Dama de Lira
1 Prólogo
Notas iniciais
Haviam vários motivos que classificavam aquela noite como gloriosa. Primeiro, Diana conseguira chegar em sua aula de introdução a ideias políticas e sociais antes do professor; segundo, a lanchonete do campus tinha voltado a vender os cupcakes de chocolate com morango que ela tanto amava e, como comemoração, comprara dois para comer sozinha; e, terceiro, e mais importante: finalmente terminara a transação do carro novo e estava indo buscá-lo.
Era um fusca 1969, com pneus carecas e o limpador do parabrisa dificilmente estaria funcionando, mas era seu novo meio de locomoção e ajudaria muito.
Diana caminhou apressada, com os cabelos soltos esvoaçando enquanto atravessava o estacionamento da universidade. Tinha quinze minutos para pegar o carro e comer pelo menos um cupcake antes de ter que voltar para a próxima aula.
Caia uma garoa fina e o vento frio a fazia esfregar as mãos a medida que caminhava. Ela não via a hora de encontrar Miguel, o veterano gato de Direito. Ele deveria lhe passar o veículo naquela noite e receber a outra metade do dinheiro.
Diana viu sua silhueta escorada no fusca, parecia relaxado enquanto fumava, expelindo a fumaça em baforadas lentas. Os dois se conheceram poucas semanas antes, quando sua amiga Vitória o apresentara. Diana detestava todos os caras que sua amiga a apresentava. Eram todos garotos bonitos e privilegiados demais, o que não era diferente de Miguel, mas isso não significava que não podiam conviver bem.
Ele parecia interessado, ela nem um pouco, e, para manter o contato entre os dois, Miguel falara do velho fusca do avô. O carro estava parado na garagem desde a morte do senhor, há uns três anos e ninguém se importava o bastante com ele. Uma pena, pois Diana amava o charme que um fusca poderia lhe proporcionar.
Ela diminuiu o passo por um instante, espiando por detrás do ombro, onde a presença de mais alguém chamou sua atenção. Porém, não havia nada.
Diana afastou a preocupação e continuou seguindo em frente, mas parou novamente após ter certeza que havia mais alguém ali. Um vulto imperceptível para outra pessoa que não fosse ela. Diana passara a vida inteira sobrevivendo em orfanatos e até mesmo na rua para conseguir sentir quando alguém a seguia.
— Miguel — gritou, tentando alertá-lo. Mas ele continuou escorado, a fumaça ainda pairava no ar, como se estivesse congelada. Um momento perdido no tempo. Diana percebeu que ele não se movera e que o ar a sua volta parecia mais pesado, muito mais denso. Seus músculos moviam-se com dificuldade à medida que se aproximava do carro. Pareciam duros, quase petrificados.
O pavor tomou conta de seu corpo e sua respiração se acelerou, soltando o ar em lufadas pesadas enquanto inspirava com dificuldade.
Olhou novamente por detrás do ombro e o viu. Uma figura alta e imponente, trajando um sobretudo negro como a noite que esvoaçava como se o tempo não houvesse parado a sua volta. A criatura atravessava o estacionamento com fúria.
Diana tentou correr, mas seus pés estavam mais pesados que antes, fixos no chão. O pânico a inundou.
— Não tente fugir do destino, minha cara — A voz sussurrante ecoou em seus ouvidos, enlaçando-a em uma brisa inebriante de total temor. Sentiu a bochecha ser acariciada enquanto seus membros paravam aos poucos de se mover, mas não soube dizer se eram frutos de seu pânico ou do que quer que imperava no ambiente.
— O que é você? — Perguntou, fraca, com os olhos pesados se esforçando para não ceder.
— A morte.
Por um instante Diana pensou não ter forças para absolutamente nada, mas forçou os olhos a continuarem abertos por tempo o suficiente para encarar a criatura a sua frente. Fitou-o sobre o grande capuz negro, parando em seus olhos, de um tom de branco assustador. Estava difícil respirar agora, o corpo entrava em um estágio de letargia, fazendo-a ceder ao cansaço. Aos poucos, enquanto suas vistas escureciam, sentiu-se ser amparada por dois pares de braços fortes. Pelo visto a morte ainda tinha algum resquício de compaixão.
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