Damage
32 Capítulo 32
Notas iniciais
Finalmente sexta-feira, não que Samuel tivesse algum plano para seu final de semana, mas só de ter a certeza que não precisaria treinar exaustivamente no dia seguinte já lhe dava uma carga gigantesca de paz de espírito. Fazer flexões nunca foi o seu forte, pular na lama e atirar também não, mas o fato de ser sexta-feira e o capitão ter dito que iriam para a sala de geografia naquela tarde fez Samuel desejar abraça-lo com força.
– Já encontrou esse? – Damien perguntou mostrando o papel com o conjunto de coordenadas para o garoto.
– Sim. – Samuel apontou empolgado para um ponto no mapa grande do país que estava aberto sobre a mesa redonda.
Henry havia separado toda o batalhão em grupos de quatro e dado uma mesa com um mapa grande estendido sobre ela como uma toalha para cada um, algumas coordenadas para cada integrante do grupo e pequenas peças vermelhas como as de jogos de tabuleiros para marcar os pontos certos no mapa. Samuel não se dava muito bem com seus colegas de dormitório, odiava a forma como eles o tratavam como uma criança, principalmente Eldric que insistia em chama-lo de “Sammy” como se fossem próximos o suficiente para isso e o assediava com certa frequência, embora Samuel tivesse ficado irritado em todas elas, e por isso Samuel foi coagido a aceitar a oferta de Damien para fazer parte do grupo dele. Basicamente, quem estava fazendo tudo eram os dois menores, uma vez que Heiner e Arthur discutiam sobre alguma coisa provavelmente fútil, os dois brigavam o tempo todo, mas se davam incrivelmente bem.
– Arthur, já marcou seus pontos? – Samuel perguntou cruzando os braços. – Henry disse que serão dez flexões para cada ponto marcado errado ou não marcado, para todos os integrantes do grupo.
O capitão tinha estipulado um tempo e conferia no relógio a todo instante, Samuel não se importava se Arthur ia fazer mil flexões, mas ele não queria fazer uma vez que era realmente bom naquilo. Samuel não costumava ser um bom recruta quando se tratava de exercícios físicos e talvez medianos em matérias teóricas, mas não havia nada em que ele era melhor do que o campo de estratégias e cálculos, marcar pontos em um mapa não era metade do que ele podia fazer com extrema facilidade, mas aquilo estava se mostrando ser realmente um árduo trabalho para Arthur.
Toda vez que olhava para o louro sabia que ele não era quem ficava atrás das mesas seguras, mas uma das peças no mapa de um oficial de patente alta, mas Arthur não era só o soldado idiota com um dedo frouxo no gatilho, Arthur era o líder que guiaria facilmente batalhões por pura força de vontade em tempos de guerra, o louro não era o cérebro, mas o coração e a motivação que qualquer soldado precisaria para seguir para a morte. Arthur era aquele que faria um belo discurso encorajador antes de um confronto, ele era o oficial que todos amariam e seguiriam.
Virou os olhos em direção à Heiner, ele era um pouco melhor que o louro em matérias teóricas, mas não tinha metade do carisma de Arthur. Heiner seria um ótimo soldado em campo, ele tinha bons atributos físicos, seria um líder mais estratégico e frio, Samuel não podia deixar de compará-lo à um jogador de xadrez que sacrifica o peão para salvar o bispo. Seria muito bom em qualquer papel que exercesse, mas as pessoas não confiariam nele da mesma forma que confiariam em Arthur e não o admirariam de forma alguma, Heiner seria o líder zombado pelos próprios homens, o rei traído em pleno tabuleiro, mas uma peça importante para oficiais de patente alta.
Samuel via a si mesmo atrás de uma mesa com um mapa grande como aquela, movendo batalhões para pontos estratégicos, dando ordens à homens como Heiner e Arthur e formulando acordos para evitar os próprios confrontos, o homem que evitaria guerras, mas cujo nome jamais seria conhecido.
Suspirou, isso tudo supondo tempos de guerra, caso nada acontecesse então desempenhariam as mesmas funções, mas sem muita ação no dia-a-dia, o que não era algo ruim, mas Samuel nunca sonhou em engordar atrás de uma mesa sem ter feito absolutamente nada da sua vida.
– Sam, pode conferir os pontos do Arthur? – Damien perguntou, parecia concentrado nas linhas mortas do mapa, gravadas no papel.
Oh, tinha se esquecido dele, Damien. Analisou-o por alguns segundos e reuniu as informações que já tinha sobre o amigo na mente. Damien simplesmente não se encaixava ali, ele não parecia soldado nenhum ao mesmo tempo que parecia todos, Damien era indefinido, não pertencia ao meio militar, mas não se parecia com um civil, de alguma forma ele parecia não se encaixar em lugar nenhum, mas pertencer à todos os lugares. Samuel costumava fazer análises bastante precisas das pessoas ao seu redor, Damien parecia ser uma rara exceção, bem, seja lá o que ele fosse fazer no futuro provavelmente não seria nada relacionado ao exército pois ele já tinha expressado que odiava o meio militar e a idiotice da existência de grupos de combatentes tão grandes. Damien tinha dito uma vez que se entra no exército, conhece lugares exóticos e os destrói, consegue amigos e então os mata, aprende novas culturas e então impõe a sua. Samuel não discordava totalmente, mas do fundo do seu coração ele sentia que tinha certa vocação para aquilo, achava mágico a hierarquia e organização no meio militar.
– Arthur, você jura que não sabe esse? – pegou as coordenadas e mostrou para o louro, ele não a tinha marcado. – Pode olhar de novo, por favor.
Os olhos azuis se abaixaram até o mapa e ele balançou negativamente, era algo fácil, se estivesse fazendo aquilo com afinco certamente conseguiria, mas no momento Arthur realmente não estava preocupado com aquilo.
– Museu de Arte de Pinakotheken. – o recruta balançou a cabeça negativamente e logo Samuel se lembrou de uma referência que o faria acertar a localidade. – Oktoberfest.
– Munique? – Arthur disse imediatamente e ao mesmo tempo Samuel ficou alegre e decepcionado.
– Sim. – deu a peça vermelha para que ele colocasse sobre a cidade e Arthur pareceu um pouco orgulhoso por ter acertado aquela. Voltou rapidamente seus olhos para o mapa. – Os outros estão no lugar certo.
O louro lançou um meio sorriso vitorioso para Heiner e este virou o rosto com um “tsc”. Samuel apenas bufou e relaxou a expressão ao notar que seu grupo já tinha terminado a atividade, aliviado pelas flexões que não teria de fazer e feliz pelos minutos que tinha ganhado, estava ansiando por um momento apenas para pensar aleatoriamente em si mesmo desde que tinha acordado.
Na noite anterior dormiu assim que tocou a cama, talvez por estar tão extasiado que não conseguiu refletir sobre nada do que tinha se passado em seu dia, na verdade não havia nada para pensar sobre o dia, somente sobre o final dele. Sentia as mãos formigarem toda vez que se lembrava delas presas nas costas, Hans tinha razão sobre sua índole masoquista, mas Samuel dificilmente sentiria a mesma coisa que sentia com ele se outra pessoa fizesse o mesmo, não era somente sobre o prazer, era sobre o meio-sorriso idiota e suas mãos hábeis o segurando com força. E era sobre o beijo.
Samuel estava tão nervoso que achou que fosse desmaiar ou ficar tão vermelho que Hans começaria a rir, mas o cozinheiro apenas fitou seus olhos como se olhasse não para Samuel, não para algo além dele, mas para sua essência e de repente ele estava calmo. Uma vez que tinha os lábios do ruivo para si foi impossível dizer onde começava um e terminava o outro, Samuel conseguia sentir o calor dele, sua respiração e o coração batendo. O recruta tinha tido fantasias sobre seu primeiro beijo, mas elas envolviam mais excitação do que qualquer outra coisa, contudo quando beijou Hans o que sentiu não foi desejo físico, mas uma sensação grande de que tinha o ruivo para si e de que ninguém jamais pertenceria a ele da forma que o cozinheiro-chefe tinha pertencido naquele momento.
– Que nojo Samuel, pare de sorrir desse jeito. – Heiner resmungou quando notou o baixinho olhando para o mapa e sorrindo bobamente como uma colegial apaixonada. – Vai sujar a calça se continuar desse jeito.
O garoto olhou para ele e deu uma risadinha seca e debochada, porque Heiner fazia questão de estragar a alegria de qualquer um.
– Não é porque você só consegue ficar feliz com a desgraça alheia que todo mundo é assim. – retrucou.
– Ah, nesse caso você deve ter um ótimo motivo para estar feliz assim, não quer dividir com seus humildes colegas?
Sentiu-se realmente tentado a dizer que tinha dado seu primeiro beijo em alguém que gostava e que tinha sido incrível, mas sabia que isso só faria acabar com a sua vida naquele lugar. Samuel não sabia de nenhum gay que tinha se confessado abertamente entre os recrutas justamente porque eles não eram bem-vindos no exército e até pouco tempo homossexuais eram proibidos de ingressar nas forças armadas em países como os Estados Unidos e até hoje na Turquia. Sabia que sentia algo por Hans, mas seu objetivo a vida toda tinha sido alistar-se e conseguir um posto alto no meio militar, não queria destruir suas chances.
– Não, não quero.
– Falando desse jeito até parece que você perdeu a virgindade, mocinha. – respondeu com escárnio e uma risadinha debochada.
– E você parece estar muito curioso a respeito da minha virgindade.
O sorriso de escárnio no rosto dele se fechou e por um momento Samuel achou que fosse ser atacado pelo homem, Heiner nunca parecia simpático e nunca parecia calmo, era como se as sobrancelhas dele tivessem nascido de forma que o cenho dele parecesse sempre franzido. Onde Samuel tinha encontrado coragem para responde-lo daquela forma jamais saberia, mas que Heiner pareceu um urso irritado naquele momento, isso sim.
– Na verdade estou com um pouco de pena considerando que provavelmente a única que você vai perder é a anal. – retrucou.
O garoto semicerrou os olhos, não acreditando que estava conversando com uma criança de dezoito anos com quase o dobro do seu próprio peso em massa muscular.
– Quando eu perde-la te conto os detalhes, aposto que vai adorar ouvir.
– Hey, hey, olha a palhaçada. – Arthur interviu quando notou o cenho de Heiner franzindo de verdade, embora o colega de quarto não tivesse se socializado com ninguém ao longo dos primeiros meses no exército Arthur foi corajoso o suficiente para se aproximar dele aos poucos e conquistado sua confiança, sabia quando ele ficava irritado de verdade e o quão fácil isso podia acontecer. – Eu não quero ficar de castigo esse final de semana porque vocês dois não saíram do ensino fundamental.
– Eu sei, ninguém quer, os finais de semana são para homens normais foderem e não serem fodidos.
– É por isso que você não é normal. – Samuel sorriu inocentemente, com um enorme tom de deboche.
Heiner riu secamente e apontou para ele com o indicador, ameaçadoramente.
– Você fala bastante para alguém que não consegue nem dar um soco sem quebrar o pulso. – murmurou.
– Eu sei correr. – deu de ombros.
Os dois se entreolharam por alguns segundos Samuel sabia que não conseguiria vencer nenhuma disputa física com Heiner, mas falava sério sobre correr.
– Abra a boca mais uma vez e eu juro que vou quebra-la, idiota.
– Heiner, não tem vergonha, porra? Olha o seu tamanho e o tamanho do Sam, retardado. – o louro rosnou para ele, sem tolerar o comportamento idiota do amigo.
– Ele que devia se tocar e não ficar procurando encrenca. – retrucou em sua defesa, sua voz ganhava um toque de vítima quando falava com Arthur.
– Deixa ele, tá doido para colocar a mão em mim mesmo. – Samuel respondeu com tom de deboche, mas não esperava que Heiner fosse realmente avançar em si.
Deu um passo para trás quando um soco passou a centímetros do seu rosto e antes que o outro recruta tentasse acertá-lo de novo Arthur o segurou pelas costas imobilizando-o enquanto Samuel se afastava com alguns passos curtos e olhar realmente surpreso pela explosão dele. Sabia que Heiner era explosivo e era um babaca, mas não achou que ele realmente fosse ter a cara de pau de ataca-lo com Henry e Kazimir assistindo.
– Que droga, Arthur, ele merece! – gritou enquanto tentava se soltar.
– Porra nenhuma! – o louro gritou de volta apertando mais seus braços ao redor de Heiner.
Quando Samuel achou que tinha sido salvo por Arthur, eis que vê uma sombra se aproximando e escuta o barulho de coturnos batendo forte no chão, não precisava nem olhar para saber quem era.
– Mas que droga, não dá pra passar cinco minutos sem uma putaria dessas! – Krieg se enfiou entre Heiner e Samuel, se virando para o maior primeiro. – Solta essa desgraça, Astrophel!
– Senhor, o He...
– Eu te perguntei alguma coisa, recruta? – Krieg gritou, Samuel sentiu as pernas tremerem. – Eu tenho cara de quem quer saber quem virou de costas e quem comeu? Tenho, Astrophel?
– Não senhor, me desculpe. – respondeu imediatamente soltando o sujeito que era o motivo de toda a discórdia e polêmica.
– “Mimimi me desculpa, senhor”. – repetiu com tom de deboche. – É impressionante como você sempre consegue estar no meio de tudo que é merda que acontece nesse quartel!
– Mas senhor, eu... – tentou explicar que era o único inocente ali.
– Astrophel, eu vou contar até três e quando eu terminar é melhor você estar no inferno! – gritou daquele jeito que fazia todos os outros recrutas olharem para a vítima e apenas conseguir ter pena. – Um! Dois!
Por um momento Arthur ficou sem saber para onde devia ir, mas o primeiro-tenente acabou apontando para a porta pouco antes do três e foi pra lá que o louro foi, sem entender o que tinha feito para merecer ir ao inferno. Quando se é recruta a primeira coisa que se aprende é que não importa qual seja a ordem, o importante é cumpri-la. Arthur jamais se esqueceria do dia em que Krieg olhou para um dos recrutas e disse “Recruta, vai lá no Comandante e pede para ele a capa de chuva da bandeira porque vai cair uma tempestade!” e o pobre coitado foi mesmo. Nesse dia Astrophel foi duramente repreendido por rir do acontecido.
– E você, palhaço, tá vendo aquele monte de merda ali? – apontou para Samuel e o garoto ficou levemente ofendido. – Aquele é um monte de merda menor que você, e você devia ter vergonha nessa desgraça que a sua mãe chama de cara por brigar com uma porra dessas!
Heiner não teve a decência de se encolher como Samuel fez só de ser apontado daquele jeito, mas abaixou o rosto admitindo que Krieg tinha um pouco de razão. Abriu a boca para dizer o que estava acostumado a dizer naquele tipo de situação, no entanto Krieg o cortou.
– E não me peça desculpas! Faz uma merda dessas e ainda tem coragem de me pedir desculpas, você é uma desgraça Traenkner! – gritou novamente levando a mão até a nuca do recruta e o puxando até a janela junto consigo. – Tá vendo aquela árvore?
Heiner meneou positivamente, desgostando do modo como Krieg o estava segurando.
– Eu perguntei se está enxergando a porcaria da árvore, animal! – disse enfiando a cabeça dele pela janela.
– Sim senhor! – respondeu finalmente.
– Ótimo, porque aquela é puta. – apresentou o velho carvalho que tinha sido salvo do concreto que cobria o pátio por ser muito velho. – Você vai correndo até ela, vai prestar continência e vai se pendurar em um galho, então vai fazer dez flexões enquanto grita bem alto “Eu sou fruto da puta”. – soltou-o bruscamente. – E é pra fazer isso bem alto que eu quero escutar daqui!
– Sim senhor. – Heiner respondeu enquanto se dirigia a porta da sala.
– E vai de costas pra eu achar que você já está voltando, desgraça!
Samuel olhou para o homem saindo da sala e depois olhou para o primeiro-tenente, já que era o único que faltava para receber uma das punições criativas do Krieg. Levantou o queixo e fitou o rosto dele, os olhos azuis e a barba mal feita de cor clara, ele era mesmo um monstro.
– Você eu devia jogar pela janela, nunca faz nada errado, mas quando faz sempre é algo inédito. – comentou olhando para baixo no intuito de olhar para o rosto dele, brigar com Samuel se parecia com brigar com uma criança. – Traenkner e você vão ficar esse final de semana aqui ajudando na faxina, mas por hora desça até o pátio e dê dez voltas ao redor do pavilhão.
O garoto disse um “Sim senhor” timidamente e partiu para cumprir sua punição, mas saiu da sala a tempo de escutar Krieg dizendo a Damien “Tá olhando o que? Vai querer uma punição também, idiota?”.
–x-
O cozinheiro-chefe entrou dentro da dispensa procurando pela lata de açúcar, pois algumas desventuras durante a tarde o tinham feito colocar tudo o que tinha no açucareiro em uma única xícara e beber sem dizer nada. Nunca acontecia de Hans ir tomar café no mesmo horário que algum oficial, mas naquele dia quando ele terminou de encher sua xícara se deparou com a figura de Kazimir parado na sua frente com uma xícara vazia esperando pelo café. Nesse momento Hans se arrependeu amargamente de não ter colocado veneno naquela bebida para findar de vez com a vida do primeiro-tenente, mas se contentou em enfiar a colher no açucareiro e enche-la enquanto Kazimir enchia a sua própria. Quando colocava a segunda colher bem cheia o primeiro-tenente olhou para ele e disse “Não está bebendo açúcar demais? Pode acontecer de você adquirir diabetes e morrer”.
Hans se sentiu realmente desafiado naquele momento, nunca em toda sua vida sua masculinidade foi testada daquela forma, então o cozinheiro gentilmente colocou a colher do lado da sua xícara e despejou tudo o que havia dentro do açucareiro no seu café, arqueou as sobrancelhas e misturou de leve. Bebeu tudo em um gole só e fez questão de comer o açúcar que ficou no fundo usando a colher. Bom, o ruivo só não contava que Kazimir fosse beber toda a sua xícara de café sem nenhum açúcar e ainda elogiá-lo.
– Babaca estúpido. – resmungou ao sentir os cantos da boca doendo por causa da quantidade gigantesca de doce tomada de uma vez só. – Devia ter ficado cuidando do resort do meu pai. – resmungou se lembrando do velho. – “Você vai para aquela desgraça e a única coisa que vão te ensinar é como chupar o pau de superior, mas acho que isso você já sabe fazer, não é Hans?”. – imitou a voz do seu sábio pai. – Velho safado, devia ter me trancado no porão até os 19 anos.
Abaixou-se para pegar a lata de açúcar e quando se levantou bateu a cabeça com força em uma prateleira que suportava várias latas de alumínio com ingredientes. Soltou a lata de açúcar e colocou ambas as mãos na cabeça sentindo-a arder, fez uma careta e soltou um gemido de dor abrindo os olhos somente quando escutou uma risada incontrolada.
– Que bom que está se divertindo. – semicerrou os olhos ao ver Samuel na sua frente. – Desde quando está aí?
– Desde o “Babaca estúpido”. – tentou imitar a voz de Hans entre as risadas. – Você está bem?
– Não. – sinceridade é tudo. – Meu dia foi uma droga.
– Pelo menos você vai ter seu final de semana. – Samuel respondeu cruzando os braços. – Vou ter que ficar aqui com o Heiner na faxina.
– Quem é Heiner? – ele deu ênfase no nome do sujeito.
– Não se preocupe, ele é um idiota homofóbico que me odeia. – bufou ao se lembrar do quão desnecessária tinha sido sua briga com ele, se tivesse apenas calado a boca dormiria sabendo que podia acordar às duas da tarde no dia seguinte.
– Não me sinto mais seguro. – aquela vozinha interior sempre disse a Hans que homofóbicos são todos gays que não conseguiram dar.
Samuel bufou e se aproximou dele, levantando o rosto para fita-lo, odiava ter que fazer aquilo com a maioria das pessoas, mas compensava quando se tratava de Hans.
– Ah, não se preocupe quando ele for me estuprar vai ver o H no meu peito e vai desistir. – respondeu com escárnio.
– Acho bom mesmo. – o ruivo sorriu ignorando o deboche e o puxou pela cintura até que o corpo dele se colasse ao seu, abaixou o rosto para beijá-lo quando Samuel hesitou.
– Espere pelo menos o expediente acabar. – repreendeu-o pela imprudência, se alguém entrasse e os visse ali ambos seriam punidos rigidamente pela justiça. – Quero dizer, não vou poder ficar aqui com você hoje, tenho que acordar cedo amanhã para limpar o refeitório e companhia.
– Tsc. – Hans o soltou contrariado. – Você dá um pouco de liberdade para eles e eles já acham que podem ditar as regras.
Samuel cruzou os braços e ficou olhando o cozinheiro erguer novamente a lata de açúcar, aos poucos percebeu que gostava dele e era impossível negar agora que aquele projeto de ser humano imprestável e rude era o alvo da sua afeição romântica.
– O que você disse antes, seu pai sabe que você transa com outros caras? – indagou curioso, considerando que não sabia nada além do primeiro nome e sobrenome dele.
– Ele sabe disso desde que eu tenho 15 anos. – respondeu.
– E ele nunca disse nada?
– Na verdade. – colocou a lata de novo no chão, não ia ficar segurando-a enquanto respondia ao questionário de Samuel. – Tudo começou porque ele decidiu se mudar para o México, eu obviamente não queria me mudar para lá então eu disse “Se nós nos mudarmos para lá eu juro que só vou namorar homens e vou fazer questão de apresentar todos pra você” e ele respondeu “Eu não duvido, você é mimado o suficiente, mas isso não vai mudar nada, eu vou amar você da mesma forma, querido filho”. E quando chegamos no México a primeira coisa que eu fiz foi comer o filho do antigo dono do Resort que meu pai passou a gerenciar, e acredite, eu fiz questão de anunciar a todo mundo.
– Está mentindo. – não era possível que a escolha da sexualidade dele tivesse sido tão fácil e só para provocar seu pai. – México?
– É sério. – não estava mentindo mesmo.
– Hans, você viveu no México até os 18 anos?
Samuel não ia acreditar mesmo, mas nem o próprio ruivo acreditaria se alguém do seu tipo dissesse isso, era mesmo inacreditável que um alemão de repente se mudasse para o México desse jeito, mas seu pai nunca foi um homem prudente. A única coisa que Hans tinha certeza sobre seu pai é que ele nunca foi bobo, assim que avistou uma viúva mexicana rica dando sopa tratou logo de se apaixonar por ela e casar-se com o resort do falecido marido da mulher.
– Eu tenho uma tatuagem, vai acreditar se eu te mostrar?
– Hans, eu duvido que tenha uma tatuagem. – Samuel semicerrou os olhos, sem acreditar.
O cozinheiro-chefe levou as mãos até o dólmã e começou a desabotoa-lo, sem pressa, não era como se estivesse em pleno expediente mesmo. Terminou de desabotoar o tecido branco e o jogou aos seus pés, por baixo da túnica de cozinheiro usava uma camiseta da mesma cor só que mais maleável então só precisou puxar a manga de um dos ombros e se virar para Samuel.
– Caralho, você tem mesmo uma tatuagem. – murmurou o recruta mais do que surpreso, não só por Hans realmente ter uma marca permanente no corpo quanto pelo desenho.
Era inegável que somente uma pessoa que já visitou ou já esteve no México seria capaz de tatuar aquilo. Havia uma caveira no ombro de Hans, usando um chapéu grande típico do país, com rosas nos olhos e um dente de ouro, um coldre repleto de balas em cima de mais rosas abaixo do crânio e duas garruchas cruzadas. Atrás do desenho havia ainda uma roda grande com imagens bem pequenas e ao que tudo indicava de origem maia, a civilização antiga que viveu no país que Hans dizia também ter vivido uma vez. Definitivamente era uma menção ao México ou ao sistema anárquico do lugar, principalmente os cinco tiros ao redor da imagem.
– O que significa?
– Significa “Eu fui um adolescente revoltado e só fiz essa tatuagem porque meu pai me disse para não fazer”. – explicou abaixando a manga da camiseta de novo e se curvando para pegar seu dólmã. – Ou simplesmente “Eu sou retardado”.
– Você deve mesmo odiar seu pai. – arqueou uma sobrancelha.
– Não, eu amo ele. – respondeu. – Só que ele trabalhava demais e não me lembro de uma só vez que passamos o final de semana juntos, portanto, metade das coisas que eu fiz durante toda a minha vida foram justamente para chamar a atenção dele. – depois de vestir-se abaixou-se mais uma vez para pegar a lata de açúcar. – Agora que terminamos com a entrevista, posso trabalhar, amor?
– Claro que sim, docinho. – Hans fez uma careta ao escutar aquilo e saiu da dispensa carregando a lata de açúcar.
Samuel ficou ali durante mais um minuto, imaginando o quanto sua adolescência deveria ter sido chata em comparação à de Hans. Bufou, tinha de se preocupar com o presente agora, com a faxina que iria ser obrigado a fazer durante todo o final de semana graças à Heiner.
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