Dangerous
1 Gelo e Sol
Notas iniciais
Estava subindo a rua, numa manhã de primavera, estava quente, e ela soava, não por menos, estava andando faziam horas e horas, sem destino algum.
Olhou no relógio, cinco pra sete, ela teria que estar em casa as sete, mas não conseguiria correr seis quarteirões em cinco minutos nem se tivesse super poderes, e mesmo que tivesse, não os gastaria pra chegar em casa as sete da noite. Decidiu cortar caminho pela rua de Naomi, jogaria uma pedra na janela assim que passasse por lá, o gato preto que sempre estava em sua janela se assustaria e quem sabe isso seria divertido. Faltavam duas ruas pra que a rua de Naomi chegasse, ela andou, o sol já se pondo, e uma brisa leve batia em seus cabelos ruivos e mal penteados, ela viu um garoto parado com sua bicicleta perto da Bobble’s Coff, estava com uma camiseta vermelha, toca preta e shorts largo, com certeza era James, o namorado de Naomi, ela diria oi? Não, ela tinha que chegar em casa antes das sete.
– James – disse a garota – Fazendo oque por aqui?
– Ah, nossa nem tinha percebido que você estava aqui – ah, que novidade – essa aqui é a Loren – disse ele colocando os braços sob uma garota morena de olhos negros profundos.
– Hm, interessante – na verdade ela era mesmo muito interessante, magra, peitos avantajados, cabelos longos, pele morena verão – bom, nos vemos depois – dois pra sete – tenho que ir.
Ela nunca chegaria em casa até a sete, merda, parece que alguém vai ter mais afazeres do que o normal. Correu selvagemente até finalmente passar na frente da casa de seu vizinho velho e louco, quando finalmente pisou em seu gramado se lembrou da pedra que não tinha jogado na janela de Naomi, ao entrar em casa estava sentindo o calor comum do lar e o cheiro de margaridas artificial que normalmente pairava no ar depois que sua mãe passava aquele pano encharcado de um milhão de produtos nocivos à natureza.
– Onde você estava? – Ouviu a mãe gritando da cozinha – Seu irmão está morrendo de fome, você sabe que aqui sua tarefa é cozinhar, e nem isso pode fazer? Onde infernos você estava?
– Arrumando a biblioteca da escola – deitada na grama, comendo amoras, sozinha, a mil pés de distancia – trabalho voluntário. Eu já estou indo fazer o jantar.
– Você acha que é fácil assim? –alterou a voz – eu estou aqui, há tempos esperando que meu filho satisfaça sua fome, e que eu possa satisfazer a minha também, enquanto você trabalha voluntariamente para a merda da sua escola? Esqueceu que tem casa? Trabalho voluntario? Acha que eu sou idiota? Esta escrito idiota na minha cara? Devia estar bebendo por ai, com a merda dos seus amigos, jogados num beco cheirando alguma droga, fumando uns cigarros — levou a mão à testa, fazendo e refazendo sinais negativos com a cabeça, tinha seus poros abertos e um suor escorrendo pelas costeletas, não era como se ela estivesse preocupada de qualquer forma, era só mais uma forma de afetar Lira emocionalmente — eu deveria ter te abortado Liranda, ABORTADO! Você é um peso na minha vida, um peso nas minhas costas...
Deixando a mãe aos berros caminhou pra cozinha, onde seu irmão Brendan brincava com blocos. Afagou-lhe os cabelos, andou até a geladeira, abriu a porta, passou-lhe a mão sobre o cenho, pegou alguns ingredientes, e começou a cozinhar.
– Sabe Lira, eu não estava com fome – disse Brandan calmamente, Lira sorriu – eu acho que não teve problema você demorar mais um pouquinho ajudando a senhora da livraria.
– Dan, depois da janta, tenho uma surpresa pra você – deixou a panela de canto e segurou o irmão nos braços – e você vai adorar – o garoto sorriu.
Ela ficou feliz em ver o menino sorrindo, pensando em como ele suportava os gritos daquela mulher o dia inteiro, tendo pena de ele não poder ir até a colina da cidade próxima e se atirar no gramado pra ver o movimento das nuvens e ouvir os pássaros cantando alegremente. Girou o menino uma vez, deu-lhe um beijo carinhoso e demorado e o colocou no chão, se voltou para a comida.
Posta a comida na mesa, Lira serviu a mãe e o irmão de carne, batatas e salada.
– Não se esqueça de colocar a comida para o cachorro – disse a mulher com cabelos presos em um rabo de cavalo desleixado e rosto rancoroso sem olhar-lhe nos olhos.
O jantar foi frio, como todos os outros, sem palavras, sem conversas, sem afeto, sem ao menos olhares. A mãe se levantou, deixando o prato na mesa, o pequeno menino após terminar sua refeição jogou um olhar afetuoso para a irmã e colocou seu prato na pia, sibilou um baixo ‘obrigada’ e saiu correndo. Lira lavou os pratos, secou e os guardou, em silencio. Saiu pela porta dos fundos e foi até a lavanderia.
– Sam! Ei garotinha, como vai? – entrou e lhe acariciou as orelhas – como vai? Han? –colocou a comida no prato, acariciou seu corpo e viu seu rabo abanar – boa menina, agora coma tudo esta bem?
Ao subir as escadas, viu seu irmão pedindo um beijo de boa noite pra mãe, e ela o sentou na cama. Sentiu sua pequena bolsa molhada. Lá estavam as amoras que tinha prometido pro irmão. Merda, estavam todas amaçadas. Olhou o outro bolso e viu que tinha deixado uma amora roxa ali, essa não estava de todo ruim, daria para seu irmão, e prometeu a si mesma voltar ao campo no dia seguinte pra colher mais amoras para Brendan.
Na calada da noite, como esperado, após a mãe dormir, Brendan entrou no quarto.
– Lira, oque você tem pra mim? – disse lambendo os lábios.
– Abra a mão – disse sorrindo, se culpando de ter apenas uma amora para dar ao irmão.
Ele abriu as pequenas mãos e fechou os olhos. Lira colocou a única amora gorda e roxa que tinha colhido e tirou rapidamente a mão, o garotinho abriu olhos, olhou confuso, sorriu e comeu.
– Obrigada! – abraçou a irmão e saiu correndo para dormir em seu quarto.
Exausta, Lira se jogou.
Deitando na cama começou a pensar, devanear. Sendo o sol tão quente, queria ela poder toca-lo como uma pedra de gelo e a ver derretendo, virando vapor, sumindo no espaço, assim como todo fim de vida, fecha-se os olhos, sente-se calafrios, para de respirar, batimento vai ficando fraco, fraco, fraco até que para e você fica gelado, como uma pedra de gelo que derrete, apodrece com o tempo, vira vapor, se tornam cinzas, somem no espaço, se veem sozinhos e se vão para a eternidade. Estar sozinho era ótimo, o silêncio lhe dizia tanto, as vezes o silêncio diz muito mais que as palavras, pois nele à uma imensidão de pensamentos perdidos, sentimentos esquecidos e divinas coisas para se lembrar, sorrir, chorar e esquece-las novamente. Afinal, oque esta esquecido deve ser esquecido, assim como aquele suéter velho que você ganhou da sua tia, que já fora usado por três gerações da família no natal, e que fede à suor e cheira muito mal.
Eram seis da manhã, ela despertou com os olhos alarmados, incríveis olhos azuis como o mar, mar, que de tão profundo e suave se torna confuso e macio, desventurado e ambicioso, o mar dos olhos de Lira. Foi até o armário e colocou qualquer coisa que não marcasse seus ossos da costela, e deixasse sua coxa, de um palmo, mais grossa, foi até o quarto de Brendan e o acordou calmamente, colocou o uniforme azul da escola em cima da cama e foi ao banheiro, escovou os dentes e se olhou no espelho, a boca estava um pouco rosada demais.
–Lira! Me ajuda a amarrar os sapatos? – gritou Brendan.
– Não Dan! Não grita! – sussurrou pra si mesma enquanto corria desvairadamente pelo corredor, sua mãe abria a porta do quarto.
– Crianças gritando às seis da manhã, correndo pela casa como loucas, com cadarços desamarrados e não estão vestidas pra ir para escola, isso é um absurdo, ninguém pode fazer nada nesta casa, tudo tem que ser eu. Eu odeio vocês.
Lira foi até o quarto do irmão e amarrou-lhe os cadarços. Ele pediu desculpas e lhe deu um abraço. Lira foi até seu quarto e colocou um tênis surrado, o único que tinha afinal. Desceu as escadas e percebeu que sua mãe estava tomando banho. Fez o lanche do irmão e esperou que o ônibus o levasse para escola. Jogou a mala nas costas e andou por três ou quatro ruas até chegar á escola.
Sentou-se no muro com Naomi, que beijava James loucamente, Kylie que estava trançando seu cabelo negro e conversava com Vergan, o moreno e alto.
– E então Lira, oque vai fazer hoje? – perguntou Vergan desinteressado.
Lira apenas sacudiu a cabeça em sinal negativo.
– Estávamos pensando em ir até o bar do Horan hoje, vai com a gente? – perguntou sorrindo.
Fez bico, amarrou a cara e concordou. O bar do Horan era o único bar que ficava ao lado da casa de Kylie, então era o único que nós íamos,, em toda cidade, porque se seu pai ligasse e dissesse que estava chegando era só ela atravessar a rua e se jogar no sofá em quanto assistia alguma comédia romântica idiota na tv. Vergan era loucamente apaixonado por Lira, por ela ser misteriosa e quieta, principalmente. Kylie, era bonitona, fazia todos os garotos caírem a seus pés, grades peitos, barriga chapada, cabelos compridos, olhos verdes e uma bunda realmente enorme. Naomi, era loira, tinha cabelo curto, sempre o jogava pro lado fazendo parecer que um lado de sua cabeça era raspado, usava um alargador prata, era magra, fazia sua própria moda, tinha lábios carnudos, rosto fino, nariz arrebitado e olhos claros, não é possível definir exatamente a cor, meio azul acinzentado, anormal e perfeito. James era o pegador do colégio, ele até podia namorar Naomi, mas conforme os pensamentos de Lira, se ela passasse em uma festa de criança e os balões do teto não estourassem seria pura sorte do aniversariante, James já tinha fodido com mais da metade das garotas do colégio, oque pra Lira não significava nada, não é oque ela chama de prêmio.
Lira não ama, não sofre por ninguém e não dava a mínima pra ninguém, ela apenas ficava calada usufruindo de seu silêncio, ela pensa que palavras são uma grande arte, e precisam ser usadas com cuidado, uma palavra não pode criar um mundo, mas pode destruí-lo, ela pensa que palavras devem ser apreciadas como uma arte, e se bem recitadas podem ser cultivadas, podem florescer mentes e devem ser sempre verdadeiras. Lira acha que amar alguém traz problemas, ela nunca amou, não ama nem mesmo a si própria, nunca se interessou por rapazes, não dá a mínima pra eles, segundo ela, são só pessoas imaturas e insensíveis. Na vida de Lira existem muitos achismos.
Depois da aula, Naomi e James decidiram que iam tomar umas em casa juntos e bom, nas entre linhas se comeriam no sofá durante algum filme da tv aberta. Vergan insistiu que Lira fosse, mas ela preferiu correr até o campo da cidade vizinha e colher algumas amoras pra seu irmão, ela prometeu a si mesma que não ia se jogar no campo e ficar devaneando enquanto sentia a brisa de primavera, só colheria as amoras e voltaria pra casa.
Andou até o grande campo, cuja á copa das árvores era iluminada pelo sol forte, colheu algumas amoras, ficou parada, em pé, olhando em volta, estava próxima à amoreira, decidindo se voltaria normalmente pra casa, ou se seria tão desventurada à ponto de rolar o gramado da colina à baixo e voltar pra casa pela floresta.
Deitou-se no chão e se impulsionou, tampou os olhos pra se proteger de qualquer objeto inusitado que aparecesse durante o caminho e para se proteger do medo, pouco medo, que sentia. Rolou, rolou, rolou, até que finalmente estava debaixo de uma grande árvore, florida amarela, com algumas poucas folhas caídas e bastantes pétalas pelo chão, se levantou, sorriu brevemente e começou a andar. Olhou no relógio, ainda quatro horas, mesmo que se perdesse dava tempo de refazer o caminho e voltar pra casa. Ela andava por meio a floresta, tirando as folhas do caminho, cheirando as flores mais bonitas, apreciando a paisagem e alguns animais que apareciam no caminho, colheu uma maça lindíssima de uma macieira enorme que dava ótimos frutos, aproveitou-se para comer uma durante o trajeto. Será que estava indo para o caminho certo? Avistou uma viela por uma fresta que as árvores lhe deram, ela era tão boa em senso de direção. Uma subida longa até chegar aonde queria, teria de ser cuidadosa. Olhou no relógio, cindo horas, ela estaria em casa até as seis, e não teria motivos pra se atrasar. A não ser que ela supostamente escorregasse naquela pedra com musgo que estava próxima.
Ela rolou alguns instantes a pequena subida, sua mala do colégio protegeu sua cabeça contra uma árvore. Ela não ouvia mais nada, não sentia mais nada, nem ao menos conseguia respiras direito. Estava ela se tornando uma pedra de gelo que seria tocada pelo sol?
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