Damnation
18 Chapter Seventeen: Hate
Sem mover um músculo, olhando a figura de seu pai. O silêncio é mortal, apenas os dois estão no grande salão. Seu pai começa a andar até chegar ao limite do palco. Bill continua sem reação, parece não acreditar no que vê.
- Filho – seu pai começou a falar – parece que estamos sempre cruzando o mesmo caminho.
Bill continua calado, apenas ouvindo.
- Você sabia que teria que me enfrentar uma hora ou outra. Toda vez que olho em seus olhos vejo o ódio por mim queimando. No seu lugar, eu me odiaria também.
A cabeça de Bill foi se livrando do choque, e ele já estava se preparando para receber um ataque, porém seu pai não mostrava sinais hostis.
- A gente nunca teve uma conexão. Eu nunca quis. Muito menos você. Desde pequeno sempre junto a sua mãe.
Bill percebeu que era ali no que a cidade se apoiava para feri-lo mentalmente: Sua mãe. Teria que aguentar forte tudo que seu pai lhe dissesse sobre ela.
- Linda, carinhosa e zelosa. Uma pessoa sem igual. Ela te amava com todas as forças.... Como eu a odiava por isso.
”Aguente firme”
- Você foi um erro em meu caminho Bill. Algo que não era para ter acontecido. Sugeri o aborto para sua mãe. Ela não aceitou e quase se separou de mim por causa disso, mas como ficaria o meu status perante a sociedade? O filho promissor de Edward Hilley engravida uma garota do subúrbio e a deixa as traças? Não, eu não podia, por mais que eu quisesse.
”Ele não é o meu pai de verdade, apenas uma ilusão dessa cidade me atormentando.”
- Meu pai então me obrigou e eu tive que pedi-la em casamento. Ela aceitou na hora, uma tola apaixonada. Foi a partir dali que comecei a odiá-la, porém o pedido foi bem visto por toda a Brahms e eu tive que seguir adiante com isso tudo, pelo bem do nome da minha família.
Ele começou a andar de um lado para o outro em cima do palco.
- Quando você nasceu... só quis me ver longe. Não sentia nada, nenhum sentimento, além de raiva por você e por sua mãe. A minha vida estava pra sempre arruinada por um erro bobo e infantil.
Foi até uma das escadas laterais e começou a descê-la. Bill deu um passo para trás.
- No dia que ela morreu... quanta alegria. – ele começou a andar em direção de Bill — Eu estava livre dela, livre. A única coisa que restava em meu caminho era você. Mas, a partir de hoje, estarei livre de você também meu filho.
Ele pegou algo em uma poltrona da primeira fileira da esquerda: uma pá. Bill não a tinha visto ali antes.
”É assim que ele vai me atacar? Com uma pá.”
- A pá que cavou a cova de uma mãe – disse ele, olhando para a pá em sua mão – Vai ser a mesma que irá terminar a vida de um filho.
A raiva começava a tomar conta de Bill, mas ele tentava se controlar. Começou a olhar ao redor, procurando algo que pudesse usar como arma, mas nada a vista lhe servia de alguma coisa. Nada além da pá na mão de seu pai.
- Olhe para você, assustado e sozinho. – ele se aproximava do garoto enquanto falava — Eu nunca fui um tolo, eu sempre soube que você não daria nada na vida. Porque você é igual a sua mãe, e onde ela está agora? Você vai acabar como ela, filho: sete palmos embaixo da terra.
Ele correu em direção do filho e atacou verticalmente com a pá. O garoto pulou para a direita, mas antes que pudesse começar a correr, seu pai atacou no seu peito com a pá. A força do golpe fez o garoto rolar sobre uma fileira de poltronas, caindo arqueado no chão.
- Perdido entre ilusões numa cidade abandonada. – seu pai entrou pela ponta na fileira aonde Bill havia caído. – Um fracassado, simplesmente um fracassado.
Bill tentou se levantar, mas seu pai acertou-lhe na perna direita.
- ARGH – berrou Bill.
- Se você fosse um homem de verdade, já teria me matado. Mas não é nada além de um fracasso.
A raiva estava quase tomando conta do garoto. Seu pai tentou acertar mais um golpe nele, mas antes que ele pudesse termina-lo, Bill acertou um no joelho esquerdo do seu pai. Ele sabia que o pai havia operado o joelho a cinco anos atrás e desde então nunca fora o mesmo. Se a ilusão era uma cópia fiel de seu pai, também deveria ter suas fraquezas.
O homem berrou de dor e levou uma das mãos ao joelho. Bill aproveitou a brecha e se levantou. Sabendo que não tinha muito tempo, ele correu até a porta do grande salão, por onde ele havia entrado. Estava trancada.
”Que surpresa”
Virou-se para onde seu pai estava... mas não havia ninguém ali. O garoto procurou por todo o salão. Nada. Seu pai havia sumido.
”Será que aquilo foi suficiente?”
Começou a andar cautelosamente pelo longo corredor, esperando seu pai surgir de alguma fileira. Chegou à frente do palco. Percebeu que um grande espelho se erguia na parede atrás do palco. Bill subiu pela escada lateral e ficou observando-o. O espelho era realmente enorme, e o garoto não entendia o que um espelho daquele fazia no palco, não era algo comum. Ele foi se aproximando cada vez mais. Sua imagem refletida mostrava cansaço e devastação.
”Pareço um mendigo”
Um liquido vermelho começou a escorrer pelo espelho, parecia sangue. Bill olhou para cima e viu que se originava no limite do espelho, quando olhou novamente para seu reflexo, não estava mais sozinho.
Uma mulher estava ao seu lado. Bill se assustou e olhou para o seu lado... mas não havia nenhuma mulher ali. Olhou novamente para o espelho, a mulher estava lá, ao lado de seu reflexo.
”O que diabos está acontecendo?”
Bill começou a prestar atenção na mulher. Seu cabelo era loiro e longo. Sua pele era branca e seus olhos eram iguais ao do garoto. Seu vestido branco estava sujo de sangue, terra e o que Bill julgou ser vômito. A imagem de sua mãe estava ao seu lado.
- Meu filho, é tão bom ver você. – disse ela.
O garoto estava em choque. A cidade finalmente conseguira lhe pegar de jeito. Estava falando com o reflexo de sua mãe morta.
- É tão ruim vê-lo assim, sofrendo. – sua feição entristeceu — Se eu pudesse passar esse sofrimento por você... Mas não posso.
O garoto continuava atônito.
- Seu pai é realmente um monstro – sua feição enrijeceu agora – Nem sei se você pode chama-lo de pai. Ele nunca foi um bom marido para mim também.
Ela se aproximou da orelha do garoto e sussurrou:
- Foi ele que me matou, você sabia?
- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO – explodiu o garoto. Seu ódio era imenso.
O espelho se despedaçou em mil pedaços. O garoto respirava forte.
- Esse é o meu filho. – disse uma voz, atrás de Bill. O garoto se virou e viu seu pai ali.
- Tanto ódio, tanta amargura, tanta dor... estou tão orgulhoso.
Tudo que queria era matar o homem que estava na sua frente, mesmo sabendo que era apenas uma ilusão...
- Finalmente, vejo um futuro em seu caminho. Um futuro sombrio e sozinho, assim como o meu. Finalmente, vejo a mim em você.
Foi a gota d’água para Bill, que correu e se jogou contra o homem, que não se mexeu. Os dois caíram no chão entre as fileiras. O garoto, estando por cima, se recompôs e começou a socar o homem no rosto.
- Eu... vou... matar... você – a cada palavra, Bill dava um soco – Seu... desgraçado... – o sangue já saía da boca e do nariz do homem – Morra... Vou... te... matar.
O ódio pelo seu pai explodia dentro do garoto. Cada soco era como cada segundo que ele havia passado com o pai. Todas as memórias ruins, a morte de sua mãe, a tirania do pai ausente. Tudo se esvaindo por cada soco.
Parou por alguns segundos, estava cansado. Seu pai parecia inconsciente, foi então que ele começou a rir. Uma gargalhada doentia.
- Isso – falava ele – Libere toda a raiva, seja como eu.
A raiva se intensificou e o garoto voltou a golpeá-lo. Foi então que começou a se lembrar.
- Eu vejo dentro de você. — continuou Vincent, agora tirando o sorriso do rosto e adotando uma expressão mais séria — Assim como vi em todos que passaram por aqui. O medo, a angustia, a repressão... o ódio, a amargura, a raiva. A luta pela sobrevivência que te leva por um caminho de autodestruição sem volta. — sua voz foi ficando mais alta e ele foi falando mais rápido — Que enlouquece até os mais centrados. A escuridão eterna que está dentro de sua alma dominando sua mente e você se sente sufocado, sem forças para lutar e quando você ve... está morto — e então sorriu ao dizer a ultima palavra.
---xXx---
Ele soltou um berro de fúria, pulou do palco e correu em direção de Vincent, que não se moveu um centímetro e nem mudou a expressão de deboche em seu rosto.
O garoto preparou o soco e quando chegou perto do homem desferiu em sua face, mas o soco apenas transpassou Vincent.
- O quê? — se assustou.
Vincent começou a gargalhar enquanto o garoto ia se afastando.
- É bom ver o ódio dentro de você garoto, é bom vê-lo florescer e envenenar seu corpo todo.
O garoto parou de socar o homem mais uma vez. Ele o olhou e viu que estava quase morrendo. Seu pai o olhou e falou:
- Ande, dê o golpe de misericórdia em seu pai.
Ele preparou um ultimo soco, mas antes de desferi-lo ...
O menino estava deitado na cama, já coberto. Sua mãe lia uma história de um livro e o sono já estava o vencendo. Quando sua mãe deu-lhe um beijo e foi apagar o abajur, o menino lhe perguntou:
- Mãe, porque o papai é assim?
- O que quer dizer, querido?
- Assim... mal...
Sua mãe suspirou e se sentou na cama. Olhou o garoto nos olhos e falou:
- Seu pai, por mais que pareça durão, te ama meu filho, assim como me ama também. Ele é apenas fechado.
- E nós pudemos muda-lo?
- Claro.
- E como fazemos isso?
Sua mãe lhe deu mais um beijo na testa e sussurrou em seu ouvido:
- Com amor, querido
Lágrimas começaram a cair. O garoto começava a chorar desesperadamente. Tinha deixado a raiva tomar conta e quase tomou o mesmo caminho do seu pai, tudo por culpa daquela cidade. Tinha se esquecido, até aquele momento, os valores que sua mãe havia lhe passado.
Bill parou de chorar, e, ainda soluçando, falou:
- Pai... eu te amo.
O homem soltou um berro horrível e então, desapareceu. Tinha vencido o maior obstáculo pelo qual já havia passado tudo graças a sua mãe.
Ouviu a porta do salão se abrir. Por elas, uma pessoa entrou. Bill olhou para ver quem era. Surpreendeu-se quando viu David andando em sua direção.
- David? – exclamou ele, ainda de joelhos no chão – Você está vivo? Meu Deus, isso é fantástico.
David nada falou, estava com uma expressão séria em seu rosto.
- Está tudo bem com você, cara? – perguntou Bill.
Bill percebeu que David segurava um bastão de madeira.
- Melhor impossível – respondeu o amigo, e antes que Bill pudesse fazer algo, David o atingiu na cabeça. O mundo apagou na visão do garoto.
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