Notas iniciais
Oioi meus queridos leitores, tudo bem? Se vocês chegaram até aqui, sejam muito bem-vindos! Faz pelo menos uns 4 anos que estou com essa história martelando minha cabeça, querendo ir para o papel a todo custo. Depois de milhões de ideias, uns dez prólogos diferentes, vamos lá!

Haviam vários motivos que classificavam aquela noite como gloriosa. Primeiro, Diana conseguira chegar em sua aula de introdução a ideias políticas e sociais antes do professor; segundo, a lanchonete do campus tinha voltado a vender os cupcakes de chocolate com morango que ela tanto amava e, como comemoração, comprara dois para comer sozinha; e, terceiro, e mais importante: finalmente terminara a transação do carro novo e estava indo buscá-lo.

Era um fusca 1969, com pneus carecas e o limpador do parabrisa dificilmente estaria funcionando, mas era seu novo meio de locomoção e ajudaria muito.

Diana caminhou apressada, com os cabelos soltos esvoaçando enquanto atravessava o estacionamento da universidade. Tinha quinze minutos para pegar o carro e comer pelo menos um cupcake antes de ter que voltar para a próxima aula.

Caia uma garoa fina e o vento frio a fazia esfregar as mãos a medida que caminhava. Ela não via a hora de encontrar Miguel, o veterano gato de Direito. Ele deveria lhe passar o veículo naquela noite e receber a outra metade do dinheiro.

Diana viu sua silhueta escorada no fusca, parecia relaxado enquanto fumava, expelindo a fumaça em baforadas lentas. Os dois se conheceram poucas semanas antes, quando sua amiga Vitória o apresentara. Diana detestava todos os caras que sua amiga a apresentava. Eram todos garotos bonitos e privilegiados demais, o que não era diferente de Miguel, mas isso não significava que não podiam conviver bem.

Ele parecia interessado, ela nem um pouco, e, para manter o contato entre os dois, Miguel falara do velho fusca do avô. O carro estava parado na garagem desde a morte do senhor, há uns três anos e ninguém se importava o bastante com ele. Uma pena, pois Diana amava o charme que um fusca poderia lhe proporcionar.

Ela diminuiu o passo por um instante, espiando por detrás do ombro, onde a presença de mais alguém chamou sua atenção. Porém, não havia nada.

Diana afastou a preocupação e continuou seguindo em frente, mas parou novamente após ter certeza que havia mais alguém ali. Um vulto imperceptível para outra pessoa que não fosse ela. Diana passara a vida inteira sobrevivendo em orfanatos e até mesmo na rua para conseguir sentir quando alguém a seguia.

— Miguel — gritou, tentando alertá-lo. Mas ele continuou escorado, a fumaça ainda pairava no ar, como se estivesse congelada. Um momento perdido no tempo. Diana percebeu que ele não se movera e que o ar a sua volta parecia mais pesado, muito mais denso. Seus músculos moviam-se com dificuldade à medida que se aproximava do carro. Pareciam duros, quase petrificados.

O pavor tomou conta de seu corpo e sua respiração se acelerou, soltando o ar em lufadas pesadas enquanto inspirava com dificuldade.

Olhou novamente por detrás do ombro e o viu. Uma figura alta e imponente, trajando um sobretudo negro como a noite que esvoaçava como se o tempo não houvesse parado a sua volta. A criatura atravessava o estacionamento com fúria.

Diana tentou correr, mas seus pés estavam mais pesados que antes, fixos no chão. O pânico a inundou.

— Não tente fugir do destino, minha cara — A voz sussurrante ecoou em seus ouvidos, enlaçando-a em uma brisa inebriante de total temor. Sentiu a bochecha ser acariciada enquanto seus membros paravam aos poucos de se mover, mas não soube dizer se eram frutos de seu pânico ou do que quer que imperava no ambiente.

— O que é você? — Perguntou, fraca, com os olhos pesados se esforçando para não ceder.

— A morte.

Por um instante Diana pensou não ter forças para absolutamente nada, mas forçou os olhos a continuarem abertos por tempo o suficiente para encarar a criatura a sua frente. Fitou-o sobre o grande capuz negro, parando em seus olhos, de um tom de branco assustador. Estava difícil respirar agora, o corpo entrava em um estágio de letargia, fazendo-a ceder ao cansaço. Aos poucos, enquanto suas vistas escureciam, sentiu-se ser amparada por dois pares de braços fortes. Pelo visto a morte ainda tinha algum resquício de compaixão.