Damage
29 Capítulo 29
Notas iniciais
Samuel tinha dormido como uma pedra naquela noite, não que tivesse esquecido do que havia ocorrido, mas era melhor fechar os olhos e descansar logo do que ficar chocado pensando no evento. Até porque não havia muito o que ser pensado sobre o assunto porque toda vez que ele tentava se recordar do que Hans tinha feito ele só conseguia lembrar-se da confusa sequência: pânico, dor, dor+prazer, prazer, dor+prazer, dor, constrangimento e calor. Por algum motivo as partes em que ele se lembrava de estar sendo torturado também eram as partes que ele estava excitado e isso definitivamente devia ter sido algum engano por parte do seu cérebro.
Depois de dizer possessivamente que o garoto pertencia a ele Hans o vestiu e limpou onde a pele estava suja com um lenço umedecido que acabou jogando fora depois, mas esse com certeza foi o ponto da noite em que deixou Samuel mais confuso, porque ele nunca tinha ouvido falar em estupradores malucos que cuidam das suas vítimas após o atentado. Na verdade Samuel ficou calado enquanto o cozinheiro fazia isso, ele parecia concentrado e vez ou outra perguntava se algo ainda doía, e daquela vez não ficou calado porque estava com medo que Hans o apunhalasse com aquela faca, se esse fosse o objetivo do ruivo ele já o teria feito, mas sim porque de alguma forma ele se sentia melhor. Quando achou que poderia finalmente ir embora o ruivo o pegou nos braços e levou-o até o dormitório.
“Vejo você amanhã?” ele perguntou, pareceu esperançoso e incerto.
“Eu não sei” Samuel balbuciou antes de fechar a porta na cara dele, no momento se sentiu muito ousado ao fazer isso, mas repensou melhor aquela atitude e chegou à conclusão de que era um milagre Hans não ter pegado um machado e arrebentado seu crânio com ele.
Naquela manhã a trombeta pareceu tocar mais cedo que o habitual, mas na verdade era Samuel que tinha ido dormir muito tarde e mal percebera o quão cansado estava até ter de se levantar. Em sua cabeça ainda se passava um turbilhão de informações com e sem conexão que de repente apareceram todas de uma vez, mas o foco de todo seu pensamento era Hans, sem dúvidas. Encaminhou-se logo para o corredor antes dos seus colegas de quarto, queria logo tomar um banho, mesmo que fosse rápido, isso serviria para esvaziar sua cabeça por alguns instantes.
Foi para os corredores e andou junto com os outros recrutas até o banheiro, não foi uma trajetória muito longa então Samuel sequer teve tempo o suficiente para formular uma reclamação decente a respeito da água fria dos chuveiros. Uma vez dentro do banheiro pegou sua escova de dentes e se dirigiu até uma das pias, limpou rapidamente os dentes e levou a mão até as bordas da camisa para retirá-la enquanto bocejava.
Olhou para si mesmo no espelho e levou a mão até o peito rapidamente quando notou algo errado ali, lembrava-se de que Hans tinha o cortado ali no dia anterior, mas não imaginava que o cozinheiro fosse tão excêntrico a ponto de cortar um “H” na sua pele. Rapidamente atingiu o ruivo com todos os palavrões possíveis, ele sabia que Samuel não tomava banho sozinho e deveria estar rindo muito ao imaginar o recruta se explicando para quem quer que visse aquilo. De repente alguém passou a mão ao redor do seu pescoço e um frio lhe congelou a espinha.
– Sammy~~ – Damien cantarolou. – Dormiu bem? Aliás, você dormiu? Eu espero que não.
Samuel levantou os olhos com um pouco de decepção neles e então fitou os olhos dourados de Damien. Os dois já se conheciam a bastante tempo, foram apresentados por Arthur e se davam bem o suficiente para Samuel poder afirmar que o recruta não era uma pessoa ruim e certamente não se aliaria a um criminoso. Não. Os olhos dele brilhavam demais. Provavelmente ele nem imaginava que Hans tinha acabado com sua vida, e corpo, na noite anterior. Pelo menos não da forma que Damien queria. Aquele bastardo ruivo deveria ter dito ao recruta que só iria dizer que gosta de Samuel ou algo do tipo, a julgar que Damien já tinha concluído que os dois transaram.
O recruta tirou o braço dos seus ombros.
– Por que está com a mão no peito? – ele perguntou depois de alguns segundos de silêncio enquanto Samuel imaginava como Damien não tinha percebido o mal nas palavras do cozinheiro, o mal estampado no rosto dele, gravado na pele.
– Eu... – naquele momento a última coisa que podia fazer era deixar Damien ver aquilo, porque ficaria muito vermelho. – ...estava rezando, você me interrompeu.
– Rezando...? – Damien costumava ver alguns pobres coitados rezando antes das aulas do Wardraig, mas Samuel nunca foi um deles. – Nesse caso suas mãos não deveriam estar juntas?
– É, eu sei, é porque…eu…sou…muçulmano. – foi a primeira religião que lhe veio à mente e ele ficou gritando “Burro, burro, burro” várias vezes dentro da sua cabeça enquanto rezava de verdade para que Damien engolisse.
– Samuel... – Damien disse e começou a falar mais baixinho e com os olhos semicerrados por algum motivo. – ...eu não sei o que está escondendo, mas muçulmanos não rezam assim.
– Não...? – começou a suar nesse momento.
Ficou por alguns minutos olhando para Damien, sem saber o que dizer ou fazer. Podia sair correndo do banheiro, não, isso chamaria ainda mais atenção ainda. Ele está se matando de rir nesse momento, pensou consigo mesmo, amaldiçoando Hans novamente por ter feito aquilo, não o ato todo, mas pelo brasão que tinha colocado em seu peito como se Samuel fosse uma vaca de rebanho para ser marcada. Hans era um cretino, um completo maníaco, mas por algum motivo Samuel não tinha medo dele e o garoto costumava ter medo de pessoas como o ruivo, contudo simplesmente não conseguia teme-lo ou odiá-lo. Mas estava muito puto com ele, e com muita raiva, contudo não sentia vontade de sair correndo e chorando pelo que tinha acontecido, mas sim de pegar uma daquelas frigideiras da cozinha e dar na cara de Hans várias vezes para fixar a vergonha que ele deveria ter.
– Tudo bem. – suspirou longamente. – Não dê escândalo.
– Não vou! – disse Damien com uma expressão séria. – Como se eu fosse rir de algo grave, tsc.
Samuel hesitou antes de confiar nele, porque era o Damien né gente, mas acabou cedendo e abaixando a mão aos poucos, era um pouco difícil demais guardar uma coisa dessa só pra si mesmo então talvez dividir com Damien fosse bom. Mesmo que ele não fosse nem a pessoa mais adequada e nem a mais confiável.
– Isso é um H? – perguntou depois de alguns segundos.
– É.
O recruta balançou a cabeça sem nenhuma expressão definida e coçou a nuca, como se pensasse em algo muito importante, estava mordendo os lábios, seus olho estavam um pouco vermelhos também. Por alguns breves minutos Samuel inocentemente achou que Damien estivesse engajado em uma difícil disputa interna, decidindo o que os dois iriam fazer e quantas pessoas iriam matar, Samuel sabia onde guardavam as pás, seria fácil, mas subitamente o menor percebeu que ele só estava segurando a risada.
– Não ria.
– Mas... – Damien choramingou e quando olhou no rosto indignado e boquiaberto de Samuel não conseguiu se segurar mais e afogou-se em risadas. – ...ficou tão bonitinho! Hans é tão romântico!
Com isso Samuel virou-se para o espelho de novo e começou a escovar os dentes como se não o conhecesse e não soubesse porque aquele estranho estava rindo tanto. Damien apoiou as mãos nos joelhos e então levantou-se de novo colocando uma delas no ombro do recruta, como um gesto de paz, e aos poucos foi parando gradativamente de rir.
– Cara, o que você vai fazer com isso aí? – perguntou apontando para o espelho. – Quero dizer, você sabe que não vai pegar bem se os animais virem esse negócio aí, né?
– Eu não sei, eu esperava que me ajudasse ao invés de ficar rindo que nem um retardado. – rosnou enxaguando a boca.
Damien não tinha nenhuma ideia do que Samuel podia fazer a respeito da marquinha sensual no peito, mas conseguia visualizar Heiner dando um escândalo de choque completo ao ver aquilo e anunciar para o mundo. Traenkner era um cara engraçado porque discriminava e tirava sarro dos gays mas mesmo depois de vários meses com Arthur e o próprio Damien ele ainda não tinha descoberto que ambos gostavam de pessoas do mesmo sexo, Damien nem conseguia imaginar o escarcéu que ele faria se descobrisse, provavelmente iria ferver todas as roupas que os dois colegas de quarto tocaram de alguma forma.
– Bom, eu quis ficar rindo. Não tenho ideias. – arqueou uma sobrancelha. – Boa sorte.
Samuel foi abandonado de novo com alguns tapinhas no ombro, mas nem teve muito tempo para a autoflagelação já que logo teve que arrancar o restante das roupas e seguir para os chuveiros, com uma mão no peito ainda. Obviamente em algum momento aquilo começaria a ficar estranho então virou-se para a parede e tentou tomar um banho bem rápido, ensaboando o peito várias vezes na tentativa de que o as bolhas produzidas pelo sabão o tampassem, mas não funcionou da forma que ele esperava e a espuma se tornou logo ineficiente. Por sorte Damien estava de um dos seus lados então ele tinha um pouquinho mais de liberdade para se virar para aquele lado, mas mesmo assim aquele foi o banho mais constrangedor da sua vida desde o primeiro que ele tinha tomado no exército.
O tempo de banho acabou, ele logo se apressou para ir na frente de todo mundo e não deixar que ninguém visse mais do que devia, e pensar que seus banhos seriam todos daquele jeito até o H em sua pele se cicatrizar, o que talvez não demorasse tanto por ser só um corte superficial. Quando Hans apareceu com aquela faca Samuel achou que o cozinheiro a atravessaria em seu peito e assim terminaria sua breve história de garotinho idiota com o sonho de ser um militar e servir apropriadamente seu país. O fato é que vestiu suas roupas tão depressa que quando amarrou os coturnos nos pés seus colegas de batalhão ainda estavam colocando a cueca e isso lhe deu algum tempo para pensar nas suas opções, não que tivesse muitas.
–x-
A cozinha continuava a todo o vapor naquela manhã, assim como qualquer uma, afinal, a cozinha é sempre o coração de qualquer coisa que a tenha. Sempre o lugar que está sempre funcionando, sempre quente e barulhento, o cozinheiro-chefe gostava disso no lugar que trabalhava, não das cores que invadiam o lugar, mas dos sons variados e cheiros a todo momento, isso sim prendia sua atenção. Contudo, naquele dia, com alguns bocejos, ele estava gritando menos com seus nobres funcionários.
Foi bem divertido, Hans não costumava fazer aquele tipo de coisa e quando fazia sempre ficava animado, mas não era parte da sua rotina perguntar se veria o parceiro de novo até porque na maioria das vezes isso não aconteceria e ele também não costumava ficar atingido com o “Eu não sei” de algum ser humano, porque aquilo não importava. Realmente não importava.
– Está torto. – Damien disse apontando para as fatias de cebola.
– É pra comer e não enfeitar. – rosnou. – Não tem o que fazer, não?
– Estou esperando você terminar de sujar isso pra mim limpar. – o recruta deu de ombros e encostou a cintura no balcão, para se apoiar. – Eu vi Samuel hoje, ele parecia muito puto, é com isso que está preocupado?
– Não. – respondeu, e pensou um pouco, na verdade não estava mesmo. – Ele é dramático, vai encher o peito e entrar por aquela porta com as pernas bambas enquanto rosna pra mim, ele vai voltar, disso eu tenho certeza, nem que seja acompanhado por policiais pra me prender.
– Você é confiante. – Damien disse com um pequeno sorriso. – Se não está preocupado com o fato dele te odiar, com o que está?
– Com o fato dele voltar. – arqueou as sobrancelhas como se fosse óbvio e despejou as fatias da tábua de cortar para dentro de uma vasilha de plástico próxima a Damien. – Ele vai voltar por causa da personalidade dele, porque ele vai ficar irado comigo, vai me desrespeitar e dizer que me odeia e fazer aquela cara de bravo enquanto eu vomito arco-íris. – disse aquilo gesticulando com a faca. – Ele vai estar pedindo para ser torturado, e eu não vou me segurar.
– Juro que ainda não consegui entender porque isso não é bom.
Hans soltou um longo suspiro e empurrou a louça suja que estava por perto para o seu ajudante.
– É porque você é muito burro mesmo, vai limpar isso. – concluiu e empurrou Damien pelos ombros até que ele tomasse embalo e fosse embora por conta própria.
Damien era legal, era bonitinho e era divertido conversar com ele, mas Hans não se sentia tão confortável com ele pelo fato de que tinha gostado dele, tinha realmente gostado muito de Damien, mas antes que fizesse qualquer coisa o recruta já estava nos braços de Kazimir. Não estava arrependido de não ter sido mais rápido que o primeiro-tenente, o ruivo conseguiu perceber que o recruta não compartilhava dos mesmos sentimentos que ele e por esse fato decidiu nunca dizer nada. Falar alguma coisa só faria deteriorar o pouco tempo que passavam juntos e além disso, Damien amava Kazimir, dava para perceber na forma que o garoto sorria quando falava do amante e da forma como os olhos brilhavam ao final de todos os dias.
Era frustrante.
Mas bem, de um tempo para cá sua mente estava mais voltada para o pequeno novo ajudante de ego enorme. Olhou para o relógio de pulso, ainda estava cedo e provavelmente demoraria um pouco para que Hans tivesse o prazer de ver Samuel adentrando na cozinha todo confiante de si que faria alguma vingança épica ou algo do tipo. Seria interessante acabar com isso, seria interessante beijá-lo, mesmo que provavelmente Samuel não fosse saber o que fazer e Hans ainda corresse o risco de ter sua língua mordida.
– Bursliet, pode me passar aquele pote amarelo a sua esquerda? – Addler gritou do outro lado da cozinha, parecia estar misturando alguma coisa.
O cozinheiro-chefe olhou para o lado e viu vários potes ao seu lado, passou a mão por cima de alguns deles, indeciso. Pegou um deles e se dirigiu até o recruta, Addler o fitou um pouco curioso enquanto ele fazia aquilo, mas não se mexeu.
– Esse pote é rosa. – arqueou uma das sobrancelhas.
– O que tem contra o rosa?
– Nada, senhor, só que o pão não vai caber todo dentro dessa. – respondeu.
– Mas que droga, se tivesse me dito que queria o maior eu teria entendido melhor. – o cozinheiro-chefe pegou aquele e foi buscar o outro para o seu ajudante. – Não sei pra que vasilha colorida na porra do exército, eu ficaria muito feliz se fossem todas pretas.
Addler continuou sem entender muita coisa, mas como tinha mais o que fazer deixou o cozinheiro-chefe falando sozinho, ainda havia muita coisa para ser limpa antes de começarem a sujar tudo de novo para o almoço.
–x-
Samuel já tinha se decidido. Hans o tinha feito passar por maus bocados demais para apenas sair imune daquilo, não podia simplesmente parar de aparecer na cozinha ou reportar ao primeiro-tenente, até porque não conseguiria contar tudo a ele, Hans merecia ser torturado. Quer dizer, mesmo que Samuel não tivesse sido penetrado, ainda tinha sido um estupro e o cozinheiro podia ser preso por aquilo, não que o recruta fosse denunciá-lo, ia chantageá-lo com aquilo.
Um pequeno sorriso maldoso se abriu em seu rosto, oh, ele faria coisas terríveis com o cozinheiro, se Hans tinha sido cruel com Samuel ele seria mais, se vingaria em dobro. Começaria amarrando-o da mesma forma que ele mesmo tinha sido amarrado, então o despiria, apostava que ele deveria ter um corpo magro, não tão definido quanto o dos outros oficiais, ele era um cozinheiro, mas provavelmente tinha um corpo bonito, Hans era alto e tinha ombros largos e tronco cheio. Se Hans era um homem bonito vestido, também deveria ser quando nu. Depois de despi-lo, bem, Samuel não fumava, não tinha ideia do que faria depois de deixa-lo pelado, mas só de pensar em tê-lo daquele jeito já era tentador.
Espera.
Hans era um homem. Tudo bem que Samuel nunca teve uma namorada, mas nunca teve um namorado também e o fato dele nunca ter sentido tanta atração por alguém em especial também não fazia dele um homossexual. Mas se sentia atraído por Hans, estava muito atraído por ele, curioso a respeito dele, o queria zangado daquele jeito de novo, o queria rosnando daquela forma, o punindo...o que?
– Damien. – cutucou o colega ao lado. – Você acha que eu sou gay?
O recruta na cadeira ao lado não escutou e acabou tendo de curvar seu corpo para alcançar o colega que se sentava na fileira paralela.
– O que? – Damien sussurrou, se esforçando para não deixar Wardraig perceber.
– Você acha que eu sou gay?
– Samuel, não é hora pra decidir sua sexualidade, o capitão vai ficar muito puto se pegar a gente cochichando.
– Que droga, Damien, é só responder. – retrucou, era uma coisa bem simples. – Sim ou não?
– Eu acho que você tem uma puta cara de viadinho, mas isso não quer dizer nada, depois conversamos sobre isso. – e dito isso voltou a se ajeitar na cadeira quando percebeu que Henry estava a alguns metros, de braços cruzados, olhando para os dois como um falcão.
O capitão levou um pé a frente e lentamente aproximou-se dos dois, a forma como ele fazia aquilo lentamente já dava um terror em Damien, porque a coisa ficava mais feia com ele calmo do que bravo. Soltou um longo suspiro e então parou entre os dois, olhando primeiro para Samuel e depois para Damien.
– Sessenta e cinco. – disse finalmente. – Sabem que número é esse?
– Não, senhor. – os dois responderam em uníssono.
– É o número de palavras que vocês acabaram de dizer sem que eu ou o primeiro-tenente pedíssemos. – ele tinha contado. – Cento e vinte é o número de segundos que vocês gastaram da minha vida fazendo isso, vocês interromperam cento e vinte segundos da minha vida, tem noção do que é isso, Lieppert?
– Não, senhor.
– Saeger?
– Não...senhor.
– Ah, vocês não sabem. – disse com voz de deboche. – Quer dizer que quando eu morrer vou me lembrar da droga desses dois minutos que vocês atrapalharam na minha preciosa vida com essa voz irritante e essas caras de merda, porra. – bufou. – Também quer dizer que eu vou adicionar o número dois ao número de palavras e esse será o total de voltas que vocês darão ao redor do pavilhão. – fez uma pequena pausa e se lembrou de algo repentinamente. – Não ousem ir almoçar antes de terminar.
– Sim, senhor. – Damien disse se levantando imediatamente e dirigindo-se a porta.
Samuel se levantou alguns segundos depois e o seguiu a contragosto, porque não achava que precisava ser punido daquela forma só por trocar algumas palavras com o colega ao lado. Ele era um bom recruta, era injusto ser punido por um único escorregão. Caminhou duro, contudo sem olhar nos olhos do oficial, não era prudente desafiá-lo daquela forma uma vez que Samuel já viu Arthur ou Heiner serem punidos por bem menos, apesar dos dois de alguma forma parecerem gostar da chamar a atenção dos oficiais daquela forma bizarra que Samuel nunca conseguiria entender.
Foi com Damien para fora do prédio colonial ocupado pelo exército nacional desde sua construção, era prédio bonito e bem conservado pela idade que tinha, se bem que sua maior preocupação no momento era o quanto demoraria para dar as voltas ao redor daquilo tudo e não a arquitetura vitoriana. E mais importante ainda: toda sua fantasia com Hans tinha ido por água abaixo já que ele não terminaria tantas voltas antes do almoço e logo não veria o cozinheiro-chefe antes do jantar.
– Por que me perguntou aquilo? – Damien perguntou quando começaram a correr, não parecia tão bravo quanto deveria estar.
– Porque eu acho que sou gay. – respondeu imediatamente. – Porque eu sinto atração pelo Hans.
– Ah. – balançou a cabeça, pensativo. – O que Hans fez, aposto que não foi consensual, você não precisa se sentir obrigado a achar que gostou só porque não quer admitir que ficou com medo dele.
– Eu fiquei com medo dele, mas eu também gostei, não de tudo, claro. – respondeu, hesitante, não sabia se devia sair dizendo aquilo daquela forma.
– Samuel, você não pode decidir isso de repente, eu acho, quer dizer, entendo que deve estar com vontade de se vingar, mas sua orientação sexual é algo sério e...ah, não sei, a vida é sua, faça como quiser. – Damien deu de ombros, ele sempre fez o que quis e quando quis então nunca se preocupou realmente com sua sexualidade, até porque sempre achou que não devessem ter nomes para separar os grupos desse jeito, por um lado Samuel só parecia um garotinho confuso e por outro Damien achava que não devia interferir nas decisões dele porque o recruta realmente não parecia ter muita testosterona dentro do corpo.
Ambos soltaram um longo suspiro, ainda tinham sessenta e sete voltas para dar.
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