Aquela casa era estranha para Allya. Não lembrava em nenhum momento da sua infância ter deslumbrado um lugar tão bonito e simples, ao mesmo tempo que despertava um sentimento de paz e descanso que ela nunca saberia explicar. E aquela mulher? Palloma...Um nome muito bonito para uma mulher mais bonita ainda. Enquanto todos estavam sentados e conversando, Allya observava aquele ambiente com ainda mais curiosidade. A sala era quente e convidativa, os sofás eram de material artesanal e quase todos os objetos ali presentes eram feitos a mão por bons artesões, pensou Allya. Palloma estava agora, com um bule de chá gelado e servindo a todos os presentes. Allya invejava os cabelos da morena, pretos como a noite e sua pele escura e bronzeada. Imaginava-se na praia com uma pele daquela, desfilando de biquíni...nunca teve coragem de ir à praia ou piscina com os amigos, se achava muito branca pra vestir roupas curtas ou sensuais. Já tinha feito bronzeamento artificial inúmeras vezes mas o resultado nem era perceptível.

Palloma se aproximou de Allya, estendeu o bule de chá, Allya estava apreensiva, aquela mulher lhe causava um nervosismo inexplicável, como se apenas olhando nos olhos ela pudesse desvendar toda a sua vida. Allya sabia o porque estavam ali, realmente Palloma podia ver a vida de Allya, e era isso que ela temia. Evitou olhar nos olhos e num gesto rápido recusou o chá. Palloma parou por alguns instantes e Allya de cabeça baixa foi então que percebeu que apenas ela havia recusado o chá, corou e sentiu suas mãos suarem. Aqueles instantes pareciam uma eternidade de agonia até que Palloma quebrou o silencio:

–Acho que você preferia um chá quente não? Oh, como pude esquecer de fazer um chá quente. Vocês vieram de tão longe, estão cansados.- A voz de Palloma era materna e aconchegante, Allya respondeu baixinho e dessa vez olhando nos olhos de Palloma:

–Não se incomode por favor. Eu apenas não gosto de chá.

Palloma continuou encarando Allya por alguns segundos como se estivesse lendo um livro. Devonne interrompeu:

–Mãe, o que acha dela?

–É pra ser sincera?

–A senhora nunca mente.

–E se eu errar?

–A senhora nunca erra.

Palloma estava com um ar sereno e ao mesmo tempo assustador, alisando os longos cabelos ruivos de Allya, retrucou:

–Menina, mal sabes o que te espera! Não tens culpa do teu destino. Seja forte minha filha, muito forte. Sua historia já está escrita. Virgula por virgula, cada acento. Não pode negar teu destino, nem fugir dele.- Palloma fez uma pausa breve, e em pensamentos Allya se perguntava o que aconteceria se ela quebrasse o elo do destino e antes que pudesse perguntar, como se realmente seus pensamentos pudessem ser ouvidos, Palloma alterou o tom de voz buscamente:

–Se quebrares o elo do destino, sofreras em dobro. Custara muito caro e o preço você não pode pagar. Muito sangue será derramado a sua volta.

–E o que me espera se cumprir as leis do destino?- questionou Allya com a voz tremula.

–A morte.

Todos ficaram chocados com a resposta de Palloma. Não conseguiam sequer disfarçar o espanto e os olhares assustados. Logan estava perplexos com aquelas palavras , não queria que Allya ouvisse aquilo, queria tira-la dali e leva-la para longe de todo esse sofrimento, mas a única reação que teve foi segurar a mão tremula da ruiva ao seu lado. A morena continuou:

–Mas pode crer que se você morrer, é lucro querida. Não imaginas o que te aguarda se não cumprires teu destino, com certeza morrer será teu desejo.

O tempo passou rápido. Todos estavam voltando para os carros. Allya se encontrava mais afastada quando Kafira se aproximou:

–Palloma é estranha. Nunca errou. Mas pra tudo tem uma primeira vez certo?- Esperou uma resposta da amiga, que nada falou. Então continuou:

–Sabe porque a Devonne chama a Palloma de mãe?

–Por respeito?

–Gratidão. Há alguns séculos atrás, Devonne era uma prostituta, mulher da vida. Esse tipo de gente não era bem visto pela igreja católica. Sem motivos para acusa-la a igreja romana a acusou de adultério e bruxaria. Devonne foi condenada ao fogo assim como as outras bruxas. Nessa época já existiam rebeliões, e um grupo muito conhecido eram os Justiceiros, eles se denominavam assim porque eram homens treinados para a guerra que se rebelaram contra a igreja católica e pregavam agora um Jesus diferente, eram protestantes. Logan era um justiceiro. Eles salvavam pessoas e invadiam os acampamentos dos sacerdotes sem misericórdia. Uma noite enquanto invadiam uma aldeia próxima, Logan viu uma mulher sendo torturada por um vigário, não se conteve e matou o padre, salvando a moça do perigo. Ele cuidou dela e quando estava curada de seus ferimentos, eles se apaixonaram perdidamente. Tudo ia bem, eles estavam juntos, havia amor e felicidade e Logan até havia parado de lutar contra a santa Igreja, até que um dia simplesmente não encontrou mais Devonne em sua cama, desesperado e sem mulher Logan montou em seu cavalo e a procurou por todos os lugares, passaram-se meses e nada de sua amada aparecer, pressentindo que algo de ruim teria acontecido com ela, procurou por uma feiticeira conhecida da região e ninguém sabe como conseguiu a imortalidade até que vingasse a morte de sua grande paixão.

–E porque ele está aqui? Ele já achou Devonne.

–Justamente, o acordo duraria até ele vingar a morte de Devonne, como ela não morreu, ele não teve o que vingar, então o pacto durará eternamente. Devonne era mulher da vida, mas tinha alguém para cuidar, ela tinha uma irmã a qual amava muito. Como não tinha mais família existente na terra, Devonne cuidava de sua irmã como uma mãe, sempre protegendo ela, vendia seu corpo para poder sustentar a irmã. Moravam em um quarto de um cabaré. A menina era uma adolescente de 14 anos vivia sempre trancada em um dos quartos da taberna para que não sentisse vergonha ou culpa da profissão da irmã . Quando os soldados do Papa invadiram o prostibulo onde Devonne trabalhava e morava junto com sua irmã, eles acharam a menina antes que ela pudesse se esconder e abusaram dela incansavelmente até que a garota não resistiu e morreu. Eram homens rudes e fortes, violentos e sem escrúpulos. Estavam em grande numero e não se conseguia nem contar quantos estupraram a pobre menina. Talvez 20, 30, 50, 100...

–Pare por favor, eu já entendi! – Exclamou Allya em tom de nojo e desprezo, estava assustada com a historia de Devonne e agora entendia o porque dela ser tão arrogante e egoísta.

–Devonne prometeu vingar a irmã e logo após ser salva por Logan e se recuperar, ela procurou imediatamente a mesma feiticeira e fez o pacto da imortalidade, mas no caso dela não existem clausuras como o pacto de Logan. Fugiu sem dar noticias e ele achou que ela tinha realmente morrido.

–Então a feiticeira era....

–Sim, era Palloma.

–Então porque ela não contou a Logan que Devonne já havia ido lá e que estava viva?

–Porque ela não pode interferir, o oráculo apenas mostra o caminho.

–Mas...Devonne conseguiu vingar os...-Parou por alguns instantes, nervosa, não queria sequer imaginar o que a irmã de Devonne passou, Kafira percebeu e continuou:

–Sim, matou todos ... um por um! Das piores formas. Por isso ela venera tanto Palloma, foi como uma segunda mãe para ela. Alem de tudo Devonne tem preferência em relação a Logan, ela ganhou até poderes e dons como o de se movimentar em extrema velocidade, penetrar na mente de alguém e também ela é muito útil na artes maciais, como uma serpente ela é astuta e nunca perdeu um duelo. Ela tem usado isso para realizar trabalhos sujos por aí...Mas o porque de Palloma ter dado tudo isso a ela sem pedir nada em troca vai ser sempre um mistério.

Allya encarava o chão parada sem nenhuma reação quando Kafira pronunciou as piores palavras que já tinha ouvido na sua vida:

–Entende agora o porque Logan trata ela com tanto desprezo? Porque ela foi o grande amor da sua vida e mesmo tendo acabado com acabou, um amor assim nunca morre, é como um negocio inacabado que vai sempre estar ali, no coração.

A buzina do carro em que Ariel estava cortou os pensamentos de Allya de forma brusca. Kafira convidou bixinho enquanto já estava andando:

–Vamos Allya, já esta tarde.

No caminho de volta, Allya esqueceu de tudo, das palavras de Palloma, do seu medo do futuro, do quão grande era o problema em que ela estava metida e só se concentrava em uma coisa: Devonne, o amor perdido do seu professor. Logan percebeu que ela estava triste pensativa, mas achou que era apenas o nervosismo que as palavras de Palloma causaram nela.

“Ela foi o grande amor da sua vida”, “Um amor assim nunca morre”, “Negocio inacabado”, “Vai estar sempre ali no coração”. Essas palavras ecoavam na cabeça de Allya como um turbilhão fervente e agonizante. Uma tortura.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.