Notas iniciais
Mil vezes desculpas. Mais de um mês sem postar, eu sei disso, mas eu estava totalmente sem tempo para escrever e, como se já não bastasse, um bloqueio criativo monstro que durou quase um mês. Desculpa, desculpa, desculpa.
Mas consegui terminar o capítulo depois de um longo inverno. xD

Naquela noite, antes de dormir, Alícia deixou sua mente ferver enquanto encarava o misterioso papel que havia recebido. Quanto mais pensava no assunto, mais percebia que era exatamente isso que queria fazer. Quando se ajeitou na cama e fechou os olhos, não restavam dúvidas quanto a isso.

Acordou cedo, tomou um bom banho e um bom café. Era segunda feira e Duda saiu cedo para trabalhar. Algumas vezes Alícia se sentia mal pelo fato da irmã trabalhar de segunda à sexta enquanto ela ficava em casa na maior parte do tempo, mas seu lucro também não era tão insignificante assim. O cachê da lanchonete até que tinha sido uma boa ajuda.

Assim que a irmã estava longe, saiu para pegar todos os ônibus necessários. Havia pesquisado no Google onde era o endereço e descobriu ser uma viela no centro da cidade. Conhecia o lugar, era movimentado e meio poluído, como o Centro sempre fora. E, quando chegou lá, pode atestar que continuava o mesmo.

Por sua origem histórica, o centro do Rio de Janeiro é uma verdadeira mescla de arquitetura antiga com moderna. Ainda possui casas com um estilo centenário, escondidas entre prédios gigantes, em ruas barulhentas e lotadas. Andar por lá é uma verdadeira ginástica para a atenção, mas é o tipo do lugar inevitável, já que é o coração do estado. A maioria dos trabalhadores tinha seus empregos localizados lá, o que explica um pouco a movimentação infernal. Porém, Alícia já estava mais do que acostumada e não teve a menor dificuldade para encontrar o local. Não demorou muito estava de frente para uma das casas com estilo antigo, até bem grande. As janelas e as portas eram de madeira que precisava de um verniz e a pintura estava gasta e manchada de poluição. Fora isso, até que estava bem conservado. Respirou fundo e foi até a porta, batendo meio que hesitante. Ouvia sons lá dentro, mas demorou até que houvesse sinal de alguém próximo à porta. Quase batia novamente quando alguém resolveu abrir.

Quem abriu foi um rapaz de altura mediana e de pele clara, cabelos negros e lisos que iam até os ombros em uma perfeita cortina. Seus olhos eram igualmente escuros e seu rosto um pouco anguloso demais. Seu corpo também era um pouco mais magro do que deveria ser.

-Pois não? – Ele perguntou com uma voz sonolenta. Não devia ter acordado há muito tempo.

-Eu estou procurando... – Quem ela estava procurando mesmo? – Estou procurando o dono da casa.

-Quem você é?

-Alícia. – Ela respondeu, meio que idiotamente. Só um nome não faria que ele a deixasse entrar.

-Alícia? Nunca ouvi falar. – Ele respondeu mal humorado e esfregando os olhos.

Alguém apareceu rapidamente ao lado dele, ela mal percebeu quando apareceu. Para ser mais exato, por muito pouco não se assustou com a presença do outro cara. Ele meio que empurrou o outro para poder olhá-la melhor. Ela não pode evitar de reconhecê-lo. Era um tanto alto, a pele extremamente pálida e, no rosto, havia uma boa quantidade de sardas. Os cabelos eram ruivos, tanto que chegavam a ser quase alaranjados. Alícia não conseguiu identificar se seus olhos eram verdes ou azuis.

-É ela, idiota. – O ruivo falou, revirando os olhos para o outro.

-Ela? – O ruivo esfregou os olhos novamente, para olhá-la melhor. – Foi mal, Felipe, eu não reconheci.

-Tudo bem, deixa que eu cuido disso. – O outro saiu, e Felipe sorriu para ela. – Alícia, não é?

-Isso. – Ela respondeu, insegura.

-Felipe Miranda. – Ele estendeu a mão e ela o cumprimentou. – Por favor, entra. Achamos que não fosse vir.

Ela obedeceu com um sorriso sem graça e entrou, parando perto da porta enquanto Felipe a fechava. Olhou ao redor, era um lugar antigo, assim como a fachada sugeria, mas era um pouco melhor cuidado de dentro. A pintura era um pouco menos jurássica. O mesmo não podia se dizer dos poucos móveis que cobriam o que parecia ser uma sala de estar, mas não havia ninguém.

-Por aqui. – Felipe disse e ela o seguiu. – A casa está um pouco vazia, alguns estudam ainda em um colégio público próximo daqui. Sabe, os mais novos. Eu, ainda bem, já terminei aquela tortura. – Ele disse, sorrindo e ela fez o melhor que podia para retribuir o sorriso.

Passaram por mais um cômodo de aparência velha, agora realmente parecia uma sala, com sofás, uma televisão e controles de vídeo game jogados pelo tapete empoeirado. Havia uma garota lá, mas, por algum motivo, Alícia não perdeu tempo em prestar atenção nela. Só havia reparado sua presença pela televisão ligada em um seriado qualquer que ela não reconheceu. Havia uma escada que dava para um segundo andar e uma porta que dava para outra parte qualquer.

-Para lá é a cozinha e os fundos da casa. E o escritório do Arthur também. – Ele disse, apontando para porta. – Nossos dormitórios ficam lá em cima.

-Quem é Arthur? – Ela perguntou sabendo que aquele nome significava algo importante. O cara tinha um escritório.

-Nosso pai. – Felipe respondeu com um instantâneo sorriso no rosto e um brilho nos olhos. Parecia simplesmente adorar o homem. – Vai conhecê-lo daqui a pouco, mas tem uma pessoa que quer te ver antes.

-Felipe! – Alícia ouviu uma voz estranhamente familiar ecoar e uma garota quase idêntica a Felipe, exceto pelo fato dos cabelos ruivos serem longos, descer pelas escadas alegremente. – Por que não me chamou?

-Eu já estava indo, Sophia, sem desespero. – Ele falou em um tom carinhoso com ela, como se fosse irmão mais velho e não gêmeo.

Então Sophia chegou perto deles e, por mais estranho que parecesse, abraçou Alícia, como se fossem conhecidas de anos. Alícia não soube bem o que fazer no momento, mas a ruiva a soltou antes que tivesse que esboçar qualquer reação.

-Estávamos ansiosos te esperando! – Ela voltou a dizer, animada.

-Obrigada, eu acho... – Alícia respondeu, totalmente sem graça.

-Ele quer vê-la agora. – Sophia disse para o irmão e ele confirmou com um aceno.

-Venha com a gente. – Felipe disse.

Alícia, mais uma vez, obedeceu. Talvez fosse pura irresponsabilidade ir lá, mas era tarde demais para ter esse tipo de pensamento. Foram até a porta, o mundo ficou em câmera lenta para ela. Se aquele Arthur fosse o cientista poderia esclarecer muitas coisas. Ele havia criado tudo aquilo, havia criado seja lá o que ela fosse. Talvez ele pudesse dizer o que realmente ela era capaz de fazer. Felipe bateu na porta e uma voz rouca respondeu para que eles entrassem. Ele abriu a porta e entrou, seguido por Sophia. Alícia foi logo atrás e ouviu quando o rapaz fechou a porta atrás dela.

Era um escritório pequeno, porém confortável. Uma mesa com duas cadeiras na frente, umas estantes com alguns livros no fundo, um computador em cima da mesa e um sofá pequeno no canto. O que chamou sua atenção, porém, foi o homem que se encontrava por trás da mesa. Era um senhor de idade, parecia ter sessenta anos. Os cabelos eram cortados curtos e penteados com alinhamento, sua cor era branca com algumas pequenas mechas que permaneciam cinzas. A pele enrugada era um pouco morena, mas não muito. Era magro, mas não parecia ser uma magreza lá muito saudável.

-Então, o que vocês me trazem? – Perguntou aos gêmeos. Sua voz era rouca e Alícia pensou que ele talvez fumasse.

-É Alícia, ela veio. – Felipe disse, sorrindo.

O homem a olhou dos pés à cabeça e sorriu. Parecia simpático, mesmo que Alícia o achasse suspeito e desconfiasse muito. Ele acenou para a cadeira a frente.

-Por favor, Alícia, sente-se! – Disse, com animação, e ela obedeceu. – Prazer, Arthur. Então, já que veio, deve ter várias perguntas a serem feitas. Quer começar por alguma em especial?

-Bem, eu não sei ao certo... – Eram perguntas demais para fazer, não sabia por qual começar. Jogou a primeira que veio à sua mente. – Como conseguiram se comunicar comigo? – O velho sorriu, parecia já esperar por aquilo.

-Não foi fácil. Eu sabia que você teria a possibilidade de desenvolver essa habilidade. Então, quando achei que já deveria estar evoluindo, convenci Felipe e Sophia a ficarem tentando entrar em conexão com você. Fiquei muito feliz em saber que eles conseguiram.

-E qual seria exatamente a minha habilidade?

-Eu não tenho como saber o resultado completo, mas, em teoria, seu cérebro funciona como uma espécie de satélite, captando e transmitindo informações. Os outros transmitem para você mensagens que seu cérebro converte em pensamentos e você pode fazer o mesmo com eles. – Ele deu de ombros. – Pode ser que haja mais alguma coisa, ou alguma coisa a menos, só vamos conseguir saber com o tempo. Os projetos nem sempre saem perfeitamente como planejado.

Alícia ficou em silêncio um longo tempo, encarando o doutor, enquanto tentava entender o que haviam feito com ela. Por mais que achasse aquilo incrível, não podia deixar de questionar as motivações.

-Por que você fez isso? – Ela perguntou, não conseguindo se controlar mais. – Digo, essas experiências.

-Não consegue enxergar a grandeza disso? – Dr. Arthur tinha uma estranha paixão na voz. – Vocês foram contemplados com a dádiva da evolução. São o futuro do mundo, os mais adaptados ao mundo. E você, Alícia, tem um papel especial nisso.

-Que papel?

-Você é o que os conecta a todos, é o centro. De todos os dons psicológicos que eu criei, você é o mais poderoso. Com a devida experiência você vai conseguir acessar o mais profundo das mentes de qualquer um de seus irmãos. – Irmãos? – Você não entende o quão gratificante é te ver aqui. Você vai acabar com as nossas brigas e poderemos todos viver em paz com os humanos normais.

-Com quem vocês brigam? – Ela já imaginava a resposta. Ao fazer a pergunta, a expressão do homem tornou-se um pouco triste e obscura.

-Existe um homem que tenta nos virar uns contra os outros. Já conseguiu convencer três, dois rapazes e uma moça, de que somos os vilões. Tudo que queremos é viver juntos e em paz.

-Mas por que ele faz isso?

-Temo que a culpa seja minha. – O rosto do Dr. Arthur agora assumia uma expressão de vergonha e pesar tão palpável que Alícia se pegou sentindo pena dele. – Trabalhou um tempo comigo, mas não tinha habilidade nenhuma como cientista. O despedi, tentei ser gentil, mas ele não aceitou a demissão bem. Eu teria reconsiderado, realmente, se ele não estivesse atrapalhando. Ficou com raiva e não conseguiu mais nenhum trabalho de destaque no mundo científico. Sua vida é um fracasso e colocou a culpa em mim, então começou a me perseguir e não parou mais. Agora perdi três das minhas crianças para ele e só posso torcer para que elas abram os olhos.

-Sinto muito. – Alícia disse antes que pudesse pensar melhor.

-Tudo bem, querida, não se preocupe. Ver você aqui faz as coisas ficarem melhores. – Ele sorriu calorosamente para ela e ela se sentiu estranhamente bem com isso. Não dava para acreditar que aquele senhor estava mentindo para ela. Mas se ele não estava mentindo... – Acho que já teve informações o suficiente por hoje, talvez queira ir para casa e botar a cabeça em ordem. – Ela ia abrir a boca para fazer outra pergunta, mas ele não deixou. – Eu sei que quer saber mais coisa, mas tudo a seu tempo. Pode voltar quando quiser.

-Obrigada. – Ela respondeu, se levantando.

-De nada. – Ele disse novamente simpático e sorridente.

-Vamos, Alícia. – Felipe disse, acenando para a porta.

Ela, Felipe e Sophia saíram pela porta e foram até a sala, Alícia já pronta para ir embora direto. Porém Sophia e puxou para o sofá, fazendo com que se sentasse com eles.

-Não precisa ir embora agora, vamos conversar um pouco. – Ela disse, animada. – Eu nem acredito que conseguimos te salvar daquele homem! Pensamos que você estava perdida como os outros três.

-Eles não parecem ser ruins. – Alícia falou, meio hesitante.

-E a gente parece? – Felipe perguntou.

-Também não. – Ficou em silêncio uns instantes. – Como sabem que eu me encontrei com eles?

-Nós te vimos andando com um deles, o que é forte, esqueci o nome.

-Guilherme. – Ela corrigiu e Felipe deu de ombros.

-Acho que é isso. Vimos os dois juntos quando tentamos falar com você de um jeito normal. Aí só sobrou o plano B.

-Bem, o plano B de vocês me assustou direitinho. – Alícia disse e os outros dois riram.

Ficou mais um pouco de tempo conversando com os dois. Conheceu também mais dois projetos. O que havia aberto a porta, Diogo, que até era divertido quando não estava sonolento. Sua habilidade era conseguir respirar quando estava debaixo da água. Segundo ele, quando estava na água absorvia a água pelo nariz, o organismo transformava em oxigênio rapidamente e ele expelia o que sobrava pela boca. Alícia achou bizarro, mas talvez houvesse uma utilidade nisso. O outro projeto era uma garota que esteve perto deles o tempo todo na sala, mas ela não havia notado. Só se deu conta quando os gêmeos comentaram e ela olhou para o lado, vendo uma garota ler um livro. Não era feia, tinha cabelos castanhos cortados na altura do ombro, cacheados, e a pele um pouco bronzeada. Era normal, mas Alícia não conseguia olhar para ela por muito tempo. Felipe disse que ela funcionava como um repelente, ninguém conseguia notar a presença dela e, quando notava, ignorava. Era a mesma coisa que ser invisível. Ela disse alguma coisa, mas Alícia simplesmente não conseguia prestar atenção no que ela dizia. Só entendeu que seu nome era Jane e nada mais.

Só saiu de lá cerca de uma hora depois, com um pouco de fome. Era quase hora do almoço e não havia comido muito bem no café da manhã. Talvez parasse para comer alguma coisa quando estivesse mais perto de casa.

Foi ao ponto de ônibus que não estava muito cheio naquele horário em esperou pacientemente até que o veículo chegasse. Quando se sentou em um dos bancos, no corredor, ouviu o toque do celular e correu para atende-lo antes que as pessoas começassem a olhar para ela. Antes de atender, conferiu o número: era Guilherme. Como que por um reflexo, desligou ao invés de atender. Não queria falar com Guilherme agora, não queria falar com nenhum deles. Precisava ficar sozinha para pensar.

E pensar foi o que fez durante toda a viagem. Arthur não parecia ser o homem que Jonathan havia descrito tão mal antes. Não conseguia ver perversidade no olhar dele, não via loucura, nada. O modo como Felipe e Sophia o amavam parecia verdadeiro, como se fosse o próprio pai deles. Se ele queria usá-los para algum objetivo maior, qual seria a razão de adotá-los?

E se Jonathan fosse realmente apenas um cientista falido que queria acabar com os planos do outro? Podia ser verdade, ela não conhecia nenhum deles por muito tempo. Jonathan podia ser qualquer coisa sem que ela soubesse. O que incomodava era saber se Guilherme e os outros tinham consciência disso ou não. Também pareciam acreditar que Dr. Arthur era ruim. O que ela faria agora?

Com a mente confusa, percebeu que só havia uma coisa que podia fazer. Andaria com os dois lados a partir daquele momento, aprendendo o que podia. Uma hora saberia quem era o que de verdade e era só romper com o outro lado. Arriscado, talvez, mas era a única solução disponível naquele momento.

Parou em um restaurante perto de casa e matou sua fome. Seu celular tocou mais uma vez durante a refeição, mas ela ignorou novamente, concentrando-se em sua comida. Depois foi para casa e, depois de um banho, jogou-se no sofá. Dificilmente assistia televisão, mas como não precisava pensar muito para fazer isso, foi o que acabou fazendo. Não se surpreendeu ao perceber que, conforme sempre fora, não havia nada que prestasse na programação de nenhum canal. Botou em qualquer coisa menos pior e ficou assistindo, tentando relaxar. O celular tocou pela terceira vez e Alícia revirou os olhos. Além de forte, Guilherme parecia ser teimoso. Cansada do incômodo, decidiu resolver logo o problema.

-Alô?

-Alícia! Finalmente atendeu, não estava perto do celular?

-Estava meio ocupada aqui, Guilherme. – Mentiu. – O som da guitarra não me deixou ouvir direito.

-Ah, tudo bem. Escuta, Victor estava se perguntando se você não gostaria de fazer alguns testes hoje. Será que eu poderia leva-lo até aí?

Alícia ficou em silêncio uns instantes, pensando. Se negasse ficaria óbvio que algo estava estranho, já que antes ela queria tanto aprender e dominar suas habilidades. Talvez conseguisse fingir bem na presença deles e, de qualquer forma, ainda aprenderia qualquer coisa. Mesmo assim, foi com muita má vontade que aceitou, deixando bem claro que seria melhor que fossem embora antes que Duda chegasse do trabalho. Guilherme concordou e desligou o telefone, deixando-a sozinha com seus pensamentos novamente.

Desistiu da televisão e desligou, relaxando no sofá. Aos poucos foi se desligando do mundo até cair em um cochilo que, aos poucos, virou um sono.

Em seu sonho, estava na casa do Dr. Arthur, na sala com Sophia. Podia ouvir a voz de Felipe por perto, mas não via o rapaz em lugar algum. Passou-se certo tempo até a porta abrir em um rompante e Guilherme, Victor e Renata entrarem e começarem a atacar Sophia. Alícia tentou defendê-la, mas Guilherme a empurrou e ela ficou no chão, impotente. Ouviu Felipe gritar de algum ponto, mas ela continuava sem ter o que fazer, implorando para que parassem.

Acordou assustada com a campainha tocando. Respirou fundo, acalmou-se e levantou, ajeitando a roupa e o cabelo. Olhou no relógio rapidamente e descobriu que seu cochilo durara um pouco mais de uma hora, muito mais do que imaginava. Apesar disso, sentia-se mais cansada do que estava antes.

Abriu a porta e encontrou Guilherme, Victor e Jonathan do outro lado. Abriu espaço para que eles passassem e fechou a porta, logo cumprimentando-os o mais normalmente que pode.

-Então, o que vamos fazer? – Ela perguntou, voltando a se sentar no sofá.

-Eu estive pensando que, talvez, a melhor forma de tentar ler a mente de algum de nós seria ficar tentando mesmo. Não consegui pensar em nada que pudesse ajudar. – Victor explicou.

-Então, o que vamos fazer? – Ela repetiu, sem compreender.

-Hoje você vai tentar acessar a mente do Guilherme. Acho que, conseguindo ter acesso à uma mente, as outras vão ficar mais fáceis.

-Tudo bem. – Ela disse enquanto Guilherme sentava no chão, há mais ou menos um metro dela.

-Tente focar nele, imagine-se entrando na mente dele. Talvez ajude.

E ela focou nele. O único som que se ouvia era dos carros que passavam e eventuais ruídos dos vizinhos. Ela estava se esforçando, de verdade. Os dois se encaravam em mútua concentração, ele devia estar tentando enviar pensamentos para ela. Ela focava nele o máximo que podia. Reparou coisas que não havia reparado antes. Ele era realmente ruivo, dava para perceber o disfarçado tom avermelhado contra a luz que vinha da janela. Havia uma pinta perto do olho esquerdo que ela também não havia reparado antes. Sua testa se enrugava com o esforço, dando a ele um ar sério. Com aquilo tudo, não conseguia deixar de pensar no sonho que estava tendo há minutos. Acreditar que Guilherme era ruim era tão ruim quanto pensar isso de Sophie. Sua cabeça ficou confusa novamente, mas não demonstrou que seus pensamentos estavam em outro lugar. Decidiu fazer o que lhe era proposto para só depois pensar novamente.

Esforçou-se, imaginou-se entrando na mente dele, fez tudo que conseguiu pensar e inventar. Nada aconteceu e sua cabeça começou a doer. Já começava a desistir quando algo atingiu sua mente. Era uma imagem de uma mulher alta, de pele clara, cabelos castanhos e olhos bondosos. Sentiu um conforto tão grande com aquela imagem que quis que ela voltasse quando acabou. Além disse, um nome ficou gravado na sua mente: Marília.

-Quem é Marília? – Alícia perguntou, esfregando os olhos. Quando não ouve resposta, ela abriu os olhos e encontrou Guilherme olhando consternado para ela. – O que foi?

-Você ouviu esse nome? – Ele perguntou, algo estranho em sua voz.

-Eu não ouvi. Eu vi a imagem de uma mulher e esse nome ficou na cabeça.

-E como era essa mulher? – Victor perguntou.

-Na imagem ela parecia alta, mas eu não estava olhando da altura normal, era como se eu fosse uma criança. Cabelo castanho um pouco curto, branca, e tinha uma aparência boa. Foi estranho, eu me senti bem com a visão. Quem é ela?

-Minha mãe. – Guilherme respondeu baixo, sua expressão havia ficado triste de uma hora para a outra. – Ou pelo menos a última lembrança que eu tenho dela antes de sua morte.

-Ah... – Alícia não soube o que dizer por um tempo. – Eu sinto muito.

-Não tem problema. – Ele disse com um sorriso forçado. – Mas como você a viu se eu nem estava pensando nela?

Alícia não soube responder e Victor ficou pensativo. Chegou perto de Jonathan, que estava recostado na parede no fundo da sala e cochichou algo com ele. Voltou, dando de ombros e ainda com a expressão concentrada no rosto.

-Acho que você não capta apenas os pensamentos momentâneos, mas também tem acesso às memórias mais distantes. Por algum motivo foi isso que você acessou dessa vez. Pelo menos foi um avanço.

-Se você não quiser, não precisamos continuar hoje. – Ela disse para Guilherme, estranhamente com medo dele ter ficado mal com a situação. Por algum motivo, a imagem da mãe dele a havia deixado menos arredia com ele. Pelo menos por alguns instantes.

-Não, vamos continuar. – Ele falou, confiante, e foi o que eles fizeram.

Tentaram por quase uma hora até desistirem. Já estava perto da hora de Duda chegar e Alícia já estava exausta da tentativa. Não captou mais nada da mente de Guilherme e achava difícil que fosse conseguir mais alguma coisa aquele dia. Despediu-se deles e, quando fechou a porta e foi tomar um banho, estava mais confusa do que nunca. Definitivamente iria deixar as coisas acontecerem para tomar qualquer decisão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.