Dando Voltas no Ponteiro

11 Capítulo XI - TENHO QUE CONSERTAR ISSO


Notas iniciais
Antes de tudo: desculpa o hiatus. Como eu havia dito no capítulo anterior, aquele era o último que estava pronto. E com toda a volta às aulas, provas e tudo o mais, ficou bem mais difícil de dar atenção à isso aqui. Mas não vou abandonar (isso se vocês não me abandonarem). Todos os dias abro esse site para conferir os meus reviews e só dá decepção :'(. Mandem comentários, recomendações, me ajudem! Pode parecer que não, mas essas coisas são importantes. Enfim, boa leitura! Aproveitem.

“When the days are cold and the cards all fold, and the saints we see are all made of gold”– Imagine Dragons (Demons)

Hoje eu receberia alta. É engraçado como sempre reclamamos da vida que levamos sem nos dar conta de que sempre existe alguém pior, querendo ter uma vida como a nossa. Por fora, sim, realmente minha vida é ótima. Embora eu seja órfã, meus pais deixaram uma herança quase milionária para mim e minha irmã. Tenho um “super poder” muito útil, que pode me ajudar em provas e consertar alguns erros que eu fiz. Só que não.

Eu tenho uma amiga que abriga uma dose do Elemento da água. Ela o controla muito bem e não fica cansada depois que o usa, pois ele sai naturalmente. Mas eu não abrigo o Tempo. Eu sou o Tempo. Eu não recebi uma dose do meu Elemento e nem tenho uma mãe divina que me ajuda a controlá-lo. Toda a grandiosidade do elemento está em mim, e eu tenho que aprender a controlá-lo por mim mesma. Como toda a essência de algo que move o mundo está sob minha responsabilidade, é cansativo quando o uso, por que isso mexe com a estrutura do universo. Modificar tempo e espaço significa modificar a si mesmo. Então não, não gosto de ser um Elemento.

Eu tenho minhas dúvidas sobre quem eu sou ou quem deveria ser, ainda, mas eu tento não pensar nisso. Tento focar no que tem que ser feito, não no que deveria estar fazendo. Hoje estou saindo desse hospital pra descansar mais uns dias em casa, mas como eu sou o tempo vou pular uns dias e voltar à ativa. Isso é, procurar o Luke e tirar a prova real.

– Senhorita Lynch, você já pode sair. Sua avó deixou suas roupas neste armário – ela o abriu e pegou roupas dobradas e deixou na minha cama – aproveite a liberdade! – então sorriu e deixou o quarto.

– Sim, claro. Obrigada.

Olhei para as roupas que me foram deixadas e suspirei. Minhas costas ainda doíam quando me mexia um pouco. Levantei e quase caí (duas vezes), e então coloquei a roupa da “liberdade”. Eram calças jeans azuis skinny, uma blusa verde com corte “V”, e sapatilhas, para terminar. Penteei os cabelos e dei uma olhada na minha aparência: alguns machucados no rosto tinham sarado, menos um corte enorme que traçava o nariz até a bochecha esquerda e um olho roxo quase desaparecendo. Peguei uma bolsa e deixei o quarto. Na sala de espera estava Leah e Kat, que mal se olhavam.

Acenei e avisei:

– Cheguei, queridas. Ou seria: “queridas, cheguei”? –pus a mão no queixo e olhei pro teto – Nunca gostei desse desenho mesmo.

– Fay! – Leah veio correndo me abraçar – Tá melhor? Como se sente? Vamos às compras!

Gemi devido ao abraço apertado quase esmagador e consegui dizer, entre dentes:

– Minha coluna... Ainda dói...

Ela me soltou imediatamente quando Kat veio caminhando até mim e disse:

– E aí.

– E aí. – respondi.

– Você gosta muito de hospitais né?

– Você não faz ideia. – e então rimos.

Queria perguntar tantas coisas, mas com Leah ali, seria um incômodo. No final do dia, quando Leah teve de ir pra própria casa e eu e Kat estávamos na minha, finalmente pergunto:

– Como foi com a Leah?

– Digamos que foi como me ver em outra pessoa. – ri, comparando as personalidades quase idênticas.

– E como foi a sensação?

– Horrível. – rimos mais ainda – Nossa, juro que tento ser alguém melhor dessa vez. Tentei matar ela afogada umas mil vezes em três semanas.

Então lembrei de Luke e logo o meu sorriso se desfez.

– O que foi dessa vez? – ela arqueou as sobrancelhas se preparando pra o pior (que já virou algo habitual).

– Acho que alguém que é especial pra mim está morto agora mesmo. – tentei soar indiferente, mas é claro que não consegui e minha voz embargou no meio da frase.

E isso fez Kat franzir o cenho e me abraçar, sem dizer nada. E isso me fez chorar. E isso destruiu, pela segunda vez, minha imagem de líder de batalha forte. Aquele abraço me fez lembrar a minha mãe, de uma vez em que estive triste e ela, nada disse e me abraçou. Aquela segurança que só ela me passava, senti como se ela estivesse ali, naquele momento. Sorri ao pensar na suposta presença divina dela.

Antes que pudesse me negar a esse luxo, adormeci. Adormeci na minha saudosa cama quente e confortável. Ah, terras amontoadas e gramas definitivamente não substituem um bom colchão de molas. Mas também, a cama não era toda minha no momento, já que Kat também estava dormindo lá por algum motivo, toda esparramada. A olhei enquanto ela dormia e ri da sua expressão que quebrava aquela imagem de Barbie que ela tinha. Ela roncava, com a boca aberta e com sua mão esquerda tampando os olhos. Desde o início, já sabia que Kat seria importante pra mim, de forma boa ou ruim. Não é por que eu previ o futuro, foi a minha intuição. Bendita seja a intuição feminina.

Levantei da cama às 04:23, e coloquei um roupão por cima da camiseta larga e do moletom que eu usava, preparei um chá e subi no telhado. Acho que nunca havia citado o quanto o telhado da casa da minha avó é maravilhoso. Não o telhado em si, mas a vista que se tem naquele lugar. O céu fica mais brilhoso devido à falta de iluminação que minha rua tinha naquela hora da noite, por ser um bairro inferior de Londres. Havia dois postes com a iluminação queimada por conta de uma ou duas festas que os vizinhos fizeram aqui, nessa rua. Eram quatro da manhã e o céu estava amanhecendo rápido. Uma tonalidade que ia de rosa para laranja, com um clima absurdamente frio. Antes que eu pudesse perceber, meu chá estava morno e a ponta do meu nariz estava gelada. Por alguma razão, ficar ali me deixava em paz. Eu não pensava em nada de ruim, apenas em como aquele céu estava bonito e em como aquele frio era reconfortante.

Ouvi um barulho do lado que eu havia subido pro telhado, e, quando viro o rosto para checar, me deparo com uma Kat de olhos cansados e cabelos bagunçados, tremendo de frio.

– O que diabos você tá fazendo aí, Fayel? – ela se encolhia no próprio abraço enquanto fazia uma carranca.

– Pensando. – voltei a olhar pro céu – Temos uma guerra mais a frente, preciso me concentrar pra encontrar os outros Elementos. Você sabe...

– Para de mentir. – ela me interrompeu – A gente matou um monstro juntas, estivemos dormindo em florestas por meses e você até usou meu vestido. – ela franziu o cenho, com muita descrença e prosseguiu – Eu não acredito que ainda assim você não confia em mim.

Dei um tapinha no meu lado e ela veio se equilibrando e se sentou.

– Estou pensando em nada. – a encarei e vi que ela ainda não estava acreditando – É sério. Esse é o único lugar que existe que consigo ficar em paz, mesmo com tudo desabando lá fora. – deitei no telhado e apoiei o meu chá entre uma abertura e outra, e apontei pro céu – Isso não te dá vontade de abraçar o mundo?

Consegui ver Kat revirando os olhos pela minha visão periférica e já sabia o que ia dizer.

– Abraçar um mundo que me obriga a entrar em guerra e matar pessoas? Que me obriga a ser deslocada da sociedade? Não, obrigada. – então ela pega meu chá e bebe – Precisa de açúcar.

Devolveu o chá na minha mão, levantou e saiu.

Kat é incrível. É impossível achar uma garota bonita, bondosa e durona como ela no mundo. Mesmo nesse mundo que nos obriga a ser assim. Mesmo aqui.

Suspirei ao lembrar de Luke, e esperei ali deitada, o sol nascer.

Antes que eu pudesse notar, adormeci no telhado. Sabe por que não percebi? Não tive sonho algum. Vou começar a dormir aqui em cima mais vezes. Me levantei, limpei o roupão e desci para a cozinha. Ainda zonza, encaro o relógio de ponteiro que está pendurado na parede perto da geladeira. Arregalo os olhos que mal tinham aberto ainda quando vejo que estou atrasada pra aula e, devido ao susto, cambaleio e caio na cadeira, depois no chão. O barulho foi tão alto que ficou ecoando na minha cabeça por uns dois minutos (bem, pareceram dois minutos, mas podem ter sido alguns segundos, ninguém sabe). Ouço passos acelerados descendo as escadas e, quando estou massageando a cabeça pra me dar um senso de localização mais preciso, ouço a voz de Kat, estridente:

– Você quer me matar de susto? – ela estava segurando alguma coisa na mão, que ainda não consegui identificar – Poxa, não faz isso. Achei que fosse um ladrão, ou sei lá.

– Não me bate. – pisquei um olho e fiz careta.

– Não vou te bater, fica tranquila. – ela fez uma cara de quem estava quase “aliviada” por me ver daquele jeito – O que aconteceu pra esse barulho?

Apontei pro relógio.

– O que é que tem? – ela soltou o objeto desconhecido, e cruzou os braços.

– Eu devia ter ido pra aula.

Ela franziu o cenho e me perguntou de novo:

– O que é que tem?

– Luke. – ela arregalou os olhos em compreensão e pôs a mão no rosto – Não precisa fazer assim, o vejo mais tarde... Só estou preocupada.

O tempo passou como uma lesma competindo à maratona. Sim, eu podia ter adiantado e ter ido falar com ele. Mas estou tentando pensar um pouco, como uma pessoa normal faria. Por um momento estou tentando não ser a pessoa que está com o destino da humanidade nas mãos, mas sim Fayel Lynch, a garota de 17 anos que tem um problema com o amor. Ou algo parecido com isso.

Não conseguia parar de encarar o relógio. Enquanto algumas pessoas, quando ficam estáticas ouvindo o tique-taque do relógio, impacientes e com raiva do barulho, eu sinceramente, me sinto confortável. O tempo é uma coisa agradável pra mim. Claro, na maioria das vezes eu paro no hospital por culpa dele, mas é parte de mim. Não, mais que isso. Sou eu inteira. Enquanto encaro o relógio, meus pensamentos se organizam em uma velocidade absurda e é como se não estivesse passando tanto tempo ali, parada. É como conversar com um velho amigo. Mas mesmo assim, tenho medo da responsabilidade que isso me trás.

Não demorou muito até que eu começasse a me arrumar para encontrar Luke na hora do almoço. Coloquei um short e uma blusa folgada branca, amarrei os cabelos e pus meu tênis. Estava saindo do quarto quando lembrei da minha adaga. Enfiei-a do lado meu short, joguei a blusa por cima e desci as escadas, peguei as chaves da scooter e fui em direção à casa Luke. Toquei a campainha e esperei.

Não tinha ninguém. Tentei me concentrar nele, localizá-lo. O vi sentado sozinho, comendo um sanduíche numa mesa para quatro no Burguer King. Não é como se ele estivesse com alguém, ele estava sozinho mesmo. O que diabos aconteceu enquanto eu estive fora?

Geralmente, eu evito usar meus poderes em público ou em situações que possam ser resolvidas facilmente, mas Luke é minha maior prioridade. Como eu não simplesmente me transportar de um lugar para outro, voltei ao tempo dois minutos antes para aquele lugar. Isso quer dizer que quando cheguei, estava debruçada na mesa dele com a cara em cima das batatas fritas. Eu devia ter vindo de scooter.

– Fayel? – ele estava boquiaberto, indo comer mais um pedaço de hambúrguer – Como você...?

– Ah... É, sei lá. Depois arrumo uma desculpa pra isso, me dá um guardanapo aí. – estendi a mão e peguei o papel, limpei e rosto e enrubesci.

– Então? Vai me explicar por que seu novo hobbie é aparecer magicamente em lugares inapropriados? – ele falou enquanto erguia uma sobrancelha.

– Defina “magicamente”.

– Uma ausência de luz esquisita e boom, você aparece. – ele fez um gesto de explodir com as mãos e depois ficou me olhando como se aquilo fosse algo realmente fácil de se explicar.

– Eu te falo a verdade assim que conversar uma coisa mais importante com você.

– Hum, então tem um motivo para seus Abracadabras? – o sarcasmo desse garoto estava começando a me irritar, principalmente pelo jeito que me olhava com aqueles olhos azuis maravilhosos.

Suspirei forte e bati na mesa, realmente irritada com as interrupções desnecessárias.

– Dá pra me deixar falar?! – arregalei os olhos, do jeito que ele estava fazendo e ele assentiu – Obrigada. Como eu digo isso? – cocei a cabeça – Vou ser direta: como tá sua saúde? – ele franziu o cenho – Digo, você tá bem? Vai morrer agora? Daqui a duas semanas? Quando você morre, é o que eu quero dizer.

– Eu não sei dizer se isso é preocupação ou uma ameaça. – ele mordeu o sanduíche e jogou no prato – Não vou morrer. Bem, eu tenho tentado não morrer.

Suspirei de alívio e meus olhos marejaram, mas logo consegui me recuperar para dizer uma frase curta que na verdade, pareceu enorme pra mim:

– Que bom, então. – dei um sorriso bobo e começamos a rir.

– Não foi uma ameaça! – ele exclamou mais sorridente ainda – Que bom, mesmo.

– Não morra. Por favor, não se atreva a morrer. – segurei as mãos dele, o que o surpreendeu, e o olhei bem nos olhos azuis arregalados dele – Não dê uma de romance adolescente de garoto com câncer que morre no final. – ri entre uma frase e outra pra tentar soar descontraída, sem sucesso – Eu imploro. Porque não tenho certeza do que eu seria sem você aqui.

Ele sorriu meio desnorteado, prendendo a respiração.

– Eu posso até jurar se você também jurar que não vai mais sumir do nada por quatro meses e ainda voltar acidentada.

– Eu juro. – ri com a cabeça abaixada – Espera aí. Como você sabe que eu voltei acidentada?

– É o que todos estão falando por aí, Lynch. – ele deu aquele meio sorriso maravilhoso que me deixava nas nuvens e passou o dedo indicador no meu queixo – Você não é tão invisível quanto acha que é. – ele estalou os dedos no ar, lembrando de uma coisa que sinceramente, não queria descobrir o que era – Lembrei que você ia me contar do seu Abracadabra. Droga, Fayel, você não consegue mesmo ter uma conversa normal comigo?

– Eu acho isso difícil. As conversas que tivemos até agora teve muitos... Atritos. – o olhei por baixo – Então, já que você quer saber do meu Abracadabra, termina de comer e vamos. Não posso te dizer aqui.

Esperei Luke terminar e saímos andando até um beco. Eu sei que eu podia ter manipulado a mente dele e tudo mais, só que é uma escolha minha contar isso pra ele. Já que a partir de agora, vou sempre estar viajando pelo mundo pra formar um exército de Elementos, ele precisa pelo menos saber o por que. Também sei que tinha me prometido nunca mais levar alguém pra uma viagem no tempo, depois do que aconteceu com Leah, mas... Eu só quero tentar mantê-lo seguro.

– Você está me levando pra um beco... Porque tem uma coisa pra me mostrar. – ele me olhou e deu um sorriso malicioso – Fayel Lynch, não sabia que você era dessas.

– Não seja idiota, você quis saber o porquê d’eu ter aparecido do nada ali, eu vou te mostrar. – ele gargalhou.

– Foi só uma brincadeirinha inocente, Lynch. – ele pôs o braço esquerdo ao redor dos meus ombros e garantiu: – Não estou sugerindo nada.

Segurei as mãos dele e tentei limpar a bagunça que era sua cabeça do melhor jeito o possível. Estive tentando tirar os medos, que talvez tenha sido a razão de Leah quase ter morrido naquela viagem. Mas toda vez que eu estava quase conseguindo, tudo vinha à tona.

– Tem como? – o soltei e o olhei como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

– Tem como o quê? Minha cabeça está meio enevoada agora. – ele massageou as têmporas.

– É justamente isso que eu tenho tentado fazer, mas você não deixa! – gritei com ele, não sei por que, ele não estava fazendo nada de errado.

– Fazer o quê?! – ele gritou de volta.

Respirei fundo e tentei falar de um jeito mais sútil.

– Quero limpar seus pensamentos, para sua viagem ser segura, para que você possa acompanhar a minha linha de pensamento, e não a sua. – segurei sua mão de novo.

Ele não disse mais nada e ficou me olhando. Limpar a mente de alguém é difícil, por que você não pode simplesmente dizer para as pessoas pararem de serem tristes ou confusas. Não pode chegar e sentir tudo o que uma pessoa é e dizer “para com isso”. Geralmente, a gente aceita o que alguém é, tendo pensamentos confusos ou não. Demoraram uns dois minutos até que tudo o que havia sobrado na mente de Luke foi aquele dia na praia.

E viajamos no tempo, pra aquele dia na praia.

Estávamos tomando banho no mar, e ele me puxava e me beijava. Eu saía de seus abraços e mergulhava, fazendo-o ir atrás de mim. Enquanto nós, como espíritos, estávamos sentados naquela rocha.

– Fayel... – ele ameaçou soltar a minha mão e a prendi de volta.

– Aconteça o que acontecer, não me solta. – o olhei e fiquei um pouco desapontada em ver os olhos que costumavam ser azuis, negros.

– Seus olhos... – sorri, adoro ouvir aquela frase – Os meus estão assim também?

– Sim. – agarrei mais ainda a mão dele e avisei – Não me solta!

– O que acontece se eu soltar?

E foi aí que aconteceu o pior: Ele soltou.

Notas finais
De novo: os reviewssss, galera. Não se esqueçam deles. Não estou escrevendo pra fantasmas, nem de graça. Próximo capítulo vai estar pronto em uma semana, mas só vão ler se eu tiver reviews aqui. Passa o review *bang bang* haha. Obrigada pela atenção.