Dark Dawn

9 Capítulo 9: Pendências


Notas iniciais
Nono capítulo dedicado à jenybitencourt pela recomendação maravilhosa que fez para a Fanfic! Muito obrigada e espero que goste desse capítulo! Boa leitura!

Capítulo 9:

Pendências

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KAKASHI CONDUZIU SASUKE através de um corredor familiar que, ele sabia, terminaria no escritório do Hokage, no último andar do edifício. No caminho, Shinobis o encararam com desconfiança e com hostilidade, lançando olhares homicidas na sua direção e sibilando uns com os outros o que ele fazia ali depois de tantos anos e depois de tudo o que houve. Uma escolta com mais ou menos uma dúzia de Anbus os acompanhava de perto, todos tensos e preparados para tentar contê-lo caso suas intenções se revelassem algo diferente do que informara ao seu líder minutos antes.

Sasuke, contudo, manteve o olhar focado nas costas de Kakashi e sob o manto seus dedos roçavam o punho de sua katana, prontos para desembainhá-la no primeiro movimento suspeito que identificasse. O silêncio no corredor só era quebrado pelos sons dos seus passos no piso e pelos murmúrios zangados dos outros ninjas presentes no prédio.

Uma vez que alcançaram a porta do escritório, Kakashi a abriu, entrou e se afastou da passagem a fim de que Sasuke fizesse o mesmo. Os Anbus também entraram, assim como Shikamaru, Chouji e Sai, o primeiro encostando o seu corpo à parede, cruzando os braços sobre o peito de um jeito intimidador e encarando Sasuke com uma promessa silenciosa de tornar a conversa numa batalha no primeiro passo em falso que ele desse. Os outros dois o ladearam, um pouco incertos de estarem ali.

Apesar de nunca terem sido próximos no passado, Sasuke podia dizer que respeitava a mente por trás da personalidade preguiçosa de Shikamaru. Jamais foram grandes amigos, mas anos atrás chegaram a uma parceria saudável em nome do bem da vila e dos seus moradores com Shikamaru trabalhando como conselheiro para Naruto e Sasuke agindo nas sombras para preservar a paz. Ao que parecia, aquela parceria estava completamente arruinada naquele mundo.

Ele desviou o olhar de volta para o rosto de Kakashi, que já o fitava, expectante. A porta se fechou, prendendo todos aqueles Shinobis ali dentro. A tensão se tornou palpável, Sasuke poderia praticamente tê-la cortado com a sua espada se assim desejasse.

— Agora, podemos conversar com mais privacidade — Kakashi anunciou, levando todos a prenderem a respiração. — O que faz aqui, Sasuke? Por que realmente voltou à vila? E nem mesmo pense em mentir para mim — murmurou com um olhar sombrio. — Se tentar me enganar, prometo que moverei céus e terra para que sofra as consequências.

Sasuke expirou o ar demoradamente, expelindo-o todo do seu peito.

— É uma longa história — advertiu seu antigo sensei.

Kakashi deu de ombros.

— Temos tempo. Ou se preferir, conte-me a versão reduzida, o que considerar essencial que eu saiba. Contanto que não omita a verdade de mim eu sinceramente não me importo.

Shikamaru cerrou os dentes e olhou para Sasuke com ódio do outro lado da sala.

— Não sei por que estamos perdendo tempo aqui. Finalmente o temos ao nosso alcance depois de tantos anos, ele mesmo veio até nós por livre e espontânea vontade. Vamos acabar com isso de uma vez por todas e fazê-lo pagar por todos os seus crimes. Por matar a Godaime, os outros Kages e por matar o Naruto.

Kakashi ergueu uma mão para ele num gesto conciliatório.

— Espere um pouco, Shikamaru. Eu realmente quero ouvir o que ele tem a nos dizer. — Depois de uma pausa ele prosseguiu: — Eu jamais imaginei que você viria até nós, Sasuke, não depois do que fez naquele dia.

Sasuke hesitou pela primeira vez, incerto sobre as palavras que deveria usar para explicar a situação da forma mais convincente possível para todas aquelas pessoas que o odiavam e que não desejavam nada mais do que vê-lo morto.

— Eu... Não tenho as lembranças do que houve naquele dia, Kakashi. Não me lembro do que houve porque não fui a pessoa a cometer todos esses crimes dos quais me acusa.

— Então nega que assassinou Naruto depois de ter lutado contra ele no Vale do Fim?! — Shikamaru ergueu a voz. — Nega que executou os Kages quando estavam vulneráveis e que logo em seguida destruiu todas as bijuus?!

Sasuke averteu o olhar para o rosto de Shikamaru, que estava desfigurado pela raiva.

— Eu lutei contra Naruto no Vale do Fim. E não nego que tinha intenções de realizar cada uma dessas coisas que você listou. Eu estava cego — admitiu com pesar. — Estava convicto de que o sistema Shinobi sempre esteve fadado a falhar, e que os Kages eram os principais responsáveis por alimentá-lo. Acreditei piamente que uma revolução seria a única forma de alcançarmos a paz entre todas as nações, e eu estava disposto a esmagar esse sistema corrupto que destruiu todo o meu clã e tantas outras pessoas, vitimando inclusive Naruto e eu.

Sasuke correu os olhos por todos os presentes na sala. E embora os rostos de Kakashi, Sai, Chouji e Shikamaru não estivessem escondidos por trás de máscaras Anbu, eles ainda assim permaneciam ilegíveis. Não sabia se acreditavam no que dizia, não sabia se seria capaz de convencê-los da verdade.

Fechou os olhos por um momento e, mais calmo, recomeçou.

— Sei que vocês todos têm todos os motivos para desconfiar de mim e do que quer que eu diga. Mas não estou mentindo quando digo que não sou esse Sasuke que vocês aprenderam a temer e a odiar.

“Venho de um mundo onde eu não venci a batalha do Vale do Fim. Um mundo onde Naruto e eu trabalhamos juntos para preservar a paz e proteger as futuras gerações. — Ele gesticulou para o escritório e além dele. — Este não é o meu mundo e eu não tenho a menor ideia de como ou por que vim parar aqui, exceto pela certeza que possuo de que o Chikage está envolvido nisso. E ele me trouxe para cá justamente para me impedir de neutralizá-lo.

— No seu mundo... As nações Aliadas estão em guerra contra o país do Sangue? — Kakashi indagou, concedendo-lhe o benefício da dúvida.

Sasuke meneou a cabeça, negando.

— No meu mundo, o país do Sangue ainda não se tornou uma potência poderosa o suficiente para peitar a Aliança, embora ele já tenha iniciado uma campanha de ocupação militar dos países vizinhos. A minha missão, confiada a mim pelo próprio Naruto, consistia em me infiltrar em Chigakure, investigar as intenções do seu líder e, então, neutralizá-lo.

O semblante de Kakashi se tornou mais vulnerável de repente, as sobrancelhas prateadas se erguendo quando franziu a testa, sulcando a pele sob o hitaiate com a insígnia da Folha.

— Naruto é o Hokage no seu mundo?

— O Nanadaime Hokage — Sasuke aquiesceu. — Você mesmo o escolheu como o seu sucessor quando ele se mostrou preparado para assumir o cargo. Foi graças aos esforços dele que preservamos a paz durante todos esses anos no meu mundo. Ele implementou muitas mudanças na vila, que logo foram copiadas em todas as vilas aliadas. O meu mundo também é muito mais tecnologicamente avançado do que este, acredito que a paz entre as nações também proporcionou isso.

Kakashi ficou visivelmente abalado com o que Sasuke disse, tanto que contornou sua mesa e ocupou a cadeira atrás dela, sentando-se e apoiando ambos os cotovelos para descansar a testa no dorso das mãos unidas por um momento. Atrás dele, a grande vidraça da janela mostrava toda a vila retornando à normalidade — dentro do possível — após a invasão de Sasuke. O sol tinha mudado de posição desde então.

De repente, Kakashi ergueu o olhar para o antigo pupilo e atraiu a atenção de Sasuke para si outra vez. Havia uma determinação neles que não estivera lá antes, um fogo tão escuro quanto as suas íris, queimando-as.

— Muito bem, me conte tudo. Eu quero saber dos detalhes. Qual é a situação atual no seu mundo? Como exatamente a Aliança e os Kages trabalham para preservar a paz? Quais foram os últimos movimentos do Chikage? E, mais importante: conte-me tudo o que você descobriu até o momento sobre a sua presença nesse mundo. Não omita nada.

Sasuke assentiu e suspirou em seguida, acatando o pedido de Kakashi. Se esperava que confiassem nele, então ele tinha que dar o primeiro passo e mostrar que confiava neles com a verdade.

Duas horas mais tarde, Kakashi o convidou para que se retirasse do seu escritório e para que fosse acomodado em outra sala no edifício. Ele não deixou de notar que fora realocado para a ala designada para Força de Tortura e Interrogação da vila. A nova sala era menos arejada e aconchegante, com um teto baixo, paredes sólidas de concreto sem nenhuma janela para permitir a ventilação, e uma lâmpada que zumbia baixinho ao iluminá-la. O único acesso ao cômodo se dava através da porta, atrás de Sasuke.

Havia uma cadeira no centro do cômodo e foi nela que ele foi instruído a sentar e a esperar o veredicto de Kakashi. Não o surpreenderia se a qualquer instante a porta fosse escancarada e um esquadrão inteiro irrompesse no cômodo para anunciar que Sasuke fora desacreditado e que seria executado pelos crimes que cometeu.

Teve de aguardar mais meia hora antes que ouvisse o som de passos no corredor além da porta. Em seguida, ela se abriu e várias pessoas entraram no recinto, ele pôde afirmar. Mas não se virou, permanecendo de costas para os recém-chegados até que estes o contornassem e se colocassem de frente para ele. O primeiro a fazê-lo foi Kakashi, apesar do semblante sereno e da postura relaxada, Sasuke conhecia-o o bastante para encarar o fato de que não tinha sido atacado ainda como um bom sinal. Por isso aguardou pelo que ele diria com apreensão.

— Ponderei tudo o que me disse, Sasuke. E não fui capaz de chegar a uma conclusão, não ainda. Você pode entender a minha indecisão, não é?

— E então o que fará comigo? — ele indagou com um erguer de uma sobrancelha.

Kakashi balançou a cabeça.

— Não tão depressa. Eu disse que não tinha chegado a um consenso. Mas também não quero ser injusto contigo, se estiver mesmo dizendo a verdade. — Ele alisou o queixo coberto pela máscara. — A história que você me contou me pareceu bastante plausível e eu sinceramente não sei o que você ganharia tentando me enganar e enganar a todos dessa forma, mas eu sou um líder agora. Sou um Hokage. Não posso me dar ao luxo de tomar decisões baseando-me nas minhas emoções, e eu tenho um dever com cada pessoa que vive nessa vila. Eles se tornaram a minha prioridade quando fui nomeado Hokage.

Sasuke franziu o cenho, impaciente.

— Pare de tentar ser prolixo e me diga o que quer que eu faça de uma vez para provar que estou dizendo a verdade.

Kakashi estreitou os olhos escuros cuidadosamente.

— Muito bem, objetivo como sempre pelo que vejo.

Então ele ergueu um dedo e chamou uma pessoa para perto, para que se posicionasse diante de Sasuke. Ele a reconheceu de imediato pelo longo cabelo louro-claro e pelos olhos azuis. Era Ino Yamanaka.

Ela se colocou diante de Sasuke com movimentos comedidos do corpo. Toda a sua postura estava tensa na presença dele, e não fazia esforço algum para esconder isso. No seu mundo, a Ino que ele conhecia tinha superado a paixonite que nutria por ele e seguira com a sua vida, até mesmo formou uma família com seu substituto do Time 7, Sai. Mas naquele mundo, a julgar pela mágoa indisfarçada no seu olhar e no modo como ela franzia os lábios, tudo o que deveria restar era a mágoa pela sua traição.

Sem que quisesse, os pensamentos de Sasuke se voltaram para Sakura, que nem mesmo estava na vila e que cujo paradeiro Kakashi mantivera uma incógnita nas últimas horas, nem mesmo mencionando o nome de sua antiga aluna para ele. Perguntou-se se ela o desprezava naquele mundo. Se o amor que o salvou da solidão um dia havia esmorecido, substituído por desprezo e ódio. Não que o Sasuke daquela realidade não merecesse aquilo. Ele merecia. Talvez fosse isso a incomodá-lo ainda mais.

Sasuke dispersou os pensamentos e fitou o rosto de Kakashi, compreendendo o que ele pediria. Assentiu para que ele falasse de uma vez por todas, ainda que as palavras tivessem se tornado desnecessárias.

— Quero que permita que Ino entre na sua mente, Sasuke, para averiguar a autenticidade das informações que você me passou. Quero que conceda a ela acesso total às suas memórias. Uma vez que ela confirmar que tudo o que você me contou é verdade, então podemos voltar a conversar sobre o Chikage e o país do Sangue.

Em resposta, Sasuke apertou o maxilar, desgostoso com a ideia de ter alguém dentro da sua mente, vasculhando os seus pensamentos e examinando as suas memórias.

— Como posso saber que isso não é uma armadilha? Que uma vez que eu concorde em deixá-la entrar na minha mente, a Yamanaka não assumirá o controle do meu corpo e você se aproveitará disso para me destruir?

Kakashi retrucou-o no mesmo instante num tom ríspido:

— Não terá essa certeza porque eu não posso dá-la a você, Sasuke. Só o que tenho a lhe dizer é que tem a minha palavra de que não se trata de uma armadilha. E isso é tudo o que posso lhe oferecer. Quer ser ouvido? Quer que eu confie em você? Então confie em mim primeiro e permita que Ino entre na sua mente.

A ideia não o agradava nem um pouco. Ter um intruso na sua mente, lendo seus pensamentos, parecia mais do que ele poderia suportar. Mas Kakashi lhe dera um ultimato e Sasuke sabia que precisaria fazer concessões para que o antigo professor confiasse nele outra vez, ou pelo menos levasse em consideração o que estava dizendo. Tenho que voltar para casa, lembrou-se e acabou se rendendo com um suspiro pesado.

Ergueu os olhos para Kakashi outra vez, a postura do corpo um pouco menos rija do que há um instante.

— Muito bem. Façamos do seu jeito, Kakashi. Mas acho bom que isso não seja uma armadilha — advertiu tanto ele quanto Ino, que empalideceu.

Kakashi sorriu com os olhos, uma vez que seus lábios permaneciam ocultos pela máscara.

— Tem a minha palavra quanto a isso.

Ino averteu o olhar de Sasuke para o seu líder, esperando pela confirmação da ordem.

— Hokage-sama?

— Vá em frente, Ino. Faça o seu trabalho — encorajou-a em resposta, indicando para Sasuke, que permanecia sentado na cadeira.

Ino engoliu em seco, visivelmente nervosa com a ideia de se aproximar de Sasuke e de entrar na mente dele. Ela exalou o ar através dos lábios, e crispou os olhos ao se aproximar dele, determinada. Sasuke a fitou com frieza, seguindo cada movimento dela enquanto reunia o chakra necessário e descansava a palma de uma mão contra a testa dele.

— Muito bem. — Ino tomou um longo fôlego, concentrando-se. — Procure ficar relaxado e não pensar em muitas coisas de uma só vez, Sasuke-kun. Vou tentar não ser tão invasiva.

Aquela foi a primeira vez que disse o seu nome. Sasuke podia dizer que ela estava nervosa. Ainda assim, pressionou a mão contra a testa dele e anunciou sua técnica à meia voz:

— Hikenshin no jutsu!

Sasuke precisou conter o instinto de se retrair, fechando a sua mente para a presença invasora dela. Cerrando os dentes, forçou-se a permanecer quieto e relaxado com as suas emoções sob controle, como ela havia instruído. A sensação era incômoda, mas Sasuke obrigou-se a suportar. Não gostava de ter outras pessoas dentro da sua cabeça. Havia traumas demais, dores demais, lembranças — boas e ruins — demais, todo o caos da sua mente convergindo numa grande e violenta tempestade. Ele só esperava não traumatizar a Yamanaka no processo.

Podia senti-la vasculhando a sua mente como se dedos imaginários folheassem um livro onde todas as memórias da sua vida foram registradas, apanhando cada um dos seus pensamentos. Para amenizar o seu desagrado — e facilitar o trabalho dela —, procurou se concentrar nas informações mais úteis, tentando preservar para si as suas lembranças mais íntimas, algumas das mais valiosas que conservava, como, por exemplo, as que tinha de Sakura e de Sarada.

Focou-se na missão confiada por Naruto, no ataque da Kunoichi de Chigakure, no terror que sentiu quando se viu preso naquele mundo, na sua visita a Orochimaru e na sua chegada à Konoha com o intuito de fazer Kakashi ouvi-lo. E mesmo que tivesse tentado permanecer relaxado, foi impossível impedir que as suas emoções escoassem para dentro da mente dela, dentre elas o seu desespero, que ele vinha lutando para não deixar que o dominasse, para voltar para o seu mundo e família, para a vida que construiu lá.

Num momento, era Sasuke quem impunha o que Ino teria acesso ou não dentro da sua mente, mas bastou que ela tivesse um vislumbre do seu mundo para que o seu interesse se redirecionasse para outro ponto, impondo-se sobre Sasuke e sobre o que ele queria que ela visse. Ele sentiu o pouco controle que tinha lhe escapando enquanto era Ino quem passava a ditar o que era do seu interesse e o que não era. Deixou que ela visse o mundo que Naruto e os outros Kages estavam ajudando a criar, a paz que fizera a vila e o mundo prosperar, a paz que permitiu que muitos Shinobis se curassem dos horrores da guerra e construíssem novas famílias.

E, de repente, ela viu o que ele viu: as crianças, a nova geração de Konoha, o futuro da vila. Embora Sasuke conhecesse muito pouco das outras crianças, Ino foi atraída para elas como uma mariposa para as chamas. A imagem de uma delas preencheu toda a mente dele quando menos esperava. Era Inojin, e Sasuke sabia que ela estava reconhecendo nos traços daquela criança os seus próprios traços.

Sem que pretendesse, Sasuke foi inundado pelo choque que provinha dela. Irritado, ele se fechou completamente para ela, forçando-se a expulsar a presença invasora de sua mente. Ino quebrou o contato e, por consequência, o jutsu. Afastou-se de Sasuke, trôpega e em choque, com os olhos azuis marejados.

Kakashi a segurou, ajudando-a a se equilibrar sobre os dois pés outra vez.

— Ah, é tudo verdade, Hokage-sama — ela disse, finalmente se permitindo chorar, a expressão contraída em dor como se houvesse acabado de perder alguém muito importante. — O que Sasuke-kun diz é tudo verdade... Eu vi nas memórias dele.

Kakashi aquiesceu e Ino se afastou dele para se recompor, enxugando os rastros de lágrimas do rosto.

— Não existe a possibilidade de serem memórias implantadas? Talvez pelo Chikage?

Ino balançou a cabeça. Ainda estava abalada por ter visto na mente de Sasuke o rosto do próprio filho.

— Não, Hokage-sama, são memórias autênticas, não foram fabricadas. Eu senti isso. Sasuke-kun está nos dizendo a verdade. — Ela o encarou com olhos ainda brilhantes pelas lágrimas não derramadas. — Ele veio mesmo de outro mundo, de outra realidade. E está preso aqui, sem saber como voltar.

Kakashi ponderou as palavras dela e Sasuke aproveitou o ensejo para se colocar de pé. Atrás dele, Shikamaru havia escolhido o momento mais oportuno para ficar em silêncio, observando-o taciturnamente.

— Está pronto para aceitar a minha ajuda com o Chikage agora, Kakashi? — ele perguntou num tom petulante; estava impaciente outra vez e a experiência com Ino dentro da sua mente deixara os seus nervos à flor da pele.

— Ainda é cedo para isso — Shikamaru interveio, mal-humorado, voltando a se manifestar. — Você pode estar falando a verdade sobre ter vindo de outro mundo, mas isso não significa que o Chikage não possa ter plantado você aqui como uma armadilha para a Aliança.

— Shikamaru está certo — Kakashi murmurou infeliz. — Por mais que eu deteste isso, Sasuke, preciso considerar todas as possibilidades. Além disso, não pode esperar que a Aliança aceite receber a sua ajuda depois de tudo o que houve. Se os outros Kages ao menos desconfiarem da sua presença na vila sob a minha anuência eu posso colocar todo o país do Fogo numa situação diplomática extremamente delicada. Você precisa me dar mais tempo para assimilar tudo, pensar numa estratégia de te colocar na linha de frente sem causar ainda mais caos.

Sasuke cerrou os dentes com raiva.

— Eu não tenho tempo a desperdiçar, Kakashi. Só me diga a localização do Chikage se não puder me ajudar. Eu lidarei com ele sozinho.

Kakashi cruzou os braços, enfrentando a raiva fervente de Sasuke com uma determinação gélida.

— Você terá que ser paciente, Sasuke. Entendo que queira resolver as coisas do seu jeito e o mais depressa possível, mas a verdade é que nem mesmo você entende o que aconteceu e como veio parar aqui. E até que descubra todas as respostas eu sugeriria cautela. Muita cautela — enfatizou.

Sasuke deu um passo adiante e todos na sala se colocaram em posição de ataque.

— Você precisa voltar a confiar em mim para que essa parceria dê certo — ele disse com fervor. — E talvez com um gesto de minha parte isso venha a se tornar possível outra vez, para que veja o quanto eu estou disposto a sacrificar para consertar as coisas aqui e voltar para o meu mundo.

Sem mais delongas, Sasuke ergueu o braço esquerdo de baixo do manto negro e pesado que usava.

— Durante a minha luta contra Naruto no Vale do Fim, quando trocamos o último golpe, o meu chidori colidiu com o rasengan dele e, como resultado, nós dois perdemos os nossos braços: ele perdeu o direito. E eu, o esquerdo. Nós empatamos, mas eu admiti a minha derrota para Naruto naquele dia, admiti que perdi a minha luta contra ele porque, no fim, Naruto estava certo. Ele sempre esteve certo sobre tudo.

Todos o encaravam em choque, tentando adivinhar o que pretendia.

— Depois de um tempo, Tsunade desenvolveu próteses para nós dois com as células do Shodaime Hokage. Naruto aceitou a dele, mas eu jamais aceitei a minha para que pudesse me lembrar dos meus erros, para que pudesse me lembrar da pessoa que eu fui e da pessoa que eu quase me tornei, se não fosse por Naruto me trazer de volta do caminho de escuridão e ódio que eu trilhava.

“Eu rejeitei a prótese como uma forma de penitência pelos meus pecados. Porque o meu braço esquerdo era o braço que eu utilizava para realizar o Chidori, logo foi o braço que usei quando tentei tirar a vida de Naruto e de Sakura, meus companheiros de time, contrariando tudo o que você me ensinou sobre o propósito de aprender esse jutsu, Kakashi. Agora, eu ofereço o meu braço esquerdo como prova da minha boa vontade em ajudar a Aliança contra o Chikage. Para que ele possa ser neutralizado de uma vez por todas, e para que eu possa voltar para o meu mundo.

E dizendo isso, Sasuke desembainhou a sua katana com a mão direita, deslizando a lâmina esguia e elegante do estojo que trazia atrelado à cintura. Manejando-a com precisão, e com um corte limpo e impossível de ser defendido, ele decepou o próprio braço esquerdo acima do cotovelo para o choque de todos os presentes na sala de interrogatório, principalmente de Kakashi, que o encarou horrorizado.

Mas, pela primeira vez em algum tempo — apesar da dor lancinante que lhe tomou todo o ombro esquerdo e o cotoco sangrento que se tornou o seu braço —, Sasuke se sentiu mais como ele mesmo. Assim como se sentiu pronto para tentar reparar todos os erros que seu outro eu cometeu naquele mundo.

Ele já havia trilhado aquela estrada tortuosa antes, podia fazê-lo de novo.

Notas finais
Ahhhhhhh é muita tensão, não é?! O que acharam da decisão do Sasuke?! É OU NÃO É UM HOMÃO DA P*** E O AMOR DA MINHA VIDA (E DA SAKURA TAMBÉM)?! Parece que nesse mundo ninguém conseguiu seguir em frente, né? A revolução do Sasuke ferrou com todo mundo :( Estejam preparados para o angst porque no próximo capítulo o Sasuke vai visitar o túmulo de uma certa pessoa! E VAI DOER! MUITO. aksoaksoaksoaksoa Até o próximo capítulo! Xoxo