Damage

8 Capítulo 8


Uma semana.

Já havia passado uma semana desde que ele vira Henry em particular, não tinha tido mais nenhuma aula extra ou punição desnecessária, mas continuava recebendo uma média de punições mais altas do que o restante dos recrutas, mas até Arthur tinha que admitir que às vezes dizia coisas desnecessárias e no momento errado.

Henry continuava ensinando da mesma maneira que antes, com a diferença de que não costumava mais deixá-lo após o horário com tanta frequência, na última semana ele só ficou dois dias após o horário, sendo que em um destes Heiner estava com ele. Arthur não podia dizer que tinha saudade das punições e torturas, mas era como se algo estivesse faltando, como se algo estivesse errado. Sempre que olhava para o capitão ele não estava mais olhando para ele, Henry não prestava mais tanta atenção no louro como antes e às vezes Arthur tinha que fingir não estar prestando atenção na aula só para que pudesse ouvir seu sobrenome pela voz de Wardraig e mesmo assim ele costumava deixar escapar a desatenção do aluno algumas vezes.

Era um pouco decepcionante para Arthur que já tinha se acostumado com o tratamento especial agora ser tratado como qualquer um dos outros recrutas. Talvez não devesse ter sido tratado diferente desde o começo, mas se sentia frustrado por Wardraig não tê-lo procurado mais. A julgar pela sequência de fatos o capitão não era heterossexual, mas isso não significava que tinha que parar de serem amigos, certo? Não, Henry não era seu amigo desde o começo, ele sempre foi o seu capitão e Arthur deveria ter respeitado o limite entre as patentes, só não conseguia parar de sentir como se tivesse acabado de levar uma surra e realmente merecia uma pelo que tinha tentado fazer.

Soltou um longo suspiro. Cada vez que se lembrava de Henry gritando seu nome o coração em seu peito parava de bater por alguns segundos. É claro que o capitão não queria mais vê-lo, deveria estar sentindo um completo desprezo pelo louro agora. Eu sou um imbecil.

Arthur não era gay, tinha dito isso ao seu capitão, mas apesar de todos os esforços que tinha reunido para negar qualquer coisa, não podia negar que tinha se sentido bem quando ele o tocou naquela noite na enfermaria, quando deixou sua mão passear pelo seu corpo daquela forma, tinha ficado tão excitado quanto nunca, mas acima de tudo tinha desejado ter o calor dele só para si, queria que Wardraig fosse só e exclusivamente seu. Nunca pensara em amar o capitão antes daquele dia, porque sempre soube que ele estaria ali, mas agora com a possibilidade de não vê-lo mais como antes algo dentro dele havia aflorado, ou talvez sempre estivesse lá e Arthur só nunca tivesse percebido.

Não sabia se o amava de verdade, não sabia se era gay, não sabia o que fazer, não sabia o que dizer. A única certeza que tinha era a de ser um completo idiota, porque tinha tentado estuprar Henry.

Arthur nunca estivera tão envergonhado. Queria enfiar a cabeça em um buraco cada vez que se lembrava daquilo, quer dizer, tinha ameaçado fazer com o capitão a pior coisa que um ser humano podia fazer a outro, mas tinha ficado tão frustrado quando Henry não permitiu que ele o tocasse também que concluiu que precisava fazer aquilo. Tinha sido uma conclusão precipitada e vaga que havia custado à confiança do capitão, porque agora ele realmente deveria odiá-lo de verdade e Henry tinha motivos excelentes para isso.

–x-

Havia começado a chover no final da tarde e tinha enfraquecido ao longo do tempo caindo fraca lá fora, apenas um chuvisco. As grandes janelas de vidro continham respingos parados, os corredores estavam consideravelmente escuros já que as nuvens tampavam a maior parte da luz da lua e nenhuma estrela enfeitava o céu negro. Estava chovendo de novo afinal, no curto horário vago entre o banho e a hora de ir dormir no quartel. Mas era apenas um chuvisco naquele dia, apenas algumas gotas caiam levemente sobre o telhado e os arredores. Nada comparado à tempestade que caia naquela noite.

– Krieg é quase tão cruel quanto Wardraig. – Heiner comentou enquanto se dirigiam para o dormitório.

– Os dois são tão ruins que se merecem. – meneou positivamente Damien.

– Eu não acho que ele seja... – começou a dizer quando foi interrompido pelo brilho de um raio lá fora que veio logo seguido de um estrondo.

– O que ia dizer? – perguntou Heiner.

– Eu ia dizer que não acho que o capitão seja tão ruim, é o trabalho dele. – respondeu.

Heiner sorriu com algum escárnio.

– Está brincando? O que ele fez com você? Por acaso está te ameaçando? – disse com sarcasmo. – O exército não seria o exército sem a escrotidão militar do Wardraig.

O louro o fitou um pouco receoso sobre responder o que queria, mas acabou não dizendo nada, Heiner tinha razão, o exército não seria o mesmo sem o capitão, pelo menos não para Arthur.

Andaram mais alguns metros quando Kazimir passou por eles com uma prancheta riscando algumas palavras de uma lista.

– Hey, Astrophel, venha comigo, preciso de ajuda com algumas caixas. – ele disse sem ao menos parar de caminhar ou tirar os olhos do papel.

– Sim senhor. – o louro respondeu e o seguiu.

Kazimir não costumava falar muito, principalmente com os recrutas, mas Arthur já o tinha visto conversando com Henry várias vezes e os dois pareciam ter um bom relacionamento. Estreitou os olhos e abaixou o rosto, talvez o capitão realmente tivesse alguma coisa com o 1° Tenente e estava usando Arthur somente para se divertir. Era uma possibilidade obscura, mas ela realmente existia.

Acompanhou o primeiro-tenente até o depósito e o ajudou a carregar algumas caixas de madeira com tomates até a cozinha. Arthur não costumava ajudar muito na cozinha já que tinha outras tarefas, mas Damien estava sempre lá ajudando o cozinheiro chefe e o louro já tinha ouvido falar muito daquele homem pela boca do companheiro que o odiava até os fios de cabelo.

– Cuidado com isso aí, babaca! – o homem apontou para Arthur. – Esses tomates valem mais que você!

Ah, claro. Arthur bufou e colocou as caixas onde o cozinheiro havia indicado. Já era de se esperar que o cozinheiro chefe também tivesse a personalidade padrão dos oficiais do exército.

Terminou de carregar todas as caixas de legumes juntamente com o primeiro-tenente e esperou que ele terminasse de recolher a assinatura do cozinheiro naquela prancheta.

– Acho que ainda tem mais alguma coisa no depósito. – ele disse.

– Não, eu tenho certeza que trouxemos tudo, senhor. – Arthur respondeu.

– Não custa nada conferir, recruta. – Krieg rosnou.

– Sim senhor. – o louro disse e se pôs em direção ao depósito novamente, embora tivesse total certeza de que já tivessem pegado todos os legumes, mas não iria ficar desafiando Krieg.

Entrou no depósito de novo e ligou a luz, colocou os olhos verdes para procurar alguma caixa que pudesse não ter notado antes, mas não encontrou nenhuma ali.

– Não tem nenhuma... – começou a dizer enquanto se virava em direção a Krieg quando este lhe acertou no rosto com força, bastante força.

O louro abriu a boca para dizer mais alguma coisa quando foi atingido por um gancho e depois desistiu de dizer alguma coisa quando percebeu que a dor seria maior se ele estivesse com a boca aberta porque os dentes cortariam a parte interna da boca. Foi atingido por mais três ou quatro socos no rosto e depois uma joelhada no estômago que o fez cair no chão.

Quando suas costas bateram contra o chão e ele ficou imóvel finalmente o primeiro-tenente parou de bater.

– Por que está fazendo isso? – perguntou.

– Porque você merece. – ele respondeu e se abaixou ao lado do recruta. – Seu filho da puta, eu esperei a semana toda para finalmente ter a chance de bater em você.

O louro engoliu a saliva e o sangue que estava dentro da boca, poderia ter evitado aquela surra se não tivesse sido pego de surpresa por Krieg, mas mesmo sendo um ótimo lutador o primeiro-tenente ainda conseguia ser melhor que ele.

– O que você fez com o capitão?

– Eu não fiz nada. – respondeu, realmente não tinha feito, porque havia sido impedido.

– É, foi o que ele me disse.

– Ele... te disse? – indagou. – Então vocês realmente tem alguma coisa?

– Não, não temos nada. – respondeu, mas incrédulo o louro só revirou os olhos. – Estou falando a verdade.

– Então por que estão sempre conversando daquele jeito? Por que estão sempre juntos?

– Você é retardado? Eu sou Primeiro-Tenente e ele é meu Capitão, é meu trabalho obedecê-lo e estar sempre perto dele. – ele arqueou uma sobrancelha.

– Não acredito em você, vocês... vocês são muito mais próximos que isso. – respondeu. – Eu vi você o segurando naquele dia, você já o tinha segurado daquele jeito antes, não tinha?

– Está falando do dia do acidente? – Kazimir perguntou, sem ter certeza.

O louro balançou a cabeça positivamente enquanto o fitava esperando por uma resposta de verdade.

– Sim, eu já o tinha segurado daquele jeito várias vezes. – ele respondeu sentando-se ao lado do corpo do recruta. – Eu sou filho de uma das empregadas que cuidava da mansão da família dele, costumava carregá-lo toda vez que ele caia do cavalo, o que não eram poucas vezes, Henry odeia profundamente cavalos e pianos.

– Se a família dele é tão rica então ele não deveria ter entrado para o exército. – cuspiu as palavras, irritado.

– Ele só queria o respeito do pai. – Kazimir respondeu. – Mas isso não importa mais, provavelmente Henry nunca mais vai vê-lo.

– Por que não?

– Ele está preso. – respondeu. – Foi preso quando Henry e eu ainda éramos recrutas, eu mesmo o denunciei.

– Você? – Arthur riu. – O Capitão deve ter ficado muito irritado com você.

– Ele não ficou. – esclareceu. – Eu denunciei o Coronel por abuso de autoridade e estupro.

Os olhos verdes do recruta pairaram do teto até o rosto de Krieg, se ele estava realmente dizendo o que Arthur achava que estava então...

– Eu sou um completo idiota. – o louro levou o braço até o rosto tampando os olhos.

Jamais teria imaginado sozinho que Henry tivesse um passado tão ruim, embora isso calasse sua pergunta sobre o porquê dele ter aquela personalidade tão forte. Na verdade, Arthur sequer por um minuto pensou que ele pudesse ter um passado ruim, já que na maior parte do tempo tinha acreditado concretamente que sua família o tinha ajudado a conseguir o cargo que tinha.

O louro não possuía páginas tão obscuras em sua história, a infância foi recheada de brincadeiras na fazenda do avô que ficava no interior do país, estudou em bons colégios e ainda tinha ambos os pais aposentados, fazendo crochê e jogando bingo como o restante dos velhos normais fazia. A única coisa que não parecia se encaixar na sua vida era o atentado a um shopping no ano passado, sua irmã era proprietária de uma pequena loja de modas e estava trabalhando quando aconteceu. Tinha sido um evento ruim, obviamente, mas não era como ser estuprado pelo próprio pai.

– Você é. – o 1° Tenente concordou. – É por isso que eu ia fazer com você a mesma coisa que fiz com o Coronel, mas o Capitão disse que estava bem e que eu não deveria fazer nada com você.

Wow, aquilo foi surpreendente, Arthur realmente esperava que o Capitão fosse o primeiro a sugerir que ele fosse preso.

– Ouça bem, Astrophel. – o Primeiro-Tenente segurou a gola da camisa do louro e o ergueu alguns centímetros do chão. – O Capitão não quer que eu faça nada com você, mas não pense que eu hesitarei em matá-lo caso tente fazer uma coisa dessas de novo. Só vou perguntar uma vez: você gosta do capitão de verdade?

– Sim senhor. – ele disse.

– Tomara que sim. – murmurou. – Porque eu tenho um porta-malas bem grande.

Krieg soltou o corpo de Arthur cuja cabeça bateu no chão com um estralo e saiu do depósito deixando-o sozinho. Alguma coisa no peito do louro murmurou que ele estava falando sério quando dizia que iria matá-lo e mais ainda quando dizia que tinha um porta-malas grande.

Se o primeiro-tenente estivesse mesmo falando a verdade e provavelmente estava então Arthur tinha um motivo do por que Henry não queria que o louro lhe desse prazer, talvez porque isso o lembrasse o que tinha acontecido e ele se contentasse em dar prazer só a outra pessoa. Arthur duvidava muito, porque era muito difícil imaginar isso, mas talvez Henry estivesse com medo de deixar o louro tocá-lo porque temia que ele saísse do seu controle. Sendo assim a única conclusão que podia ser tirada de qualquer ângulo era a de que Arthur tinha feito exatamente tudo o que o capitão não queria e com o bônus de ter a cara de pau de passar uma semana sem ao menos pedir desculpas.

– Eu sou muito retardado mesmo. – concluiu enquanto levava a mão até os lábios para limpar o sangue que escorria, pensando melhor agora Krieg deveria ter batido mais nele.

Muito bem, a primeira coisa a se fazer era pedir desculpas e rezar para que o capitão deixasse passar o episódio animalesco que ocorreu na enfermaria. Arthur realmente se sentia mal por ter feito aquilo, mas se sentia pior ainda depois do que soube por Kazimir, já tinha ouvido falar que o Coronel Wardraig era o próprio demônio, mas nunca imaginou que ele pudesse ter sido tão cruel assim também com o próprio filho. Mas na verdade fazia até algum sentido e explicava alguns pontos da personalidade espinhosa do capitão, se ele era tratado dessa forma desde criança então era natural que ele não desse muita atenção para o próprio prazer físico e priorizasse o parceiro, embora não se colocasse em segundo plano porque já tinha ficado mais que óbvio o estranho desejo dele pela dor alheia.

De toda forma, independente de sexo, Arthur precisava dizer o que sentia de verdade para o capitão, não podia ficar escondendo seus sentimentos dele para sempre. Precisava pedir desculpas pelo que tinha feito e torcer para Henry entendesse.