Dark Blood
4 Nos ajude
05/01/2013 – 12h10min – Hospital de Sankya – Cidade de Sankya (EUA)
— Sentem-se, por gentileza.
— Doutor, estou muito ansioso, o que meus exames revelaram? Estou com alguma doença séria?
— Peço um pouco de calma, Sr. Herryson. O que iremos conversar é um tanto quanto delicado. Aqui estão os resultados dos exames que o senhor realizou durante as últimas semanas. Fiz duas cópias, para a sua esposa também entender o que irei dizer.
— Diga logo, por favor, o que eu tenho?
— Adenocarcinoma. Um tumor maligno de estômago. O senhor ainda está no estágio inicial da doença, podemos trata-la, felizmente a constatação deste tumor foi extremamente precoce. Senhor... senhor?
— Pai, ele está falando com você!
*Som de porta abrindo*
— Obrigado, doutor.
*Som de porta fechando*
11/05/2013 — 06h00min — Rodovia 855 — Cidade Sankya (EUA)
Casas incendiadas. Gritos atormentadores por socorro. Disparos de armas e silêncios instantâneos e mórbidos. Estas eram as trágicas paisagens reveladas durante a viagem de Sr. Trevolt, com sua esposa e Karen. Era extremamente perceptível que o idoso não estava mais aguentando dirigir, ouvindo os suspiros de dor da Sra. Trevolt. Mas ele precisava ser forte.
— O senhor está cansado, não quer parar um pouco? A febre da sua esposa nos deu uma trégua.
— Não. Agora já estamos chegando ao hospital. Este é o preço que pagamos por morar longe da cidade. Uma hora para chegar ao centro hospitalar, que nem no centro fica.
Karen esperou mais alguns segundos e voltou a perguntar. Ela achava que manter o Sr. Trevolt ocupado, tirando de sua cabeça a preocupação por Esther, seria melhor para acalmá-lo.
— Faz tempo que o senhor mora nas Montanhas Rústicas?
— Eu nasci e pretendo morrer nelas. Esther era minha vizinha, foi um típico amor entre pessoas que não tinham muita opção para encontrar outro alguém. Sempre brinquei com ela, dizendo que ficava feliz por minha única vizinha ser uma garota e não um rapaz. Se não, obviamente, eu iria precisar ser homossexual.
— Bacana que o senhor e ela tem uma relação forte de amor. Vocês me lembrariam muito... – Karen engoliu em seco as palavras que ela ia pronunciar.
— Os seus pais? Era isto que você ia dizer?
— Sim. Meus pais. Mas a merda do destino fez com que meu pai esteja, agora, enterrado a sete palmos, enquanto eu estou aqui, preocupada, mesmo não querendo estar, com minha mãe.
— Exato, isto me preocupa. Sua mãe deve estar achando que algo muito ruim aconteceu com você. Espero que aquelas pessoas que fizeram isto com Esther não estejam mais em nossa casa ou que, no mínimo, já tenham sido presas pelas autoridades. Nem tempo de ligarmos para a polícia nós tivemos. Mas não se preocupe, no hospital deve ter algum telefone funcionando, ligamos para sua mãe e a tranquilizamos.
— Ótimo.
Mais uns cinco minutos se passaram, as paisagens já não tinham mais a aparência como antes. Tudo parecia mais civilizado, tirando algumas placas dizendo “socorro”, riscadas com sangue por cima dos reais significados que as placas deveriam expressar. E, finalmente, o pequeno centro hospitalar começava a aparecer por detrás de algumas belas árvores. Sr. Trevolt estacionou, desceu do carro e foi até o banco de trás. Abriu a portar e puxou, com todo o cuidado do mundo, a esposa para seus braços. Percebi em seu rosto, quando olhou a situação crítica do braço de Esther, que ele já não estava mais com a esperança que tinha quando saímos de sua casa.
— Venha junto, Karen. Não sabemos o quanto seguro é ficar sozinha no carro, pelo menos no estado em que estamos.
Karen pulou do carro no mesmo instante. Em sua cabeça, agradecia por ter sido convidada a ir junto. Ela também não se sentia agradável em ficar esperando, só, no carro.
11/05/2013 — 06h15min – Casa do Sr. Trevolt — Cidade Sankya (EUA)
Jessica finalmente chegou na casa do idoso que havia a tranquilizado minutos atrás, dizendo que estava com sua filha. O cansaço e a perna dolorida eram fatores que ajudavam Jessica a ir lentamente até o seu objetivo. Mas, felizmente, tinha alcançado seu objetivo. Porém, logo que avistou a situação em que a casa estava, seu coração começou a bater mais forte. Seu sorriso de tranquilidade transformou-se em uma expressão de desespero. Muito sangue no chão, as portas abertas, janelas quebradas. Jessica correu na direção da entrada da casa.
— KAREN! KAREN! Pelo amor de Deus, você está aqui?! KAREN! – Jessica berrava pelo nome da filha. Entrou na sala de estar. A lareira já não tinha mais fogo, mas ainda restavam poucos resquícios de calor no interior da sala. – Por alguma razão, eles devem ter saído desesperados daqui. E esta “alguma razão” provavelmente foi ocasionada por aquelas pessoas doentes. KAREN! Meu Deus, onde está você?! – Jessica ajoelhou-se no chão, colocou as duas mãos no rosto e desabou-se em lágrimas.
Antes que ela pudesse se conter, o barulho de algum objeto caindo foi o que deixou Karen em estado de alerta. Ela se levantou e foi seguindo um baixo som, parecia de alguém roendo algo, talvez um rato. Mas quanto mais chegava perto de uma porta, o barulho ficava mais alto. Parecia um animal devorando algo. Antes de abrir a porta, Jessica passou por um pequeno corredor e encontrou a cozinha, extremamente bagunçada e encharcada de sangue. Tentou não ficar abalada e repetia em sua mente “não é da Karen”. Abriu algumas gavetas e encontrou uma faca grande, de cortar carnes, aparentemente afiadíssima. Pegou-a. Agora sim, foi em direção à porta de onde estavam saindo aqueles barulhos estranhos. Segurou a maçaneta e puxou-a para baixo, fazendo com que a porta se abrisse. Estava muito escuro. Passou a mão na parede, para encontrar o interruptor. Não demorou a encontrar, puxava-o para cima e para baixo, mas sem sucesso, já que a casa estava sem energia elétrica. Mas as persianas do quarto não estavam completamente fechadas, o que permitia a entrada de alguns poucos raios solares daquela triste manhã. Então, ao entrar um pouco mais no quarto, Jessica colocou a mão esquerda na boca, tentando abafar o som de nojo e desespero que sua respiração ofegante expressava. Uma “criatura”, ajoelhada, comendo as poucas partes de carne que ainda restavam de um pequenino gato. Provavelmente, o gato de estimação que os Sr. Trevolt tinham. Mas aquela imagem, em segundos, já estava mudando: o homem que estava se alimentando do felino já tinha alterado seu foco para Jessica. Levantou-se lentamente. Jessica, apavorada, dando passos cegos para trás, não percebeu que estava pisando em poças de sangue, acabou escorregando. Na queda, a faca acabou caindo de sua mão e deslizou para baixo da cama de casal que ocupava quase todo o espaço do quarto.
— SOCORRO! ALGUÉM, POR FAVOR! SOCORRO! – Jessica gritava ainda mais alto por ajuda.
A criatura pegou a perna direita de Jessica e começou a segurá-la, tentando puxar para perto de sua boca. Com a outra perna, Jessica deu um chute forte no rosto do “canibal”, conseguindo alguns segundos para entrar por debaixo da cama. As mãos do homem ainda seguravam sua perna, mas qualquer movimento de Jessica já o fazia soltar e tentar, novamente, agarrá-la. Jessica encontrou a faca. Lembrava das palavras do suicida que encontrara horas atrás, “atire sempre na cabeça”, cuja arma que ele havia usado para tirar a própria vida ainda estava, descarregada, dentro da calça de Jessica. Ela saiu pelo lado esquerdo da cama, conseguindo levantar-se rapidamente. Levantou o braço, com a faca em punho, esperando que o homem chegasse perto o bastante para ela introduzir a faca por completo em seu crânio. Mas a criatura já não estava mais no quarto. Pelo menos não aonde estava antes. Logo ela descobriu aonde ele estava: também tinha entrado por debaixo da cama e, agora, dava dentadas próximas ao pé de Jessica. Com um pequeno pulo de susto, Jessica ajoelhou-se e enfiou a faca pelo olho do homem, que cheirava à podre. Pronto, os sons intermináveis de alguém tentando devorá-la já não eram mais ouvidos.
— Karen, graças a Deus, você não está mais aqui. – Jessica disse para si mesma. Realmente, não seria nada bom se, no lugar daquele pobre gato, estivesse Karen.
Quando Jessica estava saindo daquele maldito quarto, disparos de tiros a fizeram entrar novamente. Pessoas gritando, talvez umas três vozes diferentes, eram o que Jessica podia distinguir.
— Entrem na casa, porra! Se tranquem lá! Eu já encontro vocês! – uma voz de homem berrava do lado de fora. Mais um tiro foi disparado.
— E se lá dentro tiver mais destes zumbis?! – uma voz feminina, desesperada, agora falava.
— Vamos, Rachel, escute seu irmão. – outra voz masculina agora era ouvida por Jessica.
Jessica achou melhor sair do quarto e ir ajudar, mostrar que a casa estava, por enquanto, segura. Correu para fora do quarto, passou pelo corredor e chegou até a entrada da casa. Começou a acenar para as pessoas. Avistou que o homem que atirava estava com a cabeça sangrando. Outras duas pessoas, uma moça e um rapaz, aparentemente de mesma idade, estavam se segurando e indo em direção à casa. A garota tinha roupas de festa, tão curtas que poucas pessoas acreditariam que aquele era o visual de uma adolescente para ser usado nas Montanhas Rústicas. O rapaz já estava melhor vestido, com um casaco comprido e calças grossas. Logo que avistaram Jessica, seus olhos brilharam, e correram com mais vontade até a casa. O outro homem, que disparava em algumas pessoas, também voltou sua atenção para a casa e correu rapidamente até ela. Logo que os três entraram, Jessica fechou a porta. Todos começaram a ajudar no bloqueio da passagem, já que não sabiam se apenas trancar a porta iria ser realmente seguro. Colocaram poltronas, mesas de centro e tudo o que pudesse ser usado para bloquear a entrada das criaturas na casa. Jessica lembrou-se que, ao entrar na cozinha para pegar a faca, havia uma porta aberta que dava para um belo jardim, cheio de flores. Correu até lá, sendo seguida pelas três pessoas que acabara de conhecer. Logo, a porta dos fundos também estava extremamente bloqueada. Os quatro, suados, mal conseguiam respirar. Jessica se recompôs antes que todos e conseguiu olhar diretamente nos olhos de cada um. Olhou novamente para a garota. Focou seu olhar no rosto dela e não podia acreditar. Não conseguia abrir a boca, mas sabia que já havia visto aquela menina, não naqueles trajes. Não com aquela maquiagem borrada por possíveis lágrimas. A garota levantou a cabeça, que estava apontada para baixo, como se estivesse recuperando a energia e direcionou seus olhos para os de Jessica.
— Sim, Jessica, sou a Samantha. Era comigo que sua filha estava “estudando matemática”.
Jessica não sabia a expressão que deveria manter em seu rosto. Horas atrás, estava com uma raiva sem tamanho daquela garota que, agora, estava na sua frente. Pensava que ela era a causa de Karen ter ido para uma festa e mentido para sua própria mãe. Mas, naquele instante, onde criaturas sanguinárias estavam tentando matar qualquer pessoa que passasse por seu caminho, a festa já não era mais importante. O que importava era Karen. Apenas ela. Jessica, sem saber o que fazer, foi surpreendida por um abraço da garota.
— Temos que ir embora daqui, Jessica. Nos ajude.
Continua...
Fale com o autor