Darcanjo

30 Round 27 – Natal


Assim como imaginava, David não teve natal esse ano. Quer dizer, natal, a comemoração com alguns presentes ele teve, mas não aquele natal grandioso como imaginava que estava acontecendo na casa de Klaus e de Karla.

Ganhou algumas roupas de seus pais e parentes distantes e teve sua ceia natalina: arroz com passas, um frango inteiro torrado na brasa, comprado no restaurante do seu Zé (o frango representava o peru, que estava muito caro esse ano, como em todos os outros), cenoura e batata cortadas em cubos e misturados à maionese e um prato com um abacaxi inteiro com um cacho de uva em cada um dos dois lados.

As frutas estavam ali mais como decoração para tirar algumas fotos, depois se serviriam delas como sobremesa. Não era nada sofisticado, mas era gostoso. O irmão de David, Jefferson, repetiu duas vezes, forçando-o a comer mais rápido para poder repetir também.

Em meio aos devaneios do que Karla, Elizabeth e Klaus deveriam estar comendo e recebendo de presente (um vídeo-game, uma TV de 42’’, um notebook novinho em folha com placa de vídeo e processador militar), lembrou de Eric.

Ele, como sempre, era indecifrável. Em todo esse tempo de amizade que eles tinham, quase um ano, as únicas coisas que realmente sabia sobre ele era que sua imaginação era muito fértil e que adorava animes, desenhos animados japoneses, só.

Sua opinião muda frequentemente sobre cada assunto, num momento fala sobre uma coisa, dois segundos depois de outra totalmente diferente e se ouvisse uma opinião que demonstrasse uma base racional bem desenvolvida, mudava sua linha de pensamento para encaixar aquilo que pensava antes com essa nova ideia. Resumindo, era um louco.

Mesmo assim, não ligar nem um pouco para o natal era um pouco demais. Quando ouviu a palavra natal ela pareceu um pouco triste, mas não por ter de faltar ao mesmo, só triste. Será que alguém que ele não gostava iria passar o natal em sua casa? Será que sua família não teria um natal tão elaborado assim como a de David? Muitas dúvidas ainda surgiam, mas teve de deixá-las de lado senão não conseguiria fazer sua viagem astral.

Às 23:15h, sua família ainda estava “comemorando” o natal. Assistiam televisão enquanto jogavam conversa fora. David deu a desculpa que estava muito cansado do seu trabalho e que já iria dormir. Já que vinha a muitos dias acordando exausto de suas viagens astrais, sua família acreditou na mesma hora.


Assim que chegou não havia ninguém no dormitório. Eric já devia ter ido pra o local e nenhum dos outros iriam ver aquela partida. Enquanto observava o dormitório vazio se sentiu estranhamente sozinho, com uma vontade enorme de voltar para casa e continuar na companhia de seus familiares, mas logo desistiu da ideia e começou a se direcionar para a arena.

A montanha estava estranhamente fria e desabitada. Como era natal, poucas pessoas tinham feito sua viagem astral naquele horário e, os que fizeram, deviam estar treinando ou próximo dos locais da luta.

Dessa vez até mesmo Ricardo estava lá próximo, talvez pela falta de pessoal, já que só havia um juiz nessa partida. Marcos já estava dentro do campo de batalha, sentado em posição de meditação. Eric, aquele cretino irresponsável, ainda não havia chegado e só faltavam cinco minutos para o início da partida.

– Elizabeth? – Perguntou David.

– Oi – Respondeu ela casualmente.

– Você não ia passar o natal com sua irmã. Por que está aqui?

– Já faz algum tempo que não passamos o natal juntas.

– Teriam elas brigado? Não, elas pareciam se dar bem até ontem – Pensou David sem querer tocar no assunto – Você viu aquele irresponsável do Eric?

Elizabeth deu um risinho abafado.

– Desde que ele aprendeu aquele teletransporte fantasma eu mal o vejo andando a pé. Quando tiver faltando uns dez segundos pra batalha ele aparece.

– Essa é mesma Elizabeth? Está mais falante. Normalmente só responderia balançando a cabeça e se desviando da conversa. Será o clima natalino?

– Não disse, ele acabou de chegar.

David mal o reconheceu, seu cabelo que já era bagunçado, estava completamente rebelde, seu corpo estava todo cheio de terra e lama e de algumas pequenas feridas corria o sangue vermelho transparente de mana. A imagem perfeita de um pedinte que acabara de ser atropelado. Ignorando os olhares das poucas pessoas que estavam no local Eric correu para o campo de batalha gritando:

– Uhull!! Cheguei a tempo, yeahhh!!