Damage
40 Capítulo 40
Notas iniciais
Arthur tinha sido suave dizendo que seu colega sofria com pesadelos, mesmo Sven não tendo nenhum diploma de psicologia ou neurologia ele sabia que aquilo se tratava de um distúrbio do sono conhecido como Terror Noturno e não pesadelo. Heiner não estava só se contorcendo e gritando, o corpo dele estava em estado de pânico como se ele enfrentasse uma situação real de perigo, havia uma superativação do sistema nervoso, sua respiração e batimentos cardíacos estavam tão rápidos e massivos que ele parecia estar sobre efeito de uma boa dose de adrenalina, suas veias estavam dilatadas por causa do aumento na pressão arterial e Sven constatou que o recruta era forte, seus músculos não eram só um bonito enfeite em cima dos ossos.
– Traenkner! – não era a primeira vez que tentava acordá-lo gritando seu nome e nem seria a última, porque isso não fez nenhum efeito, teria tentado acordá-lo com as mãos, mas ambas estavam segurando seus pulsos com força contra a cama. – Não está acontecendo de verdade, Traenkner!
– Não, não, não! Eu não sou um monstro! – ele gritou. – Eu sou normal! Eu sou normal!
Sven se calou por um segundo e o fitou, Heiner parecia realmente desesperado para provar aquilo a quem quer seja, ele já tinha gritado várias coisas, inclusive pedindo para que alguém o soltasse, mas o que chamou mais a atenção do enfermeiro foi quando ele disse que não era doente, que não era doente e gritou isso várias vezes, como se tentasse convencer mais a si mesmo do que seu agressor imaginário. E ele estava se debatendo, se movia tanto que Sven sentia que a qualquer momento poderia ser acertado por ele e temia por isso quase tanto quanto temia que o recruta machucasse a si mesmo sem perceber. Estava sentado ao lado dele na cama, segurando seus braços e torcendo para que Heiner não começasse a mover as perna com tanto desespero também, no momento ele só as mexia de leve apertando os músculos e cerrando os dedos. As próprias mãos do enfermeiro já estavam suadas de tanto entrar em atrito com o recruta cuja camiseta tinha uma mancha próxima ao pescoço causada pela mesma substância.
– Eu não sou! Eu não sou! – ele gritou de novo.
– Heiner! – Sven franziu o cenho e gritou com ele também, ser paciente não estava adiantando e o enfermeiro não queria que ele piorasse a situação do tornozelo, estava quase entrando em desespero junto com ele. – Pare com isso!
Soltou um dos pulsos dele e levou até seu rosto, no exato momento em que fez isso a mão do recruta voou até seu pescoço, começou a arranhá-lo como se Sven o atacasse. O enfermeiro gritou o primeiro nome dele mais uma vez e segurou seu rosto próximo ao seu próprio até que Heiner abriu os olhos, eles estavam molhados e suas pupilas estavam dilatadas. Contudo, mesmo tendo aberto os olhos ele não estava totalmente acordado, fitava o enfermeiro com tanto medo que Sven por um momento se sentiu mal, porque parecia que era ele mesmo quem o atacava e o feria.
– Fique longe de mim! Eu não sou um monstro! Eu não sou! – ele o arranhou com mais força e quando percebeu que isso não fazia efeito tentou empurrá-lo para longe.
– Você não é! Heiner, você não é um monstro! – gritou para ele enquanto o recruta resmungava algo baixinho e soluçava.
Ele cessou os movimentos de repente, sua mão livre caiu no colchão e ele virou o rosto em direção a porta e o manteve deitado de lado no travesseiro, mesmo que seus olhos tivessem passado por toda a enfermaria e não encontrado nada ele ainda respirava em grandes bufadas com a boca aberta e tremia. Estava tremendo tanto que não conseguiria segurar nenhum objeto se Sven lhe entregasse um. Ficou assim por alguns minutos, como que recobrando a consciência, acordando todas as áreas do cérebro e trazendo à tona a razão, mas continuou apavorado, em estado de choque e terror. O enfermeiro nunca esqueceria da expressão dele naquele momento.
– Eu sou sim. – ele balbuciou quando seus olhos encontraram os do enfermeiro.
Ele parecia acordado o suficiente, mas Sven não o soltou, porque ficou chocado com o fato de que a razão tivesse concordado que o recruta não passava de uma aberração, um monstro nojento. Não queria acreditar que Heiner estava dizendo aquilo em plena consciência. Afastou a mão que o impedia de se aproximar, agora que tremia e soluçava o recruta parecia tão fraco quanto um gatinho, diferente de quando estava em pânico agora ele só tinha sido dominado pelo medo. Se conformado.
– Não. – respondeu, em tom alto o suficiente para parecer estar se impondo. Abraçou-o. – Você não é.
Heiner obviamente não retribuiu seu carinho, colocou as mãos em seu peito e tentou afastá-lo, mas o enfermeiro o apertou contra seu corpo e em algum momento ele desistiu de lutar contra Sven e ficou imóvel. Contudo isso não queria dizer que ele o tinha aceitado, Heiner não o abraçou de volta e nem se dispôs a afundar seu rosto no ombro do enfermeiro como qualquer pessoa que estava com tanto medo quanto ele faria.
– Está tudo bem. – ele disse ao perceber isso, mas não o deixou perceber que ficou um pouco frustrado. – Você não vai ser menos homem se me abraçar.
O recruta se moveu de leve, hesitou, a afirmação teria sido vaga o suficiente para lhe arrancar gargalhadas e escárnio, mas naquele momento sentia-se tão apavorado que se Sven podia protege-lo dos seus demônios então acreditaria naquilo com tanta fé quanto podia. Permitiu que suas mãos se levantassem e escorressem pelas costas dele, timidamente, mas uma vez que permitiu a si mesmo receber o calor e o carinho do homem então expulsou qualquer vergonha e apertou o pano branco do jaleco dele entre seus dedos e afundou o rosto no ombro dele até que sentisse que realmente nada podia feri-lo. E funcionou.
– Me desculpe. – murmurou tão baixo que talvez Sven só tivesse escutado porque seu rosto estava próximo ao dele. – Por favor, me desculpe.
– Não me peça desculpas, você não fez nada errado. – respondeu, embora seu coração não tenha batido tão rápido quanto o dele ainda assim bateu rápido, não por medo, mas por euforia, pela realização de tê-lo daquela forma, só para si de um jeito que pensou que só existiria em seus sonhos.
– Eu estou com medo. – ele sussurrou, interrompendo-se por um segundo com um soluço que precedia as lágrimas que ele não queria derramar, e não permitiu-se derramar. – Eu não quero ficar com eles, eu não sou como eles.
Apertou o enfermeiro com mais força, o cheiro dele era tão suave quanto sua voz, o acalmava e inspirava segurança. Heiner poderia ter tentado se lembrar das vezes que foi abraçado daquela forma, poderia ter inventado alguma memória falsa para se sentir mais confortável e para preencher o vazio, mas esse momento não existia, porque ele nunca havia sido abraçado daquele jeito por ninguém. Talvez alguém já tivesse tido a intenção, mas nunca a oportunidade.
– Por favor, não deixe eles me levarem. – ele soluçou de novo, Sven podia sentir o coração dele batendo tão forte em seu peito que por um momento quis toma-lo para que o garoto não o sentisse doendo mais. – Eu quero ficar aqui, quero ficar aqui com você, eu não sou um monstro.
– Você vai ficar aqui comigo, não vou deixar ninguém levar você, Heiner. – respondeu imediatamente, mesmo sem saber de quem e do que ele estava falando.
O recruta se moveu de leve, podia sentir a respiração de Sven em seu pescoço e aquilo o fazia se arrepiar, conseguia sentir o calor dele o envolvendo, o movimento do seu peito conforme seus pulmões se enchiam de ar, tudo aquilo fazia Heiner se sentir estranho, fazia as pontas dos seus dedos formigarem e o fazia ter vontade de colocar seu rosto no peito do enfermeiro e dormir ali mesmo, porque acima de tudo aquilo o fazia se sentir seguro, o fazia se sentir querido e amado de uma forma que ele provavelmente nunca foi. Soltou o enfermeiro e se afastou dele de leve, não porque o queria longe, naquele momento queria Sven tão perto de si que podia apertá-lo até que o homem dissesse que era o suficiente, mas porque queria ter certeza.
– Você promete? – indagou, mais alto que anteriormente, ainda tremia e hesitava a cada movimento ou mesmo piscar de olhos.
Sven o fitou por alguns segundos, Arthur o tinha dito para tratar Heiner como uma criança, mas naquele momento ele realmente pareceu com uma, embora o enfermeiro tivesse tido uma pontada de vontade de trata-lo como adulto. De beijá-lo. Os olhos dele brilhavam misturando lágrimas acumuladas e a cor da esperança que ele deixava derramar na voz, seus lábios entreabertos ainda esperavam uma resposta e a expressão cansada e triste parecia só querer algo que nunca havia lhe sido dado na vida, ou talvez lhe tivesse sido arrancado ainda na tenra idade. O enfermeiro sorriu de leve, Heiner não reagiria se ele o beijasse naquele momento e talvez nem mesmo se lembrasse do evento, pessoas que sofrem de Terrores Noturnos comumente não se lembram dos episódios sofridos, mas estaria sendo covarde, estaria se aproveitando de um momento de fraqueza do recruta. Estaria se aproveitando da sede de atenção e carinho que ele tinha.
– Eu prometo. – respondeu. – Você pode voltar a dormir se quiser, eu vou estar aqui com você e não vou deixar ninguém leva-lo embora, certo?
Ele meneou positivamente, dessa vez sem hesitar em fazê-lo, porque confiava em Sven. As mãos dele deixaram o vazio e dirigiram-se até o travesseiro de novo, quando se sentiu confortável o suficiente ele fechou os olhos, mas não dormiu imediatamente, ainda ficou acordado por mais alguns minutos para sentir as mãos de Sven trazendo o cobertor até a altura do seu pescoço de novo e depois dando uma leve volta por cima da sua bochecha. Heiner não o impediu de tocá-lo daquela forma, em qualquer situação teria feito isso e teria ficado muito bravo, mas Sven o fez de uma forma que pareceu algo tão bobo e agradável que estaria sendo um idiota se o repreendesse.
Em alguns minutos adormeceu de novo, sem mais pesadelos ou terrores naquela noite.
–x-
Surpreendeu-se ao perceber que sua mão procurava por um calor que já o tinha deixado a algum tempo. Esfregou os olhos e trouxe-a para dentro do casulo que tinha feito com o cobertor de novo, mas somente o calor dali parecia estranhamente não ser o suficiente, parecia estar faltando alguma coisa ao seu lado, talvez alguma sensação de segurança que não se recordava de onde tinha vindo, mas se lembrava de ter sido realmente agradável. Talvez um sonho.
Avistou Belshoff sentada à mesa folheando uma revista sobre ciências e tecnologia, o jaleco dela escorria pela cadeira e as pernas cruzadas davam uma visão que provavelmente qualquer recruta queria ter, mas aquilo não pareceu importante no momento, não chamou sua atenção, se é que alguma vez já tinha verdadeiramente chamado. Virou-se para o outro lado e fitou as outras camas, Heiner gostava de vê-las daquele jeito porque elas o lembravam do quarto onde viveu toda sua vida. Embora seus colegas mudassem periodicamente as camas continuavam sempre no mesmo lugar e elas eram a única certeza que o recruta tinha dia após dia. Elas e sua presença ali, porque Heiner era como as camas: nunca saiu de verdade daquela instituição.
A medida que crescia e formava laços de amizade com as outras crianças elas logo ganhavam uma família e iam embora. Foi assim com Miguel. A família dele tinha morrido em um incêndio e seus familiares não quiseram ficar com ele, mas mudaram de ideia cinco meses depois e apareceram para leva-lo embora. Foi esse o tempo que passaram juntos: cinco meses, e foi o suficiente para que ambos chorassem rios quando foram separados. “Eu vou voltar para te ver todos os meses, então não chore”, foi o que ele disse e Heiner esperou. Ele realmente esperou, todos os dias olhava pela janela e torcia para que Miguel estivesse lá fora, então repetia para si mesmo quando não o via que ele devia ter se esquecido, mas que algum dia iria se lembrar então teria de implorar pelo seu perdão e depois os dois ririam daquilo juntos, acreditava naquilo com tanta força quanto uma criança que nunca teve ninguém para se apegar podia acreditar. Mas ele nunca mais apareceu e Heiner quis odiá-lo, mas toda vez que se lembrava dele ficava triste e não conseguia odiar Miguel, não importava o quanto tentasse.
O recruta não sabia o que era ter uma família, então nunca se importou verdadeiramente por não ter uma, tinha sido criado em um orfanato e estava tão acostumado com ele quanto conformado. Gostava de correr pelas escadas com uma turma de moleques, e de ter sempre muitas pessoas com quem dividir a bronca, mas quando chegou na adolescência percebeu que todos os garotos e garotas que tinham sido criados com ele não estavam mais ali, tinham ganhado uma família e ido embora. Toda criança que vive em um orfanato sabe que nenhuma família adota adolescentes, quando se completa 15 anos e ainda não se tem uma então qualquer esperança é desnecessária. Não importa o quão bom você seja ou tente ser, se acharem que você é velho demais e não vai se acostumar com uma nova vida então não vão sequer te dar atenção. Mas também não importa o quão inteligente ou esperto você seja, nessa idade você sempre arruma um jeito de ter esperanças.
Alessandra acreditava que seria adotada por uma família de velhinhos que nunca tiveram filhos, porque em idade avançada as pessoas sempre percebem que precisam de alguém para cuidar deles. Ela olhava para Heiner durante o almoço e dizia “Você vai ver, eles vão aparecer, vão ser muito velhos e não vão me amar de verdade, mas vão ser a minha família e eu vou ganhar um sobrenome de verdade”. Antony dizia que seria adotado por um casal de lésbicas. “Faz todo o sentido. Duas mulheres não podem ter filhos, mas elas tem essa coisa de instinto materno e quando baterem o olho em mim verão o filho em potencial que sou”, e Heiner ria de todos eles, mas secretamente tinha esperanças de que sua mãe biológica um dia percebesse que foi um erro abandoná-lo e então voltasse para busca-lo. Talvez fosse ele quem sonhasse mais que todos os outros.
Nenhum deles saiu de verdade do orfanato, Alessandra foi adotada com 16 anos, mas foi devolvida depois de dois meses porque confessou que seu pai adotivo estava abusando dela. Ela nunca mais disse que queria uma família depois daquilo e com o tempo pararam de se preocupar com isso, afinal, faltava tão pouco para saírem daquele lugar. Heiner não tinha um sonho, sempre decidiram tudo para ele e foi cruel pensar que de repente ele estava sozinho no mundo e que não tinha nada para se apoiar e nem um lugar para onde ir. O exército pareceu o lugar mais interessante, porque era um lugar onde estaria rodeado de colegas de novo e não precisaria fazer nada além de obedecer seus superiores, não tinha que tomar decisões e nem ter esperanças de que alguém ia aparecer e salvá-lo. Para alguém que já tinha desistido da vida uma vez aquela opção pareceu mais que perfeita.
E pareceu certo servir à única coisa que o quis durante toda a sua vida: o governo.
– Qual vai ser o próximo turno do Tenente Nikolaevich? – perguntou para Belshoff, ela tinha dito que não queria ouvir a voz dele, mas ter aquela resposta era importante o suficiente para fazê-lo desafia-la.
– Amanhã, durante o dia. – ela respondeu depois de alguns minutos que fizeram Heiner quase ficar impaciente.
Provavelmente ele estava dormindo naquele momento, tinha passado a noite inteira acordado, afinal. Semicerrou os olhos e sentiu algo estranho, sentiu que faltava algo entre as suas mãos, que faltava calor. Esforçou-se para lembrar. Tinha dormido antes de ver Sven e como só acordou naquele momento então realmente não o tinha visto. Não. Tinha tido um pesadelo, não se lembrava de detalhes dele, mas lembrava-se que Amélia estava nele e se lembrava da sensação horrível, se lembrava de estar completamente apavorado e com medo...e se lembrava de Sven. Suas bochechas ficaram vermelhas e seus lábios entreabriram-se de leve, de repente algumas memórias sórdidas voltaram a sua mente, ele tinha abraçado Sven e tinha feito isso com tanta força que ainda podia sentir o jaleco entre seus dedos e o cheiro mentolado do enfermeiro em seus lábios. Não se lembrava do que tinham dito um ao outro, mas sabia que tinha afundado seu rosto no ombro dele e sabia que naquele momento tinha se sentido tão confortável que nem ao menos se preocupou com o que fazia. Com o quão estranho isso era.
– Que droga. – sussurrou baixinho para si mesmo, irritado, não com Sven, mas consigo mesmo por ter se permitido ser tão idiota.
Mas era Sven, e não tinha sido nada demais, só o tinha abraçado, isso não podia significar algo. Só estava com medo e como enfermeiro ele o tinha acalmado. Não. Não importava com quanto medo estivesse, não devia ter cedido tão facilmente, não devia tê-lo deixado tocá-lo daquela forma. Levantou-se e se sentou na cama, esfregou o rosto com força, mas não conseguia tirar da pele aquela sensação de tê-lo, não conseguia odiar aquilo. Não conseguia odiá-lo.
– Você está bem? – Belshoff arqueou uma sobrancelha.
– Sim, só preciso de um banho. – respondeu pegando algumas roupas dobradas no criado mudo ao lado da cama e a toalha que tinha desleixadamente pendurado na cabeceira da cama.
A enfermeira o fitou com certa desconfiança enquanto ele mancou até o banheiro e ameaçou dizer alguma coisa duas vezes, mas acabou desistindo e seja lá o que fosse sair da boca dela Heiner fechou a porta atrás de si antes de ouvir. Não estava interessado.
Encostou-se à parede e começou a se despir, seu tornozelo estava melhor agora, faltava pouco para completar uma semana desde que o tinha torcido, logo poderia ir embora e com sorte nunca mais veria Sven de novo. Não costumava ser sortudo, mas queria muito que não tivesse mais de ver o enfermeiro, principalmente depois de tê-lo abraçado daquele jeito. Enfiou a cabeça embaixo da água e deixou-a molhar todo o seu corpo, torceu para que o líquido levasse embora qualquer cheiro e sensação que restavam do enfermeiro em seu corpo, qualquer vestígio que o lembrasse, porque não conseguia deixar de se sentir confortável ao lembrar de Sven e nem de considerar aquilo tão errado que o fazia enojar-se consigo mesmo.
Enxaguou todo o corpo, molhou os cabelos e esfregou as mãos no rosto sentindo-o áspero, já tinha algum tempo desde que tinha feito a barba pela última vez e logo os fios estavam apontando para fora da pele. Se estivesse treinando Wardraig já o teria virado ao avesso em punições só por causa daquilo. Resolveu deixar daquele jeito mesmo, já estava com saudade de ser acusado de transgressão disciplinar, já estava com saudade de discutir com Damien e levar uns socos de Arthur depois do banho. Deixou as costas escorregarem pela parede e quando percebeu estava sentado no chão, fitando a água que caía em cima das suas pernas e descia até o ralo tão rápida e energeticamente que mais pareciam pequenas crianças deslizando por um escorregador até uma grande piscina. Soltou um longo suspiro e olhou para cima, depois riu de si mesmo, por achar que alguma solução cairia do céu e de repente tudo estaria resolvido.
Se Heiner parasse para pensar por um segundo perceberia que não tinha um problema, que era idiota ficar refletindo sobre aquilo quando poderia simplesmente se entregar aos seus sentimentos e ser feliz da maneira que o deixava assim, mas aquele tipo de felicidade nunca deixou de ser errado para Heiner, talvez quando ele era uma criança isso não tivesse feito muito sentido e ele não tivesse entendido porque Amélia o castigava, porém uma vez que a informação chegou até sua consciência ela se instalou em seu peito como um parasita doloroso, que matou lentamente sua personalidade e o tornou tão retraído a ponto de se odiar pelo que era.
Olhou para as próprias mãos, nem ao menos tinha notado o quão quente a água estava até perceber que a pele estava irritada e vermelha e também que todo o banheiro transbordava vapor. Desejou que seus sentimentos fossem como a sua pele, que pudessem ser totalmente renovados apenas com água quente e também desejou que quando saísse daquele banheiro Sven não existisse mais, porque preferia viver toda uma ilusão heterossexual do que admitir que gostava de outro homem, gostava tanto que mesmo depois de esfregado com sabão inúmeras vezes seu corpo ainda se lembrava de como era ser abraçado por ele. E não conseguia odiar a sensação.
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