Darcanjo
39 Round 35 – David
Notas iniciais
– O que houve, David? Você se estressou de repente. Esse era o demônio que você queria? – Perguntou Karla.
– Não... nem perto disso! – Vociferou David – Estou indo embora, amanhã acordo cedo para trabalhar.
– Mas a gente não ia procurar Eric? – Perguntou Klaus.
– Amanhã a gente o procura. Se ele estiver bem até agora, amanhã também estará, até amanhã – David saiu correndo com sua raiva sem motivo em direção ao dormitório, provavelmente para se acalmar antes de voltar para casa.
– Nessas horas o teletransporte seria bem útil. Assim que o encontrarmos, Eric terá de nos ensinar como se faz – Comentou Karla.
Apesar de tê-lo visto, a noite de David foi uma das melhores que já teve. Acordou com poucas dores musculares, localizadas principalmente nos locais onde havia sido atingido. A quantidade de mana que pôde usar foi impressionante comparado aos outros dias. Seria pela vontade de vencer sua primeira luta ou somente por querer se exibir pros outros?
De qualquer modo, tomou o café da manhã apressado, atrasado como sempre, e dessa vez se despediu do pai, que estava de folga naquele dia.
Era uma coisa lógica que acabasse encontrando com aquele demônio, já que existia uma classe de invocadores, mas também achava que ficaria triste e solitário. Ao invés disso, estava quase que atropelando todos que passavam a sua frente, pedindo desculpas como se tivesse se desculpando por não tê-los matado com os encontrões.
– Isso é bom! – Pensou ele.
Se não se sentia triste queria dizer que ainda possuía forças para completar seu objetivo: matar Baal. Na verdade, David não sabia se demônios existiam de fato ou não, o que pareceu menos verdade ainda ao ver as invocações de familiares lendários, mas faria de tudo para conseguir esse feito.
Quando ouviu de Marcos sobre a possibilidade de matar algo não-físico foi como se toda sua esperança fosse recuperada. Ele também tinha razão sobre quanto mais amigos, melhor. Se pretendesse mesmo matar algo tão forte como um demônio, não o conseguiria sozinho, infelizmente o único que sabia sobre as viagens astrais era Eric. Apesar de desleixado, com certeza ele se interessaria se David dissesse que queria matar fantasmas. Eric é fanático por ficção.
Mentiu? Sim, David mentiu. Sempre quis o machado para completar seu verdadeiro objetivo. Os fantasmas incomodavam? Sim, eles incomodam, mas nada comparado ao sofrimento de perder seus verdadeiros pais.
Aos 12 anos, David perdeu os pais no que foi considerado um acidente doméstico, onde o ventilador de teto teria caído e fatiado seus pais, mas ele sabia que isso não era verdade.
Seus pais, Sofia e Diego, sempre gostaram de coisas surrealistas: OVNIs, monstro do lago Ness, histórias sobre fantasmas, lobisomens, vampiros, esse tipo de coisa. Algumas das criaturas assustavam a criança, já outras o faziam rir de tão improvável que fosse a existência. Pelo menos foi assim até os 11 anos.
Sua primeira viagem astral. Tudo era tão fantástico: a sensação de liberdade, poder atravessar alguns objetos, tentar levitar outros (sem sucesso). Mas então vieram os fantasmas.
Seres horríveis que brincavam com ele, manipulavam seu corpo a fazer coisas contra a sua vontade e o perseguiam até que não conseguisse mais andar.
Seus pais ficaram preocupados, eles acreditaram em David, mas nenhum deles sabia como se parar uma viagem astral. Todo dia o mesmo sofrimento: correr, se esconder, chorar. O ápice se deu quando os fantasmas começaram a visitá-lo em sua própria casa. Poltergeist.
Então seus pais decidiram lhe ensinar como se proteger, coisa pela qual David os amaldiçoa até hoje. Depois de muito chororó, Diego disse que ia ensiná-lo na arte da goetia, a arte da invocação de demônios. Sofia brigou no início, mas logo concordou. Iam somente pedir permissão ao mestre deles antes disso, a pessoa que os havia ensinado. O maior erro de suas vidas.
Seu mestre brigou e disse que ainda era muito cedo para que David pudesse conseguir controlar um demônio, mas seus pais estavam cegos devido à dor de seu filho e rejeitaram o conselho do seu instrutor. Então, no seu aniversário de 12 anos, começou a aprender os conceitos básicos da goetia.
Aquilo não era nada comparado aos livros que haviam recebido no torneio, tão cheio de proteções e magias incrustadas. Não, todas as formas de proteção deviam ser feitas pela própria pessoa. Logo, com a ajuda dos pais, invocou seu primeiro demônio.
Ao saber da notícia seu mestre ficou irado, mas seus pais não ligaram, afinal só estavam tentando proteger o seu filho.
Depois de alguns dias, seus pais o preparavam para ir à escola quando a campainha tocou. Ao ver quem estava à porta, Diego fez alguns gestos para sua Sofia e esta imediatamente o escondeu dentro de um armário da cozinha e o disse para que não saísse de lá ou fizesse qualquer barulho, não importa o que acontecesse.
O mestre entrou perguntando com voracidade onde estava David, mas eles disseram que já haviam o deixado na escola. Começaram a correr logo em seguida falando algo sobre um livro.
Um deles bateu sem querer no armário fazendo com que ficasse com uma pequena abertura, que, por puro medo, David recusou-se a fechar. Então ele o viu.
Reconheceu-o logo de cara. Assim como no torneio, o demônio havia sido invocado em sua forma “completa”, com todas as cabeças e um corpo de aranha. Seus pais o advertiram a nunca tentar invocá-lo, pois estava no topo da chave de Salomão, o demônio número um, o rei Baal.
Ouviu gritos e logo depois o arrastar de alguma coisa. Então algo grande caiu. Pelo local de onde pareceu vir o som era o ventilador da sala. Pouco tempo depois o velho saiu e policiais apareceram.
David não viu os corpos, mas soube o que havia acontecido, ou pelo menos o que acreditavam ter ocorrido. Jurou de todos os modos o que viu, mas falavam que era algo inventado por uma criança para esquecer o trauma. O caso pareceu estranho aos legistas, mas devido à falta de mais informações, foi arquivado como acidente doméstico.
Sua família não o quis. Tinham medo de seus pais devido as suas esquisitices e ficaram com mais medo ainda da história de David sobre demônios. Segundo eles, o garoto estava amaldiçoado.
Seus vizinhos, que já possuíam um menino de quase sua idade, aceitaram o adotar. Em pouco tempo David aceitou aquela como sua família de verdade e passou a chamá-los de pais, tentando amenizar seu sofrimento de perda. Não conseguiu.
Seu objetivo inicial era matar o velho invocador, mas pouco tempo depois ele morreu sob condições suspeitas e a família dele parecia entender tanto de demônios quanto seus novos pais.
Pelos anos que se seguiram continuou sendo atormentado por fantasmas e mentindo dizendo que estava tendo pesadelos, até que encontrou Eric. Uma pessoa pirada para qual ele revelou seus problemas. Ele não riu, acreditou de imediato e o ajudou dizendo o que era necessário ser feito para parar suas viagens astrais, o que também parou a aparição dos Poltergeist. Uma solução tão simples e efetiva: passar sua energia para um objeto.
Ele escolheu passar para um livro em branco que tinha, grosso e de capa dura e jurou a si mesmo que um dia inventaria um feitiço que conseguiria ser potente a ponto de aprisionar um demônio ainda mais forte que Baal e o mataria com ele. Mas até então se mostrava uma esperança improdutiva.
Então no evento encontrou-se com seu antigo comparsa e suas novas amigas. E então teve a certeza de que, se vencesse aquele torneio e se juntasse seu poder aos dos amigos, poderia ser mesmo capaz de enfrentar qualquer um. Ainda tinha um pouco de incerteza quanto a Eric, devido ele ser de alguma forma diferente, mas ainda depositava confiança nele.
– É agora que minha vingança começa! – Pensou David – Não perderei, nem deixarei que meus amigos percam e, de alguma forma, no futuro, conseguirei matá-lo. Pode esperar Baal! Eu irei despedaçá-lo em mil pedaços.
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