Damage

26 Capítulo 26


Depois de passar um tempo bastante agradável na companhia de Hans e os coleguinhas na cozinha ele foi direto para o treinamento só para descobrir que o capitão tinha decidido que todo mundo ia brincar no circuito naquele dia.

Basicamente o circuito consistia em uma pista com vários obstáculos e curvas e era bastante comprida também. Na verdade era possível compará-la a circuitos caninos usados em competições, só que para humanos, ou pelo menos quase humanos já que o capitão insistia que seria um insulto à humanidade chamar qualquer um dos seus recrutas de humanos. O primeiro-tenente estava com uma prancheta e uma caneta o que significava que alguns dados seriam preenchidos naquele dia de acordo com os resultados obtidos no circuito.

Samuel bufou e procurou um lugar legal entre os recrutas, um que não fosse pisoteado e nem enxotado para fora do grupo durante o trajeto e encontrou Damien. Ele costumava estar entre os neutros, nunca era o primeiro mas nunca era o último, no entanto naquele dia ele disse que ficaria mais atrás porque que não estava muito bem para tantos exercícios e levou uma das mãos até o final da coluna depois disso.

– Dormiu de mau jeito? – perguntou ao vê-lo como um velho acariciando as costas.

– Ah...quase isso. – ele respondeu com um sorriso efêmero. – Bem, não se preocupe comigo, vou estar bem amanhã, eu espero. – ele balançou a cabeça na direção do trajeto. – Tente não ficar muito atrás, vai acabar sendo dispensado se sempre ficar por último.

– Não é tão fácil pra mim quanto é pra vocês. – resmungou.

Damien olhou para ele procurando alguma forma de ajudar o amigo, mas realmente não tinha nada que ele pudesse fazer.

– Me desculpe, se eu pudesse ajudá-lo eu faria.

– Contrabandeie comprimidos com hormônios pra mim. – riu, como se ele tivesse coragem de tomar qualquer remédio só para corrigir a estatura e aparência.

Damien riu também, mas logo o capitão apitou para que os recrutas começassem o circuito e eles não puderam mais conversar. Os primeiros metros eram três tipos de terreno: solo comum, depois grama alta e por último solo acidentado com pedras que Samuel costumava chutar com força sem querer e encher os olhos de água por isso. Essa não era a parte mais difícil, ela vinha depois nas redes que precisavam ser escaladas, por não ser tão alto quanto os outros recrutas ele acabava tendo que fazer muito mais esforço para alcançar as cordas e era sempre ali que ele ficava um pouco para trás. Depois de vários metros ainda havia um grande perímetro com barro que te obrigava a ir se pendurando em argolas até o outro lado e foi ali que depois de exatas cinco argolas os braços de Samuel não conseguiram aguentar seu peso e ele caiu na lama se sujando todo.

– Comece de novo! – o primeiro-tenente gritou e ele se apressou em se levantar da lama e voltar para o começo, ficando um pouco aliviado que outros cinco recrutas tiveram que voltar para o começo também, embora só um deles tivesse caído no mesmo obstáculo que ele.

Damien tinha parado em um obstáculo que era proposto que ele saltasse, ele simplesmente olhou para o capitão e o primeiro-tenente e disse “Se eu tiver que saltar isso vou ficar paraplégico” e por algum motivo o capitão só riu e deu uma cotovelada entre as costelas de Krieg que ficou vermelho e o mandou começar de novo, dizendo que ele podia ignorar aquele obstáculo da próxima vez. O capitão não foi contra a ideia, curiosamente.

– Eu odeio quando não entendo sobre o que estão falando. – Samuel resmungou, eram frequentes as vezes em que ele não entendia o que Damien ou Arthur estava falando, de vez em quando os dois começavam a conversar em algum tipo de código e Samuel ficava puto com isso.

– Dessa vez você não quer saber do que eu estou falando, sério. – respondeu começando a escalar a primeira rede e estendeu a mão por reflexo para Samuel quando percebeu que ele tinha ficado bastante para trás.

– É um exercício individual, palhaço! – Henry gritou antes mesmo que os dedos deles se encostassem, quando se tratava de dificultar a vida alheia Henry era muito atento.

– Me desculpe. – Damien pediu recolhendo a mão.

Samuel meneou a cabeça e bufou quando o amigo deu as costas e continuou na sua frente, Damien não tinha culpa se ele era mais lerdo que o restante dos recrutas. Continuou o circuito e teve de usar as mão para ajudá-lo a saltar alguns dos obstáculos que Damien ignorou, a àquela altura Arthur e Heiner já estavam terminando os obstáculos e competiam entre os primeiros para chegar mais rápido, ambos eram muito bons em exercícios físicos e apesar de brigarem muito tinham um espírito competitivo enorme entre si. Em compensação também competiam com as notas mais baixas nas matérias teóricas, essas que Samuel era pelo menos melhor que a maioria.

Terminou o circuito entre os últimos, mas não foi o último de todos, ainda havia dois recrutas mais gordinhos que ficaram para trás dele o que fez Samuel sentir-se extremamente bem. Foi como um level up na sua autoestima não ter sido o pior de todos, mesmo que tivesse sido a custa de outros dois coitados.

– Todo mundo fazendo flexões enquanto os dez últimos idiotas refazem o trajeto. – o capitão ordenou e os recrutas olharam para Samuel e os coleguinhas querendo mata-los, exatamente o que Henry queria ao manda-los fazer aquilo.

O capitão tinha uma estranha forma de trabalhar, porque no final todo mundo era sempre punido. Quando a maioria dos recrutas chegava primeiro eles eram acusados de abandonar os piores e pagavam por isso enquanto os ruins faziam a atividade de novo eles faziam flexões, quando a maioria tinha resultados insatisfatórios todo mundo era acusado de ser inútil. Ou seja, no final das contas se você pertencer ao batalhão do Capitão Wardraig você sempre vai ser punido, independente dos seus resultados. Acontece que quando o capitão incitava os bons a odiar os piores ele queria que os recrutas piores sofressem tanto pressão física quando psicológica, queria que eles desistissem por si próprios. Era como uma seleção natural que ocorreria hora ou outra, mas Henry adorava acelerar o processo e adorava quando Samuel sentia que ia ser linchado pelos próprios colegas.

Autoflagelação não iria adiantar de nada, deu um passo na direção do início do circuito juntamente com o restante da escória e foi obrigado a fazer de novo.

–x-

Sempre havia um curto período da tarde entre o momento que terminavam a limpeza da cozinha após o almoço e depois o horário em que começavam a esquentar a janta e era nesse tempo ocioso que os cozinheiros costumavam se sentar para jogar conversa fora ou qualquer coisa do tipo. Hans não costumava fica vagabundeando com eles porque sempre se propunha a fazer algo durante esse pequeno intervalo, não que jogar cartas fosse algo útil, mas era melhor que ficar conversando sobre mulheres com os colegas de trabalho.

– Ela tinha peitos tão grandes que quase não cabiam na minha mão. – alguém comentou e os outros rirão indecentemente em uníssono.

Hans soltou um longo suspiro e achou um dois. Puxou a carta para separá-la das outras e a colocou depois do ás em cima da mesa sobre a qual estava debruçado a alguns minutos matando o tempo com aquele jogo completamente inútil. Arqueou os olhos de repente ao escutar um barulho e avistou a poucos metros a porta da geladeira cinza inox aberta com alguém fuçando lá dentro, Hans realmente não precisaria usar como dica a ponta do jaleco aparecendo, ele já tinha certeza de quem era.

– Eu não pago impostos para você vadiar aqui na cozinha, Sven. – resmungou.

O enfermeiro se levantou vagarosamente exibindo um frasco de iogurte colado aos lábios, deu um longo e preguiçoso gole e então limpou a boca com a ponta da língua, provocantemente.

– Qual é o jogo de hoje? – perguntou ignorando as boas vindas calorosas.

– Paciência. – fitou Sven de um modo que o enfermeiro ficou indeciso por um momento se o cozinheiro-chefe falava do jogo ou do que tinha de ter para aturá-lo. – É sério, o governo vai falir desse jeito, é a terceira vez que você abre essa geladeira desde o almoço.

– Tem um cinco aqui. – apontou para a carta que aparentemente Hans procurava. – E eu não tenho culpa se sua comida não consegue me sustentar por mais que uma hora.

– Eu não tenho culpa se você não tem fundo. – rosnou. – Dá o fora daqui, seu sorriso me deixa puto pra caralho.

– Você gosta do meu sorriso. – arqueou uma sobrancelha e puxou a cadeira para se sentar.

– Não. – ele sorriu e jogou as cartas na mesa inclinando-se para ficar mais perto. – Eu gosto dos seus gemidos.

Sven levou o frasco de iogurte até a boca e deu um gole mais rápido franzindo o cenho com certa indignação, uma gota escorreu pelo seu lábio inferior até o queixo.

– Você nunca ouviu meus gemidos.

O enfermeiro costumava ser bastante discreto e simpático, diferente de Hans que podia dizer todo tipo de promiscuidade com a expressão de quem conta Chapeuzinho Vermelho para uma criança, mas quando conversava a sós com o ruivo parecia se revelar totalmente.

– Ouvi dizer que as macas da enfermaria são bastante confortáveis. – Hans levou o dedo até o queixo do enfermeiro, recolhendo o iogurte que escorria e depois o levando até a boca.

– São sim. – confirmou e deu uma risadinha em seguida encaixando uma carta em uma das sequências já parcialmente montada pelo cozinheiro. – Mas você está sabendo que eu não vou ser seu passivo, né?

Hans soltou algumas risadinhas e se ajeitou na cadeira de novo recolhendo o baralho de cima da mesa e deixando somente as sequências que já tinha conseguido, de tanto jogar aquilo ele estava começando a achar extremamente entediante, mas ter Sven ali deixava tudo um pouco mais divertido.

– De novo isso. – disse soltando um longo suspiro, não faltavam trechos na sua vida militar dos dois trocando conversas como aquela, mas nunca chegavam a fazer nada do ameaçado, porque nenhum dos dois estava disposto a abrir as pernas para o outro. – Sven, você tem que se conformar que nasceu para ser passivo, olha pra tua cara.

– Minha cara? – bufou. – Hans, você tem cachos.

– Você não tem nem barba na cara. – apontou indiscriminadamente para ele e subitamente teve uma ideia. – Tive uma ideia, vamos abaixar as calças, colocar na mesa e medir, quem tiver o pau menor será o passivo.

Sven riu com certo escárnio.

– Você é primitivo, Hans. – comentou entre dentes. – E eu não tenho pelos no rosto porque eu conheço algo chamado barbeador, a culpa não é minha se você gosta de andar por aí feito um macaco peludo.

– Ah, se gosta do meu lado primitivo iria adorar meu lado selvagem. – imitou o escárnio na voz dele, jogando duas cartas em seus devidos lugares de acordo com os números. – E eu não sou um macaco peludo, só sou mais macho que você e você não consegue se conformar.

– Você é tão macho que transa com homens, estou até me intoxicando tamanha a quantidade de testosterona ao seu redor.

– Sven, quer fazer o favor de se retirar da minha cozinha? – semicerrou os olhos.

– Eu já estava indo. – ele disse dirigindo-se até a saída do local depois de jogar a embalagem plástica do iogurte no lixo.

Hans ficou olhando ele ir embora com certa pena, porque sempre achou um desperdício que Sven não aceitasse logo ser seu passivo e também que ele usasse um jaleco que tampava as suas costas e o bumbum, que o cozinheiro-chefe não conseguia ver e já tinha passado muitos minutos da sua vida divagando quais seriam as proporções.

Havia tentado de todas as formas fazer Sven desistir, contudo o enfermeiro era muito orgulhoso e teimoso e provavelmente nunca ficaria de quatro da forma que o ruivo desejava, mas no momento tinha coisas mais importantes para fazer, o que não significava necessariamente que Hans tinha desistido. Dirigiu-se até o outro lado da cozinha para avisar ao bando de vagabundos que o horário de folga já tinha acabado quando escutou risadas altas e escandalosas vindas da porta da cozinha que Damien e Samuel atravessavam em conjunto.

– Devo lembra-los que estão em uma cozinha e não em um circo. – tinha ficado um pouco irritado pelo barulho repentino, na verdade, não exatamente pelo barulho, mas por tê-lo interrompido e pelas pessoas que o estavam emitindo.

– Me desculpe. – Damien pediu um pouco sem graça, mas Samuel permaneceu em silêncio, o que fez o cozinheiro-chefe o fitar esperando algo.

O garoto olhou fixamente nos olhos de Hans, sem mover um único músculo e então de repente arqueou uma das sobrancelhas, debochando, parecia contrariado pelo cozinheiro-chefe estar lhe repreendendo somente por ele estar feliz. Ambos os recrutas não pareciam ter tido um bom dia, mas Hans se importava? É claro que não, isso não lhe dizia respeito.

– Quer me dizer alguma coisa? – perguntou de repente fazendo Damien olhar para Samuel um pouco aflito.

– Não. – respondeu, corrigindo-se logo depois, antes que Hans o fizesse. – Não, senhor.

– Ótimo, eu odiaria escutar qualquer coisa que viesse dessa sua boca arrogante. – disse esboçando um rápido sorriso de ironia, continuou olhando nos olhos do recruta enquanto levava a mão até uma das facas no conjunto. – Principalmente quando depende tanto de mim.

Arrancou uma delas e precisou caminhar alguns passos arrastando a ponta dela em cima do mármore esbranquiçado, o ruído irritante fez alguns dos cozinheiros cerrarem os dentes e no mínimo silenciou o restante. Ficou a apenas alguns centímetros dele, curvando-se um pouco para ficar mais próximo ainda e levantou o braço fincando a faca em uma tábua de madeira em cima do balcão, mas sem tirar os olhos de Samuel.

– Porque eu não sei se percebeu, mas seus sonhos não importam aqui. – murmurou para ele e aparentemente o gesto assustador foi o suficiente para recuperar o respeito dele já que o garoto abaixou o rosto imediatamente e cerrou os punhos. – Independente do que acha que pode fazer, vai acabar na cozinha, sabe por que?

– Não, senhor. – ele respondeu roucamente, as mãos suavam.

Hans levou uma das mãos até o pescoço dele e empurrou seu queixo para cima de modo que Samuel fosse obrigado a fita-lo desconfortavelmente enquanto sentia a mão forte dele ao redor do seu pescoço

– Porque você é só um belo cachorrinho com nádegas salientes e rostinho afeminado, ladre o quanto quiser, mas jamais terá capacidades físicas para morder. – murmurou para ele, baixinho. – O exército não quer mocinhas para mandar as fronteiras, a não ser que você se encaixe em duas categorias: nos cozinheiros ou nos que divertem os soldados. Entendeu o que eu quero dizer?

– S-Sim. – ele gaguejou.

– Ótimo, então a não ser que queira abrir as pernas para um batalhão inteiro de ursos é melhor respeitar a droga do cozinheiro-chefe. – soltou-o abruptamente como se fosse apenas um saco de batatas e o recruta tossiu seco algumas vezes. – Estamos entendidos, Samuel?

– Sim, senhor, estamos entendidos, senhor. – disse mais alto para que não só Hans entendesse como todo o restante também.

O cozinheiro-chefe tinha mesmo gostado dele, do modo como era rebelde e ao mesmo tempo medroso como um cãozinho que ladra o tempo todo, mas enfia o rabo entre as pernas quando ameaçado. Samuel tinha coragem e ousadia, isso chamou a atenção de Hans, porque o que ele mais gostava era de ter cãezinhos rudes para adestrar.

– Pergunte a Damien o que fazer. – bufou voltando o olhar para o cabo da faca que ficou fincada na madeira. – Não estou afim de perder mais do meu precioso tempo com você.

Ele meneou a cabeça positivamente e seguiu o de olhos dourados, mas Hans logo voltou os olhos para ele quando o menor deu de costas. A grande parte dos recrutas ficaria no mínimo deprimida depois de ouvir algumas verdades como aquelas, ou iria a Krieg imediatamente dizer que não deseja mais servir ao diabo, mas Samuel abaixou o rosto praguejando baixinho e amaldiçoando o cozinheiro-chefe, mentalmente imaginando-o morrendo várias vezes. Uma vastidão de chamas invadiu os olhos azuis de Samuel ao mesmo tempo em que o cozinheiro-chefe mostrou um meio-sorriso, sentindo-se incitado pelo fato do recruta ter sido tomado por raiva depois de parar de tremer, um idiota, um completo idiota. Mas um idiota que tinha conseguido sua atenção, um idiota cuja expressão sedenta por qualquer tipo de vingança tomava Bursliet por uma incontrolável vontade de corrigi-lo.

O cozinheiro-chefe levou a mão até a faca fincada na tábua, mas decidiu deixa-la lá como se fosse uma bandeira fincada em uma nova terra. Caminhou por entre alguns funcionários, cujos olhares não se atreveram a fitar os olhos azul-acinzentados do cozinheiro-chefe aparentemente mal-humorado, o que poucos sabiam é que os resquícios de mal humor que haviam permanecido em sua vida desde que ele acordara havia desaparecido de repente.

– Vou fumar. – avisou cutucando um dos cozinheiros-assistentes, Addler.

– Tudo bem. – ele respondeu continuando concentrado no que fazia, como se o ruivo não fosse mais que uma mosca o cutucando e ele certamente seria alvo de alguma ofensa depois daquilo.

Hans empurrou as portas da cozinha e quase deu de cara com o enfermeiro trajado nas mesmas cores que ele. Nikolaevich o fitou surpreso e tentou desviar dele para entrar na cozinha, mas o mestre do local deu um passo ao lado e o barrou todas as vezes que ele tentou entrar. Quando o cozinheiro-chefe percebeu que começaria a dançar se continuasse fazendo aquilo segurou na gola da camisa do enfermeiro e o fitou com a mesma cara de puto que usou com Samuel.

– O jantar será servido em alguns minutos, sua serpente compulsiva. – rosnou. – Você precisa de um psicólogo, uma terapia, sei lá cara, vai se tratar.

– Em alguns minutos, eu estarei morto. – retrucou. – E eu não preciso de ajuda, preciso de comida.

O ruivo semicerrou os olhos e repentinamente levou as mãos até a barriga dele para conferir se havia gordura caindo, mas como tinha imaginado, nada disso para Nikolaevich.

– Como consegue comer tanto e continuar magro?

O enfermeiro deu alguns passos para trás com as mãos onde Hans o havia tocado, como se o cozinheiro-chefe fosse algum tipo de pessoa radioativa que lhe transmitiria câncer apenas com o contato físico. As bochechas dele queimavam em vermelhidão e ele demorou alguns segundos antes de responder, constrangido.

– Eu sei lá, devo ter um metabolismo rápido. – respondeu. – E o que está fazendo fora da cozinha?

– Não é porque eu sou o cozinheiro que tenho de ficar vinte e quatro horas na frente do fogão, lindo. – usava mais sua ironia com Sven do que com qualquer um, porque o enfermeiro detestava. – Estou indo fumar.

– Você me disse que tinha parado.

– Sven, fumar é tipo bater punheta, você fala pra todo mundo que não faz isso e diz que é errado, mas no final das contas você faz escondido com gosto. – explicou como se fosse dois mais dois.

– Você vai fumar ou se masturbar? – semicerrou os olhos.

– Fumar. – pensou um pouco. – Ou não. Você conhece Lieppert?

– Não, do batalhão do Wardraig?

– Sim. – Henry não tinha muitos recrutas então aquilo já facilitava muito. – Baixo, magro, olhos coloridos.

– Coloridos?

– Azul ou verde, não me lembro bem. – justificou-se e o enfermeiro balançou a cabeça negativamente confirmando que não o conhecia. – Então não tenho nada a dizer a você.

O ruivo passou pelo enfermeiro indo na direção dos corredores que levavam para o terraço do prédio, rapidamente puxou uma unidade do maço e levou até a boca encostando o papel seco aos lábios úmidos pela saliva enquanto os dedos procuravam aflitos pelo isqueiro. Sven estava certo, Hans não costumava fumar com frequência, às vezes conseguia passar semanas tranquilamente sem nem se lembrar da existência do cigarro, mas sempre recorria a ele quando estava ansioso demais ou com demasiados problemas. Naquele dia em questão estava ansioso, porque do fundo da sua alma queria só entrar naquela cozinha, catar Samuel pelos cabelos e tortura-lo até gozar. Mas segundo o artigo 235 do Código Penal Militar, as coisas não funcionam assim e o pobre cozinheiro precisava da fumaça para manter a mente no lugar.