Darcanjo
7 Round 7 – Divisão dos poderes
– Com licença, com licença – Disse Eric tentando passar.
– Peraí – Falou Karla tomando a frente – Sai da frente bando de lesma!
– Empurra a mãe! – Gritou Klaus do outro lado.
– Aí está. O “quadro” que eles haviam falado – Disse David enquanto Klaus tomava a frente e começa a ler tudo desesperadamente.
O “quadro” era, na verdade, uma camada de tinta preta sobre a parede com letras de cor branca por cima como se fossem feitas de giz. A letra era caligráfica e bem desenhada, dificultando um pouco a leitura e a tinta preta acompanhava o relevo da parede. Pelo jeito, aquilo devia ter sido escrito através de magia e iria se apagar com o tempo, sem deixar vestígios, provavelmente por não quererem danificar o local que não era deles. Klaus franziu a testa e parou em determinada parte sobre a magia de invocação.
– Demônios?! A gente vai invocar demônios nessas lutas?! – Assustou-se Klaus.
– Necromancia através de símbolos – Comentou Eric.
– Mas necromancia não é a arte de chamar ou usar fantasmas para falar com eles ou assustar pessoas? – Perguntou David.
– Demônios, assim como fantasmas não estão mais vivos, porém é bem mais difícil achar algum objeto que ligue você a eles, além disso, eles são mais poderosos que uma assombração qualquer. Para chamá-los você precisa da coisa que mais liga o demônio a esse mundo: o símbolo que representa sua alma – Explicou Eric.
– Eric, você já invocou algum demônio ou algo parecido? – Perguntou David um pouco assustado.
– Não – respondeu Eric tomando uma postura mais relaxada – só já vi uma vez na internet que é necessário um símbolo para invocá-los. Aí eu liguei uma coisa a outra, nem sei se realmente é desse jeito que acontece.
– Alguém aqui já invocou um demônio? – Perguntou David ao restante do grupo.
Ninguém teve coragem de responder diretamente, negando somente com a cabeça. Tudo parecia novo, mas invocar demônios? O que mais lhes aguardavam? Além disso, descobriram por que David e Eric eram amigos apesar de serem tão diferentes. Não importava que tipo de assunto aparecesse, Eric não parecia se assustar e estar sempre com uma resposta na ponta da língua para qualquer situação, apesar de sempre serem somente suposições.
– Então está decidido, eu vou ficar com a magia de invocação. Eu já invoquei uns demônios antes e tenho alguma experiência no assunto, não sei se o método vai ser diferente, mas sou o mais apto a esse cargo. Serei o novo líder! – Vangloriou-se David.
– Como assim líder? Isso não era para ser decidido numa votação? – Reclamou Klaus.
– Como vocês podem ver, minha magia está no topo da lista, sendo assim, eu sou o mais forte, então eu sou o líder, ponto final – Agora David exibia uma confiança inabalável, mas não se sabia ao certo se era por que ele estava orgulhoso de ter se feito líder ou por que estava achando que os outros viraram seus súditos.
– Ei, não é assim que... – Klaus começou a falar, mas foi interrompido.
– Vou ler direitinho aqui como é minha magia, vocês decidam aí quem vai ficar com o resto – David gesticulou com a mão como se as outras magias não tivessem a menor importância.
– Eric e Elizabeth não vão falar nada mesmo, Karla, me ajuda aqui – Chamou Klaus.
– Hã? Espera um pouco, tô terminando de ler essa magia aqui, falo já contigo – Respondeu Karla.
– Parece que isso vai se tornar uma tirania. Ninguém reclama de nada.
– Ei, Klaus, essa daqui de baixo serve para ti. Essa magia de impacto é uma magia de luta com as mãos e, como você é o mais musculoso do grupo, dá mesmo certo.
– Por que diabos eu tenho de ficar com a magia mais fraca?! Eu não sei lutar boxe nem nada parecido não!
– Você será um lutador, não é necessário um estilo de luta – Comentou Elizabeth deixando todos abismados já que era a primeira vez que ela falava algo – Enquanto vocês reclamavam eu li sobre as outras magias. É praticamente um jogo de RPG em que cada um tem uma classe: invocador, cavaleiro, mago, atirador e lutador.
– Então como líder eu decreto que Klaus será o lutador – Declarou David.
– Ei, isso daqui não era para ser uma democracia? — Ok, quem acha que Klaus deve ser o lutador levante a mão.
Não foi surpresa que a única mão que não estava levantada fosse a de Klaus. Até uma pessoa que estava ao lado deles havia levantado.
– Você nem faz parte da equipe, sai daqui – Disse Klaus empurrando de leve o intrometido – ei...
– Eu quero ser a atiradora – manifestou-se Karla – se é necessário precisão, podem contar comigo.
– Alguém em desacordo? – Perguntou David.
– Por que ela pode escolher o dela e eu não?? – Indignou-se Klaus.
– Por mim tudo bem, sempre fui péssimo em jogos de tiro mesmo – Comentou Eric enquanto Elizabeth só virou o rosto como sinal de concordância implícita.
– Resta saber somente a magia elemental e de armamento – Notou David.
– Se é assim acho que Eric deve ser o cavaleiro e Elizabeth a elemental. Não é querendo ser machista, mas um cavaleiro precisa ter muita força física, já os magos podem atacar de longe – Comentou Klaus desistindo de brigar sobre seu cargo.
Dito isso, Eric fechou os olhos e começou a bater o pé, como sinal de inquietação. Elizabeth parecia querer falar algo, mas se continha, enquanto Karla a olhava com um olhar pesaroso. David percebeu que Elizabeth queria ser a cavaleira, já que parecia gostar muito de jogos RPG e normalmente se escolhe essa classe por ser uma das mais fortes. Além disso, magos comumente precisam muito de ajuda e Elizabeth fazia mais o tipo sozinha. Ela não se manifestou, sabia que Klaus tinha razão, mas seus olhos pareciam meio brilhantes, como se ela estivesse contendo lágrimas. Enquanto isso Eric só ficava batendo o pé cada vez mais rápido, a ponto de bater os dois ao mesmo tempo.
– Então está deci... – Começou David sendo interrompido.
– Eu vou ser o elemental! – Afirmou Eric.
– Eric, eu sei que... – Começou Klaus.
– Eu vou ser elemental! – Afirmou novamente.
– Eric, Klaus não teve escolha, se eu deixar você ser... – Disse David também sendo interrompido.
– Eu... vou ser... o eleMENTAL!! – Terminou gritando.
– Cala a boca! – Gritou uma voz na multidão.
Outra pessoa vaiou sendo o suficiente para comover uma pequena multidão a vaiar também. A maioria das pessoas ali era adolescente e a infantilidade era bem visível.
Eric ficou vermelho, assim como o restante do grupo, mas logo passado o constrangimento inicial ele continuou:
– Eu sempre gostei de magos, amo o elemento fogo e agora que eu tenho a oportunidade de ser um e não vou ser? Há há! Nós não temos uma vaga?! Então ela é minha! E não tem negócio de se eu não ficar com ela eu vou sair do grupo, vou ficar nesse grupo, como elemental e pronto – afirmou e depois de um tempo lembrou de algo e completou – desculpa te colocar como cavaleira, Elizabeth, sei que vai ser mais difícil para você, mas eu quero muito isso, me desculpa.
– Sem problemas – disse Elizabeth mais animada, quase formando um sorriso no rosto.
– Tudo bem, ninguém liga para minha opinião mesmo – Concordou Klaus.
– É mesmo. Então vamos lá – Falou David apontando para o local onde Marcos estava.
– Ei, não concorde não. Só por que você conseguiu virar líder não quer dizer que eu virei seu escravo – Brigou Klaus com um sorriso no rosto.
– Arram, claro, é melhor pensar dessa forma – Terminou David.
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