Damage

39 Capítulo 39


Notas iniciais
Olá pessoas, venho hoje trazer para vocês um jogo indicado pelo meu amigo Bob... Naum, pera. Q Tô postando hoje porque não postei no sábado e muito possivelmente terá capítulo na quarta porque estou inspirada de repente, se eu não resolver atrasar de novo. -Q E QUINTA E SEXTA NÃO TEM AULA PRA MIM, AEAEAEAEAEAE! #feliz #mebeja #darocuébom #quemvêMrPoladofulbateaqui #o/

Sven estava escrevendo alguma coisa. Ele sempre estava escrevendo. Heiner ficou alguns minutos imaginando se aquilo tudo eram relatórios, mas obviamente não eram, ninguém tinha que escrever tantos assim. Levou os olhos das mãos dele até seu rosto, desde que inha saído para entregar um suposto relatório a Henry ele estava daquele jeito. Heiner podia ser um idiota, mas tinha boas percepções sobre linguagem corporal, os ombros de Sven estavam levemente caídos, como se ele estivesse cansado, os olhos não se abriam ou brilhavam tanto quanto antes. Seus movimentos pareciam sem magia, diferente dos que fizeram Heiner sonhar com bonequinhos saindo do papel como um perfeito drogado.

– Você está bem? – indagou subitamente.

O enfermeiro parou de repente e demorou mais do que o usual para se virar e fitar o recruta.

– Sim, claro. – ele sorriu de leve, mas não pareceu tão verdadeiro.

Mesmo tendo passado tão pouco tempo com ele era impossível não perceber que Sven sorria espontaneamente de uma forma que Heiner nunca viu um militar sorrir, ele tentava ser simpático, conquistava a confiança das pessoas assim e não aplicando punições severas e enfiando sua patente goela abaixo dos praças. Quando uma pessoa sorri muito você percebe quando ela está feliz ou não, você percebe quando ela só sorri por obrigação.

– Está mentindo, aconteceu alguma coisa? – franziu o cenho, mas não para Sven, na verdade para si mesmo, por se pegar tão curioso a respeito do que afligia o enfermeiro quando não deveria se importar.

– Não, eu...eu... – ele relutou, largou a caneta em cima da mesa e direcionou sua atenção ao recruta. – ...você realmente acha que os homossexuais são doentes?

– O que? Está bravo com o que eu disse? – realmente não tinha considerado aquilo, mas fazia algum sentido agora. – Eu só continuei porque você concordou, se tivesse me mandado calar a boca eu teria calado.

– Eu não mando as pessoas calarem a boca, eu gosto de saber o que elas pensam, na maioria das vezes. – Sven não costumava discutir com pessoas de opinião contrária a sua, apenas as escutava e relevava. – É isso o que você pensa?

– Sim, é o que eu penso. – semicerrou os olhos e fitou o rosto do enfermeiro. – Por que está tão preocupado? Por acaso é gay?

– Não, só estava curioso. – mentiu e se pegou surpreso por fazer isso, não costumava mentir daquele jeito, principalmente sobre a sua sexualidade, mas no momento não ser odiado por Heiner pareceu mais importante do que ser honesto.

– Porra cara, que bom, você me assustou. – suspirou com certo alívio exagerado.

Sven riu de leve e juntou os papéis que estavam em cima da mesa ao perceber que estava quase no horário em que seu expediente diário acabava. Estava surpreso consigo mesmo, e decepcionado também, porque estava mudando seus hábitos somente para que Heiner não o odiasse, para ter a aprovação dele. Não gostava de mentir, muito menos de fingir ser heterossexual, fazer algo de que não gostava somente para agradar alguém...aquilo o preocupava. Riu de leve para si mesmo enquanto juntava suas coisas, com um pouco de desespero. Não, não, não.

– Meu turno será o da noite amanhã, então quem vai ficar aqui contigo durante o dia será Belshoff.

– Belshoff? – tentou se recordar. – Aquela que tem cabelos encaracolados?

– É, ela mesma. – respondeu.

– Bom, não te digo que será um dia triste. – o recruta disse com certo sarcasmo.

– Não...ela é...muito bonita.

Heiner deu um meio sorriso e gesticulou alguns seios grandes no peito, até entreabriu os lábios para dizer algo, mas Arthur e companhia apareceram na porta antes que ele dissesse algo. Sven ficou imensamente agradecido a eles, porque de forma alguma queria ouvir o que Heiner ia dizer sobre os seios da enfermeira.

– Cara, eu realmente espero que o primeiro-tenente faça você sofrer depois de ficar aqui na vida boa por tanto tempo. – Arthur resmungou, embora sorrisse para o amigo quando entrou, prestou continência para o Tenente no recinto e depois se dirigiu até Heiner. – Senhor.

– Astrophel. – meneou a cabeça de leve cumprimentando o louro e os outros três. – Bom, já está na minha hora, Barth deve ter se atrasado, mas fiquem a vontade.

O enfermeiro despediu-se e abandonou a enfermaria, embora Heiner tenha ficado um pouco incomodado com a pressa que demonstrou, o que não era usual, pois sendo ele amigável até demais o recruta achou que ele fosse ficar ali mais um pouco e jogar alguma conversa fora com os três idiotas. Fitou a porta por alguns instantes refletindo se Sven realmente não tinha ficado irritado com o que disse, não queria mudar sua opinião só por causa dele, mas também não queria que Sven ficasse fugindo dele daquela forma como se Heiner fosse mordê-lo com força.

– Hey, Heiner. – Damien passou a palma da mão na frente dos olhos do amigo algumas vezes para acordá-lo do que parecia um transe. – Acho que ele está apaixonado.

– Claro, pelo meu pau, obviamente. – rosnou após escutar o comentário idiota.

– Não seja ranzinza, eu estava brincando. – Damien respondeu franzindo o cenho de leve. – Que seja, como você está? Quando vai poder voltar para a tortura?

– Eu estou bem, acho que já poderei correr ao redor do pavilhão daqui uma ou duas semanas.

– Isso é muito tempo, me desculpe, sério, se eu tivesse guardado aquela vassoura como você mandou então...

– Não, tudo bem, não foi culpa sua, eu deveria ter sido mais atencioso. – disse a ele e por um momento o garoto sorriu de leve, um pouco aliviado, porque esperava que Heiner o xingasse com todas as forças.

O próprio recruta se surpreendeu um pouco ao dizer aquilo, mas tinha chegado à conclusão de que Sven tinha razão, Samuel jamais faria algo daquele tipo apenas para vê-lo machucado e ofendê-lo não faria nada a não ser fazer o garoto se sentir mal. Embora também não fosse haver nenhum lucro em não fazê-lo se sentir mal.

– Mas então, o que vocês tem a me dizer sobre o idiota correndo até o infinito? – indagou mudando de assunto quando nenhum dos três presentes disseram alguma coisa.

– Foi incrível, você perdeu. – comentou Arthur.

– É, foi tão incrível que ficamos mais de meia hora fazendo flexões no frio por causa dele. – Damien retrucou demonstrando sua insatisfação com o acontecido. – E depois o Arthur discutiu com o capitão, isso sim foi cômico.

– Ele vai te açoitar até ver seu sangue. – Samuel murmurou sorrindo de leve para o louro.

– Não diga isso, olha como ele ficou animadinho. – Heiner disse e riu com Damien e Samuel, sem saber que nenhuma mentira foi dita durante aquela conversa.

– É só falar em dor que os olhos dele brilham. – Samuel completou. – Mas como soube dessas coisas?

– Nikolaevich me contou.

– O Tenente? – Damien arqueou uma sobrancelha. – Ele parece ser uma pessoa legal.

– Ele é um cara legal. – confirmou.

– Tem certeza que bateu o tornozelo e não a cabeça? – Samuel perguntou com certa ironia.

– Vocês que se enganam quando pensam que eu odeio todo mundo.

– Eu sei que você não odeia todo mundo. – disse Arthur. – Só odeia metade, a outra metade você despreza.

Heiner deu uma risada sarcástica enquanto o louro ria com escárnio juntamente com Damien e Samuel. Eles ficaram ali mais um pouco, conversando sobre nada importante mas ao mesmo tempo tudo o que aconteceu no dia, e no final de semana também. Damien nunca tinha histórias muito interessantes e por isso não as compartilhava com frequência, mas Heiner, se tinha alguém que aproveitava bem as boates e bares daquela cidade esse alguém era ele e o recruta não falou por menos de dez minutos sobre como estava desesperado, porque sem esse último final de semana ele já estava a duas semanas sem fazer sexo e como provavelmente não poderia sair nos próximos até seu tornozelo melhorar já estava sofrendo de agonia antecipada.

Eles foram embora só um pouco depois que Barth chegou e Heiner foi obrigado a ficar com a velha ali sozinho, no entanto mal sabia ela que aquele recruta era diferente dos outros que sentiam a negatividade dela. Heiner tinha dentro de si mais negatividade do que Barth podia incitar nas pessoas ao seu redor e ela não o afetava. Algumas pessoas dizem que se você for picado pela mesma cobra inúmeras vezes um dia será imune ao efeito do seu veneno e Heiner já tinha aprendido a lidar com a frustração e desespero tão bem que Barth era somente doce.

–x-

Quando acordou no outro dia nem conseguiu acreditar, quase pensou que tinha morrido de alguma forma. A Tenente Belshoff era exatamente como os rumores que circulavam pelo quartel diziam, de estatura média e cabelos negros, embora estivessem presos no coque padrão do exército, era magra, mas não demais, tinha curvas por todo o corpo e seios tão fartos quanto tinham lhe dito. Seus olhos eram castanhos e os rumores talvez não lhe fizessem jus. Heiner até se arriscou em cumprimenta-la, mas logo que olhou na direção dela e abriu a boca a mulher franziu o cenho e disse “Eu sou uma enfermeira mas ainda sou sua superior. Não converse comigo, não olhe para mim, nem sequer pense em mim. Caso contrário eu serei obrigada a sedá-lo até o fim do expediente” ela ameaçou e pareceu bastante convincente, ainda acrescentou “Sven pode conseguir ser simpático com qualquer babaca, mas eu não, então guarde o que quer que tenha para reclamar e diga a ele depois”.

Os dois realmente não conversaram o dia todo e o silêncio foi tanto que chegou a ser constrangedor, mas aquilo pareceu não incomodar a mulher então Heiner logo se ocupou com alguma inutilidade no celular. Poderia estar mandando mensagens para alguém, mas considerava aquela uma atitude demasiada chata e ele também não tinha para quem mandar mensagens, já que seus únicos e atuais amigos estavam todos treinando no pátio. Ficou por alguns segundos jogando e então veio a sua mente uma questão com a qual ele não deveria se preocupar. Belshoff tinha dito “Sven” e considerando que Barth era uma mulher, ou pelo menos todo mundo dizia isso e Heiner nunca ousou perguntar, esse nome pertencia a Nikolaevich, o enfermeiro que o recruta até então só conhecia pelo sobrenome russo.

De alguma forma pareceu importante, mesmo que por um curto segundo, o fato de Heiner possuir conhecimento do primeiro nome do enfermeiro. Sven. Se lembra-se bem aquele era um nome de origem nórdica, escandinava, e o enfermeiro realmente se parecia um pouco com esses povos. O Tenente tinha quase a mesma altura que Heiner, mas obviamente as proporções dos dois corpos os separavam em idade e genética. O recruta ainda possuía formas recém adquiridas com a puberdade, enquanto Sven já havia saído completamente dela há alguns anos atrás e ganhado formas mais adultas, ombros mais largos, peito mais cheio e mãos maiores e mais firmes. Os pêlos faciais também tinham se firmado onde deveriam no rosto dele, enquanto Heiner possuía alguns fios perdidos pelas bochechas. Não importava como olhasse, Sven parecia um adulto e Heiner um adolescente, embora o recruta fosse bastante masculino se comparado mesmo a Damien que não era tão afeminado.

Heiner nunca o tinha visto sem o jaleco que cobria seu tronco, mas ele tinha braços fortes e o recruta apostava que o restante do seu corpo era assim também. Se não fossem pelas roupas brancas e a expressão suave e sorridente ele teria a aparência perfeita para ser um oficial tão assustador quanto Krieg. Mas não era. Embora tivesse força o suficiente para machuca-lo Heiner sentia que não deveria recuar a ele, porque era impossível que Sven o machucasse ou mesmo fosse deixar algo ruim acontecer com ele. Se os recrutas obedeciam Krieg por medo dele, Heiner apostava que podia obedecer o Tenente somente pela confiança depositada nele e na necessidade de deixa-lo orgulhoso.

Parou de jogar quando morreu pela terceira vez. Olhou para o teto, branco, vazio. Alguma vez na sua vida ele já tinha olhado para uma cena igual e imaginado se o teto não estava refletindo seu interior. Ele não era vazio e nem branco, mas era tão confuso que parecia exatamente um disco de Newton: cheio de cores vibrantes, mas quando todas eram colocadas em movimento corrompiam umas às outras até sobrar somente o branco. Ou como uma multidão gritando várias perguntas ao mesmo tempo para uma mesma pessoa, no final ela não tinha a resposta para nada. Bem, Heiner tinha tentando entender o que se passava na sua cabeça algum tempo atrás, mas não havia funcionado, havia sido doloroso. Não só para ele, não se importava em sentir qualquer dor sozinho, mas não gostava quando as pessoas a sentiam também.

Sven parecia mal no dia anterior e Heiner não conseguia descobrir o que é que tinha feito para que o enfermeiro ficasse daquele jeito. Ele estava tão decepcionado. Heiner podia não se contagiar com a felicidade ou amargura alheia, mas a tristeza o atingia, principalmente quando vinha de alguém próximo. Pensou por um segundo e se repreendeu. Sven não era alguém próximo, era somente um conhecido e de forma alguma deveria estar tão preocupado com ele. Ele era só seu superior e na verdade tinha sido errado conversar tão naturalmente com o enfermeiro como vinha fazendo. Bufou e se virou na cama, enfiando a cabeça no travesseiro. Gostava de Sven, mas não queria gostar demais, não podia, devia parar logo de ser tão amigável com ele ou logo estaria encrencado de novo.

Olhou para o relógio e constatou que faltavam apenas alguns minutos para que ele chegasse para cumprir seu turno da noite, era mais fácil que o turno dele fosse o da noite, assim mesmo que não estivesse com sono podia só fingir estar dormindo. Essa era a única solução, não queria ser mal educado ou agressivo com ele porque sabia que ficaria sem graça e não podia simplesmente ignorá-lo. Só não podia se envolver mais com ele, não devia se preocupar com o humor dele, Sven não deveria passar de um detalhe na sua vida.

Fechou os olhos e tentou adormecer, mas estava cedo demais e sua cabeça estava cheia demais, só ficou ali imóvel por alguns minutos, pensando em coisas aleatórias. Belshoff só saiu depois de cumprimentar Nikolaevich e trocar algumas palavras com eles, os dois não pareciam muito próximos, mas eram no mínimo amigos. Ele perguntou por Heiner e a mulher respondeu que estava bem e que estava dormindo a algum tempo, se houve alguma reação por parte dele então Heiner não a viu, seus olhos permaneciam fechados. Escutou-o suspirar e então se sentar à mesa, colocando algo sobre ela que o recruta identificou depois como sendo um notebook, graças ao barulho seco das teclas tocando os dedos dele. Digitava rápido, provavelmente fazia isso com frequência, seus olhos nem sequer saíam da tela, pois os dedos já sabiam exatamente onde estava cada letra.

Também sentiu cheiro de café, Sven precisaria mesmo dele se iria ficar acordado ali a noite toda, digitando. Mesmo chegando à conclusão de que estava sendo infantil ao fingir estar dormindo, o recruta acabou realmente caindo em sonhos depois de longos minutos imerso em preguiça e receio. Heiner sempre tinha sonhos surreais e bem definidos, ou eles eram coloridos, alegres e gritantes ou eram negros, tristes e atormentadores. Não havia meio termo, ou era bom ou era ruim, simples assim. Mas havia ainda as vezes em que ele não se lembrava das ilusões onde tinha vagueado durante o sono e essas eram com certeza suas preferidas, porque preferia simplesmente não recordar de qualquer coisa estranha que tenha sido criada em seu subconsciente.

Alguma coisa bateu em seu ombro e depois caiu no chão, quicou.

– Haha, muito engraçado Sven. – resmungou, sem entender ao certo qual tinha sido a intenção do enfermeiro.

– Quem é Sven? – uma voz masculina lhe perguntou, mas não era obviamente o enfermeiro.

O Tenente tinha voz suave e baixa como uma canção de ninar, acolhedora. A que Heiner tinha escutado era alta, tão cheia de energia que acabava transbordando nas palavras e tornando-as um pouco arrogantes. Abriu os olhos imediatamente e olhou para o que estava a sua frente, era chão de madeira escura, o sol que batia nas janelas projetava um retângulo deformado com riscos nela e tornava possível a visualização de pequenas partículas de pó no ar. Havia mais camas, três depois da sua, todas cobertas com lençóis azul-claro, todos novos. Heiner puxou o que cobria seu próprio corpo, de todas as cinco camas naquele quarto a sua era a única que estava coberta com um lençol que possuía um rasgo em uma das pontas, porque certo dia ele e seus colegas de quarto tiveram a brilhante ideia de brincar de cabo de guerra com ele e acabaram rasgando-o.

Sentou-se na cama, as paredes eram pérola, embora certos cantos tivessem sido decorados com adesivos de carros que Rafael achou interessante colar ali e outros ainda que Christopher rabiscou com palavrões e desenhos de aves saltando de gaiolas. O cheiro de morango que exalava de Antony também parecia sempre impregnado no quarto, o garoto era o mais gordinho da turma e estava sempre comendo algum doce, este que em 99% dos casos tinha aroma artificial de morango. Heiner e Miguel costumavam tirar sarro do garoto, dizendo que ele já tinha consumido tanto aromatizante sintético que o corpo dele começou a recriar o aroma em glândulas específicas na grande barriga dele. Antony sempre se desesperava e começava a revirar as dobrinhas para conferir se não havia nada estranho ali.

– Você não respondeu minha pergunta. – a voz cheia de vida tornou a dizer, daquela forma que só Miguel conseguia falar.

– Foi mal, não converso com traidores. – respondeu, mas mesmo tentando se igualar ao tom dele Heiner não conseguia passar de uma criança irritada.

A bola acertou sua cabeça com força dessa vez, Heiner a agarrou e jogou de volta no garoto, mas ela foi com bem menos força do que deveria e atingiu nada mais que o chão, fazendo Miguel cruzar os braços e soltar aquele “tsc” presunçoso com os mesmos lábios que chamavam o recruta de “Baixinho” e o tiravam do sério. Ninguém o tirava mais do sério que Miguel. Heiner olhou para as próprias mãos, estavam tão pequenas quanto o restante do corpo, porque de repente ele tinha doze anos de novo.

– Você é tão imprestável que não serve nem para me acertar nessa distância. – ele disse semicerrando os olhos, eles eram castanhos, combinavam com os cabelos espetados de mesmo tom.

– Dê o fora daqui, criança chata. – bufou para ele, Miguel era dois anos mais jovem que Heiner e mesmo com tão pouca diferença ele insistia fortemente em esfregar isso na cara do colega sempre que este o irritava.

– Engraçado ouvir isso de alguém que parece ter parado de crescer com sete anos de idade.

– Eu vou matar você. – Heiner se viu indo atrás de Miguel, gritando palavrões enquanto este ria e reforçava a altura do mais velho.

Miguel era mais jovem, no entanto era vários centímetros mais alto, tinha mãos maiores e era mais corpulento que o outro garoto que já entrava na puberdade. Era mais rápido também, nunca houve um só dia em que Heiner desceu as escadas daquele orfanato mais rápido que Miguel, nunca houve um dia que conseguiu alcança-lo e dar nele todos os socos que prometia. Se tinha algo que o tirava do sério era que insistissem na sua altura, ou então dissessem que parecia uma menina. Heiner ficava tão puto que às vezes ficava vermelho o suficiente para explodir de raiva. Miguel o chamava de menina, ele dizia “minha menina” e colocava a mão em seus ombros como se fossem um casal. Então os dois brigavam, começavam a se estapear e rolar na grama um em cima do outro, enquanto Heiner xingava o garoto mais novo ria e dizia que o amor do mais velho doía.

Miguel chegou ao fim das escadas de madeira e parou por um segundo, olhou para trás e soltou uma gargalhada alta, então correu até a porta que levava para fora do prédio e saiu. O recruta escorregou na escada, não chegou a cair, mas machucou o pé e se sentou em um dos degraus para ver se algo tinha se machucado, quando se levantou de novo não via nem sinal do amigo.

– Miguel! – gritou, mas não ouviu nenhuma resposta, nada da gargalhada alta e energética que sempre ouvia dele. – Me espere! Não me deixe aqui sozinho!

Desceu o resto das escadas e se encontrou no final delas, ouviu toda a madeira da construção ranger e nada mais, nenhuma respiração além da sua, nenhuma criança correndo ou rindo. O lugar estava vazio de novo. Olhou para os lados e não viu ninguém, era proibido de sair da instituição, mas Miguel havia saído e Heiner queria segui-lo, era o que sempre fazia. Caminhou até a porta e levou a mão até a fechadura, girou-a várias vezes escutando o barulho de metal se movendo, mas estava trancada.

– O que pensa que está fazendo? – perguntou a voz aguda, talvez um pouco rouca, da governanta.

Heiner se virou imediatamente, levando um susto com a voz dela, não tinha visto ninguém ali. Amélia era uma freira, ela fazia trabalho voluntário ali e gerenciava a instituição desde antes mesmo de Heiner chegar ali com somente alguns dias de vida. Seus olhos eram azuis, mas ninguém nunca soube a cor de seus cabelos por causa das vestimentas típicas de freiras, sua pele era enrugada e caía embaixo dos olhos como dois pedaços frouxos de pele, as bochechas eram tão flácidas quanto, mas acompanhavam o rosto fino e comprido, de nariz que fazia uma pequena curva para dentro na ponta. Alguns residentes do orfanato especulavam que ela era viva desde a época da Segunda Guerra Mundial e ninguém duvidava, Heiner quando criança até pensou em perguntar a ela se a mulher já tinha visto algum dinossauro de verdade. Sem ironia.

– E-Eu...o Miguel...ele saiu e eu queria....ir atrás dele. – gaguejou, a expressão dela não era simpática e muito menos seus atos. – E-Eu só queria ir atrás dele.

– Por que? – rosnou. – Por que está sempre atrás dele? Por que está sempre junto com ele?

– M-Mas eu gosto dele. – respondeu, sem pensar, talvez tivesse sido mais fruto do seu sonho do que dele próprio.

– Vocês dois são repugnantes. – a velha levou a mão ossuda até o ombro do garoto e agarrou sua camiseta.

Ela era alta e fina, aparentava ser quebradiça, mas quando arrastava Heiner pela roupa ou pelos cabelos escadas acima sempre parecia forte o suficiente. As mãos dela eram secas, de dedos longos que pareciam ter perdido os músculos na juventude e agora ser nada mais que pele sobre ossos, contornando as estruturas porosas. Ela o assustava. O assustava tanto que quando bebê sempre chorava quando a via, que quando criança sempre gaguejava ao conversar com ela e até na adolescência ainda guardou certo pavor da velha. Sempre abaixava a cabeça ao passar por Amélia.

– Está me machucando! – gritou para ela, mas a mulher continuou puxando-o escadas acima, ela parecia não ter pés, parecia somente um amontoado de panos negros e aquela cruz enorme de prata pendurada no pescoço.

– Menino nojento. – ela resmungou entre várias outras coisas.

– Me deixe ir embora! Me deixe ir com o Miguel! – gritou de novo enquanto tentava se soltar da mão dela.

– Você nunca vai ficar com ele, não enquanto eu viver e comandar esse lugar. – ela respondeu, virando-se de repente e o fitando de perto, o olho esquerdo começou a se virar para cima como se sofresse de um tique, até que parou fitando o teto e um verme branco escorreu de dentro dele, gordo demais para andar, escorregou pela bochecha dela até alcançar os lábios e entrou dentro da boca dela enquanto a mulher falava. A língua dela estava repleta deles, sendo devorada aos poucos. – Eu crio homens e mulheres aqui, não monstros, você é minha responsabilidade, jamais vou deixar você se tornar um, Heiner.

O garoto soluçou, o hálito fedia a carcaça morta e podridão, teria vomitado naquele momento se ela não começasse a arrastá-lo de novo por aquelas escadas que pareciam não ter fim. A mão dela tinha moscas, daquelas gordas e azuladas que vemos sobrevoando animais mortos e botando ovos de onde nascem pequenas e odiosas criaturinhas brancas de bocas rosadas. Heiner tentou se soltar dela, de novo, mas no momento em que a tocou a pele da mulher grudou em sua mão, pegajosa e pútrida, sua carne estava sendo devorada por vermes e besouros e no momento que Heiner tirou a mão a pele se arrancou junto e abriu caminho para os insetos que começaram a sair da velha e se rastejar em cima da sua pele, podia sentir sua consistência gordurosa, macia e molhada em sua pele deixando um rastro gosmento por onde passava. Começou a gritar com a cena enquanto tentava afastá-la, mas a única que Amélia dizia, repetidamente, em mesmo tom e incessantemente como um disco arranhado era “Você é nojento”. O eco daquelas palavras entrava na sua cabeça e recriava várias vezes a mesma palavra, como uma multidão gritando as mesmas palavras.

– Eu não sou nojento! – gritou para ela enquanto tentava afastá-la, mas não conseguia, quanto mais tocava nela para afastá-la mais se via envolvido em vermes, besouros e moscas.

– Você é! – ela berrou, furiosa e as vozes que se repetiam riram e conversaram entre si dizendo “Ele é mesmo”, “Ela diz a verdade” ou “Olhe como o garoto é nojento”. – Você é doente, Heiner, você é tão nojento que chega a ter essa podridão instalada dentro de si.

– Não! Me solta! Você está mentindo! – gritou, seu coração batia tão rápido quanto seus dedos ardiam enquanto os vermes começavam a morder sua carne, começando a devorá-lo como se fosse uma criatura morta, um animal com uma necrose.

– Você sabe o que eu tenho que fazer agora, não sabe? – ela perguntou, começaram a se dirigir a um corredor com várias portas nas laterais e uma janela no fundo. – Eu tenho que levar você para ele, para a única criatura que quer pessoas como você, Heiner.

O garoto olhou para as portas e as reconheceu, de repente elas pareceram muito mais assustadoras que Amélia, que os pedaços do braço dela que caíam repletos de fungos pelo corredor enquanto caminhavam.

– Não, por favor, eles não!

– Mas você tem que ficar com eles, eles são os únicos que querem você. – ela respondeu com ar de piedade, como se estivesse sendo obrigada a fazer algo ruim para salvá-lo, mas lamentasse a atitude. – Se você quer ser assim, você tem que ficar com eles, Deus não quer pessoas assim, só os demônios querem.

Ela abriu a porta e o jogou lá dentro e por um momento Heiner implorou para tê-la de volta, mas uma vez que a porta se fechou ela não se abriu mais, estava trancada. Olhou para trás, todos os seus músculos tremiam e os que não conseguiam é porque estava frios e cansados demais para isso. O pânico transbordava do seu peito e fazia eu coração bater tão rápido que ele poderia simplesmente parar para ter um pequeno descanso e nunca mais voltar a trabalhar.

Estava escuro lá dentro, mas havia uma janela que tinha sido precariamente tampada com tábuas e pregos tortos. Uma luz vacilante caía no quarto, as paredes eram velhas e descascadas, tinha infiltração no teto e tudo cheirava a mofo, mas havia um aroma pungente de suor animal no ar, como aquele que você sente no couro dos cavalos depois de uma longa caminhada em cima de seu lombo. Heiner levantou o rosto e viu dois pares de olhos negros brilhando no escuro, acima deles dois chifres torcidos cortavam o escuro como adagas na carne. Tinha o peito de um homem, mas era mais alto que qualquer um, a cabeça entre os ombros era a de um bode negro, com uma barbicha escorrendo pelo pescoço. A criatura o fitava como se fossem iguais e por um momento quando o garoto olhou para suas mãos elas também estavam cobertas de pelos castanhos, porque talvez Amélia tivesse razão e ele fosse mesmo um demônio. Uma aberração.

Notas finais
Até quarta, meus fileos. Tiau.