Dangerous
7 Solitária
Notas iniciais
E lá estava a menina com um roupão limpo, toalhas na cabeça, pantufas e um chá quentinho na caneca de porcelana, lá estava Lira com o joelho envolto de gazes e esparadrapos, com lagrimas nos olhos, e esperando uma fornada de biscoitos de damasco.
Ela devia estar muito louca ou fora de si, acordar Pauline depois da meia noite exigia muita falta de disciplina. A velha Pauline estava na cozinha, tinha deixado Lira na poltrona da sala, para que não ficasse muito sozinha fez com que seu cato peludo ficasse por perto, seu nome é Ginger por causa da cor do pelo, Lira trouxera o gato para a velha senhora depois que o achou com a perna fraturada na avenida principal, Sam, a cadela de Lira mataria o bicho, então Lira implorou para que a velha ficasse com ele, e foi assim que Lira conheceu Pauline na verdade, cinco anos atrás, ela estava jogada na avenida principal chorando por causa do gatinho, Pauline voltava do aeroporto, acabara de se despedir de sua filha mais nova que estava se mudando para Georgetown, a velha vez o motorista parar o taxi aos berros e foi ajudar a menina de cabelos ruivos sentada na guia da avenida, segurando uma caixa com um gatinho filhote todo ensanguentado, Pauline levou o animal pra casa, assim como fez com Lira, a acalmou com uma xicara de chá e cuidou do animal, Lira não queria deixar o animal da senhora desconhecida, mas algo fez com que ela sentisse confiança naquela mulher e foi oque ela fez, todo dia depois do colégio Lira fazia companhia pra Pauline e pro gatinho, tomavam uma xicara de chá de camomila e comiam biscoitos de damasco.
A velha senhora apareceu no cômodo caloroso onde Lira se encontrava, um cômodo bem aconchegante devo relatar, lareira, tapetes de pele, poltronas fofinhas, novelos de lã e tudo mais, Pauline colocou a bandeja de biscoitos na mesa de centro e olhou zelosa pra Lira, sem dizer ainda nenhuma palavra. A menina não mantinha contato visual, vergonha por ter acordado Pauline uma hora daquelas era o mínimo que ela podia sentir, Lira queria desabar em prantos no colo de Pauline, mas não antes de pegar um biscoito quentinho e mergulhar no chá.
– E então menina — começou a velha — oque te traz aqui uma hora dessas? Em qual encrenca se meteu? — perguntava a mulher rechonchuda de cabelos grisalhos colocando as mãos nas pernas.
Lira não conseguiu se manter forte, desatou a chorar e soltar palavras em meio de frases.
– Sozinha... Oprimida... Ninguém... — Pauline sentou no braço da poltrona, tirou a caneca da mão da menina e a abraçou, Lira de imediato entrelaçou os braços na senhora e começou a soluçar — não... confio... em... mais... ninguém... — a mulher silenciou a menina fazendo chiados e embalando a garota até ela relaxar um pouco, o instinto maternal de Pauline confortava Lira como ninguém fazia, ela se sentia amada por alguns instantes, depois de quase vinte minutos chorando Lira olhou para os olhos amendoados de Pauline, respirou fundo e disse com calma — é como se eu vivesse no inferno.
Pauline não era religiosa, acreditava em Deus da maneira dela, não seguia nenhuma instrução de como amar seu tão amado senhor, ela também não comemora o natal, ela passa o dia tricotando e acariciando Ginger, que depois de todos seus filhos estarem morando fora da cidade era o único que lhe fazia companhia na tal data. Pauline é muito centrada, tem lá seus 80 vividos, com as rugas marcando cada aniversario em seu rosto, é uma senhora que passou por muitos maus bocados, virou viúva aos 34 anos e foi mãe solteira, nunca deixou de por comida na mesa dos filhos e estava sempre presente.
– Menina Lira, não seja tão rude consigo mesma — dizia a senhora tentando fazer a menina parar de chorar, limpou as lágrimas restantes dos olhos de Lira — tem alguma coisa que queira me contar?
E foi Pauline, a tão sensata Pauline, com quem Lira compartilhou seu maior segredo, sua sexualidade. Não sabia oque esperar de Pauline, a velha estava escolhendo as palavras em sua mente, ela escolhia muito bem as palavras, eram sempre muito sábias.
– Tem certeza disso? — Lira apenas assentiu, aos prantos — veja bem, não é uma coisa pra se envergonhar, seja você, não é errado, cada um sente atração por um gênero, se fossemos todos iguais o mundo não teria sentido.
Pauline também achava que se todos fossem homossexuais nunca mais existiria gente no mundo, mas sempre vai haver alguém que se destaca dos demais e não segue o normal.
Lira sorriu pela primeira vez em muito tempo. Ela não costumava sorrir assim. Porém, Pauline a compreendia, respeitava, e a confortava.
– Mais alguma coisa que está te incomodando? — perguntava a senhora.
Alguma coisa? Ou um turbilhão de coisas? E então Lira desandou a contar tudo para Pauline, sempre dando ênfase a parte que sentia como ninguém se importasse, que queria ser forte e que não sabia como.
–Bom menina Lira, devo dizer que você se preocupa demais com tudo, e você sabe disso — começou Pauline — você não sabe é que embora muitas pessoas não demonstrem elas te amam bastante. Você nunca estará sozinha enquanto tiver a mim menina Lira. Eu sempre estarei aqui, te ajudando, aconselhando, e lhe estendendo a mão sempre que precisar. Essa tal menina Naomi, não lhe dá tamanha atenção, talvez ela não saiba como demonstrar, ou talvez não realmente te ame menina Lira. Mas tem milhares de outras assim como você, e basta deixar que Naomi ver que você não esta mais ligando pra ela, que não vives por ela — dizia Pauline e Lira absorvia as palavras cuidadosa e atentamente — é uma vida bem difícil a sua menina Lira, mas não diferente de muitas por ai.
Depois de horas conversando e se empanturrando de biscoitos, Lira pediu pra que dormisse na poltrona de Pauline e a velha não negou. Ao amanhecer Lira agradeceu Pauline por tudo, se despediu e lhe abraçou com força.
– Queixo levantado — foram as ultimas palavras de Pauline.
Lira foi mancando até sua casa, esperando oque viria em seguida, teria de explicar tudo para se pai e não é como se isso fosse uma boa coisa, ela decidiu que quanto mais palavras poupasse era melhor.
Mesmo com todo conforto que Pauline lhe dera, Lira ainda se sentia só. E pela primeira vez Lira não considerou os conselhos de Pauline, estava agradecida por tudo que a velha havia feito, mas não levaria suas palavras pra frente.
Ao entrar em casa sentiu todos os olhares nela, em sua sala Vergan sentado no sofá, junto com Naomi e James, o casal parecia ter dormido na casa. A mãe estava com um jeito sorridente, servindo chá para os convidados na mesa, seu pai estava com o cenho franzido, preocupado.
– Finalmente – extravasou Vergan correndo para um abraço de Lira – eu estava preocupado, Naomi me ligou depois que você sumiu do hospital, onde estava? – Vergan não parava de falar, mas Lira o ignorou completamente, estava olhando para Naomi que a fitava.
Sorrindo para Vergan e para todos os outros ela olhou para seus pais e simplesmente falou:
– Eu passei a noite na casa da Pauline – não esperava que alguém se lembrasse quem era Pauline, só queria subir pro seu quarto.
– James está indo visitar a mãe no hospital – talvez você devesse acompanhar seus amigos – sugeriu o pai com olhar suspeito.
Assentiu. Subiu para seu quarto e trocou de roupa, seus cabelos armados e vivamente alaranjados caiam-lhe perfeitamente, suas sardas hoje bem contrastadas deixavam a menina com um ar vivaz, passou de leve a mascara de cílios e desceu as escadas. No carro quem dirigia era Vergan, depois de alguns minutos dirigindo chegaram no hospital, onde Lira foi atualizada sobre a mãe de James, a qual ela pouco se importava. Ela estava em coma induzido, um aneurisma havia estourado e provavelmente ela acordaria novamente. Vergan e James entraram pra visita-la, já que Naomi queria conversar com Lira. Oque não foi nada agradável.
– O James me contou – disse olhando para seus sapatos, a voz de Naomi tinha um tom um tanto magoado. Lira não sabia do que se tratava, olhando com os olhos cerrados esperou que a garota completa-se a frase – que você é lésbica. Olha – apressou-se Naomi – eu não vejo problema nisso ta? Eu vou te amar de qualquer jeito, eu queria ter te perguntado aquele dia, mas eu...
Uma raiva invadiu o peito de Lira, como se James tivesse um pingo de noção do que Lira era, ele nem ao menos falava com isso, ele não tinha o direito de sair falando essas coisas por ai, ele nem ao menos sabia o nome do meio de Lira. Desgostosa Lira deu as costas pra Naomi.
– Vai fugir novamente Liranda? – alterou a voz. Lira parou respirou fundo e piscou três vezes antes de se virar.
– Eu estarei esperando vocês no carro – suave e gentil ela continuou a andar, como se não desse a mínima pra oque Naomi estava pensando.
Ela podia se mostrar o mais forte possível, mas no fundo Lira era uma garota muito frágil. Mesmo conseguindo armazenar maus acontecimentos por muito tempo, quando ela estourava era difícil se conter.
Os minutos se passavam, Lira estava no carro com o cinto posto. Ela estava certa de que teria de mudar, ela não sabia do como, só sabia que suas noites estavam sendo perseguidas por imensos olhos castanhos avermelhados que piscavam sem parar. Amargurados.
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