Dark Dawn
10 Capítulo 10: As Ruínas do Remorso
Notas iniciais
Capítulo 10:
As Ruínas do Remorso
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INO HAVIA SIDO A RESPONSÁVEL por estancar o sangramento no que restou do braço esquerdo de Sasuke. Antes, obviamente, tinha atirado um olhar tremente a Kakashi, como se pedisse autorização ao seu líder para intervir e salvá-lo de sangrar até a morte diante de pelo menos uma dúzia de pares de olhos esbugalhados.
Sasuke não dera atenção a nenhum deles, focou-se apenas no rosto lívido do seu antigo sensei. Era a reação dele que lhe importava. Era da decisão dele que, quisesse ou não, ele dependia para dar continuidade à caçada ao Chikage. Não quebrou o contato visual mesmo enquanto o seu sangue empoçava no piso da sala, encharcando a sua roupa. A dor era lancinante, provocava espasmos no seu corpo e por pouco não toldava a sua mente, impedindo-o de continuar lúcido. Seu maxilar estava cerrado para se impedir de exprimir um gemido que fosse.
Quando perdeu o braço esquerdo pela primeira vez, o golpe que fez seu membro praticamente se desintegrar foi tão forte que causou que tanto ele quanto Naruto perdessem a consciência. E quando despertou horas depois, embora a dor houvesse sido a primeira sensação que o seu cérebro registrou, a ausência de uma parte do corpo só foi notada mais tarde. O choque tinha sido o responsável por anestesiar um pouco da agonia.
Sasuke não era estranho à dor. Poderia até afirmar que estava familiarizado a ela de um modo um pouco masoquista. Seu corpo já carregou mais feridas do que acreditou que fosse humanamente possível. E em todas as vezes que sobreviveu a ela, ele se viu mais forte e mais insensível. No passado chegou a, inclusive, tratar o próprio corpo como uma mera ferramenta para alcançar os seus objetivos, submetendo-se a todo tipo de loucura: experimentos e transplantes dentre elas.
Mas, ali, naquele mundo estranho e cercado por rostos hostis, Sasuke se lembrou da primeira vez em que sentiu a dor verdadeiramente. Talvez tivesse sido na noite em que perdeu todo o clã e viu a figura de irmão e filho exemplar de Itachi desmoronar como um castelo de areia bem diante dos seus olhos. Era muito novo na época para lembrar com exatidão se a dor havia sobrepujado o medo que sentiu. De todo modo, a dor se tornou uma companhia constante na sua vida nos anos conseguintes. A dor não deveria impactá-lo mais.
Então por que ele se sentia miseravelmente exposto diante daquelas pessoas tão estranhas e ao mesmo tempo tão familiares a ele? Por que se sentia tão vulnerável e frágil? Sasuke suspeitava que tivesse a ver com o fato de que todos naquele cômodo, sem exceção, detestavam-no e não desejavam nada mais do que vê-lo morto.
Talvez todo aquele ódio direcionado a ele fizesse com que sentisse que todos os seus esforços para se redimir fossem inúteis. Que em alguma outra realidade, outro Sasuke perseguiria a escuridão e despencaria nas sombras sem jamais tentar se salvar, afastando todos que tentassem resgatá-lo. Uma existência vazia preenchida com nada mais do que trevas e violência. Apenas a perspectiva de viver essa vida o assombrava com um medo visceral.
Não podia ser, consolava-se. A sua existência não poderia voltar a ser resumida ao ódio e à escuridão, não depois de tudo o que ele fez e até mesmo sacrificou para limpar a própria imagem. O ciclo de ódio criado por Indra jamais se rompera naquele mundo e, consequentemente, o Sasuke daquela realidade ainda estava preso a ele. E todos pagaram o preço por isso.
Forçando-se a ficar acordado, ele se agarrou à sua consciência e lutou contra a letargia que ameaçava tomá-lo. A perda de sangue estava deixando-o tonto e fraco. Por um momento, a sua visão escureceu. Então, ele retomou o controle sobre o corpo com nada mais do que pura teimosia.
— Hokage-sama, ele sangrará até a morte se não receber ajuda! — Ino tinha advertido, descendo os olhos azuis agoniados pelo ferimento de Sasuke.
Bastou que Kakashi aquiescesse para que Ino corresse até ele, suas mãos imediatamente emanando uma aura esverdeada típica de ninjutsus medicinais. A dor abrandou, e a fraqueza foi deixando-o conforme ela estancava o sangramento abundante. Os dedos de Sasuke estavam dormentes de tanto apertar o cotoco do braço esquerdo.
— Talvez devêssemos levá-lo até a Shizune-san. Ele precisa de cuidados e não posso fazer mais do que fornecer os primeiros-socorros e evitar que morra pela hemorragia.
— Não sei se seria uma boa ideia — Kakashi comentou. — Não depois de tudo o que houve.
— Mas, Hokage-sama! — Ino teimou.
Kakashi suspirou profundamente e encarou Sasuke com o cenho franzido. Seus olhos escuros estavam tempestuosos, Sasuke via o conflito que era travado dentro da mente do seu antigo professor. O resultado dessa batalha determinaria o seu destino.
— Eu quero confiar em você, Sasuke. E depois dessa loucura eu me sinto fortemente inclinado a tomar qualquer palavra que saia da sua boca como verdade, não importa quão absurda ela soe. Mas preciso deliberar antes. Peço que me dê até o final do dia. Use esse tempo para se recuperar. Você não poderá ir a lugar algum de qualquer modo, não com um ferimento desses.
Sasuke exalou todo o ar, descomprimindo o seu peito. Viu nas palavras de Kakashi, ao menos, uma oportunidade, uma esperança. Recuou, trôpego, até desabar na cadeira no centro do cômodo. Ino havia terminado de estancar o sangramento e a dor havia diminuído de um latejar incessante para fisgadas ocasionais que ele, pelo menos, conseguia suportar.
Kakashi se retirou do cômodo em seguida e levou alguns dos Anbu com ele, além de Sai, Shikamaru e Chouji que o seguiram, deixando a outra parte no recinto para vigiar os movimentos de Sasuke. Fechando os olhos, ele tombou a cabeça no encosto da cadeira e fitou o teto, a lâmpada que zumbia baixo bem acima da sua cabeça.
Depois de um tempo, ele notou que Ino não havia partido junto dos companheiros de equipe, mas permanecera no cômodo, parada de pé ao lado dele. Sasuke abriu os olhos e a fitou, esperando que dissesse de uma vez por todas o que queria dele, embora tivesse um bom palpite sobre o que ela pediria.
Os olhos azuis e claros endureceram nos dele, determinados, antes que ela cerrasse os punhos:
— Por favor, Sasuke-kun, me fale sobre ele. Me fale sobre o menino que eu vi nas suas lembranças. — Ela fez uma pausa para tomar fôlego, o semblante se tornando vulnerável quando apelou para ele uma última vez: — Me fale sobre o meu filho, por favor.
Sasuke suspirou. Seriam longas horas até que Kakashi retornasse com a sua resposta definitiva. Pelo menos, a dor no seu cotoco havia diminuído para algo tolerável.
○♦○
Mais tarde, Ino se foi, mas os Anbus continuaram todos no cômodo. Era irritante como eles mal se moviam, permanecendo na mesma posição por horas sem aparentar exaustão. Sasuke estava num mau humor terrível quando mais Shinobis chegaram, entrando pela porta e convocando-o:
— Ei, Uchiha, o Hokage quer que o escoltemos para fora daqui! Agora — enfatizou quando demorou um pouco para se levantar da cadeira.
Sasuke acompanhou os Shinobis pelos corredores, subindo vários lances de escada e, depois, descendo-os, encaminhando-se para uma parte diferente do edifício e frustrando as expectativas de Sasuke que queria acabar com aquilo de uma vez.
— Não verei o Kakashi ainda? — perguntou a um dos Shinobis que o escoltava.
O homem o olhou com ódio, como se Sasuke houvesse acabado de insultá-lo pelo simples fato de se dirigir a ele.
— O Hokage-sama está ocupado agora, Uchiha. Está tentando limpar toda a merda que você fez quando decidiu aparecer nessa vila outra vez. Ele requisitará a sua presença quando puder, traidor.
Sasuke comprimiu os lábios e devolveu o olhar hostil do homem, que empalideceu e virou o rosto para frente. Nesse momento, eles saíram pela porta principal do edifício e a primeira coisa que Sasuke notou foi o céu escuro, tomado por nuvens cinzentas. Um vento frio agitava as copas cheias das árvores em volta do prédio.
— Para onde estão me levando então? — perguntou a qualquer um deles assim que abaixou o rosto.
— O Hokage-sama te quer em custódia até que decida o que fazer contigo.
— Então vão me levar para a prisão? — conjecturou.
— Quem dera — o mesmo homem resmungou e apertou o passo depois disso.
Os primeiros pingos de chuva começaram a cair, molhando o asfalto sob os pés de Sasuke. Agora que caminhava pela vila, ele poderia mais facilmente enumerar as diferenças entre a Konoha à qual pertencia e a Konoha daquele mundo. A Konoha com a qual ele se habituara era colorida, vibrante, com pessoas enchendo as ruas com seus sons. Havia crianças sorrindo e brincando. Mas aquela Konoha era vazia, cinzenta e soturna. Não era apenas a guerra atual contra o país do Sangue que a tornava sorumbática, era algo mais antigo a isso. Talvez fosse o ressentimento que nutriam por ele, aquele que matou uma Hokage e o herói que todos aprenderam a admirar.
Sasuke se perguntava como a sua revolução poderia ter afetado a vida de tantas pessoas, até mesmo impedido o progresso da Vila da Folha e, possivelmente, de todas as outras. Mas aquele era um mundo consumido pelo seu ódio, preso a uma paz fajuta que fora criada unicamente pelo desejo que todos tinham de fazê-lo pagar pelos seus crimes. Não era uma paz verdadeira, jamais foi, pensou com ainda mais remorso.
Quando passaram por uma rua em particular, Sasuke estacou no meio do caminho. O chuvisco havia aumentado àquela altura, começando a empoçar no asfalto e encharcar as roupas de todos. Se não fosse pela chuva, as ruas estariam vazias de qualquer modo, pois a presença de Sasuke afugentava todos, fazendo-os correr para dentro de suas casas ou do estabelecimento mais próximo. A visão de uma mãe carregando o seu bebê nos braços enquanto corria até uma loja próxima para se esconder não saiu da cabeça de Sasuke.
Ele franziu o cenho e olhou para a bifurcação da rua; água escorria pelo seu rosto.
— O que está esperando, Uchiha? Estamos quase chegando! — Um dos homens tentou apressá-lo, mas Sasuke não lhe deu ouvidos e decidiu seguir em outra direção, ignorando os chamados dos Shinobis que o escoltavam. — Aonde você pensa que está indo?! Uchiha!
— Me esperem aqui — disse aos homens e seguiu pela rua, apertando o passo para alcançar o destino pretendido, não era como se nenhum deles tentaria — ou poderia — detê-lo.
A cada passo, Sasuke sentia os membros mais pesados, o peito mais carregado de sentimentos densos. Sua mente o atormentava, dizia-lhe para dar meia-volta e se afastar, mas ele não era capaz de deter o próprio corpo àquela altura. Estava sendo atraído por uma força que era maior do que ele mesmo.
À sua volta, as construções começaram a rarear, deram lugar a árvores grandes que tinham suas copas agitadas pelo vento. As roupas de Sasuke colaram-se ao seu corpo. Era pertinente que estivesse chovendo, que o céu houvesse escurecido de tal maneira que a luz fosse ínfima. Então ele viu o terreno plano e vazio se estender diante dos seus olhos até que o perdesse de vista, cerceado por muros baixos de pedra com ainda mais árvores altas ao seu redor. Um grande portão torii pintado de vermelho demarcava a entrada do cemitério de Konoha, erguido no topo de uma escadaria de pedra.
Sasuke subiu os degraus, um de cada vez, e parou debaixo do portão imenso, ponderando. Engoliu em seco ante a visão de todos aqueles túmulos. Mas, como se ainda fosse atraído por uma força poderosa, deu o primeiro passo cemitério adentro, avançando através da grama aparada que bebia da chuva. A mesma chuva que encharcava os túmulos de pedra que o rodeavam de todas as direções.
Seus olhos vasculhavam os túmulos atrás de um em particular. Minutos se passaram antes que ele localizasse o que estava procurando, o nome entalhado na pedra da lápide não o enganara. Sentindo-se desesperadamente oco, Sasuke se colocou diante do túmulo de Naruto, os olhos, mesmo que pregados à lápide, não eram capazes de vê-la. A chuva engrossou ainda mais, mas ele não se importou, continuou parado diante do túmulo do melhor amigo como se tivessem sido as suas próprias mãos a matá-lo. Como se fosse ele, e não outro Sasuke, o responsável pela morte de Naruto. Não conseguia parar de se culpar por toda a tragédia daquele mundo, pelo Sasuke daquele mundo não ter encontrado a razão e por ele ter levado a sua revolução estúpida até o fim.
Seus joelhos cederam e Sasuke caiu sobre a grama, a cabeça abaixada de forma que a chuva escorria toda pelo seu rosto, contornando os seus olhos. Ou seriam lágrimas? Ele não saberia dizer. Não naquele momento. Sentia-se verdadeiramente derrotado pela primeira vez desde que pisou naquele mundo. Porque diante do túmulo de Naruto, tudo havia se tornado ainda mais real.
— Me... desculpe — sussurrou para a lápide do amigo, erguendo a face para o céu escuro e chuvoso. — Eu falhei com você, Naruto. Eu falhei — repetiu e fechou os olhos; estava exausto e a perda de sangue havia agravado isso.
Sasuke se curvou mais uma vez e não soube precisar quanto tempo permaneceu ali antes que uma voz o chamasse, despertando-o do seu estado de estupor:
— Sasuke-kun? É mesmo você?
Ele se levantou e se virou para olhá-la, mas cada movimento foi lento e pesado. Sasuke a reconheceu no mesmo momento, não se surpreendendo por encontrá-la ali, no túmulo de Naruto. Era Hinata Hyuuga.
— Aa. Sou eu mesmo — respondeu a ela, que engoliu em seco antes de aquiescer.
— Sim, ouvi rumores de que estava na vila outra vez.
— Tenho assuntos a tratar com o Kakashi — murmurou e tentou se afastar, mas a voz de Hinata o deteve.
— Você... veio visitar o Naruto-kun?
Só então ele notou o vaso nos braços dela, um vaso bonito com uma única flor ocupando-o. Uma flor grande de pétalas amarelas e vibrantes. Sasuke sorriu sem que percebesse. O amarelo vibrante fez com que ele inevitavelmente associasse a flor a Naruto.
Hinata passou por ele, sem demonstrar medo, e depositou o vaso diante do túmulo de Naruto, ajeitando-o com cuidado. Ela tinha os cabelos curtos, na altura do queixo, e vestia roupas escuras e discretas.
— Eu sempre venho visitá-lo — disse a ele, a chuva molhando-a tanto quanto o molhava. — Sempre trago girassóis também. Elas sempre me fazem lembrar dele, do cabelo dele, amarelo como o sol, do sorriso dele, tão confiante e caloroso.
Sasuke sentiu um gosto amargo na boca. Em outro mundo, Naruto encontraria o amor que tanto buscou com Hinata e formaria uma família linda com ela. Um dos filhos que tivessem viria a fazer parte da vida do próprio Sasuke. Boruto seria o seu pupilo, e ele seria o mestre do garoto, aquele a indicá-lo o caminho de um Shinobi. Mas, ali, Boruto sequer existia. E tudo por culpa de Sasuke.
— Você não me odeia pelo que fiz? — Sasuke finalmente perguntou a ela.
Hinata se levantou e se virou para fitá-lo com uma expressão neutra.
— Eu te odiei por muito tempo, Sasuke-kun. Te odiei como jamais pensei que pudesse odiar alguém. — Ela cerrou um punho. — Mas então esse sentimento de ódio arrefeceu, e eu só consegui sentir um vazio desesperador no lugar. Eu o amava tanto, e você o tirou de mim — disse entre lágrimas que se misturavam à chuva ao escorrer pelo seu rosto pálido. — Mas o que mais me machuca é saber que o Naruto-kun ainda teria estendido a mão para você, mesmo depois de tudo o que fez e de toda a dor que causou. Ele teria — declarou com os olhos leitosos em brasa — lutado de novo e de novo para tentar te salvar. Por isso percebi que esse sentimento de ódio não poderia perdurar, não era o que o Naruto-kun ia querer para nenhum de nós.
— Sim — Sasuke concordou. — Naruto não ia querer que ninguém se perdesse como eu me perdi.
— Mas isso não significa que eu possa te perdoar — Hinata afirmou. — Porque eu não posso esquecer. Não consigo esquecer. A dor não diminuiu mesmo depois de todos esses anos, então eu acredito que ela jamais diminuirá, não é? — perguntou a ele com olhos marejados
— Eu não espero que ninguém me perdoe. — Sasuke deu as costas a ela e se afastou sob a chuva.
Deixou o cemitério para trás e foi ao encontro dos Shinobis que o escoltavam. Encontrou-os parados sob a marquise de uma loja, todos o olharam com raiva quando se aproximou, mas Sasuke estava entorpecido demais para se importar. Logo, viu-se sendo conduzido para uma região mais afastada da vila, uma com edifícios mais baixos e espaçados. Definitivamente não era para a prisão que o escoltavam.
— O Hokage-sama quer que você fique aqui até que seja convocado à presença dele — um Shinobi o informou secamente assim que eles entraram num edifício e se abrigaram da chuva. — Seja grato que não estão lhe atirando na prisão, que é onde você merece estar.
Sasuke o ignorou e abriu a porta de um dos apartamentos, encontrando-a destrancada. Ao passar pelo umbral, foi advertido de que todos os seus movimentos seriam vigiados e que todo o prédio seria monitorado para que ele não tentasse escapar.
— Quando vão entender que se eu quisesse ter escapado, nenhum de vocês teria sido capaz de me deter? — ele devolveu aos homens, que protestaram. — Estou aqui porque quero. Que isso fique claro de uma vez por todas.
E, dito isso, fechou a porta na cara de todos eles, isolando-se dentro do pequeno apartamento. Quando olhou ao redor, percebeu que ele era pequeno e que a mobília era escassa. Mas não havia problema. Sasuke não tinha planos de permanecer ali por muito tempo.
Ao tirar a capa, notou que estava encharcando o carpete. Tirou as sandálias e se aproximou da cama de solteiro até ter se sentado. Então se permitiu suspirar e sentir todo o cansaço que sentia. Tentou tocar o cotoco do braço esquerdo, mas percebeu que estava dolorido demais ainda. Duvidava que algum ninja-médico se voluntariaria para ajudá-lo.
Havia uma mesa de cabeceira ao lado da cama. Sasuke se curvou até alcançar uma das gavetas e a abriu, procurando por ataduras limpas, mas não encontrou. Então ouviu batidas à porta, mas não se levantou para atender.
— Sasuke-kun? Sou eu, Sai — disse a voz por trás da porta. — O Hokage-sama me enviou para lhe trazer algumas coisas.
Sasuke fez uma careta, mas se levantou para ir abrir a porta. Sai o esperava do outro lado, com uma muda de roupas secas e limpas em mãos, além de outras coisas.
— Pensei que fosse precisar disso.
Ele pegou a muda de roupas das mãos do ninja, mas ao ver que ele não partira crispou os olhos.
— Isso é tudo?
— Na verdade não — Sai disse o que Sasuke já esperava.
Impaciente, ele se afastou da porta sem fechá-la e Sai tomou o gesto como um convite para entrar no apartamento, fechando a porta logo em seguida. Sasuke localizou uma porta estreita num canto do apartamento e conjecturou ser o banheiro. Ele estava mesmo precisando de um banho quente. E a ferida no seu cotoco ainda precisava de cuidados.
Ao depositar a muda de roupas sobre a cama percebeu que havia ataduras, antissépticos, gazes, entre outras coisas. Erguendo os olhos para o rosto pálido de Sai, indagou-o sobre o significado de tudo aquilo. O Shinobi não pestanejou ao respondê-lo.
— Imaginei que a sua ferida precisaria de cuidados. Não sou um Iryou-nin, mas conheço o básico. — Depois de um momento ele completou: — A Sakura-san me ensinou.
À menção do nome de Sakura, Sasuke enrijeceu momentaneamente.
— Eu não a vi na vila mais cedo. Onde ela está?
Sai balançou a cabeça.
— Isso só o Hokage-sama pode decidir se deve te contar ou não.
— Mas... ela está bem, não está? — Ele engoliu em seco.
— Sim — Sai piscou, aturdido com a aflição de Sasuke. — Ela está.
Sai suspirou e trocou a perna de apoio, não demovendo o olhar do rosto de Sasuke. Ao ver que ele continuava no cômodo, Sasuke franziu o cenho.
— Por que está se oferecendo para me ajudar agora? Antes, também interferiu a meu favor para que me ouvissem.
— Eu já disse, só fiz o que achei que fosse o correto, o que o Naruto-kun teria feito.
— Hmm — ele assentiu e separou as mudas de roupas secas sobre a cama.
Colocou a espada junto aos seus outros pertences e, sem realizar selos de mão, transformou o punho direito numa lâmina de Chidori, usando-a para cortar a sobra de tecido na manga da blusa que usava, para facilitar o processo de tirá-la mais tarde. Ele olhou para a ferida pela primeira vez então, para o sangue seco que criara crostas na sua pele. Ao menos o corte havia sido perfeito.
— Eu quase não acreditei quando você o cortou fora. — A voz de Sai lembrou-o de que não estava sozinho no cômodo.
— Aquilo não foi nada — Sasuke murmurou e em seguida tirou a blusa encharcada e suja de sangue. — Estou habituado a me virar com um braço apenas.
Caminhou em direção ao banheiro enquanto Sai permanecia no mesmo lugar, na mesma posição, não movendo um músculo sequer. Sasuke revirou os olhos e continuou o percurso, ignorando-o.
— Eu vou te esperar para tratarmos do seu ferimento — Sai informou prestativamente.
Sasuke fechou a porta do banheiro, colocando uma barreira entre eles, e procurou pelo chuveiro imediatamente. Talvez um banho quente ajudasse a clarear os seus pensamentos e a dispersar um pouco do cansaço que sentia.
Tinha de estar preparado para quando Kakashi o chamasse e cada minuto naquele lugar o deixava mais impaciente e com os nervos à flor da pele. E ainda havia o paradeiro de Sakura pairando sobre a sua mente. Onde ela estaria? Por que Kakashi fizera disso um segredo tão grande?
A única explicação plausível na qual conseguia pensar é que ela estava em missão pela vila. Uma missão extremamente importante. De todo modo, Sasuke não saberia como enfrentá-la, não a Sakura daquele mundo. Ela deve me odiar como todos os outros, concluiu quando entrou no chuveiro, a água quente escaldando o seu corpo como uma espécie de punição.
Sakura sempre havia sido o seu ponto fraco. Isso não mudaria nunca, não importava quantos mundos existissem, quantas realidades houvesse. Disso, Sasuke tinha a mais absoluta certeza.
Quando saiu, já seco e vestido, Sai ainda o esperava. Suspirando, sentou-se na cama e deixou que ele trabalhasse na sua ferida, limpando-a e envolvendo em ataduras limpas.
— A Ino me contou tudo o que viu nas suas lembranças. O mundo de onde você vem... O Naruto-kun como Hokage, você trabalhando ao lado dele para manter a paz... Parece um pouco difícil de acreditar, realmente. E... ela também me contou sobre as crianças. — Sai ergueu os olhos escuros da ferida para o rosto de Sasuke: — Ela me disse que viu o nosso filho.
— O que quer que eu diga? — Sasuke o interrompeu com dureza.
Sai não se deixou intimidar pela expressão ranzinza de Sasuke.
— Sabe, a Ino nunca quis ser mãe. Ela sempre me disse que jamais traria uma criança inocente a um mundo como esse. Nós nos aproximamos alguns anos depois do término da guerra. Ainda havia muita dor e o sentimento de luto não amenizava mesmo que o tempo continuasse correndo. Perdemos pessoas queridas demais na Quarta Guerra. O pai dela, a Godaime Hokage e os outros Kages, o Naruto-kun... Parecia que jamais nos recuperaríamos do baque.
“O que nós construímos, juntos, serviu para, pelo menos, nos distanciar daqueles dias cinzentos. Mas nenhum de nós foi capaz de seguir em frente. Nenhum de nós conseguiu refazer a vida depois daquele dia. Nenhum de nós, Sasuke-kun — enfatizou. — Foi como se toda a esperança tivesse morrido junto com o Naruto-kun. Como se tivesse levado toda a luz junto com ele.
Sasuke abaixou o rosto e engoliu o gosto de bile que tomara toda a sua boca.
— Mas, depois do que ela viu na sua mente, Sasuke-kun — Sai continuou enquanto terminava de enfaixar o cotoco dele. — Ela me pareceu... diferente. Mais otimista. Até mesmo esperançosa.
Sasuke se levantou da cama, uma vez que o seu ferimento estava todo enfaixado. Vestiu a blusa seca e limpa que Sai trouxera e não se deu ao trabalho de se virar para ele.
— O que estou querendo dizer, Sasuke-kun, é que talvez tenha sido o destino você ter vindo parar no nosso mundo. Talvez essa seja a sua chance de reparar o que você... Digo, o que o outro Sasuke-kun fez. Seja lá onde ele estiver agora. Eu preferiria nunca mais ter de vê-lo para falar a verdade. Vocês são diferentes, isso está bastante claro para mim.
Ele se virou para Sai após tal confissão.
— Eu preciso encontrar o Chikage. Preciso voltar para o meu mundo.
— É claro — Sai concordou com um balançar da cabeça. — Mas isso também não te impede de tentar salvar esse mundo. Era o que o Naruto-kun quereria que você fizesse, Sasuke-kun. Eu sei disso.
Sasuke averteu o olhar para a janela. Ainda chovia, e a água escorria pelo vidro embaçado. Lá fora, o mundo continuava obscurecido, embora o céu estivesse pálido como leite.
— Não posso prometer nada, mas... Farei o que puder enquanto estiver aqui — Sasuke anuiu.
Sai esboçou um meio sorriso em resposta. Era estranho conversar com tanta intimidade com ele, Sasuke constatou. Mas aquele dia havia extrapolado quaisquer limites de conversas estranhas com pessoas inusitadas.
De repente, ambos ouviram um baque do lado de fora do apartamento, como um corpo atingindo a parede com força, seguido pelo som inconfundível de um gemido masculino. Eles enrijeceram e Sasuke imediatamente estendeu a mão para a sua espada sobre a cama, trocando um olhar tenso com Sai, que chegara à mesma constatação que ele:
— Não estamos sozinhos — sussurrou para o outro, que anuiu e também se colocou numa posição defensiva.
Num piscar de olhos, Sasuke correu até a cama, apanhou sua espada e se colocou próximo à porta, esperando no silêncio sufocante que engolfou todo o cômodo pelo próximo movimento de quem quer que estivesse do outro lado.
Pareceu ter se passado uma eternidade antes que algo mais acontecesse.
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