Dark Dawn

21 Capítulo 21: Montanhas Três Lobos


Notas iniciais
Vigésimo primeiro capítulo. Boa leitura!

Capítulo 21:

Montanhas Três Lobos

○♦○

AS MONTANHAS TRÊS LOBOS surgiram diante deles por volta do meio-dia, depois de terem percorrido uma estrada nevada solitária flanqueada por uma densa floresta de pinheiros. Outeiros demarcavam o solo duro da região coberto por uma grossa camada de neve e por onde a estrada serpenteante cortava o vale, levando-os em direção a uma extensa cadeia de montanhas azuis geladas de picos pontiagudos brilhantes sob o sol da manhã.

Logo depois delas, avistaram as montanhas pelas quais procuravam: três elevações rochosas de proporções colossais cobertas por neve e gelo no formato da mandíbula superior de três lobos que, por suas vezes, encimavam três montanhas muito menores, sombreando-as. À volta delas, havia uma floresta ainda mais cerrada, a linha irregular das copas das árvores estava pintada de branco devido à última nevasca.

Sobre tudo aquilo, um céu cinza-claro e nuvioso; o prenúncio de que mais uma tempestade estava a caminho. Uma premonição que se provou verdadeira quando os primeiros flocos de neve voltaram a cair sobre a região, fazendo as temperaturas despencarem bruscamente e forçando o grupo de Sakura a fazer uma pequena pausa nos arredores.

— Estamos quase chegando — ela disse para os pupilos na esperança de motivá-los.

Todos os três estavam bastante cansados e exasperados pelo mau tempo. Tinham resmungado bastante nas últimas horas, especialmente por causa do frio. Sakura sabia que quanto mais cedo estivessem na Cúpula, melhor seria. O edifício onde a reunião seria realizada estaria bem guardado e os protegeria das intempéries e de prováveis inimigos que ainda estivessem à espreita.

Yusuke e Toyoharu estavam dividindo um onigiri num canto e murmurando enquanto Hikari esfregava, infeliz, as mãos desnudas a fim de aquecê-las. Sakura suspirou diante da cena. Talvez seus alunos começassem a vê-la menos como uma professora e mais como uma megera depois daquela viagem ao país do Ferro.

Sentindo-se inquieta, ela vasculhou o perímetro ao seu redor à procura da figura taciturna de Sasuke. Não o encontrou. Partiu para localizá-lo, julgando seguro afastar-se de seus alunos ranzinzas só por um instante. Apoiando uma mão no tronco áspero de uma árvore, adentrou uma pequena clareira onde o encontrou, com as costas viradas para ela.

— Está tudo bem? — perguntou quando se aproximou.

Sasuke tinha andado estranho a manhã inteira, mais recluso e sombrio do que o normal — para os padrões daquele Sasuke. Ela tinha desejado perguntar se ele estava se sentindo mal, se sentia algum desconforto. As memórias daquela noite em que o curou voltavam-lhe à mente de tempos em tempos: a agonia no semblante dele mesmo quando perdeu os sentidos, o modo como tinha chamado nomes incessantemente, inclusive pelo dela... Ou pelo da Sakura com quem ele dividia tudo; uma vida, seus segredos, seus pensamentos e sentimentos.

Ela não gostava de reconhecer aquele sentimento, considerava a sua mera existência um pecado grave, mas invejava a Sakura do mundo de onde ele viera. Ela não tinha apenas o coração daquele homem como construíra tantas coisas bonitas ao lado dele. E via nitidamente como ele as amava pelo modo como falava do seu mundo, da família e da função de protetor que desempenhava.

Enganara-se sobre aquele Sasuke, reconhecia com pesar, não tinha como aquele homem tão sereno e receptivo ao amor ser a mesma pessoa envolta em ódio e escuridão das suas lembranças. E o que podia fazer por ele era ajudá-lo e retornar para o seu mundo, derrotando o homem que o enviara para lá. Por isso, adentrou a clareira com um sorriso amigável.

Sasuke se virou para ela num gesto brusco, o semblante uma tela em branco. Estava encolhido sob o manto negro de inverno e com um cachecol enrolado ao redor do pescoço. Ainda assim, fumegava pelas narinas e pelos lábios no ar frio. Flocos de neve caíam ao redor deles e grudavam-se ao cabelo dele, criando um contraste de cores fascinante — branco contra preto.

— Aa — ele aquiesceu, mas algo no seu tom de voz não parecia certo.

— Estamos quase chegando.

Sakura repetiu para ele as mesmas palavras que dissera aos pupilos; não sabia como proceder mais para animá-lo, ou talvez soubesse. Aquele Sasuke diante dela tinha apenas um único foco, um único objetivo: voltar para o próprio mundo. Tinha percebido como queria ajudar Sasuke a concretizá-lo logo depois da conversa que eles tiveram na estalagem quando ele lhe revelou tantas coisas adoráveis sobre a família que o esperava.

— Vou ter que te pedir um favor quando estivermos mais próximos da localização — ela disse, mudando o assunto para algo mais seguro, algo que lhe desse foco: a missão que tinham de cumprir.

Esperou para ver se ele estava prestando atenção então continuou:

— Como não vou poder explicar a todos os líderes que estarão presentes na Cúpula por que trouxe comigo um Nukenin procurado em todas as nações aliadas, quero que se disfarce com um henge no jutsu. Inventarei uma identidade para você. Será o meu guarda-costas. Assim, não haverá suspeitas e você poderá participar da reunião sem problemas e sem criar alardes desnecessários.

— Tudo bem — ele voltou a aquiescer, mas a apatia nos seus modos incomodava-a.

— Está mesmo tudo bem com você? — insistiu, cruzando os braços e fungando. — Não estou convencida de que está bem, Sasuke-kun. Você parece... estranho essa manhã. Distante.

Antes que ele pudesse responder qualquer coisa, o seu rosto se crispou numa máscara de agonia. Os olhos se fecharam e o corpo se curvou involuntariamente quando as pernas perderam forças, enviando-o de joelhos ao chão da floresta. Um gemido apavorante escapou dos lábios deles e foi o único som que ele fez.

Sakura, depois que conseguiu se recuperar do choque, correu até ele para socorrê-lo. As mãos já preparadas e envoltas em chakra curativo; um reflexo natural que ela nem mesmo percebeu que retornou até tê-lo apoiado no seu colo e seu chakra fluindo para o corpo dele, amenizando um pouco da dor que sentia.

○♦○

Sasuke voltou a si, depois de ter atravessado um mar difuso de neblina, e percebeu que estava em movimento, ao contrário das outras vezes. Não apenas em movimento, percebeu logo em seguida, consternado, estava em fuga.

Seus pés saltavam de telhado em telhado pela vila, grudando-se às telhas graças às solas envoltas em chakra que asseguravam que não escorregaria. Seus Sharingan por sua vez assegurava que não pisaria em falso, além de alertá-lo com antecedência sobre as kunais que lhe eram atiradas. Estava, rapidamente, deixando seus perseguidores para trás, Shinobis leais à vila que gritavam cada vez mais frustrados para que parasse, para que desse meia-volta e para que voltasse para a sua cela escura e fria na prisão.

Sasuke acelerou os passos e aumentou a distância que o separava do grupo persistente. Mais kunais se fincaram inofensivas nas telhas do telhado sobre o qual ele corria; nenhuma delas sequer chegou perto de atingi-lo. Era rápido demais para Shinobis comuns como aqueles. Ele não iludia, contudo, que aquela situação persistiria por muito tempo. Em algum momento, Naruto seria avisado sobre a sua fuga e ele seria o único a representar um problema para as habilidades de Sasuke.

Um céu cinzento coroava a perseguição, com nuvens escuras espalhando-se por todo o seu comprimento e cobrindo a luz pálida do mormaço daquele início de tarde. Um trovão ressoou à distância, alertando para a proximidade de uma tempestade. Sasuke a ignorou assim como ignorava seus perseguidores e prosseguiu com a sua fuga alucinada, galgando um edifício maior do que os anteriores e escalando as suas paredes com as solas dos pés brilhando de chakra.

— Uchiha Sasuke! — bradavam os homens a uns bons metros dele. — Pare já!

— Alguém precisa avisar o Hokage-sama! Tragam o Hokage-sama! — suplicava outro.

— Tsc.

Sasuke franziu o cenho quando viu que outro esquadrão se uniu à perseguição e aumentou ainda mais o passo, vislumbrando pela primeira vez, num salto que alçou seu corpo pelo menos quinze metros no ar, os grandiosos portões da aldeia. Estava chegando perto.

— Espera!

Ele quase estagnou no lugar quando ouviu o som da voz daquela garota. Virou-se para trás, esquecendo-se da sua fuga por um momento. Ela também vinha saltando pelos telhados, seguida pelos companheiros de equipe: o garoto loiro e o outro de pele e cabelos pálidos.

Sasuke cerrou os dentes.

— Não se envolva nisso! — advertiu-a. — Volte agora!

Por um instante, o semblante dela demonstrou hesitação. Mas então uma nova onda de coragem inflou-a e fê-la acelerar o passo, ultrapassando todos os outros para chegar até Sasuke.

— Por favor, me deixe ir com você! — ela implorava. — Me deixe te ajudar a recuperar o meu pai!

Alguma coisa no peito de Sasuke se apertou, fazendo-o desacelerar e criando a brecha que os Shinobis de Konoha esperaram: reunindo-se e reunindo chakra, eles prepararam os sinais de mãos e atacaram de uma só vez:

Doton: Daichi Ganshō!

Tudo aconteceu ao mesmo tempo depois disso: os Shinobis finalizaram a técnica, encurralando não apenas Sasuke como Sarada — que ainda vinha a toda velocidade até ele — também; um tremor de terra violento sacudiu tudo sob os seus pés enquanto dois paredões de rocha emergiam do solo num piscar de olhos e se fechavam sobre ele e sobre a menina.

Sasuke não soube se foi o instinto ou se foi algo a mais que o levou a correr para a menina, rodeá-la com seu braço, trazendo-a para junto do seu peito de forma protetora, e saltar para cima o mais depressa que os seus pés conseguiram a fim de evadir a armadilha de pedra que se fechou com um estrondo abaixo deles. Ele pousou sobre a coluna de rocha ainda com a menina nos braços. Mas o ataque não havia acabado.

Com o seu Sharingan, notou os papéis bomba grudados à rocha e saltou novamente, fugindo no momento exato em que eles detonaram com uma imensa explosão que destruiu a coluna de rocha, fazendo cair uma chuva de lascas de pedra sobre o telhado no qual pousou; uma cortina de pó se ergueu no campo de batalha apertado e improvisado, isolando tanto Sasuke quanto Sarada.

Só então ele se deu conta do que fez e abaixou os olhos para o rosto lívido da menina, que o encarava como se estivesse em choque. Sasuke estava tão surpreso quanto ela. Devagar, ele colocou-a no chão, em segurança.

— Você... — ela balbuciou, mas não teve tempo de completar o que diria.

Uma única silhueta pousou no mesmo telhado que eles, a nuvem de poeira que se dispersava aos poucos revelando justamente a pessoa que Sasuke antecipara que viesse ao seu encontro. A capa branca esvoaçava ao vento.

— Aonde pensa que vai com tanta pressa, Sasuke?

— Naruto — ele saudou-o, o tom da voz monocórdio muito embora a postura do corpo sugerisse apreensão e cautela.

— Nanadaime-sama! — Sarada exclamou, surpresa com a repentina aparição de Naruto.

— Hokage-sama! — Os Shinobis que até pouco perseguiram Sasuke saudaram-no com reverência enquanto pousavam num telhado próximo, mantendo uma distância segura do trio.

— Ah, permitam que eu assuma a situação daqui em diante, sim? — ele disse, recomendando a eles que não interferissem; então, voltou-se para Sasuke: — Não respondeu a minha pergunta. Aonde estava indo, Sasuke? Ou seja lá quem você for...

— Fiquei cansado de esperar que me tirassem daquela prisão espontaneamente — ele disse com um semblante neutro, quase entediado. — E para falar a verdade eu já podia ter escapado de lá há muito tempo.

Naruto coçou a testa, desconcertado.

— É, você com certeza lembra um pouco o Sasuke que eu conheço, mas o seu chakra e o dele são tão diferentes quanto a noite e o dia. Tentamos te interrogar tantas vezes e você não cedeu. Então, que tal responder algumas perguntas minhas agora? — Quando o rosto dele ensombreceu, Sasuke soube que Naruto estava sério sobre a situação. — Quem é você, afinal?

Até então, todos tinham pegado leve com ele durante os interrogatórios. Nem mesmo chegaram a recorrer aos métodos de tortura famosos de Ibiki. Sasuke também não tinha encontrado motivos para revelar a eles tudo o que sabia, então jogou o jogo que eles jogavam enquanto tecia o seu próprio plano em segredo. Mas diante de um olhar tão intenso quanto o que recebia agora, Sasuke nem mesmo cogitou continuar a omitir a verdade.

— Venho de outro mundo, de outra realidade bastante diferente da sua.

— Isso nós já suspeitávamos. A pergunta é como chegou aqui? E onde está o nosso Sasuke? Por acaso trocaram de lugar?

— Até onde eu sei... Sim — respondeu com franqueza. — O Chikage causou isso de alguma forma.

— Exatamente como suspeitávamos então. — Uma terceira voz uniu-se à conversa enquanto uma quarta silhueta pousava no telhado, tão esguia e graciosa quanto uma gata.

— Mamãe! — Sarada correu até Sakura, que não demovia os olhos de Sasuke nem por um segundo.

— Como podemos desfazer isso? — ela inquiriu, olhando-o duramente. — Como traremos o meu marido de volta?

— Tenho um palpite — ele disse —, mas vocês teriam de me deixar ir embora para que eu pudesse testá-lo.

— Você está delirando se acredita que vamos te perder de vista — Sakura retrucou, mal-humorada.

— Sou o único que pode derrotar o Chikage e sou a sua única esperança de reverter a troca que foi feita. Se quiserem rever o Sasuke que conhecem, precisam me deixar partir e confrontar o Chikage. No meu mundo... — ele suspirou. — No meu mundo, o outro Sasuke também já está se movendo para derrotá-lo.

— Desculpa, mas não vai rolar mesmo — Naruto respondeu. — Se quiser sair dessa vila, terá de aceitar que será sob a minha supervisão e vigilância. Pode compreender a minha posição como líder e por que estou sendo tão cauteloso, não é mesmo?

— Não posso aceitar as suas condições — Sasuke replicou. — Você é necessário na vila. Konoha continuará mais segura com você estando bem aqui. — Ele apontou com o dedo para o telhado sob os seus pés, enfatizando a sentença.

Naruto suspirou.

— Então dê meia-volta e volte para a sua cela. Até que esteja realmente disposto a cooperar conosco, não vou confiar em você.

Sasuke pressentiu que estaria sem saída, completamente encurralado ali, se não apelasse para o bom coração de Naruto e, para isso, precisava comovê-lo, precisava fazê-lo enxergar por que ele tinha de deter o Chikage sozinho. Era uma questão de honra, ou seria se ele ainda acreditasse que a tivesse.

— O meu mundo é muito diferente do mundo de vocês. — Seus olhos vagaram pelos prédios modernos, pela tecnologia empregada na melhoria de vida dos aldeões; então olhou para Sakura e para Sarada e em seguida para Naruto de novo: — No meu mundo, eu te matei — declarou, para o espanto de todos. — Na batalha do Vale do Fim. Eu matei o Naruto da minha realidade e, junto dele, toda a esperança se foi.

Sarada abraçou-se à mãe, um pouco assustada depois da revelação. Sasuke prosseguiu com o monólogo quando notou que não seria interrompido pelos companheiros de time; estavam chocados demais para isso.

— Não se passou um só dia sem que eu amargasse o que fiz, sem que eu me arrependesse disso e desejasse ter feito tudo diferente. Agora, vejo isso ainda mais claramente: o mundo que eu poderia ter te ajudado a construir, tudo o que poderia ter tido se eu te escutasse naquela época, Naruto...

Seu olhar deslizou para o rosto de Sakura e de Sarada, demorando-se especialmente no semblante belo dela.

— Eu perdi a minha chance de redenção há muitos anos. Isso me diferencia do Sasuke desse mundo. Ele não desperdiçou a oportunidade quando ela apareceu, muito pelo contrário, agarrou-a com todas as suas forças e se dedicou a consertar toda a merda que fez.

— Por que está nos contando tudo isso? — Naruto perguntou depois de um momento refletindo todas as palavras que foram ditas; não sentia o cheiro de mentiras nela, nem de um embuste.

Sasuke estava sendo completamente sincero, e isso o deixava ainda mais inquieto.

— Queria forjar um voto de confiança entre nós três. Não tenho a menor intenção de manter vocês afastados do Sasuke do seu mundo. Aqui não é o meu lugar, por mais que quisesse que fosse. Então, vou trazê-lo de volta para vocês. Por vocês. Não vejo motivos para desgraçar a existência de outro alguém ou de causar mais sofrimento.

Naruto encarou-o por um minuto inteiro enquanto a poeira por fim assentava sobre o telhado e os Shinobis que assistiam àquela cena seguravam a respiração, conjecturando a decisão do seu líder. Ele suspirou, avertendo o olhar de Sasuke e abaixando-o para os pés.

— Muito bem então. Façamos do seu jeito. No entanto, você não irá sozinho — impôs. — E não porque não quero confiar na sua palavra, mas, sim, porque não posso permitir que você lide sozinho com o Chikage. Cometi esse erro uma vez, com o meu melhor amigo, e como resultado o Sasuke foi mandado para outro lugar onde não podemos alcançá-lo.

“Nós vamos dar um jeito no Chikage de uma vez por todas. Nós dois, como nos velhos tempos. — E sorriu como incentivo para Sasuke.

— Nós três — Sakura corrigiu-o, perfurando-o com um olhar que o desafiava a tentar impedi-la. — Se derrotar o Chikage é a única maneira de trazer o meu marido de volta então não existe a menor chance de eu não ir com vocês.

— Mamãe — Sarada ergueu os olhos assustados para Sakura, que a tocou no alto da cabeça a fim de assegurá-la de que tudo daria certo.

— Está tudo bem, Sarada. Nós vamos trazer o seu pai de volta ao lugar ao qual ele pertence. Ou meu nome não é Uchiha Sakura, shannaro!

— Yoshi! Estamos combinados então! — Naruto aprovou. — O Time 7 está de volta à ação... — Então, lançando um olhar de esguelha para o Sasuke de pé sobre o telhado, acrescentou: — Quero dizer, quase.

Dentro do próprio corpo físico, mas incapaz de vocalizar uma única palavra ou realizar uma única ação, Sasuke pressentiu o momento em que seria puxado de volta para a outra realidade. Uma força inexorável sugou-o para longe dali, arrastando-o mesmo contra a sua vontade e mesmo que ele tentasse resistir e ficar.

As cores foram o primeiro indicativo do que estava havendo: elas desbotaram e todo o mundo se tornou cinzento, então negro.

Sasuke se viu sozinho de novo, isolado numa espécie de limbo, de fronteira entre realidades. Antes que pudesse contar até dez, contudo, estava despertando naquele mundo odioso outra vez, sentindo a neve fria através das suas roupas. O chakra de Sakura fluía pelo seu corpo, mas a sua cabeça descansava em uma superfície macia e confortável. Sentia-se sonolento, letárgico. Ainda assim, forçou-se a abrir os olhos e deparou-se com os pinheiros cobertos de neve e com o céu nublado daquele início de tarde.

— Por quanto tempo fiquei apagado? — perguntou, sua voz soando cansada e rouca como se não a usasse havia dias.

— Não mais do que alguns minutos... Talvez dez ou quinze.

Abaixando os olhos, notou as mãos de Sakura pousadas sobre o seu peito, trabalhando no seu corpo. Ela era a responsável pela sensação de bem-estar e de paz que o dominava. Os flocos de neve caíam pacificamente à volta deles, sobre eles. O silêncio que os embalava envolvia-os numa bolha quase impenetrável de serenidade.

— Estive no meu mundo — ele murmurou de repente, arrancando um arquejo de Sakura, bem como uma expressão de choque.

— O que quer dizer com isso, Sasuke-kun? Os seus desmaios...

— Aa. Quando eles me acometem, eu retorno ao meu mundo por um tempo, retorno ao meu corpo. Mas, de alguma forma, não estou no controle e nunca consigo permanecer por mais do que alguns minutos.

Sakura mordeu o lábio, pensativa.

— Isso significa que você viu o Sasuke do meu mundo. Sabe o que ele está fazendo agora. Certo?

Não escapou a ele o tom acusatório e a mágoa na voz dela quando mencionou o outro Sasuke. Ou o modo como os olhos verdes se encheram com um furor antigo, chispando em labaredas cor de esmeralda.

— Não é como você pensa — pontuou cuidadosamente, usando um tom baixo porém firme. — Ele se arrepende de todo o mal que fez ao Naruto e a você. Está arrependido de ter tornado esse mundo no que ele é hoje e amarga todas as decisões tolas que tomou naquela época. Amarga não ter desistido da revolução quando eu desisti, e todo o mal que atraiu para si mesmo e para as pessoas que se importavam com ele quando a levou até as últimas consequências.

— Isso não importa agora — Sakura cortou-o, escondendo dele uma expressão dolorosa ao virar a face para as árvores silentes na borda da clareira, mas Sasuke não deu ouvidos a ela e prosseguiu mesmo assim.

— Importa porque ele está disposto a cooperar. Vai ajudar o Naruto e a Sakura no meu mundo a derrotar o Chikage. Isso deve ser o bastante para reverter as trocas e reestabelecer as coisas como elas são.

— E se ele estiver mentindo? — Os olhos dela voltaram a encontrar os dele, ainda enfurecidos.

— Não está. Eu senti isso. — Sasuke inspirou profundamente, o peito se expandindo em busca de mais ar. Forçando-se, ele conseguiu se sentar, tocando com a ponta dos dedos uma das têmporas latejantes. Seus olhos queimavam outra vez, uma sensação de ardência que beirava o tolerável.

— Mas o que está acontecendo afinal? Esses seus... desmaios...

Sasuke virou-se para Sakura, esperando que ela concluísse a sua linha de raciocínio.

— Esses seus desmaios têm relação com o que o Chikage fez contigo. Começo a ter certeza disso.

Sasuke percebeu que chegou o momento de parar de ocultar informações dela.

— Hayashi Kiyoko me disse que o meu Sharingan era a chave para que eu derrotasse o Chikage e voltasse ao meu mundo quando a derrotei em Konoha.

— Hayashi Kiyoko é uma das Shinobis mais leais ao Chikage — Sakura crispou os olhos. — É uma assassina talentosa e muito perigosa. Para alguns, ela é uma espécie de arauto do Chikage. Uma mensageira.

— Aa. Como disse, eu a derrotei em Konoha e extraí dela tudo o que pude. Foi assim que descobri que o Chikage estaria aqui no país do Ferro, tramando alguma coisa. Ela foi forte o bastante para romper o meu genjutsu antes que eu tivesse a chance de extrair mais informações. E eu duvido que ela vá ceder mais alguma coisa útil; é leal demais ao líder dela.

Sakura tocou um dedo no queixo, ponderando, reunindo as peças daquele quebra-cabeça. De repente, ela se colocou de pé e espanou neve da capa branca que usava. Sasuke imitou-a, colocando-se de pé com um pouco mais de dificuldade. Sua mente embotou por um momento e ele cambaleou, mas foi amparado pelas mãos seguras dela, que o ajudaram a se firmar sobre os próprios pés.

Ela estava sendo extremamente gentil e Sasuke ainda não sabia como reagir a isso depois de tanta hostilidade.

— Sabe, estive pensando numa teoria desde aquela primeira noite em que te curei pela primeira vez. Mas antes de contá-la a você eu gostaria que me listasse os sintomas, o que sente, o que experimenta quando esses desmaios te acometem.

Ele não precisou pensar por mais do que alguns segundos.

— Eu sinto fraqueza, um pouco antes de perder os sentidos. Meu corpo fica pesado e a minha cabeça lateja insuportavelmente. Então, quando recupero os sentidos não estou mais aqui, estou de volta ao meu mundo, preso no meu próprio corpo, mas incapaz de comandá-lo. Na verdade, estou dividindo-o com o Sasuke desse mundo. Ele não nota a minha presença, ou eu acredito que não note — balançou a cabeça como que para clarear os pensamentos.

“De qualquer modo, acabo sendo arrastado de volta para cá e, quando isso acontece, o meu Sharingan arde, queima. É uma sensação detestável que eu quase não consigo tolerar.

Sakura apoiou as mãos nos quadris, a expressão no seu rosto tornando-se mais confiante a cada segundo.

— Então a minha teoria pode estar correta.

— E qual é a sua teoria sobre isso? — ele pressionou, esperançoso.

Sakura abriu um sorriso travesso, um sorriso que a deixou mais jovem do que ela realmente era, trazendo uma aura jovial às feições delicadas do seu semblante:

— É muito simples, Sasuke-kun: ao que tudo indica o seu Sharingan é mesmo a sua porta de saída desse lugar. O seu Sharingan está tentando, neste exato momento e através destes apagões, te levar para casa. Para o lugar ao qual você verdadeiramente pertence. Para o seu mundo.

Mais confiante, ela finalizou com um sorriso astuto:

— O seu Sharingan é a chave.

Notas finais
Eis o plot twist que eu mais esperava pra revelar a vocês! HAHAHAHA O Sasuke-kun do mal não era tão do mal assim, ele fez merda, sim, mas está disposto a cooperar e consertar a situação dessa vez. Eu disse que as coisas iam melhorar muito pro nosso Sasuke, finalmente ele está tendo um pouco mais de sorte! No próximo capítulo, os dois times se reúnem para a Cúpula dos Kages, e o Shikamaru traz uma informação importante consigo! Muito obrigada pela leitura e até o próximo capítulo! xoxo