A morte, pragmática como é, segue sempre o mesmo padrão. Primeiro, o mundo fica escuro. Depois, o mundo fica quieto. E, finalmente, o mundo deixa de ser mundo.

Ika acordou mais uma vez, a pele coberta pelo brilho de uma fina camada de suor refletindo o clarão das luas de Exandria. Ele se sentou, afobado, as mãos fechadas em punhos apoiadas na superfície dura de uma das camas do quarto de uma estalagem. Talion e Carmellion ainda dormiam. Kiri gentilmente pousou sobre o seu ombro e roçou as plumas contra a cabeça do homem, violentamente arrancado de seu sono, mas definitivamente a salvo das visões de uma velha cela úmida. A criatura que assumia a forma de um corvo já sabia bem como consolar seu mestre após anos juntos.

Ele se forçou a respirar cada vez mais devagar e com cada vez mais calma para que os outros não acordassem. A última coisa que ele queria no momento era que alguém o visse desse jeito.

Instável.

Vulnerável.

Aos poucos, repetindo o exercício de meditação que aprendera, esvaziou a mente e lentamente acessou os acontecimentos mais recentes. Um pesadelo do qual não tinha recordações conclusivas. O tipo de sonho que se perde assim que se acorda. Era a mesma colina na mesma floresta, mas o céu estava escuro e vermelho. As árvores tinham mais galhos. Nos troncos das árvores, as feições deformadas de uma mulher que ele não pôde salvar.

Ele não reconhecia o rosto, mas ele sabia a quem ele pertencia. O eco de um crime que ele queria esquecer – em vão, – para sempre marcado em seu cérebro e em seu coração. Não é como se fosse possível consertar o que já foi feito, ele ouviu sua própria voz, dura, firme. Não era em tom de perdão, mas daquele tipo de culpa que já tinha se consolidado em fardos que alguém carrega até o fim.

Mas alguma outra coisa havia acontecido nesse sonho. A maior das luas ainda estava bem alta no céu. Ele ainda tinha tempo para pensar nisso antes de dormir novamente.

Havia uma inquietação dessa vez, como se algo tivesse virado ele do avesso. Os pesadelos são todos ruins, mas esse foi incômodo, como uma queimação no peito. E então, ele se lembra de alguém chamando o seu nome. O seu verdadeiro nome.

Ele tentou se lembrar do som desse nome, mas nada vinha à mente. Ele já não tinha nenhuma lembrança dele. Esse nome sempre o assombrava de tempos em tempos, como uma ferida que inflama e arde, mas que não tem remédio que sare ou alivie. Mais um fardo para a conta. Como um objeto que se perde num canto da casa e que passa tanto tempo sumido que não se lembra mais a forma ou a cor dele; apenas o conceito e a lembrança de ter possuído este objeto. Ao que se questiona se ele realmente existiu mesmo, ou se ele foi gerado por alguma falha no campo da memória da mente humana.

Ele realmente teve um nome antes de ser nomeado "Ikarus"?

O filtro entre o que aconteceu e o que não aconteceu às vezes deixa de existir, mesmo nos cérebros mais calibrados. Mas não entrando em méritos de fabricação imaginativa, ele não ousaria usar ou mencionar este nome, este presente novamente. Uma pessoa como ele não poderia nunca usar algo tão puro quanto a primeira palavra que ouvira quando viera ao mundo naquela noite. Não, aquele menino morreu no momento em que recebeu outro nome.

E a morte é pragmática assim, também. Ele não se lembra mais das feições da mulher que vagava à noite. Nem da outra mulher do chorar silencioso. Ele não se lembra mais do som das vozes que o vento carregava, chamando-o pelo nome que já não fazia sentido.

E no que ele julgava agora serem os momentos finais dessas memórias do menino que morreu quando Ikarus nasceu, ele podia apenas sentir o lamento da menor das luas de Exandria, chorando pela tragédia de um homem que não sabia quem ele era. Aquilo que não pode ser nomeado, não pode ser resgatado.

Notas finais
Se você leu até aqui, mais uma vez, muito obrigado pelo seu tempo! Espero que tenha gostado da leitura. Estou postando alguns textos sobre o Ika que eu queria compartilhar com mais pessoas, mas sou meio tímido. Até mais!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.