Dando Voltas no Ponteiro
3 Capítulo III - PASSADO ATÉ ENTÃO DESCONHECIDO
Notas iniciais
Durante a aula me perguntei várias vezes como Luke havia ficado tão bem desde a ultima em que o vi. Perceba, quando o vi daquela outra vez, ele estava pálido, frágil e doente. Agora ele está tão maduro e forte. Ele está... Lindo. De repente o perfume dele veio à tona, e me senti como se tudo estivesse parando. Ah não, espere! Tudo estava parando.
Ok, aquela definitivamente não era nossa época. Era tudo tão medieval, sabe? As roupas, os cabelos, as casas... Tá acontecendo de novo. Está cada vez mais esquisito.
O cenário envolvia casas rústicas, pessoas com trajes longos e simples. Era uma aldeia. Como sempre, eu tinha flashes de onde estaria uma mulher. Eu nunca a encontrara, nunca vi teu rosto. Mas dessa vez, o flash mostrava um lugar escuro com muita poeira. A mulher estava lá, de vestido longo e vermelho. Essas eram as únicas imagens que não ficavam preto e branco. Este passado tinha vida e era importante.
Fui vagando por casas e comércios, até ir a ultima casa de todas, ficava longe de absolutamente tudo. E é geralmente nesse tipo de lugar que acontecem as coisas ruins. Eu já vi em filmes. E também, me parecia bastante familiar.
Dentro da casa, que era bem velhinha e empoeirada, tinha uma mulher com um vestido enorme. Era muito colorido e com tecidos de ótima qualidade. O espartilho a fazia parecer que o tamanho de seus seios era absurdamente grande. Ela tinha um cabelo castanho cor de chocolate, armado, cheio de flores e cachinhos. Tinha um pequeno chapéu na frente do cabelo. E o rosto... Estava tenso. Cheio de preocupação e terror. Tinha uma pinta acima da boca. Ah, a boca. Vermelha como pimenta. Suave como uma flor e mesmo assim, o olhar da moça era feroz. Ferozes como os meus.
Um rosto como o meu.
Minha vida passada se escondeu numa casa velha afastada da cidade. Mas... Por quê?
A mulher sentou numa pilha de jornais velhos e enterrou o rosto nas mãos. Parecia cansada e aflita. Perguntei-me o que aquela mulher havia feito de tão ruim para que estivesse tão aterrorizada.
Mas não foi o que ela fez. Foi o que ela estava indo fazer.
Ela começou a levantar a mãos e fazer gestos. Pegou algo de sua bolsa e jogou no chão. O que era aquilo? Era um pó rosa.
Algo começou a surgir do chão. Algo obscuro, que definitivamente não tinha luz. Era sem cor, sem harmonia. E aquilo crescia com força, parecia uma espécie de fumaça, poeira. Eu não sei o que diabos é aquilo. Só sei que consigo sentir a força daquilo crescendo. A casa tremeu por dois segundos enquanto toda aquela poeira se transformou numa massa de poder e destruição.
Era uma mulher. E estava bem brava.
— Desculpe-me por interromper seu sono, Rainha. – a tal rainha arqueou a sobrancelha – Digo... Perdoe-me, Rainha-Tão-Poderosa.
— Não sabe qual é meu nome não é, mortal? – a pobre mulher acenou negativamente para a rainha – Meu nome é Hercília.
— Hercília. Um nome tão simples pra alguém tão grande e superior quanto a Senhora. – a moça parecia frágil, mas com uma voz tão autoritária como a dela quase me fez pensar que a Rainha talvez quisesse mudar de ideia.
— Eu tenho mais de cem nomes: Zilá, Niméria, Ilitia, Ivanka... Mas ainda prefiro Hercília. E você, mortal. Qual seu nome?
— Me impressiona o fato de você querer saber meu nome. É inútil, pois nunca vai tirar nada de mim. Não há porque querer lembrar do meu nome.
— Eu consigo ver que há algo de importante em você. Algo que pode mudar toda a estrutura de seu mundo.
— Então talvez esteja certa. – a moça a olhou perigosamente. Sibilou as palavras – Eu quero fazer uma proposta.
— Proposta? Quem achas que é, sua mortal imunda?!
— Meu amado morreu por culpa de um homem mal, repugnante. Fui sequestrada, amarrada e prestes a ser jogada de uma ponte. Quando Ron descobriu... Veio correndo me salvar. Eu o vi chegando, ele conseguiu desatar os nós, só não teve muito tempo pra sair de lá também, antes que o matassem.
A Rainha a olha com desgosto. Dá um leve bocejo e finalmente fala, com uma falsa amargura na voz:
— Triste. Mas eu ouço esse tipo de história todos os dias. E digamos que não sou movida à amor.
— Então não acredita em mim?
— Não.
A mulher olha pra baixo, provavelmente evitando as lágrimas.
— Monique.
— Oi? – a Rainha ergue a sobrancelha.
— Meu nome é Monique. Meu marido não morreu nesse trem, na verdade eu sou doente. Eu enlouqueci e o matei aqui nesta casinha. É o que me disseram. – ela começou a embargar a voz e olhou nos olhos cintilantes da Rainha – Eu só quero conversar com ele. Pedir perdão.
— Perdão é como confiança, minha jovem. Só se tem uma vez.
— O que quer dizer com isso?
— Eu já sei da sua história. – Rainha Hercília pousa no chão e toca os cachos da jovem Monique – Eu sei de toda sua história, sei que vai conseguir me trapacear e sei que vou ficar furiosa. Mas seu marido está bem no mundo dos mortos, você não pode tentar mudar o que você fez. Trazer uma vida de volta para a Terra pode ser fatal.
Ok, eu realmente quero acordar disso aqui. Tem algum botão de “despertar”?
— Por favor. – os olhos de Monique penetraram os da Rainha para que obtivesse algum sinal de compaixão.
Mas não há amor em alguém sem alma.
E eu acordei.
— Fayel. – Leah me cutucava várias vezes enquanto o sinal estava batendo – Fayel!
— Ai! O que é?
Ela me olhou incrédula, batendo no relógio de grife.
— Hora da saída, amor!
— Ótimo, eu estava precisando mesmo sair daqui. Tenho que falar com a minha avó.
Leah parou de repente. Me virei e a olhei.
— Ta brincando, né? Tipo, você nunca fala com a velha. Vai fingir que tá interessada nas aulas de culinária agora? Só pra não ficar comigo?
— Aulas de culinária? – a olhei séria – Leah, eu tenho cara de quem cozinha?
Ela me olhou de cima a baixo.
— Pensando bem, não.
Quando cheguei em casa minha avó estava sentada no sofá, penteando os cachos de Daphne. Sentei-me junto a ela, pensando em como poderia falar que agora eu acredito que agora as coisas fazem sentido? Tudo tem sido um inferno pra mim.
— Algo pra me contar, Fay?
A observo incrédula. Como ela poderia saber que aconteceu algo estranho comigo hoje? Está estampado na minha cara?
— Não. – ela ergueu as sobrancelhas – Digo, sim!
— Suba Daph.
Daphne se levantou e deu um beijo na minha bochecha e um abraço em nossa avó. Esperamos o som dos passos de Daphne sumirem para começarmos uma conversa.
— Já viu como você roubou o elemento?
— Ainda não. – olhei para ela – Mas já sei que meu nome era Monique e que eu sofria de transtorno de múltipla personalidade.
— Ótimo. Já estava na hora de você descobrir porque você é tão estranha.
— Vó? – ela me encarou – Pra quê isso? Não sou estranha.
— Ah, claro. Não mesmo. – ela deu uma risadinha.
Continuamos conversando e depois de um tempo, quando comecei a sentir que toda a energia que eu gastei explorando meu passado estava começando a fazer efeito, dei um beijo de boa noite nela e fui dormir. Se eu tive bons sonhos? Não mesmo.
Eu e Luke estávamos numa floresta, de mãos dadas. Ele parou na minha frente, acariciou meu rosto e disse numa voz suave:
— Você não precisa continuar com isso, Fay. – sorri – Cory, Kat e Lily se dão bem sozinhos. Não é? Eles são amigos!
— Bem que eu queria. Cory odeia Lily, a Kat não aguenta mais olhar pro Cory e a Lily... Bem, ela não gosta nem de respirar mais.
— Eu entendo sua preocupação, meu anjo. – ele pousou a mão em meu ombro – Mas a gente não vai conseguir viver com isso! Eu preciso ir pra minha casa, cuidar da minha irmã. Você me entende?
— Então vá, Luke. – fechei os olhos – Pode ir. Quando a guerra acabar eu volto pra casa ok?
— Como vou saber que você está viva?
— Basta acreditar.
O beijei intensamente. E de alguma forma, aquele beijo doeu no meu coração. Como se fosse uma despedida, um adeus. E adeus não é uma coisa que eu me dou bem.
Acordei atrasada pra a escola, de novo. Coloquei uma blusa qualquer, um short preto rasgado e uma jaqueta de couro. Não tenho tempo pra maquiagem ou penteados. Estou descendo as escadas quando Daphne me alerta:
— Cadê seus sapatos? – e riu.
Olhei para os meus pés e percebi que eu me esqueci de uma parte importante da roupa. Corri pra o quarto e peguei o primeiro sapato que eu vi na frente: Uma bota preta suja.
— Legal, eu to parecendo um mendigo fedorento.
— Põe um perfume, Fay. – gritou Daphne do quarto dela.
— To sem tempo pra isso. Tchau, Daph! Tchau, vovó!
Saí correndo de casa, peguei um skate e fui pra a escola sempre caindo por nervosismo. Sim, eu cheguei parecendo um monstro na escola. Meus joelhos nunca ficaram tão ralados e sujos. Quando cheguei na escola, Leah me apareceu com a maior cara de preocupação.
— O que aconteceu amiga? Foi pra a guerra?
— Puxa, Leah. Como és engraçada. – disse sem ter nenhuma expressão de sarcasmo ou ironia no rosto e apenas olhando pro meus joelhos. Estavam sangrando bastante.
— Ai, como você ta azeda hoje, hein? – resmungou a patricinha – Enfim, vamos ao banheiro limpar isso aí.
É isso que eu gosto na Leah. Ela pode ser maluquinha ou fresca demais, mas ela nunca te deixa na mão. Ela sempre está lá pra você, te ajuda e se preocupa com você. Eu me lembro quando eu conversei com ela pela primeira vez. Eu tinha acabado de sair da festa da Candance e eu estava sentada na calçada da rua dela, chorando como se o mundo fosse acabar amanhã. Então chegou uma garota alta e de um físico admirável com um vestido da Chanel, sapatos de grife e um penteado que parecia ter demorado horas. Ela veio correndo em minha direção, tropeçando na calçada a cada pedrinha que aparecia. Quando ela parou na minha frente disse um “Você está bem?” tão suave quanto veludo. Quando levantei o rosto para ver quem era, vi uma garota de rosto oval, olhos enormes e azuis e um sorriso lindo. A garota tinha uma pele bronzeada que sob a tênue luz do luar parecia mais claro e suave. O cabelo tinha cor de chocolate com um brilho que até doía os olhos. Resumindo: era uma Barbie fora da caixa.
— Eu... Eu to bem, eu acho.
— Foi uma pergunta retórica. – ela riu levemente e sentou-se ao meu lado.
— Você vai sujar seu vestido.
— Eu não ligo. – ela olhou pra a lua – Eu não ligo pra nada do que faço ou falo. Bem, quase tudo. Eu tenho uma reputação sabe? Tenho que deixar ela lá em cima, e às vezes eu tenho que ligar. – ela sorriu.
— Então o que está fazendo aqui, conversando comigo? Ta querendo manchar sua reputação?
— Digamos que agora eu não to ligando pra ela, Fay... Qual é seu nome?
— Fayel.
— Vou te chamar de Fay. É mais parecido contigo.
— O quê? – a olhei e franzi a testa.
— Você tem um rosto gozado, Fay. Começa delicado e termina duro. Você tem olhos determinados, sabe? Eles guincham a alma da pessoa. São tão azuis.
— Por que está tentando me fazer ficar bonita com palavras? Eu não sou nada disso.
— Porque você é. – ela passou a se concentrar nos meus olhos, e sorriu – Você só não sabe disso ainda. Quer dizer, olha só isso. Seus olhos são lindos! – ela pegou um espelho e pôs na minha frente.
— Ok, eles são azuis. – empurrei o espelho de volta – Os seus também.
— Não são azuis. – ela franziu a testa e riu – São verdes. Olha! – ela arregalou os olhos bem perto de mim.
— Não. São azuis mesmo. – sorri olhando pra minha frente.
Ela me deu um empurrãozinho no ombro.
— Ah, sua sem graça! – ela ria enquanto colocava o espelho de volta na bolsa – A gente pode ser amigas.
— Amigas? Não acho. Você é do grupo da Candance. – revirei os olhos.
— Ah, eu posso deixar de ser. Nem gosto dela mesmo. É muito chamativa.
— Você é legal. Talvez possamos ser mesmo amigas.
Levantei-me e me despedi. No primeiro dia da semana seguinte, o azul dos meus olhos perdeu toda a cor, todo o brilho.
Chegamos na sala de aula e vi que Luke estava lá. Acenei com a mão e dei um sorrisinho. Ele retribuiu. Sentei numa cadeira e do lado estava Leah, prestando atenção na sua matéria favorita: Química. Irônico ela ser boa em química já que é a matéria é a mais complicada na minha opinião, e ela tirar notas baixas em quase todas as matérias. Principalmente educação física.
Na metade da aula eu recebi um bilhetinho escrito: “Como vai a pessoa mais linda da escola? Xx Luke”
Arregalei os olhos e o olhei, ele olhava para o professor, sorrindo. Sorri abertamente e esperei ele me olhar. Ele me viu pelo canto do olho e sorriu mais ainda. O respondi com: “Pouco exagerado, mas vou bem. Te vejo no intervalo? Xx Fay”
Quando ele recebeu o bilhete, ele me olhou e sorriu. E fiquei esperando o intervalo ansiosamente.
O sinal tocou e fui logo procurando Luke com os olhos. Então ele apareceu atrás de mim e levei um leve susto.
— Olá.
— Ah, oi. – sorri.
— Até hoje não te agradeci por ter salvo os meus pés naquela noite.
— Bem, de nada. – rimos um pouco – Então... Eu sou a garota mais bonita da escola mesmo?
— Ah não me olha assim! — ele sorriu e levantou o rosto – Sim, pra mim você é, Fayel Lynch.
— Obrigada então. – o olhei timidamente – Que tal sairmos hoje? – ele me encarou – Pra um lugar super especial!
— E que lugar seria esse?
— Uma praia. Distante da cidade, a gente podia passar a semana.
— Oi? – ele riu debochadamente – Ainda não estamos de férias, garota!
— E daí? – ele ficou me encarando por um bom tempo – Ah, você é certinho não é? Bom, que pena. Deixa pra outro cara.
— Outro cara... Oi? Acabei de ser trocado é isso mesmo?
— Uma noite e uma tarde. É pegar – fiquei bem perto dele, o encarei nos seus olhos azuis -... Ou largar.
Saí correndo em direção à Leah e o deixei lá, com cara de bobo.
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