Damage
43 Capítulo 43 - Fim
Notas iniciais
Sven rabiscou mais alguma coisa no papel, desta vez não estava tentando escrever, mas desenhar algo que povoara sua mente desde que ele tinha terminado de escrever seu último conto. Sua letra não era muito boa e somente alguns olhos mais pacientes e treinados conseguiam lê-las, mas o enfermeiro desenhava bem, desde que ninguém o atrapalhasse. Começou pela cabeça, os olhos tinham de estar fechados, a boca levemente aberta para que os dente grandes como espadas pudessem ser vistos e as patas abaixo do queixo, a criatura estava deitada em uma caverna, não sozinha, aninhado em suas asas havia um soldado. Ambos dormiam tranquilamente.
Enquanto traçava o desenho que já estava feito em sua mente ele se lembrou do quanto tinha estado preocupado no dia anterior. Sexta-feira foi o último dia em que viu Heiner e seu próximo plantão foi só no domingo, logo ele passou todo o sábado sem ver o garoto e logo teve o dia livre para tristes especulações. Quando saiu da enfermaria exausto das atividades proibidas com Heiner ele seguiu direto para casa e dormiu assim que encostou na cama, mas na manhã do dia seguinte enquanto tomava seu café da manhã ele se lembrou do que o garoto tinha lhe dito, sobre suas experiências no orfanato. Sven nunca conseguiria passar por tudo aquilo, certamente colapsaria em algum momento quando percebesse que ele era exatamente o que o tinham ensinado a odiar com todas as forças. Jamais suportaria ficar de castigo daquela forma ou apanhar por amar alguém biologicamente igual.
O enfermeiro sempre soube que era homossexual, desde a adolescência, quando seus colegas ficavam de olho nos seios das meninas mais velhas e ele não, mas Sven nunca foi muito preocupado com relacionamentos, mas também não era obcecado por seus estudos. Tinha uma boa memória, conseguia processar tudo o que lhe diziam e raramente estudava, aprendia com facilidade e consequentemente sempre teve notas boas, embora seu objetivo de vida nunca fosse ter um emprego dos sonhos com um salário magnífico. Tudo o que sempre quis foi cuidar da irmã e tê-la para sempre consigo, não importava em trabalhar como caixa de um supermercado, desde que tivesse tempo para ela.
Seus pais tinham se divorciado pouco depois do seu nascimento, sua mãe se casou com outro homem e foi morar do outro lado do país dizendo que preferia pagar a pensão do que cuidar das duas crianças, assim o enfermeiro sempre morou com o pai. Ele era um bom homem, o Sr. Nikolaevich, era formado em direito, mas trabalhava como político desde antes mesmo de Sven nascer e isso só mudou quando ele resolveu se aposentar, trabalhou na prefeitura da mesma cidade a vida toda e até então ainda residia lá. Sven sempre soube que ele não ficaria irritado ou o odiaria, seu pai o aceitaria e o enfermeiro nunca teve medo de admitir que gostava de outros homens por causa disso, mas mesmo assim nunca disse absolutamente nada até os vinte anos de idade simplesmente porque não queria causar problemas para o seu pai. Ele era um político bem visto pela sociedade, talvez ter um filho gay prejudicaria sua imagem e o homem gostava tanto do que fazia que Sven não podia se imaginar estragando a felicidade do seu velho, e ele já outros problemas para se preocupar, como a filha portadora de Síndrome de Down, o enfermeiro só não achou que sua sexualidade fosse tão importante a ponto de interferir na vida alheia por causa disso, então preferiu ficar calado.
Rafaela era três anos mais velha que Sven e ela era a artista por trás da sua personalidade, a menina o tinha moldado daquela forma, se o Tenente era tão calmo, paciente e gay, como diria Hans, era culpa de Rafaela. Primeiro ela cuidou dele quando bebê e lhe mostrou o mundo da forma como enxergava, então quando cresceu Sven passou a preservar o mundo que ela via, protegendo-a do que era ruim e das coisas para as quais ela era cega. Rafaela era a personificação da bondade e Sven era apaixonado pela menina, cuidou dela durante toda sua vida até que finalmente fez 18 anos e teve de decidir o que faria da vida, seu pai o sonhava com um diploma e como sempre o garoto se posicionou de tal forma que não podia deixar de querer ver o sorriso do seu pai. Escolheu enfermagem porque era o que ele basicamente vinha fazendo a vida toda com a irmã era aproximado do que o que seu pai queria: medicina. Dessa forma todos estavam felizes, mas foi necessário contratar uma babá para Rafaela, pois como frequentaria a faculdade o dia todo ele não poderia mais ficar com a irmã.
No segundo mês a babá acidentalmente esqueceu o portão aberto e Rafaela saiu, como moravam em uma avenida ela foi atropelada em questão de minutos e morreu antes mesmo da ambulância chegar no local. Sven gostava de dizer que no momento em que soube daquilo o motivo da sua existência se tornou desnecessário, porque ele sempre achou que basicamente existia para cuidar dela, tinha sido feito em todas as medidas e parâmetros para essa tarefa e quando ela faleceu foi como se ele fosse um pastor sem ovelhas, sua vida perdeu um pouco do propósito. E ele também morreu de chorar, porque sempre que tinha vontade de chorar ele chorava sem repreender a si mesmo, ficava aliviado com aquilo, embora nunca tenha se conformado com a morte da irmã. Continuou estudando, não tinha porque não fazer isso, mas contou ao seu pai que era gay um ano depois da morte dela, o homem só esfregou a mão na sua cabeça, riu e disse “Eu já sabia”.
Teve alguns relacionamentos ao longo dos seus estudos, apresentou cada um deles ao seu pai e se sentiu imensamente feliz por fazer isso, também chorou quando terminou com cada um deles e às vezes ria quando se lembrava daquilo, porque sempre se lembrava de Hans dizendo como ele era viadinho por causa disso. Um dos seus namorados lhe disse que ele era de algodão-doce e tinha mais que absoluta razão.
– O que está fazendo? – Heiner perguntou de repente.
– Um desenho. – respondeu olhando de relance para o recruta sentado na cama.
Ele se levantou com um olhar curioso e se inclinou na mesa para ver, quando fez isso automaticamente Sven se lembrou do motivo da sua preocupação durante todo o sábado. O enfermeiro tinha escondido sua sexualidade, mas sempre teve coisas mais importantes para se preocupar do que isso e seu pai nunca foi preconceituoso com qualquer minoria, nunca apanhou por isso ou qualquer coisa do gênero. Sven era de algodão-doce, e quando se imaginou passando pelo Heiner passou ele colapsaria, derreteria como o doce quando molhado. Foi então que se lembrou da cicatriz no pescoço do recruta e se deu conta de que Heiner era humano e assim como qualquer um ele tinha sim entrado em conflito consigo mesmo. Então entrou em pânico e imaginou se o garoto não faria de novo o que já tinha tentado seriamente uma vez quando percebesse que tinha se relacionado sexualmente com outro homem. Se descabelou, entrou em desespero. Mas quando chegou na enfermaria no domingo de manhã e viu a expressão naturalmente brava no rosto de Heiner enquanto ele reclamava sobre dor no corpo e resmungava algo sobre nunca mais ser o passivo foi que se deu conta do quanto o homem que amava era forte, ou tinha se tornado.
– Está ficando muito bom, não sabia que você desenhava. – ele disse virando o rosto na direção do de Sven depois de analisar o desenho.
– Não com frequência. – respondeu sorrindo brevemente e se sentindo um pouco idiota por ter ficado com tanto medo por nada.
Heiner ainda não tinha lhe dito nada sobre aquilo, se planejava dizer o enfermeiro não sabia, mas Sven não perguntaria nada. Ele tocaria no assunto se sentisse que precisava falar sobre aquilo, ou mesmo se algum dia se tornassem íntimos o suficiente para que Heiner sentisse a necessidade de compartilhar cada aspecto da sua vida com Sven. Levou a mão até o pescoço dele tampando a cicatriz e sorriu com um pouco mais de ênfase enquanto fitava os olhos dele, que não se decidiam entre o verde e o castanho.
– O que foi? – ele perguntou com as bochechas levemente vermelhas.
– Nada, só queria saber se está feliz.
– E consegue fazer isso só colocando a mão no meu pescoço? – ele arqueou uma sobrancelha e bufou. – Cara, eu devia ter feito enfermagem.
Sven riu de leve e tirou a mão do garoto voltando-a para a atividade anterior em cima da mesa. Desenhou alguns últimos pontos nos grandes olhos e terminou o desenho, se tratava de um dragão dormindo com um menino ao seu lado, em uma caverna recheada de tesouros. Escreveu logo em cima da gravura “O Dragão Entediado”.
– Também não sabia que gostava dessas coisas, é sobre isso que escreve por tanto tempo? – ele indagou, mostrando-se bastante curioso naquela manhã.
– Bom, em parte. – ele abriu a gaveta e tirou de lá um grande maço de folhas escritas e enfiou entre elas o desenho, exatamente onde começava o conto que ele tinha ilustrado. – Eu escrevo romances medievais.
Ameaçou levar o maço de folhas até a gaveta de novo quando Heiner segurou seu pulso, impedindo- de avançar, então agarrou as folhas com a outra mão e o folheou, fazendo brevemente uma careta com a ortografia do enfermeiro.
– Por que se chama Damage se são romances medievais? – ele indagou parando nos desenhos que ilustravam cada conto, o primeiro parecia interessante, tinha um grande trono com um imperador sentado nele, um guarda estava com a cabeça entre as pernas dele fitando seu rosto enquanto o homem com a coroa segurava uma faca em seu pescoço, sorrindo.
– Porque Damage pode significar danificar, deteriorar e prejudicar. É o que descreve a história de cada personagem, cada um deles é uma peça danificada que não pode ser consertada ou devolvida. – o enfermeiro apontou para o desenho que Heiner fitava. – O primeiro é sobre um imperador tirano que governa suas terras com corrupção e crueldade que se apaixona por um guarda. Há princípio ele realmente só parece mimado, mas o tempo todo o que ele sempre quis fazer foi descontar no mundo toda sua frustração e sofrimento pelo qual passou durante a infância, porque ele nunca se conformou em ser o único a passar por tanta angústia. O guarda por outro lado, é o contrário exato dele, ele é o filho mais novo de uma família de nobres do império e nunca ultrapassou os limites dos bonitos jardins do seu castelo até que sua mãe foi assassinada em um ataque à família. Mesmo vendo de repente toda a maldade do mundo ele preferiu fingir que não, apenas fechou os olhos e escolheu viver na ignorância de que o mundo é bom. De certa forma isso os torna antagônicos, o imperador teima em não ver o bem e o guarda insiste em negar o mal.
Heiner ergueu uma sobrancelha e olhou para o desenho de novo, se Sven tinha criado tudo aquilo enquanto ouvia Kazimir gritando palavrões no pátio então ele realmente era muito criativo. Fitou o rosto do imperador por alguns segundos e de repente o sorriso sádico no rosto dele lhe pareceu familiar, mas provavelmente era mera coincidência. Passou por algumas folhas e encontrou outro desenho, este segundo tinha sido feito em mais tons de preto que o primeiro. Havia um garoto ajoelhado com a cabeça em uma guilhotina e um homem ao lado com uma grande capa preta nos ombros pronto para cortar a corda que prendia a lâmina, ele tinha uma expressão tão ambígua no rosto que Heiner não conseguiu decidir se ele estava muito bravo ou só triste.
– E esse? – mostrou para o enfermeiro que sorriu com o repentino interesse do recruta naquilo.
– Esse é sobre um carrasco que depois de executar tantas pessoas inocentes em nome do imperador se viu acreditando seriamente que não era digno de nada além do ódio das pessoas, e cegamente que ninguém jamais o amaria por ser um monstro assassino. – ele correu o dedo até o garoto na guilhotina. – Este é um ladrão que lhe foi ordenado matar, o garoto foi criado nas ruas sem qualquer condição ou alguma família além de vira-latas. Ele foge antes de ser executado e leva o carrasco a ter que ir procura-lo, e bem, ele não via no carrasco culpa alguma sobre as mortes que tinha executado à mando do imperador.
Heiner olhou para a imagem, mas antes que visse qualquer semelhança com algum superior ele pulou para a próxima que era exatamente a que Sven tinha acabado de desenhar e também o último conto.
– Só tenho uma coisa a dizer sobre esse: zoofilia. – comentou com um sorriso torto no rosto. – Aliás, zoofilia gay.
– Como você é idiota, Heiner. – Sven respondeu quando o recruta riu de leve. – Eu não escrevo pornografia, só romances.
Heiner passou as folhas e encontrou uma frase que chamou sua atenção: “– Você é meu tesouro agora, para sempre. — disse o dragão que um dia fora tão entediado e solitário, pois naquele momento percebeu que ter o amor do cavaleiro idiota o fazia mais feliz que toda a gigante pilha de ouro que já possuía.”. Fitou o enfermeiro com o canto dos olhos e não resistiu.
– Como um humano se apaixona por um dragão? – indagou mais que curioso. – C-o-m-o?
– Inicialmente ele não era um dragão, ele era um rei que se apaixonou pela filha de um bruxo, este que não aprovou o relacionamento dos dois e transformou-o em uma fera para que nunca ninguém o amasse de novo, e não importa o quanto tenha tentando, o dragão nunca conseguiu provar seu caráter para ninguém e só conseguiu o ódio das pessoas. – explicou. – Esse garoto é um aldeão que sempre quis ser um cavaleiro, mas por causa do seu corpo pequeno e fraco todos sempre riram dele e fizeram piada dos seus sonhos, para provar sua coragem e força ele vai até o dragão para mata-lo, mas quando chega lá encontra uma criatura afundada em tédio, o tédio é a doença dos corações sem sentimento e das almas pobres. O cavaleiro ficou com tanta pena do monstro que decidiu se empenhar em ajuda-lo a quebrar a maldição do bruxo e voltar a ser humano.
– Mas se ele não matar o dragão então sua força nunca será reconhecida, como ele pode desistir dos seus sonhos desse jeito?
– Ele desistiu para ajudar alguém, é uma causa digna de um cavaleiro. – arqueou uma sobrancelha e decidiu contar o final da história. – Ele consegue fazer o dragão voltar a ser humano, ele se torna rei de novo e torna o garoto seu general, e também seu amante, claro.
Heiner balançou a cabeça de leve e folheou mais um pouco, mas não havia outro desenho, aquele era o último, quase ficou um pouco decepcionado por não ter mais nenhuma gravura para comentar.
– Estou com fome. – Sven comentou de repente. – Vou comer alguma coisa, quer que eu traga algo para você?
– Não tem dez minutos desde a última vez que comeu. – o recruta comentou, pasmo.
– Mas eu não comi muito. – tenteou se justificar, mas a verdade era que tinha alguma compulsão com comer mesmo. – Bem, estou indo.
Heiner até tentou levar a mão até ele para impedi-lo e dizer que comer tanto fazia mal, mas o enfermeiro saiu saltitante até o corredor e desapareceu. O tornozelo do recruta já estava bom, mas não o suficiente para sair correndo atrás de Sven, se bem que ele nunca faria isso, mesmo se estivesse completamente curado. Bufou e depois de dar mais uma olhada na escrita do amante acabou deixando dentro da gaveta de onde Sven tinha tirado os papéis, ele tinha boas ideias e desenhava bem, logo sua escrita também devia ser interessante, Heiner até leria se desse conta de decifrá-la. Mancou até a cama e se deitou, o colchão parecia mais macio naquele dia, provavelmente porque no anterior cada músculo do seu corpo estava dolorido e tudo o que ele queria era bater em Sven com a vassoura na qual tinha escorregado. O enfermeiro se justificou que ele não ficaria dolorido daquele jeito das próximas vezes, porque seus músculos já estariam acostumados. Heiner só olhou para ele, riu e respondeu “Não vai ter próxima vez”.
Escutou alguma coisa caindo e imediatamente olhou para de onde vinha o barulho, da mesa de Sven. Havia um copo com várias canetas esparramadas no chão, tinha caído, mas não havia sinais do que o tivesse derrubado e olhando para a janela era possível perceber que o vento lá fora não era forte o suficiente nem para fazer as cortinas balançarem. Virou-se de novo para o lado em que estava anteriormente e puxou os cobertores tampando o corpo até o pescoço. Claro que Heiner não estava com medo, era só um copo cheio de lápis e canetas que tinha caído sozinho no chão, não podia ser nada demais. Escutou algumas das canetas rolando no chão e imediatamente se encolheu na cama cobrindo o rosto com o cobertor como se fosse resolver alguma coisa, esperou que aquilo parasse, mas não parou. Heiner chegou a imaginar se não havia o espírito de um soldado nazista atrás dele, tinha vagado da antiga enfermaria até ali para receber tratamento do enfermeiro. Mas como o filho da puta do Sven não estava ali, logo o espírito estava bravo e iria descontar sua espera na única pessoa presente. Imaginou um fantasma da Segunda Guerra Mundial muito doente, com úlceras por todo o corpo e larvas saindo das feridas escancaradas, com o cenho franzido e muito irritado.
Quando alguma coisa encostou no seu ombro ele deu um grito, realmente, gritou como se um fantasma da Segunda Guerra estivesse mesmo colocando a mão nele para sugar sua alma. Mas fechou a boca quando ouviu um “Meow”. Empurrou os cobertores até os pés e se sentou na cama arregalando os olhos e fitando intensamente o fantasma. Era um gato, preto, mas era só um gato. Estava olhando para ele como se Heiner fosse um débil mental e ele tinha um pouco de razão, entrar em pânico só por causa de uma história idiota que Sven provavelmente tinha inventado para lhe fazer medo. E tinha conseguido, pelo menos por um momento.
– Eu vou...arrombar esse desgraçado. – murmurou para si mesmo enquanto limpava uma gota de suor frio que lhe escorreu pela testa, tinha mesmo ficado com medo.
O gato miou de novo, devia estar com fome, ou só queria atenção mesmo. Heiner levou a mão até a cabeça do animal, um pouco relutante, porque ele sabia melhor que ninguém o quanto a mordida de um aparente inofensivo gatinho podia doer. Nem teve tempo de acaricia-lo e logo ele veio na sua direção, preguiçosamente sentou-se sobre seu colo e colocou as duas patas da frente no seu peito enquanto miava exigindo mais carinhos.
Sven só não vomitou arco-íris quando viu Heiner brincando com Albert porque estava tomando café, então só se limitou a rir de leve com a cena e se aproximou dele deixando a xícara em cima da mesa. Segurou as bochechas do recruta com as duas mãos e beijou sua boca, enquanto Heiner se perguntava de onde o enfermeiro tinha saído e porque estava com aquela expressão idiota de repente. Ficou vermelho e tentou aquietar a pequena fera em seu colo enquanto olhava para ele.
– Não fique me beijando toda hora, isso é estranho. – resmungou, corado com o afeto excessivo de Sven.
O enfermeiro sorriu e levou a mão até as orelhas do gato que já era conhecido por visitar a enfermaria periodicamente e tinha ganhado o nome “Albert” de Belshoff que insistiu que o bichinho tinha cara de mordomo e logo o nome era perfeito para ele.
– Não puxe as orelhas dele assim, ele não gosta.
– Como sabe disso? – arqueou uma sobrancelha.
– Eu tinha uma gata quando era menor, ela me unhava toda vez que minha mão se aproximava das orelhas dela. – bufou ao se lembrar do temperamento instável do bichinho.
O enfermeiro não esperava que Heiner já tivesse tido algum animal de estimação, mas não ficou surpreso porque aquilo justificava o fato dele ter conseguido fazer Albert se aquietar em tão pouco tempo e ronronar em seu colo.
– O que aconteceu com ela?
– Ela entrou na casa de um vizinho e o cachorro dele a matou, eu até tentei salvá-la, mas era tarde demais. – contou. – E o cachorro mordeu a minha perna, eu ainda tenho uma cicatriz.
Sven abaixou os olhos de leve e soltou uma pequena risada, tinha achado que Heiner tinha invadido algum quintal para pegar uma bola, mas depois de conhece-lo certamente o recruta nunca se arriscaria desse jeito só para pegar uma bola. Ele podia ser aquele adulto com excesso de testosterona por fora, mas por dentro ainda era uma criança que carecia de atenção e cuidados, quase que a vítima perfeita para Sven. O enfermeiro mordeu o lábio inferior e não resistiu, aproximou sua boca da dele de novo e lhe deu um selinho. Heiner protestou de novo, assim como em todos os beijos que Sven o fez aceitar, mas gostou de todos eles tanto quanto gostava de como aquele enfermeiro sorria genuinamente e curava cada ferida da sua alma com as gargalhadas gostosas que dava.
– FIM.
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