D.Mon - Uma história de horror kpop

1 Capítulo 1: “Blue Moon”


Notas iniciais
Olá pessoal. Está é uma história sobre dois assuntos que me entretém bastante, kpop e terror. Não sou um grande ouvinte de kpop, mas me interesso muito sobre como a indústria funciona e gosto de acompanhar alguns grupos! Já o horror é algo que sempre me fascina. Eu comecei a escrever apenas para me entreter durante esta quarentena e ter a experiência de contar uma história. Terror é uma literatura pela qual tenho muito respeito e sei o quão difícil é envolver o leitor e fazê-lo sentir coisas. Minha pretensão aqui não é nem de longe entregar uma 'obra', mas apenas de compartilhar uma história com quem se interessar.

A noite era clara e silenciosa. Era o começo de uma madrugada de segunda feira. A vizinhança dormia, preparando-se para mais uma semana. Todos os prédios ao redor estavam apagados, mas de um edifício moderno, era possível ver algumas luzes acesas e ouvir uma batida frenética ecoava. O arranhar no tênis no chão de madeira era constante, como se um jogador de basquete estivesse praticando com todo afinco. Um giro perfeito, joga o quadril para direita, para a esquerda, passos para trás, sempre encarando o espelho, e finaliza jogando-se ao chão como um rock star. A música para.

Fazia frio lá fora, o inverno estava em seu auge e o bater do vento contra a janela era constante, mas após horas praticando, o calor que emanava de seu corpo já havia tomado o ambiente. O suor escorria e a respiração estava ofegante – mais uma vez— a voz em sua cabeça repetia. Ela se levantou, o corpo não queria, mas a voz não a deixava em paz.

Yuna Kim havia acabado de completar seus 18 anos. Tinha quase 1,70 de altura herdados de seu pai, um coreano-americano de quase 1,80; e um corpo curvilíneo com pernas fortes, herdados de sua mãe brasileira. Ela não era o padrão e sabia disso. Segundo sua agência, precisava perder peso, e seus movimentos eram muito fortes, destoando das demais garotas. Um diamante que precisava ser lapidado, dizia seus professores, e isso fazia o seu sangue ferver. Era como se nada que fizesse estivesse certo. Normalmente ela sempre tinha confiança em si, mas havia dias em que a vontade em chorar e sumir consumiam-lhe.

Parte de sua vida passara no Brasil, em São Paulo, e desde os 5 anos de idade já participava de aulas de dança dadas por sua mãe, dançarina profissional. Aos 10 anos, mudou-se com sua família para os Estados Unidos, Los Angeles. Foi lá que se apaixonou de vez pelo mundo do entretenimento e se dedicou ainda mais a dança e ao canto. A música era algo constante em sua vida, seu pai era um musicista apaixonado, trabalhava como compositor de jingles e nas horas vagas era produtor musical. Quando jovem, teve o sonho de se tornar um grande idol e produtor de kpop, mas a vida nem sempre segue de acordo com os nossos sonhos.

Enquanto estava em L.A., ela assistiu com seu pai ao concerto de um dos maiores grupos do Kpop, o P.O.A – Piece Of Art— o grupo mais antigo da Hit Machine (HM) Entertainment, e que possui um dos conceitos mais interessantes da indústria, obras de arte. A mistura de pop eletrônico com música clássica dão um tom especial e único ao grupo e os visuais mudam de acordo com o tipo de arte.

Ver seu pai contando e dançando com toda sua energia durante o show despertou em Yuna o sonho de se tornar uma cantora. Essa força de mover e inspirar as pessoas é algo que passou a fasciná-la. A dança de sua mãe e a música de seu pai passaram a ser suas grandes inspirações. Entretanto, não demorou muito para que a jovem percebesse que não havia muitas garotas meio asiáticas, meio americanas e meio brasileiras nessa indústria.

Foi quando que, incentivada por seu pai, ela participou de uma das audições da HM, uma das maiores empreses de kpop – Você vai se arrepender se não tentar— Ele lhe dizia. Yuna não era totalmente estranha a este mundo. Seu pai lhe contou inúmeras vezes histórias de como ele e sua irmã tentaram uma carreira na indústria do kpop e todos os desafios e frustrações que passaram. Ela sabia onde estava se metendo, pois sua tia até hoje ainda tomava medicamentos para tratar a ansiedade.

Sua aprovação na audição veio-lhe como uma surpresa, mas para os que a conheciam, isso foi apenas mais uma confirmação do talento e disciplina tão aflorados em uma garota que contava com apenas 14 anos na época. Em sua audição ela apresentou um número de dança com movimentos cheios de atitude e carisma. Cantou também uma balada original em coreano, escrita em conjunto com seu pai. Yuna se destacava mais pela sua dança do que pela sua habilidade vocal, mas ainda assim sua voz tinha personalidade e cor própria, com um tom mais grave.

Ela embarcou para Seul para viver com a avó paterna. Não sem antes lidar com a resistência de sua mãe. Ela era uma mulher extremamente carinhosa e protetora e a ideia de que sua filha seria julgada de todas as maneiras e ângulos possíveis tirava-lhe o sono.

Como você pode incentivar isso Jung?— Dizia a mãe ao pai. Quando a conversa envolvia os três, ela se dava em inglês. Português e coreano eram falados respectivamente nas ocasiões em que Yuna estivesse conversando apenas com a mãe ou com o pai. No caso, tratava-se de uma reunião de família urgente, com a jovem assistindo a tudo do sofá; esperando para que as coisas se voltassem ao seu favor.

Eu sei exatamente as coisas horríveis ela vai passar lá! E você também sabe. As noites sem dormir, os gritos, a competição diária! Como você pode apoiar isso! – Ela gesticulava a todo momento, andando de um lado para o outro. Seus olhos tinham fogo.

O pai estava com os dedos entrelaçados e braços apoiados sobre a mesa. Ele observava atentamente a esposa e mantinha um ar mais calmo.

Sim, é verdade Julia. Não foi um período fácil. Senti-me desmotivado e desacreditado algumas vezes— ele agora olha para Yuna – Mas também tiveram momentos em que me senti o cara mais talentoso do mundo. Também foi onde eu realmente senti o valor do sacrifício e o quão importante é ter amigos de verdade. Toda essa experiência também faz parte de quem sou hoje— ele sorri para a garota e depois volta o seu olhar para a esposa – Eu não acho justo tirarmos esta oportunidade da Yuna. Ela entrou, conseguiu pelo seu talento. O mínimo que podemos fazer é deixá-la tentar.

Ao final, foi decidido que ela iria para a Coreia ser uma treinee da HM, mas não sem antes sua mãe lhe fazer mil recomendações e deixar bem claro que ela poderia voltar para casa a hora que quisesse. Além disso, Julia fez Jung prometer que visitariam a filha constantemente. Entretanto, conforme os quatro anos avançavam, ficava mais e mais difícil de ver sua família, o máximo que Yuna conseguia passar com os pais eram algumas horas.

De início, Yuna morava com sua avó, uma mulher doce, mas após um ano, decidiu que seria melhor morar em um dormitório da agência, junto com as outras trainees. Não demorou muito para ela perceber que se não desse cem por cento de dedicação, ela nunca chegaria ao nível dos demais. E assim, a convivência com sua família foi ficando cada vez mais rara. Ela não era a única a passar por isso, praticamente todos os trainees em algum ponto precisaram escolher a agência como seu novo lar.

Havia várias meninas no dormitório de Yuna e, no geral, elas se davam bem. Na semana em que a avaliação, todos os trainees deveriam fazer uma apresentação solo e outra em grupo. Para a performance em grupo, ela faria com mais quatro trainees e tudo estava praticamente perfeito. Yuna emprenhou-se de maneira extra para esta apresentação, uma vez que, em um grupo, todos os membros precisavam estar em total harmonia para criar o cenário perfeito.

Movimentos mais suaves durante a dança era o que ela deveria ser melhor segundo seus professores na última avaliação. A cada ano que passava novos trainees entravam e muitos saiam por não apresentarem a evolução esperada pela empresa. Ela sabia que seu solo deveria ser fatal para Yuna continuar em frente ou perder tudo e por isso estava dedicando horas extras em um até o início de uma madrugada.

A música para, e mais uma vez a garota finaliza sua rotina de dança. No último movimento ela desliza com joelhos no chão, mantendo-se apoiada com um dos braços no chão e o outro apontando para cima. O rabo de cavalo está frouxo e alguns fios de cabelo estão grudados em seu rosto, ela havia atingido seu limite. Pouco a pouco seu corpo vai relaxando, entregando-se ao cansaço. Ela se levanta e pega uma toalha de rosto de sua mochila para limpar o suor e dá grandes goles de sua garrafa d’água. Quando volta a si, Yuna depara-se com sua imagem no grande espelho da sala. Eu consigo— pensou.

Um arrepio percorre seu corpo. Toda vez que a ideia de não debutar cruzava sua mente, sentia raiva de si. Raiva por se acovardar, por estar se colocar como um obstáculo para o seu sonho – Você vai desistir só porque é difícil?— Havia quatro anos que ela estava na Coréia treinando sob uma das maiores companhias do mundo do kpop. Ela sabia que tinha o talento necessário para isso, mas não imaginava que uma perfeição quase divina lhe seria exigida.

Em todo este tempo, as coisas que lhe eram ditas foram ficando cada vez mais ríspidas. Sem qualquer filtro, seu corpo era comparado com o de outras trainees ditos como o padrão; chamaram-na de burra por não acertar a pronúncia de algumas palavras; e disserem estarem desapontados com ela por não ser capaz de memorizar uma coreografia em menos de um dia, já que a dança era seu maior talento. Segundo eles, tal tratamento era feito para que os trainees pudessem evoluir de forma mais rápida. O final de qualquer discurso era – estamos dizendo isso para o seu próprio bem, lá fora será muito pior— No fundo, Yuna sabia disso, mais naquele momento, o inferno estava ali.

Para alguns, a pressão era insustentável. Algumas noites ela chorou, desejando estar com família. Antes de ir embora de casa, sua mãe deixou exaustivamente claro que ela poderia voltar a qualquer hora para casa. Na época Yuna pensou que sua mãe não acreditava em seu potencial. Hoje ela sabe que aquilo não foi nada além de puro amor e, no final das contas, era muito reconfortante saber que existia um lugar para onde ela poderia voltar. Mas este não era o plano.

Hora de ir embora, quase uma da manhã. Se fosse em dias normais ela ficaria até mais tarde treinando, mas o dia seguinte seria longo e era preciso dar um tempo para o corpo e a voz se recuperarem. A maioria dos demais trainees que conseguiram reservar um estúdio naquele dia já tinham deixado o prédio.

“Ahaaa, espero que minha unnie tenha feito aquele caldo de carne” – pensou. Embora todos os trainees estivessem em constante dieta, principalmente em momentos de avaliação, um dia frio como este pedia algo quente e nutritivo no estômago, seguido de um bom banho.

Caderno com que todas suas anotações, pensamentos e letras de músicas; celular de capa roxa; e squeeze. Tudo em sua bolsa lateral. Casaco até as canelas, cachecol aconchegante em volta do pescoço. A porta da sala se abre, e o perfume é familiar, inconfundível na verdade. Moon era um rapaz de cabelos até o pescoço, olhos cerrados em seus 19 anos. Era esguio, de ombros e sorriso largos.

Wow...Isso ficou...

É, eu sei, pegaram pesado no verde.

O próprio Chernobyl.

Moon solta uma risada enquanto passa uma das mãos pelos cabelos. Eles ficam em silêncio por um momento.

Escuta...

Eu...

Ambos soltam uma risada.

Você está treinando muito, não é mesmo?

Pois é, amanhã é dia de avaliação. E você sabe, os rumores estão cada vez mais fortes sobre um novo grupo feminino.

Parece que são reais mesmo.

Ela agarra o braço do garoto.

Sério! O que você ouviu?!

Ele sorri espantado.

Bom, eu ouvi meu manager falando sobre a contratação de um staff para um novo projeto.

Yuna fica imersa em sua mente. “É isso! É agora ou nunca!

Moon fica entretido, vendo a garota fantasiar sobre o futuro. Ele observa a mão agarrada na manga de seu casaco. Ele hesita por um momento em sua mente, mas coloca sua mão sobre a dela.

Eu queria te ver.

Como um estalo ela volta a si e observa a mão de Moon cobrir a sua. Ele aperta a mão de Yuna, mas ela lentamente desvencilha-se. Um passo para trás. Ela não consegue encara-lo.

Moon...

Desde aquela noite eu não consigo parar de pensar em nós.

O que você quer dizer com isso? – diz ela em um tom como se estivesse desafiando o garoto – “Nós” ...isso não existe.

O rapaz perde a fala por um segundo – “Nós”, isso sempre vai existir...desde quando estramos como trainees ...sempre juntos— Agora é ele que não consegue encará-la.

Ora, que melodrama— Ela retruca enquanto repousa a mão na testa.

Moon agora está de braços cruzados encostado na parede ao lado da porta. Yuna quer apenas que aquela situação acabe. Ela marcha em direção a porta, mas antes que possa cruzá-la, o rapaz se coloca no meio. Seus corpos se encontram. Ele usa o mesmo perfume de garoto.

Eu não quero causar problemas para você Yuna...mas não me peça para esquecer a melhor noite da minha vida...o que nós temos é raro.

Yuna cruza os braços e solta um leve suspiro de lado – Não acha que você está sendo um pouco egoísta por considerar ‘aquela’ a melhor noite da sua vida?

O garoto dá um passo para trás – Não...não foi isso que eu quis dizer...é claro que...— Ele procura as palavras – ...é claro que o aconteceu com Jiyeon mexeu com todos, mas...

Neste ponto Yuna não aguenta mais esta conversa. Era irritante e dolorido ao mesmo. Doloroso porque em qualquer outra circunstância eles seriam apenas dois colegiais experimentando a vida de forma natural. Irritante porque o garoto parecia não entender o que estava em jogo.

Mas o que, Moon? O que você está tentando propor aqui? Que a gente viva algo em segredo?— Ele fica sem reação – Parece que você se esquece que temos um contrato com a HM, e que você é um idol e eu sou uma trainee!— Ela respira fundo e se acalma – O que fizemos foi estúpido e irresponsável, motivados pelo choque do que vimos aquela noite. E sinceramente Moon, eu não estou disposta a sacrificar tudo o que eu já sacrifiquei para ter uma aventura com você.

Aquelas palavras o deixam entorpecido por um instante. Embora ele soubesse exatamente o que Yuna queria dizer, a dor de não poder beijá-la ainda era maior do que a razão.

Todos perderem a cabeça aquela noite Moon, nós apenas...

Não tente justificar as coisas com isso, nós estávamos lá um pelo outro.

Yuna e Moon entraram praticamente na mesma época na HM. O rapaz havia sido aceito na HM algumas semanas antes ao ser aprovado nas audições que se deram na Coréia. Todos os novatos treinavam juntos e em um ambiente altamente competitivo, encontrar amigos de verdade não era a tarefa mais fácil. Não porque as pessoas lá dentro fossem ruins, mas os próprios treinadores estimulavam a competição, o que tornava ser vulnerável um sinal de fraqueza. Entretanto, com sorte, Yuna, Moon, e mais três outros trainees conseguiram formar laços verdadeiros, o que foi crucial para a saúde mental de todos. Infelizmente, restaram apenas dois deste grupo de amigos, pois os demais haviam desistido ou desligados da empresa.

Moon sempre foi o garoto bem-humorado e de coração bom. Sua vontade de ajudar os outros sempre os pegavam desprevenidos, já que o esperado era a máxima de cada um por si. Ao observar o rapaz, isso fez com que Yuna também quisesse ser alguém melhor; e em um dia onde todos os trainees deveriam memorizar passos complexos, a garota logo se prontificou a ajudar Moon, já que seu forte eram os vocais, e os dois logo ficaram amigos.

Havia um ano que o rapaz estava no novo grupo da HM, o “Uptown”, um grupo com conceito retrô e funk. Moon se destacava como o main vocalista e vinha chamando a atenção da mídia e do público nas aparições em programa de variedade pelo seu carisma natural. O rapaz tinha um futuro promissor dentro destra indústria, mas Yuna sabia que o coração de Moon era sempre quem falava mais alto nas suas decisões, e isto poderia ser a ruína de ambos.

Quanto mais velhos, mais complicada as coisas ficam, não é mesmo? – Ela volta para Moon com um olhar acolhedor, pois entende o quanto ele poderia sofrer e se prejudicar. Decide então que será forte pelos dois.

Bastante— Ele responde com a voz baixa.

Então vamos deixar isso descomplicado, OK?

Ele concorda com a cabeça.

Só me responde uma coisa antes d’eu ir embora...quem te contou que eu estava aqui?

Ahaa, foi a Mina...eu mandei uma mensagem para ela insistindo.

Aposto que não teve que insistir tanto” – ela pensou.

Ok, bye Moon...

Ela deixa o prédio da empresa com o coração pesado, mas com a certeza em suas palavras, mas agora seus pensamentos agora estavam voltados para Mina. O que ela pretendia em promover um encontro entre os dois era fácil de imaginar. Yuna estava ansiosa por um caldo quente.