Danna is living with the boys
3 Três garotos e uma princesinha da Geórgia
Notas iniciais
O tão esperado dia havia finalmente chegado. Era uma terça feira ensolarada demais pro meu gosto. O aeroporto de Atlanta não estava muito cheio, mas as pessoas que eu via ou estavam chorando de emoção por voltarem para casa ou estavam sorrindo por acabarem de chegar para umas férias fantásticas. Ainda faltava um mês para setembro começar junto com o ano letivo.
Eu não sabia como me sentir.
Faltava pouco menos de uma hora para anunciarem que o voo para Los Angeles já iria partir e duas horas para que meus pais embarcassem num avião junto com um grupo de pessoas para Nova York, onde fariam escala com destino a Lisboa, Portugal.
Estava acontecendo de verdade. Eu sei que um dia iria partir para outro lugar, para cursar uma faculdade, mas eu ainda achava que poderia adiar isso por mais um ano. Eu sempre achei que uma das piores coisas da vida era se mudar no último ano do high school. Sabe, você passou anos na mesma escola, acostumado a ver as mesmas pessoas, sonhando em ir ao Homecoming e à formatura com aquele carinha que mantém uma paixãozinha platônica desde o jardim... e então você vai para uma escola nova onde não conhece ninguém e de repente tem que se acostumar com outras pessoas, a lidar com outros tipos de panelinhas idiotas e a aceitar que nenhum gato vai te chamar pro Homecoming porque nenhum deles te conhece direito e você idem.
É meio complicado pra mim.
— Own, eu também quero chorar, se você tá chorando eu vou chorar junto! – foi só Suzie dizer que eu notei as lágrimas salgadas fazendo curva nos meus lábios.
Eu a puxei para um abraço apertado. Não bastasse tudo o que estava acontecendo, eu ficaria longe da minha melhor amiga no último ano da escola!
— Me promete que não vai se juntar com a Meredith Nariz Falso! Nem com a trupe dela! Promete também que vai me mandar mensagem todos os dias! E se for atrás de uma outra melhor amiga, eu aceito ser trocada pela Annie Harrison, aquela que usa óculos. Ela tem cara de fofa, tipo eu.
Suzie me soltou e soltou uma gargalhada, interrompida por um soluço do choro.
— Nunca mais diga isso! – eu ia esperar que ela dissesse que eu seria a única melhor amiga dela e talz, mas ela continuou a falar, fora do script— Eu nunca me aliaria à Meredith e ao seu nariz de rinoplastia mal feita! Ela é tão falsa quanto o nariz! Quanto à Annie, eu até marquei um cinema com ela na quarta que vem, mas não estou te trocando, sua doida! Ela tem cara de fofa e você não, não seria uma troca justa. Ei! Estou brincando, tá? Ninguém vai chegar aos seus pés, até porque o seu eu invisível que vai continuar me atazanando vai chutar todo mundo que chegar lá.
Às vezes as pessoas improvisam, mas sempre tem uma hora que elas voltam ao script.
Com esse pessoas eu digo, minha mãe e Suzie.
Eu e Suzie ficamos chorando mais um pouco até que ela teve que ir com seus pais. Me despedi do senhor e da senhora Wright e voltei para junto de meus pais, que haviam acabado de terminar o café num quiosque do saguão do aeroporto.
— Daqui a pouco eu acho que eles já vão chamar o pessoal do meu voo.
— Por falar nisso, Jane e o marido, Gregory, vão chegar daqui a pouco, eles conseguiram integrar o mesmo grupo que o nosso. Por falar nisso, ela me ligou dizendo que te mandou mensagem com as fotos dos meninos, eles estarão te esperando em L.A. e seria bom reconhecê-los. – avisou minha mãe. Eu bem que ouvi um bipe do celular, mas ainda não chequei.
— Ok, eu vou ver daqui a pouco.
— Senhores passageiros do voo 2608 com destino a Los Angeles, favor embarcar pelo portão B4.
— Está na hora. – suspirou meu pai. Ele estava com os olhos castanhos meio marejados, assim como minha mãe, quando olhei bem.
— Pois é. Filha, não esqueça de passar muito protetor solar. E ligue pelo Skype todos os dias! Se você tiver algum problema nos diga ou entre em contato com o seu irmão. Ele disse que ia ter plantão agora no hospital e por isso não veio, mas avisou que qualquer coisa a casa dele estará pronta para te receber!
Eles continuaram falando vários avisos enquanto me acompanhavam até o portão B4. Meu pai apertou minhas bochechas e disse:
— Vou sentir saudade, princesinha. Tome bastante cuidado lá e diga para esses garotos que seu pai é ex-fuzileiro naval e que é bom ter cuidado, porque eu posso falar com alguns colegas se você precisar.
Meu pai não é engraçado, ele realmente falou sério. Os sessentões de hoje em dia ainda majam dos paranauê, bem, meu pai sim.
— Vem abraçar a sua mãe. Tome cuidado, não engravide antes de terminar a faculdade. Lembra que eu disse que pode ir procurar a melhor escola de artes cênicas? Não esqueça disso, seu irmão está cuidando da venda da casa e ele disse que dá para conseguir um bom dinheiro, além do mais continuaremos com uma parte do lucro do restaurante. Eu e seu pai amamos você, princesinha. E obrigada por no fim ter concordado com essa nossa viagem. Vou mandar muitas fotos dos europeus gatos pra você comentar com a Suzie e não dê muita bola pros californianos bronzeados. Conquistei meu italiano sendo uma mulher difícil! – falou minha mãe ao pé do ouvido. Abracei-a mais forte.
A mulher do autofalante deu mais um aviso e eu olhei pros meus pais uma última vez, antes de ir para a fila no portão de embarque.
***
A Geórgia não é um estado tão grande, mas olhando pela janela do avião, parece enorme. Atlanta se perdeu no mar de cidadezinhas e logo eu só conseguia ver as nuvens flutuando no céu azul.
Demoraria cinco horas até pousarmos em Los Angeles. Eu chegaria lá, com o fuso horário, quatro da tarde. Como o avião não tinha TV, me contentei em ler um livro que havia baixado no celular, por sorte não havia ninguém sentado ao meu lado, então pude me deitar ocupando o espaço da poltrona ao lado da minha. A leitura havia sido tão empolgante que só apenas quando cheguei ao final, que vi no canto da tela o ícone de mensagem.
Era de um número desconhecido, mas só podia ser o da Jane. Abri a mensagem e tinha três anexos já baixados.
Olá Danna! Desejo uma ótima viagem e espero que goste da Califórnia e de Los Angeles! Estou enviando as fotos de Mason, Tyler e Lucas, uma eu enviei errado, é o Lucas bebê, não consegui remover, mas não tem problema! Espero que se deem bem!
Abraços,
J.Fields
Anexo 1 – Anexo 2 – Anexo 3
Cliquei no anexo 1 e uau! Mason Fields é definitivamente um gato! Ele tem o cabelo preto e olhos verdes, não tenho certeza se é parecido com um dos atores que Suzie citou, mas é um rapaz muito bonito. Na foto, ao lado dele, estava um garotinho fofinho, ruivo e de olhos azuis, Tyler. Pelo que eu soube, ele é ruivo como o senhor Fields. No anexo 2, havia um bebê careca muito fofo, que estava com os olhos azuis esbugalhados voltados para a pessoa que tirou a foto.
A frauda dele era grande demais para o corpo magricelo, mas isso só o tornava mais fofo e engraçadinho, tão fofo e engraçadinho que eu demorei para abrir o anexo 3 e lembrar que aquela criaturinha era o senhor derruba molho de espinafre em donzelas de vestido branco.
Digamos que o tratante não fica atrás do irmão mais velho, tenho que admitir, mas isso não mudava em nada o rancor que eu sentia por ele, nem um pouquinho. Talvez um milésimo ou dois de um pouquinho.
Ok, três.
— Senhoras e senhores, favor apertar os cintos, dentro de alguns minutos estaremos realizando o pouso. Voltem seus assentos para a posição inicial e...
Nossa, eu já iria pousar em L.A.! Coloquei o livro que eu havia lido e o meu celular dentro da bagagem de mão e olhei para a janela, depois de apertar o cinto com força.
Mesmo com algumas nuvens atrapalhando a visão, eu ainda podia ver claramente milhares de prédios, com as janelas contrastando com os raios do sol, que ainda não se punha. Los Angeles era enorme, muito maior que Atlanta, com toda a certeza.
O avião começou a declinar sutilmente e dentro de minutos, eu estava literalmente em solo californiano. O processo de pegar as malas foi meio complicado e a saída da sala de desembarque também já que nos Estados Unidos tem muita burocracia antiterrorista. Mas acabou que deu tudo certo e não muito depois eu me via saindo de um portão, olhando para muitas pessoas segurando plaquinhas.
Nenhuma tinha Danna Martinelli. Procurei no celular as fotos dos garotos e nenhum estava à vista. Onde eles estariam? Tenho certeza de que meus pais haviam dado todos os detalhes do meu voo para que Jane os repassasse.
Pedi licença por entre as diversas pessoas que estavam na área de desembarque e parei no meio do saguão, arfando. Eu estava com duas malas gigantes mais a bagagem de mão! O que eu faria agora?
Minha barriga roncou e eu percebi que não havia comido nada além do sanduíche duro do avião. Peguei minhas coisas e vaguei pelo corredor até um Starbucks, que por sorte era perto do portão por onde eu saí. Pedi uma mistura de café com caramelo e um muffim de blueberry.
Já estava finalizando meu lanche calmamente, deixaria a preocupação para quando estivesse satisfeita, quando vi um rapaz correndo até o meu portão e falar com um funcionário que estava andando por lá. Ele alisou o cabelo, frustrado. E quando levantou o rosto, me viu.
Fiquei um segundo sem respirar. Era Mason Fields. O Mason gato Fields.
Ele veio na minha direção, com a respiração cortada pela corrida.
— Você é a tal de Danna Martinez? O que diabos você está fazendo no Starbucks? Bebendo cafezinho e comendo um bolinho?
Diferente da mãe que usava superlativos, o filho mais velho dos Fields apreciava mais as palavras no diminutivo.
Alguém falava normalmente nessa família?
— Primeiro, é Martinelli. Italiano, não espanhol. Segundo, estou fazendo justamente o que você falou. Mas isso é um café com caramelo – levantei a minha bebida quase no fim – e isso é um muffim de blueberry, pra ser mais específica – levantei o muffim, já pela metade.
— Não era para você estar me esperando no portão de desembarque? – perguntou irritado com meu comentário. Vish, alguém aqui está brabinho.
— Não era para você ter chegado – olhei no relógio da cafeteria – uns quarenta e cinco minutos atrás?
Ele me olhou com os olhos semicerrados.
— Ok, foi mal. Eu que estou dando as ordens em casa e acabou que foi complicado chegar aqui a tempo. Vamos, meus irmãos estão doidos para saber quem é a nova hóspede da casa. A propósito, sou Mason.
— Danna. – como se ele não soubesse! Apertamos nossas mãos e ele pegou minhas malas.
Caminhamos pelo estacionamento até um carro preto e espaçoso. Mason não falou nada durante o caminho todo e, como ele olhava para as ruas bastante atento, achei melhor não puxar conversa.
Por coincidência, uma das músicas que tocou na rádio do carro foi Party in the USA e assim como a Miley Cyrus, eu havia acabado de chegar em LAX, e eu estava com um cardigan! E eu tinha um sonho infantil de ser atriz! Lá no fundo, cantora também, mas deixemos isso para lá...
Enfim, assim como a Miley na música, eu pensei que sim, tudo ficaria bem. Essa música era o que faltava para eu começar a pensar que, realmente, tudo ficaria bem.
***
A casa dos Fields não é uma casa, como Jane disse. É uma mansão! Claro, o marido dela é diretor de alguns filmes, dã, ele é rico! Entrando na mansão, minha boca quase foi ao chão. Tudo era decorado impecavelmente. Mason, que vinha atrás de mim com as malas, respondeu a minha pergunta silenciosa:
— A minha mãe é dona de casa, mas ela é formada em design. De interiores, pra ser mais claro. Foi ela que cuidou de organizar tudo aqui.
— Ela fez um trabalho e tanto. – comentei.
Mason gritou pelos irmãos e meu coração deu um salto. Eu me encontraria com meu arqui-inimigo de infância e ele continuava bonitinho. Mas ele continuava sendo o garoto que jogou molho em mim, de certa forma.
Um rapaz desceu as escadas – a mansão tinha dois andares – e sorriu para mim, como se nunca tivesse me visto na vida. Mason nos deixou a sós, dizendo que iria atrás do Tyler.
— Olá, Nana! Eu sou o Lucas, mas me chame de Luke!
— Eu mal te conheço para você me chamar de Nana. – respondi na lata. Molho de espinafre, molho de espinafre...
— Você já viu minhas fotos quando eu era bebê. Conhece até demais.
— Na verdade eu só vi uma foto. – esclareci, pelo visto a mãe contou que iria enviar fotos dos filhos e que enviou uma errada – E você estava usando frauda. Você era um bebê fofo com frauda. – Lembre-se do molho verde escorrendo pelo vestido, Danna!— Era. – completei rápido.
— Ela gosta de garotos com fraudas? – perguntou uma voz de alguém que se aproximava – Foi isso que eu ouvi, Luke? – perguntou o ruivinho, descendo as escadas – EU FALEI QUE USAR FRAUDAS ATÉ OS NOVE ANOS AINDA IA ME AJUDAR COM GAROTAS DE ALGUMA FORMA!!!
— Ele está brincando, não está? – perguntei para ninguém em especial. Como assim o menino ainda usa fraudas?
— Eu bem que gostaria. – respondeu Mason, vindo logo atrás do irmão mais novo.
— Olá, linda. Eu sou Tyler Brandon Fields. Estou aqui para servi-la, amor.
Olhei para a criança que acabara de puxar minha mão e estava beijando-a neste exato momento.
Pois é, Danna, não vai ser fácil viver com três garotos. Ao menos você vai realmente ser tratada como uma princesa aqui.
Não que isso parecesse normal, com Tyler tendo uns nove anos.
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