Dark Dawn

31 Capítulo 31: Bem-Vindo de Volta


Notas iniciais
Penúltimo capítulo. Boa leitura!

Capítulo 31:

Bem-Vindo de Volta

○♦○

SASUKE ABRIU OS OLHOS DEVAGAR, as pálpebras tremendo antes de revelarem o orbe negro; seu olho esquerdo estava escondido sob a franja comprida. Ouviu vozes soando, distantes, como se ele estivesse embaixo d’água. Viu vultos agitando-se acima dele, mas, de alguma forma, ele soube que estava seguro. Soube que estava de volta ao seu mundo. Soube que estava em boas mãos.

O primeiro rosto que os seus olhos focalizaram foi o rosto de Sakura, angustiado, pairando acima do dele; os olhos verdes e brilhantes sondavam-no, as mãos dela estavam pousadas no seu peito e no seu ombro. As madeixas eram cor-de-rosa e curtas, roçando a curva delicada dos ombros e o pescoço delgado.

— Anata? — ela sussurrou, por um instante soando incerta, por um instante soando insegura.

Sasuke abriu a boca para respondê-la, dizer que estava de volta, mas se descobriu exaurido, drenado. Demorou um segundo para reaver a própria voz e para forçá-la através da garganta seca.

— Naruto, cheque o chakra dele outra vez! — Sakura urgiu, firme, e um segundo rosto entrou no campo de visão de Sasuke.

Sasuke involuntariamente suspirou de alívio, o peito subindo e descendo com o gesto, por avistar o rosto bronzeado e familiar do melhor amigo cabeça-oca. Naruto imediatamente acatou a recomendação de Sakura, posicionou os dedos enfaixados da mão direita enquanto um contorno alaranjado aparecia ao redor dos seus olhos, agora amarelados e de pupilas horizontais como as de um sapo.

— Ah, o chakra dele está normal outra vez — Naruto concluiu depois de uma breve sondagem com seu senjutsu. — É sem dúvida o nosso Sasuke, dattebayo!

Sakura pressionou uma mão contra o próprio peito e foi sua vez de suspirar aliviada. Sasuke lambeu os lábios, umedecendo-os, e então girou os olhos a fim de tomar conhecimento do entorno no qual se encontrava. Seu corpo estava repousado sobre grama úmida e o céu do poente era de um profundo tom de laranja com nuances do violeta de um crepúsculo iminente.

Ele agarrou fiapos de grama entre os dedos, arrancando-os pelas raízes enquanto reconhecia o solo sobre o qual descansava. Inspirou o ar puro, o cheiro das árvores próximas assim como o leve odor acre de cinzas sendo arrastadas por uma brisa gentil. Casa, a palavra pairava no ar como uma doce fragrância. Estava, enfim, em casa.

Ignorando a vertigem que o acometeu, Sasuke se forçou a sentar e foi prontamente amparado pela esposa, que o segurou pelos ombros e apoiou uma mão delicada nas suas costas.

— Anata, devagar! — ela o censurou com ternura. — Diga-me o que está sentindo, por favor.

Sasuke ergueu o rosto e a fitou, bebendo da sua visão como um homem em abstinência, sorvendo do perfume que ela exalava como um viciado. Sentira tanta saudade e agora estava ali outra vez, de volta ao lugar ao qual pertencia: ao lado de Sakura e de Naruto. Esboçou um sorriso fraco para a esposa a fim de amenizar a angústia que ouviu na sua voz antes.

— Estou bem — murmurou. — Só me sentindo um pouco cansado.

Naruto agachou à sua frente na grama, um sorriso de orelha a orelha na boca.

— Ei, é bom ter você de volta! Nada contra o outro Sasuke, mas eu prefiro esse aqui — brincou entre risos.

— Não posso dizer que discordo — ele replicou num tom ácido que levou Sakura a ecoar o riso de Naruto, o próprio Sasuke se pegou sorrindo com eles, a angústia do que vivera nos últimos dias momentaneamente esquecida enquanto ele recebia as boas-vindas da esposa e do melhor amigo.

Sasuke por fim olhou em volta com mais atenção e só então se deu conta de onde realmente estava. As copas das árvores mais próximas haviam sido incendiadas, havia algumas cujos troncos haviam sido partidos e outras que haviam sido arrancadas pela raiz. Mesmo algumas partes do gramado verde que se estendia por centenas de metros até se perder de vista estavam chamuscadas. Crateras profundas deformavam o solo plano em outros pontos, com rochas imensas emergindo do chão partido.

E havia Shinobis caídos por todos os lados. Muitos deles. Sasuke reconheceu alguns: Hayashi Kiyoko era a mais próxima, deitada de bruços e vestida de negro da cabeça aos pés. Os gêmeos Taniguchi Yuki e Miyuki haviam caído juntos, lado a lado. E Hatori estava apoiado contra o que restara de uma árvore um pouco mais distante.

O corpo que mais chamou a sua atenção, contudo, foi o de Honma Kazuma, deitado de barriga para cima, o rosto virado para o céu do ocaso, os olhos vazios não sendo capazes de ver mais nada nem de torturar mais ninguém.

Naruto e Sakura perceberam a direção do seu olhar e sombras tomaram seus semblantes.

— Houve uma batalha aqui, Sasuke — Naruto começou. — Uma dura batalha que nós três vencemos.

Sakura afagou as costas de Sasuke num gesto inconsciente enquanto relatava o que havia acontecido ali:

— Nós três deixamos Konoha a fim de encontrarmos o Chikage, derrotá-lo e te trazer de volta. Qual não foi a nossa surpresa quando Naruto sentiu todos esses Shinobis de Chigakure aqui, tão próximos da vila... — ela balançou a cabeça. — Não gosto nem de pensar no que teriam feito caso não os tivéssemos descoberto primeiro.

Naruto cruzou os braços sobre o peito e fungou.

— Eles com certeza planejavam invadir a vila. Talvez o Chikage pensasse que você... Quero dizer, que o outro Sasuke — corrigiu-se depressa com um franzir do nariz — estivesse nos dando dor de cabeça e que esse seria um momento propício para eles nos atacarem.

— Felizmente ele estava disposto a cooperar conosco e nos ajudou a derrotar as forças de Chigakure, bem como o Chikage em pessoa — Sakura completou com um sorriso, terminando de montar o quebra-cabeça.

Sasuke se levantou de chofre, sentindo a firmeza nas pernas e o equilíbrio lhe voltarem pouco a pouco. Estava no próprio corpo de novo, habituando-se a habitá-lo. Abriu e fechou o punho enquanto andava pela grama até o corpo de Kazuma. Observou-o por um momento, o semblante neutro, os olhos entrecerrados.

Naruto e Sakura aproximaram-se e se colocaram ao lado dele.

— Acabou, Anata — Sakura consolou-o. — Ele se foi. E já não pode mais te ferir. Nem você nem ninguém.

— Não. Não pode mais — Sasuke concordou.

Naruto anuiu para os dois amigos.

— Ei, vamos voltar para a vila agora. Vou notificar os outros Kages sobre o ocorrido aqui. O clone que enviei já deve ter alcançado o meu escritório e informado o Shikamaru sobre tudo o que aconteceu.

— Shinobis da divisão médica estarão aqui em três tempos para levar os feridos e recolher os corpos daqueles que se foram — Sakura complementou, deixando claro que a sua prioridade no momento era continuar observando Sasuke de perto para se assegurar de que ele estava realmente bem.

O próprio Sasuke não poderia concordar mais. Queria, mais do que nunca, ver os grandes portões da vila abertos. Assim como queria chegar em casa, ver o rosto de Sarada. Só então, se permitiria relaxar de vez.

Lado a lado, os três caminharam em direção à aldeia. O sol se punha a oeste, desaparecendo por trás dos cumes angulosos das montanhas e marcando o fim de um ciclo, o término de uma turbulenta jornada para Sasuke.

○♦○

— Então quer dizer que tudo isso era parte do plano do Chikage?

Shikamaru questionou, os braços cruzados sobre o peito enquanto avaliava Sasuke, e trocava relances de olhares com Naruto, sentado à mesa no escritório do Hokage, e com Sakura, de pé ao lado do marido. Atrás de Naruto, na vidraça da grande janela da Torre do Hokage, Konoha prosperava pacificamente graças à intervenção do Time 7 mais cedo; enquadrava o céu noturno, pontilhado por estrelas e ornado por uma lua minguante amarelada cuja luz baça mal era capaz de iluminar os contornos dos telhados dos prédios mais altos.

— Só o que podemos concluir é que ele esperava que tirar o Sasuke do caminho e trazer o Sasuke de outro mundo até aqui causaria um alvoroço suficiente para que Chigakure pudesse nos atacar enquanto estivéssemos distraídos, pegando-nos com a guarda baixa.

Shikamaru afagou a barba curta que despontava no queixo.

— Você está certo quanto a isso. Não fosse pelo Sasuke do outro mundo ter frustrado os planos dele, poderíamos estar em grandes apuros agora.

— Nós os pegamos desprevenidos mais cedo — Sasuke comentou. — Ele não esperava que a minha versão de outra realidade teria interesse em cooperar para que as trocas fossem desfeitas e para que o país do Sangue fosse derrotado.

— Mas quem era esse homem, afinal de contas? — Sakura soava frustrada.

Sasuke se virou para a esposa, pronto para compartilhar todas as informações que reunira sobre o Chikage no outro mundo. Enquanto falava, seu semblante se tornava distante, seus olhos perdiam foco.

— O nome dele era Honma Kazuma e ele foi o único sobrevivente de um massacre orquestrado por lordes feudais de países vizinhos. Nessa noite, ele despertou um dōjutsu chamado Ketsuekigan, que o conferia habilidades como viajar entre as realidades, assim como enviar outros para elas. Era assim que ele agia para enfraquecer e neutralizar qualquer um que o ameaçasse. E foi exatamente essa estratégia que ele usou comigo para me tirar do seu caminho.

Sasuke se remexeu, ciente dos três pares de olhos que o encaravam.

— Temos histórias parecidas, é óbvio. Mas eu acredito que ele jamais teve alguém para afastá-lo desse caminho. O ódio era tudo o que o movia, o ódio e o desejo de remodelar o mundo Shinobi de acordo com os preceitos que ele considerava como corretos.

Sakura tocou o queixo com o indicador, ponderando.

— Jamais imaginei que alguém possuiria um poder como aquele à sua disposição... Capaz de enviar pessoas a outros mundos, realidades paralelas coexistindo com a nossa. Quem imaginaria que tudo isso seria possível? — ela balançou a cabeça, divagando.

Naruto ergueu os olhos azuis da pilha de documentos sobre a mesa para encarar o melhor amigo.

— E pensar que existe um mundo em que eu não fui capaz de te convencer a parar... Um mundo no qual eu não cumpri nada do que prometi. — Suspirando, balançou a cabeça, sentia-se derrotado como se o jugo da falha do Naruto daquele outro mundo também fosse seu.

— Sim — Sasuke respondeu o amigo. — Não é um lugar para o qual eu deseje ter de retornar algum dia, eu posso dizer. A minha revolução afetou, mesmo que de forma indireta, a vida de todas as outras pessoas. Impediu-as de seguir em frente, de sentir esperança. É um mundo moldado pelo ódio e pela dor, um mundo que renasceu a partir da escuridão quando você morreu pelas minhas mãos, Naruto.

Sakura suspirou pesadamente, os olhos verdes avertendo para o chão.

— Não consigo imaginar um lugar como o que você descreveu — disse ao marido, um pesar na voz. — Pensar nas nações aliadas tão fragilizadas, na ausência de uma perspectiva otimista, no Naruto morto...

— Fiz o que pude para ajudá-los — Sasuke comentou com pesar —, mas acredito que agora seja com eles. Depende apenas deles mesmos remodelar o mundo em que vivem num lugar onde a esperança possa prevalecer outra vez.

Naruto recostou-se à cadeira, jogando todo o peso do corpo contra o encosto.

— Vou ter que pedir que me faça um relatório de tudo o que viu e ouviu no outro mundo, Sasuke.

Sasuke, em resposta à solicitação de Naruto, torceu a boca num meio sorriso.

— Vai ter de esperar alguns dias por isso — declarou, completando em seguida assim que viu as sobrancelhas loiras de Naruto soerguidas, criando sulcos na testa: — Depois de tudo o que aconteceu, vou ter que solicitar por alguns dias de folga.

Naruto riu, abanando a mão enfaixada; Sakura abriu um sorriso terno para o marido e mesmo Shikamaru disfarçou uma risada com um pigarro, cobrindo a boca com o punho enluvado.

— Tá bom, tá bom. Eu vou te fazer esse grande favor, acho que você merece um pouco de descanso depois de tudo o que aconteceu. Vá para casa e descanse bastante! — recomendou.

Sakura apoiou a mão nas costas do marido, sorrindo ternamente.

— Vamos para casa agora. Sarada deve estar aflita à espera de notícias suas.

Ele anuiu e os dois deixaram juntos o escritório na torre do Hokage, despedindo-se de Naruto e de Shikamaru, que permaneceram ali por mais tempo, estendendo o expediente.

Atravessaram a vila, seus moradores inquietavam-na naquele princípio de noite devido aos rumores de uma grande batalha nas proximidades da vila. Alguns poucos tinham chegado a ver relances dos adversários que sobreviveram e que agora, recebiam tratamento no hospital de Konoha para que, assim que recuperados, pudessem ser julgados e punidos pela Aliança Shinobi.

Sasuke e Sakura caminharam abarcados por um silêncio confortável, apenas os sons dos seus passos quebrando aquela cadência que se construía. Chegaram a uma rua solitária, orlada por postes de iluminação em apenas uma das margens. O vento sussurrava nas copas das árvores frondosas que cercavam uma charmosa residência; a luz acesa da sala varava a vidraça da grande janela na fachada. Um caminho de seixos levava até a porta da frente, que se resvalou de forma abrupta, a madeira batendo com força no umbral.

Sarada surgiu à porta, esbaforida e notavelmente ansiosa. Olhou para as silhuetas encobertas pela noite que se aproximavam, os olhos avertendo para Sasuke e demorando-se na sua figura. Ele estacou alguns metros antes de alcançar a casa, mas Sakura foi adiante, encorajando a filha com um sorriso.

— Está tudo bem, Sarada. O seu pai está de volta. Ele voltou para nós.

Lágrimas afloraram nos olhos negros da menina no mesmo momento, derramando-se pelas suas bochechas. Ela as enxugou, furiosa consigo mesma por derramá-las, mas então desistiu de sustentar qualquer compostura quando correu até Sasuke e chocou-se contra o corpo dele, envolvendo-o com os braços e afundando o rosto nas suas roupas.

Sasuke envolveu-a com o braço, apertando-a no seu enlace e se abaixou para que a menina pudesse esconder o rosto choroso no seu ombro. Fechou os olhos, sorveu o cheiro dos cabelos dela e manteve a filha por perto, que, entre soluços, murmurou de modo entrecortado:

Okaeri, papai.

Antes que percebesse, estava sorrindo.

Tadaima, Sarada — respondeu num tom afetuoso, sob o olhar de uma Sakura zelosa e contente por ver ambos tão entregues ao momento de ternura.

Sarada estreitou os braços ao redor dos ombros do pai uma última vez antes de afastar, um sorriso muito mais brilhante do que a lua que decorava o céu noturno despontou nos seus lábios. Os três entraram em seguida, fechando a porta e deixando para trás e do lado de fora toda angústia e todas as aflições que os acometeram nos últimos dias.

Estavam reunidos outra vez, tendo superado tudo e todos aqueles que tentaram apartá-los. Como sempre haveria de ser.

Notas finais
E depois de muita espera, de muita angústia e de muitas dificuldades, SASUKE ESTÁ DE VOLTA AO PRÓPRIO MUNDO! o/ Dividimos esse sentimento de alívio com ele, não é mesmo?! HAHAHA Amanhã trarei o último capítulo que está recheadíssimo de SasuSaku, além do capítulo extra que prometi contando como o outro Sasuke acordou nesse mundo casadíssimo com a Sakura, pai da Sarada e trabalhando junto ao Naruto! Muito obrigada por ter chegado até aqui e nos encontraremos de novo (e pela última vez) amanhã! xoxo