam um copo de absolut vodka de cereja.
— Eu prefiro ficar só observando... E bebendo.
— Observando a Rainha de copas e a Branca de neve. Sei, sei.
— Essa piada não tem graça...
— Nossa, por que o mau humor? Está chateado por que a sua rainha não veio falar contigo? – Valentine era um excelente amigo, mas adorava abusar da pouca paciência que o mais novo tinha.
— E por que você não canta também? – retrucou Syl.
— Eu? Eu prefiro observar você e ver quando será o momento da verdade.
— Você não presta.
— Muito menos você.
Os dois amigos riram um do outro, descontraindo-se. Sylphid estava tenso desde que chegara e era preciso que ele relaxasse. Mesmo que fosse de um jeito que ele não aprovasse.
A noite seguia normalmente. Gordon e Myu pararam com a bebedeira e foram cantar alguma música dos Rollings Stones, mas estavam tão loucos que erraram toda a letra, o que falavam era uma mistura louca de inglês com polonês e alemão com um sotaque esquisito demais. Fiodor saiu do banheiro e estava na fila para cantar uma ou duas versões russas das músicas famosas de t.A.t.U.
Quando passaram da meia-noite todos já estavam chegando ao auge da festinha. E era a vez de Queen e Adelfa cantarem a música que escolheram juntos. Adelfa lhe deu um abraço e alguns beijos no rosto. Agora ele parecia mais feliz do que quando chegara. Estava sorrindo daquele jeito tão... Irresistível? Sua boca, mesmo de longe tinha um desenho muito bonito e seus dentes eram brancos e reluzentes... Sedutores.
Droga, por que ele tinha que ser um garoto? Sylphid se perguntava.
A música era Dark Paradise da Lana del Ray. Parecia que ambos tinham ensaiado ela e esperavam por esse momento ansiosamente tamanha era a concentração e naturalidade com que eles começaram a cantar. Mas o espanto veio com as vozes, suaves, doces e afinadas.
“Todos os meus amigos dizem que eu deveria seguir em frente
Estou deitado no oceano, cantando sua música
Ah, é como você a canta
Amar você para sempre não pode ser errado
Mesmo você não estando aqui, não vou seguir em frente
Ah, é como nós a tocamos”
A melodia tinha aquela batida estranha, uns sons tão calmos que eram inebriantes. E não era nenhum pouco agitada.
“E não há remédio para a lembrança
Seu rosto é como uma melodia
Não sairá da minha cabeça
Sua alma está me assombrando e me dizendo
Que tudo está bem
Mas eu queria estar morto”
De repente tudo parecia estar em câmera lenta. As ações de todos estavam devagar demais e o foco de tudo isso era a música. As gargalhadas de Fiodor com Edward e Cheshire ao brindarem com a bebida eram contagiantes. Wimber e a namorada trocavam leves carícias, como se já fossem casados há um tempo.
“Toda vez que fecho os meus olhos
É como um paraíso sombrio
Ninguém se compara a você
Eu temo que você não estará esperando do outro lado”
Era como se estivesse em um filme. Sylphid observava os sorrisos e escutava as risadas de todos. Mas não entendia por quê só agora ele fazia isso. Só agora ele percebia o quanto era agradável estar com aquelas pessoas, por mais excêntricas que fossem. A diversão era totalmente diferente daquela que experimentara quando mais novo.
“Toda vez que fecho os meus olhos
É como um paraíso sombrio
Ninguém se compara a você
Eu temo que você não estará esperando do outro lado”
Então do nada, sua atenção centralizou-se apenas em Queen. Os olhos dele possuíam um brilho terno e sereno. Chegava a ser um pouco perturbador.
“Todos os meus amigos me perguntam por que permaneço forte
Digo a eles que quando se encontra o amor verdadeiro, ele sobrevive
Ah, é por isso que continuo aqui”
Por que de longe o rapaz se assemelhava tanto a uma bela moça? Isso mexia muito com Sylphid. E quanto mais a música tocava, mais ele reparava no ruivo e notava outras coisas que antes lhe passaram despercebidas.
“E não há remédio para a lembrança
Seu rosto é como uma melodia
Não sairá da minha cabeça
Sua alma está me assombrando e me dizendo
Que tudo está bem
Mas eu queria estar morto”
Ele não era mais do que um simples espectador no meio daquelas pessoas. Antes de Valentine chamá-lo para andar com aquele bando único, sempre ouvia as piores coisas sobre alguns deles que eram tidos como uma escória da faculdade.
“Toda vez que fecho os meus olhos
É como um paraíso sombrio
Ninguém se compara a você
Eu temo que você não estará esperando do outro lado”
Mas por que o belga sentia que aquela canção e a intensidade com que o outro cantava era para Adelfa? E o mesmo podia-se dizer dela. Apesar de ser amiga de todos, era para o ruivo que ela olhava de um jeito tão diferente... Era com muito mais carinho e apreço. Que dupla magnífica eles formavam. Eles tinham química! Isso era impressionante. Eles eram perfeitos juntos.
“Toda vez que fecho os meus olhos
É como um paraíso sombrio
Ninguém se compara a você
Mas não há você, exceto nos meus sonhos hoje à noite”
— Estranho... – Comentou Sylphid subitamente, ainda absorto com o pequeno espetáculo.
— O que?
— Ele parece estar cantando para ela... O jeito que ele olha para Adelfa em alguns trechos da música...
“Oh oh oh, ah ah ah
Eu não quero acordar disso esta noite
Oh oh oh, ah ah ah
Eu não quero acordar disso esta noite”
— Hm. Acho que você está com ciúmes! – Respondeu Valentine.
— Vou te jogar no meio da rua quando formos embora.
— Ah, que cruel da sua parte...
“Oh oh oh, ah ah ah
Eu não quero acordar disso esta noite
Oh oh oh, ah ah ah
Eu não quero acordar disso esta noite”
A noite estava surreal. Eles eram divertidos afinal de contas. Muito divertidos. Que bom que era amigo deles. Que bom que todos se davam bem e aceitavam-se como cada um era. E por isso ele deveria se acertar com Queen o quanto antes.
“Não há alívio, eu vejo você no meu sono
E todos estão me apressando
Mas eu consigo sentir você me tocando
Não há libertação, eu sinto você nos meus sonhos
Dizendo que eu estou bem”
Mas e Queen?
“Toda vez que fecho os meus olhos
É como um paraíso sombrio
Ninguém se compara a você
Eu temo que você não estará esperando do outro lado”
Queen o considerava amigo? Eles iriam ser amigos?
“Toda vez que fecho os meus olhos
É como um paraíso sombrio
Ninguém se compara a você
Mas não há você, exceto nos meus sonhos esta noite”
Francamente, ele ser um garoto era realmente um problema? Não deveria ser, e de fato não era mais. Agora Sylphid tinha que criar coragem e ir falar com ele, assim que conseguisse uma oportunidade.
“Oh oh oh, ah ah ah
Eu não quero acordar disso esta noite
Oh oh oh, ah ah ah
Eu não quero acordar disso esta noite.”
E assim a canção acabou. Os cantores aparentavam estar alegres e satisfeitos ao voltarem para o sofá. As músicas continuaram, a bebedeira também. Wimber já estava alto o suficiente para ficar levantando a blusa da namorada e então acharam que já estava na hora de irem embora. Cheshire e Edward dividiram um táxi e Fiodor enfatizou sobre como o taxista iria se traumatizar se olhasse para trás. Wimber e Elizabeth iriam dar carona para Myu, que morava no mesmo condomínio que ela, com a loira no volante o inseto sentia-se mais seguro. Gordon e Fiodor racharam táxi também, mas para outra direção. Restaram Queen, Sylphid, Adelfa e Valentine.
— Querem carona? – Sylphid perguntou olhando rapidamente para os dois.
— Íamos pegar um táxi também, mas já que convidou... – Disse Queen, enfim dirigindo a palavra ao belga.
Então os quatro entraram no carro e um silêncio mórbido se instalou. A casa de Valentine era a mais perto e isso alarmou o Syl. Não sabia se queria ficar sozinho com os outros dois, mas não tinha jeito. O mais velho até disse que seria melhor ele ir logo, tudo na esperança de deixar Sylphid a sós com o ruivo. O albino estava começando a ficar com dor de cabeça e estava tão preocupado com esse pedido de desculpas que se sentia até muito sóbrio para alguém que bebeu uma quantidade considerável de vodka. Talvez por isso ele conseguisse dirigir normalmente.
— Acho que eu sou a próxima. – Disse Adelfa começando a indicar o caminho. – Se for por aqui, vai chegar bem perto da rua do meu condomínio.
— Ok...
— Pensei que você fosse dormir lá em casa. – Comentou o ruivo encostando a cabeça no ombro da britânica.
— Você não está muito grandinho para ter medo de dormir sozinho? E eu não posso hoje... Desculpe. – Ela respondeu com um tom de brincadeira no início, mas depois um pouco tristonho no final.
— Tudo bem, amanhã a gente faz alguma coisa. – O rapaz disse sorrindo, depositando um beijo no ombro branco da amiga.
E Sylphid ao volante ficando, além de nervoso, bastante confuso com tudo aquilo. Quando Adelfa se despediu dos dois, o silêncio retornou a se instalar. Até que Sylphid perguntou:
— Ei... Onde você mora...?
— Sabe ir para o Brompton Park?
— Sei...
— Vá indo para lá, quando tiver que dobrar alguma rua eu te aviso.
— Hm...
E tal qual uma voz de GPS, Queen indicou o caminho precisamente. A casa dele era bem bonita, bem cuidada, tintura impecável e calçada totalmente limpa. Apesar de só ter a iluminação dos postes, isso tudo era perceptível.
— Você quer entrar? – Queen perguntou ao sair do carro.
— C-como é?
— Estou perguntando se você não quer entrar. Não tem ninguém em casa hoje, a não ser eu. E não se preocupe, não vou te atacar...
— Q-Quem disse que eu estava pensando nisso?!
O ruivo apenas riu, balançando a cabeça e se virou. Em segundos, Sylphid saiu do carro. Foi automático, ele estava se concentrando nas desculpas e tinha que ir até o fim.
— Vamos entrar! – Ele disse, convicto em sua decisão. E nervoso.
Queen apenas riu de novo, revirando os olhos, e puxando as chaves do bolso para abrir o portão e a porta da frente. Os dois rapazes foram recebidos pelas mascotes da casa, um grande gato branco e uma pequena gatinha preta. O alemão afagou os dois animais e fechou a porta rapidamente para ambos não saírem. Nunca se sabe o que os gatos fazem fora de casa à noite, e ele não queria que nada de ruim acontecesse a sua pequena Lolita. E além do mais se algo acontecesse ao pai gato, seu próprio pai iria surtar.
Após isso, eles subiram as escadas para o segundo andar. Sylphid, um pouco desconfiado, ia seguindo o ruivo. Não sabia o que tinha acontecido para que de repente ele o tratasse normal, mesmo depois de todas aquelas coisas que foram ditas entre os dois.
O quarto de Queen era praticamente nos fundos. Tinha uma varada própria que dava para as árvores do Brompton Park, que parecia ser uma vista agradável de se ter tanto de dia quanto de noite. As paredes eram vermelhas, mas em um tom muito escuro e os móveis eram pretos. Tinha duas estantes, todas cheias de livros e algumas revistas empilhadas. A maioria sobre moda, em especial a japonesa e alternativas, como punk. Além de uma enorme coleção de livros de contos de fada. Tudo muito interessante. Fora a cama, cujos lençóis eram escuros, assim como os travesseiros, havia ainda o armário, uma mesa para estudos onde estava um notebook com cadernos ao lado, estojos, pastas, esboços... Muito bonitos por sinal. Um porta cd’s e um criado mudo do lado direito da cama e outro com abajur e um porta-retratos do esquerdo.
— Seu quarto é bem... Diferente. – O mais alto ressaltou.
— Diferente em que sentido?
— Eu pensei que fosse mais... Ahn...
— Que fosse mais cor-de-rosa, cheio de bonecas e esse tipo de coisa?
— Hm, é... Por aí. – Admitiu envergonhado.
— Sinto em lhe desapontar. Mas se serve de consolo, eu tenho kit’s de maquiagem. – Queen riu guardando os sapatos. – Sinta-se a vontade, irei buscar água para você.
— Ah... Obrigado...
Quando ouviu a porta se fechar, Sylphid sentou-se na beira da cama. Estava inquieto, muito inquieto, insanamente inquieto. Ele não acreditava que fora capaz de pensar coisas hediondas sobre a vida do ruivo. Aquele ditado “Não julgue um livro pela capa” nunca fez tanto sentido.
Passara-se exatamente cinco minutos.
— Voltei – A voz rouca do dono da casa ecoou assim que a porta se abriu. – Tome. Você bebeu muito no pub, nem sei como conseguiu dirigir sem causar algum acidente.
No final de contas, Queen tinha mesmo reparado nele. A noite toda.
— Obrigado... – O maior pegou o copo oferecido – Escuta ... Eu... Eu quero te falar uma coisa.
— Fale. – O jovem alemão deitou-se na cama, com os braços cruzados atrás da cabeça. Estava bem a vontade com um convidado no quarto.
— Eu sinto muito. – Respondeu Sylphid dando um gole duradouro na água. – Por todas aquelas brincadeiras. E por tudo o que eu disse... Sei que eu já deveria ser maduro o suficiente para não cometer essas bobagens, mas... Eu confesso que estava com medo. Senti-me ofendido quando descobri que você era um homem, mas isso é besteira... Não é? Então... Me desculpe. Gostaria de ser seu amigo... Se quiser, claro.
Os dois se olharam. O albino foi sincero e estava verdadeiramente arrependido. Queen não mudou o olhar ao fitá-lo. Nem se surpreendera com isso.
— Você podia ter dito isso no pub. Fiquei o tempo todo esperando você ir falar comigo e nada.
— Como assim?
— Valentine me contou que você queria pedir desculpas, eu só não achei que fosse demorar tanto.
— Aquele filho da puta... É por isso que você me fez entrar na sua casa?
— Sim. Achei que pelo menos a sós você iria tomar coragem de falar. – Ele riu se sentando na cama, a certa distância.
— Ah... – Syl deu mais um gole antes de se levantar e deixar o copo no criado-mudo. Quando o fez, reparou na foto que tinha lá. Era de uma ruiva, muito bonita, e era exatamente como Queen. – É você? – ele perguntou sem pensar.
— Não. É minha mãe quando tinha a minha idade.
— Ela parece muito com você, digo, você se parece muito com ela. Muito mesmo.
— Às vezes penso se isso é bom ou ruim. – Ao dizer isso, o ruivo pegou um travesseiro para abraçar, ou esconder o rosto...
— Ué, deve ser bom não é? Quero dizer, quando seus pais são bem bonitos acho que tudo bem você se parecer com eles...
— Meu pai é bonito também... – Ele disse, querendo mudar o assunto para algo que não fosse sobre sua mãe. – Você me lembra ele um pouco... Às vezes. Talvez por isso eu te ache atraente.
Sylphid levantou a sobrancelha, então recordou que o outro também estava sob o efeito da bebida e talvez estivesse mais solto por conta disto.
— Isso soou um pouco... Estranho. Tipo aquelas coisas de complexo de Édipo ou algo assim...
— Talvez... Quando eu precisei ele estava lá e me deu um lugar onde morar. Ele é um pai diferente, mas é um bom pai.
— Você morava com sua mãe, então?
— Sim, morava. – Ele disse com a voz abafada pelo travesseiro.
— Hm... Seus pais são divorciados então.
— Eles nunca se casaram, na verdade. Meu pai nem sabia que eu existia até um tempo atrás.
Queen não mostrava o rosto e continuava falando através daquele coxim preto. Ele o apertava de forma que parecia que queria se sufocar e isso fez com que Sylphid puxasse o objeto das mãos dele.
— Você está bem? – Ele perguntou.
— Estou. – Seu rosto estava cansado, olhos perdidos e respiração profunda. – Faz um ano que ela morreu.
“E não há remédio para a lembrança
Seu rosto é como uma melodia
Não sairá da minha cabeça
Sua alma está me assombrando e me dizendo
Que tudo está bem
Mas eu queria estar morto”
— ... A sua mãe? – O outro perguntou assustado, mas entendeu que a resposta era “sim” quando o ruivo o olhou rapidamente pegando novamente o travesseiro para cobrir a cara. – Desculpe... Eu só cometo mancadas contigo.
— Tudo bem, você não tinha como saber.
— Olha... Se você quiser desabafar ou algo assim...
— Você parece estar desesperado para eu te desculpar. – Queen mostrou o rosto, um pouco emburrado agora.
— Bom, de fato você não disse isso.
— É mesmo... – O garoto pensou um pouco e depois retomou a conversa. – Você está desculpado, Sylphid.
— Assim, tão fácil?
— As coisas que você disse, realmente foram muito cruéis, mas nada comparado com o que falavam e faziam comigo na Alemanha. Não vou entrar em detalhes, mas não se preocupe. Eu posso ter ficado com raiva no começo, mas deixei pra lá.
— Então eu não sou um completo babaca?
— Babaca sim, completo não. – Riu Queen.
— Engraçadinho... – Enfim ele conseguiu. Estava feliz. Pelo menos deveria estar. Mas ainda havia outras coisas o incomodando. – Hey, posso te perguntar uma coisa?
— Pergunte.
— Você e Adelfa são amigos há quanto tempo?
— Há uns anos... Por quê?
— É que vocês parecem muito íntimos... Tanto que chega a ser espantoso.
— Hm, faz sentido. Ela foi a primeira pessoa com quem tive um relacionamento.
— Do tipo... Namorar?! – Dessa vez, as duas sobrancelhas foram erguidas.
— Sim.
— Você é bi?! O-ou algo assim?!
— Eu gosto de pessoas. — Deu de ombros. — Outra vez fui além das suas expectativas?
— Eu diria que sim...
— Desculpe. – O ruivo afastou o travesseiro do rosto e sentou-se se encostando à parede.
— Deixando isso de lado... Acho incrível que mesmo assim, vocês ainda se falem. Já vi amizades sumirem por causa disso.
— Adelfa é muito especial para mim... – Ele começou. – Não sei se teria acontecido isso com a gente. Duvido muito, mas não dá para ter certeza. Fico feliz que sejamos bons amigos até hoje, mas eu simplesmente não suporto ver os caras secando ela na faculdade, não mesmo. Eu posso até ficar com mulheres também, mas nenhuma se iguala a ela. Por isso meio que não me importo tanto assim com as pessoas do gênero feminino. Nenhuma mulher é tão bonita quanto ela. Por que você acha que o apelido dela é Branca de neve?
— Ahn... A mais bela?
— Sim. A mais bela de todas as mulheres. Se não for ela, eu não fico com mais nenhuma. – Disse com um sorrisinho quase orgulhoso nascendo no rosto.
“Toda vez que fecho os meus olhos
É como um paraíso sombrio
Ninguém se compara a você
Eu temo que você não estará esperando do outro lado”
Agora aquela música da Lana Del Rey estava fazendo total e completo sentido.
— A música que vocês cantaram... Parecia que falavam um para o outro... E era algo tão profundo que comecei a pensar se vocês eram bem mais que amigos. Mas se vocês se dão tão bem, por que não estão mais... Juntos?
— Por que ela tem medo de que isso nos afaste. Então decidimos que seriamos só amigos, até o fim. Aconteça o que acontecer...
— Mas você gosta dela, não é?
— Gostar é um termo muito vasto. Eu não quero perdê-la... Melhor ser amigo do que não ser nada. Não podemos ser mais do que isso.
— Mas por quê? – O belga o bombardeava de perguntas.
— É errado que eu me apaixone... Não tenho sorte com isso. Já cometi erros estúpidos... Tão estúpidos que quase morri várias vezes. Não que Adelfa seja um erro. Mas o erro seria se por causa disso não nos falássemos mais. Eu não sei o que seria de mim se não a tivesse... Se ela não estivesse lá para me dar um pouco de carinho. Pode ser egoísmo meu... Pode ser que eu só a queira por perto por causa disso... Sendo assim eu seria um péssimo amigo. Prefiro acreditar que a amo... Mesmo que não seja para ser...
— Você se apaixona pelas pessoas, mas nenhuma por você... É isso o que pensa?
— É o que geralmente acontece. Então eu só deixo acontecer, se quiserem só me usar, que usem. Não tenho outra boa utilidade, a não ser para isso. Cresci sem pai, era tido como um bastardo e já cheguei a falar coisas horríveis para minha mãe... Mas a medida que eu magoava-a, eu me magoava também e... Consequentemente eu passei a descontar tudo em mim. – Ao mesmo tempo em que contava isso, Queen ia se ajeitando na cama. Mudou de lugar, indo para o outro lado da ponta da cama, deitando com o travesseiro nos braços. Sylphid só o olhava. – Eu tenho um corpo cansado... Bem cansado.
O belga finalmente entendeu. Queen se machucava para esquecer uma dor maior. De alguma forma isso o aliviava, mas estava o prejudicando e de pouquinho em pouquinho, o destruindo. Sentiu uma empatia por ele naquele momento. O alemão sempre pareceu tão forte e controlado, e não demonstrava nada perante as piadinhas. Pelo menos ele nunca falava nada e agia como se não ligasse... Mas ele subtraía tudo em si mesmo de uma maneira cruel.
— Queen... Você é sempre tão pessimista consigo mesmo?
O outro ficou calado. Não sabia se pessimista era a palavra certa, mas ele não se via com bons olhos.
— Você pensou assim quando fiquei com você? – Sylphid virou-se para ele, aproximando um pouco mais.
— Sim... Desculpe. Não é que eu te ache uma má pessoa. É só que não me importo tanto assim quando essas coisas acontecem... Por que não dura. Você teve a reação que eu esperava que tivesse e me dispensou prontamente.
Em resumo, Sylphid não foi diferente daquele tipo ordinário de pessoas. Sentiu desprezo por si mesmo naquela hora. Ele não queria ser mais um passageiro medíocre na vida do ruivo. Não. Ele queria permanecer nela.
— Queen... – O maior tomou o cuidado para se por em cima do outro, enquanto se apoiava com os braços. Estava encarando Queen. Ambos exaustos, ainda inebriados pelos efeitos colaterais da vodka. – Você tem... Um charme peculiar. Você atrai muita gente, mas infelizmente isso inclui pessoas que não prestam.
— Está dando em cima de mim agora, é? – O alemão riu.
— E se eu estiver? – Fodam-se os genitais. Isso não importava, definitivamente.
— Seria a primeira pessoa que com quem já fiquei a fazer isso.
— Por que todas elas eram idiotas... Eu não vou mais agir como um ridículo... Eu quero ser seu amigo... Ou mais que isso.
— Por que não cala a boca e me beija de uma vez?
Podia ser por bebida, podia ser por sono, podia ser apenas Queen tentando disfarçar que estava contente. Mas o fato era de que Sylphid se apaixonara pelo ruivo e beijar aquela boca doce com gosto de cereja era tudo que ele queria fazer de novo.
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