Dama de Lira

2 A herdeira legítima


Seus olhos se abriram com dificuldade, as pálpebras pareciam mais pesadas e o corpo inteiro estava tomado por uma dor lancinante.

Diana piscou até se acostumar com a escuridão e perceber que todos os seus sentidos haviam voltado ao normal. Estava deitada no chão, pode concluir, sentindo as folhas secas roçando de leve as costas de suas mãos. E, como pode se mover sem nenhum impedimento, não era prisioneira.

Mais a frente, sentado ereto, estava um homem que não conhecia. Ele cutucava uma pequena e improvisada fogueira com um graveto, observando vez ou outra os arredores.

Diana sentou-se com dificuldade tendo o cuidado de não fazer barulho. Não havia mata perto da área onde estudava, o que só podia significar que estava muito longe de qualquer coisa que conhecesse.

— Não faça barulho — o homem alertou, fazendo-a se sobressaltar ao ouvir o tom de voz grave.

— O que você quer comigo? — Um turbilhão de perguntas passava por sua cabeça, assim como a imagem do estacionamento lhe voltava a memória. Daquele par de olhos brancos e assustadores e do vazio que encontrara neles.

O homem soltou um longo suspiro e se virou.

Diana não sabia o que esperar. Se lembrava nítidamente da criatura que vira no estacionamento e aquele homem certamente não se parecia com ela. Tinha os cabelos escuros e um pouco grandes demais, descendo encaracolados até os ombros, os olhos, pôde notar, mesmo sob a pouca luz, eram castanhos. Também tinha a barba por fazer e um semblante inexpressivo, marcado por um queixo quadrado arrogante.

Claro, tudo no estacionamento não passou de um surto da sua imaginação. Ela podia ter sido drogada, o que fazia muito mais sentido.

— A sua vida corria perigo — Respondeu simplesmente, levantando-se e se dirigindo ao seu lado.

Diana recuou, assustada, quando o sujeito tocou seus pulsos e os analisou.

Mentoris Hys são criaturas da noite. Elas roubam uma parte de você e injetam seu veneno logo depois. A vítima morre em poucas horas.

— Do que você está falando? — Diana recolheu as mãos de forma brusca, fitando-o mais irritada do que confusa — Quero ir para casa agora ou começarei a gritar.

O sujeito a ignorou totalmente, voltando a examiná-la. Dessa vez o pescoço, inclinando-o para verificar a parte de trás da orelha.

— Imagino que cheguei antes que ela pudesse lhe fazer algum mal, mas não podemos arriscar que a criatura a tenha envenenado. Seria ruim para todos.

A moça nem pensou duas vezes quando ele se aproximou novamente, a mão pronta para segurar seus cabelos. Diana o socou no queixo arrogante, atordoando-o por tempo o suficiente para conseguir se levantar e correr.

Sem olhar para trás, ela correu desesperadamente, desviando de árvores e galhos que conseguia enxergar pela luz da lua. Pelos céus, onde estava? Diana não conseguia visualizar nenhum ponto de referência que lhe mostrasse qual caminho seguir ou para que lado havia uma estrada ou qualquer coisa, qualquer uma, que a salvasse daquele desconhecido.

O coração bateu ainda mais rápido a medida que o sentiu se aproximar. O homem corria em um ritmo mais lento, como se quisesse apenas seguí-la, mas não pegá-la de fato.

— Não é a melhor ideia correr pela floresta durante a noite — Ele disse ao seu lado e Diana quase caiu ao tropeçar em uma pedra. Sentiu o sorriso que se formava nos lábios do captor ou escutá-lo prosseguir — Na verdade é a pior ideia possível, se me permite dizer. E, a propósito, seu belo gancho de direita não a salvará das criaturas noturnas.

Diana estava sem fôlego agora, com os cabelos castanhos colando em suas costas a medida que suava frio. Não tinha o que fazer, aquele sujeito estava apenas zombando dela antes de capturá-la novamente.

— Me diga o que quer — Conseguiu dizer entredentes.

— Quero apenas conversar — Ele respondeu ao seu lado, com o corpo e o semblante totalmente relaxados, como se correr daquela forma não o cansasse nem um pouco — Lhe dou minha palavra que não a farei nenhum mal.

Diana diminuiu o ritmo até parar totalmente, apoiando-se no tronco de um imponente carvalho para tomar fôlego.

Era a pior das ideias confiar em uma pessoa que não conhecia, ainda mais quando essa mesma pessoa a raptara e levara para Deus sabe onde, porém, que outra escolha além dessa ela tinha? Não podia e não conseguia correr a noite toda e era mais que óbvio que ele podia pegá-la quando achasse apropriado.

— Sou Geor Prinyen, conselheiro real de Lira — Geor sorriu de forma arrogante e presunçosa enquanto se apresentava, tirando poeira imaginária do sobretudo preto que usava.

Diana não sentiu que deveria se apresentar, ao invés disso o questionou:

— O que quer de mim?

Geor se ajoelhou diante dela antes de anunciar:

— Vim buscá-la, Vossa Alteza. A rainha de Lira deve assumir seu trono de direito.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.