3 — Observar outro casal

Acordei no dia seguinte sentindo que algo pingava em meu rosto, abri meus olhos e fui forçada a fechá-los novamente, uma fresta de luz do sol entrava pelo telhado, atingindo meus olhos, e uma goteira havia escolhido aquele ponto para aparecer. Eu, na verdade, sabia bem onde Daryl estava assim que comecei a me mover. Primeiro pelo fato de que a respiração dele estava leve, quase que imperceptível, e o segundo fato é que ela estava bem ao lado de meu pescoço.

Um arrepio subiu minha espinha e tentei a todo custo não me descontrolar e não me mover e acordá-lo. Daryl tinha sono leve, e caso o acordasse, perderia totalmente aquilo. Olhei de canto de olho e vi Daryl deitado no chão ao meu lado, respingos de sangue estavam em seu rosto, seu cabelo tampando seus olhos, os braços presos ao redor do corpo sem proteção alguma contra o frio.

Respirei fundo e ele abriu os olhos, as íris mais negras que verdes naquele momento. Engoli em seco e o fitei, virando o rosto devagar. Daryl estava de lado, virado para mim, sua boca agora estava fechada em uma linha reta, e eu acha que não deveria dizer nada. Ele se moveria ou falaria quando achasse melhor. O vi descruzar os braços, os olhos seguindo para minha perna.

"Como está sua perna?"

Lambi os lábios secos e vi os olhos verdes seguindo esse movimento.

"Doendo, mas vou sobreviver."

Ele assentiu e se levantou, sentando-se e vendo a goteira logo atrás de minha cabeça.

"Sai daí."

Me sentei, voltando a encostar na parede ao fundo, vendo Daryl agachar ao lado de minha perna direita, observando o ferimento e os pontos que dera no quase total breu. Sorri disso enquanto bocejava.

"Está dolorido, mas acredito que está bom, Daryl. Obrigada."

Daryl sempre me surpreende. Ele sempre arruma um modo de me deixar surpresa, mas ali, eu estava surpresa pela primeira vez no dia. Ainda teria muitas surpresas.

Ele tocou minha perna atrás de minha coxa, levantando minha perna, olhando-a do lado de fora, onde havia costurado o ferimento. Olhei-o com atenção, meus braços tremendo ao espalmarem minhas mãos no chão de madeira. Engoli em seco ao vê-lo correr a outra mão por minha perna, chegando em meu joelho, os dedos leves trilhando até meu ferimento, vendo meus poros se arrepiarem por todo o caminho.

Seus olhos azuis subiram certeiros para os meus, e outro arrepio subiu minha espinha. Ele sabia o que estava fazendo, eu tinha certeza. Ele queria ver as reações que conseguia tirar de mim. E Daryl tira as melhores reações de mim.

"Você... não me toca faz tempo."

Ele assentiu devagar, soltando minha perna, mas se mantendo agachado perto de mim. O observei sério, os olhos corriam meu rosto, como que procurando por algo. Ele deve ter encontrado, pois se ajoelhou ao meu lado, me fitando sério, as mãos em punhos fechados.

"Você também não."

Engoli em seco. Deus, lembro como se fosse hoje, a expectativa de tocar Daryl quase me fez me jogar para cima dele. Mas então ele continuou.

"Decorou aquela lista, Bethanie?" Assenti devagar, apenas para que ele levantasse a mão, correndo a ponta dos dedos próximo ao meu machucado. Eu queria ele fizesse pressão com os dedos em minha pele. "Vai me contar?"

"Não."

Daryl continuou olhando por onde seus dedos corriam, e eu conseguia ver e sentir que ele tremia levemente, como se tentasse se conter e estivesse perdendo a batalha.

"Me pede para parar, Bethanie."

"Por que?"

Ele se levantou, afastando-se e indo para perto de nossas coisas, procurando comida.

"Por que?"

Perguntei enquanto outra onda de tremeres desciam minha espinha. Eu queria que Daryl me tocasse. Eu queria que ele continuasse o que estava fazendo, queria que ele escorresse os dedos por minhas pernas e... não sabia. Eu simplesmente não sabia o que queria dele, mas queria. Queria tudo que ele pudesse me dar, queria tudo que ele quisesse me dar.

"Inferno, Bethanie. Isso não é uma brincadeira." Ele se levantou, jogando o mochila no canto. "O mundo foi a merda, eu não tenho ideia de onde nossa família está e..." Vi que ele voltava os olhos pra mim, correndo-os minhas pernas por segundos. "Você não sabe o que está pedindo."

"Eu quero que... você me toque."

"Por que?"

"Por que não?"

Daryl parecia uma animal enjaulado. Ele andava de um lado para outro, os passos pesados e leves, rápidos e certeiros. Minha perna começou a latejar e eu a movi brevemente, mas senti um dos pontos estourar. Reclamei de dor e Daryl estava a meu lado em segundos.

"Vai abrir os pontos desse jeito."

"Tenho que andar, Daryl. Temos que continuar."

Ele assentiu e então pegou novamente a agulha e uma linha diferente de uma das camisas velhas dele. Após dar aquele ponto que estourou, Daryl me entregou um pano molhado.

"Limpe."

A melhor defesa, é o ataque.

"Você não pode limpar pra mim?"

Daryl grunhiu algo e eu dei risada baixo, limpando minha perna e me levantando com a ajuda dele. Naquele momento eu sabia que Daryl estava evitando me tocar, ele estava evitando perder o controle. E por mais que eu quisesse que ele perdesse o controle naquele momento, eu ainda tinha receio de não estar pronta para aquilo.

Após algum tempo, decidimos descer. Precisávamos continuar, precisávamos achar um lugar onde pudéssemos ficar abrigados e continuar a procurar nossa família. Mas eu nunca contei para Daryl, minha esperança de encontrá-los, diminuía a cada momento. Minha esperança de ter minha família de volta, desaparecia a cada dia que eu acordava. Porém, eu não podia dizer isso a Daryl, até hoje acho que o mataria se eu falasse algo assim.

Concordamos em andar para o sul, verificar se conseguíamos algum tipo de caça e então continuar seguindo. Daryl parecia obstinado a ir para o sul e não olhar para trás. Concordei e por mais que lhe dissesse que estava bem, minha perna ardia a cada vez que dava um passo. Entretanto, quando no aproximamos de uma pequena vila perto de uma rodovia, Daryl foi na frente e eu pude descansar um pouco minha perna. Mas então, ele me chamou discretamente com a mão e sussurrou.

“Pornô ao vivo.”

Ele disse e eu não entendia o que ele queria dizer. Eu sabia o que aquilo significava, mas não entendi o que ele queria dizer naquele momento. Até hoje fico imaginando como aquele casal se sentiria se soubesse que estávamos assistindo.

Passei na frente de Daryl, minha perna doendo muito pelo novo esforço e me apoiei na árvore ao meu lado esquerdo, dando descanso a minha perna direita. Engoli em seco quando vi o que Daryl havia visto. Um casal estava dentro de um carro sem portas. A moça estava apenas de calcinha e o rapaz já estava pelado. Eles deveriam estar em algum tipo de estado de letargia para não se importarem com algum errante passando por ali.

Senti o corpo de Daryl parar bem atrás do meu, o calor dele passando para minhas costas e me inclinei levemente para trás, encostando em seu peito, como já havia feito antes, lá na prisão. Senti Daryl respirar fundo, o quadril encostando em minhas costas. Mordi meu lábio inferior.

“O que eles estão fazendo, Beth?”

Minha respiração saiu estremecida e eu me apoiei mais nele, me dizendo o tempo todo que era por causa de minha perna. E talvez fosse, eu tenho a cicatriz daquele ferimento até hoje.

“Eles vão… fazer sexo.”

“Não, Beth.” A voz dele estava baixa, um sussurro rouco e sombrio. Ele usava a vantagem de ser mais alto para que eu me esticasse mais para ouvi-lo, me fazendo raspar o quadril contra o dele. “Diga. Agora.”

“Vão…” Lambi meus lábios secos, a vergonha sumindo de pouco em pouco. “Vão transar.”

“Isso.” Daryl segurou minha mão, apertando minha palma, acalmando meus nervosos. “Eles vão fazer isso aqui, no meio do nada, sem saber que você está olhando.” A ponta da língua dele correu o lóbulo de minha orelha e senti minha perna machucada fraquejar, me recostei totalmente em Daryl, estremecendo ao senti-lo excitado atrás de mim.

“Mais.”

“Mais?” Ele perguntou com um sorriso na voz. Ele estava se divertindo. “Mais o que, Beth?”

“Você.” Meus olhos estavam colados no casal que agora já estava começando a fazer um vai e vem de seus corpos que eu queria imitar. Ela gemia baixinho por entre os beijos do rapaz, e eu queria saber qual era essa sensação. Qual era a sensação de Daryl me beijando e me tendo ao mesmo tempo.

“Eu estou aqui.” A mão que segurava a minha apertando-a com força, o quadril insinuando-se brevemente para a frente.

“Mais.”

Aquela parecia a única palavra que eu conseguia dizer. E ele riu baixo em minha nuca. Ele estava se divertindo, como me contou depois.

“Mais o que, Bethanie? Me responda o que quer.”

“Mais toque.”

A mulher estava implorando por mais também e eu concordava com ela. O rapaz atendia ao pedido dela com prazer, mas Daryl estava tendo prazer em me torturar.

“Ela vai gozar logo, Beth.” A mão livre dele me segurou na cintura, colando nossos corpos de uma vez. Meu gemido estremeceu meu corpo, fazendo Daryl sorrir. “Ele vai fazer com que ela goze e então vai ser a vez dele.”

A mão que estava em minha cintura apertou ao ponto da dor, mas a mão que segurava minha mão, fazia pequenos círculos, me acalmando. E eu estremeci fortemente com as duas pressões.

Engoli em seco sem conseguir tirar os olhos do casal, querendo ver o desfecho daquilo. Daryl lambeu de meu pescoço a minha orelha, respirando fundo ali alguns segundos. Algum tempo depois ele me contou que foi o maior sacrifício que teve que fazer para não me inclinar na árvore e me ter ali mesmo.

“Olhe bem, Beth. Olhe bem como ela recebe o que ele dá pra ela.”

Aquelas palavras amoleceram meus joelhos e eu estava a ponto de explodir. Não sabia o que era um orgasmo, nunca tinha tido um, mas acreditava que pelo modo que eu estava, estava bem próxima. Fechei minhas pernas com força, empurrando o quadril para trás, querendo a fricção que precisava para saciar a ânsia que estava se formando em meu baixo ventre.

Daryl riu de novo em meu ouvido e então disse quatro palavras que me fizeram fechar os olhos e tremer por vários segundos em seus braços.

“Goza pra mim, Bethanie.”

A ordem dele, misturada com a pressão de seu corpo ao meu, aos gemidos da moça e do rapaz, tudo aquilo me fez sentir como se uma explosão tivesse acontecido dentro do meu corpo. Era como se tudo que eu estivesse segurando há meses explodisse ali. E ouvir Daryl rindo em meu ouvido, era como saber que ele estava satisfeito com ele mesmo, como se ele soubesse ser o autor daquilo.

Eu estremeci vários segundos, a mão de Daryl em minha cintura me mantendo no lugar, e eu apoiei a mão na árvore e segurei a de Daryl com força, esperando onda após onda passar e fechei os olhos, esquecendo do mundo. Deus, se eu havia chegado aquele ponto com Daryl apenas me incitando, eu não sabia se queria descobrir como seria com ele me tocando.

“Temos que ir.” Daryl disse baixo em meu ouvido, os lábios roçando de leve minha pele, a mão em minha cintura soltando-se devagar.

“Mas…” me virei, vendo Daryl começar a se afastar devagar. “E você?”

Lembro do fogo que vi quando Daryl me olhou, uma chama se acendeu por detrás das iris dele e por um segundo tremi de medo, medo de que ele não fosse mais se controlar, se conter e fosse começar algo ali. Daryl voltou, se aproximou e parou a minha frente, me olhando de cima.

“Tenho minha própria lista, Bethanie.”

Aquela revelação foi algo que me deixou curiosa, ele sabia disso. Ele havia feito aquilo de propósito. Assenti devagar e o vi se virar, voltando a andar para um destino que ainda não sabíamos qual. E após andarmos por toda a volta das pequenas e escassas casas da vila, Daryl decidiu por uma na ponta e que tinha fácil acesso a floresta e poderia ser fortificada com facilidade graças a dois carros tombados a frente e um muro na parte de trás.

Era uma pequena o modesta casa, mas que não deixava nada a desejar. Daryl certificou-se de que as outras estavam seguras enquanto eu me certificava de que poderíamos ficar tranquilos naquela que havíamos escolhido como base.

Um quarto, uma sala, um banheiro, uma pequena cozinha e só. A casa não tinha luxos, mas era tão perfeita no meio do caos, que parecia ter sido feita sob medida para tal situação do mundo.

Poeira acumulava-se em todos os lados, sangue seco pelo chão indicava que algo havia acontecido ali. Abri todos os armários, mas o que encontrei nos primeiros foram apenas pequenos restos de o que um dia foram caixas e mais caixas de cereal. Continuei a abrir cada porta e cada gaveta, mas a cozinha estava totalmente desprovida de qualquer comida.

Daryl voltou, sua testa estava com suor, seus braços também, e eu não precisei perguntar pra saber que ele tinha encontrado errantes pelo caminho. Ele se sentou na pia suja e me olhou abrindo a despensa, sorrindo logo após. Eu havia achado uma mina.

“Acredito que precisamos apenas da carne agora.”

Ele pulou da pia e veio para meu lado, ver o que eu havia encontrado. Daryl sorriu fracamente olhando dentro da despensa e vendo cinco pequenas caixas com latas e mais latas dentro. Respirei aliviada, mas uma ideia me passou pela cabeça.

“Acha que todas essas casas tem essas latas ou outras coisas escondidas?”

Daryl mordeu o dedão, olhando para a janela na cozinha. O sol estava se pondo e ele ponderou.

“Amanhã vou vasculhar todas, usar a luz do sol.” Assenti e ele se afastou. “Sua perna?”

Olhei para baixo enquanto fechava a porta da despensa e vi que havia sangue na bandagem. Respirei fundo e dei de ombros, eu com certeza havia estourado mais alguns pontos.

“Vou ter que me acostumar com a dor.” Daryl assentiu devagar e olhou na direção do quarto.

“Nada de interessante lá?”

“Apenas um pacote de cigarros e algumas roupas que vou lavar e podemos ter mais do que apenas três peças de roupa pra usarmos.”

Daryl passou rápido por mim, indo para o quarto e logo voltou, segurava o pacote de cigarros com força. Eu sabia que Dary fumava, mas não sabia que ele sentia tanta falta. Ele se apoiou na pia novamente, abrindo um maço e segurando o cigarro nos lábios, enquanto batia as mãos nos bolsos. O vi acender o cigarro, tragando com força, enchendo os pulmões com aquela fumaça.

E ali estava. Mais uma visão de Daryl que eu não esqueceria por toda minha vida e que até hoje me arrepia todo o corpo. Ele estava contra a luz do sol que se punha, deixando o rosto escondido, os cabelos na frente dos olhos verdes, e boca entre aberta soltava a fumaça devagar, os olhos focados em mim. E Deus, se ele não havia visto a reação que aquela cena havia causado em mim.

Vi Daryl tragar outra vez e fazer a mesma coisa, soltando a fumaça devagar, os olhos em mim. Engoli em seco e me virei, não querendo voltar a ver a violência que se escondia dentro daqueles olhos cansados. Respirei fundo e disse a mim mesmo: a melhor defesa, é o ataque. E Daryl Dixon não esperava pelo que viria.