—- Que dia mais calmo! Não que eu goste de agitação mais isso está me incomodando. -- Eu resmungava sozinho de um jeito melancólico e emburrado. Eu estava a caminho do colégio em um dia nublado.

No colégio todos me veem como um adolescente neutro, com boas notas, bom na maioria dos esportes, mas não desses tipo valentões ou algo do tipo. Sempre faço amizades com facilidade, sem querer me gabar, mais minha aparência me ajuda a ser "popular" até mesmo com as garotas. Pra resumir, eu sou o típico personagem clichê daqueles filmes infanto-juvenis, porém isso não é tão legal como muitos devem pensar. Pra ser sincero, isso me deixa bastante depressivo as vezes, afinal, nada mais ridículo do que viver de aparência, não ter personalidade própria... viver sob a ótica do outro.

—- Ainda não entendo como essa coisa foi parar no meu quarto -- Eu falei enquanto segurava o colar pendurado no meu pescoço.

Não tive chance de perguntar ao meu pai antes de sair de manhã, ele também não costuma ter muito tempo ultimamente. Provavelmente deve ter sido ele ou um de meus irmãos adotivos, mas mesmo assim havia algo me incomodando naquela situação, pensei enquanto lembrava do ocorrido no meio da noite, na janela.. Talvez fizesse parte dos sonhos... mas, parecia bem real. Hoje cedo, quando me levantei da cama e notei a presença deste objeto na minha cômoda, tive a ligeira impressão de vê-lo brilhar. Pode ter sido apenas a luz do sol que entrou pela janela e se refletiu nele. Mesmo assim, sinto como se algo me atraísse a ele.

—- O que é aquilo? -- eu parei de caminhar bruscamente, próximo a uma venda de garagem, a caminho do colégio.

Para minha surpresa a aluna transferida, July, acho que era esse o nome dela, também estava lá. Faziam três dias desde que ela havia se transferido para a minha classe e nós não tínhamos trocado uma única palavra, mesmo com ela sentando na carteira vizinha a minha. Talvez ela fosse tímida. Ela estava sempre isolada e não tentava se enturmar. A impressão que ela passava era de ser uma pessoa extremamente reservada, até me assustava o fato dela estar sempre me observando através daqueles óculos fundo de garrafa, talvez ela me desprezasse. Nem a culpo por isso, as vezes eu também me desprezo.

Deixando a July de lado, outra coisa me chamou atenção naquela garagem. Em meio a tanta bagunça, o que é normal em uma venda de garagem, meus olhos se focaram em um canto escuro. Lá havia alguns livros em uma estante velha e empoeirada, porém entre eles tinha um que não estava tão empoeirado. Logo supus que aquele não deveria estar ali a muito tempo há muito tempo. Quando eu o puxei da estante me surpreendi. Esperava algo completamente diferente. A capa era muito bonita, tinha detalhes em suas bordas e no centro tinha o desenho de uma cruz rodeada por alguns pares de asas angelicais que cobriam o restante do livro, tudo isso com uma impressão em auto relevo.

—- Wowwww!!!! -- Eu realmente quase babei pela beleza daquele livro, afinal de contas eu sou um ficcionado por esse tipo de design. -- Esse desenho tão sacramentado... Parece ser uma bíblia... ou algo do tipo... ? Hããaaa?! Como assim...? não tem nada dentro... ? -- Eu realmente fiquei abismado ao abrir aquela "beldade". Ele estava completamente vazio. Todas as paginas estavam em branco, que na verdade estava mais pra... Velho, amarelo e encardido.

Eu posso até ser louco por capas bonitas mas não sou tão otário ao ponto de gastar dinheiro com um livro velho e encardido como esses. Acho que nem pra desenhar isso serve. Quando eu estava prestes a colocar o livro de volta no lugar que havia encontrado... eu ouvi... alguma coisa, como um sussurro...

"...Leve-o... Leve-o com você,... Ele lhe pertence..."

—- Está legal, essa poeira toda já está me fazendo ouvir coisas. Preciso sair logo daqui -- Falei enquanto desmanchava minha cara de agonia e saia apresado daquele ambiente.

...

Eu realmente sou uma pessoa muito confusa. Cheio de duvidas, eu não consigo mesmo me entender. Comprei isso só porque uma voz na minha cabeça disse pra eu comprar. Isso parece conversa de gente doida.

"Por que eu comprei essa coisa?", eu falava com uma das mãos na testa enquanto segurava a "beldade de capa bonita" com a outra mão. Olhando novamente para aquela capa majestosa eu não conseguia conter meu sorriso bobo.

Enquanto eu estava entretido com meu novo "brinquedinho", perto do meu acento, naquele trem consideravelmente cheio, estava July, em pé, em um canto isolado e mal iluminado. Eu nem havia notado a sua presença. Ela estava com um largo sorriso sinistro em seu rosto e seus olhos possuíam um brilho incomum e incrivelmente sádico.