Notas iniciais
Espero que gostem :)

Se soubesse que aquela seria sua parada final, Cosme não teria tomado as decisões que tomara cerca de três meses atrás.

— Para onde estão me levando? — ela perguntou, amedrontada, observando os outros encarcerados encolherem-se no chão pedregoso de suas celas. À sua frente três Protetores da Ordem seguiam, puxando-a pelas correntes que apertavam seus pulsos, tornozelos e pescoço. Um deles cantarolava uma canção antiga e sombria, sobre túmulos ensanguentados e crianças de um olho só. Cosme tremeu involuntariamente e perguntou pela segunda vez — Para onde...

O tapa veio tão forte que ela se desequilibrou e esfolou os joelhos ao cair próximo à grade. Segurando-se nas barras de ferro, tendo cuidado para não reabrir feridas que as correntes há muito lhe causara, levantou-se antes que os homens a acusassem de esmorecimento e deteve o olhar para o chão. O barulho de chaves sendo agitadas, porém, fez com que Cosme atentasse para cima e constatasse que não seria a única a ser levada dali.

— Não! — chorou a encarcerada. — Não, por favor... Eu não...

Com cabelos louros sujos de lama e um corpo resumível a pele e ossos, Ilia foi arrastada para fora enquanto debatia-se selvagemente contra os Protetores. Jogou-se contra um deles com demasiada violência e recebeu duas chicotadas tão fortes em suas costas que os mínimos pedaços de pano que a cobriam foram rasgados. Puxada pelo cabelo, levantou-se implorando por piedade e teve de caminhar o resto do percurso com a cabeça na altura da cintura do mais alto.

Chegado ao destino, com grandes paredes cinzentas a rodeá-los e duas cadeiras cheias de apetrechos organizadas uma de frente para a outra no centro da sala, Cosme foi virada de costas bruscamente por um dos Protetores e seu rosto chocou-se contra a parede. Tremendo, sentiu com ardor as correntes serem retiradas de seu corpo e foi conduzida para uma das cadeiras, onde novamente estaria sob amarras. Os olhos castanhos de Ilia, já sentada a sua frente, estavam vermelhos e inchados, e seu rosto coberto por hematomas. As duas fitaram-se por um tempo, Cosme assustada demais para tentar tranquilizar a companheira, Ilia com lágrimas a escorrerem pelas bochechas. O barulho da porta sendo aberta e de vozes nada acolhedoras adentrando a pequena sala envolveu as duas de uma tão aterrorizante forma que ambas abaixaram a cabeça e começaram a chorar histericamente.

— Isso será rápido, garotas. — Disse o que usava um avental levemente azulado e que estava com uma seringa em mãos. — Tudo que precisam fazer é cooperar. Respondam as perguntas do meu velho amigo Bakr e sairão daqui sem sequer um arranhão. Temos um acordo?

— Faça-as pararem de chorar, isso está me dando nos nervos. — Exigiu Bakr.

— Ilia. Cosme. — aproximou-se o outro, abaixando-se entre elas e tocando-lhes as faces. — Quero que parem de chorar, tudo bem? Nada aconteceu. Nada vai acontecer. Vocês só terão de dizer algumas palavras e estarão liberadas. Não é necessário todo esse sofrimento. Então só parem de chorar e respondam as perguntas. — Levantou-se com elegância e dirigiu-se a Bakr — Qual das duas primeiro?

— A seminua. — Disse com um sorriso.

— Ilia Fairuz. Garota do Norte, vinte e cinco anos, trabalhava como bibliotecária juntamente com mais dois Civis. Decidiu tornar-se uma Desertora quando completou 22 anos, e as marcas da cirurgia ainda são visíveis em seu tornozelo. Depois disso passou a ser uma prostituta, e...

— É, eu já sei de tudo isso, Elrik — resmungou Bakr com um gesticular de mãos que claramente indicava que queria o silêncio. Caminhou a redor das duas enquanto transformava seus pensamentos em palavras. — O que ainda não sei é como uma simples bibliotecária conseguiu realizar uma cirurgia que apenas médicos com longos anos de experiência conseguem realizar. — E, afastando o cabelo de Ilia para detrás da orelha, sussurrou. — Você pode me explicar isso, baby?

— Não fui eu. — respondeu.

— Não foi você? — debochou. — E quem foi?

Ela não respondeu. Olhou-o com um desespero mudo e então fitou o chão.

— Ilia, concordamos que você responderia a todas as perguntas. — Disse Elrik após trinta segundos de absoluto silêncio.

— Eu não posso falar... — seu resmungo era quase inaudível. — Por favor, não me façam falar. Eu não posso falar.

Rápido como uma serpente, Elrik caminhou até as costas de Cosme e puxou-a pelo queixo contra a cadeira. Segurando a seringa acima do olho da garota, que se debatia inutilmente e apertava as pálpebras como se fossem um escudo impenetrável, ele observou Ilia gritar para que parasse com aquilo e o desespero tomar conta de todo seu ser.

— Quando eu chegar ao número três, se você não me falar exatamente o nome de quem fez a cirurgia de retirada do chip em você, então essa garota estará cega de um olho. É isso que você quer?

— Ilia... — sussurrou Cosme, suplicando.

— Um.

— Por favor, não faça isso! Não... — gritou Ilia, desesperada, agitando-se na cadeira.

— Dois — disse o homem de avental. Ergueu o braço o mais alto que pôde e continuou. — Três.

O grito de Cosme reverberou pela sala tão alto que Bakr levou as mãos ao ouvido. O som agudo, no entanto, não foi o suficiente para silenciar a voz esganiçada de Ilia, que gritava o nome de alguém importante dentro da elite, alguém que todos ali presente conheciam. Com a seringa a centímetros do olho de Cosme, Elrik despejou um beijo na testa da garota e acarinhou seus cabelos.

— Eu falei que tudo ficaria bem caso respondessem as perguntas. — Elrik soltou Cosme e caminhou para o lado da outra presa. — Pode repetir o nome do homem que ocasionou isso tudo, Ilia?

— Alastar Cillian.

Bakr soltou uma gargalhada.

— Alastar Cillian? — perguntou. — O padre Alastar Cillian? Falamos do mesmo homem?

— Sim.

— Maldição. — sussurrou, seu rosto passando da calmaria para o ódio em segundos. Repentinamente, ergueu o braço e, com as mãos fechadas, socou o rosto de Ilia. — Eu não acredito em você.

— Bakr, ela nos deu a resposta. — Repreendeu Elrik. — Não há necessidade de violência.

— Eu não acredito nessa vadia...

— É compreensível que tenha sido ele. — disse o outro. — Seu pai foi um cirurgião de renome, com absoluta certeza ensinou ao filho tudo o que sabia. Talvez até mesmo estivesse também nesse ramo...

— Traição? — explodiu Bakr. — Traição é agora um ramo, Elrik? É assim que você chama?

O homem preferiu o silêncio.

Bakr, no entanto, caminhou a passos firmes até a porta e gritou pelos Protetores da Ordem. Irado, voltou até as cadeiras e agachou-se na frente de Ilia. O rosto da jovem estava mais inchado do que antes, e havia sangue em sua boca.

— Você, minha querida, já não é mais útil para nós. — Retirou-lhe com gentileza cada uma das amarras. Cosme apenas observou, alterando o olhar entre Elrik e a conversa a sua frente. Os Protetores da Ordem puxaram Ilia pelos braços e carregaram-na até a porta. Bakr levantou-se, passando as mãos em sua calça, e fitou-a por cinco segundos. Depois, disse com um sorriso. — Levem-na para a sala especial. E tenham muito cuidado para não... danificá-la. Cada órgão equivale a uma mina de ouro.

— O quê? — sussurrou Cosme.

Ilia gritou e lutou, mas não era uma ameaça. Rodeada por quatro Protetores da Ordem, foi levada aos berros para fora da sala enquanto Bakr e Elrik viravam-se para Cosme.

— Vocês disseram que não aconteceria nada caso respondêssemos as perguntas — sussurrou novamente, horrorizada, sem sequer olhá-los nos olhos.

— Algumas pessoas não foram feitas para esse mundo, Cosme. — suspirou Elrik. — Ilia encaixava-se nessa categoria. Mas isso não importa agora. — Aproximando-se, injetou um líquido nas veias da garota. — Um sensibilizante a dor, caso queira saber. Desenvolvido pelo doutor Holl...

— Não vou falar nada. — interrompeu.

— Oh, nós sabemos que você é uma garota durona, apesar do que fez nessas últimas semanas. — Continuou ele. — Mas temos perguntas muito importantes para fazer a você, Cosme Solaris, e com todo esse tempo que tivemos para planejar o que faríamos quando esse momento chegasse, acredite em mim... Você irá falar. E se eu fosse você, começaria antes dos problemas realmente ficarem sérios.

Notas finais
Link para fichas: http://www.tfaforms.com/357502

Qualquer dúvida, pergunte por mp ou então comentário.

Mas então, o que acharam do prólogo? Peço desculpas desde já pelos erros, escrevi com pressa porque queria postar logo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.