Dark Dawn
8 Capítulo 8: Lar, Doce Lar
Notas iniciais
Capítulo 8:
Lar, Doce Lar
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SASUKE AVANÇOU ATRAVÉS DO território do país do Fogo sem receios, não se permitindo diminuir o ritmo em nenhum momento, ainda que fosse para recuperar o fôlego. E quando o cansaço começou a dar sinais de que retardaria o seu progresso, ele apenas mordeu o polegar com força suficiente para romper a pele e reuniu uma grande quantidade de chakra para invocar Garuda.
O imenso falcão surgiu de uma nuvem densa de fumaça tão logo Sasuke pressionou a palma de sua mão contra o galho de uma árvore no qual pousara. Num instante, ele estava acomodado no dorso da ave, que com um só comando estendeu as asas poderosas e alçou voo, penetrando a copa intricada das árvores e mergulhando no azul do céu, cada vez mais alto, até se estabilizar e sobrevoar a floresta que se perdia de vista em seguida.
Ele tentou, sem sucesso, manter os pensamentos afastados do que Orochimaru tinha lhe contado. Então pensou em todos os reencontros que o aguardavam em Konoha, imaginando como reagiriam à sua presença e como certamente o tratariam com desprezo e ressentimento, até que decidissem matá-lo por todo o mal que fez e por todo o sofrimento que causou. Não ele, Sasuke se forçou a lembrar com um cerrar dos dentes. Outro alguém. Outro eu seu.
Um Sasuke que Naruto não foi capaz de deter e um Sasuke que não se deixou ser detido por nada. Um assassino. Um monstro. Alguém além de qualquer possibilidade de redenção. Perturbava-o que ele tivesse tido a capacidade de se tornar essa pessoa um dia. Que suas convicções cegas o teriam levado ao fundo do abismo onde nenhuma luz seria capaz de alcançá-lo e onde a solidão seria a única e amarga companhia pelo resto de sua vida.
O mero prospecto atormentava-o, tirava-lhe a paz: pensar em si mesmo, ainda que num outro mundo, como um homem irredimível, como um homem fadado a repetir os erros dos seus antecessores e de todas as vidas que ele viveu, preso ao ciclo amaldiçoado gerado pelo ódio de Indra por toda a eternidade, era mais tormento do que acreditava que conseguiria suportar.
Sasuke se forçou a suprimir esses pensamentos. Não tinha tempo a desperdiçar. Seu foco deveria ser encontrar-se com Kakashi em Konoha, convencer o antigo sensei de que não era um inimigo, reunir informações sobre o Chikage e então caçá-lo. Uma vez que o derrotasse, ele retornaria ao mundo ao qual pertencia e todo aquele pesadelo terminaria.
Enquanto Garuda sobrevoava o território ao norte do país do Fogo, Sasuke procurou descansar o máximo que podia. Toda aquela situação estava minando suas forças e exaurindo-o tanto física quanto mentalmente. E ele precisava estar com força total para quando confrontasse o Chikage, mas antes disso teria reencontros tensos o suficiente com todo mundo em Konoha. Ele não tinha ideia de como estariam naquele mundo, e sua única certeza era de que o odiavam e de que não poupariam esforços para eliminá-lo.
Antes que percebesse, tinha os olhos fechados, as pálpebras involuntariamente cerrando-se devido ao sol no seu rosto, embora a luz ainda conseguisse infiltrar-se através da pele fina para incomodá-lo. E, por um instante — um único e ilusório instante —, Sasuke acreditou poder distinguir os rostos da esposa e da filha na luz dourada intensa que se derramava dentro das suas pálpebras.
Elas estão sorrindo, ele pensou antes de, num estalo, lembrar-se do presente e abrir os olhos repentinamente, agarrando-se com mais afinco ao dorso de Garuda uma vez que se deu conta de que quase havia pegado no sono. Sacudindo a cabeça, ele reorganizou os pensamentos. Estava mais cansado do que pensara, mas não poderia parar, não até que chegasse à Konoha.
Dali de cima, ele era capaz de ver tudo por quilômetros de distância e o que mais chamou a sua atenção foi a ausência notável da tecnologia que agora ditava o seu mundo. Vilas montanhosas, pequenas cidades à beira de riachos. Não havia nada de remotamente tecnológico ou avançado naquele mundo. Ele está estagnado no tempo, Sasuke refletiu com pesar, por minha culpa. Seu mundo havia sido capaz de se desenvolver devido à paz conquistada após a Quarta Guerra Ninja. Máquinas e aparelhos eletrônicos foram criados para melhorar a vida de todos. Mas ali... Ali a guerra jamais havia terminado. Porque o Sasuke daquele mundo assim impôs quando se fez o maior inimigo da Aliança.
Garuda sobrevoou vales inteiros e descampados intermináveis até que Sasuke fosse atingido pelo sentimento de familiaridade do território que cingia Konoha: o formato das montanhas, a floresta verdejante que começava a rarear, mesmo as árvores eram reconhecíveis para ele. Mas junto da nostalgia, a apreensão cresceu dentro dele. Ele tinha que se preparar.
Por isso, assim que avistou a imensa formação rochosa sob a qual a vila havia sido construída, Sasuke liberou o chakra de sua invocação e Garuda desapareceu numa nuvem de fumaça, deixando-o cair em queda livre a uma boa velocidade até o chão, no meio da floresta a cerca de dois quilômetros e meio ao leste da vila. Pousou com os joelhos flexionados, absorvendo todo o impacto, em meio à relva. A pé, percorreu a distância que ainda o separava dos portões gigantescos, assim como o muro de pedra. Não se apressou, caminhando calmamente até a entrada da vila.
Embora suas intenções não fossem exatamente hostis no momento, Sasuke sabia que isso mudaria — e depressa. Por isso se encaminhou para os portões, mostrando-se abertamente para qualquer um que estivesse por perto. Quando estava a mais ou menos trinta metros da entrada da vila, ele descobriu o Rinnegan e, com ele, conseguiu enxergar o domo que protegia todo o perímetro de Konoha, assim como todo o território acima da aldeia. A barreira, invisível a qualquer um que não possuísse um doujutsu, era gigantesca e estava marcada com dois Kanjis que significavam “barreira” e “fronteira”.
Sasuke conhecia um pouco do seu funcionamento. A barreira estava ligada à esfera de água localizada na Divisão de Detecção da vila, comandada essencialmente pelo clã Yamanaka. Eram eles a manter a barreira intacta vinte e quatro horas por dia, assim como eram eles a permitir a entrada e a saída de Shinobis da vila o tempo inteiro.
Depois desta, havia a Divisão de Interceptação. Assim que uma presença hostil e desautorizada fosse detectada pela barreira — e pela primeira Divisão —, a Divisão de Interceptação seria acionada para averiguar as intenções da presença invasora.
Com um suspiro, Sasuke abaixou os olhos para a entrada da vila outra vez e, passo por passo, atravessou-a, bem como a barreira. Depois de avançar alguns metros no caminho de pedras, parou. Tentou imaginar se o reconheceriam com facilidade. Há quantos anos os moradores de Konoha não viam o seu rosto? Há quanto tempo ele não se revelava, esgueirando-se de sombra em sombra como um verdadeiro vilão? Não havia tempo para lamentos, ele se decidiu antes de reunir uma grande quantidade de chakra no seu olho esquerdo.
Isso chamará a atenção deles, concluiu. Ao ativar o seu Rinnegan, uma aura violeta e brilhante envolveu todo o corpo de Sasuke no mesmo instante. A aura se tornou mais intensa, solidificando ao seu redor na forma de ossos, músculos e, por fim, membros inteiros e gigantescos. O torso de uma figura humanoide surgiu a partir do seu corpo, estendendo-se para cima e para os lados, crescendo e avultando. Uma armadura rústica de placas brilhantes e violetas revestiu-a.
Com seu Susano’o pela metade, Sasuke esperou pacientemente que detectassem o seu chakra nos portões da vila. Sabia que tipo de recepção preparariam para ele. Por isso, decidiu que a melhor abordagem seria tornar a sua chegada a maior comoção possível, atraindo todos os Shinobis da vila de uma vez, incluindo o próprio Hokage com eles.
Levou menos tempo do que ele imaginou, mas num instante o primeiro esquadrão composto por quatro Shinobis — todos usando o emblema da Divisão de Detecção na manga da camisa — havia pousado na entrada da vila. As expressões hostis estavam todas direcionadas a Sasuke. E mais deles estavam a caminho.
— É mesmo Uchiha Sasuke! — um deles murmurou para os companheiros com raiva. — Inacreditável que ele tenha tido a audácia de colocar os pés na vila outra vez!
Outro Shinobi, um Hyuuga Sasuke percebeu pelos olhos leitosos, cerrou os dentes e ativou o seu Byakugan.
— O Hokage-sama deve ser informado a respeito disso imediatamente!
Um deles deu um passo para trás, oferecendo-se para a tarefa de avisar sobre a chegada de Sasuke para quantos Shinobis leais à vila fosse possível, o que queria dizer que em poucos minutos quase todos os esquadrões estariam ali para confrontá-lo. Portanto, assim que o Shinobi deu as costas e partiu apressado pelas ruas, Sasuke decidiu que era hora de falar sério com aqueles homens.
Os outros três que ficaram para trás deixaram bem óbvias as suas intenções de segurá-lo ali pelo máximo de tempo possível, tanto que dois deles deram um passo adiante, reuniram chakra suficiente, realizaram alguns selos em conjunto e, ao mesmo tempo, atacaram-no:
— Katon: Haisekishou!
Da boca de ambos, dois jatos imensos de fumaça foram expelidos, colidindo contra o Susano’o de Sasuke e cercando-o completamente, limitando todo o seu campo de visão. Ele reconheceu o cheiro de pólvora no mesmo instante. Então viu, de longe, o brilho de uma faísca contra toda aquela cortina de fumaça. No instante posterior a isso, uma série de explosões foi desencadeada à sua volta, pressionando a defesa do seu jutsu e fazendo o chão tremer sob os seus pés.
Sasuke não moveu um músculo sequer, o Susano’o aguentou cada impacto e até a última explosão violenta. Antes que a cortina de fumaça começasse a se dissipar, o Shinobi do clã Hyuuga havia se movido até a sua retaguarda. Com a palma da mão estendida, ele reuniu uma grande quantidade de chakra:
— Hakke Hasangeki!
O homem nem chegou a colidir a palma da sua mão contra o Susano’o, mas Sasuke sentiu uma forte rajada de vento forçar o seu jutsu, criando uma onda de vácuo a partir da mão do Hyuuga. Embora o ataque também não tenha surtido qualquer efeito, o homem não desistiu.
Tomou uma pequena distância, reuniu mais chakra e, numa velocidade impressionante, saltou na direção de Sasuke outra vez, colidindo as palmas de suas mãos contra o Susano’o com movimentos tão rápidos que eram impossíveis de ser acompanhados a olho nu, chocando-as uma vez atrás da outra e a cada golpe aplicado uma nova onda de chakra era liberada.
— Hakke Kuuhekishou!
Ao término — quando percebeu que nenhum dos golpes havia sido capaz de ultrapassar a defesa de Sasuke —, ele se afastou com a respiração descompassada e uma camada de suor pungente no rosto. Sua intenção era claramente retardá-lo, não vencê-lo, mas mesmo esse intento se provou além de suas capacidades. A expressão dele refletiu as expressões de consternações nos rostos dos outros dois Shinobis. Era a vez de Sasuke.
Com um movimento do braço direito, o braço gigantesco do Susano’o se ergueu e desceu sobre os homens inclementemente. Eles foram espertos para sair do caminho a tempo, antes que o punho colossal do humanoide colidisse contra o chão com força, levantando uma cortina de poeira e afundando o solo com o impacto.
Uma vez dispersos, Sasuke caçou-os um a um, achou que se provocasse os Shinobis de Konoha isso traria Kakashi mais depressa até ele. Nocautear o primeiro esquadrão foi fácil, embora o último deles — e aparentemente o líder —, o Hyuuga, deu um pouco mais de trabalho devido ao seu byakugan.
Sasuke tinha acabado de lidar com ele, surpreendendo-o com um golpe do seu Susano’o quando mais outros dois esquadrões chegaram para interceptá-lo. Ainda usando a sua estratégia de chamar a atenção para si o máximo possível, ele nocauteou com eficiência cada um dos Shinobis, nunca os ferindo fatalmente, apenas os deixando inconscientes e com o ego ferido por terem sido derrotados tão depressa. Mas ele sabia que era uma questão de tempo para que rostos familiares surgissem para confrontá-lo.
Por isso, quando mais outros dois esquadrões chegaram, Sasuke reuniu mais chakra para completar o seu Susano’o — formando os membros inferiores bem como as asas majestosas — e, com um impulso, alçou voo em direção aos céus à procura da figura que o interessava, levantando uma nuvem de poeira ao fazê-lo.
Num piscar de olhos, sobrevoava a vila a certa altura. A ausência da face de Naruto esculpida logo após a face de Kakashi no Monumento dos Hokages lhe atingiu com uma onda repentina de náusea, mas Sasuke se recuperou a tempo de perceber como aquela Konoha estava diferente da Konoha do seu mundo. Nada de prédios grandiosos, nada da tecnologia que havia modernizado a vila em tantos aspectos.
Ele também notou a movimentação anormal de Shinobis e pessoas assustadas nas ruas, fugindo do caminho da figura gigante que sobrevoava a vila e cuja sombra obscurecia casas inteiras. Ao localizar o prédio que procurava, seguiu para lá, notando a aglomeração incomum de Shinobis no terraço, organizando-se numa defesa tão logo perceberam a aproximação de Sasuke.
Sem cerimônias, ele pousou sobre o terraço ainda com o Susano’o ativado, estremecendo todo o prédio bem como os Shinobis de pé no seu terraço. De cima, encarou todos. Metade deles estava assustada demais, embora tentassem não deixar transparecer. A outra metade encarava-o como se quisesse assassiná-lo com o método mais lento, doloroso e criativo no qual conseguissem pensar — isso depois que o torturassem por horas, fazendo-o pagar por cada um dos seus pecados.
Sasuke não se deixou ser intimidado e, entre todos aqueles rostos, reconheceu um que não pensou que fosse encontrar ali, vestindo o traje típico de um Jounin da Folha como o colete verde e as calças pretas.
— Shikamaru — ele murmurou o nome do antigo companheiro, saudando-o com um aceno da cabeça.
Em resposta, Shikamaru ergueu o lábio superior, mostrando-lhe os dentes, e o olhou com ainda mais desprezo, como se encarasse um inseto ou um verme rastejante prestes a ser esmagado por um dos seus pés. Curiosamente, Sasuke estava muito acima de qualquer um deles, forçando-os a encará-lo de cima.
— O que está fazendo aqui? — Shikamaru interpelou com rudeza. — É preciso muita audácia para colocar os pés na vila depois de tudo o que você fez, traidor — ele praticamente cuspiu a última palavra.
Sasuke passou os olhos por todos os presentes ali no terraço. Percebeu que Chouji também estava ali, ao lado de Shikamaru, mas nem sinal de Ino por perto. Decerto estava junto da Divisão de Detecção. Para a sua decepção, não havia mais ninguém familiar ali.
Com um suspiro, Sasuke recomeçou, o tom não mais brando do que antes.
— Preciso conversar com o Kakashi. Onde ele está?
Shikamaru praticamente rosnou em resposta.
— Acredita mesmo que permitiremos que chegue a cem metros do Hokage?! Assassinar um já não foi o suficiente para você, maldito?!
— Não tenho tempo para sermões — Sasuke desdenhou as palavras duras, tinha assuntos mais importantes a tratar e precisava do auxílio de Kakashi para encontrar o Chikage. — Tenho que conversar com o Kakashi. Se não vai me dizer onde ele está então saia do meu caminho. Não tenho interesse em fazer mal a nenhum de vocês. E eu sugeriria que me ouvisse e fosse buscá-lo, Shikamaru, principalmente se a Aliança ainda quiser derrotar o Chikage. Afinal, sou a sua única chance de vencer a guerra contra o país do Sangue.
À menção do Chikage e da guerra, todos enrijeceram e se entreolharam, duvidosos de terem ouvido o que ouviram da boca de Sasuke. Mas a dúvida plantada pelas suas palavras não durou muito tempo, e a hostilidade voltou a prevalecer.
— Acha mesmo que acreditaremos numa só palavra que saia da sua boca?! — Shikamaru rebateu. — Eu não pude vingar o Naruto antes porque você fugiu como um covarde depois de matá-lo, mas farei isso aqui e agora — ele se decidiu ao juntar as mãos e reunir chakra para o seu jutsu.
Antes que se confrontassem, uma figura pousou entre ambos, erguendo as mãos de modo defensivo para mostrar que não havia hostilidade por trás das suas ações. Sasuke ficou surpreso quando reconheceu quem intercedera por ele. Jamais esperaria tal gesto vindo dele, especialmente naquele mundo.
— Esperem! — demandou de um jeito pacífico e então ergueu o rosto para Sasuke: — Talvez devêssemos ouvir o que ele tem a dizer, afinal.
— Sai, você só pode estar brincando! — Shikamaru reagiu negativamente ao seu pedido. — Escutar o que ele tem a nos dizer depois de todos esses anos?! Depois de ele ter assassinado o Naruto e a Godaime?! É óbvio que ele só está blefando e brincando conosco!
Sai não se virou para o conterrâneo, e Sasuke percebeu que, como Shikamaru, ele usava vestes típicas de um Jounin. E ele continuou a fitar Sasuke de uma forma fixa e impassível enquanto o silêncio se estendia entre todos e tornava a tensão no terraço ainda mais tangível. Sai estreitou os olhos escuros para Sasuke antes de responder Shikamaru num tom firme.
— É o que o Naruto-kun faria. O que ele gostaria que fizéssemos: ouvir mesmo o que os nossos inimigos têm a dizer. O Naruto-kun acreditava nisso, acreditava tanto que deu a sua vida por isso.
— Eu não tenho nada para ouvir da boca desse traidor — Shikamaru teimou. — Agora, saia do meu caminho para que nós possamos eliminá-lo de uma vez por todas!
Quando Shikamaru se posicionou, todos os outros Shinobis ao redor dele fizeram o mesmo, inclusive Chouji, que fulminou Sasuke com a mesma intensidade que o seu companheiro de time.
Sasuke fechou os olhos por um momento.
— Eu já disse que não tenho interesse nenhum em lutar contra vocês. Meus assuntos são com o Kakashi. Se eu quisesse matar todos vocês, já estariam mortos. Se eu quisesse Konoha destruída e ardendo, isso já teria sido feito. — O tom dele foi crescendo à medida que tentava dissuadi-los de uma luta. — Eu não sou o inimigo de vocês. Tampouco sou a pessoa que acreditam que eu seja. Vocês entenderiam se me deixassem conversar com o Kakashi.
Shikamaru desdenhou com um muxoxo.
— Eu não sei que merda é essa que você está falando, mas se é verdade, então pare de se esconder atrás do seu Susano’o. Mostre-se, Uchiha, se não nos considera seu inimigo. E talvez nós possamos começar a considerar o que você está dizendo.
Para a surpresa de todos, Sasuke relaxou as feições e, num segundo, desativou seu jutsu, caindo de uma boa altura e pousando graciosamente no terraço do edifício do Hokage, cercado por pelo menos uma dúzia de Shinobis hostis, além de Sai que estava mais próximo dele e, apesar de tudo, fitava-o com certa desconfiança e uma boa dose de cautela.
— Levem-me até o Kakashi — Sasuke demandou.
Shikamaru cerrou os dentes em resposta, ultrajado com a exigência.
— Eu não sei por que você acredita que pode dar ordens aqui como se fôssemos os seus subordinados.
Sasuke franziu o cenho, desgostoso com a atitude dele.
— Estão me fazendo perder tempo. Eu já disse o que vim fazer aqui, deixei as minhas intenções bastante claras. Se ainda assim preferem não me ouvir, então saiam do meu caminho.
Surpreendentemente, Shikamaru desfez-se da postura ofensiva ao esconder os punhos nos bolsos da calça e dar um passo para o lado, como se com isso permitisse a passagem de Sasuke. O gesto chocou seus companheiros, dentre eles Chouji, que o olhou com incredulidade.
— Vá em frente então — Shikamaru o desafiou. — Mas espero que não me dê ainda mais motivos para querer a sua cabeça — emendou com uma ameaça que fez todos ao redor enrijecerem.
Sasuke passou por Sai sem dizer uma única palavra, embora sua postura estivesse relaxada, sua guarda não estava completamente abaixada; ele estava preparado para se defender e para revidar qualquer ataque surpresa por parte daqueles homens porque era óbvio que o sentimento de desconfiança era recíproco.
A tensão cresceu no terraço, o silêncio denso pesava o clima. Sasuke se encaminhou para as escadas do terraço, pretendendo descê-las e ir até o escritório do Hokage — onde esperava encontrar Kakashi —, mas foi interceptado no meio do caminho por outro esquadrão de Shinobis. Desta vez eram membros da Anbu, suas máscaras ocultavam-lhe os rostos, mas a linguagem corporal deles transpirava cautela.
Sasuke estagnou, cercado por Shinobis por todos os lados. Estava atento a qualquer movimentação de qualquer um deles. Então, uma figura familiar surgiu de trás dos Anbus, os cabelos prateados e espetados entregando-o antes mesmo que terminasse de subir as escadas laterais e pisasse no terraço.
— Kakashi — ele murmurou o nome do antigo sensei com certo alívio, enfim estavam ali, frente a frente.
O sexto Hokage mirou aquele que foi seu aluno por um longo momento, nenhum sentimento refletido nos seus olhos escuros, antes de acenar sutilmente com a cabeça em reconhecimento.
— Sasuke. Já faz algum tempo desde a última vez em que nos vimos.
Ignorando os alertas gritados pelos Shinobis ao seu redor, Sasuke deu um passo na direção de Kakashi. Os Anbus tinham desembainhado suas katanas e tantôs no mesmo instante, apontando suas lâminas brilhantes para Sasuke.
— Precisamos conversar. É urgente — ele disse.
Kakashi suspirou longamente.
— Não sei se devo ouvir o que tem a me dizer, Sasuke. Não depois de tudo o que houve. Dê-me um bom motivo para mudar de ideia.
Sasuke não se demorou com meias palavras, antes optando por expelir a verdade em sua plenitude de uma só vez:
— Talvez isso te convença então: Não sou o Sasuke que vocês conhecem. Eu vim de outro mundo, de outra realidade, um lugar onde Naruto está vivo e a paz foi alcançada. Acredito que eu tenha vindo parar aqui por intervenção do Chikage. Eu quero ajudar a Aliança a vencer a guerra contra o país do Sangue e a derrotar o homem por trás dela.
Kakashi esbugalhou os olhos em respostas, e ao redor de Sasuke ouviu-se uma sucessão de arquejos e exclamações. A tensão se esvaiu e logo deu espaço para um sentimento que mesclava ceticismo e surpresa.
— Prove que está falando a verdade — Shikamaru exigiu.
Sasuke se virou para ele, fitando-o inexpressivamente. Então, respondeu-o com serenidade:
— Vocês estão todos vivos, não estão?
— Mas os esquadrões com os quais lutou... — Chouji interveio, mas foi interrompido por Sasuke, visivelmente um pouco mais mal-humorado agora.
— Aa. Estão apenas inconscientes. Todos eles. E a única razão pela qual isso aconteceu é porque não sou inimigo de vocês. O Chikage é. Não sou o Sasuke que cometeu todos esses crimes dos quais me acusam. Até alguns dias, eu vivia num mundo completamente diferente desse e eu preciso derrotar o Chikage para voltar a realidade a qual pertenço.
— Por isso precisa da minha ajuda e da ajuda da Aliança — Kakashi murmurou, atraindo a atenção de Sasuke outra vez.
— Sim. Trabalharemos melhor se agirmos em conjunto para derrotá-lo, e não uns contra os outros.
Shikamaru não cedeu.
— Ainda assim, não pode esperar que confiemos cegamente na sua palavra. Até onde sabemos, isso tudo pode se tratar de um truque seu como quando disse na guerra que se tornaria Hokage.
Sasuke abaixou o rosto e suspirou.
— Eu estava equivocado. Naruto me convenceu disso e me mostrou o jeito certo de alcançar a paz, como um Hokage de verdade deve agir para proteger a sua vila.
— Naruto está morto, e pelas suas mãos, Sasuke. Isso é tudo o que eu sei — Shikamaru declarou com amargura, dando as costas a Sasuke e se afastando em seguida.
Todas as atenções se voltaram para Kakashi, aguardando a sua decisão. Depois de sopesar por um tempo, ele também suspirou e abriu caminho entre os Anbus que o protegiam, aproximando-se da figura de Sasuke.
— Acho que posso ouvir o que tem a me dizer. Depois, decidirei se devo confiar em você outra vez, Sasuke.
Apesar disso, os Shinobis não abaixaram a guarda. Kakashi virou-se e começou a se afastar em direção às escadas pelas quais viera, sempre acompanhado pelos Anbus. Sasuke o seguiu, mas manteve uma distância segura do atual Hokage. Não queria passar a impressão errada a nenhum daqueles que o protegiam.
Quando começavam a descer as escadas, ele olhou ao redor visivelmente aturdido.
— Onde está Sakura?
Estranhava não tê-la visto até o momento. Sua chegada causara uma enorme comoção e toda a vila já deveria saber que o traidor e o último Uchiha ainda vivo estava de volta ao seu lar. Sem fitá-lo, Kakashi respondeu-o:
— Não está na vila. Como sabe, estamos em guerra com o país do Sangue e Sakura é uma peça fundamental para a Aliança.
Então, Kakashi tombou o rosto para o seu antigo pupilo:
— Sakura comanda a Divisão Médica da Aliança e provavelmente será a minha sucessora muito em breve. Ela se tornou uma excelente sensei também. Teria dado muito orgulho à mestra dela, caso ainda estivesse viva, é claro.
A afirmação o surpreendeu. Sasuke deteve-se nas escadas para olhar para a vila, para o céu azul e para as nuvens que flutuavam na sua imensidão, para os telhados dos edifícios aquecidos pelo sol, para as montanhas ao fundo. Aquela não era a sua Konoha, não era o lugar que ele reaprendeu a chamar de lar por causa de Naruto e Sakura, e posteriormente por causa de Sarada.
Sacudindo a cabeça, Sasuke reorganizou os pensamentos e desfez-se daquela angústia que ameaçava comprimir o seu peito. Em breve ele estaria de volta ao mundo ao qual pertencia. Era tudo o que lhe importava.
Era tudo o que lhe movia.
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