Sufocar

Dias. Nossos dias em Alexandria tornaram-se rotina. Daryl me olhava diferente todos os dias de manhã quando acordávamos enroscados um no outro, era como se ainda não acreditasse que estávamos ali, juntos. Deus, lembro como se fosse hoje, o dia que acordamos enroscados na cama após ele me vendar.

Daryl abriu os olhos e sua mão se fechou ao redor de minha nuca, puxando o corpo contra o seu ao ouvir batidas nas portas. Estiquei minha mão até a faca que estava na cabeceira da cama, mas então ouvimos a voz de Rick e relaxamos brevemente, olhando um para o outro.

Mordi meu lábio, meu corpo estava doendo em partes que me faziam sorrir e Daryl apenas me observou. Rick bateu na porta novamente e eu me desenrosquei dele, saindo da cama e indo até nossas mochilas, roubando uma camiseta dele, acredito que era a única com mangas, e a colocando pela minha cabeça.

"Bethanie…"

O tom de Daryl foi um aviso. Um aviso para que eu não fosse até a porta apenas de camiseta. Sorri enquanto colocava meu cabelo para cima, fui em direção a porta do quarto.

"Não..."

Sorri enquanto andava na direção da porta da sala, sabendo bem que ele estaria atrás de mim em um segundo. Daryl havia deixado bem claro que ele estava com ciúmes de Rick após ele ter perguntado se estávamos juntos. Deus, Daryl com ciúmes é algo que gosto de ver, apesar de temer suas reações para as outras pessoas.

Minha mão segurou a maçaneta, mas Daryl segurou-a também. Olhei em seus olhos por cima de meu ombro, ele estava usando uma calça jeans e uma camiseta; como ele havia se trocado tão rápido era um mistério. Vi em seus olhos algo como um aviso de que eu deveria me afastar da porta.

"Por que?"

"Minha, Bethanie. Minha."

Essa possessividade deveria me matar, me deixar com medo. Deus, Rick era apenas um membro de nossa família disfuncional, mas… dei um passo para trás, soltando a maçaneta e ficando atrás da porta enquanto Daryl abria essa devagar, apenas um pedaço e olhava para Rick.

"Daryl." Daryl apenas balançou a cabeça enquanto passava a mão no rosto jogando parte do cabelo para trás. "Beth está acordada?" Vi Daryl assentir novamente, mas não fazer o mínimo movimento para deixar Rick entrar ou ir me chamar. Acredito que Rick percebeu que Daryl estava a todo custo me deixando fora da conversa, e acredito que ele entendeu o motivo. "Precisamos conversar sobre o que vão fazer."

"Podemos ficar com a guarda."

A voz de Daryl em meu ouvido já havia feito descer um arrepio em minha espinha e se concentrar entre minhas pernas, mas ouvi-lo falar com Rick, a voz ainda rouca de sono, os olhos mirando seriamente o homem a sua frente… Sim, eu já sabia naquela época que teria que me controlar, pois conhecia Daryl, ele não me deixaria demonstrar o quanto gostava dele na frente das pessoas, mas após aquilo, após ouvi-lo falar daquele jeito eu sabia que teria que fazer um esforço ainda maior.

"Ela está apta?"

Rick perguntou com certa incerteza na voz e eu entendia perfeitamente o motivo. Quando ele me viu pela última vez, eu apenas tomava conta de Judith e ele tinha todos os motivos do mundo para achar que eu ainda apenas conseguiria fazer isso e serviços de casa. Ele deveria achar que eu ainda era apenas uma garotinha que não sabia nada sobre proteger quem eu amava. Afinal, estando com Daryl, eu realmente não deveria ter necessitado aprender; porém, ele estava muito enganado. Eu havia dito para Daryl que logo não precisaria dele para me proteger e hoje eu não preciso.

"Ela fazia rondas enquanto estávamos sozinhos. Confio nela."

Ouvi-lo dizer aquilo me deixou satisfeita, e aparentemente Rick também.

"Certo." Rick disse, mas havia uma entonação de que ele continuaria a frase. O ouvi mover-se, mudando o peso da perna, e ele pareceu se aproximar de Daryl. "Daryl, Maggie veio falar comigo."

Apurei meus ouvidos. Lembro da sensação gelada que desceu minha garganta naquele momento. Maggie havia falado com Rick e isso não me deixava nem um pouco confortável. Ela não poderia fazer isso, eu não queria que ela o fizesse.

"Não é meu problema."

Daryl havia colocado um ponto final, mas Rick não. Prendi minha respiração.

"Ela é apenas uma garota."

"Ela é minha."

A possessividade na palavra de Daryl me fez estremecer novamente. Daryl estava olhando fixamente Rick, e eu sabia que Rick também estaria olhando Daryl com o mesmo olhar. Deus, aquilo poderia ter criado uma guerra.

"Ela concorda com isso?"

Essa eu teria que responder. Puxei a porta com força do aperto de Daryl, pegando ambos de surpresa. Rick deu um passo para trás e Daryl me olhou sério. Cruzei os braços e olhei Rick seriamente. Ele desceu rapidamente os olhos por mim e voltou a olhar Daryl, seus olhos questionadores.

"Bom dia, Rick. Não só concordo, como eu impus isso para Daryl. Caso Maggie tenha algo para dizer, ela pode vir conversar comigo. Caso você tenha algo a dizer…" Deixei a pergunta no ar, meu corpo afastando-se de Rick, encostando no peito de Daryl, deixando uma mensagem bem clara ali.

"Bom dia, Beth." Rick olhou para os lados, seus olhos claros não sabendo bem para onde olhar ou para quem. "Sua irmã veio me questionar se Daryl havia dito algo."

"Ele acabou de dizer." Meu corpo estremeceu ao sentir Daryl tremer de raiva. "Conversarei com ela."

Rick assentiu e olhou Daryl nos olhos novamente.

"Vou esperar vocês para mostrar a casa de armas e os postos de guarda."

Daryl bateu a porta antes que eu pudesse dizer algo mais, a raiva brotando de seus poros. O que eu não sabia era sobre o que ele estava mais bravo: comigo, com Maggie ou com Rick.

"Daryl…"

Ele se virou rápido e foi em direção ao quarto. O segui não querendo deixá-lo sem saber o porque eu tinha feito aquilo. O vi parar perto da cama, tirando a roupa por completo.

"Daryl?"

"Sua irmã…"

"Maggie vai ter que entender."

"Ela não vai."

"Não me importo."

Puxei a camiseta pela cabeça e olhei fundo nos olhos de Daryl, ele ainda estava com receio de que eu o deixasse e ele precisava entender que isso não aconteceria.

"Maggie pode espernear, gritar, xingar, eu sou sua."

Ele avançou contra mim, seus olhos mirando os meus seriamente. Ele não me segurou, apenas prensou o corpo contra o meu na porta. Levantei a cabeça, minha boca se abrindo devagar, os olhos escuros dele desceram para meus lábios.

"Minha, Bethanie."

"Sua." Assenti enquanto enrolava meus dedos em seu cabelo e beijava sua boca com mais força do que já havia beijado antes.

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Havia gritado com Maggie por alguns minutos, deixando claro que minha vida já não mais lhe dizia respeito. Eu era adulta, eu faria o que bem entenderia, fosse com quem fosse ou o que fosse. A pequena roda de pessoas que se juntara ao longe para nos ouvir, fingiu que não estava nos ouvindo ou prestando atenção assim que eu me afastei dela; porém, Rick estava me esperando quando fui em direção a nossa casa.

"Rick."

Sentei a seu lado nos degraus de nossa varanda, Daryl ainda levaria alguns minutos para chegar. Esse era o momento perfeito para que eu fizesse Rick entender.

"Beth."

Ele ficou em silêncio. Seus olhos vagavam pelas ruas de Alexandria e eu sabia bem que ele estava procurando as palavras certas.

"Ele é muito mais velho."

"Ele é meu, Rick. Apenas isso."

"Sua irmã… ela acha que Daryl se aproveitou de você."

Eu ri. Sim. Eu ri dessa frase porque realmente havia acontecido o contrário. Eu havia me aproveitado dele. Eu havia feito Daryl ficar comigo, não o contrário.

"Você acredita nisso?" Ele balançou a cabeça dizendo que não, mas evitou me olhar. "Eu fiz Daryl aceitar que era meu. Eu fiz Daryl ver que éramos um do outro. Não…" Parei, eu sabia o que falar, mas aquelas palavras chocariam Rick. E talvez aquilo fosse o que ele precisava. Respirei fundo e olhei seu rosto de perfil, os olhos verdes ainda correndo as ruas de Alexandria. "Eu fiz Daryl fazer as coisas que eu queria, ele… ele me negou tantas vezes que o certo seria dizer que eu abuso dele." Rick me olhou surpreso nesse momento, nossos olhos colados um no outro. "Eu fiz Daryl me querer, eu fiz Daryl me tomar, eu fiz Daryl perder o controle sobre ele mesmo. Eu, Rick, nunca ele."

Vi Rick engolir em seco, os olhos me observando, tentando buscar alguma mentira em minha palavras e lembro que relaxei, ele não encontraria nenhuma mentira ali.

"O que… fez Daryl fazer?"

Sorri e me virei para frente, meus olhos vendo a calma que aquele lugar passava era assustadora. Eu não me acostumei até hoje.

"Perversões." Ri enquanto olhava Rick engolir em seco novamente, seus olhos olhavam os meus sérios. "O que mais, Rick?! O que mais eu poderia querer dele?!"

"Beth…" Ele se moveu, o corpo tenso. "O que você fez ele fazer?"

Aquilo era pessoal demais e ele sabia, mas parecia que Rick precisava desse choque de realidade.

"Tudo."

A palavra séria e baixa fez o efeito desejado. Rick engoliu em seco novamente, seus olhos me mirando com força, como se ele estivesse entrando em minha mente e vendo as imagens que eu havia trazido para frente de todas as outras ao pensar em Daryl.

"Bethanie."

A voz de Daryl nos tirou do devaneio particular que cada um de nós dois estávamos e Rick olhou Daryl. Eu conseguia ver em seu perfil que ele não olhava Daryl como um homem que havia pervertido uma garota, ele olhava Daryl do mesmo modo de antigamente: um irmão.

Entretanto, Daryl já olhava Rick como uma ameaça, e eu comecei a ver ali o erro de ter dito qualquer coisa para Rick. Daryl me fitou sério, os olhos em chamas negras de raiva. Eu teria problemas em apagá-las.

Rick deve ter notado algo, pois apenas assentiu para nós dois, indo embora no segundo seguinte enquanto eu e Daryl nos encarávamos sérios.

"Me olhar assim não mudará o fato de que ele precisava escutar o que eu tinha para falar."

Gasolina. Eu havia acabado de jogar gasolina naquela pequena chama que eram os olhos de Daryl. Ele estava com ciúmes e havia acabado de fazê-lo sentir ainda mais. Me virei, entrando. Se ele diria algo, o faria dentro da casa onde ninguém poderia nos ver ou escutar.

"O que ele queria saber?"

"O que fiz você fazer."

"O que você disse?"

"Tudo."

Ele bateu a porta me fazendo pular de susto, me virei para olhá-lo, ele estava no meio da sala enquanto eu estava indo para o quarto. Parei no corredor e cruzei os braços, olhando-o de forma séria.

"Tudo o que, Bethanie?"

Lá estava. A raiva, o ciúmes, o medo. Eu queria ver aquela chama apagada e a nossa chama acessa. Havia ainda tanto para termos feito tudo, mas o tudo que já tínhamos, tudo que já éramos, estava bom.

"Tudo."

Ele avançou alguns passos, as mãos fechadas em punhos, os olhos negros. O desafiei, fiquei no mesmo lugar, olhando para ele sem recuar.

"Ele sabe…" Ele não conseguia dizer. "O que você fez?"

"Sabe."

"Ele deve te achar…" Ele sabia. Ele sabia que ao continuar aquela frase libertaria algo que ainda estávamos começando a entender, mas que já tínhamos noção. Porém, eu não estava pronta — não 100% — para ouvir aquelas palavras. "Uma puta."

A palavra final e baixa saiu de sua boca com tanta raiva que eu não senti o que ela queria dizer de verdade, até que respondi.

"Apenas se for sua."

A mão dele se enroscou em meu pescoço, me obrigando a olhá-lo. Eu não estava brava com ele, apenas chateada com as palavras que ele havia dito e aquilo era revoltante. O vi engolir em seco e lembro que ele desceu os olhos por meu rosto, chegando em sua própria mão enrolada em minha garganta. E lá estava. Lá estava o brilho insano que eu havia visto em todas as vezes que dávamos um passo em nossa dança.

Hoje o brilho é ainda mais forte, ele é meu e eu sou dele, mas na época, era como se me desse a coleira para poder controlar Daryl Dixon. E isso é algo que você não recusa de modo algum.

Ele abriu a boca devagar e lambi meus lábios, minha chateação esquecida em segundos pela palavra que ele tinha usado para mim. Eu queria a boca dele de novo na minha, mas ele apenas apertou os dedos em minha garganta, meus olhos movendo-se de sua boca para seus olhos verdes escurecidos, as chamas negras transformando-se em desejo puro.

Daryl ainda olhava seus próprios dedos apertando minha garganta e movi meu corpo contra o dele, indicando que também queria atenção. Ele me olhou nos olhos, um sorriso de canto de boca surgindo por um segundo e sumindo, me indicando que ele estava gostando do que estava fazendo. Respirei fundo e fechei os olhos, sentindo Daryl apertar mais a mão em minha garganta, ficando mais e mais duro contra minha barriga. E eu queria mais. Eu queria que ele ficasse insano, que me jogasse no chão e finalmente perdesse o controle por completo mais uma vez. Eu estava sentindo falta da falta de controle dele. Eu precisava dessa falta de controle.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.